Histórias e contos escoteiros.

Histórias e contos escoteiros.
Feitas para você se divertir!

sexta-feira, 31 de março de 2017

Carta de um Escoteiro 2° classe.


Carta de um Escoteiro 2° classe.
(Conto de autoria do "Chefe" Escoteiro Sergio Augusto Vanti)

Nada jamais continua. Tudo vai recomeçar! E sem nenhuma lembrança das outras vezes perdidas, atiro à rosa do sonho nas tuas mãos distraídas.

Querido papai

Andava eu pelas ruas como faço habitualmente buscando algum biscate que me permitisse beber um gole a mais... Tu sabes como sou. Deparei-me com a sede de meu velho grupo Escoteiro. A porta estava aberta, entrei tudo abandonado, cheirando a velho e mofo. Senti como um baque, um murro no peito a dor no coração. Vi-me menino em meio aos bons camaradas da patrulha, a formatura, os gritos de tropa, os jogos... Súbito alguém me chama pelo nome, me viro olho quem me chama.

 Surpreso, meio envergonhado vejo que é Mauro, meu antigo monitor. - José és tu mesmo? Mas quantos anos, que fazes aqui? - Um estrondoso silêncio é minha única resposta. Chega! É demais, viro as costas saio correndo o passado me afoga em meio a doces e dolorosas lembranças.

       Papai tu lembras quando eu era um menino, levaste a mim e meu irmão ao grupo escoteiro, pela primeira vez? Lembra que me contavas como sonharas em ser escoteiro e tua pobreza nada te permitia senão estudar e ajudar em casa? A tua alegria quando teus dois amados filhos te disseram “Sempre Alerta”? Eu me lembro de papai, isto eu não esqueci. Lembro-me da fé que tinhas no escotismo e dizias sorridente: - O velho BP sabia das coisas, “Os escoteiros podem guiar a nação”.

       Lembro-me do teu orgulho, não cabias em ti de felicidade no dia de nossa Promessa. Meu coração saindo pela boca, à seriedade de meu irmão, eu dizendo “Prometo por minha honra cumprir os deveres para com Deus, a minha Pátria e o próximo... Lembro, pai, naquele dia te vi chorar, quando me pusestes o chapelão. Só tinha te visto chorar uma vez, quando mamãe faleceu”.

       Corro para minha casa imunda, bato a porta, não consigo parar de chorar. Pai, a muito não cumpro minha promessa feita a Deus, a Pátria e a ti. - Lembro-me do dia em que te falei: - Vou deixar a Tropa Sênior. Tu me perguntaste, por que meu filho? Até hoje não sei, pai. - Do dia em que te disse: - Não vou estudar mais. Do dia em que saí de casa.

Voltei para te ver quando quase já não estavas aqui e partiste com tua mão entre as minhas, um sorriso no rosto cansado, dizendo, Sempre alerta, querido.

Como pude como pude ser tão mau filho, tão pouco escoteiro?

       Tiro debaixo da cama uma velha mala com as poucas coisas que não vendi. Roupas, fotos amareladas, uma faca, lembrança da segunda classe, e meu uniforme cáqui, meu querido uniforme que eu desonrei os distintivos, o numeral. Lembras papai, com que felicidade nos entregou as custosas fardas, que no dia a dia de homem simples economizaste para mandar fazê-las?

Queria ver teus filhos, garbosos escoteiros. Estendida sobre a cama, encharcada de um pranto incontrolável, tento sentir as pontas de teus dedos no pano que muitas vezes tocaste, muitas vezes abraçaste com tanto carinho ao final de cada reunião.

       Pai, como errei tanto? Serei passível de perdão? Olho para o puído distintivo de Promessa sinto a dor abrasar meu coração. Devo estar ficando louco. Como uma adaga perfurando um corpo sedento de redenção... Sinto-te soprar em meu ouvido: - Filho, sempre é tempo de cumprir nossa promessa!

Alucinado arrependido em doloroso despertar, entre soluços jogo-me de joelhos ao sujo piso, ergo a voz com o fervor de uma oração. Neste momento abençoado, eu renovo minha promessa, redimir-me hei de minhas faltas, deixarei esta maldita vida, cumprirei os meus deveres!

Por ti, meu amado pai, pelo escotismo, pelo Brasil!

 Palavra de escoteiro! - Sempre alerta, querido papai.

Teu sempre, José.


- Escrevi este pequeno conto há tempos. Dedico a meu amado pai, e aos verdadeiros amigos escoteiros que me acompanharam nesta renhida luta de educar, em especial a Elisa, Bepinho, Augusto, Marques, Michel, George, Júlio, Tiarles. Vocês moram em meu coração! – Sergio Vanti.


 Sergio Vanti escreveu este conto há muito tempo. Desafiei alguns amigos a me mandarem seus contos para publicar e Vanti aceitou o desafio na hora. Uma história perfeita, e por isto resolvi publicar novamente depois de anos. Sergio foi um baluarte do Grupo Escoteiro Voluntários da Pátria. Espero que gostem, eu gostei demais e já disse ao Vanti que devia se dedicar mais a escrever histórias e contos escoteiros. 

quinta-feira, 30 de março de 2017

Mortimer, um lobinho amigo do além.


Lendas Escoteiras.
Mortimer, um lobinho amigo do além.

Coveiro.
Numerar sepulturas e carneiros,
Reduzir carnes podres a algarismos,
Tal é, sem complicados silogismos,
A aritmética hedionda dos coveiros!

Um, dois, três, quatro, cinco... Esoterismos
Da Morte! E eu vejo, em fúlgidos letreiros,
Na progressão dos números inteiros
A gênese de todos os abismos!
Augusto dos anjos.

                     Mortimer era um infeliz. Era filho de Lomanto da Paz o coveiro do cemitério Flores Singelas. Na escola ninguém se aproximava dele. Tinham medo. Diziam que ele falava com os mortos. Não era verdade, mas que acreditaria nele? Sua casa ficava dentro do cemitério e mesmo linda, pintada de azul e branco com muitos manjericões e rosas brancas que seu pai plantava e cuidava com carinho, ninguém nunca pediu para conhecer onde morava. Sua mãe morrera quando nasceu. Seu pai o adorava e o tratava com carinho e um amor enorme. – Mortimer meu filho, um dia vão reconhecer que seja onde for a nossa casa é sagrada. Mas não adiantava o pai falar - Pai! Nós não recebemos visitas! Por quê? – Lomanto olhava seu filho e mesmo querendo explicar que todo mundo um dia iria morar ali, ninguém gostava de tocar no assunto. A morte sempre assustou os vivos.

