Histórias e contos escoteiros.

Histórias e contos escoteiros.
Feitas para você se divertir!

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

A lenda do Arco-Íris. Uma História para lobinhos.


Lendas da Jangal.
A lenda do Arco-Íris.
Uma História para lobinhos.

                        Após o jantar, eis que a Akelá Lucinha pede ajuda as matilhas para lavarem as vasilhas e dar uma folga a Vovó Maria. Os lobos ficaram encantados com ela quando na noite anterior contou a história do Boi Lavrador. Esperavam com muita ansiedade outra história por isto ninguém se negou a ajudar. Tão logo terminaram correram até Vovó Maria e ela sorrindo prontamente atendeu ao pedido dos lobos. Foram até o pátio gramado, O Balu e a Kaa acenderam um lampião e todos de olho na luz ofuscante viram quando Vovó Maria se elevou no ar e começou a contar:

                       Era uma vez, em uma cidade muito linda onde todos aprenderam a sorrir e cantar eis que morava em casebre em uma rua sem nome uma família que não era feliz. – Ele se chamava João e era pobre. O pai tinha morrido e era muito difícil a mãe manter a casa e sustentar os filhos. Um dia ela pediu-lhe que fosse pescar alguns peixes para o jantar. João reparou numa coisa a mexer-se no meio do arvoredo… Viu um pequeno Coelho Amarelo… Aproximou-se sorrateiro, abaixou-se, afastou as folhas devagarinho e viu que ele estava sentado num minúsculo banco de madeira. Costurava um colete verde com um ar compenetrado enquanto cantarolava uma musiquinha.

                       - À frente do João estava um Coelho. Um Coelho Amarelo. Rapidamente esticou o braço e prendeu o Coelho entre os dedos. – Boa tarde Senhor Coelho. - Como estás João? – Respondeu o Coelho com um sorriso malicioso. João não sabia, mas o Coelho tinha montes de truques para se libertar dos humanos. Inventava pessoas e animais a aproximarem-se, para que desviassem o olhar e ele pudesse escapar. – O Coelho astuciosamente perguntou a João: - Diz-me lá, onde fica o tesouro do arco-íris? Eis que na curva do caminho apareceu um touro a correr para o João, e o Coelho espertamente gritou para o João que vinha lá um touro bravo a correr bem na sua direção. Ele assustou-se, abriu a mão e o Coelho desapareceu.

                        - O João sentiu uma grande tristeza, pois quase tinha ficado rico. Tinham contado para ele que quem prende um Coelho Amarelo encontra o Arco-Íris e fica rico. E tristonho voltou para casa de mãos a abanar, sem ter pescado peixe nenhum. Mal chegou contou à mãe o sucedido. Ela, que já conhecia a manha dos Coelhos Amarelos, ensinou-o: - Se alguma vez o encontrares, diz-lhe que traga o tesouro imediatamente. Passaram-se meses. João um dia encontrou de novo o Coelho Amarelo. O viu ao voltar para casa, sentiu os olhos ofuscados com um brilho intenso. O Coelho estava sentado no mesmo pequeno banco de madeira, só que desta vez consertava um dos seus sapatos.

                         - O Coelho sabidamente gritou para João – Cuidado! Vem lá o gavião! – e fez uma cara de medo. – Não me tentes enganar! – disse o João. – Traz já o pote de ouro! – Traz já o pote de ouro ou eu nunca mais te solto. – Está bem! – concordou o Coelho. – Desta vez ganhaste! O pequeno Coelho fez um gesto com a mão e imediatamente um belíssimo arco-íris iluminou o céu, saindo do meio de duas montanhas e terminando bem aos pés do João… Até esconderam o pequeno pote… As sete cores eram tão intensas que precisaram esconder o pequeno pote de barro, cheio de ouro e pedras preciosas, que estava à sua frente.

                      - O Coelho Amarelo abaixou-se, com o chapéu fez-lhe um aceno de despedida, e gritou, pouco antes de desaparecer para sempre: – Adeus, João! És um menino esperto! Terás sorte e serás feliz para sempre! E foi o que aconteceu. O pote de ouro nunca se esgotou e o João e a sua família tiveram uma vida de muita fartura e de muita alegria. E como toda lenda o pote nunca se esgotou!


                      E a lobada foi dormir feliz sonhando um dia também encontrarem um Coelho Amarelo para ver o Arco-Íris e o pote de ouro!

sábado, 25 de fevereiro de 2017

A Felicidade!


A Felicidade!

                        Mano Velho, sempre ele. Tenho sorte em ter conhecido um Chefe Escoteiro assim. Alegre, educado, fraterno e muitas histórias para contar. Esta ele contou quando subíamos o Pico do Itacolomi, paramos para um descanso, pois era uma subida supimpa e nem bem respiramos com tranquilidade e ele logo com seu jeitão incrível de contador de histórias, perguntou antes se ele poderia contar mais uma. Quem iria dizer não?

- Meus caros Escoteiros esta é uma fabula que nos mostra como alcançar a felicidade. Uma vez o cãozinho parou e ficou admirando um enorme cão que ficava correndo atrás de seu próprio rabo, de tanto esforço ele ficava tonto e caia a todo instante. Já sem forças, ele foi interrogado pelo cãozinho:

 -Por que faz isto?

 O cachorro grande respondeu: 
-Descobri que a felicidade do cachorro está no rabo, então fico correndo atrás dele para alcançá-la. Mas a cada hora, ela parece ficar mais distante... 

O cãozinho disse-lhe: 
-Não faça mais isto, faça como eu, vai seguindo a vida que a felicidade vem atrás de você!

Todos olharam para Mano Velho tentando entender a pequena historia. Ele sorridente disse:

- Que nós escoteiros façamos o mesmo, não fiquemos alucinados buscando soluções para os problemas que ainda nem existem. Vamos seguir em frente, guardando apenas os momentos bons, e tentando superar os antigos traumas para a felicidade vir de encontro com a nossa vida. O que ainda não conseguimos é por que não estava na hora. 

- E o Chefe terminou dizendo: - “Não queira prender todas as borboletas, cuide do seu jardim para que ela venha até você”.


                    Mano Velho ficou para sempre no coração de todos nós. Sempre Alerta!

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

O grande amor da Escoteira Nataly.


Lendas escoteiras.
O grande amor da Escoteira Nataly.

