Histórias e contos escoteiros.

Histórias e contos escoteiros.
Feitas para você se divertir!

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

O semeador de ilusões.


Lendas Escoteiras.
O semeador de ilusões.

                    Joselito nasceu em Sol Nascente e um dia resolveu ser escoteiro. Tinha onze anos e dificuldade enorme para andar. Os músculos da perna com uma distrofia muscular não ajudava. Sua mãe Dona Ana sofria do mesmo problema. As comadres diziam que era herança de sua mãe. Dona Ana quase não saia de casa. Ficava mais em sua cadeira de rodas. Nela passava roupa para a vizinhança para ganhar uns trocados. Joselito tinha um temperamento de adulto e desde os nove ajudava sua mãe. Ganhou umas taboas, pediu emprestado um serrote ao Senhor Tote, ajuntou uns pregos enferrujados e construiu sua primeira caixa de engraxate.

                   Quando terminava sua escola comia um pequeno lanche e corria para a Rua do Ouvidor gritando a quem passava se não queria dar uma graxa lustrosa no seu sapato. Ele fazia limpeza de quintais, recolhia bugigangas e as que não vendia jogava no lixão próximo a Fazenda do Macedônio. Caladão quase não sorria. Muitos o viram várias vezes nas tardes sentado no Beiral da Ponte sobre o Rio Jordão, de olhos fixos na Montanha do Pardal esperando o por do sol. Ao escurecer procurava o caminho de sua casa. Não saia a noite. Um dia Moscafe da quarta série apareceu de uniforme escoteiro na escola. Chamou atenção de todo mundo e também de Joselito. A noite contou para sua mãe e ela nada disse. Nos olhos do filho sabia o que ele pretendia fazer.

                  Chefe Tumbir viu quando um menino magro, cabelos castanhos, com um suspensório preso de um lado só em seu calção e uma camisa velha sem gola chegou ao portão da sede. Foi ao seu encontro mancando de uma perna. Ficou surpreso quando ele lhe deu a mão e disse que queria ser escoteiro. Chefe Tumbir sorriu. - Olhe meu jovem não há vagas, me deixa seu endereço e quando surgir lhe telefono! – Joselito não arredou pé. - Moço, eu não tenho telefone, minha mãe anda em cadeira de rodas, nunca pensei em vir aqui mas ontem sonhei com vocês. Desculpe, mas não posso esperar que um dia vá me chamar!

                Parecia que a sorte estava do lado. Brioso o Monitor da Coruja veio avisar que Aluísio ia sair da Patrulha. Seus pais iam para a capital. – Joselito sorriu e falou para Brioso que ele seria o próximo Coruja. Pegou na mão de Brioso e disse: - Vamos! – Chefe Tumbir estava estupefato. Muitos na tropa contam sua história até hoje. Ninguém nunca disse que ele aprendeu a andar com suas próprias pernas no escotismo, mas ele mostrou que quando se quer se consegue. Conseguiu a admiração não só dos Corujas, mas também das demais patrulhas.

                 Joselito nunca pediu nada a ninguém. Trabalhou dobrado para comprar seu uniforme. Não se deu por vencido e só fez a promessa quando tudo ficou pronto. Comprou o chapéu seu cantil sua mochila e sua faca do mato. A perna aos poucos ia encurtando. A dificuldade para andar era enorme. Em um sábado de reunião ele se dirigiu ao centro da ferradura e disse: - Meus irmãos, minha mãe morreu hoje pela manhã. Tenho que ir ao seu enterro, peço desculpas por faltar à reunião. Era demais. Chefe Tumbir foi até ele e lhe deu um aperto de mão se solidarizando com lágrimas nos olhos.

                  O Padre Joel durante a missa perguntou se alguém para dar abrigo a Joselito. Ninguém se ofereceu. Chefe Tumbir sabia que sua esposa não ia aceitar. Ela era contra ele participar do escotismo. Joselito não pediu nada a ninguém. Sozinho voltou para sua casa e continuou sua vida. Nunca pediu favores e sim oportunidade de trabalho. Joselito foi crescendo e um dia teve usar uma muleta para andar. Aos dezesseis anos alugou um salãozinho na Rua Esmeralda, fez duas caixas de engraxar. Ninguém nunca o viu reclamar de usar uma muleta.

                  Na sua loja vendia jornais, revistas e livros que ganhava quando executava algum serviço no bairro. Joselito conseguiu tudo no escotismo menos a primeira classe. Sabia que nunca conseguiria fazer a prova de jornada. O Chefe Tumbir disse que ele poderia fazer de outro modo e ele não aceitou. Ficou conhecido na cidade pela sua tenacidade. Um exemplo a ser seguido. Nunca olhava para baixo e encarava a todos que o procuravam. Aos vinte anos alguém disse a ele que na capital poderia colocar uma perna mecânica. Ele agradeceu e continuou com sua muleta como se nada tivesse acontecido. Um dia Chefe Tumbir foi para o céu. Uma tristeza enorme. Quem seria o novo chefe?  

                  Convidaram-no para ser o Chefe. As mães e pais dos outros escoteiros foram contra. Joselito agradeceu o convite. Não iria se indispor com ninguém. Aos vinte e quatro anos Joselito morreu. Morte simples, sentado em uma cadeira na hora do cerimonial de bandeira. Não gritou, não pediu ajuda simplesmente morreu. Seu nome passou a ser comentado por toda cidade. Sua tenacidade e seus feitos também. Souberam o quanto ele ajudava outros meninos de rua e muitos deles ele levou para o grupo escoteiro. Ensinou a eles a persistir e não desistir para conseguir tudo com seu próprio trabalho sem depender de ninguém.

                Joselito foi um exemplo em Sol Nascente. Poucos hoje se lembram dele. O Grupo Escoteiro continuou por anos a funcionar. Quarenta anos depois alguém resolveu fazer uma estátua para Joselito. Se ela foi feita eu não sei. A única coisa que sei é que quando se quer alguma coisa tem de lutar para conseguir. Nada é impossível, basta querer!


                  Alguns me disseram não ser uma história real. Sim ou não Joselito mostrou que não importa a idade para aprender a andar com suas próprias pernas. Reclamar e cruzar os braços não faz parte dos escoteiros. Quando se quer se consegue. Quando me lembro da história de Joselito me vem à memória o poeta Patativa do Assaré que escreveu: - “Eu sou de uma terra que o povo padece, mas não esmorece e procura vencer. Da terra querida, que a linda cabocla de riso na boca zomba no sofrer. Não nego meu sangue, não nego meu nome olho para a fome, pergunto o que há? Eu sou brasileiro, filho do Nordeste, Sou cabra da Peste, sou do Ceará”.