                   Uma menina de cabelos loiros foi transferida para sua sala. Ele a olhava e quando ela olhava para ele ficava sem jeito e virava o rosto. No recreio ela o procurou. – Quer brincar? Mortimer assustou. Ele no recreio era um eterno esquecido. Ninguém nunca o chamou para brincar. Ficava sempre em um canto olhando todos correndo e sorrindo. Ela o pegou pela mão e começou a correr – Vamos! Tente me pegar! Foi o recreio mais lindo de sua vida. – Pai! Pai! Ele chegou correndo para contar – Pai eu agora tenho uma amiga! Lomanto riu e abraçou seu filho. Os outros jovens da escola olhavam o par com indiferença. Não diziam nada. O boato que corria é que se mexesse com ele os defuntos viriam à noite em seu quarto para puxar o pé. Um dia Noêmia o convidou para ir visitar sua alcateia. – O que é isto? Perguntou. – Uma escola diferente. Nada de carteira. Nada de quadro negro. A professora lá se chama Akelá. Ela tem ajudantes. Cada um tem um nome de bichos da floresta. É como se nós vivêssemos em uma grande floresta.

                  Noêmia contou muita coisa. Mortimer ficou perplexo com o que ela contava. Havia um herói menino chamado Mowgly. Ele se perdeu na floresta e foi adotado por uma Alcateia de lobos. Todos eram amigos dele. Outros animais o protegiam. O Balu um urso grande e peludo, a Baguera uma pantera negra enorme, Hati o elefante e uma grande cobra píton chamada de Kaa. Mortimer queria saber tudo. Noêmia o convidou para ir com ela sábado ao grupo escoteiro. Seu pai foi junto. Vestiram a melhor roupa que usavam na missa dos domingos. Mortimer ficou com medo quando chegou lá. Centenas de meninos vestidos de azuis e outros de cáqui com chapelão. Ele se assustou. Sabia que todos conheciam o Menino do cemitério. O menino que fala com os mortos. Engano. Ninguem disse nada. Foi recebido com palmas. Mortimer chorou de alegria.

                   Em casa falou para seu pai – Pai! Eu nunca pensei que fizesse tantos amigos em um só dia! – Filho, o mundo é bom, tem aqueles que não te conhecem e te julgam pelo que ouvem ou veem sem olhar o coração das pessoas. Mortimer dormiu feliz. Sonhava com o próximo sábado. Sonhava em ser mais um na Roca do Conselho. Disse para si mesmo que em breve estaria de azul e a gritar junto a todos no Grande Uivo. Mortimer passou a sorrir também na sala de aula. Chegava perto de muitos da classe e dizia, eu sou lobinho, lá eles são meus amigos. São felizes como eu. Eles cantam, dançam e sabem que a verdadeira amizade nasce de dentro do coração. Mesmo vocês não sendo meus amigos o Balu meu protetor me disse que não importa o que pensam de você, importa o que você pensa deles. E eu sou amigo de todos! – Toda a classe passou a ver Mortimer como mais um deles. Não era mais o filho do coveiro.

                  Dizem, eu não sei e nem posso afirmar que todos os domingos o Cemitério Flores Singelas enchia de meninos que vão lá brincar nos arvoredos, no pequeno regato que nasce atrás das montanhas e eu soube que agora toda a cidade vê com outros olhos o lobinho Mortimer e seu pai Lomanto da Paz. Dizem também e eu não sei se é verdade que aprenderam uma lição com os Escoteiros. Eles e os lobinhos fazem questão da amizade. Dizem na cidade que lá todos que entram passam a ser irmãos. Até contam em rodas por aí que eles tem um pacto e quem entra passam a ser irmão de sangue para sempre. Agora que Mortimer cresceu e se casou com Noêmia disto eu tenho certeza. Que tiveram quatro filhos e Mortimer ainda mora no cemitério e é feliz eu também sei. Escotismo é assim, quem não tem amigos lá encontra um montão.


                  Esqueci-me de dizer que Mortimer hoje é o prefeito da cidade. A prefeitura vive cheia de Escoteiros e na porta tem uma grande placa escrita – Lord Baden Powell, cidadão do mundo, O Escoteiro Chefe Mundial e amigo e irmão de todos. Falar mais o que? Escotismo é coisa que marca que entra em nós para sempre. Dizer que somos aventureiros que somos Escoteiros e vivemos para ajudar o próximo é falar o obvio. Mortimer hoje corre o mundo dando palestras. Tornou-se um professor de história e escreveu muitos livros. Ninguem mais o chama de o amigo dos mortos, mas sim de o amigo do mundo. Graças a Mortimer eu também sou Escoteiro e esteja ele onde estiver receba meu abraço apertado, meu aperto de mão esquerda e meu Sempre Alerta!

Mortimer morava com seu pai dentro do Cemitério Flores Singelas. Todos tinham medo dele. Na escola não tinha amigos. Até que um dia uma Lobinha sorrindo o convidou para ser mais um da Alcatéia de Seeonee. A vida de Mortimer mudou. Quer conhecer a história? Você é meu convidado. Leia e se sinta também amigo de Mortimer!

quarta-feira, 29 de março de 2017

Zezito Escoteiro e Corneteiro.


Lendas escoteiras.
Zezito Escoteiro e Corneteiro.

                      Era uma tropa Escoteira diferente. Hoje acho que poucos poderiam aceitar o que faziam. Mas olhem, os meninos amavam aquela tropa, e o grupo então? Suas patrulhas eram praticamente autônomas. O Chefe Flores pouco ia lá. Era mais procurado em sua casa. Ele era Chefe também dos seniores e sua esposa dona Clélia era a Chefe dos lobos. Ele e ela e mais ninguém de adultos. Diretoria? Risos. Passou longe. Também não precisavam de dinheiro. Os pais eram vizinhos, cidade pequena, todos se conheciam e todos sabiam de tudo.

                     As reuniões eram aos domingos isto quando alguma Patrulha ou mesmo a tropa não estava acampando. Neuzinho era o guia da tropa. Quando acampavam ele dirigia. Programa? Faziam na hora. Viviam fazendo pioneirias, treinando Morse, semáforos, atravessando rios e gargantas profundas nos vales da redondeza em falsas baianas num comando Crown primoroso. Adoravam ficar pescando, preparando armadilhas para o assado da noite, observar os pássaros, aproximar de um alce qualquer. Acariciar um lobo, um Martin Pescador, decorar as estrelas, aprender a Rosa dos Ventos, saber o que era Azimute, percurso de Giwell e seguir mapas. Portanto para que programa?

