Histórias e contos escoteiros.

Histórias e contos escoteiros.
Feitas para você se divertir!

domingo, 30 de abril de 2017

Ninguém foge ao seu destino.


Lendas Escoteiras.
Ninguém foge ao seu destino.

                 - Eu só o vi Chefe quando ele passou em frente ao meu mercadinho. Assustou muita gente. Contaram-me depois que surgiu lá na trilha de Santana, passou pela rua do centro de cabeça erguida, só olhando para frente e não cumprimentou ninguém! – Chefe acredite, ele estava de uniforme, calça curta, Chapelão e uma imponência de fazer inveja. Uma barba grisalha, os cabelos também grisalhos amarrados atrás como um rabo de cavalo. Andava devagar, como se estivesse em transe, seguido pelo seu cavalo e que cavalo lindo Chefe. Um Baio de pêlo castanho com crinas pretas. Era realmente uma imagem incrível para se guardar para sempre. Ele não segurava a rédea. O animal o seguia aonde fosse. Nas janelas cheias todos admiravam o escoteiro sem nome. Havia um silêncio arrepiante. Só quando ele sumiu na estrada da Fazenda Céu azul que pertenceu ao falecido Salomão foi que todos deram conta que algum estranho estava para acontecer.

                      E sabe Chefe depois daquele dia ele nunca mais apareceu aqui no arraial. Sumiu por completo. Disseram que era um Escoteiro feiticeiro. Outros diziam que iria destruir o arraial. O boato morreu assim como surgiu. Terrinha um meeiro que trabalhava na Fazenda Céu Azul disse que ele era o novo proprietário. Seu nome era Chefe Leopardo. Todos diziam que não havia fazenda nenhuma. Só terras e areia banhado pelo rio Barrento. Terrinha contou também que ele quando vem à cidade faz uma lista do que quer. Sempre Pó de café, açúcar e sal mais nada. O bom é a gorjeta. Não duvidei de Campanário o dono da Mercearia. Seria mesmo o Chefe Leopardo? Sumiu há anos, deixou tudo para trás, não disse adeus a ninguém. Nem mesmo seus Escoteiros souberam de nada. Nem mesmo o Chefe Noraço e Malemont o sênior.

                        Era uma notícia para investigar. Eu tinha de saber o que houve. A sorte não aparece duas vezes. Por falta de gasolina parei ali em Verdes Mares, nome danado, pois só um riacho pequeno passava por lá. Conhecia Campanário. Foi da minha patrulha sênior e fomos grandes amigos. Fiz um lanche na Mercearia dele a única do arraial, e conversamos um pouco. Eu seguia para Lontra Verde, uma cidade próxima a pedido do Seu Tanquinho. Pediu-me para comprar umas dez mil dúzias de tijolos. Quando disse que ia até lá na fazenda Céu azul Campanário me alertou; Chefe são três léguas, sem estradas e a cavalo vai demorar umas três horas. Sem problemas Campanário. Preciso tirar isto a limpo. Ele prestativo deixou a mercearia e meia hora depois apareceu com uma mula linda, uma Andaluz alta, arriada – Chefe Zé Birosca me alugou. Depois o senhor paga para ele.      

                         Foram duas horas e meia até avistar a choupana do Chefe Leopardo. Incrível! Toda feita de madeira original nos moldes das cabanas americanas. Em volta cavou um fosso em meio círculo, pois sua choupana era na beira do rio e ninguém poderia chegar sem atravessar o fosso. O mais espetacular era o mastro de bandeira que construiu. Vi que o cabo subia automaticamente tocado pela correnteza do rio. Uma enorme bandeira Nacional estava hasteada. Desci do cavalo e ele chegou à porta. – Tarde! Eu disse. – Ele não disse nada. – Ficamos olhando um para o outro. Tentava lembrar-se de mim. - Olá Vado Escoteiro, o que fazes aqui? – Visita Chefe Leopardo. Ou não posso visitá-lo uma única vez? – Ele pegou um cipó curado, e vi que uma ponte pênsil logo se firmou em cima do fosso. - Sua mula fica aí. Perigoso para ela atravessar a ponte.

                      Próximo à choupana construí um chiqueirinho, um galinheiro e uma horta de tirar o chapéu. Entrei na sua casa e me espantei. Uma mesa de peroba rosa, toda feita com encaixe e bancos confortáveis. Ele construiu também um quarto com cama e mosquiteiro feito de lascas de bambuzinho chinês. – Sente-se Vado, só peço para não contar as novidades. Sou feliz assim sem saber mais nada do meu passado; - Pegou-me de surpresa. – Mas sei que veio aqui para saber o que aconteceu. Gosta de escrever e não ia deixar passar em branco. Sabe Vado Escoteiro eu gosto do silêncio da minha choupana, do meu trabalho, eu estou sempre fazendo uma pioneiria ali e acolá, adoro pescar traíras a noite. Gosto de Caçar um quati, uma capivara com meu arco para comer carne fresca. À noite acendo meu fogo, deito na relva para contar estrelas, amo o pôr do sol e o nascer do sol com as borboletas ciscando nos meus ombros e cabelos.

                  Um dia vi que a vida não tinha o que eu queria. Amava meus Escoteiros. Mas eu precisava de algum mais. Juntei um dinheirinho e fui para o Nepal. Passei quatro anos em um mosteiro. Também não era o que sonhei para mim. Nunca seria um monge mesmo gostando do silêncio. Comprei esta fazenda. Aqui tenho tudo que quero. A terra é boa, ela é minha amiga, tudo que planto ela dá o retorno. Aqui eu tenho tudo que eu desejo. Não quero companhia, não vou casar e ter filhos. Quando meu corpo não me obedecer mais e chegar a hora de morrer, morrerei sentado na curva da lontra onde fiz uma linda cadeira de balanço. É lá que vivo e faço parte da natureza. É lá que sinto a minha liberdade e me sinto livre de todas as amarras da civilização.
                          
                         Chefe Leopardo sorriu. Disseram-me que ele nunca sorria. - Hora da bandeira ele disse. – Quer participar? – A bandeira farfalhava ao sabor do vento ali na beira do Rio Barrento cujas águas eram límpidas claras e serenas onde se podiam ver os peixinhos a nadar. Durante a descida ele cantou o Hino Alerta. Sua voz rouca não titubeou uma única vez. Apertei sua mão esquerda, ele me agradeceu a visita e me pediu que mantivesse segredo. Ele queria continuar sua vida de ermitão. Ali morava e ali iria morrer. Agradeceu-me e quando partia ele me disse – Dê lembranças ao Campanário! – Você o conhece? Perguntei. – Claro Vado, ele foi Escoteiro junto a você. Diga ao Chefe Noraço e Malemont que eles ainda moram no meu coração, mas não conte nada sobre mim.

Parti pensando o que era a vida. Campanário me olhava querendo saber as novidades. Sorri e não disse nada. Se o chefe Leopardo queria ter uma vida só dele era seu direito. Que ele vivesse em paz. Afinal eu sabia que ele fez sua escolha e certo ou errado a vida era dele. Fico pensando se eu não invejo sua escolha?  
  

sábado, 29 de abril de 2017

A chuva cai mansamente em minha morada.


Era uma vez...
A chuva cai mansamente em minha morada.