                       Nataly não estava acreditando. Nunca pensou em passar por aquela situação. Namorar alguém na tropa? Nunca! O grupo escoteiro Tesouro do Mar teve experiências que não deram certo. Os chefes se reuniram e fizeram uma norma. Pequena sem muitos artigos. Aconselhava a não ter namorados entre escoteiros e guias. Na sede e na saída era proibido. Se os pais concordassem desde que dessem testemunho pessoal ao Chefe, o namoro em casa ou em locais devidamente autorizados poderiam acontecer, no grupo não. Ela riu quando viu estas normas. Era Escoteira. Dedicava de corpo e alma a sua Patrulha, suas atividades e em tempo algum pensou em namorar alguém. Quando a norma foi entregue a todos ela mesmo comentou com Norberto da sua Patrulha – Estamos aqui para fazer escotismo e não namorar. Era firme nas suas palavras.

                      Nataly naquele setembro fez sua passagem para a Tropa Sênior. Eram dezesseis. Seis rapazes e dez moças. Escolheu a Patrulha Pico da Neblina e ali encontrou grandes amigos. Não esquecia sua Patrulha Quati. Sempre que podia fazia uma visita e as amigas que lá ficaram.  O disse me disse de quem gosta de quem era frequente entre os seniores e guias. Ela nunca deu ouvido para isto. Não era o que queria. Sonhava em ser Escoteira da Pátria e este era seu objetivo maior. Gostava da tropa. Animada, com mais liberdade de ação e de ideias. No Conselho de Tropa Sênior podia-se opinar e sugerir. Junto com eles fora em vários acampamentos regionais e até em um Jamboree. Mas sua preferencia mesmo era os acampamentos da tropa. Se possível longe da cidade, terreno desconhecido e sem casas perto. Nada que pudesse trazer a lembrança de civilização.

                        Tudo aconteceu no Acampamento em Agua Doce. Lindo local bem arborizado, um riacho gostoso para banho, muitos bambus para pioneirias. Seriam quatro dias e poderia ter sido o melhor acampamento de sua vida. Poderia mas não foi. No segundo dia à tarde o Chefe Landinho comentava sobre orientação, percurso de Giwell, leitura de mapa tema já discutido com o Monitor Robson da Patrulha e ele nos dava conhecimento da jornada do outro dia. Sem querer ela olhou para Paulo Roberto. Era um “bonitão” da tropa. Viu que ele olhava para ela e não tirava os olhos de sua direção. Ficou sem ação. Já o conhecia, não tinham muitas amizades fora do grupo e até na ultima “balada” na casa da Guia Marly pouco dançou com ele.

                        A noite ele se aproximou dela durante o jogo dos Feiticeiros da Morte. Perguntou se precisava de ajuda. Obrigada disse. Foi dormir impressionada. Sonhou com ele. Pela manhã acordou pensando nele. O amor chegava. A paixão adolescente florescia. Nataly estava ficando apaixonada. Tentou tirar ele da sua mente e não conseguia. Todo o acampamento para ela deixou de existir. O amor das atividades passou a ser o amor por ele. No terceiro dia só suspirava. Seu coração batia descompassadamente. Sua respiração quando olhava para ele acelerava. Sintomas de uma paixão? Ou de um grande amor chegando? Nunca em sua vida pensou que isto pudesse acontecer com ela. Afinal foram três dias de campo e tudo isso aconteceu tão rápido assim?

                       Na noite de sábado após o Fogo de Conselho as amigas se reuniram com os seniores para um “sarau” (cantigas de roça, desafios, poesias) e sob a supervisão de Chefe Vera ficaram até meia noite se divertindo. Paulo Roberto sentou ao seu lado. Ele a atraia. Irresistível. Seu coração como sempre deu pulos e pulos e sentiu sua mão suada quando ele a pegou. Era uma emoção forte demais. Ficaram rindo, brincando e se divertindo quando foi dada a ordem de recolher. Nataly achou que naquela noite não tinha dormido bem. Esqueceu por completo o acampamento. Esqueceu que ia tirar a especialidade de pioneiria. Esqueceu-se de tudo. Só pensava nele e já em plena madrugada dormiu. Sentiu um calor enorme no corpo e acordou assustada. Rezou. Pedia a Deus para que não se entregasse tanto aqueles devaneios.

                       No último dia após a inspeção e bandeira ele lhe fez um sinal. Ela não entendeu e ele repetiu. Subir o morro e encontrar com ele. E agora? Não sabia o que fazer e seu coração pediu que ela fosse. Atrás do bambuzal lá estava ele. Olhar lindo. Ele era o homem mais lindo que ela conhecera. Ele a tomou nos braços, a beijou e ela quase desmaiou. Ouviu vários jovens rindo e batendo palmas. – Ganhou a aposta Paulo Roberto. Disse que a beijaria e beijou. Nataly ficou vermelha. Aposta? Maldito! E ela acreditou? Saiu correndo e chorou. E como chorou. Sua monitora ficou preocupada. O acontecido logo, logo tomou conta da tropa. Nataly queria morrer. Ali mesmo a Chefe Vera fez um Conselho de Tropa. Pediu a cada um sua opinião do que tinha acontecido. Foi correto? Foi Escoteiro? Leal? Votou-se pela suspensão de Paulo Roberto por dois meses.

                          Ele não voltou mais a tropa. Dizem que sua família mudou para um bairro distante. Nataly aprendeu a lição. Por vários meses detestou todos os homens. Mas depois sentiu que na tropa o apoio moral foi grande. Os que apostaram e fizeram chacota pediram perdão. Eu não gosto de julgar. Nunca fui muito a favor de tropas mistas. Mas aceito que tem muitas dando bons resultados. Se esta história serviu de lição para mim não sei. Para Nataly tenho certeza. Ela só foi namorar firme com dezoito anos. Casou aos vinte e dois. Tem dois lindos filhinhos gêmeos. Existem males que vem para o bem. As coisas ruins que acontecem hoje conosco, podem nos ajudar e muito no futuro. Nada como ter exemplos e experiências para achar a trilha certa. A trilha que conduz ao Caminho para o Sucesso!


quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

O Cozinheiro.


Lendas Escoteiras.
O Cozinheiro.

                - Eu sei Chefe que não vai acreditar. Se estivesse no seu lugar não acreditaria, mas eu juro palavra de Escoteiro que é verdade. Ninguem na Patrulha Javali jamais pensaria que Bolacha iria se transformar em um cozinheiro tão bom e que eu acredito Chefe nunca mais haverá outro como ele. Veja bem, o senhor sabe melhor que eu que cozinheiros de Patrulha só sabem fazer o tal “Arroz, feijão, batata e macarrão”, mas Bolacha não. – Como ele aprendeu? Sinceramente Chefe pensei que fosse sua mãe, mas não foi. Dona Quirina cozinhava bem, mas falar que era uma cozinheira de primeira seria faltar com a verdade. E quer saber mais? Bolacha entrou no grupo calado e quando foi para a França foi calado.

