Histórias e contos escoteiros.

Histórias e contos escoteiros.
Feitas para você se divertir!

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Serenata ao luar.


Crônicas de um Velho Chefe Escoteiro.
Serenata ao luar.

             Enfim de volta ao campo! Saudade danada de dormir sob o céu estrelado e um bom bocado de um luar apaixonado. Quantas vezes fiz isto? Perdi a conta. Era bom demais. Sozinho eu Deus e a natureza em flor. Bom demais ficar quieto, mudo, silencioso, ouvindo a floresta, os bichos, pássaros e afins em todo seu esplendor. Meu bastão ia à frente explorando a trilha, batendo o mato verde, mas com cuidado para não machucar uma plantinha que iria desabrochar. Eita mata linda! Copada, verde que te quero verde... O poeta canta em voz doce e suave que tudo na natureza depende da forma como se vê... Ela é linda demais e a vida é bela para ser olhada e aproveitada. Cheguei onde queria chegar. Um pequeno oásis em plena floresta, pássaros cantantes, brisa gostosa, sombras fincadas embaixo das asas de uma árvore adormecida. Parei e cantarolei meus versos de amor. Mostrei meu apreço por um lugar tão lindo que vale a pena ali morrer... Insigne natureza em flor, que se esgueira longe do asfalto, como és bela, delicada e forte...

            Arvorei uma lona lonada para as chuvas de verão quando elas chegassem. Um galho verde alceado para segurar minha caldeirinha, onde iria surgir o feijão, uma sopinha, ou quem sabe um quentado de peixes do remanso do pequeno riacho que corria para o mar. Águas límpidas cristalinas para matar a sede de um ser vivente Escoteiro que ama acampar em plena natureza. Os sons eram lindos, galhos fazendo toada, passarada procurando seu ninho, onde os filhotinhos brotavam a olhar o Escoteiro passante que resolveu ali acampar. Água fervendo, pó brincando nas asas da fervura, açúcar cande adoçando a cantilena de boas doses de um café puro em plena mata. Tudo era paz tudo era harmonia. Eu voltava no tempo dos meus sonhos reais de um passado que não quero esquecer jamais. À tarde vai chegando de mansinho, escondendo entre as folhas os raios de sol que se recusavam partir.

            Esperava o anoitecer. Era o mais belo no seio da mata escura, esperando o clarão das estrelas, brilhantes piscantes deixando passar vez ou outra um cometa intrometido, na sua viagem sem destino, mas que alegravam as moçoilas que na terra olhavam para o céu pedindo um amor de um príncipe, que fosse apaixonado, educado, cavalheiro e que desse a ela toda sua paixão. Um pardal voou ao meu redor. Picotou à moda do Pica Pau um galho onde ia dormir. Esperava a rainha da noite chegar. A coruja de olhos verdes cedo ou tarde iria sorrir para mim. Com aqueles olhos grandes, quem sabe esverdeados, na cumeeira de um Jatobá centenário arrepiando seu canto apaixonado. Tão longa a distancia tão longe a saudade e tão bela espera, lá estava ela, a rainha da noite dos meus sonhos de verão. Cantei uma canção para ela, e ela agradeceu com duas balançadas de cabeça aprumada como se fosse sorrir. Onze horas a noite já avançava para a madrugada.

           O foguito pequeno quentito batatas cozidas, bananas na fieira, que mais eu iria querer? Hordas de vagalumes chegavam sem pedir mostrando seu brilho soltavam chispas para mostrar quem manda no lugar. Quanta felicidade! Quantas saudades de tantas noites que acampei. Quantas vezes meu anjo protetor sorria me dizendo que ali era Nosso Lar. Ah! Natureza em flor. Se você não é minha nem eu sou seu, porque brilha tanto no teto do céu? Disseram-me certa vez que vivendo de acordo com as leis da natureza, nunca serei pobre, mas não serei nada se viver pensando nas opiniões alheias, pois elas nunca me faram rico. Fechei os olhos e deixei a brisa da noite me levar... Quantos montes, quantos horizontes viajei com a brisa e a natureza que abrilhantava o lugar?


          Ah! Quanta felicidade! Bem perto uma sonata de Uirapurus como se fosse uma orquestra mágica, tocava melodias com violinos mágicos no seio da mata escura. A música é celeste, e a natureza divina realça tal beleza que encanta a alma e nos eleva acima do que somos, pois eu sabia que a natureza não faz nada em vão. Dormi acordado esperando o amanhecer. Queria ver o sol brilhante entre as folhas das belas arvores do lugar. Não deu, tudo que eu não queria aconteceu. – Marido! Hora de acordar, o café está pronto e tem bolo de chocolate com pasteizinhos de queijo. Levantei sorrindo, mas com saudades dos meus sonhos e da minha natureza em flor! Ah! Como é bom sonhar...

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

A parábola da rosa.



A parábola da rosa.

                     O Chefe Conrado naquela noite em frente sua barraca nos recebeu com um delicioso cafezinho. Deixou-nos a vontade, pois à noite estava linda e o céu estrelado. Sorrindo falou em voz baixa: - Vocês sabiam que as pessoas desabrocham assim como as rosas? Ficamos olhando para ele espantados. – Saibam que precisamos aprender a ver a essência das pessoas, a beleza interior e não a beleza externa de cada um. Vou contar para vocês uma parábola que um dia ouvi de um mestre Escoteiro, quando sem querer em um vale florido ele começou a narrar uma historia que nunca tínhamos ouvido.

                    - Meus queridos escoteiros, um certo homem plantou uma rosa e passou a regá-la constantemente e, antes que ela desabrochasse, ele a examinou: - Ele viu o botão que em breve desabrocharia, mas notou espinho sobre o talo e pensou: - Como pode uma bela flor vir de uma planta rodeada de espinhos tão afiados? – Entristecido por este pensamento, ele se recusou a regar a rosa, e, antes que estivesse pronta para desabrochar, ela morreu. – Assim é com muitas pessoas. Dentro de cada alma há uma rosa. As qualidades dadas por Deus e plantadas em nós crescendo em meio aos espinhos de nossas faltas. Muitos de nós olhamos para nós mesmos e vemos apenas os espinhos, os defeitos. Nós nos desesperamos, achando que nada de bom pode vir de nosso interior. Nós nos recusamos a regar o bem dentro de nós, e, consequentemente, isso morre. Nós nunca percebemos o nosso potencial. Algumas pessoas não veem a rosa dentro delas mesma; Alguém mais deve mostrá-la a elas.

                   Olhando na face de cada um de nós ele terminou: - Um dos maiores dons que uma pessoa pode possuir ou compartilhar é ser capaz de passar pelos espinhos e encontrar a rosa dentro de outras pessoas. Esta é a característica do amor — olhar uma pessoa e conhecer suas verdadeiras faltas. Aceitar aquela pessoa em sua vida, enquanto reconhece a beleza em sua alma e ajuda-a a perceber que ela pode superar suas aparentes imperfeições. Se nós mostrarmos a essas pessoas a rosa, Elas superarão seus próprios espinhos. “Só assim elas poderão desabrochar muitas e muitas vezes.”.