Nota de rodapé: - A história de Joselito pode ser fictícia. Mas é um grande exemplo para aqueles que reclamam e não andam com suas próprias pernas. Sempre esperando que outros façam por ele. O escotismo não pode ser assim. Todo jovem deve aprender que viver é lutar pelos seus sonhos. Boa leitura!

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Ligia


Lígia.

                      Certo dia estava eu na sede escoteira e ouvi uma conversa entre uma guia e sua Chefe. Pensei em sair, pois admiro as pessoas discretas. Elas conversavam atrás do biombo que separava a sala do almoxarifado. A Guia dizer para sua Chefe: - Não sou capaz. Tentei e não consegui – Ligia, ela respondeu. - Você é capaz de coisas que nem imagina. Quem diria a muitos anos atrás que algum dia o homem seria capaz de voar? Quem arriscaria a dizer que o ser humano conseguiu pisar na lua? Tudo é impossível até alguém sonhar mais alto.

                    – Um silêncio surgiu no ar. Nem ela e nem a Chefe diziam nada. Pensei comigo. - O que teria acontecido? Prendi a respiração. O que elas estavam pensando ou fazendo? - Eis que a guia falou baixinho quase sussurrando: - Chefe não tenho ninguém, minha mãe não me entende e eu me sinto só, procuro carinho e não tenho, procuro amor e não encontro. Novo silêncio.

                    Dialogo difícil eu pensava. Chefes são assim, fazem jogos e muitas vezes não sabem explicar as regras do jogo. Afinal nem todos estão preparados para resolver temas individuais, aconselhamentos que vão além de suas possibilidades normais. – Mas eis que para minha surpresa a Chefe respondeu baixinho: - Quando uma pessoa transforma seu sonho em um objetivo de luta com determinação, está dando o passo certo para conseguir. Muitos duvidarão inicialmente se o plano for ousado demais, mas a fé é mais forte que qualquer receio e quem não se deixa amedrontar ganha sempre alguma coisa.

                   - Novo silêncio. O que a Guia pensava? Eu mesmo ainda não tinha colocado ordens nos meus pensamentos. Mas sorria pelas palavras sábias da Chefe. Prestei mais atenção. Era incorreto minha maneira de agir. Mas interessava demais para ver o epilogo. Mesmo já sendo maduro na arte do aconselhamento admirava a maneira conduzida pela Chefe. Por um bom tempo não ouvi soluços e nem pedidos de perdão. Ligia parecia ter dado um breve sorriso. Sua Chefe sorriu também.

                    Ambas saíram abraçadas para a reunião que já tinha começado. Eu escondendo minha intimidade da presença ali, olhei ambas com o mesmo olhar de felicidade que portavam. Pensei comigo o quanto vale um bom conselho. Quanto vale uma confiança. Eu sabia que querendo acertar por pior que fizermos chegaremos ao objetivo final. Nunca duvidei da capacidade em superar as melhores expectativas. Temos sempre que ser o primeiro a acreditar para conquistar algo de valioso.


                   Eu sabia que só não conseguiria alcançar determinada meta se não se propuser a lutar por ela. Eu costumava dizer para mim mesmo: Chefe parta e corra pela sua felicidade, sem receios nem hesitações. Aconteça o que acontecer, a maior vitória será saber que deu o seu melhor em todos os momentos da sua batalha. Fui também para o pátio da sede satisfeito e alegre. Mais confiante também nos chefes que eram meus irmãos. Ao longe Ligia sorria junto a sua patrulha e ali bem distante eu sorria também.

Nota de Rodapé -  Você está preparado para aconselhar seus jovens? Em qualquer idade? Voce sabe como eu que não é fácil. No escotismo encontramos sempre alguém que precisa de um bom conselho e não sabemos o que dizer. A melhor maneira de aconselhar é ouvir. Ouvir muito e depois pensar no que dizer!

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Sonhos de uma noite de verão.


Os contos da meia noite.
Sonhos de uma noite de verão.

                 Noite alta. Um vento calmo vindo da floresta refrescava o calor de fogo que aos poucos ia se apagando. O espírito de uma coruja piou na floresta e o fogo apagou. As patrulhas cansadas já tinham ido dormir. Um silencio enorme se fez em todos os campos de Patrulha. Sozinho olhava com carinho as brasas adormecidas. O calor da noite me faz olhar para o céu e vi tantas estrelas brilhantes que me apaixonei por uma delas. Logo um cometa com uma cauda colorida enorme deixou um rastro onde se podia ler: - Sempre Alerta Escoteiro, o espírito da coruja reina no acampamento. Hora de dormir!

                   Um escoteiro mateiro um autêntico acampador sabe que a vida não acontece dentro de casa, na cidade e no país. Ela acontece em todo o universo invisível para nós. Pensando melhor se somos adeptos de Baden-Powell três coisas não podem ser escondidas por muito tempo: - O Sol, a Lua e a verdade. Foram anos e anos vivendo e dormindo sob o manto do universo. Torno a olhar novamente para o alto e fico a admirar os maravilhosos pontos brilhantes que andam devagar pelo céu. Parecem as maravilhosas dádivas que brincam brilhando a iluminar meus passos firmes rumo a minha barraca.

                    Deito extasiado pensando na beleza da noite e minha alma se expande em reverência ao criador. Ah! Mundo fantástico! Tento dormir, pois sei que depois que a lua adormece... É que o sol acontece! Foi um dia e tanto. Escoteiros correndo na grama na ponte, na mata e no morro do agreste. Santo Mel depois do banho me procurou. Senti logo que ele precisava de uma palavra de carinho. Acostumou a deitar no colo de sua mãe e quando as saudades apertavam, ele sempre me procurava.

                       O incentivei a cantar com a Patrulha. Falei baixinho em seu ouvido: - Vai em frente Santo Mel, e se der medo, vai com medo mesmo. Não sei se seria isto que ele queria ouvir. Não sou filósofo nem poeta. Disse a ele que sua coragem é maior que seu medo e que sua força é tão grande como sua fé. Chefe, não tenho as ilusões do mundo, não tenho o dom de estar sempre certo. Porque chorar só porque a saudade aperta? Calei. Eu não era Salomão ou Maomé. Do fundo do coração terminei dizendo: - A dor da separação meu amigo faz você mais forte, o medo faz você mais corajoso e a paciência você mais sábio.


                       Não sei o que ele pensou ou decidiu. Antes de ele voltar para seu campo de Patrulha repeti: - Santo Mel, o importante mesmo é que tente sempre ser feliz. Afinal você vai ter que aprender que a vida só dá asas a quem não tem medo de cair! – Não o vi mais e dormi. Sonhei, pensei que a felicidade e o espírito da coruja morava neste acampamento. Uma brisa suave caiu sobre a barraca. Eu dormia a sono solto. Sabia que amanhã era outro dia. Mais um dia para viver feliz e em paz no acampamento que sempre amei. 