Lá fora a chuva cai mansamente. De vez em quando vou à varanda e vejo o asfalto molhado. Levanto o olhar para o céu e ele volta ao passado como a buscar as milhões de chuvas que um dia molharam meu rosto nos acampamento da vida. Aquela chuva parece uma borrasca de acampamento. Algumas vezes calma e outras como um orvalho que o vento leva para onde quiser. Ao nascer do dia ela resolveu cair mais forte. Levantei e abri a janela para ver. Gosto da chuva. Ela descansa a minha mente. Gosto de olhar ela cair e amo seu barulho forte ou calmo. Lembro-me de muitas chuvas. Não esqueço as chuvas dos lugares onde acampei e excursionei. Muitas vezes elas assustam. Os raios e trovões ensurdecedores a pipocar em nossa volta. Raios já caíram perto de mim.
Em matas fechadas grandes árvores foram cortadas ao meio por um raio brilhante. Logo em seguida o trovão querendo entrar na barraca ou nas proximidades para assustar a bicharada e a passarada. Mas ali está a natureza. Ela sempre foi assim não pode ser alterada. Ambos, a chuva e as florestas se entendem. Uma época sem tanta informação como temos hoje. - Cuidado com os raios, fique longe das árvores, fique longe dos descampados, fique longe... Não dava. O jeito era apaziguar a ventania e amar o trovão e o raio. Interessante mesmo sabendo que a ouvir o trovão não tem mais perigo, pois o raio já caiu e não devíamos ter mais medo.
Eu gosto mesmo da chuva. Nunca tive medo seja ela forte ou fraca. Temos que amar o perigo e enfrentá-lo. Manter a calma e saber que tudo pode ter uma solução para melhor:
Em teu abraço eu abraço o que existe
a areia, o tempo, a árvore da chuva
E tudo vive para que eu viva:
sem ir tão longe posso vê-lo todo:
veio em tua vida todo o vivente.

Que a chuva caia do céu em cascata. Que a chuva molhe a terra que não vive sem ela. Que a chuva molhe a todos nós para lembrarmos que somos filhos da chuva. Como era bom o vento molhado, a chuva caindo, as barracas dançado e o velho toldo amarelo com alguns furos recebendo a fumaça deliciosa da lenha molhada que agora secando seria usada para nosso jantar. Seis meninos sonhadores de calças curtas em volta do fogão de barro, um lampião a querosene com luz bruxuleante pendurado em um tripé e a gente olhando as chamas que paravam no fundo do caldeirão, um alho socado, um pouco de sal, um pequeno toicinho e que cheiro delicioso.
Deus meu! Ah! Que fome. A água fervendo, nosso amado cozinheiro a soltar devagar o macarrão quebrado que vieram nas mochilas daqueles que aprenderam a escoteirar. Chamávamos de ração B. Um farnel rotineiro para aqueles Escoteiros acampadores. É eu gosto mesmo da chuva. Saber que dias se passaram e ela não parou de cair. Desarmar acampamento? Nunca. Escoteiros não fazem isto. Protegem-se. Folhas, coqueiros ou bananeiras não importa. Tudo serve para proteção. Telhados rústicos a perder de vista.
Bom isto, o ritmo da chuva a cair sobre a barraca em um acampamento. Som de violino. Som de um violão bem tocado. Som de uma orquestra de fantasmas a tocar para nós naquelas noites escuras e sem luar a ouvir o ribombar dos trovões que pareciam sonetos sem nexo no céu. Um sono profundo, sonhos sonhados. Chuva molhada, quantas e quantas chuvas caíram sobre mim. Depois elas se vão e o vento manso aparece para trazer o orvalho da madrugada. E depois dos trovões e dos raios, das nuvens escuras lá num canto do céu um pequeno brilho, pois como dizem por aí sempre depois dela o sol vai aparecer!
- “Quando tudo vai mal e parece inclinado 
A tornar-se pior e mais turvo a seguir, 
Não dê coices, nem grite e não fique afobado; 
“Apenas basta sorrir”.

Você diz que ama a chuva, mas você abre seu guarda-chuva quando chove. Você diz que ama o sol, mas você procura um ponto de sombra quando o sol brilha. Você diz que ama o vento, mas você fecha as janelas quando o vento sopra. É por isso que eu tenho medo. Você também diz que que gosta de acampar!

quinta-feira, 27 de abril de 2017

João de Deus.


Lendas escoteiras.
João de Deus.

                 Dois dentes grandes o faziam parecer um coelho quando sorria. Afável, gostava de um sorriso. Moreno cabelo cortados com máquina zero. Fazia parte do lugar onde estava. Magro e pequeno para sua idade de doze anos. Poderia ser Lobinho que ninguém ia ver à diferença. Filho de Dona Maria Noêmia, mulher boêmia que passava as noites onde ninguém podia contar. Dificilmente ia visitar seu filho. Seu pai fugiu um dia e nunca mais voltou. Ele sentia falta. Queria um pai. Olhava para Miro como se fosse seu pai. O escotismo lhe deu outra vida outro motivo para voltar a viver. Esteva internado havia dois anos. Um câncer ia aos poucos tirando vida.. O tratamento de quimioterapia nem sempre ajudava. Tossia, sentia dores tremendas no peito, gritava de dor e os médicos sem nada poder fazer. Nunca esqueceu aquele dia que Miro entrou na enfermaria. Na mão segurava um bastão com um totem do Tico-Tico. – Gritou alto! – Quem quer ser de minha patrulha? João nem pestanejou. Gemendo de dor se levantou. – Eu quero! – Disse.

                Todo sábado pela manhã Miro chegava, sempre só, sempre falando alto: - Patrulha em forma! João se levantava com dores horríveis, mas formava com mais três. Leonel, Pedro e Josias. Josias morreu um meses depois, Pedro ficou mais tempo na enfermaria até o dia que saiu para operar e nunca mais voltou. Leonel morreu sorrindo no dia que a patrulha ouvia a história de Caio Vianna Martins que Miro contava com emoção. Todos ouvindo atentamente. Ninguém viu Leonel escorregando da cama e caindo ao chão. Chamaram as enfermeiras que o levaram. Também nunca mais voltou. A patrulha teve mais dois patrulheiros novos na enfermaria que aceitaram entrar. João contava nos dedos o dia de reunião. Aguardava ansioso. Miro um dia narrou fazendo gestos como eram os acampamentos Escoteiros. As barracas, a mesa, as poltronas de madeira a cozinha e o fogão de barro. João sorria um sorriso de um jovem que sonhava em ser sem saber que nunca poderia ser um deles.

                 Ele imaginou como seria a barraca, sorria pensando que estava dormindo em uma delas, como seria a mesa que chamavam de pioneirias. Imaginou o fogão aceso, as brasas, a panela fazendo arroz e a frigideira fritando ovo. Era lindo pensava. Um dia Miro não foi. João de Deus sentiu tanta falta que chorou baixinho por muito tempo. Miro era seu bastão, seu sonho que nunca se tornaria realidade. Dois sábados seguinte Pablo chegou. Era o Sub. Monitor. Explicou que Miro foi operar na cidade grande. Queria despedir, mas o Doutor do Hospital disse que não. Seria muito triste sua despedida e não iria fazer bem para ninguém. Pablo era diferente. Pequeno, olhos negros enormes como se tivesse forçando para ver. Mas era um Escoteiro legal. Logo fez amizade com todos. Disse que a patrulha Tico-Tico não iria acabar. Ele estava ali para levantar o bastão e darem o grito. João de Deus sentiu saudades de Miro, mas voltou a sorrir o que não fazia há muito tempo.

                   Pablo ensinou a Canção da Despedida. João gostou, mas achou muito triste. Preferiu o Cuco, a árvore da montanha e adorava cantar Avançam as patrulhas. Pablo trouxe xerocado uma foto de patrulhas correndo pelas campinas, com a bandeira do Brasil. Era do caderno Avante. Lindo de morrer. João não tirava os olhos. O tempo todo ali olhando até desligarem as luzes. Fechava os olhos e seu corpo era transportado para os montes, para as montanhas, para as campinas e junto com seus companheiros eles cantavam o Rataplã. Seu sonho era fazer a promessa, pois sabia a Lei de cor e salteado. Um sábado também Pablo não veio. Ninguém explicou por que. Quem sabe a enfermaria autorizava só com ele presente se a patrulha não podia se reunir. Juca, Moisés, Nonato também partiram para as estrelas conforme Dona Matilde a enfermeira explicava a morte dos jovens enfermos.