                  O Chefe Conrado piscou o olho e como um bom poeta que era finalizou: - Eu queria ser uma rosa branca, mas do que me adianta ser branca se ao ser branca deixa de ser rosa, por tanto permaneço em mim transparente e habitante do planeta amor, firme na idéia caule só pra ver aonde broto flor.

domingo, 29 de janeiro de 2017

O último por do sol.


Lendas Escoteiras.
O último por do sol.

                  Faz anos... Muitos... Uma pequena fogueira, chefes cantantes e eis que um se põe a chorar. – Todos preocupados. Chefe Thadeu não se fez de rogado e começou a contar uma das histórias mais tristes que já ouvi. Naquele dia chorei. E até hoje quando conto a historia ainda choro. Assim ele começou:

                  - Eu era Chefe de uma tropa Escoteira lá no Bairro do Berilo. Não era longe e eu sempre ia a pé. Era uma boa tropa. Eu tinha bons Monitores que me ajudavam muito. Uma Tropa feminina duas Alcatéias uma Sênior e o grupo seguia sua jornada. Não sei se acontece com todos os chefes, mas tem escoteiros tão bem comportados que quase passam despercebidos. Assim era Waldo. Entrando nos quatorze anos tinha todas as qualidades que a gente pensa ter um “Espírito Escoteiro”. Na Patrulha Quati Waldo era uma espécie de conselheiro dos demais. Não era o Monitor, mas cativava a todos pela sua ponderação, pelo seu exemplo não só na tropa como na escola e em sua vida familiar. Eu me acostumei quando aparecia algum problema chamar o Waldo. Tinha um jeitinho próprio de conversar que conquistava qualquer um que estivesse ao seu lado.

                      Foi em um sábado de maio ao chegar à sede não vi o Waldo. Era o primeiro a chegar e o último a sair. Perguntei a Tonho seu Monitor se ele sabia de alguma coisa. Não sabia. Pensei comigo – Deve ter sido o motivo muito forte para ele ter faltado. Liguei para ele a noite para me inteirar de tudo. Quem atendeu foi sua mãe. – Chefe, o melhor é o Senhor vir aqui em casa. Não dá para falar por telefone. Só na quinta deu para ir até lá. Eu estava preocupadíssimo. O que seria? A Mãe dona Aurora e o pai seu Rodolpho me receberam na porta. Estavam tristes e taciturnos. – Chefe, falou dona Aurora, Waldo me pediu para ele mesmo dizer. Acho que o Senhor deve ficar prevenido. A notícia vai chocá-lo muito. – Vi que lagrimas caiam dos olhos de ambos. O Senhor Rodolpho estava com a voz embargada.

                       Subi ao quarto de Waldo, ele me esperava sentado na cama. Senti nele um sorriso tênue e sua voz que já era baixa por natureza estava rouca. Seus cabelos estavam caindo e aquilo me assustou. – Olá Chefe, Sempre Alerta! Ele tinha ficado em pé. Dei-lhe um aperto de mão e um abraço. – Waldo, todos estão sentindo muito sua falta e as saudades são grandes. Ele sorriu de leve. – É Chefe, vai ser difícil minha volta. Vou direto ao assunto. Melhor ser honesto com o Senhor. Estou com Leucemia no cérebro. O médico disse para minha mãe que eu tenho no máximo quatro meses de vida. Foi como se eu tivesse levado um soco, uma pancada. Fiquei chocado. Sentei em sua cama. – Calma Chefe, isto acontece com um e outro, eu fui o escolhido por Deus desta vez e sorriu. – Meu Deus! Pensei. Que calma deste garoto! Incrível! – Olhe Chefe, eu convenci minha mãe. Ela e meu pai não queriam, mas eu gostaria antes de ir me encontrar com meus ancestrais lá na vivenda de Capella, eu queria ir ao acampamento do próximo mês no Vale dos Sinos.

                        – Mas como Waldo? Você mal fica em pé e nem pode andar direito! – Eu sei Chefe, mas eu preciso. Não posso partir sem ver o último pôr do sol nas escarpas cintilantes. - Me lembrei do que ele falava. Nas escarpas o pôr do sol era maravilhoso. O mais lindo que tinha visto. Eu nunca pensei que ele pudesse lembrar e nem eu mesmo lembrava mais. Olhei para Waldo. Não podia negar aquele último favor. Se ele queria eu não iria dizer não. Combinei com seus pais de passar lá no dia do acampamento pela manhã para pegá-lo. Não disse nada para a tropa e nem para os chefes. Insisti para que ninguém faltasse. Queria dar a ele uma despedida inesquecível. Seria o maior Fogo de Conselho que eu iria dirigir e ele participando. – Passei lá no dia determinado. No local do acampamento ele insistiu em ficar com sua Patrulha. Estava tremendo, fraquejava, mas dizia que iria dormir na barraca da Patrulha.

                       Poderia ter armado uma barraca só para ele, mas ele foi enfático em ficar na patrulha e não queria dormir sozinho. – Chefe, é câncer! E sorria. Nada mais que o cancerzinho idiota. Não vai ter perigo para ninguém. Ele não é contagioso! – Meu Deus! Que Escoteiro era aquele? Waldo de quatorze anos me dando lição? Eu tinha levado uma cadeira de praia para ele ficar sentado. O dia que ele quisesse eu o levaria em minhas costas até as Escarpas Cintilantes. Ele recusou a cadeira. Vou fazer a minha de madeira Chefe. Devagar mas vou fazer. A Patrulha viu que ele estava doente. Disse para ela que ele estava se recuperando de uma forte pneumonia. Ele quase não participava das atividades, mas ajudava na cozinha sempre. Fez uma bela cadeira. Sentava e fechava os olhos. Seus lábios entreabertos pareciam sorrir. No penúltimo dia vi que ele respirava com dificuldade. – Waldo, eu vou levá-lo para sua casa. – Chefe nem pensar. Me leve agora até as Escarpas Cintilantes. Meu tempo está se esvaindo.