                 - Isto mesmo Chefe. Bolacha economizava em tudo principalmente nas palavras. Eu mesmo que convivi com ele muitos anos posso jurar que se ele falou seis o sete palavras foi o muito em cinco anos que foi Escoteiro e sênior. Risos. Não acredita Chefe? Pois pode acreditar. Lembro até hoje que quando fez a promessa todos esperavam que ele falasse, já que era uma tradição na Tropa cada Escoteiro noviço dizer a viva voz as frases da Promessa. Todos viram seus lábios se mexendo, mas não saia som. O Chefe não disse nada. Conhecia Bolacha melhor que todos nós. Só vestiu o uniforme pela primeira vez quando promessou. Era norma. Ninguem vestia nem uma peça. Vi o Chefe mandando de volta para casa muitos pata tenras. Mas Chefe precisava ver Bolacha uniformizado. Tudo no seu lugar. Fazia questão de ser um exemplo.

                  - Uma coisa eu garanto Chefe, suas qualidades de cozinheiro nunca deixaram que ele não se preocupasse com suas provas. Era um desafio e ele sempre aceitou desafios. – Por quê? Um dia perguntei para ele. - Porque ser um Primeira Classe? Ele apenas sorriu. Sei que dois anos depois que entrou fez sua Jornada de Primeira Classe. Maribondo foi com ele. E olhe Chefe, Maribondo era conversador, não parava de contar “causos” e até hoje não sei o que se passou entre os dois para se entenderem tão bem o que fazem até nos dias de hoje. Só sei que ele é elogiado até hoje pelo seu relatório e o Percurso de Giwell.

                   - Um dia antes do Acampamento em Lagoa Formosa, Floresta comunicou a todos que ia embora para Santana do Oeste. Seu pai arrumou um emprego melhor. Floresta era nosso cozinheiro. Não dos bons, mas dava para o gasto. - Alta Voltagem o monitor reuniu a patrulha e perguntou se alguém queria ser o novo cozinheiro. Todos calados. Afinal a cozinha dava um trabalho enorme nos acampamentos. Para surpresa Bolacha levantou a mão. Ninguém foi contra. Quitinete perguntou se ele sabia cozinhar. Bolacha o olhou de cima em baixo e nada respondeu. – Duas semanas depois Bolacha entregou um convite para cada patrulheiro da patrulha Javali ir jantar em sua casa.

                     - Sua mãe jurou que foi ele quem cozinhou. Poucos acreditaram. A salada, a macarronada e o Frango a Passarinho no ponto estavam perfeitos. No acampamento Bolacha não admitia atrasados. Tinha um pequeno sino e com seis badaladas chamava para o almoço e oito para o jantar. Café e lanche não tinha chamada. A patrulha se regalou com o almoço do Bolacha. Era demais. E isto Chefe foi só o começo. – Chefe eu nunca vi um cozinheiro que fazia bolo doces e torta em acampamento. Bolacha fazia. Parecia um mágico. Construía om facilidade fornos, fogões suspenso incrivelmente bem feitos. De um simples mamão fazia uma torta para ninguém botar defeito. Para ele o campo, as florestas e os vales eram mananciais de iguarias.

                      - Bolacha ficou na patrulha e três anos depois foi para os Seniores. Eu já estava lá. Continuou sua saga do melhor cozinheiro Escoteiro do mundo. Bem não vou generalizar, mas como ele eu nunca vi. Um dia Bolacha sumiu. Ficou três semanas sem ir à reunião. Apareceu com seu jeitão de roceiro e com a mão direita fez a saudação e a esquerda o sinal de Adeus. Todos quiseram saber o motivo de sua partida, mas ele calado, calado ficou. Muitos foram a sua casa perguntar a sua mãe o que ouve, mas ela não morava mais lá. Os vizinhos nada sabiam. Passaram-se nove anos Chefe. A verdade é que ninguém nunca esqueceu o Bolacha. Sua fama de melhor cozinheiro ficou para sempre.

                      - Chefe, a vida nos prega peças que nem imaginamos que vai acontecer. Ganhei da minha empresa uma viagem a Paris na Franca com um acompanhante. Foi uma festa a viagem. Eu e Morena nos divertimos a valer e como nos sentimos importantes ao subir na Torre Eiffel. O senhor sabe que amo as flores e ver tantas no Palácio de Versalhes foi demais. Mas quer saber qual foi a maior surpresa Chefe? – Foi no jantar de despedida em um dos melhores restaurantes franceses. O La Fontaine de Mars. Aconchegante, luxuoso, tratamento vip. Pedimos uma comida simples, mas Chefe! Oh! Chefe. Nem imagina quando o Maitre anunciou que o cozinheiro queria nos cumprimentar. Falou baixinho que seria uma honra, pois ele nunca fazia isto.


                      - Sempre Alerta Escoteiro da Javali. Lembra-se de mim? Quase cai da cadeira. Era Bolacha, esbelto, alto, bem vestido e com um gorro de chef tão engomado e branco que ofuscava. Todos os clientes do restaurante ficaram de pé e deram uma enorme salva de palma a Bolacha. Acredite Chefe, por favor! O Escoteiro tem uma só palavra e sua honra vale mais que sua própria vida!

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

O Cantil.


Lendas Escoteiras.
O Cantil.

              Encontrei o Pirilampo antigo Escoteiro da Touro sem querer na Avenida São João. Como sempre foi aquela alegria, aquela velha chama onde dois antigos escoteiros se encontram e os sorrisos as lembranças acontecem sem querer. Um barzinho, um chope e logo perguntei a ele sobre se conseguiu achar o seu cantil. Ele sorriu gostosamente. Vi suas lembranças voarem ao passado. – Monitor! Ele está lá, na minha casa, na sala em um quadro de honra. – Eu não estava com ele quando tudo aconteceu. Ele da Touro e eu da Lobo. Soube que voltou sozinho e o que aconteceu não me foi contado. Ele bebeu um gole, suspirou fundo e começou a contar:

             Olha Monitor, foi naquela aventura Sênior no Vale do Pastoril, cansados resolvemos pernoitar na descida do Morro Vermelho, em local conhecido próximo a Nascente do Riacho da Grota. Ainda tínhamos pelo menos uns 15 quilômetros a percorrer até chegarmos à sede. Professor nosso monitor você sabe era experiente e a gente confiava muito nele. Patrulha Sênior, bastante experiente todos sabiam o que fazer. Valete rapidamente fez uma sopa e um café fumegante. Em volta de um fogo estrela, já alimentados ficamos até tardão com cantigas e histórias. Foi por volta da uma da manhã que o céu desabou em cima de nós. Nunca vi tanta chuva e tanto vento. Foram quase quatro horas de chuva torrencial.