                   Mas ele queria continuar Escoteiro. Sabia que mesmo sem um deles ele podia ser. Foi Miro antes de ir embora quem disse que onde houver um Escoteiro tem uma Tropa. Ele não sabia o que era Tropa, mas sabia que podia continuar amando sua patrulha e o escotismo. Um sábado bem tarde apareceu um Escoteiro bem mais velho. Já com seus dezesseis anos. Procurou João de Deus. Disse para ele que se chamava Rael. Não podia ficar ali, pois o Diretor do Hospital proibiu. Achava que a patrulha estava prejudicando muitos os meninos doentes e eles no último momento sempre pediam para dar o último grito de patrulha. Era impossível. Isto não ajuda contou Leo o Sênior. – João, estou aqui a pedido de patrulha Tico-Tico. Ela está na porta do hospital. Não deixaram eles entrarem. Só eu e me pediram para sair logo. Mandaram entregar para você o Livro do Fundador do Escotismo. Baden-Powell O Escotismo Para Rapazes. Eu mesmo comprei outro para presenteá-lo. O Caminho para o sucesso também de B-P.

                   Leo partiu e João de Deus começou a ler os livros que fizeram dele um Escoteiro diferente. Agora conhecia tudo porque ele deveria ter sido um. Deveria ter acampado, deveria ter conhecido trilhas e montes, deveria ter subido nos mais altos picos, deveria ter acampado nas mais lindas florestas do Brasil. Seu sonho era sentar em volta de um fogo, bater palmas, cantar sorrir e representar uma bela esquete.  Quase não jantou naquele dia. Quando a luz apagou ele chorou. Não queria parar de ler. Nunca na vida se sentiu assim. Fechou os olhos devagar. Suas lágrimas caiam sobre a cama. Sentiu uma luz azulada entrar no quarto. Viu um velhinho sorrindo para ele. Parou ao pé da sua cama. Falou pausadamente o lema Escoteiro – Sempre Alerta João de Deus. Quer ir comigo para o Grande Acampamento do céu? João de Deus parou de chorar. Olhou para um lado e outro e viu centenas de patrulhas formadas. Havia uma, um jovem sorrindo chegou até ele: - João vim buscar você. Era Miro. A Patrulha Tico-Tico não é a mesma desde que você foi morar na terra!

                     Na vida real ninguém viu uma enorme nuvem brilhante e alva sobre o Hospital. Uma linda estrela esperava o menino João de Deus. O Doutor Tavares sentiu um calafrio. Correu até a enfermaria e viu João de Deus de olhos fechados e sorrindo. Viu que ele estava morto. Ninguém viu seu último suspiro, mas o Doutor Tavares sorriu pensando que João de Deus morreu feliz. Na porta do hospital uma multidão de escoteiros de mãos entrelaçadas cantava uma canção estranha para ele. Diziam que não era mais que um até logo, não mais que um breve adeus. Terminavam dizendo que breve muito breve todos iriam se encontrar nos braços do Senhor.

terça-feira, 25 de abril de 2017

Lindos e velhos tempos!


Lendas Escoteiras.
Lindos e velhos tempos!

                 Passava das onze da noite. Em volta do fogo alguns monitores e Leopardo um Chefe amigo me fazia companhia naquela noite na floresta do Ouro Negro. Ele aceitou meu convite para acampar. O fogo crepitava leve. Pequeno, algumas achas e ao lado o bule de café. Navegador um Monitor mais antigo com uma pequena vara remexia as brasas da fogueira. Gosto das fagulhas do fogo. Tem uma maneira de me cativar. Joshua parecia dormitar sentado no tronco, mas eu sabia que ele via tudo. Eu o conhecia de longa data. Mocinho já tinha ido dormir. Estava cansado e merecia o descanso da noite. Zé Lovênio Monitor da Águia me olhava como a pedir para continuar a história que contava. Nem sei por que contei aquela história. Quando me lembrava dela meu coração parecia chorar de lembranças que eu não queria recordar. Às vezes eu penso que um fogo aceso em uma clareira tem tudo para trazer de volta histórias que nunca esqueceremos. Dizem que a sabedoria dos velhos é um grande engano. Eles não se tornam mais sábios, mas sim mais prudentes... Ou não?

                 Não havia como fugir. Minha voz rouca começou novamente a narrar à história do Chefe Dakota. Ah Chefe Dakota! Minha mente voltou novamente ao passado. – Eu não sabia por que estava ali, na rua de alguém que não queria lembrar. Se quiserem saber eu passei em frente a sua casa sem perceber. Desbotada, um verde que ainda permanecia vivo, mas sem as cores de outrora. Quanto tempo estive ali? Nem me lembrava. Senti-me culpado. O jardim ainda era bem cuidado, sinal que ele não esqueceu seu amor pelas flores. Olhei de soslaio se havia alguém na janela. Não vi ninguém. Pensei em passar como quem passa pela vida sem olhar... Sem notar se estava pisando em flores para fugir de um passado que preferia esquecer. Mas eu não seria o culpado? Não fui eu quem provocou sua saída do movimento? Acho que não. Tudo foi obra do ocaso. Se pudesse se Deus me concedesse está dádiva daria minha vida para voltar atrás. Estaria ainda vivo? Tudo aconteceu quando eu tinha dezesseis anos e ele já com seus cinquenta e poucos.

                  Num ato sem esperar subi os quatro degraus que levava a varanda de sua casa. Por quê? Para zombar dele de um passado que eu queria esquecer? Ele merecia? Mas eu insistia na minha cisma de tentar ver se ainda estava vivo. Quem sabe poderia pedir perdão? Dizer para ele que eu era menino, sem pensar no que fazia, e se tivesse me mantido calado tudo seria diferente. Dizem que os velhos acreditam em tudo, as pessoas de meia idade suspeitam de tudo, os jovens sabem tudo. Bati leve na porta. Ninguém. Bati novamente e uma voz miúda quase sumida tentou dizer: - Entre! – Entrei. A sala não mudou. A poltrona de couro marrom lá estava como sempre. Tentei através da luz opaca vê-lo. Aqui! Ele falou. Olhei pra perto da janela. Era ele sem sombra de dúvida. Velho, alquebrado, em uma cadeira de rodas com uma manta vermelha e azul em cima das pernas. – Bem vindo Apoema! Saudades de você! – Incrível. Ele se lembrava do meu nome! Bem o que fiz não se esquece jamais. Olhei melhor para ele. Rosto fino, magro, olhos fundos que não conseguia saber a cor. Pelos meus cálculos já devia estar com mais de noventa anos!

                Fiquei sem voz. Engasgado sem saber o que dizer. A solidão é o preço que temos de pagar por termos nascido neste período moderno, tão cheio de liberdade, de independência e do nosso próprio egoísmo. Olhei para ele com os olhos rasos d’água. Ajoelhei-me em frente sua cadeira de rodas – Perdão Chefe Dakota! Perdão! Tantos anos deixei passar para dizer que me arrependo profundamente do que fiz! – Ele sorriu levemente. Falou baixinho quase sussurrando – Apoema, a juventude muitas vezes diz coisas que não quer dizer. Olhe comentam por aí que a sabedoria dos velhos é um grande engano. Eles não se tornam mais sábios, mas sim mais prudentes. Hoje eu compreendo você. Sei o que pensou. O errado sou eu! Minha mente correu no passado e tudo veio como se estivesse lá, agora fazendo o que fiz. Eu sabia que durante a adolescência, é vital repartir nossas experiências com pessoas que pensem como nós e que tenham o mesmo pique: é importante sentir-se incluído num grupo, de pertencer a uma turma. Perde-se, no entanto, o convívio com pessoas de outras idades e de outros "planetas", que muito poderiam lapidar a nossa visão de mundo.