                      Zezito, no entanto alem de amar de coração sua Patrulha tinha uma paixão. Sua corneta. Deu duro para conseguir. Precisava provar ao Maestro Munir que daria conta do recado. Ele a levava para casa e para não atazanar os vizinhos, ia para a beira do rio treinar. Desde que entrou nos escoteiros que sonhava em tocar uma corneta. Ele se lembrava dos desfiles, dos meninos escoteiros corneteiros. Admirava ver os escoteiros obedecendo a um toque da corneta. Dava a sensação de ser o Chefe, de comandar. E o toque de silencio ou a alvorada? Era demais quando acampava todo grupo e sempre tinha um corneteiro de plantão.

                   Todas as quartas feiras a “Banda” se reunia próximo à sede no campo do Marimbondo Futebol Clube. Era ali que ele pegava sua corneta com gosto e tocava. Mestre Munir um Pioneiro era o responsável pela “Banda”. – Zezito, enquanto você não ter “embocadura” não pode ser um corneteiro. No início não entendeu, mas quando começou a tocar sua boca inchava e não saia nenhum som.

                      Achei que Zezito ia desistir. Um ano e ainda não aguentava tocar mais que dois ou três toques. Mas ele era insistente. Pediu para Nelsinho o Monitor se podia levar a corneta para os acampamentos. – Nem pensar Zezito. Banda é Banda, acampamento era acampamento. Seu grande dia chegou. Pediu ao Mestre Munir que fizesse um teste com ele. Passou. Agora era um dos quatro corneteiros da Banda. Que orgulho em vestir o uniforme, colocar a luva branca, fazer firulas com a corneta (o que fazia muito bem) e tocar. Agora precisava ser o corneteiro mor. Seria difícil. Só se O Matheus e o Onofre saíssem da banda. Coisa impossível de acontecer.

                     O Chefe Flores como fazia todos os anos combinou um acampamento fora da cidade. Desta vez iam a Alcântara da Cunha. Soube que planejavam montar um grupo e convidaram o Tiradentes o grupo dele para ser o padrinho. Como sempre conseguiram um vagão de Primeira Classe com exclusividade. Só para eles. Para dizer a verdade, tinha mais de cento e vinte meninos. De adultos só o Chefe Flores e dona Clélia. Claro que o mestre Munir ia junto, mas ficava só com sua Banda. Não se sabe por que, mas na última hora o Matheus e o Onofre não puderam ir. Pegaram uma gripe forte e isto foi motivo de tristeza para o Mestre Munir. – Zezito, vais ser o Corneteiro mor. Não me envergonhe, por favor!

                       Que honra! Nunca Zezito teve tanta felicidade na vida. Melhor que quando recebeu o nome de Guerra de Irapuã no Fogo do Conselho. Conseguira acender o fogo com um só palito e não teve nenhuma dificuldade. Agora era outra coisa. Limpou e passou pasta de dente em toda extensão da corneta. Era o que se usava na época para dar brilho. No trem não tocou. Cantou como todo mundo. Quando chegaram a Alcântara da Cunha, formaram para o desfile até o local do acampamento. Atravessaram meia cidade. Zezito como Corneteiro Mor ia ao lado do Mestre Munir. Ao passar em frente ao palanque era hora do toque a autoridade. Zezito se empertigou, fez sua melhor firula com a corneta. Ficou em posição de sentido e tocou. E como tocou. Olhou a todos os pelotões de escoteiros que passaram a se formar em circulo e cantar o Rataplã. Por quê?

                       Zezito Corneteiro errara o toque. Em vez de tocar a saudação a autoridade tocou formação em circulo e cantar. No palanque ninguém entendia nada. Mas acharam que aquilo era Escoteiro e aplaudiram. Mestre Munir ficou vermelho como um tomate. Tomou a corneta de Zezito. Ele chorou e como chorou. Na volta o passaram para Tarolista. Nunca mais tocou uma corneta. Pensou em sair do escotismo. Mas insistiu. Cresceu, foi servir o exército. Passou a Cabo Corneteiro. Tocou com todo o batalhão para o Presidente da República o toque da saudação a autoridade. Era tudo na vida de Zezito.


                      Nunca abandonou o exército. Está lá até hoje como Cabo Corneteiro. O Major Fidelis queria promovê-lo a sargento. Mas teria que largar a corneta e isto ele nunca faria. Assim termina a história. Um menino que foi Escoteiro, mas seu sonho mesmo era ser corneteiro. Dizem eu não sei que nem aposentar quis. Já "Velho" começou a perder os dentes. Não tocava como antes, mas era o responsável pelos demais corneteiros. Morreu tocando a Saudação à autoridade num outono em Brasília durante um desfile de Sete de Setembro. Viva Zezito, o Escoteiro Corneteiro que morreu feliz.        


               Apenas uma historia simples sem firula a não ser quando a corneta soltava gorjeios no ar. Zezito nos velhos tempos existiu para alegria dos seus amigos quando menino e para orgulho dos militares que o viam como o melhor corneteiro do mundo. Leiam a história. Saibam que isto dificilmente acontecerá novamente. 
     

terça-feira, 28 de março de 2017

As nuvens de Outono.


Lendas Escoteiras.
As nuvens de Outono.

               Posso te ajudar meu Filho? – Me ajudar? Olhei para o Padre sem nada dizer. Nem sei por que entrei na igreja naquela tarde de outono modorrenta de um mês de agosto cujo ano nem me lembrava. Estava desanimado, apático, sonolento e forçando meu pensamento a procurar no passado quem era eu. – O Padre repetiu: - Filho, esta é a casa de Deus. Quem sabe se eu não puder Ele pode te ajudar? Senti-me indiferente com suas palavras. – Ele me deixou sozinho. Quieto no último banco pensei em orar, mas não sabia como. Tristonho, querendo saber quem eu era e o que estava fazendo ali. Vi que estava sobre a Nave, bem na ala central onde a maioria dos fieis se reúnem, mas vazio naquela hora. Porque não disse para ele que estava tentando lembrar e nem sabia quem era eu? No lado direito vi uma imagem da Virgem Maria. Levantei-me e fui até ela, pois alguma coisa me dizia que ela sim poderia me ajudar.