                            Fui sozinho com ele. Em principio foi andando depois o vi fraquejar. O coloquei no colo. Uma palha de tão magro. Em menos de meia hora chegamos. Sentei junto com ele na barranca que dava para todo o Vale dos Sinos. Um espetáculo a parte. Deviam ser umas cinco e meia da tarde. Chefe eu posso fazer meu último pedido? Claro meu amigo. Claro. - Quando eu estiver indo para a terra dos meus ancestrais no campo santo, eu não quero que cantem a canção da despedida. Cantem todas aquelas alegres que sempre cantamos para que eu tenha boas lembranças. Não disse nada. Não havia nada para dizer. O sol foi aos poucos se escondendo atrás das montanhas do Vale dos Sinos. Waldo sorria. Não tirava os olhos do horizonte. Eu engasgado. Danação! Eu não era como ele. Estava difícil aguentar. Queria chorar e não podia. Não podia chorar naquele instante. Não podia. Eu sabia que eram seus últimos momentos. Waldo me olhou. Piscou os olhos e me disse – Chefe foi a maior alegria que já tive. Vou levar para sempre esta lembrança comigo. Obrigado Chefe. Obrigado. Foi aos poucos deitando no meu colo. Esticou suas perninhas secas. Waldo morreu sorrindo no meu colo naquele anoitecer frio de junho. Ficou ali imóvel como se estivesse dormindo.

                    Fiquei ali chorando por muito tempo abraçado ao corpo de Waldo. Alguém bateu no meu ombro. Olhei e não vi ninguém. Lá onde o sol se punha vi uma nuvem branca brilhante que logo desapareceu. Desci as escarpas com ele no colo. Uma eternidade até chegar ao acampamento. Uma dor profunda. Toda a tropa chorava. Voltei para a cidade. Não chorava mais. Meu coração batia sem parar. Minha vontade não era minha. Naquele momento achei que eu também tinha morrido com o Waldo. No dia seguinte estávamos todos na sua exéquias. Cantamos ao som de um violão a Stoldola, Avante Escoteiro, Lá ao longe muito distante e outras. Todos cantavam com vigor escoteiro. Muitos choravam. Eu também. Não dava para segurar. Os anos passaram. Nunca me esqueci de Waldo. Nunca me apareceu em sonhos. Nunca falou comigo em espírito. Deve estar feliz, muito feliz em Capella, a terra dos seus ancestrais.


                    Chefe Thadeu parou de contar. Chorava copiosamente, eu e os outros com os olhos cheios d’água tentávamos racionar. Sem condições. Ninguém falou nada. Um silêncio profundo e ali ficamos até o raiar do dia..

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Doninha.


Doninha.

                 Não tive dúvidas. Era Doninha sem tirar nem por. Pois é, as voltas que o mundo dá estavam agora vivas na minha mente. Era normal. Eu agora sentia o efeito delas. Pensei em fugir dali. Afinal eu era culpado? Aproximei-me. Posso sentar ao seu lado Doninha? Um sorriso triste, apagado, sem vida. – Sente-se Monitor. – Assustei. Como ele sabia que era eu? – Não quis perguntar e me sentei ao seu lado no banco verde, naquela praça florida local de muitas idas e vindas na minha jornada da vida. Ficamos ali os dois calados sem nada dizer um ao outro. Ele envelheceu. Afinal tinha passado mais de 50 anos, mas para mim era como se fosse ontem. – Como vai Monitor? Bem Doninha disse com a voz engasgada. – Porque está triste Monitor? – Doninha usava uns óculos escuros e ao seu lado uma bengala bem trabalhada e tendo desenhado no cabo uma flor de lis. – Não estou triste Doninha. Faz parte da minha vida. – Pois é Monitor, quanto tempo se passou e vejo que você nunca esqueceu. Eu peguei minhas tristes lembranças empacotei e despachei para o Pico da Tristeza. Doninha riu mais alegre.

Não tinha voz e nem assunto para responder a ele. Minha mente voou no tempo, naquele fatídico dia que tudo aconteceu. Porque aceitei aquele jogo? Aquela fama de durão? Não devia ter sido amigo de todos e irmãos dos demais? – Monitor, ninguém irá embora da sua vida sem apagar as memórias até ensinar tudo àquilo que você precisa aprender! Olhei para ele atônito. Estava lendo meus pensamentos? – Doninha permaneceu calado. Olhava para longe como se estive no Pico do Redentor naquele inverno que eu e ele esperávamos ansioso o sol nascer. – Para mim Monitor foi o dia mais bonito em minha vida. A minha também. – Ainda Escoteiro Doninha? Não Monitor, depois daquela suspensão resolvi nunca mais voltar. Você lembra, tinha o escotismo em meu coração. Vibrava com tudo, era o primeiro a chegar e o último a sair. Hoje tenho saudades dos nossos acampamentos, excursões e nunca esqueci aquela jornada no Vale da Redenção. Meus olhos estavam vermelhos e as lagrimas começaram a cair.

Meu Deus! O que eu fiz? Achava que era um Salomão, e por voto de minerva aprovei sua suspensão. Cinco meses! Porque tanto? Ele não era um criminoso, não era um malfeitor. Lembro-me de tudo como se fosse hoje. A patrulha se reuniu e decidiram que Doninha não podia mais ficar na Touro. Sempre me perguntava se ele era culpado ou se outro Escoteiro por sentir inveja de suas qualidades não tentou incriminá-lo. Porque o Chefe Zafir não investigou melhor? Afinal nós éramos crianças, tomar tal decisão era demais. Afinal a Corte de Honra tem essas prerrogativas? E porque os pais de Doninha não procurou a chefia para saber o que ouve? Eram tantos porquês que eu sempre tive dúvida de quem estava com a razão. – Condenamos por uma simples traquinagem e eu depois fiquei sabendo que não foi ele. Trocou o sal pelo açúcar e deixou a intendência aberta onde perdemos todos os mantimentos trazidos. Duas ferramentas desapareceram. Porque ele não se defendeu? – Monitor, por que acusar alguém? Não seria ele mesmo que devia se declarar culpado?


Monitor, não se sinta responsável. Vocês eram oito e com os dois chefes dez participantes da corte. Mesmo com você me acusando os demais não precisavam segui-lo como seguiram. Poderia dizer hoje aqui, pois somos dois anciãos sem necessidade de mentir que nossa historia foi mal contada. Não fui eu! Poderia dar minha palavra escoteira, mas fiz isto e ninguém acreditou em mim. – Eu estava calado. Ajoelhei-me perante Doninha. Com meus setenta anos eu chorava a cântaros. Pedi perdão a ele. Ele me levantou, me abraçou e disse: Monitor, o tempo não volta mais, eu sei dos seus sentimentos e quer saber? Sempre tive você em meu coração. Muitas pessoas que passavam pela praça não entendiam o que se passava. Dois velhos de cabelos brancos se abraçando e um chorando. – Vamos tomar um café e relembrar os velhos tempos? Era demais para mim. Doninha me mostrou o verdadeiro caminho do perdão. Saímos abraços e fomos de bengala em punho a procura de uma nova redenção.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Esperança e gloria de um Chefe Escoteiro.


Lendas Escoteiras.
Esperança e gloria de um Chefe Escoteiro.