          Não tínhamos armado barracas e nos enrolamos uns aos outros com uma corda e uma lona jogada por cima. Eu só dei falta do meu cantil pela manhã. Chovia ainda uma “pingada” daquelas que dá para enfrentar. Procurei por toda parte e nada. Azulão foi quem me disse que ele podia ter caído na Grota do Riacho Fundo, um buraco no meio da montanha onde descer era quase impossível. Meu coração disparou. Você sabe que eu não era chorão, mas comecei a soluçar baixinho. Professor me deu uma sacudidela e disse: - Quer descer até lá? Eu sabia que iriamos demorar quase oito horas para fazer a volta e mais seis para retornar. Isto se achasse meu cantil.

          Disse ao Professor que não. Eu iria voltar na semana seguinte e se necessário ficaria uma semana até encontrá-lo. Você sabe a historia do meu Cantil. Naquela época era orgulho para cada um conseguir trabalhando o dinheiro necessário para a compra dos apetrechos escoteiros. Até mesmo Nolasco, filho do Coronel Saldanha, o mais rico da cidade não aceitou o dinheiro do seu pai para fazer o uniforme. Trabalhou até conseguir a quantia necessária. Era um tempo que todos nós tínhamos nosso chapéu, nosso cantil, nossa machadinha e nossa faca escoteira. Ninguem ficava sem a moeda da boa ação e do distintivo de lapela. Todos sabiam o quanto trabalhei para comprar o cantil. Eu o chamava de Legião, pois na época me contaram que ele veio de lá.

            Eu o vi pela primeira vez quando voltava da Oficina do Meu pai. Sempre dava uma passadinha na Loja de Seu Alfredo. Era o único que vendia material de camping e eu costumava ficar algum tempo a namorar os canivetes, as facas, as mochilas e as machadinhas importadas. Quando vi o cantil dependurado foi amor à primeira vista. – Quanto seu Alfredo? – Ele sorriu e falou baixinho. Escoteiro, acho que não vai dar para você. É muito caro. Veio do Cairo uma cidade nas estranjas e dizem que foi achado próximo a um legionário morto próximo a Sidi Bel Abbès na Argélia. Eu nem imaginava o que era isto. Era história para mim desconhecida. Mas amei o cantil e daria tudo para ele ser meu.

            Comparando com o dinheiro hoje ele me falou que iria me custar por volta de Setecentos reais. Caro demais. Não desisti. Trabalhei feito um louco engraxando, limpando quintais, fazendo serviços extras no armazém do Seu Chico e quando tive a quantia necessária fui correndo comprar o cantil que não saia da minha mente. Todos os escoteiros e Seniores correram para ver. Eu o enchia de água gelada e levava para todos se deliciarem. Ele o cantil fazia parte de mim em todas as atividades e acampamentos escoteiros que fiz. Voltei ao Vale do Pastoril com o Professor e o Malmequer, o nosso cozinheiro. Descemos até a Grota do Riacho fundo. Não foi fácil. Nunca vi um caminho tão difícil.

            No primeiro dia nada, no segundo eu o vi dependurado em um barraco em um galho de árvore de difícil acesso. Ficamos horas planejando com chegar lá. Malmequer foi até a Fazenda Graúna ver se tinham cordas e eles emprestaram sem cobrar. Ficamos dois dias para chegar ao galho. Eu preocupado com Professor e Malmequer, pois eles estavam perdendo dias de aula e isto não era bom. Mas eis que no terceiro dia conseguimos. Voltamos. Eu sorria o sorriso do Escoteiro de bem com a vida. Daquele dia em diante ele só me acompanhava quando eram acampamentos comuns. Nas grandes jornadas eu o deixava em casa. Até hoje Monitor eu fico horas olhando para ele e lembrando nas nossas grandes aventuras Escoteiras.


             Minha mulher e meus filhos acham que fico tantan quando olho para o meu cantil das Estranjas. O meu Legião. Olhei no relógio, precisava voltar a minha casa se não era preocupação na certa. Abraçamo-nos, cumprimento batendo os calcanhares, meia saudação firme e forte e cada um seguiu o seu caminho. Célia sorriu quando contei para ela a historia. Dizem que lembranças machucam. As boas, mais ainda. Eu não penso assim. Prefiro lembrar que as coisas boas da vida
não são aquelas que duram para sempre. Más são aquelas que deixam boas recordações. Sempre Alerta!

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Eu sou um Escoteiro a moda antiga... (Plagiando um pouco Roberto Carlos)


Crônicas de um Velho Chefe escoteiro.
Eu sou um Escoteiro a moda antiga...
(Plagiando um pouco Roberto Carlos)

♫Eu sou um Escoteiro a moda antiga,
Daquele que ainda manda flores;
Aquele que tem na mente o escotismo,
De saber que é um dos seus amores.

Se... Fazer mais de quarenta nós Escoteiros e de marinheiro, treinar a fazê-los de costas, olhos fechados, com uma só mão e até o nó de evasão, se seguir pistas à noite, nas madrugadas; se atravessar rios caudalosos numa jangada improvisada; pagar o que puder para um bom acampamento, não esquecer a noite enluarada e cantar, se tem orgulho de ser um ou uma lis de Ouro, se viajar nos sonhos de BP como se fossem reais; se souber abraçar, sorrir, amar ao próximo e der um sempre alerta gostoso; se tudo isto faz de tí um Escoteiro, então tú és mesmo um Escoteiro Cavalheiro.

♫Eu amo de montão acampamentos,
Que curte uma trilha de aventuras,
Olha apaixonado o céu de madrugada
Na fogueira abraçando a namorada.

