terça-feira, 17 de outubro de 2017

E o tempo esqueceu de perdoar.


Lendas Escoteiras.
E o tempo esqueceu de perdoar...

              Zepeto deu um soco no ar. Nada de anormal, pois gostava de fazer isto. Quem o conhecia sabia seu estilo fanfarrão. Era um bom sujeito, nunca fez mal a ninguém, mas dava a impressão errada. Fingia ser uma esfinge, que não se importava e por dentro a gente sabia que ele chorava. Isto mesmo. Ele perdeu seu pai num acidente bobo, um acidente que ele nunca poderia imaginar acontecer. Seu pai pisou em um prego enferrujado e nem sabia que precisava vacinar. Morreu em quinze dias dizendo que nunca entrara em um hospital e nunca entraria. Zepeto ficou uma semana fora de casa. Sua mãe morrera de parto e ele agora estava sozinho. Ele estava com quinze anos quando a fatalidade o pegou de pronto. Quando menino entrou para os lobinhos. Ficou alguns meses e saiu. Precisava trabalhar para ajudar o pai. Deu duro com sua caixa de engraxate por muitos anos. Aos doze voltou ao grupo desta vez como Escoteiro.

              O escotismo transformou a vida de Zepeto. Mesmo amando tudo que o escotismo lhe oferecia ele ainda sentia uma revolta interior. Não conversava com ninguém sobre ela. Ficou muito amigo de Juanito o escriba. A ele falou muito do que sentia, mas pediu segredo. Ele e Juanito haviam feito o juramento de sangue em um acampamento no Vale da Redenção. Saíram ao entardecer para buscar lenha e ficaram fora do campo por mais de uma hora. Zé Poliano os encontrou desmaiados sangrando. Cortaram na veia errada e quase morreram. Ninguém nunca soube do juramento e nem explicaram por que se cortaram. O tempo passou. Zepeto entrou na patrulha Itatiaia. Nunca foi Submonitor nem Monitor. Ele nunca pensou nisto. Como sênior achou que poderia ter o Escoteiro da Pátria. Tentou mas não conseguiu. Mesmo assim não abandonou o escotismo. Não foi pioneiro o grupo ainda não tinha um Clã. Havia interesse, mas faltou chefia.

                Lembrou quando largou a caixa de engraxate e trabalhou por uns tempos como carregador de malas na estação e na rodoviária. Pouco dinheiro e mesmo sozinho ele tinha de economizar para viver. Dona Eulália mãe de Geraldinho da tropa o convidou para trabalhar no hotel das Flores. Aceitou. Um salário mínimo e meio. Para ele uma fortuna. Ela entendia e dava folga todas as vezes que a tropa ia acampar. Mãe é mãe e sempre a dizer: - Zepeto fique de olho no Geraldinho. A vida continuava para Zepeto. Ele não reclamava, pois voltou a estudar a noite. Sonhava em ser Professor. Muitos diziam que não valia a pena, mas ele agora um Chefe Escoteiro sabia do seu destino. Queria ensinar, ajudar participar da vida dos jovens. Padre Nivaldo o convidou para ser padre: - Zepeto! Oito anos em um seminário e lá você irá aprender tudo. Zepeto pensou na possibilidade. Padre Nivaldo disse que ele teria de decidir até o fim do ano.

               Duas semanas depois disse sim ao padre Nivaldo. Ficou tudo combinado para o inicio do próximo ano. A escoteirada da tropa brincava com ele chamado de Padre Zepeto. Ele amava aquela turma. Naquele sábado o Chefe Besouro perguntou a ele se queria fazer um curso escoteiro na capital. Seriam três dias. Ele sorriu e sabia que Dona Eulália daria a licença para ele viajar. Muitos Escoteiros foram com ele até a estação e quando o trem partiu ele sentiu um enorme vazio. Conseguiu dormir algumas vezes e quando o condutor anunciou a capital ele sentiu um tremor no corpo. Desceu na estação com a mochila quando alguém lhe bateu nas costas. Olhou e viu quatro policiais de revolver em punho. Colocaram nele uma algema e o jogaram em um camburão. Tentou explicar, mas só levou tapas na boca e no rosto. Foi jogado numa cela imunda com mais vinte bandidos. Pela primeira vez Zepeto chorou. Não sabia o que estava acontecendo.