                   Claro, eu era outro. Mas pensei que ele queria me fazer mal. Entendi errado. Contei para os outros chefes minha visão do que pensei. O acusei de ser quem não era. Tudo porque ele docemente estava com as mãos em meu ombro e ela sem ele perceber correu pelas minhas. Pensei que ele queria o que eu não era. Corri dali gritando. Ele tentou se defender e eu não o deixei continuar. Foi excluído do Grupo Escoteiro. Minha palavra de menino irresponsável valeu mais que a dele, um Chefe de caráter. Ele vendo as acusações resolveu sair. Deixou-nos órfãos de Chefe. Tudo por que eu o acusei injustamente. Entre iguais, tudo é igual. A vida ganha movimento é na diferença. Se você é rato de biblioteca, iria se divertir ouvindo as histórias contadas por um aventureiro experiente. Se você tem muita grana, ficaria surpreso em saber como dá duro o cara que trabalha de dia para poder estudar à noite e o quanto ele precisa economizar para tomar dois chopes no sábado. Se você é Escoteiro seria bacana que pudesse entendê-lo compreendê-lo, conversar com quem sabe o que faz.

                      O fogo se apagava querendo dizer que estava na hora de deixá-lo ao sabor do vento da floresta. Ninguém mais colocou uma acha para ele iluminar a clareira onde seis jovens e dois chefes pudessem curtir um conto que não era conto. Era mais quem sabe um desejo de se redimir, de pedir perdão, de arrependimento por um ato infantil de um jovem Escoteiro que sonhava e seu coração ficou doído por muitos e muitos anos. Lovênio levantou e nos disse boa noite e sempre alerta. Navegador o seguiu de cabeça baixa. Joshua me olhou, foi até a mim e me abraçou. Leopardo ficou em pé, a sombra da noite o apanhou de jeito. Parecia um gigante perdido na floresta das lembranças. Eu também o abracei. – Ele balançou a cabeça e disse baixinho. Pois é meu amigo Chefe, a saudade aperta... O futuro acorda, mas há coisas que a mágoa não afoga bons e maus velhos tempos em que a vida era um rascunho onde você anotava pedaços do destino. Antes éramos um só... Todos juntos num só caminho... À descoberta da existência de um movimento que até hoje deixa marcas profundas em todos nós...



“Fui dormir como quem não queria nada, mas sabia que todo caminho tinha lembranças e se eu não as encontrasse, minha jornada, meus caminhos não tinham razão de ser”.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Em cada coração uma sentença.


Lendas Escoteiras.
Em cada coração uma sentença.

                        Nonôvat era diferente de muitos monitores. Existem os amigos, os gentís, mandões, morcegos, irmãos mais velho, indiferentes, falastrões, humildes. Mesmo assim são eles que dão a vida pela patrulha. Seu nome verdadeiro era Antônio Medeiros. Nonôvat tinha um grande coração. Monitor da Patrulha Jaguatirica escolhido pelo Chefe Ricardo. A escolha de Nonôvat foi bem recebida. Na Curimbatá e na Gavião, Josivaldo e Moreno na Corte de Honra deram seu aval. Havia uma Tropa feminina que tinha atividades em separado, mas faziam outras em conjunto. Acampavam, faziam excursões e atividades aventureiras em conjunto, mas cada tropa com sua própria individualidade. Havia um respeito enorme.

                 O Chefe Ricardo e a Chefe Loreta eram ótimos chefes. Eles sabiam que nada poderia dar certo se não tivessem bons Monitores. Sempre diziam aos graduados: – Para ser um líder, você tem que fazer as pessoas quererem te seguir, e ninguém quer seguir alguém que não sabe onde está indo. Na Patrulha Jaguatirica ninguém disse não para a promoção de Nonôvat. Eram experientes com mais de um ano de patrulha. Giba o Sub. era uma mão na roda. Nonôvat sabia cobrar sem gritar, e sempre o primeiro a fazer e ajudando. Não era e nunca foi um mandão. Aos treze anos aprendeu bem como liderar a Patrulha. Sabia que liderar é preciso também saber ser liderado. Dizia aos seus patrulheiros sorrindo – Olhem! Se ficarem mal humorado tome café! Se não gostarem sigam a luz, se no final dela tiver um buraco negro, se joguem. E dava boas risadas. Os escoteiros adoravam sua maneira de liderar.

               Os patrulheiros davam a vida pela patrulha. Todos sabiam exatamente o que fazer. Suas funções eram seguidas a risca. A tralha da patrulha era a melhor da Tropa. Panelas sempre limpíssimas, material de sapa afiados e oleados, duas barracas bem cuidadas, duas lonas seminovas tudo muito bem acondicionado. Na patrulha os patrulheiros eram peritos em afiar e usar perfeitamente uma machadinha um facão ou uma faca escoteira. Conseguiram com muita dificuldade uma bússola Silva e outra Prismática. Nos grandes jogos ou nos mais simples a patrulha aprendeu que ganhar é bom, mas saber perder é uma arte. Para que se achar sempre ser o melhor? Palavras do Chefe Ricardo e completava: Bertrand Russell dizia que: – A raiz do mal reside no fato de se insistir demasiadamente que no êxito da competição está a principal fonte de felicidade.

                  Nonôvat gostava do modo do Chefe Ricardo. Gente fina e respeitava a todos. Nunca faltou um aperto de mão, um abraço nas horas difíceis, um Anrê ou um Bravo! Chefe Ricardo incentivava ao máximo, mas cabia a cada um dar o primeiro passo. Dizia que o espelho era Caio Vianna Martins: - O Escoteiro caminha com suas próprias pernas. Na última Corte de Honra ficaram sabendo da nova atividade do distrito. - Chefe! Mas não estava programado! – Eu sei ele disse, reclamei, mas vai ficar mal se não formos. Na próxima não iremos se não estiver programado. Seria uma atividade de um domingo. Próximo ao Vale Cinzento. 23 patrulhas. Não podemos ficar de fora. No dia da atividade chegaram no horário. Durante meia hora se confraternizaram com as demais patrulhas presentes. Quase vinte patrulhas.

                A tropa do Chefe Jurema foi à última a chegar. Ele um rapagão de uns vinte e cinco anos, óculos escuros, chapéu de exploradores canadenses (gostava de inventar) e com uma vareta embaixo do braço dava seu show particular. Sem cumprimentar ninguém deram o grito da Tropa que terminava dizendo que eram os melhores e iam arrasar. Nem o demônio podia com eles enfim um monte de asneira não digna de escoteiros que prezam a lei. O distrital explicou o jogo. O Ouro Misterioso. Deu como ponto de partida a trilha onde começava o Vale Cinzento até a estrada do Astro Rei Estavam escondidos quinze lenços escoteiros. Todos numerados. As Patrulhas não precisavam seguir a ordem, mas para achar a pista final precisavam de pelo menos cinco lenços. Menos que isto não seria fácil chegar ao ouro perdido. A ordem era clara. Todos deveriam estar sempre juntos.

                   Em cada ponto haveria um Chefe Escoteiro. Se a Patrulha dispersasse seria desclassificada. Às treze horas seria parada para o lanche. Paulo Cobra Monitor da Caveira do Diabo (nome esquisito) se aproximou sorrindo de Nonôvat – Não me esperava eim? Não tem para ninguém. Você sabe que somos os bons, os melhores da cidade. Melhor reconhecer agora e desistir! E começou a rir voltando para sua Patrulha. - O jogo começou guerra! Gritou o Comissário Distrital. Eram dez da manhã. A Patrulha Jaguatirica conseguiu achar três lenços. Faltavam ainda dois. Ao meio dia e vinte Nonôvat viu Paulo Cobra sozinho correndo sem a Patrulha. Era contra as normas. Nonôvat foi atrás dele para dizer que se continuasse iria informar ao distrital. Correu atrás de Paulo Cobra que tinha subido em um penhasco proibido pela direção do jogo por oferecer grande perigo. Avisou sua Patrulha. Ao subir uns oitenta metros ouviu um grito de socorro. Era Paulo Cobra estirado em cima de um galho enorme de uma árvore. Desceu com cuidado.

