Histórias e contos escoteiros.

Histórias e contos escoteiros.
Feitas para você se divertir!

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Era uma vez... Em uma montanha bem perto do céu...


Prefácio.
Era uma vez... Em uma montanha bem perto do céu...

                         Bem vindo a este Blog das mais belas Histórias Escoteiras. Já são milhares delas mostrando como é linda a vida escoteira, suas histórias, suas aventuras e tenho certeza que sendo Escoteiro irá gostar. É bom demais contar histórias. Qualquer uma, seja escoteira ou não. Quantas eu contei ou escrevi? Milhares talvez! Mesmo com minha velhice rabugenta e meu pulmão revoltado não paro de escrever. Aprendi a contar quando em um fogo de conselho qualquer a escoteirada ou a lobada me pedindo uma história com aquele olhar enigmático, olhares incrédulos e outros que se transportavam para dentro do contexto querendo viver toda a história contada. Todo contador de histórias se sente feliz ao ter tantos bons ouvintes.

                         Uma história de fantasma, em uma floresta escura era sucesso absoluto. Um Fogo de Conselho se apagando e você fazendo gesticulando, como se os fantasmas estivessem ali marcavam cada um dos ouvintes Badenianos. Bom demais. E o susto do grito de horror no final? Masoquista Chefe? Não, depende da história. Se ela tem um fundo de exemplos pode contar. Tem seu valor.  “Não há quem resista a boas histórias” escoteiras ou não. Nas páginas dos livros, dos jornais e das revistas, na tela do computador e na televisão, narradas ao pé do ouvido ou transmitidas pelo rádio... Seja lá onde for elas encantam, amedrontam, fazem rir ou chorar, assustam e são capazes de levar ainda que em pensamento há lugares nunca antes imaginados.

                     Não tem quem não se emociona ao contar uma historia e ter ouvintes hipnotizados com a narrativa. Tem chefes que adoram. Quando Chefe de Tropa e Alcatéia adorava contar. Em cursos que dirigi contei muitas. E quem resiste a uma história bem contada ao pé do fogo? Vendo o crepitar da fogueira, olhando as fagulhas que se espalham no céu, e como um lobinho feliz abre os olhos e ouvidos para ouvir e viajar na história do Chefe? A mente está ali fixa no conto, que vai desenrolar uma aventura e ele parte célere junto à história com as personagens. Ele se transforma, é um herói, um explorador, um grande acampador dos seus sonhos inimagináveis.

                     Bom saber que veio a procura de boas histórias. Faço questão que em todas elas a Lei e a Promessa tenha seu lugar. Mas chega de conversa. Fique a vontade. Escolha uma e entre nos sonhos das mais belas histórias Escoteiras.


Sempre Alerta!  

Contos de Natal. O último adeus do Velho Lobo.


Contos de Natal.
O último adeus do Velho Lobo.

                           ♫ “O espírito da coruja mora neste acampamento!” - Para ele seria o mesmo natal de sempre. A família reunida, os netos correndo pela casa, as conversas dos filhos, nada diferente, mas sempre com um sabor especial. Sexta feira, 23 de dezembro. Ele acordou cedo. Tomou seus remédios e sem o desjejum partiu. Era sempre assim. Uma volta no bairro para sua caminhada matinal e comprar dois paizinhos. Uma para ele e outro para sua mulher. Sabia que no retorno o café fumegante estaria pronto. A família se reunia na tarde do dia 24 e por volta da meia noite todos iam a mesa para se refastelarem com o magnifico manjar da Mama. Ele já havia notado uns lapsos de memória e sabia a tempos que seus pensamentos se misturavam.

             A Santa Catarina pirolim pirolim pom pom, era filha do Rei”♫. - Sentiu-se cansado, sentou em um ponto de ônibus em frente á padaria. Fechou os olhos para tudo voltar ao normal. Não sabia como, mas o ônibus chegou e ele entrou. Sentou na frente. Porque fazia isto? Ele não sabia. Nunca fez isto antes. Na viagem começou a lembrar do seu passado. Viu-se menino escoteiro na Mata do Morcego. Encurralado em uma árvore por uma jaguatirica. Ela o olhava com olhar amigo. Ele não acreditava.

             ♫”Acenda, Fogo, acenda, Acenda essa fogueira”. Aqueça minha tenda e ilumine essa clareira! ♫... - Senhor aqui é o ponto final! – disse o motorista. – O senhor não vai voltar? – Espere o próximo ônibus. Este vai recolher a garagem! Ele desceu. Não sabia onde estava. Lembrou-se quando sênior acordou em um vale enorme, cheio de pássaros cantantes e uma cascata que faziam um barulhão. Ele não sabia onde estava quando saiu da barraca. Chegaram à noite perdidos e sem rumo certo.