Nota de rodapé: Filosofando e escoteirando. Faz parte da sina de qualquer escoteiro que ama a natureza. Boa leitura e meu Sempre Alerta para Servir!

sábado, 26 de agosto de 2017

Micoçar o Charreteiro e o Comissário Escoteiro Viajante.


Lendas Escoteiras.
Micoçar o Charreteiro e o Comissário Escoteiro Viajante.
(uma história baseada em fatos reais)

                 Poderia dizer que é uma história quase real. Esta se passa em 1956, quando era Sênior. Um conto sobre Micoçar e o Comissário Viajante. Nunca esqueci aquele dia. Micoçar tinha uma charrete. Transportava pessoas. Naquela época eram chamadas de “freguês”. O termo cliente surgiu tempos depois. Se não me engano eram uns vinte charreteiros na cidade. Viviam disto. Quase não existia taxi na minha cidade. Só dois e um era um Fordeco azul desbotado. Os Charreteiros eram educados. Na estação da estrada de ferro formavam uma fila e ninguém atravessava o outro. Eu nos meus dezesseis anos conhecia todos eles. Micoçar era o mais conhecido por oferecer rosas brancas às moças que alugavam sua charrete.

                 Um dia ele apareceu na sede Escoteira. Ao seu lado um “freguês”, ou melhor, Chefe Escoteiro. Ficamos boquiabertos com a figura. Não era comum. Desceu uniformizado, garboso e se apresentou: - Sou o Comissário Escoteiro Viajante nesta região. Chame seu Chefe. Caramba! Nosso Chefe do Grupo era o Chefe João Soldado. Só ia a sede uma vez por mês. Sargento da policia militar. Gente boa, e meu segundo pai. Nossas reuniões não são como hoje. Sem aqueles programas de corre aqui corre ali. Tinhamos Bandeira, oração, e mais nada. Éramos duas patrulhas sêniores a Gavião e a Elefante. De vez em quando saia um jogo bolado na hora. O restante era treinamento de técnicas Escoteiras ou sentar na praça em frente para contar patacas. Na maioria das vezes estávamos navegando em alguma floresta, montanha ou explorando rios em um vale qualquer. Não sei se o que fazíamos era o certo, mas dos treze seniores só um tinha entrado como escoteiro os demais vieram dos lobinhos. Romildo Monitor pediu ao Chico para levá-lo a casa do Chefe João.

                  À tarde daquele sábado fomos chamados a casa dele. Disse que o Comissário quer fazer uma reunião para mostrar como se faz. Disse que ia mostrar como era uma reunião escoteira. Exigiu que eu estivesse presente. Olhei na “fuça” dele com sua exigência e quase mandei prendê-lo. Arrogante o moço. Eu não vou, mas vocês todos devem ir. Será domingo pela manha em frente à sede e atrás do Cine Pio XII. Havia um campinho de futebol onde nos reuníamos. Ele queria a tropa Escoteira, mas ela estava acampada na Caverna do Macaco próximo ao Rio Doce. No domingo lá estávamos. Ressabiados. Não sabíamos o que ele ia aprontar. Chegou com o Micoçar. Alugou a charrete por dois dias. Garboso chegou e disse: – Sou Chefe Escoteiro do grupo “tal” no Rio de Janeiro e nomeado Comissário Viajante. Vocês estão na minha área de atuação. Depois da reunião vou ensinar como fazer o registro na UEB. (famigerado registro que até naquela época existia).

                 Assim ele começou a reunião. Sério e sisudo. Tudo nos padrões que hoje conhecemos. Eu mesmo dei muitas sessões em cursos falando sobre isto. Não estava errado. Mas aprontou uma correria que nos deixou perplexos. Queria a todo custo fazer uma competição entre nós. Éramos amigos. Nunca gostamos disto. Nenhuma Patrulha era melhor que a outra. Até ai tudo bem. A missa acabou e um mundão de gente ficou nos olhando. Nesta hora ele resolveu cantar uma canção. Hoje muito apreciada e até adoro cantar. Mas naquela época? A “Piaba”. Sai, sai, sai oh piaba saia da lagoa! E quem entrava na roda dava uma umbigada e tinha que rebolar. O povo todo em volta dando gargalhadas. Todos vermelhos de vergonha. Na minha vez entrei rebolei um pouco. Micoçar que ria a valer e gritava baixinho; - Telirio! Telirio! Para quem não sabe esse coitado (desculpe o termo) era o único Gay conhecido da cidade. Quer comprar uma briga? Chame o outro de Telirio. Desisti. Romildo também. O povo morrendo de rir. O chefão gritando: - voltem todos. Não dispensei ninguém!

                 Coitado. E quem obedeceu? Ficamos ali de braços cruzados morrendo de vergonha por ficar rebolando. O pior que hoje quando lembro penso comigo como eram os tempos passados. Hoje adoro cantar a Piaba e rebolar. Risos. Ele saiu com Micoçar e foi direto a casa do Chefe João Soldado. Micoçar olhou para trás rindo e falou baixinho para mim – Telirio! Oh! Vontade de esmurrar o Micoçar! Só sei que ele falou cobras e lagartos com o Chefe João. Ameaçou fechar o grupo. Ameaçou tanto que o Chefe João o pegou pela camisa, o arrastou até a Charrete de Micoçar e disse – Suma! Micoçar, leve este lixo para o hotel. Se aparecer na minha frente de novo vou deixar vocês dois uma semana no xilindró! Dia seguinte o Chefe João nos contou toda a conversa. Falou cobra e lagartos. “Um bando de indisciplinados” (até certo ponto com razão). Exigiu um Conselho de Tropa e destituísse ambos os Monitores. Disse que enquanto não fizermos tudo isto o grupo nunca seria registrado.

                  Interessante. Nunca fomos registrados. Nosso grupo tinha mais de trinta anos de atividade e nunca fizemos registro. E quem precisava? “Belle Époque”, outros tempos. Uma Segunda Classe suada. Primeira Classe? Não era para qualquer um. Um orgulho do caqui curto e chapelão. Orientar com os ventos, com a lua, com as estrelas e as constelações. Pescar para comer na hora, armadilhas de pássaros para um bom assado. Comer mandioca do mato, aipim. Uma sopa de maxixe. Bananas verdes fritas na brasa. Bundinhas de Tanajura na panela estouravam como pipocas. Risos. Ficávamos anos adorando isto. Ninguém saia. Trinta e seis lobinhos onde só podia ficar vinte e quatro. Cinco Patrulha de oito onde deveriam ser quatro. Sênior? Este sim. Não era para qualquer um. Duas Patrulhas. Cidade pequena. Nesta idade a maioria dos rapazes estourava a idade e tinham de trabalhar. Serem aprendizes. Ainda não existia a Semana Inglesa. (parar aos sábados ao meio dia).