                Cinco dias depois o delegado o chamou. Tentou explicar, mas o delegado ria. Mostrou para ele uma foto – É você? Ele olhou e viu que era ele sem tirar nem por. Mas como? O delegado o chamou de tudo. Ele pensava no que estava sendo acusado. Estuprador, formação de quadrilha e oito assassinatos. Falou para o delegado que era inocente, morava em uma cidade do interior e sua identidade e CPF podiam provar. – Falso muito falso como você é seu filho da mãe seu merda! Falou o delegado. Três anos depois foi a júri. Viu o Padre Nivaldo e o Chefe Besouro assistindo o julgamento com lágrimas nos olhos. Foi condenado a 28 anos de cadeia. Recebeu a visita de ambos e eles lhe disseram que sabiam ele ser inocente. Tentariam provar, mas estava difícil. Contrataram um advogado e ele queria muito dinheiro para colaborar. Eles ficaram de voltar, pois pretendiam fazer uma quermesse e pedir donativos para ajudar a contratar um advogado.

                Passaram-se doze anos. A vida de Zepeto acabou. Comeu o pão que o diabo amassou. Apanhou, sofreu sevicias e pegou uma tuberculose que o jogou na cama. Uma tarde recebeu a visita de uma senhora. Ela era advogada e Chefe Escoteira de um grupo na capital, e ficou sabendo do seu caso. Não iria cobrar nada. Conferiu seus documentos. Nenhum batia com o do bandido. Um ano depois Zepeto foi solto. Chefe Norma disse a ele que poderia pedir uma indenização do estado. Ele chorou. Só queria voltar para sua cidade. Ela quando ele partiu naquela noite no trem noturno, lhe deu a mão esquerda dizendo – Meu amigo, você é um Escoteiro valente. Coloque na sua cabeça que isto foi você quem pediu quando nasceu aqui na terra. Não guarde magoas de ninguém. Sei que vai ser difícil, mas tente. Zepeto chorou e chorava baixinho durante toda a viagem. Chegou a sua cidade de manhã. Ninguém o esperava claro, não avisou ninguém. Pegou sua mochila e foi a pé até sua casa. Encontrou lá uma senhora com seis filhos. Ela disse que tomou conta da casa, mas não tinha aonde ir. E ele? Ia morar onde?


                 Ela pediu se podia ficar ali, ele também podia ser mais um dos seus seis filhos. Dizer o que? Zepeto deixou a mochila e foi atrás de Juanito. Não morava mais lá. Procurou o Padre Nivaldo. Foi para outra cidade. O Chefe Besouro também não morava mais lá. No hotel de dona Eulália ela o recebeu ressabiada. Ele viu que não só ela, mas todos os antigos amigos do grupo faziam o mesmo. A cidade não era mais a mesma. Seu destino? Não sabia. Sabia sim que emprego ali nunca iria conseguir. Partiu duas semanas depois sem nada como chegou. Não sei o que aconteceu com ele, mas sei que a vida não foi o que ele sonhou. Um dia li no jornal que mataram um famoso bandido na capital. Vi a foto, parecia Zepeto. Depois soube que não era ele. O vi um dia trabalhando como peão de obra em uma construção em Ponte Nova. Não falei com ele. Não havia o que falar...

Nota de rodapé: - Minhas histórias às vezes extrapolam a realidade. Se eles existem deixo na imaginação do leitor. Elas podem ter finais felizes, alegres, salpicadas de sonhos ou mesmo de causos escoteiros recém-nascidos ou já na puberdade. Não importa. Tem também aquelas cujos finais não agradam ninguém. Escrevo por escrever, falo por falar. Se vão gostar é outra história, a minha de hoje é essa. Divirtam-se. Hã! Vida. Como dizia Carina Machado à vida nos reserva tantas surpresas, coisas que jamais imaginamos acontecer, lugares que jamais imaginamos conhecer, sentimentos que jamais pensamos em sentir... A vida é tão maravilhosa e ao mesmo tempo tão injusta... Perguntas, inúmeras perguntas sem respostas... Por enquanto...

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Era uma vez... Em uma montanha bem perto do céu...

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