              Deixei o livro sob os joelhos. O barulho das ondas do mar e a brisa que soprava me trouxe de volta a realidade. Eu voltei um pouco as minhas origens, quando estive em altas montanhas, nas vastidões das planícies do rio Doce e quando resolvi passar dez dias explorando a Serra do Caparaó. Nada se compara ao mar. Olhei para cima ao grasnar das gaivotas que faziam seu balé no ar. Aos poucos retornava das páginas de sonhos que me levaram muito além de uma vida que não era a minha. Não sei como minha memória rebuscou no passado a figura de Martinho. Chefe Martinho Alberto Flores. Nunca o esqueci. Ficou gravado em minha mente e no meu coração para sempre. Fomos amigos por longos anos. Perdi a conta dos acampamentos, viagens fora do Brasil, aventuras selvagens nas selvas da Bolívia. Eu tinha por ele um respeito sem comparações. Martinho era para mim especial. Ser seu amigo era morar em um paraíso de pessoas de almas puras e onde a fraternidade não era uma simples palavra.

              Martinho era amado por todos que o conheciam. Não era esbelto, até feio se procurarmos um Adônis reencarnado. Era um exemplo para todos nós não só pelo seu exemplo pessoal, mas também pelo respeito que demostrava com todos. Enquanto viveu ia a pé para a sede, cumprimentando a todos no caminho com sua calça curta e seu chapelão Escoteiro. Nunca chegou atrasado e era sempre o primeiro a chegar. Quem chegava o via sempre com uma vassoura ou espanador fazendo uma limpeza que não era sua e sim da Patrulha de Serviço. Ninguém ficava sem um sorriso de Martinho. Sempre com uma palavra encorajadora como a dizer – Conte comigo, estou aqui para ajudá-lo e servi-lo, acredite sou seu amigo e irmão escoteiro.

             Todos nós sabíamos que Martinho não era unanimidade. Não sei se teve inimigos, mas sabia que tinha milhares de amigos. Em todas as eleições fazia tudo para passar o bastão a outro chefe, mas era chover no molhado. Lembro que em uma atividade escoteira Regional foi convidado para colaborar com um sub campo Escoteiro. O Chefe do Campo arrogante e prepotente não deu bola para Martinho. Interessante que no final da atividade ele chorou e abraçou Martinho dizendo que nunca iria esquecer aqueles maravilhosos dias que passaram juntos.

             Nunca se desentendeu com ninguém. No distrito e região todos tinham por ele um grande respeito. Não era Insignia de Madeira e nunca foi convidado para cargo nenhum, apesar de que todos nós reconhecimentos nele o chefão que precisamos para nos mostrar o caminho a seguir. Martinho não era um erudito e nem tão pouco um filósofo. Tinha consciência dos valores e do respeito e para isto sempre agiu de forma correta e fraterna. Ele sempre tinha uma palavra de ânimo e gostava de dizer a todos: - O que você faz fala tão alto que não consigo escutar o que você estava dizendo.

                Martinho para mim era incomparável. Cecília sua esposa foi à melhor escolha que ele tinha feito na vida. Ele sempre comentava comigo: Um achado! Deus me fez um privilegiado. Realmente formavam um casal maravilhoso. Seu filho Netinho era lobinho e adorava a Alcateia. Em tempo algum influiu em seu crescimento escoteiro. Ninguém poderia acusar seu filho de ser o “filho do chefe”. Uma tarde de abril cheguei à sede e não vi ninguém. A porta adentrei até o almoxarifado. Encontrei Martinho deitado no chão se contorcendo em dores. Aflito chamei uma ambulância e o levamos para o Hospital. Foram duas semanas de agonia. Não dormi e nem fui trabalhar. Fiquei ali plantado com Cecília. Ela era mais forte que eu. O médico nos trouxe o diagnóstico – Câncer nos pâncreas. Não tem muito tempo de vida.

                Demais. Não aguentei e meus olhos encheram de lágrimas. Só não chorei alto porque tinha de respeitar a dor de Cecília. No terceiro dia, o hospital encheu-se de escoteiros e chefes. Vieram até dirigentes da Regional. Parecia um aparato de uma grande atividade escoteira. Martinho era mesmo muito querido. Todos os funcionários e o diretor do hospital ficaram perplexos. Não entendiam tudo aquilo. Nada se comparava a centenas e centenas de escoteiros, pais, amigos que tomavam de assalto os corredores, a entrada e até boa parte da rua do hospital. Alguns policiais vieram assustados, mas quando souberam o que tinha acontecido, eles ajudaram a organizar o transito. Os escoteiros portavam-se dignamente.

                    Martinho fazia questão de receber e cumprimentar a todos. Do mais humilde Lobinho ao mais famoso chefão. No quinto dia de internação Martinho me perguntou: - Chefe Vado eu sei que minha morte se aproxima. Terei de dizer minhas ultimas palavras? - Eu não sabia o que dizer e ele me olhou com aqueles olhos que nunca mais esqueci. Lagrimas caiam dos meus olhos e não mostravam outra coisa a não ser a dor enorme que estava sentindo. Pediu sua esposa que fizesse uma doação de todos seus pertences ao grupo para serem doados. Cecília uma incansável mulher, ficou todos os dias ao seu lado. Seu filho ficou com a Avó Matilde que o adorava. Cecília não chorava. Seu semblante era firme. Seus olhos vermelhos mostravam todo seu sentimento. Martinho partiu em uma tarde de maio. Outono. Folhas secas caindo das árvores naquela necrópole sombria em um bairro afastado da cidade.

                    Uma brisa leve e calma foram testemunhas da ida de Martinho para onde ele acreditava que existia outra vida. Nunca me falou nela. Suas exéquias foram simples. Vieram escoteiros de todos os lugares para se despedir e dar seu ultimo adeus a Martinho. Não ouve canções. A despedida foi só uma lágrima que aqui e ali era derramada por todos que foram seus amigos presentes. Martinho deixou saudades. Quantas saudades. Soube que quiseram alterar o nome do Grupo Para Chefe Martinho Alberto Flores. Cecilia disse não. Entregou um bilhete que ele escrevera horas antes de morrer. - Não quero tributos, só quero que permaneça por toda a vida o nome que conheci, sempre amei e admirei. Grupo Escoteiro Estrelas Cintilantes.


                 Até hoje visito Cecília. Uma forte mulher. Não pediu nada a ninguém. Trabalhava e dizia sempre que Netinho teria o que Martinho almejava. Se formar e ser um doutor, coisa que ele não tinha sido. A tarde vai aos poucos se afastando. A noite chega de mansinho. Ainda estou sentado na cadeira de praia de frente para o mar. O sol já se foi. A brisa está sendo substituída pelo orvalho que cai. Meus olhos voltaram a ficar vermelhos. Nem sempre as lembranças são como a gente quer. A vida é assim, uns ficam e outros vão. Perdi um amigo e o céu ganhou um Anjo. 