                    Ajoelhei-me a sua frente. Meu corpo tremeu e senti que a vida é como o brilho de um relâmpago no céu. Minhas memorias tinham sido levadas por uma torrente montanha abaixo. Pensei em sair dali, mas ir para onde? Uma luz ascendeu a minha frente e ouvi sua voz repetindo o que já tinha me dito um dia: - Quero apenas cinco coisas... Primeiro é o amor sem fim, à segunda é ver o outono e a terceira é o grave inverno. Sua imagem surgiu em meu pensamento. Aurora! Quem seria? Uma doce namorada? Uma amiga? Alguém que repartia comigo sua vida? Ah! Nossa existência é transitória como as nuvens de outono. Não importa o nascimento da vida ou a morte irreversível que nunca nos deixará fugir. – Pai! Porque se foi? – Impossível! Aurora era do meu sangue. Minha irmã? Minha filha? Eu tinha de descobrir.

                   Um leve perfume de rosas vermelhas adentrou na igreja. Petulantemente olhei quem era. Uma menina moça de uniforme Escoteiro. Escoteiro? Como eu sabia? Já tinha sido um? Quando algo que você goste acabar, ou simplesmente ir embora, lembre-se que as folhas do outono não caem porque querem e sim porque é chegada a hora. Ela sentou ao meu lado, mas não me olhou. Parecia que falava comigo, pois num sussurro calmo a ouvi dizer: - Repara que o outono é mais uma estação da alma do que da natureza. – O que ela queria dizer? Seus olhos negros me fitaram: - Chefe! Está na hora de voltar! – Voltar? Para onde? – Ela se levantou e de novo me disse: Chefe é hora de voltar. De novo Aurora me apareceu e eu só via uma menina, pequena, sorrindo e nada dizia nada falava. Ouvi alguém sussurrando novamente: - “Porque de uma coisa a gente sabe, a vida é injusta e quem devia ficar sempre vai.”.

                      Lembrei que tinha um carro. Verde abacate. Devia estar em frente à igreja. Levantei e o padre veio me dizer adeus. – Vá devagar Chefe, não corra, a vida continua e tem alguém a lhe esperar! – Olhei para ele, sorriu e se foi sem me explicar porque disse aquilo. Vi meu carro embaixo de uma árvore. Dizem que uma árvore em flor fica despida no outono. A beleza transforma-se em feiura, a juventude em velhice e o erro em virtude. Nada será sempre igual e por sinal nada existe realmente. Abri a porta, sentei, coloquei as mãos no volante e uma estrada me apareceu dizendo que era por ela que devia voltar. Do outro lado da rua a Escoteira sorria e me acenou. Parti a procura da estrada do meu retorno. Embalado por mãos invisíveis cheguei à outra cidade. A reconhecia. Era a minha cidade. Muitos vieram à porta para me ver. Quem era eu? Quem poderia ser para ser tão aplaudido silenciosamente por muitos?

                     Parei em frente a uma casa. Uma casa simples, branca, janelas e portas azuis. Parecia ter sido pintada de novo. Quantas flores em volta mesmo sendo outono. Na varanda vi Aurora. Linda, uma menina tão linda que comecei a chorar. De alegria por ter retornado. Nunca devia ter partido. Meninos e meninas Escoteiras surgiram em todas as esquinas. Alguém falava alto para todos ouvirem. - Ele voltou! – O Chefe está de volta! Minha mente embaralhava. Aos poucos comecei a recordar. Saudades de novo entraram em meu coração. Olhei para o alto, Maria Rosa sorria. Era como uma nuvem de outono me acenando. Lembrei-me de tudo. Ela tinha partido. Doutor Donato chegou para tentar me acalmar. Só me disse com os olhos rasos d’água: “Chefe porque de uma coisa a gente sabe, a vida é injusta e quem ficar sempre vai”. A mulher da minha vida tinha partido me deixou sem dizer adeus. Um ataque fulminante. Uma jovem de vinte e dois anos partindo assim era para eu morrer em seguida.


                  Aurora correu a me abraçar. Uma coisinha pequena, linda demais. Escoteiros e Escoteiras me abraçando. Todos dizendo que eu fiz muita falta. Eu queria chorar, mas Maria Rosa na nuvem branca do céu disse que não. Disse que eu tinha de refazer minha vida. Olhei para Aurora ela me apontou: - É sua razão de viver. E completou: - Quando algo que goste acabar ou for embora se lembre das folhas de outono. Elas não caem porque querem e sim porque chegou a hora! Na entrada da cidade vi o Padre acenando. Como ele chegou aqui? – Pai, nunca mais me deixe só! – Olhei para Aurora. Chorando a abracei com força e a beijei como se estivesse beijando alguém que fazia parte de minha vida para sempre. Os meninos e meninas Escoteiras gritavam palavra de ordem. – Ele voltou! Nosso Chefe chegou para nos dar o amor que sempre deu! Agradeci e entrei em casa. Era outra casa, quando parti era penumbra agora era luz, era vida, ali morava o amor!


Quando algo que você goste acabar, ou simplesmente ir embora, lembre-se que as folhas do outono não caem porque querem e sim porque é chegada a hora. 'Não esqueça a sua história é você quem faz. Só depende de você. Na vida não importa como somos, o que vale é que alguém nos aprecie e nos aceite, amando-nos incondicionalmente! – Mais uma historia escoteira que foi escrita para você lembrar que a vida continua, aconteça o que acontecer.

segunda-feira, 27 de março de 2017

Meu amigo... O chefe Bola Branca.


Histórias Escoteiras.
Meu amigo... O chefe Bola Branca.

                   Diziam que era afeminado. Outros que era duro na queda. Soube que enfrentou mais de seis que judiavam de um jovem franzino na fila do Cinema Palácios. Tinha o escotismo nas veias. Sua mãe uma Chefe de Alcatéia deu a luz em um acantonamento em Rosário. Bagueera e o Balu Nelsinho com a ajuda dos lobinhos fizeram o parto Escoteiro deitada em uma barraca de duas lonas. Ninguém estranhou quando aos cinco anos ele fez a promessa nos lobinhos. Teve uma carreira no escotismo que muitos invejavam. Primo, monitor, Guia de Tropa, Pioneiro Insígnia de B-P, e aos dezesseis anos recebeu a Insignia de Madeira. Aos vinte assumiu o distrito e aos vinte e cinco a Região escoteira. Só não foi Escoteiro Chefe porque recebeu um convite para trabalhar na Austrália e só voltou vinte anos depois. 