                   Outro escotismo? Pode ser. Escotismo no campo. Sem chefes. Só os monitores indo e vindo. Viver na natureza. Olhando as flores desabrocharem. Colocando os pés na água fria e dizer baixinho – Ah! Que delicia! Olhar o sol quando ia para o oeste e dizer – É para lá que vamos! Hoje não dá mais. GPS, ele lhe mostra tudo. O Chefe ali com você. Alguns fazendo tudo. Você não precisa pensar. Nem calcular mais. O Google lhe dá as respostas de tudo. Tabuada? Ficou na história. Um celular ou um smartphones para quando der uma parada na jornada entrar no Facebook. Ver os e-mails. Isto sim é moderno. Olhar os pássaros? Os animais? Descobrir novos caminhos? Quem sabe olhar a abóboda celeste e descobrir uma estrela desconhecida? Ver um cometa riscando os céus e saber de qual constelação estava vindo ou indo? Nada disto. Tudo mudou e para melhor. Nesta época moderna não cabe mais um Romildo, um Jessé, um Taozinho um Israel ou mesmo um Micoçar ou eu mesmo. Belos taxis hoje. Uma charrete só como peça de museu.

Nota de rodapé: - Eu e Micoçar ficamos grandes amigos. O tal Comissário Viajante alugou sua charrete por dois dias e não pagou. Foi embora e deu o cano. As patrulhas fizeram uma “vaquinha” e pagaram em suaves prestações. Sua charrete me levou a belos lugares por vales e rios desconhecidos. Charretes! Também foram engolidas pela modernidade. Pelos novos tempos! Uma história quase real. Sejam bem vindos!

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

A formiguinha trabalhadora. (Uma história para lobinhos)


Histórias para contar na Jângal.
A formiguinha trabalhadora.
(Uma história para lobinhos)

               Toninha era uma Lobinha que pouco se entrosava com as demais da Alcateia. Chefe Ramon o Balu conversava muito com Dadá a Akela e eles tentaram tudo para que ela pudesse se entrosar o que não acontecia. Foram várias vezes a sua casa e seus pais sentiam a mesma coisa. Toninha ficava a maior parte do tempo em seu quarto sem conversar e lendo. Gostava de ler. Tinha muitos livros e todos ela já tinha lido. Histórias e estórias tem seu lugar na formação dos jovens e Toninha adorava. Uma atenção enorme quando alguém contava uma.

               Uma vez, em um dia frio e sem sol, a Alcateia estava acantonada em uma fazenda de um pai de um escoteiro e Toninha parecia ter um semblante preocupado. Ramon o Balu perguntou a ela: - O que houve Toninha? – Ela Olhou para Ramon, abaixou a cabeça e começou a falar devagar e baixinho. Isto assustou Ramon. – Ela continuou: - Balu, hoje eu conversei com uma formiguinha. Ela me contou tudo de sua vida. – Ramon se interessou. Conte-me o que ela contou para você. – Toninha olhou nos olhos do Balu e começou:

                   - Balu, a formiguinha me contou que todos os dias chegava cedinho à fábrica onde trabalhava. Não tinha preguiça, pois tinha muitas formiguinhas para sustentar.  Ela era muito feliz com o que fazia. Mas o novo chefe, Sr. Leão Nardo, que assumira o posto recentemente,  estranhou que a formiga trabalhasse sem supervisão, e pensou: - "Ora, se a formiguinha produz mais que as outras sem supervisão, melhor seria se fosse supervisionada...”.

                 E assim o novo administrador contratou a Barata Vital, que todos diziam ter muita experiência como supervisora. Os puxa sacos dela falaram maravilhas e mostraram belíssimos relatórios que ela fazia.  A primeira preocupação da  Barata foi a de estabelecer um relógio-ponto digital datiloscópico para controlar a entrada e saída da formiguinha da repartição.  

                Em seguida a  Barata precisou de uma secretária para ajudá-la a preparar e digitar os relatórios. Assim, contratou a Mosca que, além de ficar só zunindo prá lá e prá cá, organizava os arquivos. O Sr. Leão Nardo ficou encantado com os relatórios da Barata e pediu estatísticas e gráficos com índices de produção e análise de tendências, os quais eram mostrados em reuniões específicas para o caso. Foi então que a Barata pediu para comprar um Lap top e uma impressora laser e admitiu o Grilo Falante para gerir o departamento de informática e informações.

          O Grilo um entendido nos acessos de Internet, ligações telefônicas começou a controlar o que a formiguinha fazia repassando-os aos ouvidos da Barata, que por sua vez os relatava ao Sr. Leão Nardo. Qualquer pó, um cisco qualquer que a formiguinha colocasse em lugar indevido, recebia uma repreensão e punição. A formiguinha laboriosa, autêntica e prática, e que não gostava de afagar egos e satisfazer caprichos de chefe, de produtiva e feliz, passou a lamentar-se com todo aquele universo de papéis, burocracias, picuinhas e reuniões que lhe consumiam o tempo! 

                Com o passar dos dias o Sr. Leão Nardo concluiu que era o momento de criar a função de Gestor para a área onde a formiguinha operária trabalhava. O cargo foi dado a uma Cigarra, cuja primeira medida foi comprar uma carpete e uma cadeira ortopédica para o seu gabinete. E ficava só cantando.

     A nova chefe, a Cigarra, precisou ainda de computador e de uma assistente (que trouxe do seu anterior emprego) para ajudá-la na preparação de um plano estratégico de otimização do trabalho e no controle do orçamento para a área onde trabalhava a formiga, que já não cantava mais e a cada dia se mostrava mais desanimada, desestimulada e deprimida. E ficava agora só pensando besteiras, e não mais tinha tempo para pensar em trabalhar. 

              Foi nessa altura que a cigarra convenceu o gerente, o Sr. Leão Nardo, da necessidade de fazer um estudo climático do ambiente. Ao considerar as disponibilidades, o Sr. Leão Nardo deu-se conta de que o Gabinete em que a formiguinha trabalhava já não rendia como antes, e contratou a dona Joaninha, uma prestigiada consultora, muito famosa em auditoria, para que fizesse um balanço, com diagnóstico e soluções.

                A Joaninha permaneceu três meses nos gabinetes e fez um extenso relatório, austero, em vários volumes, que concluía: "Há muita gente neste setor".  Adivinhem quem o Sr. Leão Nardo começou por despedir? A formiga é claro, despedida por contumácia  porque "andava muito negligente e improdutiva".