Se... Tens orgulho de sua jornada escoteira, se nela leu mapas croquis da trilha do caminho, se fez um percurso de Gilwell como manda os mandamentos, se o azimute tirava de letra, se os pontos cardeais, colaterais e sub. colaterais sabia de olhos fechados, se dominava uma bússola silva ou uma prismática com perfeição; Se a distancia cobria sempre com seu passo Escoteiro; se medir distâncias, alturas se tirava de letra; se tirar o chapéu para cumprimentar uma linda Escoteira, se abrir portas, dar sempre preferência a quem precisa se saber se portar como um Escoteiro em festas e aniversários não sendo um boca suja e sujar o que não é seu; se dirigir aos mais velhos com respeito falando sempre “Senhor”; Se respeitar a todos com educação mesmo o outro não tendo razão, se tudo isto faz de você um Escoteiro, então tu és mesmo a moda antiga um Escoteiro Cavalheiro. 

♫Eu sou um tipo bem diferente,
Não existem mais em nossos dias:
Gosto de um abraço e um aperto de mão,
E dizer meu Sempre Alerta de montão.

Se... Tratar bem a todos e ser bem educado; se da técnica escoteira tu faz dela os seus penhores; se falou sem gritar e sussurrou baixinho o que queria dizer; se faz questão da cortesia com seus amigos, se gostar do respeito para ser respeitado, se pensar que o escotismo é sua maior alegria; Se segue todas as regras de segurança; se aprendeu a ouvir e falar menos possivel; Se ensinou e deu alento aos seus amigos escoteiros; se tem orgulho do seu uniforme seja qual for e o usa com respeito; se não é daqueles que vestem sempre na sede dando maus exemplos; Se sabes respeitar o tempo não perdendo tempo precioso; se tens orgulho de sua palavra de Escoteiro; se não abusa do horário dos outros chegando sempre na hora; se tudo isto faz de ti um Escoteiro, então você é mesmo a moda antiga um Escoteiro Cavalheiro.

♫Diferente dos padrões modernos e atuais,
Sou do tipo cavalheiro, por isto sou Escoteiro.
Não me comparem com escoteiros intelectuais!

Se... Ser disciplinado sem ser um bajulador; se der um boi e uma boiada pelas suas ideias e seus pensares; se der valor a todos tratando com igualdade; se afirmar que não há nada mais lindo que um bom acampamento e uma linda fraternidade; se aprendeu com orgulho a ser um bom Sinaleiro; Se sorrir nas dificuldades faz parte do seu destino; se aceitar os outros mesmo que pensem diferente de você; se no campo domina com maestria um machado, um facão respeitando a natureza; se amar um lampião a querosene nas noites mais escuras e frias; se gostas mesmo de uma refeição feita por um excelente cozinheiro de patrulha, se tudo isto faz de ti um Escoteiro, então tu és mesmo a moda antiga um Escoteiro Cavalheiro.  

♫Apesar da modernidade que apregoam,
Tantos conceitos e padrões atuais;
Sou do tipo que na verdade
Do passado ainda sinto sente saudades.

- Se... Sonhar que um dia chegaremos ao milhão tão sonhado; se acabarmos com a evasão que assola nossa associação; se pensarmos que a trilha de BP é uma só; se aceitar opiniões ser transparente e democrático; Se em seu grupo evitar a palavra “meu” tudo meu! Se der valor ao que trabalha ao seu lado; Se sonhar que a UEB faça tudo isto sem exceção, que a ENIT não seja a dona de tudo sem dar satisfações; se o orgulho ferino de for o melhor e da casta dos lords acabar e o velho amor Escoteiro voltar; se houver no coração de cada um mais fraternidade Escoteira; se pensarmos que não devemos ter fronteiras intransponíveis, pois somos todos irmãos; se tudo isto faz de ti Escoteiro, então tu és mesmo a moda antiga um Escoteiro Cavalheiro!  

Eu sou mesmo um Escoteiro a moda antiga.
Que na fogueira adora uma cantiga,
E podem acreditar sou um amante aventureiro,
A moda antiga eu sou e serei sempre um Escoteiro.

Utopia? Sonhos mal sonhados? Impossível de acontecer? Para mim isto não existe, quem sabe por que temos ainda muitos Escoteiros à moda antiga e cavalheiros!

♫Eu sou Escoteiro a moda antiga,
Daquele que ainda manda flores;
Que tem no coração o escotismo,
Ele é e sempre foi um dos meus amores.

♫Eu amo de montão acampamentos,
Que curte uma trilha de aventuras,
Olha apaixonado o céu da madrugada

Na fogueira abraçando a namorada. 

sábado, 18 de fevereiro de 2017

E o Pássaro Azul levou meus sonhos para nunca mais voltar!



E o Pássaro Azul levou meus sonhos para nunca mais voltar!

                - Porque Pássaro Azul eu não tenho mais direito em sonhar? E não posso mais acreditar em meus sonhos? – Chefe, seus sonhos são tristes, nostálgicos, não existe mais aquela alegria do passado. – Olhe dentro de você. Qual foi a ultima vez que cantou uma canção? Qual foi a última vez que apertou a mão de um amigo Escoteiro? Você se fechou dentro de si, só ouve a voz do vento e ele nunca trás para você a doce primavera do passado em forma real. – Seu mundo é imaginário. – Você ainda não viu que a forja que temperou o aço do que você foi feito acabou. – Não vai mais existir aquela alegria de tempos idos. Ela não pertence mais a você. Ela está em outros sonhos, agora dos jovens que fazem a sua maneira um belo escotismo.

                - Olhei para o Pássaro Azul que sorria um sorriso enigmático, como a perscrutar no espaço o que seria eu para ele. Tinha um porte altivo, sem encarar ele procurava saber quem era eu. Para descobrir todas minha vicissitude analisava os meus medos, as circunstâncias que cercaram a minha vida. Para ele eu não era casual e imperecível. Na sua maneira de pensar não existe o acaso. E para ele eu estava criando em minha mente uma possível volta no tempo, o que seria eternamente impossível. – Veja Pássaro Azul, você está analisando o meu sorriso, a minha atitude, isto até é fácil. Você é contra o que eu penso, acha que estamos vivendo um momento único na história.  – Deve ser por isto que levou meus sonhos. – Você não tem este direito.

                 - Às vezes Pássaro Azul eu me sinto só. Não do calor humano. Esses não me faltam. O Pássaro Azul não entendia o porquê minha luta era o nada contra o nada. Muitas vezes pensei em desistir. Mas seria o que sou? Seria o intransigente que me leva a sonhar o impossível? – O Pássaro Azul sorriu. – Todos nós somos um pouco intransigente. Do outro lado também eles existem. Mas eles são os que decidem e você não. Lágrimas caíram em meu rosto. O Pássaro Azul atingiu-me fundo. Não sei se merecia. Nos meus sonhos que ele levou não quis desservir ninguém. Acreditava que amava a todos que conheci. – Engano seu, ele disse. – Acredito que você ainda não viu a forma de amor que criou para você.