                   Se estiver vivo anda com seus setenta e quatro anos ou mais. Sempre quando nos encontrávamos era uma festa. Eu gostava de ouvi-lo. Era um técnico Escoteiro dos melhores. Foi numa sexta que combinei com o Chefe Matusalém um encontro para discutirmos sobre o 6º ADIP Regional no bar do Moita na Vila dos Remédios próximo onde eu morava. Entrei e ele ainda não tinha chegado. Um chopinho e eis que o Chefe Bola Branca aparece do nada. Matusalém chega em seguida. Já se conheciam. O trio sorria, conversava e jogava conversa escoteira no ar. Alguém arrastou uma cadeira. - Posso me sentar com vocês? – Fui Chefe Escoteiro por muito tempo. Vendo vocês conversarem me bateu uma saudade enorme. Assim conhecemos Lobato e Tomé que entrou também na conversa. Uma turma animada. Cada um tinha uma história do seu passado para contar.    

                  Bola Branca contou do Curso de Gilwell que foi aplicado há muitos anos no brasil. Um avançado técnico tipo aquele Volta a Giwell. A região o convidou sem ônus. Seria um curso Técnico Avançado para Insígnias. Eu sabia que não seria um curso qualquer, disse. Teria que me afastar da firma por dez dias da duração do curso. Pela primeira vez iriam fugir da tecnologia enveredando pela técnica mateira. Até as passagens para a capital foram pagas pela região. Junto veio outro envelope lacrado dizendo para abrir às sete da manhã na rodoviária da capital. Vi que era uma Carta Prego – Época que a palavra e confiança era seguida a risca por nós. Outros clientes do bar arrastaram suas cadeiras para perto. Prenunciavam uma historia das boas.

                  – Cheguei às seis e meia e procurei pistas de escoteiros ou chefes na plataforma ou na recepção. Não vi ninguém. As sete em ponto abri o envelope. Um pequeno mapa e um croqui desenhado. Embaixo escrito: - Boa sorte! Tem uma hora para chegar ao ponto de reunião. – Onde? Notei que o croqui tinha um trecho de mais de quinze quilômetros. Nunca chegaria em uma hora. - Percebi em um canto do mapa o número 22. Neste exato momento passou um ônibus com o numero 22 para Bolonha. Nem pestanejei e me aboletei na primeira poltrona. O trajeto que fazia era o mesmo do mapa. Alguns passageiros me olhavam entre assustados e sorridentes. Aquele homem de calça curta mochila e outras bugigangas eram estranhos para eles.

                   Olhei novamente o mapa. Oito quilômetros. Teria que achar uma estrada secundária. Logo a estrada surgiu. Desci usando o passo Escoteiro. Encontrei um rio e uma pequena barca e parecia que o barqueiro me esperava. – Mais um! Disse. Deve ser o último. – Para onde foram os outros? Ele não respondeu. Do outro lado do rio vi muitas pistas visíveis, Subi uma colina e avistei o Velho sentado em um tronco à beira da estrada. Olhou-me ressabiado. – Tome seu envelope. Boa sorte! E partiu. – O envelope dizia: Só abra quando encontrar sua patrulha! Seu prazo encerra às dez e meia. Se não conseguir volte por onde veio. Agradecemos seu empenho. Tive sorte, na descida do arroio avistei a patrulha. Deve ser a minha pensei. Um deles me saudou efusivamente. – Pensamos que não chegaria! Fui apresentado a Norberto, Acácio, Jonny Marcus, Pierre, Leonardo Paulo Antonio. Romualdo ou Bola branca. Podem escolher disse.

                    Conforme as instruções a abertura dos envelopes deviam ser pela ordem de chegada. Acácio foi o primeiro e abriu seu envelope, dizia: - Do rio das aventuras... Pierre abriu em seguida: – Na grande curva do Castello. Paulo Antonio, Norberto, Leonardo, Norberto e eu cada um abriu o seu. Juntamos todas as palavras – “Do rio das aventuras, na grande curva do Castello, um bosque de acácias amarelas, irão viver grandes aventuras”. Às onze e meia em ponto, a bandeira vai farfalhar no vento. Aguardamos vocês. Sejam bem vindos! No bar ninguém dizia nada. Mais de doze homens em volta ouvindo o Chefe Bola Branca. – Rimos a valer descendo a colina. O rio era formoso. Para um leigo seria divertido ver aqueles homens vestidos de calça curta e chapelão correndo em uma descida perigosa. Meia hora e chegamos ao ponto de reunião. Infelizmente dois convidados não conseguiram. Seriam desclassificados do curso. Duas patrulhas de sete e duas de oito. Quatro diretores apareceram. Misturaram-se conosco. Abraços, apresentação, sorrisos. Adorei o espirito do curso.

               Uma trombeta fez a chamada geral. Usava o famoso Chifre do Kudu adotado por B-P. Um dos diretores no segundo dia contou a historia do chifre. Eu já conhecia. O curso foi demais. Nunca aprendi tanto. Foi uma volta a Gilwell que nunca sonhei voltar. Dez dias de amizades e conhecendo novos amigos e técnicas Escoteiras. Os programas foram o ponto alto. Construímos pioneirías incríveis. Os Diretores do curso eram excelentes amigos. Fizemos uma ponte levadiça um ninho de águia e levar água as barracas suspensas foi demais. No sexto dia veio o cansaço. No sétimo visitamos o campo da chefia. Pioneirías perfeitas. Eles faziam suas próprias refeições. Não havia horários e mesmo entrando na madrugada sete horas de sono era obrigatório. Fazer nós às três da manhã embaixo d’água foi demais. Os jogos noturnos eram estupendos. No oitavo dia uma chuva torrencial por mais de oito horas.


                   A palestra do Diretor do curso no final foi espetacular. Foi um curso perfeito. Sem salas de aula, quadro negro e cadeiras. Todo o curso foi realizado na floresta. Eu me esqueci da civilização. Chefe Bola Branca encerrou pedindo desculpas pelo horário. Uma da manhã. O Moita dono do bar nos olhava desconsolado – Não tem mais histórias? Perguntou. Não Moita. Hora de dormir. Traga a salgada. Dividimos e nos comprometemos há voltar outro dia. Ficamos na calçada eu Bola Branca e Matusalém O Moita perguntou: – Chefe estou aguardando! Estas histórias são supimpas para fazer a turma beber e gastar! E deu boas risadas. Fui embora pensando no Curso do Chefe Bola Branca. Precisava de um assim. Será que ele vale mais do que os de hoje?   