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Poemas escoteiros. No mundo da fantasia... Morava a escoteira Luzia


Poemas escoteiros.
No mundo da fantasia... Morava a escoteira Luzia.

No mundo da fantasia, morava a escoteira Luzia.
Sorriso alegre e bem faceira, uma linda escoteira,
Na Tropa da imaginação, Luzia entregou seu coração.
Sonhava noite e dia, para o escotismo vivia.

Morava em uma tapera, encantada em sua quimera,
Entregou-se a uma ilusão, e ao escotismo seu coração.
Só falava só cantava na patrulha que amava.
Não importavam os ventos, adorava acampamentos.

Tinha um sonho dourado, e Deus seja louvado,
Sem criar desavença, montou uma barraca suspensa.
O tempo sem um final, no campo deitou temporal.
E na chuva molhada, a patrulha ela gritava:
Irmãos eu consegui. Na barraca sobrevivi.

Zé Santana, Nonatinha, Lovegildo e Renatinha.
Ela, Tonho monitor, todos da patrulha Condor.
Reuniões, saudação amores e dissabores.
Um bom aperto de mão mostrava que eram irmãos.

Muitas atividades aventureiras, dormindo sob as estrelas,
Conquistas e façanhas, a escalar as montanhas.
Bussola e rosa dos ventos, chuva toma tento.
Ela participava e sorria, assim era a escoteira Luzia.

Mas a vida não é sorriso, e tudo parece improviso.
Eis que de repente, alguém a olha sorridente,
Ela se ergue no ar, é o príncipe do além mar.
Olá, sua voz ecoou, seu coração disparou.

E assim em poucos instantes, iniciou-se um romance.
Foi amor de improviso o que aumentou seu sorriso.
Mas ele com seu gesto mostrou não ser honesto.
Amou Vania, amou Vanda, amou demais Maria Ana.

A bela não mais sorria coitada da linda Luzia.
Tinha abandonado as amigas, chorava com suas cantigas.
Sem chorar tomou resolução. Ele não vai partir meu coração.
Escoteira acorda e não dorme, vá vestir seu uniforme.

Acabou a ilusão, a todos pediu perdão.
Na bandeira bem faceira, sorria a bela escoteira.
Junto aos amigos de fato, a todos deu um abraço.
Acabou a euforia, Estou de volta diz a escoteira Luzia.
Para sempre jurou o seu amor, a patrulha do Condor.   

    

sábado, 21 de janeiro de 2017

Histórias de Seeonee. A lenda do Tico-Tico da asa partida.


Histórias de Seeonee.
A lenda do Tico-Tico da asa partida.

                      Quanto tempo! Muitos deste quando ouvi esta história que hoje resolvi contar. Se não me engano foi a Chefe Marlene. Hoje ela também está tão velhinha como eu. Nunca me esqueci dela. Sua Alcatéia era um doce. A alegria era reinante. Conheci muitos dos seus lobinhos, hoje homens feitos. Chefe Marlene era de uma simpatia que quem a conhecesse diria que não tinha inimigos. E não tinha mesmo! Um dia na casa dela me contou uma história que a principio não acreditei muito, mas era a Chefe Marlene. Tinha palavra.

                      Lavínia tinha seis anos e meio quando entrou para Alcatéia. Assim começou a sua narrativa. – Era uma menina triste. Quase não sorria. Brincávamos sempre com ela e ela séria. Mas sempre achei um dia ela iria mudar. Não se entrosou muito na matilha. Fazer amigos para ela era uma dificuldade. Sempre se mostrando arredia. Acho que foi no Acantonamento que fizemos em Rio Bonito que tudo começou. Seriam três dias. Os pais de Lavínia eram muito simpáticos. Alegres e eu não entendia a personalidade de Lavínia com a sua testa sempre franzida e os lábios fechados. Ela custava a enturmar apesar de que sua matilha cinza era especial. Antiga e a maioria dos lobinhos eram como irmãos.

                       Tudo corria bem até que depois do almoço demos falta dela. Um jogo gostoso chamado “fugindo do lobo mau” e ela sumiu. Onde estaria? Procuramos em volta das arvores, na casa sede e nem no riacho vimos nada. Era um riacho tão raso que a parte mais funda não passava do calcanhar de um lobinho. Uma hora depois há vimos surgindo com um sorriso nos lábios. Era um sorriso tão bonito que desistimos de chamar sua atenção na hora. Alegria geral, depois de seis meses na Alcatéia pela primeira vez ela sorria. Esperei o jantar e quando todos sentaram na varanda para um breve tempo livre a procurei. Ela sorria para mim e dizia – Akelá, hoje é o dia mais feliz da minha vida. Fiz uma amizade que acho ninguém tem. Achei um Tico-tico da asa partida e ele gostou de mim e eu dele.

                      - Como sabe que é um Tico-tico? Perguntei. Ele me disse! Agora sei como são. Topete baixo listrado, belo, amarelo e ele disse que era um “macho”. Ele se assustou com um filhotão de chopim querendo comida e gritando com ele. – Asas da imaginação pensei. Deixei-a acreditar no que dizia. Não sabia se era para o bem dela ou não, pois agora sorrindo valia tudo. Até a história fantástica que contava. – Sabe Akelá, ela continuou – Ele estava fraco, pois sua companheira que o ajudava com alimentos tinha vários dias que não aparecia. E o que você come eu perguntei. – Ele respondeu – Sementes, insetos, mas preste atenção - Muitas vezes acham que somos pardais. E porque sua asa partiu? – Ele fechou os olhos e chorou baixinho. Um gavião malvado.

                    - Olhe ele dizia, eu tenho raiva dos chopim. Eles são parasitas. Botam ovos para nós chocarem. Não gosto e ele chorou de novo. Olhei para Lavínia e não vi nenhuma mentira em seu rosto ou seu modo de falar. Claro sei que passarinhos não falam assim deixei que ela desenvolvesse sua criatividade. Em pouco tempo ela esqueceria tudo. Todos os dias enquanto durou o acantonamento ela me pedia para visitar o Tico-Tico. Claro deixei, mas ela insistia para ir sozinha. É perto. Não vou me perder. Assim foi até o último dia. Uma surpresa aconteceu. Antes do retorno ela correu até o ninho do Tico-Tico e trouxe-o com ela. Achei que não seria bom que ela levasse para casa. Chorou tanto que achei que poderia, mas desde que sua mãe autorizasse.

                     No ônibus todos cantando e Lavínia conversando com o Tico-Tico. Todos assustaram quando uma vozinha fininha no do fundo gritou – Não parem de cantar! Adoro o que vocês cantam. Até sei cantar a Arvore da Montanha! – Quem foi? Quem era? Não vi ninguém. Lavínia disse que era o Tico-Tico. Fui até lá para repreendê-la e o Tico-Tico virou para mim e falou. – Olá Akelá Marlene, a Lavínia fala muito bem da senhora. Chefe, um susto eu levei. Enorme. Quase caí ao chão. Acredite Chefe, o Tico-Tico falou mesmo!