               E a formiguinha, trabalhadora laboriosa, diante de tanta perseguição e assédio moral, desempregada, enfartou. Dizem que surtou.

              Toninha olhou para o Balu e perguntou: - Pode Isto Balu? E ele caiu na gargalhada e disse para Toninha, minha querida Lobinha é isto mesmo, hoje em qualquer lugar acontece assim. “Dizem que sua história ou qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência...” – E Foi então que Toninha viu que ela precisava sorrir cantar e viver a vida, pois só assim poderia ser alguém no futuro diferente dos chefes que a formiguinha lhe contou.

Esta história é toda ela baseada nos contos de La Fontaine (1621-1695)

nota de rodapé: - A Formiguinha Trabalhadora de “Lá Fontaine” é um caso único no universo empresarial e que muitos já descartaram tendo melhores resultados. Como dizia nosso Mestre B.P quando começamos a inventar a criar situações anômalas no escotismo, quem sabe podemos estar indo para o buraco. Uma bela sexta, um esplêndido fim de semana e boa leitura. 

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Promessa Escoteira. ¶Prometo neste dia, cumprir a Lei Sou teu Escoteiro, senhor e Rei.


Promessa Escoteira.

¶Prometo neste dia, cumprir a Lei
Sou teu Escoteiro, senhor e Rei.

                Ele passou a semana pensando se poderia assumir tamanha responsabilidade. Com seus onze anos ainda não tinha aprendido que assumir o que lhe pediram não seria fácil. Seus sonhos eram outros e quando estava em sua patrulha ele sentia o amor de todos por ele. Era o terceiro da fila e mesmo sendo olhado como um novo Pata-tenra isto não o incomodava. Tinha três anos de lobo e agora iniciando na tropa já sabia fazer muitos nós, sinais de pista e era bamba em subir em arvores ou descer pela corda. Assustou-se quando o Monitor lhe disse que o Chefe queria falar com ele. Uma conversa amigável, mas que o preocupou muito.  Afinal Albino nunca pensou nada sobre o que o Chefe lhe falou. Nos lobinhos ele brincava, cantava, fazia excursões e acantonamentos. Sim, ele sabia que fez uma promessa quando lobo, mas nada que pudesse comparar com esta agora que ia fazer nos Escoteiros. Ele seria capaz de cumprir a Lei?

¶Da fé eu sinto orgulho, quero viver
Tal como ensinaste, até morrer!

          - Albino, dizia o Chefe, acho que sabe que sua promessa vai ser um dia especial para você. Eu sei que você entende o que é coragem dignidade e honradez. Isto meu caro Escoteiro chamamos honra. Quem não há tem perdeu tudo o que tinha de civilidade. Quando você estiver olhando para nossa Bandeira e se perceber bem acima dela, estará de braços abertos o nosso Senhor supremo. Ele não vai exigir de você nada mais do que você um dia irá enfrentar em sua vida. Ela lhe dará vários caminhos e compete a você escolher o certo. Sempre você terá direito a fazer a escolha que julgar correto. Não vou repetir artigo por artigo da lei. Você os conhece de cor. Dizem que nós Escoteiros primamos pelo caráter. Você sabe o que é isto. Um dia aprendi que caráter é a soma de nossos hábitos, virtudes e vícios. Em sua definição mais simples resume-se em índole ou firmeza de vontade. O caráter de uma pessoa pode ser dramático, religioso, especulativo ou desafiador. Pode ser também covarde e inconstante. Compete a você escolher de que forma seu caráter será formado. Nunca em tempo algum perca sua honra e seu caráter.

£Com a alma apaixonada, segui-la-ei,
A minha Pátria amada, fiel serei!

            Albino não sabia o que dizer, olhava nos olhos do seu Chefe para sentir tudo que ele dizia e não perder uma só frase, uma só palavra. Conversaram por mais de meia hora. Ele sabia que o próximo sábado seria só dele. Seria o dia que faria a promessa nos Escoteiros. Nunca pensou que haveria tanta responsabilidade. Já tinha visto a Promessa do Rodriguinho, pois na tropa poucos novos eram aceitos. Não porque não queriam, mas sim porque dificilmente alguém saia da tropa a não ser quando iam para os seniores. Quando seu Chefe falou da Lei Escoteira Albino silenciou. Não sabia por que, mas tinha medo dela. Medo? Sim, ele achava muito difícil cumprir a Lei. Foi para casa pensativo. Prometer junto ao pavilhão nacional e ao nosso Mestre que irei cumprir a Lei? Será que manterei minha palavra já que o primeiro artigo diz que temos uma só? Difícil decisão. Albino dormiu mal naquela noite. Mas não desistiu. Nonato seu amigo de patrulha riu quando ele contou sobre isto. Meu amigo ele disse, você vai fazer o melhor possível, nada mais que isto.

¶Promessa que um dia, eu fiz junto à tí,
Para toda a minha vida, a prometi!

            Albino resolveu buscar ajuda. Quem sabe o Pastor Leôncio poderia aconselhar. Assim o fez. O Pastor só ouviu e pouco falou. No final disse: - Albino, acredite em você. Decisões são difíceis para serem tomadas, mas não podem ser postergadas. Toda sua vida será cheia de caminhos e em cada um você terá de tomar uma decisão. Está quem sabe é a sua primeira. Confie em você. Escoteiro é assim a cada dia um desafio novo. Esqueça o difícil o impossível, pois ao abrir a porta de um novo dia e ver o sol brilhando é porque você se encheu de coragem e venceu seus medos. Parta e busque sua força. Ela existe. Albino saiu da casa do Pastor cheio de coragem. Ele iria cumprir a lei. Ele tinha de cumprir a lei. Seria sua força e não podia perder a honra e caráter por toda a vida. Albino fez sua promessa e ao dizer as belas palavras ele olhou para o céu e viu uma nuvem branca com alguém a lhe abanar a mão e sussurrando:

¶Eu te amarei para sempre, cada vez mais,
Senhor minha promessa, protegerás!


Nota de rodapé: ¶Prometo neste dia, cumprir a Lei, sou teu Escoteiro, senhor e Rei!
Muitas vezes esquecemo-nos do que se passa na mente de um jovem durante sua promessa. Costumo dizer que este dia é o mais importante em sua vida. É um dia especial e compete ao chefe e o monitor fazer de tudo para que isto aconteça. Costumo dizer que a promessa é para sempre. Sendo bem realizada sem improvisação pode sim ser um começo promissor na vida daquele que inicia sua saga escoteira.

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Ninguém foge ao seu destino.



Lendas Escoteiras.
Ninguém foge ao seu destino.