               Paulo Cobra chorava. Gritava de dor. Dizia ter fraturado uma costela e o braço. Nonôvat achou que deveria ir buscar ajuda. Ventava forte e ele sabia que uma tempestade se aproximava. Deixar Paulo Cobra sozinho seria pior. Com muito custo o levou a uma pequena gruta próxima. Paulo Cobra gemia e chorava pedido sua mãe. A chuva caiu. Forte. Raios cortando pedras e árvores no fundo da garganta. Não foi fácil. Ele era pequeno. Paulo Cobra forte e alto. Tirou sua blusa e colocou nele. Disse que ia buscar ajuda. Paulo gritou que não iria ficar só tinha medo. A chuva passou. Nonôvat pegou novamente Paulo Cobra e o colocou no ombro. Paulo Cobra choramingava. Andava tropeçando. A cada cem ou duzentos metros parava para descansar. Viu que ia escurecer. Resolveu fazer um SOS com um fogo com muitas folhas verdes. Com sua blusa presa em duas varetas tentava fazer no código Morse as letras S. O. S. A noite chegou. Logo viu vários chefes chegando.


              Paulo Cobra foi levado ao hospital. Quebrou duas costelas, fraturou a coxa direita e o braço direito. Mas ia ficar bom. Nonôvat e sua patrulha fizeram questão de visitá-lo. Foi muito bem recebido. Paulo Cobra chorou varias vezes e pediu perdão por tudo que fez. Nonôvat o abraçou. Ficaram amigos para sempre. Um dia apareceram na sede dois dirigentes escoteiros. A ferradura foi formada. O Presidente Regional chamou Nonôvat a frente. Que seria? Entregaram a ele medalha de valor Ouro. Acharam que ele mereceu. Nonôvat segurou as lágrimas. Ele não era de chorar fácil. As patrulhas deram o grito. Emocionante foi o abraço de Paulo Cobra. Ele chorava copiosamente. Nonôvat estava tremendo. Emocionado. Nonôvat em hora nenhuma se sentiu superior. Ele sabia o que tinha feito. Ajudar um amigo Escoteiro. Não importa quem ele seja.


Ninguém pode ser chamado Escoteiro se não for amigo de todos e irmão dos demais escoteiros. Não importa onde e quando. Exemplos começam onde menos se espera. E fico pensando, onde estão os meninos e meninas que recebem Lis de Ouro e Escoteiro da Pátria? São tão poucos assim? Bem medalha nunca, medalha é para chefe sorrir e mostrar para todo mundo. Risos.  

domingo, 23 de abril de 2017

Purgatório... O Escoteiro... O SUS.


Crônica de uma ficção anunciada.
Purgatório... O Escoteiro... O SUS.

O escoteiro.
Onze horas da noite. Na porta estava escrito: - Sala três observação - Um quarto de quase 110 metros quadrados. Cinco camas, quatro cadeiras com movimento e atendimento de urgência. A dor percorria o corpo. Uma simpática enfermeira me aplicou medicamentos. Foi o início da minha saga em um hospital do SUS. Ao meu lado, Paulão, motorista de taxi com uma enorme erisipela. Conversamos. Sou escoteiro eu disse. Gostaria de ter sido repetiu. Duas senhoras idosas estavam prostradas parecendo não estar neste mundo. Um senhor gemendo e chorando. Um sentou no chão querendo tapar os olhos para não morrer. Meia noite, o quarto encheu. Gente gemendo, gritando, pedindo socorro.

Purgatório.
Há apenas uma estrada que não passa pela cidade. A meia noite uma diligência para em frente a um enorme portão de bronze. Um homem mal encarado espera. Descem quatro passageiros. Você e você! Acompanhem-me. Ele abre o portão. Ao longe dá para ver um despenhadeiro pegando fogo. Você e você direto para Purgatório. São as ordens. O outro homem gritou que não queria ficar. – Aqui é o Portão do Inferno! A diligência parte vazia e não leva ninguém. A cidade fervilha. Marginais, bandidos, mocinhos, famílias olhando espantadas. No dia seguinte cheguei na Diligencia. Mandaram todos descer. Três seguiram o mal encarado até o fogo do inferno. Sem ninguém mandar fui claudicando para Purgatório.

O SUS.
UPA, referencia para tratamento de saúde. Osasco tem um. Bonito bela aparência. Na periferia ninguém mais acredita nos postos de saúde. Uma injeção uma inalação e vá para casa. Os doentes chegam aos montes. Lá pelo menos tem melhor tratamento. Pelo menos há esperança. O hospital faz a triagem na UPA. Dia e noite, centenas de pessoas entrando, gemendo, gritando em cadeira de rodas, carregado por parentes esperam sua vez. O que é o SUS? Todos sabem. Enquanto políticos roubam do povo, a saúde fica em quinto lugar. Pelo menos tem a UPA e foi lá que fui parar.

O escoteiro.
Duas semanas de dor, o peito arde, a voz desaparece. Andar é um sacrifício. Encho-me de medicamentos. Não resolve. As noites eram mal dormidas, dores, vontade de deixar de ser escoteiro e praguejar. Aos dias andava dentro de casa. Um verdadeiro espectro ambulante. Nada é simples na dor. Você esquece as normas e o que você é. Ainda bem que sabe rezar. E reza, e reza, e reza. Mas as dores não param. Você chora você não sabe o que fazer. Célia incansável. Dia e noite me ajudando. – Marido, vamos para a UPA! – Vamos sim. E lá fomos nós. Um médico Anjo apareceu na minha vida. Raios-X e tomografia computadorizada. – Seu Escoteiro, o senhor é diabético tem uma pneumonia, pressão alta e tem água no pulmão.

Purgatório.
Meia noite. A diligencia chega gritos de “não quero ir para o inferno”. O homem mal encarado não sorri, com um bastão vai empurrando os escolhidos. Estou em uma espécie de enfermaria. Ainda recebo medicamentos. A enfermaria enche. Loucos gritam. Um não para de falar palavrão. Uma senhora pede socorro. Seus filhos a deixaram ao léu. Lá fora um inferno acontecia. Tiros no ar. Alguém gritou: Você me matou desgraçado! Na taberna uma canção embalava minhas dores. Tiros gritos pedidos de socorro. Dois enfermeiros fortes entram. Trazem mais cinco que gritam por socorro. Depois retiram dois. – Para onde vão? – Não é da sua conta!

O SUS.
Fico pensando os presidentes os deputados, os senadores, os donos de empreiteiras ali comigo naquela sala de 110 metros quadrados. Porque Sírio Libanês? Quem sabe se sofrerem o que os pobres sofrem não irão pensar melhor do que roubar? Sei que eles vão pagar por isto. Mesmo sabendo a revolta chega. Eles têm dinheiro. Ficam em um quarto enorme tem mesa, tem telefone, tem enfermeira de plantão. Diariamente um assessor vem avisar como está o paciente. Maldito que eu sou. Daria tudo para ouvir que o politico desgraçado morreu. Quem sabe foi para Purgatório? Acho que vou dar risadas.

O escoteiro. 
Fizeram o dreno. Andava para um lado e outro. Ainda sentindo a dor no peito e no resto do corpo. – É a pneumonia, disseram. E toma medicamentos. Meus braços ficaram roxos. Não achavam mais veia. Ensinaram-me que onde o dreno fora depositado era meu cachorrinho. Devia levá-lo para onde eu for. O buraco no peito onde entrava a mangueira parecia o Espinho do Bode que existe nas matas do Tenente. O pior era o ar condicionado. 17 ou 18 graus. De doer. O cirurgião passava por volta das oito da noite. Gente fina educado. Sempre animando, mas ainda tem água e tem pneumonia. Porque não colocar aquela água no meu cantil francês?