Bola Branca sempre foi meu amigo. Separamo-nos por que o destino quis assim. Rodou mundo, fez escotismo em países do além mar. Voltamos a nos encontrar. Papos, causos, histórias para contar. Esta é uma delas. Se gostarem ótimo se não... Nada posso fazer. Risos.

domingo, 26 de março de 2017

Topázio.


Lendas Escoteiras.
Topázio.

             O trem noturno deslizava lentamente pelas montanhas e vales do Rio das Sombras. Topázio de olhos fechados não dormia. Nem apreciava a paisagem que descortinava pela janela meio escura sem lua, mas com estrelas brilhantes no céu. Desistira de pensar e de sonhar. Uma vida que nunca deu valor. Vivia por viver e nada mais. O que poderia esperar? Acreditar nestas velhas frases de autoajuda que devemos tentar sempre e não desistir? Um dia ele sonhou acreditou mesmo que teria o que queria e que sempre pensou em ter. Uma família, uma mulher amada, filhos um trabalho honesto. Onde ficaram seus sonhos? Qual estrada não tinha a ponte para ligar o sonho à realidade?

             Um som inaudível veio através da janela do vagão de segunda classe. Sentiu que o trem se aproximava de uma estação. Ali? Naquele fim de mundo? Bem que ele fizesse o que deveria fazer. Recolher aqui e ali os viajantes sem destino ou com passagem só de ida. Ouviu um cantarolar de uma jovem com uma voz maravilhosa. Seus olhos e ouvidos ficaram alerta para tentar saber quem era a jovem que atraiu sua curiosidade. Na estação uma luz bruxuleante pouco dava para ver além de sua imaginação. O ruído incessante das caldeiras era como um aviso que a qualquer hora o trem iria partir.

              Um zum, zum e um roçar de pano deixou ver meninos e meninas entrando no seu vagão de segunda classe. Foi um susto, sentiu um calafrio na espinha... Os sentimentos do passado se transformam em emoções quando se quer lembrar que ouve sim uma pequena luz de felicidade em sua vida. Sorriu para si mesmo ao ver que eram escoteiros. Quanto tempo! Tinha saudades? Ele nem sabia mais. Tinha se esquecido de tudo e sabia que sempre tentou afastar de sua mente a alegria que já aconteceu e não acontece mais. Todo mundo deveria ter uma lembrança verdadeira que deveria durar até o fim de sua vida. O escotismo foi um acontecimento que nunca deveria esquecer.

               Onze? Doze? Pode ser. Algumas meninas sorridentes. Qual delas cantava como um sabiá ou um Uirapuru nas noites de luar? Olhou disfarçadamente para todas elas. Belas, meninas moças que aprendiam a vida na sua melhor forma com a natureza. Elas e eles garbosos, chapelões, mochilas esverdeadas, bastões e sorrisos em profusões. Ele sempre soube que nem todo mundo que chegou em sua vida veio com a intenção de ficar. O escotismo teve seu auge, seu momento e que agora o passado o trás de novo e ele não queria se machucar duas vezes. Cada um educadamente sentou em um banco de madeira conversando alegremente sem incomodar os demais.

                Tentou dormir e afastar as belas lembranças dos campos floridos, dos vales escondidos no seio de uma montanha que envergonhada não queria mostrar o mais belo que tinha dentro de si. Quantos acampamentos, quantas aventuras. Deus! Tentar afastar de mim este belo momento nunca vai me fazer diminuir o que sempre senti naquela ocasião. Eis que ela finalmente se revelou, tinha um pequeno banjo e com ele fez o arranjo mais bonito que já ouvi. Ah o amor... Que nasce não sei aonde, vem não sei como e dói não sei por quê. Mas seus versos não eram assim. Falavam de coisas lindas que só os escoteiros podem cantar...

              O tempo foi passando, o burilar de uma saudade corria entre os serpenteados do trem próximo ao rio das sombras. Ele semicerrou os olhos para fingir que não via o seu passado. Jovens amantes da aventura, dos sonhos dourados, das canções de ninar... Sabia que devia aproveitar a companhia de quem trouxe recordações de sua vida. Afinal nunca sabemos o quando podemos partir. Um apito, outra estação na volta do adeus chegava ao fim. Eles desceram, a mocinha escoteira do banjo cantou a ultima estrofe: - “Coisas impossíveis melhor esquecê-las que desejá-las”.

               Um silêncio sepulcral. Seu passado chegou em forma de meninos e meninas Escoteiras e partiram como se o vento os levassem para onde ele não podia mais ver. Olhou de novo pela janela. Ele sabia que se um poeta consegue expressar a sua infelicidade com toda a felicidade, como é que ele poderia ser infeliz? Afinal a vida é muito curta prá ser pequena. Uma resolução foi tomada. Partir para outra. Levantar, seguir a pista até que encontre o fim de pista. E se o encontra-se veria também o voltei ao ponto de reunião. Adeus passado, bem vindo futuro. Se for para recomeçar chegou a hora. E ele sabia que sua hora tinha chegado.


Amor é fogo que arde sem se ver; É ferida que dói, e não se sente; É um contentamento descontente; É dor que desatina sem doer. Topázio estava perdido em seus pensamentos, embaralhados por um passado sombrio. Uma voz suave cantou na noite escura naquela estação, foi tudo que ele precisava para voltar a viver novamente. Bem vindos a mais uma historia escoteira.




sábado, 25 de março de 2017

O Padeiro Valdemar.


Crônicas de um Chefe Escoteiro.
O Padeiro Valdemar.

              Ele tinha um sonho. Desde menino que sonhava em ser um Escoteiro. Como menino não deu. Seu pai o enfiara desde cedo como aprendiz de padeiro na Padaria Bela Vista. Viveu parte da sua vida em frente a um forno, fazendo a massa do pão e suas horas de trabalho nunca foram as dos Escoteiros. Ajudava a família com o pouco que ganhava. Se não fosse um menino valente nem estudado ele teria. Sacrificou e entrou na Escola Santa Lucia. Fez o segundo grau trabalhando na padaria. Seu Manoel o olhava com o carinho, o carinho de quem sabia ser apenas um empregado. Vez ou outra aparecia um menino ou um Chefe uniformizado. Ele corria na janelinha da cozinha para ver e admirar o que era seus sonhos de todos os dias. Mas logo via o olhar do seu patrão como a dizer – Va fazer pão e não fique aí parado. Chegava na padaria às quatro e meia da manhã e só às cinco da tarde era liberado. Jovem ainda as horas de trabalho eram enfrentadas sem reclamar.