                  - Eu só o vi Chefe quando ele passou em frente ao meu mercadinho. Assustou muita gente. Contaram-me depois que surgiu lá na trilha de Santana, passou pela rua do centro de cabeça erguida, só olhando para frente e não cumprimentou ninguém! – Chefe acredite, ele estava de uniforme, calça curta, Chapelão e uma imponência de fazer inveja. Uma barba grisalha, os cabelos também grisalhos amarrados atrás como um rabo de cavalo. Andava devagar, como se estivesse em transe, seguido pelo seu cavalo e que cavalo lindo Chefe. Um Baio de pêlo castanho com crinas pretas. Era realmente uma imagem incrível para se guardar para sempre. Ele não segurava a rédea. O animal o seguia onde fosse. Nas janelas cheias todos admiravam o escoteiro sem nome. Havia um silêncio arrepiante. Só quando ele sumiu na estrada da Fazenda Céu azul que pertenceu ao falecido Salomão foi que todos deram conta que algum estranho estava para acontecer.

                       E sabe Chefe depois daquele dia ele nunca mais apareceu aqui no arraial. Sumiu por completo. Disseram que era um Escoteiro feiticeiro. Outros diziam que iria destruir o arraial. O boato morreu assim como surgiu. Terrinha um meeiro que trabalhava na Fazenda Céu Azul disse que ele érea o novo proprietário. Seu nome era Chefe Leopardo. Todos diziam que não havia fazenda nenhuma. Só terras e areia banhado pelo rio Barrento. Terrinha contou também que ele quando vem à cidade faz uma lista do que quer. Sempre Pó de café, açúcar e sal mais nada. O bom é a gorjeta. Não duvidei de Campanário o dono da Mercearia. Seria mesmo o Chefe Leopardo? Sumiu há anos, deixou tudo para trás, não disse adeus a ninguém. Nem mesmo seus Escoteiros souberam de nada. Nem mesmo o Chefe Noraço e Malemont o sênior.

                         Era uma notícia para investigar. Eu tinha de saber o que houve. A sorte não aparece duas vezes. Por falta de gasolina parei ali em Verdes Mares, nome danado, pois só um riacho pequeno passava por lá. Conhecia Campanário. Foi da minha patrulha sênior e grandes amigos. Fiz um lanche na Mercearia dele a única do arraial, e conversamos um pouco. Eu seguia para Lontra Verde, uma cidade próxima a pedido do Seu Tanquinho. Pediu-me para comprar umas dez mil dúzias de tijolos. Quando disse que ia até lá na fazenda Céu azul Campanário me alertou; Chefe são três léguas, sem estradas e a cavalo vai demorar umas três horas. Sem problemas Campanário. Preciso tirar isto a limpo. Ele prestativo deixou a mercearia e meia hora depois apareceu com uma mula linda, uma Andaluz alta, arriada – Chefe Zé Birosca me alugou. Depois o senhor paga para ele.      

                          Foram duas horas e meia até avistar a choupana do Chefe Leopardo. Incrível! Toda feita de madeira original nos moldes das cabanas americanas. Em volta cavou um fosso em meio circulo, pois sua choupana era na beira do rio e ninguém poderia chegar sem atravessar o fosso. O mais espetacular era o mastro de bandeira que construiu. Vi que o cabo subia automaticamente tocado pela correnteza do rio. Uma enorme bandeira Nacional estava hasteada. Desci do cavalo e ele chegou à porta. – Tarde! Eu disse. – Ele não disse nada. – Ficamos olhando um para o outro. Tentava lembrar-se de mim. - Olá Vado, o que fazes aqui? – Visita Chefe Leopardo. Ou não posso visitá-lo uma única vez? – Ele pegou um cipó curado, e vi que uma ponte pênsil logo se firmou em cima do fosso. - Sua mula fica aí. Perigoso para ela atravessar a ponte.

                       Próximo à choupana construíu um chiqueirinho, um galinheiro e uma horta de tirar o chapéu. Entrei na sua casa e me espantei. Uma mesa de peroba rosa, toda feita com encaixe e bancos confortáveis. Ele construiu também um quarto com cama e mosquiteiro feito de lascas de bambuzinho chinês. – Sente-se Vado, só peço para não contar as novidades. Sou feliz assim sem saber mais nada do meu passado; - Pegou-me de surpresa. – Mas sei que veio aqui para saber o que aconteceu. Gosta de escrever e não ia deixar passar em branco. Sabe Vado eu gosto do silêncio da minha choupana, do meu trabalho, eu estou sempre fazendo uma pioneiria ali e acolá, adoro pescar traíras a noite. Gosto de Caçar um quati, uma capivara com meu arco para comer carne fresta. À noite acendo meu fogo, deito na relva para contar estrelas, amo o por do sol e o nascer do sol com as borboletas ciscando nos meus ombros e cabelos ao alvorecer.

                   Um dia vi que a vida não tinha o que eu queria. Amava meus Escoteiros. Mas eu precisava de algum mais. Juntei um dinheirinho e fui para o Nepal. Passei quatro anos em um mosteiro. Também não era o que sonhei para mim. Nunca seria um monge mesmo gostando do silêncio. Comprei esta fazenda. Aqui tenho tudo que quero. A terra é boa, ela é minha amiga, tudo que planto ela dá o retorno. Aqui eu tenho tudo que eu desejo. Não quero companhia, não vou casar e ter filhos. Quando meu corpo não me obedecer mais e chegar a hora de morrer, morrerei sentado na curva da lontra onde fiz uma linda cadeira de balanço. É lá que vivo e faço parte da natureza. É lá que sinto a minha liberdade e me sinto livre de todas as amarras da civilização.
                          
                          Chefe Leopardo sorriu. Disseram-me que ele nunca sorria. - Hora da bandeira ele disse. – Quer participar? – A bandeira farfalhava ao sabor do vento ali na beira do Rio Barrento cujas águas eram límpidas claras e serenas onde se podiam ver os peixinhos a nadar. Durante a descida ele cantou o Hino Alerta. Sua voz rouca não titubeou uma única vez. Apertei sua mão esquerda, ele me agradeceu a visita e me pediu que mantivesse segredo. Ele queria continuar sua vida de ermitão. Ali morava e ali iria morrer. Agradeceu-me e quando partia ele me disse – Dê lembranças ao Campanário! – Você o conhece? Perguntei. – Claro Vado, ele foi Escoteiro junto a você. Diga ao Chefe Noraço e Malemont que eles ainda moram no meu coração, mas não conte nada sobre mim.


 Parti pensando o que era a vida. Campanário me olhava querendo saber as novidades. Sorri e não disse nada. Se o chefe Leopardo queria ter uma vida só dele era seu direito. Que ele vivesse em paz. Afinal eu sabia que ele fez sua escolha e certo ou errado a vida era dele. Fico pensando se eu não invejo sua escolha?   