Purgatório.
Lá era sempre noite. Não havia sol. Dava para ver o fogaréu queimar com vontade. Duas três quatro cinco oito noites. Meia noite e chegava à diligência. Sempre dois ou três sendo levados pelo mal encarado. Berravam. Diziam ser cristão. Ele não tinha piedade. A festa na cidade avançava pela madrugada. Sempre um dizendo: - Porque me matou? Tiros, berros canções de ninar por uma bela bailarina que não vi. O xerife sempre parado em frente sua prisão. Parecia de cera. Vez ou outra apostavam corridas a cavalo. Sempre cinco ou mais morrendo. Purgatório era assim. Sua vez escoteiro. Hora de sair. Fui mancando e respirando mal. Deixaram-me no portão de Bronze. Era minha hora? A diligencia chegou. Desceram seis. Quatro para o homem mal encarado. Fiquei sozinho parado a beira da estrada. O portão se fechou. Graças a Deus! O cocheiro gritou: Suba que não estou por sua conta escoteiro! Para onde vou? Ele deu uma gargalhada demoníaca e os cavalos negros relinchando partiram a galope voando para o céu azul.

O Escoteiro.
Já estou em casa. Uma experiência que valeu. Só se aprende fazendo. Tentar explicar não adianta. Não estou novo. Falta de ar e dores que irão passar. Meus familiares me ajudam. O tempo passa e eu sei que tudo isto irá passar também. Sempre tem a hora de recomeçar. Chico dizia que com a lamentação é possível deprimir os que mais nos ajudam. Acredito. Espero não voltar novamente a Purgatório, mas se acontecer eu estarei preparado.

Chefe Osvaldo

Deixa passar o vento, Sem lhe perguntar nada. Seu sentido é apenas ser o vento que passa… Consegui que nesta hora a vida vai voltando ao normal e escrevi esta história pra que os deuses voltassem com a brisa solta no ar.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Os heróis não tem idade.


Lendas Escoteiras.
Os heróis não tem idade.

                    Mariel com seus sete anos sonhava em ser lobinha. Tentou de tudo e nunca foi sequer ouvida pelos seus pais. Dizem que meninas de sete anos não sonham, mas não é verdade. Ofereceram a ela uma boneca Modelmuse 2013. Ela recusou. – O que você quer de Papai Noel perguntou seu pai? Ela abaixou a cabeça e disse – Quero ser lobinha! Ela já sabia a resposta. Desde o dia que pediu para participar que seu pai foi contra. Sua mãe também. – Nem pensar, diziam. – Não vou deixar você ir para o mato, dormir em barraca, pode aparecer uma cobra ou um bicho qualquer. E se forem para longe? Não sabe que sumiu um Escoteiro no Pico do Roncador e até hoje ele não apareceu? – Agora eles perguntavam o que ela queria de natal pensando que ela mudou de ideia. Seu pai um dia disse que eles eram esquisitos, vestiam um uniforme e se achavam os tais. Ninguém sabia, mas o Pai de Mariel quando jovem queria ser um e não foi. Motivos? Ele nunca contou.

                      Mariel em seu pequeno computador leu sobre tudo o que era os Escoteiros e os lobinhos, o que eles faziam, leu as histórias dos acampamentos, de Mowgly, aprendeu as provas e se ela entrasse hoje já sabia de tudo. Havia meses que ela insistia com seus pais e eles sempre negando. Chegaram ao ponto de dizer que se ela falasse mais no assunto eles a poriam de castigo. Sua mãe foi mais amiga, explicou para ela sobre sua idade, não conheciam os responsáveis e se alguém a raptasse? Afinal eles moravam em um bairro nobre, seu pai era Presidente de uma Grande Empresa e ela seria presa fácil para sequestradores. Dizer para sua mãe que havia outras crianças iguais a ela não adiantava.

                     Uma tarde de sábado sua mãe foi com seu pai ao Mercado fazer compras. Dona Nana a cozinheira ficou responsável por ela. Mariel não perdeu tempo. Que seja o que Deus quiser pensou. Sabia ser errado desobedecer a seus pais, mas tenho que ir ela pensou. Se pelo menos eu pudesse ver o que eles estavam fazendo já seria uma alegria para mim. Pé ante pé abriu a porta da Mansão e passou sorrateiramente pela portaria do Condomínio. Sabia que não era perto. Ficava a duas quadras do seu colégio. Foram mais de uma hora a pé. Ela não sabia pegar ônibus. Não foi fácil. Era uma menina frágil. Seus pais não a deixavam participar de atividades recreativas mais pesadas no colégio. Chegou ao Grupo Escoteiro bem na hora que estavam hasteando a bandeira. Ela ficou de longe olhando. Que belo espetáculo! Seus olhos se encheram de lagrimas. Era bonito demais. E os lobinhos e lobinhas correndo para formar? Que ordem, que disciplina. Ela já sabia que iriam fazer do Grande Uivo. Quem dera eu fosse uma delas. Sei tudo de cor! Disse.

                   Esqueceu-se das horas. Quando viu estava escurecendo. Ficou olhando para eles até o final. Correu rua fora e quase foi atropelada. Chegou a sua casa já noite escura. Na porta carros de policia e de parentes. Entrou pelos fundos. – Que foi papai? Ela perguntou. – Meu Deus! Você está aqui. A mãe e o pai correram para abraçá-la. Eles choravam de emoção. Pensavam que tinha sido raptada. Mariel sabia que o lobinho diz sempre a verdade e contou tudo para eles. Contou com lágrimas nos olhos. Sabia que o castigo viria. E veio mesmo. Mais de dois meses sem computador e sem TV. Mariel não se incomodou. Não foi certo sair sem avisar, mas sabia que nunca eles deixariam ir. Todos os meses do castigo ela não parava de lembrar-se do que viu e sentiu. Ah! Se fosse verdade e eu fosse um deles sonhava.

                       Paolo, Billy e Eddy Mário iam para a reunião dos seniores. Todos eles antigos no grupo. Foram lobinhos e agora estavam se preparando para conseguir o Escoteiro da Pátria. Eram amigos desde a Tropa Escoteira. Uma amizade que perdurou por anos. Pararam no farol na esquina da Rua dos Tamoios com a Avenida Campos Gerais. Esperou o farol abrir. Era um local perigoso e com muitas batidas. Viram quando um Audi em disparada não obedeceu ao sinal e avançou a toda velocidade. Da Rua dos Tamoios um Utilitário azul da Toyota em velocidade normal viu o farol aberto e entrou. A batida foi forte. Uma verdadeira explosão. O Audi ficou completamente destruído. A Toyota rodopiou sobre si mesmo e quando parou explodiu o motor. O fogo começou. Não havia o que discutir e nem pensar. Os três correram para o Toyota que pegava fogo. O Audi não estava em chamas. Paolo com se bastão quebrou o vidro da porta do motorista e tentou tirá-lo. Não conseguiu.

                          Nada é impossível para escoteiros. Eles não deixariam o homem morrer. Alguém gritou da calçada que o Toyota ia explodir. Corram daí se querem viver! Gritaram. Billy pegou o bastão e foi para a outra porta. Quebrou o vidro e passou por ele, pois a porta estava emperrada. Cortou o cinto que estava preso com sua faca. Paolo e Eddy do outro lado arrastaram o homem para fora. O fogo aumentou. Billy sentiu seu uniforme pegando fogo. Pulou para fora do carro e se jogou ao chão rolando de um lado para outro. Conseguiu apagar, mas seu corpo teve diversas queimaduras. A Toyota explodiu a seguir. Graças a Deus ninguém morreu. O socorro chegou em seguida. O homem da Toyota estava desmaiado. No hospital Billy ficou internado por três semanas e saiu direto para a reunião de tropa. Sentia uma falta tremenda. Nunca faltou. Que chovesse canivete, mas ele estava lá na sua Patrulha Pico da Neblina.