                    Não disse nada. Fica o disse pelo não disse. Tico-Tico falante? Essas alcateias tem cada uma. Ouvi uma vozinha lá da cozinha dela chamando – Ela me convidou a ir com ela. O Tico-Tico estava em cima da mesa ciscando, dando pulinhos e vi que sua asa estava boa. – Um veterinário. Remendou tudo. Agora ele passeia por aqui quando Lavínia vai para a escola. Este é o tal que fala? O Tico-tico me olhou, ciscou para frente e para trás e disse – Acha que sou mentiroso Chefe? O Lobinho e o Tico-tico diz sempre a verdade! Quase cai de costas!


Podem achar que é uma lenda. Mas acreditem, eu “quase” juro que é verdade. Danado de Tico-tico falante. Um tagarela isto sim, mas o amei desde o primeiro momento que o vi! Risos.  

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

A estrada do fim do mundo.


Lendas Escoteiras.
A estrada do fim do mundo.

(Dizem que a lenda supera a realidade. Muitos diziam que encontraram esqueletos com facas de madeira fincadas no coração. Outros diziam que a estrada levava a Ushaia, mais conhecida como a estrada do Fim do mundo. Quem por ela passava nunca mais voltaria. Covas de vampiros, esqueletos fantasmagóricos, um cemitério bizarro uma passagem entre montanhas e escarpas que todos chamavam do Vale do medo. Bruxaria? Caixões em miniaturas vazios, mas soltando uma fumaça vermelha? Mentira ou verdade, mas toda a população da cidade de Fonte da Saudade evitava passar por ali!).

                  Até hoje todos se perguntam por que ninguém se preocupou quando Sarah atravessou toda a Rua do Alencar de uniforme, com uma mochila as costas um bastão as mãos e um sorriso de quem ia descobrir o mundo. Não era uma rotina para os moradores tal fato, mas os escoteiros eram conhecidos que já nem se falava mais no que eles representavam para a cidade. Muitos sabiam da lenda da Estrada do Fim do mundo, mas era apenas uma lenda. Contavam as centenas de causos de desaparecidos, de discos voadores, de luzes coloridas que transportavam os meninos para uma cidade existente no espaço sideral. Os mais idosos falavam do Cemitério Maldito, das bruxas de olhos vermelhos, de esqueletos em cada curva do caminho. Ninguem acreditava e diziam que eram apenas histórias. Nada havia sido provado ate hoje. Tomukan e Jardel tinham um sítio logo no inicio da cidade. Nunca passaram pela estrada a noite sempre ao sol do meio dia. Uma estrada praticamente deserta e arriscar para que?

                A cidade se regozijava com os escoteiros. Faziam de tudo para alegrar a comunidade com Fogos de Conselhos, desfiles, apresentações teatrais e muitos chefes se reuniam aos sábados e domingo no Coreto da Praça para contar histórias. Os lobos e lobas as Escoteiras faceiras, os escoteiros cantantes, seniores guias e pioneiros. Uma juventude serelepe voltada para o bem e para o amor fraterno. Um dia sem ninguém esperar um Chefe desconhecido subiu no coreto e sério pediu silêncio. Ninguem sabia quem era bem uniformizado sim, mas seu semblante se visto mais de perto parecia com a cara do diabo. Mas diabo tem cara? Sei não. Dizem que muitos já o virão e outros que querem ficar longe dele. Todos se assustaram e prestaram atenção ao que ele dizia. – Um conselho ele disse, não se arrisquem, não facilitem os demônios que podem levar vocês. Nunca em tempo algum escolham a estrada do Fim do Mundo para escoteirar!

                 Se ele não tivesse dito isto nada teria acontecido. Mas Sarah sempre persistente para ver o que não deveria disse a sua patrulha que iria excursionar na Estrada do Fim do mundo. Todos conheciam Sarah. Sabia dos seus medos e de sua luta em vencer a todos eles. Quando ela partiu e não voltou à cidade ficou em polvorosa. Era um corre-corre sem parar. Os escoteiros foram os primeiros a procurar. Dona Ana Lobato foi quem contou que a viu indo para a estrada do Fim do Mundo. Quem se arrisca? O Chefe Lobo Cinzento sorriu. - Deixa comigo disse. Vinte dias depois voltou todo rasgado, ensanguentado, desgrenhado e com os olhos arregalados e o pior: - Mudo. Não falava nada. Os bombeiros da cidade deram uma voltinha no inicio e a grita que ouviram ao longe fez todos correrem para suas casas. O Prefeito Done Branco pediu a ajuda do exército. Tanques deixaram marcas e nada foi encontrado.

                  Os Touros estavam calados. Em reunião de Patrulha Tarquino falou baixinho – Sarah era das nossas. Deixar que o diabo tomasse conta dela? Afinal e nosso orgulho? Jiparanã, Joviel, Calixto e Catapora se entreolharam. – Vamos ficar sem fazer nada? Não tinha jeito. Calixto levou dois facões, Catapora quatro canivetes. Jiparanã lixou a ponteira de aço de seu bastão. Joviel era franzino. Não estava com medo, mas enfrentar a capetada não era fácil. No baú do seu pai ele sabia que tinha um enorme crucifixo. Seria ele sua arma principal. Na Rua do Alencar ninguém queria olhar. Eram cinco escoteiros que passaram bem ligeiro rumo a Estrada do Fim do Mundo. Todos sabiam que sem Sarah não iam voltar. Nem bem escureceu quem olhasse bem a frente da Estrada do Fim do mundo iria ver um clarão vermelho, gritos e sussurros. Quase dois dias e o céu continuou vermelho e as estrelas pararam de piscar. Cinco dias depois a zoeira terminou. O sol surgiu e as nuvens do céu voltaram a ser brancas e alvas.


                         À tardinha a passarada fez uma revoada infernal em Terra do Amanhecer o que fez todo mundo correr para a Rua do Alencar. Viram surgir ao longe, a Patrulha Touro com seus cinco escoteiros e a frente Sarah. Ela sorridente, eles sorridentes. Todos queriam saber, mas ninguém queria contar. A história termina aqui. O que aconteceu na Estrada do Fim do Mundo ninguém nunca soube. Nunca mais o céu ficou vermelho, os gritos das noites de tempestades sumiram. A estrada ficou toda gramada, nas áreas próximas a flores do campo surgiam aos borbotões. Agora toda a garotada passeava a pé ou em seus cavalos de aço na estrada que encontrou a paz. Na sede dos escoteiros todos queriam saber. Mas Sarah, Tarquino, Jiparanã, Joviel, Calixto e Catapora nunca contaram nada a ninguém. O tempo passou, Sarah casou com Joviel, Tarquino foi embora para a capital. Calixto e Catapora foram atrás de ouro nas Selvas do Amazonas. O bom de tudo que Jiparanã recebeu sua Insígnia, e agora é o chefão geral dos escoteiros e olhe ninguém até hoje soube o que aconteceu com Sarah, a patrulha na Estrada do Fim do mundo!