                 - Mas não fique triste. Ainda deixei pequenos sonhos contigo. Sonhos reais, palpáveis. Siga aquele poema que um dia falou das tristezas, ande sempre em frente, não crie ilusões, ilusões nada trazem de beneficio. Não ande nas sombras. Assopre o pensamento triste. Deixe escorrer esta lágrima que cai dos seus olhos. Se necessário vá até o fundo do poço, mas volte renovado. O Pássaro Azul me trouxe uma lição de vida. Avaliar o que fui e o que devo ser e ver a nova meta da minha vida. Sempre achei que fui feliz. A minha maneira acreditei. Tinha que mudar. Mudar para melhor. Cantar as mais belas canções. Procurar no espaço o que não encontrei na terra. 

                   O Pássaro Azul voou por sobre as nuvens fez uma ou duas paradas como a dizer pela última vez: - Não esqueça. Quando encontrar a sua alegria de viver, respire fundo. Deixe a energia cósmica entrar em você. Abra a janela. Deixe que os pardais procurem a luz para você. Se encontrar, coloque-a dentro do peito. Lembre-se, a felicidade é seu objetivo. E ele se foi zigzagueando pelo horizonte até desaparecer no azul do céu profundo. Meu coração encheu-se de júbilo. Perdi uma parte dos meus sonhos, mas ele me deu parte das respostas que eu procurava. A felicidade existe. Está ao nosso lado. Quando cantamos com o coração ela está junto. Lembrei-me de uma canção antiga, linda, que me marcou muito:

- Este ano, quero paz no meu coração. Quem quiser ter um amigo, que me dê à mão. – O tempo passa, e com ele caminhamos todos juntos. Sem parar. Nossos passos pelo chão vão ficar. Marcas do que se foi. Sonhos que vamos ter como todo dia nasce em cada amanhecer!


quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Historias de Fogo de Conselho.


Historias de Fogo de Conselho.

                    Caleb o Monitor da Patrulha Elefante gostava sempre de contar historias e muitas delas traziam uma motivação ou mesmo um lembrete para a vida de cada um tanto no escotismo como no lar. Naquela noite ele contou uma pequena parábola que deu o que pensar em muitos dos escoteiros que nem sempre valorizam seus pais e o que eles fazem por cada um.

                    - Escoteiros! Começou Caleb, hoje eu vou contar a historia de um menino e sua mãe quando ele lhe apresentou uma relação de tarefas que fazia e colocando o valor de cada uma para que ela pagasse a ele.
- A mãe depois que secou a mão no seu avental, pegou a folha de papel e começou a ler:
- Cortar a grama do jardim: - R$3,00.
- Por limpar meu quarto nesta semana: - R$1,00.
- Por ir ao Supermercado em seu lugar: - R$2,00.
- Por cuidar do meu irmãozinho enquanto você ia às compras: - $2,00.
- Por tirar o lixo toda semana: - R$1,00.
- Por ter um boletim com boas notas: - R$25,00.
- Por limpar e varrer o quintal: - R$2,00. 

Total da dívida: - R$36,00.

                       - A mãe do menino que olhava para ela cheio de expectativa, finalmente ela pegou um lápis e no verso da mesma nota escreveu:

- Por levar-te nove meses em meu ventre e dar-te a vida: NADA.
- Por tantas noites sem dormir, curar-te e orar por ti: NADA.
- Pelas preocupações e pelos prantos que me causastes: NADA.
- Pelo medo e pelas aflições que me esperam por tua causa: NADA.
- Por comidas, roupas e brinquedos: NADA.
- Por dedicar minha vida a ti, adaptando meu trabalho, minha moradia, meu lazer: NADA.
- CUSTO TOTAL DE MEU AMOR: NADA.

                        - E então quando o menino terminou de ler o que sua mãe havia escrito tinha os olhos cheio de lágrimas! Olhou nos olhos da sua mãe e disse: - Mamãe, eu te amo, eu te amo! Sua mãe então pegou um lápis e escreveu em letras garrafais: - Totalmente pago!

Os escoteiros aplaudiram a história de Caleb que serviu de lição para muitos por toda a vida.

Baseado em um conto da internet.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Quando a vida imita a arte.


Lendas Escoteiras.
Quando a vida imita a arte.

                              Boa noite Jonny Boy! – Boa noite papai! Ele sorria e fechava os olhinhos mesmo não estando com sono. Ele gostava quando seu pai lhe dava bom dia e boa noite. Um dia ele lhe contou sobre seu nome – Filho, sua mãe trabalhou em casa de gente rica e várias vezes assistiu um seriado na TV onde havia um jovem chamado Jonny Boy. Ele sempre pedia ao pai para lhe contar de novo esta história. Quem sabe quando seu pai narrava ele podia lembrar-se de sua mãe. Difícil ele tinha três anos quando ela se foi. Não conseguia lembrar. – Quando seu pai falava sobre ela seus olhos brilhavam. – Jonny Boy, sua mãe era linda, todos queriam casar com ela, mas eu fui o escolhido. Sei que Deus escolheu para ela ir primeiro que eu, e não podemos nunca discutir os desígnios de Deus. Um dia viu chegar uns jagunços na tapera que moravam nas margens do Rio Feliz. Não sabia o motivo, mas todos armados de espingardas obrigaram seu pai e ele a subir em um caminhão. Ele adorou a viagem, mas viu nos olhos de seu pai lágrimas que ele não entendia por que.

                              Na viagem seu pai disse a ele que o Coronel Saldanha não queria ninguém nas suas terras. Chegaram a São Paulo a noitinha. Não tinham onde dormir. Arrancharam-se embaixo de um viaduto. Ele agora com seus seis anos aprendeu com seu pai a sorrir sempre. – Filho o sorriso encanta, trás paz, trás felicidade. Não existe dificuldade para quem sabe sorrir! – Ele adorava seu pai. Tudo que ensinava aprendia. Seu pai tinha só um braço. Perdeu o direito quando manuseava uma máquina de moer cana. Não conseguia emprego. Se virava pelas ruas fazendo biscates. Limpando a praça, um jardim, lavando um carro e assim iam vivendo. Montaram uma cabaninha embaixo do Viaduto do Glicério. Quando ficou pronta Jonny Boy sorriu. Agora tinham uma casa para morar. Quando chovia o teto do viaduto deixava cair água suja e muitas vezes eles acordaram com barro no corpo todo. Mesmo assim eram felizes, seu pai o ensinou que quanto mais difícil mais a vida tem valor. – Bom dia Jonny Boy! Era sempre assim. Ele abria os olhos ainda com sono e sorria – Bom dia papai!