                       Quando Billy chegou uma salva de palmas e todos correram para abraçá-lo e ele dizendo não, pois as queimaduras não haviam sarado ainda. Aceitou aperto de mão, mas fez questão de dizer que ele e os amigos fizeram o que era certo. Todos eles a sua maneira agiram como Escoteiros. A formatura estava em andamento. Billy tomou seu lugar na patrulha. Notou que chegaram um homem, uma mulher e uma menina pequena e frágil. Eles tomaram lugar na bandeira. Após a cerimonia o homem pediu a palavra. Ele era a vitima do Toyota. Ele chorava. Quase não conseguia falar. Ainda não conseguia andar direito, pois sofrera uma fratura no braço e na perna. Foi até onde Billy Paolo e Eddy estavam e lhes deu um grande abraço. – Nunca vou me esquecer de vocês! Ele disse chorando. Eu pensava que Escoteiros era uma turma de arruaceiros, de jovens sem formação. Eu me enganei. Por anos neguei que minha filha participasse.


          Mariel mudou. Agora era um lobinha alegre e cheia de vida. Como era bom saber que seus pais também ajudavam o Grupo Escoteiro. Mariel no final do primeiro dia de reunião se ajoelhou quando os lobinhos e lobinhas faziam o Grande Uivo e mesmo sabendo que ela só iria participar depois da promessa, Mariel rezou. – Obrigado meu Deus! Consegui! Meu sonho se concretizou. – Todos olharam para ela espantados. Ela levantou, sorriu e gritou bem alto – “Melhor Possível”! Agora sou uma lobinha, e prometo a mim mesma que serei escoteira por toda a vida.


Mais um conto mais uma história enaltecendo escoteiros. Eu sei como eles são. Fui um deles. Aprendi muito na vida e neste conto a história é quase real. Gosto disto escrevo com gosto e sempre com um sorriso nos lábios. Quem dera eu tivesse a sina dos grandes fazedores de sonhos, para encantar e fazer do escotismo uma verdadeira escola de amor de fraternidade. Fiquem a vontade para ler. São meus convidados.

domingo, 2 de abril de 2017

O perdão vem do céu.


Lendas Escoteiras.
O perdão vem do céu.

                       Dolores desceu do ônibus na Rua Santo Inácio. Precisa achar a casa de Dona Ana que lhe ofereceu emprego de doméstica. Com surpresa viu um menino uniformizado de Lobinho e sorriu. Lembrou-se de Juanito. – Mamãe quando eu crescer eu quero ser Lobinho! Ele lhe dissera com voz doce. Quem podia imaginar que ele partiria para o céu em pouco tempo? Não encontrou a rua que procurava, mas viu o menino entrar em um portão onde parecia ser um Grupo Escolar. Alguma coisa a empurrou até o portão. Entrou. Vi dezenas de meninos correndo, brincando e cantando. – Então era assim que eles viviam? Viu um banco de madeira e lá se aboletou. Absorta nas brincadeiras dos jovens ela não notou um homem maduro, bem uniformizado sorrindo para ela. Quanto tempo alguém não sorria assim.

                        - Boa tarde Senhora. Há que devo a honra de sua visita? – Dolores assustou. Ninguem nunca fora assim tão educado e cavalheiro deste que... Melhor nem lembrar. – Ele gentilmente continuou: - Olhe fique a vontade, mas se quiser saber mais sobre os escoteiros estou pronto a lhe dar todas as informações! – Ela sorriu e agradeceu. – Moço, eu só estou olhando. Meu filho um dia me disse que quando crescesse queria ser um lobinho. – Ora, ora, mas que surpresa. E onde ele está? – Lágrimas começaram a cair e Dolores pensou em ir embora. – Não vá Senhora, desculpe se a fiz recordar o que não queria. Fui indelicado. Posso lhe oferecer um café? Tenho lá na sede. Por favor, me acompanhe!

                          Dolores se sentia saudosa e lisonjeada. Quanto tempo um homem não falava assim para ela? Será que todos os chefes escoteiros são cavalheiros como ele? – Foi com ele até a sede. Após o café sentaram na varanda onde dava para apreciar a movimentação das tropas e alcateias. – Senhora, meu nome é Estefan, me chamam de Chefe Granada, quem sabe pelo meu nome, pois meus pais eram espanhóis. Sou o Diretor Técnico e sou Escoteiro desde criança. – Ele com toda simpatia contou e explicou o que é o escotismo, como surgiu e o que como pode ajudar aos jovens. Dolores se sentiu outra mulher. Não queria fingir, aquele homem a estava tratando tão bem que devia ser mais correta com ele contando a verdade. Mas valeria a pena? Ela sabia que quando soubesse iria sorrir de maneira diferente se despedir e dizer que poderiam conversar outro dia.

                        - Senhor Estefan, disse ela. – Ele sorriu e retrucou; - Nada de Senhor, Chefe Granada ou Estefan simplesmente. – Desculpe, Chefe Granada é melhor. E riu. Quanto tempo ela não ria? – O senhor está sendo tão sincero que quero lhe contar que sou. Acabei de sair da prisão. Estou em liberdade condicional. Por quê? Meu filho Ruanito tinha leucemia. Os médicos diziam que não tinha volta. Ele morreria em pouco tempo. Eu trabalhava em uma gráfica com pouco salário nada podia fazer. Tinha um namorado. Um marginal. Eu não sabia. Um dia me disse que eu poderia embolsar quinze mil reais. Daria para pagar uma viagem aos Estados Unidos e eles verem se Juanito poderia ser curado. – Fácil Dolores. Você vai levar drogas para a Holanda e olhe, é muito difícil a policia descobrir.

                       – O dinheiro me subiu a cabeça. Meu filho valia qualquer sacrifício. Aceitei, deixei Ruanito com uma amiga. Seriam dez dias ida e volta. Fui presa no aeroporto de Cumbica. Foram oito anos na penitenciaria de Avanhandava. Apanhei, sofri e até hoje nem sei se paguei meus pecados. Juanito morreu um mês depois. Sai em liberdade condicional. Estou tentando um trabalho, pois é difícil conseguir aqueles que saem da prisão. Todos tem medo de mim. Ficam longe. Amigos e amigas que tive se afastaram. Meu antigo namorado foi morto pela polícia. Dolores chorava. Levantou e disse que iria embora. Ele não precisava se preocupar. Chefe Estefan ou Granada se levantou. – Calma. Aqui ninguém a condena. Fique mais um pouco, eu a levarei em casa.

                       Os tempos passaram. Quem me contou esta história não ficou sabendo o final. Um dia o encontrei em uma barcaça no São Francisco rumo a Juazeiro. Ele me apresentou a um casal. – Chefe Vado Escoteiro, quero lhe apresentar Dolores e o Chefe Granada. São casados e aqueles jovens rindo ali na proa são seus dois filhos. – Fiquei estupefato. Mais tarde ele me contou que o Grupo não aceitava aquela união. Quiseram forçá-lo a pedir demissão. Ele não aceitou. O distrital entrou no meio exigindo sua exoneração. Ele contratou um advogado. Ameaçou ir aos jornais contar tudo. Não seria bom para a UEB. Ninguém disse mais nada. Ela ama o escotismo e mesmo com muitos lhe virando as costas ainda é Chefe. – Ele me disse que não deixaria seus meninos por nada.


                       Apenas uma história. O amor acontece quando se acreditam quando a confiança, quando ele é maior que tudo. Perdoar não é só no céu. Na terra existe o perdão e ele é maior ainda quando existe o amor. – A prisão não são as grades, e a liberdade não é só a rua. Existem homens presos na rua e livres na prisão. É uma questão de consciência. Recomeça... Se puderes, sem angústia e sem pressa e os passos que deres, nesse caminho duro onde quase não se vê o futuro, dá-os em liberdade, enquanto não alcance não descanse de nenhum fruto queiras só a metade... E Eles foram felizes para sempre! 



Dolores sem perceber entrou em uma reunião de escoteiros. Seu filho morto um dia sonhou ser um. Ela tinha uma história. Viveu por oito anos em uma prisão. Sabia que nunca iria recuperar seu nome. Sua vida findava. Porque ninguém perdoa um presidiário? Vai ser sempre bandido? Uma historia onde dirigentes escoteiros lhe viraram as costas. Mas ouve um chefe. Um chefe de verdade que lhe deu a mão. São meus convidados e se quiserem podem comentar o que fariam se acontecesse em um grupo de vocês!

sábado, 1 de abril de 2017

A dor sofrida de Tonico Tonelada.