Nota de rodapé: -  Tem gente que ama o silêncio, ficar calado, viver a natureza em todo seu esplendor. Chefe Leopardo foi assim. Escolheu um estilo de vida e eu tive de aceitar e porque não dizer: - Quem não gostaria de ser como ele? Apenas uma história... Ou será uma estória? Vocês decidem.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Ele era apenas um índio... Um índio brasileiro!


Lendas escoteiras.
Ele era apenas um índio... Um índio brasileiro!

                    Ele não era de uma extirpe de índios famosos. Seus antepassados sim, mas agora eram uma tribo de gente triste e sem futuro. Foi batizado como José Raposo. Seus pais disseram que ele se chamava Guaraciaba, aquele que tem cabelos de sol. Zé era um índio simples, curtido, usava um calção verde e com ele ficava por uma semana ou mais. Apesar de jovem tinha um medo atroz de uma doença maldita que quase acabou com sua tribo. Kerexu o pagé ainda contava belas histórias dos índios Botocudos, quando eram fortes e famosos e habitavam a Serra do Onça no Alto Rio Doce. Kerexu dizia ter duzentos anos, não era verdade. Devia ter uns 90 não mais. Na tribo era o Pajé o doutor o psicanalista e o religioso. À noitinha a meninada corria para a porta de sua Oca, e ali ficavam esperando de butuca para contar histórias. Com seu cachimbo enorme, com folhas de tabaco ressequidas soltava gostosos rolos de fumaça que fazia os olhinhos da turma seguirem as letras que ele fazia com a fumaça do cachimbo. Kerexu era uma alma boa. José Raposo o considerava como um pai.

                Zé não tinha o que fazer. Zanzava para um lado e outro da aldeia e seus arredores. Sempre de olho nas águas modorrentas do Rio Doce. Ele sabia que terminando a estação das chuvas Anajé o Branco poderia aparecer. Eles se conheceram quando Zé viu-os acampados próximo à cachoeira do Limão, bem abaixo da curva da serpente. Ficou a olhar de longe os meninos brancos de chapéu longo, de lenços no pescoço e gostava de ver o que iriam fazer. Alguém o cutucou por trás e Zé deu um salto se preparando para a luta. Anajé riu quando viu ele se encrespando. – Paz amigo, muita paz! E sem ele esperar o Branco lhe deu um abraço. – Como se chama? Zé pensou dar seu nome de guerra. Guaraciaba. Mas evitou e disse – Zé... E depois gritou orgulhoso: - Guaraciaba, o índio dos cabelos do sol! - Muito prazer Guaraciaba, meu nome é Vado um Escoteiro, mas me chame de Anajé, o gavião das montanhas! Assim batizado quando saltei a fogueira no Vale das Corujas.

                Ali nasceu uma amizade por toda a vida. À noite na fogueira Anajé cortou seu pulso com a faca, repetiu o mesmo com os demais brancos da patrulha. Juntou as junções que sangravam e disse – Guaraciaba, você e eu e os Patrulheiros da Raposa agora somos irmãos de sangue para sempre. Guaraciaba sorriu. Nunca teve amigos brancos e viu que os jovens de lenço e chapelão bateram palmas. Guaraciaba os convidou para visitar a aldeia.  Meu amigo Anajé, não espere ver tendas de lona redondas feitas de pele de búfalo ou cavalos malhados a saciarem a sede na beira do nosso rio. Não espere roupas coloridas, colares feito de pedras preciosas, penachos de penas de pássaros que só nas mais altas montanhas se encontram. Nada disto, nossas tradições se perderam no tempo, hoje somos à sombra de uma famosa tribo dos Botocudos que um dia se orgulharam de suas histórias e lendas que desapareceram com o vento. Anajé riu. – Amigo e irmão Guaraciaba, não quero ver grandiosidades, basta o amor que vocês têm no coração. Anajé ficou amigo de Kerexu e voltou na tribo por muitas luas.

            Quando Anajé chegava ele e Guaraciaba corriam pelas campinas, pisando em flores macias, saltando riachos de águas cristalinas, escalando montanhas e picos próximos a Nanuque, Crenaque ou na Mata do Condor. Guaraciaba mudou. Sentiu uma felicidade imensa. Kerexu preveniu Guaraciaba que a amizade dos dois era para sempre, mas avisou que um dia Anajé iria desaparecer como o vento da chuva. Anajé o levou a visitar sua cidade, o alojou em sua própria casa. Quando se sentou à mesa com a mãe e o pai de Anajé se sentiu importante por fazer as refeições junto aos brancos. Antes não gostava dos brancos. Zumbiara o Chefe da FUNAI era traiçoeiro. Sempre mandava chamar o seu pai o Cacique Aritana para dar ordens, remédios e mantimentos. O fazia com desprezo, como se estivesse dando do próprio bolso. Mas ali, junto à família de Anajé Guaraciaba se sentiu outro. Mesmo com o orgulho de um índio brasileiro ele sabia que seu coração era feito de sangue vermelho como seus antepassados que nunca esqueceu.

              Foi na reunião deles e foi apresentado a Tropa, a Alcateia, e Guaraciaba chorou. Não queria demonstrar fraqueza. Índios não choram pensou. São fortes e valentes, mas ali ele sentiu a força dos meninos de amarelos e azuis, de lenço e chapéu grande. Sentiu uma amizade entre eles incrível. Quem sabe ele poderia fazer isto na sua tribo? Retornou pensando em mudar. Porque não voltar no tempo dos valentes guerreiros que nunca esqueceram os seus antepassados? Guaraciaba casou com Avati e com ela teve dois filhos homens. Mandou vinte guerreiros estudar na capital. Dois voltaram doutores. A tribo mudou. Agora ela tinha uma escola e um posto de saúde e Guaraciaba corria pelos campos, pelos rios e riachos a procura dos gazeteiros. Dava um sermão e eles de cabeça baixa voltavam para a escola. Anajé disse a ele: - Guaraciaba um dia não vou voltar. Tenho que partir para longe em busca do meu destino. Mas quero que lembre que meu sangue está junto com o seu. Em espirito estarei com você para sempre.