                               Naquele sábado perguntou ao seu pai se podia ficar. – Seu pai olhou para ele sorrindo – Claro Jonny Boy. Confio em você principalmente agora que vai fazer sete anos, meu filho você já é um homem feito. Que Deus o tenha! – Jonny Boy amava seu pai. Ele sabia que aos sábados ele gostava de ver os meninos de azuis no pátio do Colégio Sant Clement a brincar de lobinhos. Subia em uma aroeira enorme e lá do alto via tudo. Batia palmas, adorava vê-los gritarem lobo, correrem, cantarem e fazerem tantas coisas que um dia ele pensou se não podia ser um deles – Jonny Boy, agora não dá – disse seu pai. Lá só para quem estuda no Colégio. – Pai! E eu não posso estudar? – Seu pai pela primeira vez ficou triste. Não conseguiu responder principalmente naquele dia que só conseguiu um pão que uma moça lhe deu quando olhava pelo vidro as guloseimas da padaria. Metade dele e a outra metade de Jonny Boy. Seria seu almoço do dia. Sabia que ele não iria reclamar. Nunca reclamou. Quando a fome apertava ele sorria. Fazia parte dos ensinamentos que ele lhe deu.

                              Quando desceu da árvore sentiu alguém lhe chamando. Viu uma menina dos lobinhos fazendo sinais para ele. Pensou bem antes de aproximar. Sabia que sempre lhe batiam quando chegava perto de meninos e meninas ricas. – Venha! Quero lhe dar um abraço, ela disse! Ele correu para o viaduto. Sabia que se vissem ela o abraçando apanharia na certa. No outro sábado ela ficou no pé da árvore, deixou encostado uma sacola que ele descobriu ser muitas guloseimas, frutas, bolos e uma nota de vinte reais. Sorriu para ela quando passou no carro com seu motorista. Aos poucos eles foram ficando amigos. Contava para seu pai que lhe dizia para tomar cuidado. – Você sabe Jonny Boy, os ricos ainda não aprenderam a sorrir!

                                Ela se chamava Carmela. Carmela Sarita Gomes. Família rica e tradicional. Perguntou seu nome e quando disse Jonny Boy ela riu. Ele riu com ela. Contou como sua mãe tinha escolhido. Sem perceber recebeu um tapa na nuca. Caiu ao chão e quebrou um dente. Uma dor incrível. Olhou e viu que era o motorista de Carmela. – Pivete! Se ver você de novo junto dela vai acordar no rio Tietê! – Ela gritou com ele – Não adiantou. Pegou na sua mão e a levou para o carro. Ele pensou se isto era bom, afinal ser rico e não poder ver a lua e a chuva caindo no rosto será que valia a pena? Quantas coisas lindas seu pai lhe ensinou a amar. No sábado seguinte ele estava ao pé da árvore. Sabia que iria apanhar se fosse lá. Ele estava com fome e ele sempre lhe dava alguma coisa para comer. Gostava dos escoteiros, eles eram bons e fraternos, mas seus pais e motoristas não. Voltou para sua casa embaixo do viaduto e naquela noite seu pai não apareceu.

                              Isto nunca aconteceu. Queria chorar, mas seu pai sempre dizia para sorrir principalmente nas horas mais difíceis. Custou para dormir. Durante cinco dias ele procurou por toda cidade o seu pai. Não encontrou. Na Praça da Sé viu Carmela saindo da igreja. Sorriu. Ela o viu. Sorriu também. Sua Alcatéia fora fazer uma visita na Catedral. Ela correu em sua direção. Ele correu também. Um chute nas costas o jogou ao chão. Caiu desmaiado. Carmela gritava chamado o motorista de assassino. Ele de cara fechada a pegou pela mão e a levou arrastando até o carro. Ele ficou ali estirado por horas. Ouviu alguém dizer que estava morto. Ouviu vozes, diziam que era só um menino drogado. Tentou assaltar uma menininha linda, disseram. Outros diziam que era um pivete que vivia assaltando ali na praça. Começou a chover, ele sentiu a chuva em seu corpo. Tentou sorrir, estava difícil. A dor era muita. Dormiu!

                        Acordou com o sol a pino. Era lindo o sol. Ele amava quando seu pai o chamava para ver o nascer e o por do sol do alto do viaduto. Era bonito demais. Sentiu o corpo leve, não doía mais. – Jonny Boy! Bom dia! Jonny Boy olhou e viu seu pai. Ao lado uma senhora linda. – Jonny é sua mãe! Jonny sentiu a garganta seca. Queria rir não conseguiu. Queria chorar de alegria e não conseguia. Seu pai o abraçou. Sua mãe também. Você agora está em casa meu filho. Sabe o que vou lhe contar? Aqui tem lindas alcateias de lobinhos, você vai adorar! Jonny Boy estava encantado. Era bom demais. Subiu em nuvens brancas até o infinito. Papai! Aqui é o céu? - É sim meu filho, aqui seu sorriso vale o dobro da terra. Tudo é lindo, Deus está conosco e Jesus sempre aparece para dizer Boa noite!

                          Papai! Aqui tem pão com manteiga? – Tem sim filho. – Tem café com leite? – Tem sim filho. – Tem bife gostoso? Tem sim filho. Aqui tem muito mais. Ele viu uma meninada de azul correndo em sua direção – Bem vindo Jonny Boy, agora você vai ser um Lobinho da matilha Amarela do céu!


Apenas uma historia. Será mesmo uma historia? Quantos Jonny Boy estão por aí? – A rua, concreta, discreta nos mostra a frieza da sociedade e a tristeza de um povo esquecido...

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

E a vida continua...


Lendas escoteiras.
E a vida continua...