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Um lugar chamado Felicidade.


Lendas Escoteiras.
Um lugar chamado Felicidade.

                  Era uma vez uma cidade chamada Felicidade. Uma cidade pequena quem sabe um arraial crescido com seus cinco mil habitantes. Ouve uma época que todos dariam tudo para mudar para lá, pois era o lugar onde existia o sorriso, a alegria, onde o sol tinha mais fulgor e a lua era incrivelmente linda nas noites de lua cheia. Não havia ricos e nem pobres, todas as casas eram iguais. Ninguém queria ser mais que o outro e onde a cadeia não tinha celas nem presos. Não havia carros buzinando, as pessoas não brigavam, as ruas eram limpas, pois cada cidadão fazia questão de limpar a área de sua morada. Dava gosto ver as crianças correndo pelas praças, indo para seu único colégio onde as professoras sempre tinham um sorriso em primeiro lugar. As casas não tinham grandes e as portas e janelas sempre abertas. À tardinha os casais namoram na mais completa felicidade de alguém que ama e sabe que é amado.

                Felicidade tinha algum muito importante que não sei se sim ou se não dava alma ao lugar. Não era o Cabo Damião que nunca prendeu ninguém e nem mesmo o Prefeito Nolasco que nunca deu golpe e nunca roubou nada que a prefeitura com seus parcos recursos recebiam. Não foi o Juiz Tião, que desistiu e foi embora do lugar por não ter ninguém para julgar. Dom Pedrito o vigário vinha sempre às quartas feiras rezar uma missa e a pequena capela quase não cabia seus fieis que ali nunca faltaram para dar graças a Deus. A população tinha alegria no coração, pois Toledo criou os escoteiros. Era belo vê-los passar. Com suas mochilas as costas, um chapelão escondendo a chumaça dos cabelos, um meião cortante até o joelho e a calça curta fazendo às vezes do sonho de seu criador do outro lado do oceano.

                   Era tudo perfeito. Escoteiros cantantes, sorridentes e a chumaça da patuleia sabia que seus jovens meninos tinham conquistado o que toda cidade sonhava: - A honra, a palavra, a ética e o respeito para ser respeitado. Quando pela primeira vez juraram a bandeira não faltou ninguém do lugar para assistir. Foi no Campo do Peroba Futebol Clube. Montaram um palanque e lá estava Dom Pedrito o vigário, o Cabo Damião, o Juiz Tião e o Prefeito Nolasco. Não faltou dona Cacilda a professora e claro Toledo o Chefe envergado no seu caqui descomunal como se fosse um exemplo para aquele povo feliz que tudo ia durar para sempre. Foi belo, foi lindo, meninos dando continência, levando a mão direita até o ombro de dizendo que iriam fazer um novo Brasil. Durante anos a cria escoteira cresceu. Mas tudo que é bom dura pouco. Uma doença mortal levou para a eternidade o Chefe Nolasco. Tristeza, choro, desânimo, melancolia e desalento por parte de todos.

                     Chefe Toledo cometeu um erro tremendo. Não preparou ninguém para um possivel afastamento seu. Era Chefe da Tropa, da Alcatéia e fazia às vezes da Diretoria. Poderia ter convidado, mas se sentiu possuído pela divindade e pensou que era um Deus Escoteiro. Morreu e ninguém para ficar no seu lugar. A cidade não sabia o que fazer. Reuniões aconteciam. O prefeito imperfeito nesta hora não tinha a menor ideia para que o grupo não acabasse no ostracismo. Seria fácil buscar ajuda, mas ninguém sabia que havia alguém em outra cidade que poderia ajudar. Ninguem entendia nada e sabiam que eles corriam para o campo, cantavam, brincavam de esconde, esconde onde sempre havia um pega de soldados contra índios. Alguns chegaram a ver patrulhas correndo nas matas, construindo pontes, casas, ninhos trinchados no alto das árvores.

                      Tudo escorregou entre os dedos. O último pingo do suor caiu e ninguém sabe onde, pois ninguém viu. Tudo acabou? Virou fumaça? A tristeza invadiu o lugar. Onde procurar ajuda? O tempo passou. A cidade triste acabrunhada. A meninada esqueceu seus folguedos na patrulha, esqueceu-se do sol da lua e das estrelas nas noites lindas de fogo de conselho onde eles cantavam e riam sem parar. Para-raios passou por Felicidade em uma noite de natal. Precisava descansar. Viajava há dias no seu Cavalo Trombone procurando uma fazenda para comprar. Ficou sabendo que dona Chiquitita pôs a venda sua casinha atrás do Armazém das flores. Lá tinha de tudo. Seu Pascoal alma sofrida ajudava no que podia a quem não podia pagar. Para-Raios ficou sócio de Seu Pascoal. Comprou um pequeno sitio na Nascente do Rio Florido. Pensou que agora tinha um lugar para morar e morrer. Seu passado se foi, importava só o presente.

                      Na porta do armazém via todos os sábados dois meninos escoteiros andando devagar, mochilas as costas, mas iam até a praça para sentar e chorar. – O que é isto meu Deus? – pensou. Foi até eles. Uma conversa amena, um sorriso breve, um aperto de mão e ele voltou para casa pensando em voltar. Ali precisam dele, e ele não podia faltar. Não seria como em São Domingos, onde a chefia do grupo não se entendia, onde só havia ódio em vez de amor. Tentou mudar, deu tudo que podia, mas nada conseguiu. Meninos iam e vinham nunca querendo ficar. Ele um antigo Escoteiro sabia que ali não era mais o seu lugar. Foi com os dois meninos escoteiros até a sede. Um abraço uma promessa. Os três hastearam a bandeira Nacional. Muitos curiosos aportaram para ver o acontecimento.


                       Ah! Ainda existe neste mundo um lugar chamado felicidade. A cidade voltou ao passado. Os sorrisos, os abraços e apertos de mão agora fazia parte da rotina do lugar. O Prefeito Nolasco sorria de orelha a orelha. Dom Pedrito rezou naquela tarde a missa mais linda que tinha rezado. O Cabo Damião suspirou e soltou Bate Boca o bêbado que prendeu na noite anterior. O Juiz Tião retornou e Dona Cacilda suspirou fundo, pois sabia que agora a meninada da escola tinha juízo, pois Escoteiro é assim, sabe obedecer, tem disciplina e sabe opinar. Ainda me lembro quando naquela final de sexta, Vinte e oito meninos escoteiros passaram marchando, envergando garbosamente seus uniformes com belos chapéus escoteiros rumo a Salamanca, um vale perto do Riacho das Flores onde iam acampar.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Só o amor será minha herança.