              Anajé partiu. Muitas luas se passaram e Guaraciaba ficou doente. Seus doutores e Kerexu fizeram tudo para salvá-lo, mas não conseguiram. Os filhos de Guaraciaba agora adultos juraram ao seu pai que os antepassados dos Botocudos iriam se orgulhar na nova tribo. Uma semana depois Guaraciaba estava nas últimas. Seus olhos quase não abriam. A taba cheia de índios rezando. Alguém pediu passagem e eis que Anajé apareceu. Deu um abraço em Guaraciaba. – Meu amigo, eu estava longe e uma noite Caapora e Catu me apareceram em sonhos. Disseram que você precisava de mim e sumiram em uma nuvem branca no céu. Aqui estou e vim trazer para você o meu amor Escoteiro. Nossos sangues se cruzaram e nossa amizade irá viver além do firmamento e na terra dos seus antepassados. Quando você partir o sol vai sorrir, quando você chegar ao meio do céu Tupanã o Deus do Universo vai abraçar você. Então Tupanã vai dizer – Aqui Guaraciaba você vai esfriar sua sede, aqui o fogo do céu vai aquecer seu corpo quando sentir frio, aqui você vai correr pela terra dos seus pais. 

                 Guaraciaba morreu sorrindo. A tribo começou a cantar aos sons de tambores, chocalhos, guizos e cabaças. No céu um trovão anunciou a chegada de Guaraciaba junto a Tupanã.  Anajé partiu três dias depois. Abraçou Piatã e Apuã os filhos de Guaraciaba – Estarei com vocês em todas as horas e em todos os momentos. Pensem em mim quando precisarem de ajuda. Anajé colocou seu chapéu de abas largas, firmou seu lenço verde e amarelo no pescoço, amarrou sua bota negra e alçou sua mochila verde nas costas. Em uma simples jangada atravessou as águas tranquilas do Rio Doce levando consigo as saudades de um índio que sempre amou!



 nota de rodapé -  “Porque o meu irmão índio também me ensinou o valor da terra, o amor pelo chão e por seus frutos”. “Nós não herdamos a Terra de nossos antecessores, nós a pegamos emprestada de nossas crianças”. Mais uma história, mais uma lenda sobre nossos índios. Índios do Brasil!

domingo, 20 de agosto de 2017

Lendas escoteiras. Sayonara...


Lendas escoteiras.
Sayonara...
(esta história se passa um ano antes do Jamboree no Japão).

                  Mahyna nasceu a bordo do Navio cargueiro Tsuki. Foram quase dois meses de viagem de Kioto até Santos. Hideki seu pai trabalhou duro e sua mãe Keiko ficava como ajudante de cozinha dia e noite. Contaram para ele maravilhas do Brasil. Não foi fácil os primeiros meses e os macacos, as matas, as cascatas e grandes rios que motivaram sua vinda ficaram no esquecimento. Hideki era esforçado e conseguiu ir a gerente de uma fábrica na periferia de São Paulo. Keiko vivia em função de Mahyna. Ela nasceu com uma doença degenerativa articular. Tentaram tudo com fisioterapia e medicamentos, mas Mahyna nunca melhorou.

                  Deus deu a eles a felicidade de Mahyna chegar aos sete anos. Na escola era a preferida da professora pelas suas notas e pela sua educação japonesa. Laís sua amiga lhe convidou para entrar nos lobinhos. Foi uma nova vida e a alegria de Mahyna dava a falsa ideia que um milagre iria acontecer. Não era verdade. Ela definhava ano a ano. Mesmo assim chegou aos onze anos e com relutância passou para as escoteiras. Pouco ajudava na Patrulha Borboleta Azul. Esforçava mas se cansava tanto que logo pensou que não ia dar para continuar.

                  No Grupo Estrelas Brilhantes todos a chamavam de Sayonara. Ela sorria e dizia que este nome significava adeus ou até a vista. – Vocês querem me dar adeus ou um até logo antes de eu partir? Thor o Chefe pedia, por favor, para ninguém mais chamar Mahyna de Sayonara. Mas não tinha jeito. O apelido veio para ficar. Mahyna não ligava. Até gostava. Um dia ficou sabendo do Jamboree Mundial que ia acontecer no Japão. – Pai, Mãe, meu ultimo pedido. Quero conhecer a terra do sol nascente. Preciso estar neste Jamboree. Por favor!

                  Hideki e Keiko não sabiam o que fazer. Mesmo não sendo barato a viagem e a taxa eles fariam tudo para Mahyna ir. Conversaram com Thor e ele desaconselhou. Mahyna não deixou seus pais em paz. Só falava dia e noite no Jamboree no Japão. Hideki tomou uma decisão. Comprou a passagem, inscreveu Mahyna na associação escoteira e disse ao Chefe Thor sua decisão. Todos no grupo sabiam que Sayonara não iria viver muito tempo. Aplaudiram sua viagem e até mesmo Laís sua amiga a abraçou dizendo: Sayonara, ida e volta e esqueça o Adeus. Um mês antes da viagem Mahyna foi levada ao hospital. Não aguentava ficar em pé. Sua respiração aos poucos ia sucumbindo.

                   Mahyna sabia que seu sonho não iria realizar. Alguém teria de ir em seu lugar e ver com outros olhos uma grande confraternização escoteira. Pediu seu pai para chamar Laís. Ela chorou quando Mahyna disse que a escolhera para ir no lugar dela. Adeus Kioto, adeus Japão. A terra dos seus ancestrais ela nunca mais iria conhecer. Sayonara faleceu uma semana antes da viagem da delegação brasileira para o Japão. Laís sem dizer nada a ninguém procurou o escoteiro mais humilde e deu para ele a passagem e sua inscrição.

                   Laís não saiu de perto de Sayonara até que ela desencarnou. Ela sabia que sua amiga concordaria com sua decisão. Antes do seu epílogo na terra Sayonara pegou na mão de Laís e disse para ela: Amiga, se você tem medo de dizer Adeus, diga até breve, mas fale de uma vez... E depois vá. Não quero que você me veja morrer!


                   Lancelot o escolhido foi e voltou no Japão. A viagem e a participação fizeram dele outro escoteiro. Ele mesmo contou que Sayonara sempre estivera junto dele, conversando sorrindo cantando o Rataplã e dizendo: -  常に世界中からスカウトし、私の兄弟日本のスカウト私の兄弟に警告. (Sempre Alerta meus irmãos escoteiros de todo o mundo e aos meus irmãos escoteiros do Japão!).

Nota de rodapé: -     “Os Jamborees são instrumentos que ajudam a contribuir para um mundo melhor, pois isso só acontecerá quando se construir um ambiente de paz entre as pessoas”. Assim disse Baden-Powell no encerramento do Primeiro Jamboree Mundial, em 1920, Ele completou:Antes de partir estamos dispostos a desenvolver entre nós mesmos e nossos jovens esta amizade, através do espírito mundial da Fraternidade Escoteira, a fim de que possamos ajudar a levar a paz, o bom humor no mundo, e a boa vontade entre os homens”. Sayonara eu escrevi ontem às três da manhã. Se gostar comente se não comentem também! Risos.