                  - Você a conheceu? Olhei para Liz, fechei os olhos e voltei no tempo. – Foi minha melhor amiga. Sempre me lembrarei dela e de seu sorriso quando naquele sábado chegou à sede escoteira, com sua mãe quase obrigando, pois ela chorava sem parar. – Não quero! Não quero! – Ela usava um vestidinho comprido rosa, cabelos presos em um rabo de cavalo e pensei comigo: - Outra chorona? Apresentaram-me despretensiosamente. Esta é Ruth, vai ser Lobinha, será da sua matilha. – Olhei para ela, tinha parado de chorar. Olhava-me espantada e sem perceber me deu a mão e um sorriso. Sorri também. Ali nasceu uma grande e bela amizade. – Liz perguntou novamente: - E você ainda se lembra de tudo que aconteceu? – Não respondi de imediato. Lembrar me doía muito. Foi um golpe do destino. Olhei para Liz e meus pensamentos foram viajar no passado.

                      - Ruth confiava em mim. Na matilha sempre ao meu lado. Nos jogos nos acantonamentos aonde ia ela ia também. Tinha dúvidas se a Akelá via com bons olhos. Pelo menos nunca me disse nada. Ruth cresceu. Eu também. Muitos interpretavam mal aquela amizade. Eu amava Ruth como uma grande amiga e irmã. Nunca a vi como uma namorada. Fiz a passagem para a Tropa primeiro que ela. Como chorou. – Gritava e dizia: - Não vá! Não sei viver sem você! Se for não serei mais Lobinha. Após o Grito da Patrulha Onça Parda quando me receberam voltei para ela. Tentei consolá-la e não adiantou. O tempo faz esquecer, o tempo muitas vezes é cruel. Um ano depois ela chegou até a mim sorrindo. – Vou fazer a trilha, breve estaremos juntos outra vez. Sorri, tinha aprendido a ficar longe, mas sentia uma falta enorme da minha amiga Ruth.

                       Muitos me criticaram pela proteção que dei a ela na Patrulha Lobo. Não era a minha. Tentei falar com o Chefe, mas ele não me deu ouvidos. Hoje acho que foi até bom. Ruth cresceu internamente e externamente. Ficou uma moça bonita e chamava atenção dos demais. Eu sentia ciúmes, mas não de um namorado. Para mim sempre foi e sempre seria uma irmã, uma amiga que morava no meu coração. Brincamos, acampamos, éramos amigos escoteiros na sede e fora dela. Ia com ela ao cinema ao Shopping, fomos passear de trem e como era linda quando sorria olhando pela janela voando como se tivesse asas. Fui para os Seniores e não sei como ele deu um jeitinho e antes de fazer quinze fez sua Rota Sênior – Olhei para Liz. As lagrimas derramavam em meu rosto. Era cruel lembrar-se de tudo que aconteceu e que do destino ninguém consegue fugir.

                        Assustei quando ela me procurou depois da reunião. – Meu irmão - ela disse, vou-me embora. – Embora? Para onde? Sua família vai mudar? – Os olhos vermelhos se encheram de lágrimas. – Conheci alguém. Apaixonei-me perdidamente. Os pais dele não aceitam minha mãe acha que sou muito nova. Você sabe que sou bastante madura com meus quinze anos. Considero-me madura o suficiente para dar o passo que vou tomar. Encontrei um grande amor e não vou deixá-lo para trás. – Não perguntei quem era. Não era meu modo de agir. Pensei que ia me dizer. Não disse. – Me abraçou me deu um beijo na face, segurou minha mão esquerda com a dela, apertou e disse: - Adeus! Partiu naquela tarde de setembro sem dar adeus aos que dela gostavam.

                         - Olhe Liz, foi demais. Parecia que o amor abandonado era eu. Nunca disse que a amava para mim eu era seu melhor amigo um irmão que ela nunca teve. Um ano depois fiquei sabendo quem foi que conquistou seu coração. Rodney Sacramento. – Impossível pensei. Ele tinha vinte três anos e ela quinze. Sua mãe foi quem me contou. Saiu com a roupa do corpo. Só me disse que ia embora e nunca mais iria voltar. Quando lhe perguntei ela disse: - Mãe eu amo Rodney, ninguém acredita, pode dizer que ele é mais velho e eu nem conheço a vida que vou viver. Mas como mandar no meu coração? Eu o amo demais. E partiu. – Olhei para a mãe dela chorando e suas lágrimas não paravam de cair. O Sênior que era não mais existia. Sei que nunca mais a esqueci.

                           - Foi na semana passada Liz que soube que ela tinha voltado. Pense bem, nunca deixei de ser Escoteiro, você sabe que é a mulher da minha vida. Nossos filhos são tudo que um homem como eu pode desejar. Mas você soube da história, nunca me perguntou e eu achei que não deveria contar. Eu a procurei sim, vi que ela precisava de ajuda. Sua mãe a internou no Sanatório Santa Maria. Quando a vi estava acabada. Magérrima, os olhos escamoteados, o rosto cortado e cheio de rugas. Poxa Liz! Eu sabia que ela não tinha nem vinte e três anos. Quem a maltratou deste jeito? O médico me disse que ela estava tuberculosa. Era tarde demais para a cura. Deixou-me vê-la em seu quarto que repartia com mais seis outras mulheres. Estava com os olhos fechados. Tentou sorrir, não era mais o sorriso de outrora. Só falou baixinho – Eu sei que é você!

                          - Eu não disse nada e ela também. Não era hora de recriminações e dizer que tudo foi um erro que não devia ter acontecido. Mas quem era eu para recriminar? Você sabe Liz eu sempre te amei e tentei esquecer e nem sei se consegui. Você me deu tudo que eu tenho e sou reconhecido por isto. Hoje soube que ela morreu. Não deixou testamento. Não contou a ninguém sua história. Fui à sua campa. Não havia ninguém. Tornou-se uma desconhecida, sem amigos, sem pais sem ninguém. Eu não poderia abandoná-la nestas horas. Sentei na grama de sua sepultura e chorei. Precisava chorar. Rezei sim, pedi ao Pai que desse a ela a alegria de novo, daquela Lobinha que conheci e que sorriu para mim pela primeira vez na matilha cinza. Tempos que se foram destino traçado, ruídos da noite que marcaram uma vida.


                            As coisas tem que passar, os dias têm que mudar, novos ventos irão chegar. A vida continua isto não há como mudar. Todos sonham em ser feliz, uns sim outros não. Alcançar a felicidade é fugir das dificuldades que encontramos sempre em nossa frente. Como disse o poeta: - E assim a vida continua, ganhando, perdendo, sorrindo e chorando... Procuramos desculpas no passado para alimentar melhoras futuras e nos esquecemos de que o momento de se viver é agora, no presente, com todas as emoções e situações possíveis... Viva!