Lendas Escoteiras.
Só o amor será minha herança.

                           Uma pequena placa dizia: Cidade de Purgatório. Ninguém notou sua chegada. Uma luz forte azulada jorrou sobre a cidade de Purgatório. No açougue, Bonamigo observou o jovem alto com o uniforme social dos Escoteiros, atravessando a ponte de madeira com um sorriso contagiante, uma forquilha na mão, uma pequena mochila e passos que não tinham pressa em chegar. Purgatório não era grande, poucos jovens perambulando, parecia que não tinham nada a fazer. Os mais velhos não esqueciam que no passado foi diferente. Muita alegria, muitas fábricas, amizade e fraternidade entre os moradores. O forasteiro atravessou parte da cidade como se fosse um estranho. Passadas curtas olhava para frente com um sorriso nos lábios. Naquela cidade ninguém notava ninguém. Purgatório era uma cidade dispersa, sem amor sem carinho sem esperança.

                             O jovem entrou na Rua da Tristeza e viu que nada mudou. Na última casa entrou. Ele sabia que estava vazia. Nunca pensou em voltar, mas ali estava ele em frente a casa onde sempre morou. Abriu a porta carinhosamente, deixando as lembranças voltarem, pois tinham ficado no tempo. – Ao entrar sentiu o espirito de sua mãe sorrindo para ele. - Eu voltei minha mãe, espero que me perdoe. Quanto tempo se passou? Não queria lembrar. Sabia que tinha pouco tempo para realizar o que fora fazer ali. Prometera a Ele que levaria o sorriso e a paz fraterna aos corações que tinham se esquecido da bondade.  Abriu às janelas, as mesmas cortinas, brancas de cetim com pequenos babados enfeitando suas laterais. Os móveis limpos e a cozinha também. Fez um café e bebeu com gosto. Não estava com fome, faria um lanche na volta. Viu que estava na hora. Seu uniforme estava dobrado em sua cama. Bem passado, limpo e quase novo. Dobrou o lenço devagar. Retirou seu chapéu no armário. Os sapatos foram engraxados e os meiões na cadeira de vime ao lado.

                  Não precisava correr, sabia a hora da reunião. Ele fora um deles, agora não mais. O passado ficou no tempo como o vento que nunca mais iria voltar. Para ele não haveria mais volta. Vestiu seu uniforme calmamente. O pequeno relógio de seu pai na primeira gaveta da cômoda marcava quinze para as duas da tarde. Tempo suficiente para ele chegar e resolver a contenda que o levara até ali. Na Rua da Angustia ninguém olhou para ele. Na Praça dos Piedosos não viu ninguém. Chegou à sede sorrindo. Era como se fosse um fantasma, pois ninguém olhou para ele. Era como se não existisse. Levantou as mãos e orou. Pediu a Deus em uma prece profunda que mudasse o coração da irmandade, que pensassem mais nos outros que em si. A cidade precisava mudar. Aqueles sorrisos de outrora, aqueles apertos de mãos, aqueles abraços tão gostosos não podiam ficar armazenados no coração das pessoas.

                      Ele sempre soube que o começo de tudo estava ali, naquele Grupo Escoteiro onde agora não mais se acreditava em uma Lei, na honra, na palavra que todos sabiam que ela estava acima da vida e da morte. Os valores e a ética tinham sido esquecidos. Ele sabia que muitos queriam aplausos e não faziam por merecer. Todos se dirigiram a ferradura. Hora do Cerimonial. Hora da reunião da família escoteira hora da bandeira ressoar no ar. Ele ficou junto à chefia, não houve sequer um abraço um aperto de mão. Ele notou olhares tristes, faces angustiadas, enrugadas, palavreado difícil de entender. Os lobos tentavam sorrir e não conseguiam. As patrulhas desleixadas, os seniores a conversar entre si. Os chefes não se olhavam. Pareciam fantasmas escoteiros que não se conheciam.

                        A bandeira foi içada. Não houve canções, hinos nada. Faltava o calor humano. Faltava um olhar carinhoso, faltava uma voz que unisse a todos outra vez. Ele pediu a palavra. O olharam como se fosse um estranho. Ele humildemente foi ao centro da ferradura, olhou nos olhos de cada um para transmitir amor. Estava difícil, olhou para o céu e pediu ao Senhor seu Deus: - Dá-me Senhor: um coração vigilante, que nenhum pensamento vil o afaste de ti; um coração nobre, que nenhum sentimento indigno o rebaixe; um coração reto, que nenhuma maldade desvie; um coração generoso para servir. Senhor que cada um de nós possa amar uns aos outros, que possamos aprender a sorrir, a cantar a dizer aleluia Senhor por uma graça alcançada.

                        Como em um passe de mágica, os lobinhos começaram a sorrir. Os gritos de patrulha eram gostosamente gritados pelos escoteiros. Os seniores davam risadas e abraçavam-se entre si.  Agora eles contavam “causos” sorrindo e as guias aplaudindo. Um Chefe veio correndo abraçar outro Chefe chorando e pedindo perdão. O sol voltou a brilhar. Ele sorriu e olhou para o céu. Obrigado meu Deus pela graça que me destes. Permitiu-me fazer o meu melhor possível hoje e que eu almeje fazê-lo ainda melhor amanhã. Ensina-me sempre que o dever, longe de ser um inimigo, é um amigo. Faça-me encarar até a mais desagradável tarefa, alegremente. Dê-me fé para compreender o meu propósito nesta vida e abra minha mente para a verdade, e enche meu coração com amor. – Era hora de partir, sua missão havia sido cumprida. Ele sabia que a cidade iria acompanhar, portanto era hora de voltar.

                           Fez questão de abraçar a cada um em particular. Seu aperto de mão era como se fosse fagulhas de amor e paz a jorrar no coração de cada um. No portão deu seu último adeus. Todos acenavam para ele sorrindo. Era o que sua alma precisava. Entrou em sua casa, uma pequena lágrima correu pela sua face até desaparecer no chão que ele pisava. Era hora de partir, fechou as janelas, beijou um pequeno crucifixo que estava no quarto de sua mãe. Saiu devagar pela Rua da Amizade, viu outra placa, tinham trocado. Na praça um novo nome: Praça do amor! Sentiu um cheiro de perfume no ar, às rosas desabrochavam.  Na praça o povo cantava. Na saída uma nova placa dizia: - Bem vindos a Portal da Esperança. Um clarão azul claro o levou de uma só vez. Ele com um sorriso lembrou-se das palavras de um poeta: - Ainda que haja noite no coração, vale a pena sorrir para que haja estrelas na escuridão...