               Um dia viu seu Manoel ralhando com um menino. Era um lobinho, “pequetito”, mirralho, mal se via dentro do seu uniforme largo que com certeza ganhou de outro jovem. Foi acusado de tentar roubar um pão. Ele conhecia o menino, era o Giacomo filho da Dona Aurora. Morava no bairro próximo a sua casa. Dona Aurora doente vivia de ajuda dos vizinhos. Giacomo com seus oito anos pedia aqui e ali até que um dia a Chefe Noelma o levou para ser lobinho. Ele não podia continuar nesta vida só pedindo, pensou. Se continuar assim que futuro terá este menino? Com surpresa um dia o viu com o uniforme. Mesmo desbotado, faltando o cinto do lobo e grande para seu tamanho o Menino Padeiro Valdemar sorria em ver Giacomo galante como se fosse mesmo um deles. Mas ele não era? Podia até ser, mas pobre e sem nem saber da vida dele o Padeiro Valdemar tinha dúvidas. Foi até a entrada da padaria e deu a Giacomo uma sacola de pães. Ele olhou para Valdemar com um olhar tão piedoso que seu coração bateu forte. Saiu correndo pela rua rumo a sua casa. Valdemar voltou a sua lide.

                Quem sabe não eram iguais? Valdemar tinha doze anos e Giacomo oito. Giacomo não teve a sorte de ter um emprego mesmo trabalhando doze a quatorze horas por dia e ele? – Não faça mais isto, ouviu a voz do seu Manoel. Nunca mais! Se não o ponho no olho da rua! O Padeiro Valdemar com os olhos tristes voltou ao trabalho. Ele não podia perder o emprego, nunca! Pensou muito como o mundo era diferente para muitos. Giacomo queria um pão, não podia comprar e Valdemar lhe deu uns pães e foi ameaçado de ser mandado embora. Naquele sábado saiu mais cedo. Eram duas e meia da tarde e ele resolveu passar na sede dos Escoteiros. Subiu no muro e ali ficou admirando aquela meninada alegre, corriam feito coriscos, cantavam, gritavam e o Padeiro Valdemar sorria mesmo não sendo um deles. Abriu a boca de espanto quando eles fizeram continência para a bandeira que subia. Lindo demais! O dia findava. A noite chegava e o Padeiro Valdemar correu para casa, pois seu pai e sua mãe iriam ficar preocupados.

                No domingo ele chegou cedo a padaria. Estava aberta, pois seu Manoel era incansável, sempre o primeiro a chegar. Sempre chegava cantando ou assoviando, mas naquele dia não. Estava pensativo e por dentro seu coração batia fraco. Seu pensamento era um só: - Será que algum dia serei Escoteiro? Achava que não. Quando olhou pelo vidro sentiu algum diferente na padaria. Seu Manoel não estava no caixa e sim um desconhecido. Foi então que viu seu Manoel sentado no chão e outro desconhecido com uma faca espetando ela em seu peito e dando risadas. O Padeiro Valdemar se assustou – Vão matar o seu Manoel! Não deu outra. Entrou correndo na padaria, pois sabia que atrás de um biombo tinha um cano que era usado para muitas coisas na padaria. O Padeiro Valdemar alcançou o cano e deu com ele na cabeça do bandido que furava com a faca seu Manoel. Um tiro foi dado. O Padeiro Valdemar rodopiou em si mesmo e caiu ao chão com a mão no peito e sangrando.

                Viu que o bandido que atirou sorria e foi até onde ele estava. Ia dar o segundo tiro quando recebeu uma pedrada na cabeça. Ele se virou e viu na porta Giacomo com seu uniforme de lobinho. O bandido atirou, mas Giacomo saiu correndo e gritando que a padaria estava sendo assaltada. A policia chegou logo e prendeu um dos ladrões o outro desmaiado pela pancada do cano do Padeiro Valdemar estava quase morto. Levado ao Hospital sobreviveu. Valdemar ficou entre a vida e a morte na UTI por três meses. Um dia recebeu a visita de Giacomo. Não queriam deixá-lo entrar por ser menor. Uma turma de mais de trinta jovens invadiu seu quarto. Ninguém sabia o que fazer, mas eram lobinhos e Escoteiros que foram lá visitar e aplaudir o gesto dele e de Giacomo. Ele se assustou, não era Escoteiro e não entendia o porquê de tudo aquilo. Uma tarde lhe deram alta. Voltou para casa pensativo se ainda teria o seu emprego. Três meses haviam passado e ele achava que seu Manoel não ia perdoar.

            Uma surpresa. Seu Manoel estava esperando ele na porta do hospital. Levou-o a sua casa em seu fusquinha. No caminho disse que se orgulhava dele. De agora em diante não iria mais trabalhar aos domingos e podia sair aos sábados às onze da manhã. Incrível pensou o Padeiro Valdemar. Incrível. Uma pequena multidão o esperava em sua casa. Uma semana depois voltou ao trabalho. Assustou. Viu Giacomo empacotando pães e doces para clientes. Se o seu Manoel visse seria briga na certa. Nada disto, ele agora trabalhava pela manhã na padaria e a tarde era obrigado a ir para a escola. Hã vida! Quem diria. No sábado quando saiu as onze foi para casa pensativo, lá estava Giacomo e um Escoteiro de nome Nonato. – Tome um banho e venha conosco, a Tropa Escoteira o espera!


              Nada como um dia após o outro. Nada se comparava a alegria do Padeiro Valdemar. Brigaram com ele na tropa. No primeiro acampamento foi batizado de Escoteiro Valdemar! Bom demais. A briga foi porque ele queria fazer o pão do caçador e eles achavam que não. Afinal eles tinham de aprender e o Escoteiro Valdemar era um perito em fazer pães. Contam amigos meus que Valdemar se formou como um grande Chef cozinheiro e tem três padarias na cidade em sociedade com seu Manoel. Disseram-me também que Giacomo tinha um enorme armazém e todos que com ele trabalhavam eram do seu bairro e só podiam entrar se fossem Escoteiros. Enfim, a males que vem para o bem, tudo no final deu certo. Um sorriso para o Padeiro ops esqueci para o Escoteiro Valdemar e seu maior amigo Giacomo que de lobo foi Escoteiro, sênior e agora Chefe de tropa. Palmas Escoteiras para os dois!       