Lendas Escoteiras.
A dor sofrida de Tonico Tonelada.

                   Para Lawrence foi a pior reunião de Corte de Honra da sua vida. Pela primeira vez não sabia o que fazer. Tinha orgulho dos seus monitores e sempre achou que os treinou bem. Fazia questão da lealdade, da fraternidade e eles sempre levaram ao pé da letra seus ensinamentos. Era uma tropa exemplar. Nos acampamentos era difícil escolher a melhor patrulha, todas excelentes. Dona Lurdinha Diretora do Colégio Dom Pedro dizia sempre que se não fossem os Escoteiros ela nunca teria alcançado o padrão que o Colégio foi agraciado. Para melhorar a formação da tropa ele investiu muito em sí próprio. Cursos e mais cursos. Agora esperava a aprovação da Insígnia da Madeira mais uma etapa em sua vida e muito cobrada pelos monitores.

                  - Chefe, disse Monsanto da Águia, quer acabar com a tropa? Admitir o Tonico Tonelada é acabar com tudo. Eu o conheço da escola, fico com pena, mas ele não tem amigos. Não pode correr, quase não consegue falar e andar. Quando tenta sorrir faz uma careta que dá medo. – Isto mesmo Chefe, disse o Logaritmo Monitor da Leão, se o senhor quiser tudo bem, ele pode ficar na minha patrulha, mas os demais patrulheiros não irão gostar. Garanto que muitos vão desistir. A patrulha não vai poder mais competir em jogos, em acampamentos e o senhor sabe ninguém gosta de perder. Tonico Tonelada Chefe irá “enterrar” qualquer patrulha que entrar. – Chefe Lawrence não sabia o que dizer. Cada Monitor expos seu ponto de vista. Desta vez os sub. Monitores estavam presentes. Disseram o mesmo. Para ele a Corte de Honra era sagrada. Sabia que a democracia era à base de sua existência.     

                   Dizem que os gordos odeiam ser gordos. Quantos e quantos meninos gordos estão aí querendo ser Escoteiros e tem vergonha de entrar? Sei que tem muitos que deram um passo e hoje participam ativamente. Ativamente? Bem esta é outra história. Seu nome era Laurindo Boaventura. Desde que conseguiu dar seus primeiros passos aos três anos puseram nele o apelido de Tonico Tonelada. Acho que foi o Chinfrim, seu tio. Um “bebum” para ninguém botar defeito. Bebia o dia inteiro. Que eu saiba nunca ficou sóbrio, mas coitado dele, morreu de cirrose com 28 anos. Tonico Tonelada nunca se preocupou com o apelido. Ele sabia que era gordo e foi seu pai quem fez uma cadeira especial para ele frequentar as aulas. Aos sete anos ele pesava mais de 130 quilos. Incrível como conseguia andar. Os pais de Tonico Tonelada tentaram tudo. Oito SPA, internações em clínicas especializadas, Conseguiu ficar um mês e meio no CCA (Comedores Compulsivos Anônimos), mas logo desistiu.

                      O Doutor Cazuza aconselhou – Precisam procurar uma organização de jovens para motivá-lo. Sem isto ele não vive muito tempo. Tem de comer menos, se não perder pelo menos 40 quilos daqui a alguns anos não anda mais. – Qual doutor? Perguntou dona Matilde sua mãe. – Não sei Jiu jitsu, Luta livre, boxe ou quem sabe o Sumô? – Assim o fizeram. Não ficou em nenhum deles. Sem saber o que fazer uma vizinha disse – Porque não procura os Escoteiros? Sei que eles recebem bem todo mundo, quem sabe ele se anima e nas excursões e acampamentos ele emagrece. Meu sobrinho é um deles e diz que nos acampamento a comida é ruim e todos comem pouco. Se foi por isto ninguém soube, mas levaram Tonico Tonelada no grupo Escoteiro.

                  Chefe Marcelio ouviu o que os pais diziam. Eles contaram toda a vida de Tonico Tonelada, os médicos, os conselhos e agora sabiam que a vida dele estava por um fio. Tinha de emagrecer. – Senhor Natal, disse o Chefe Marcelio, sei que é uma situação difícil, mas veja nossa situação – Durante uma hora o Chefe Marcelio narrou como era às atividades escoteiras, as excursões, os acampamentos e no final perguntou – E então? Ele vai aguentar? Quem sabe a emenda pode ficar pior que o soneto? Muitos irão sair porque sabem que ele vai ser sempre um perdedor. Chefe Marcelio não queria dizer isto e se arrependeu. Fez então uma promessa – Olhe, vou conversar com os chefes e os monitores. O que eles decidirem eu comunico a vocês.

                  Chefe Lawrence ouviu atentamente o Chefe Marcelio. Como era um bom homem não disse nem sim e nem não. Iria analisar e discutir com a tropa e os monitores. Assim foi feito. Agora que todos foram contra ele não sabia o que fazer. Na semana foi fazer uma entrega de sua loja na Rua do Ouvidor e ao descer da Van viu Tonico Tonelada atravessando a rua. Motoristas passando e chingando – Paspalho! Gordo! Vai sujar meu carro de merda se eu passar em cima de você! Ficou com pena. Pensou consigo que ele devia ter seus direitos. Era um ser humano. Conversou com Verinha sua esposa. Ela aconselhou a ele estudar tudo sobre os gordos na internet e os que conseguiram vencer sua doença, pois ele sabia que era assim. Na semana tirou uma hora por dia para conversar com alguns que passaram por isto.

                  Era o primeiro dia de reunião de Tonico Tonelada. Resolveram fazer uma votação e ela foi de 15 escoteiros a favor e 13 contra. Prometeram ajudar durante seis meses e se não desse resultado infelizmente seria dispensado. Foi feito uma programação especial para ele não se sentir isolado. Dependia dele ser um Escoteiro ou não. Ele assinou um compromisso de honra. Fez a saudação escoteira e prometeu fazer tudo que os médicos aconselharam para perder peso. Quer ser Escoteiro? Se acha que quer tem de se esforçar. Disse Pintarroxo o Monitor da Falcão onde ele iria ficar.  Cada patrulha fazia questão de acompanhar. Não foi fácil e ele sentia fome, sentia tremedeira e chorou muitas vezes. Mas no primeiro mês perdeu oito quilos. Em seis meses Tonico Tonelada atingiu a marca de 85 quilos. Ainda era muito. Ele tinha de chegar nos 60 quilos. Difícil? Para Tonico Tonelada não. Quando ele conheceu os Escoteiros ele sabia que ali compromissos eram levados a sério. Escoteiros enfrentam desafios e não correm deles. Viu que tinham um código de honra e ele gostava disto. O Chefe Lawrence no primeiro dia disse a ele – Tonico é melhor ficar sabendo agora, qualquer um pode entrar como Escoteiro, mas ser Escoteiro não é para qualquer um!


                  A cidade aplaudiu, o colégio agradeceu e os Escoteiros do Brasil agora tinham em seu seio um verdadeiro jovem cujo Espírito Escoteiro era ponto de honra. Uma lei é para ser cumprida, uma promessa era para ser levada a sério. Tonico Tonelada conseguiu vencer. Ainda bem que os Escoteiros não fugiram na hora do apoio.  É meus jovens amigos, afinal não foi Baden-Powell quem disse que só os valentes entre os valentes se saúdam com a mão esquerda? 


Qual Tropa não tem um escoteiro gordinho? Dizem que são animados e tentam acompanhar... Mas é difícil. Eles sempre ficam para trás nas jornadas, no campo de patrulha colabora com o cozinheiro e mais nada. Esta é a hora certa para um bom monitor mostrar que para tudo tem uma solução. Tonico Tonelada foi um deles. Com muito esforço conseguiu vencer sua adversidade. Quer saber como? Leia a história.