          Vez ou outra conto uma historia que merece ser lida e comentada. Afinal quantos padeiros meninos que levantam antes do sol chegar para trabalhar? O Padeiro Valdemar viu um dia seu sonho ser realizado. Ficção? Não sei quem sabe em algum rincão brasileiro uma história como esta aconteceu? Vocês são meus convidados para conhecer a história do padeiro Valdemar. 

sexta-feira, 24 de março de 2017

O palco das ilusões.


Lendas Escoteiras.
O palco das ilusões.

               - Gosto do seu sorriso Loirinha. Olhei para Joel e nada disse. – Não vai compartilhar? – Sempre ele com seu espírito cheio de amor e fraternidade. Vez ou outra fico pensando se teria coragem de existir se não fosse ele. Não disse nada, não havia nada para dizer. Ainda guardava mágoa mesmo sabendo que ela é um orgulho ferido. Não devia afinal eu me ofereci e se isto eu fiz deveria ter aceitado o que eles fizeram comigo. Não sou uma mulher inocente, incapaz ou fraca demais para lutar. Conheço o mundo onde vivo e por isto me resguardei enquanto pude. Mary minha filha viu uma propaganda dos lobinhos na TV. Perguntou-me o que era. Não sabia, tinha ouvido falar. Olhei na internet. Interessei-me e ela gostou.

                  Conversei com Joel e ele não se opôs. - Precisa que eu vá? Vou ver. Qualquer coisa eu ligo para você. Foi o começo. Levava e ficava esperando Mary aos sábados durante as reuniões. Havia no ar uma alegria, uma felicidade que interpretei como era bom viver de bem com a vida. Uma duas, seis reuniões e resolvi participar. Joel não foi contra. – Se achar que é bom para você, eu estou inteiramente de acordo. Fui bem recebida. Não notei nenhuma antipatia e mesmo não tendo conhecimento fui ser assistente de lobinhos. Entrosei-me, li muito aprendi e fiz alguns cursos. Já achava estar preparada. Durante um ano nada deu errado. Aos poucos comecei a ver o que nunca tinha visto.

                   Não sei o que era, mas achava que muitos estavam interpretado personagens que não eram deles. Havia um endeusamento por parte de alguns que se consideravam mais que os outros. Eles sorriam sim, davam tapinhas nas costas, cumprimentavam, mas sempre com aquele olhar, aquele estilo superior como se um lenço de Gilwell desse a eles o poder dos deuses. Comecei a pensar que a visão distorcida da realidade coloca no prepotente a arrogância. Onde deveria existir a humildade era o contrário. Acreditava na Lei Escoteira, acreditava na promessa que fiz. Foi maravilhoso enquanto durou. Havia uma motivação onde quer que eu fosse. Os pais, alguns poucos amigos chefes e os lobinhos eram ainda minha razão de estar ali. Coloquei um véu onde via e ouvia o que não devia.

                   Eramos considerados voluntários, afinal fomos nós que procuramos os escoteiros e não o contrário. O Diretor Técnico era formador. Diziam que ele era um chefão de enorme coração. Não sei, mas senti nele uma réstia de ser supremo. O que decidia o que mandava o que deveria ser obedecido, pois era ungido com o dom da sabedoria escoteira. Aos poucos o disse me disse nas noites de acantonamento, nas atividades de chefes comecei a ver uma realidade diferente daquela quando entrei. Eu gostava sim do escotismo, achava que ele tinha mudado minha vida, sua filosofia entrava em meu ser e mergulhava profundamente em meu coração.

                     Joel sempre me perguntava se tudo ia bem. Eu pensava que sim. Não disse para ele que o mundo precisa de pessoas humildes e não de arrogantes e prepotentes. Será que no escotismo era assim? Conheci chefes que saíram e vi que a magoa que tinham era um orgulho ferido. A doença da alma faz você acreditar que é melhor que os outros. Pensei que poderia ajudar colaborar, nunca fui mãe dos lobinhos apesar de que outras chefes se achavam melhores que as mães dos meninos. Alguém um dia me disse que se eu quisesse continuar deveria ser como eles. Correr atrás do lenço, dos tacos, das condecorações e recompensas. Não pensava assim. Eu ainda era uma inocente sem culpa.

                     Um dia me abri com Joel. Ele me ouviu como companheiro leal que era. Disse a ele que Mary queria sair. Não tinha mais motivação em continuar. Ele me surpreendeu ao dizer que daria toda colaboração e ficaria com a Mary se eu quisesse continuar. – Vale a pena Joel? Ele sorriu e me disse: - Olhe Eva, fale menos, palavras o vento leva. A mágoa, no entanto fica. Eu lia muito sobre escotismo. Nas redes sociais quantas e quantas frases de motivação. Recebia sempre mensagens me incentivando na minha vida escoteira. Mas a verdade era outra. Não tinha motivos para continuar. A melhor forma para não me magoar é fingir que não tinha mais coração. Em cada reunião do distrito, nas Assembleias nada mais me surpreendia com tanta vaidade e falta de modéstia.

                     Felícia uma Chefe com mais de vinte anos de atividade me disse um dia: - Eva, a arrogância e a prepotência são incompatíveis com o inicio de uma carreira de sucesso. Se você é uma coisa ou outra, deixe para tirar sua mascara só quando chegar ao tempo. E ria dizendo: - Se chegar... Eu sabia que o escotismo era uma grande fraternidade. Havia de tudo para amarmos uns aos outros. E olhe a maioria eram verdadeiramente irmãos escoteiros. Pensei em procurar outro grupo ou mesmo montar um. Cheguei à conclusão que muitos fazem assim e perpetuam nos sonhos de liderança que deixaram para trás a fraternidade e o respeito entre seres humanos.


                    Sai. Nunca mais voltei. Tive lindos e bons momentos que ficaram no passado, mas preso à mente para todo o sempre. Acho que valeu. Foram quatro anos bons e alguns dias ruins. Corações sentem pessoas frequentemente mentem. Arrogantes prepotentes reprimem o direito de manifestação, oprimem a liberdade de expressão. Mas o valor do escotismo nunca deixará de existir. Gosto de ver gente sorrindo, acreditando. Como disse um dia aquele Velho Chefe Escoteiro: - Você pode dizer que é Escoteiro. Mas ser Escoteiro não é para qualquer um!


Uma história de ficção. Será mesmo ficção? Não existem muitas Evas sentindo o mesmo que ela sentiu? Afinal se fecharmos os olhos e os ouvidos não seria melhor para acreditar que somos uma fraternidade e temos uma Lei que nos rege a prosseguir e respeitar? Uma filosofia ou uma ficção? Você mesmo pode tirar sua conclusão.