            ♫ “Acorda escoteiro que o galo já cantou, cantou, cantou o galo já cantou... Co-co-ro-có.... ♫. Olhou para um lado e para o outro, uma enorme avenida e milhões de carros passando. Prédios enormes. Qual ônibus para voltar? Ele não sabia. Não sabia de mais nada. Esquecera seu telefone e endereço. Nunca saia com seus documentos, pois sua volta no quarteirão era pequena. – Seu guarda, preciso voltar para casa – Onde o senhor mora? – Não sei! – Seu nome? – Não lembro. Sei que me chamavam de Velho Lobo, eu fui escoteiro. – O guarda o olhou de esguelha. – Não posso ajudar, atravesse a rua e ande dois quarteirões. Vais encontrar uma viatura equipada com rádio. Quem sabe podem ajudar o senhor!

           ♫ “Avançam as Patrulhas, lá ao longe, lá ao longe”. Avançam as Patrulhas, cantando com valor, lá ao longe!”. Teve medo ao atravessar. Nunca viu tanta gente correndo e querendo chegar do outro lado. Confundiu-se e no meio do caminho. Sua mente o levou até o Despenhadeiro do Lobo. Um medo incrível de escorregar e cair. Ele ficou pendurado em um galho e se não fosse o Nonato cozinheiro tinha morrido. 

           ♫ “Rigor, Boom, rigor, boom. Vem correndo depressa Escoteiro Ajudar o cozinheiro a fazer um jantar supimpa, supimpa Parazibum, zibum” ♫. Parou no meio da avenida. Nunca sentiu tanto medo. Ninguém se preocupava com ele. Com seus 87 anos ele ainda pensava que podia manter o domínio de sí mesmo. Em passadas largas atravessou a outra parte da avenida. Sentiu que alguém o segurava por trás e na frente um jovem lhe deu um murro na barriga. Ele sentiu uma dor tremenda. Estava sendo assaltado por pivetes e ninguém o socorreu.

           ♫ “Como é feliz o acampamento na floresta, Junto de nós passa um riacho a murmurar, cantam as aves em seus ninhos sempre em festa, o vento sopra a ramagem a cantar!” ♫. Uma moça o pegou com braço e mandou-o sentar próximo ao vão do MASP. Eram duas da tarde, ele precisava dos seus remédios. A fraqueza chegava e ele sabia que não ia aguentar. Precisava comer. Em sua casa já teria almoçado. Lembrava que nem o café da manhã tomou. Levantou com dificuldade. Viu uma lanchonete, viu coxinhas, e bolinhos de carne. – Moço eu posso comer uma e pagar depois? – O garçom riu. - Sem dinheiro necas meu Velho. Saiu andando em passos trôpegos. Começou a sentir tontura. Sabia por quê. A diabete fazia efeitos em seu corpo.
          
            ♫ “Quando se planta la bela polenta, la bela polenta, Se planta cosi. Se planta cosi. Oh!, oh!, oh!, bela polenta cossi” ♫. A tarde chegou de mansinho e as luzes dos postes se ascenderam. O frio começou a fazer efeito em seu corpo. Não tinha blusa. Uma senhora negra riu quando viu que ele tiritava de frio. Lembrou-se quando se aventurou no Deserto de Atacama e no Vale da Morte. No dia um calor de rachar a noite o frio era demais. – Venha comigo ela disse. Debaixo do viaduto tem fogueiras feitas pelos meus amigos. Ele foi.

              ♫ “Em Silêncio acampamento, este canto vinde ouvir, são fagulhas da fogueira que nos dizem escoteiros a Servir” ♫... A noite foi cruel. Mesmo em volta daquela fogueira ele pensava que não iria resistir até o outro dia. Carros passavam proximo buzinando. Era noite de natal e ele não se lembrava do seu nome, de sua família só lembrava-se do seu apelido. Velho Lobo. Lembrou-se também da subida no Pico da Manada no Peru. Dormiram encostados em uma enorme pedra onde cabia só dois e eram cinco! Foi lá que pela primeira vez viu a neve que caia em flocos brancos e lindos de ver.

              ♫ “Longo é o caminho, longo, longo, mas andaremos sem parar! Duro é o caminho, duro, duro, cantemos para não cansar!” ♫... Dormia e acordava, dormia encostado a lateral do viaduto. Os seus novos amigos dormiam tendo como cobertor papelões que eles guardavam das lides onde recolhiam lixo reciclado para sobreviver. Ouviu ao longe alguém cantando uma canção de natal. Lembrava vagamente quando em uma reunião de Giwell em um Jamboree alguém contou uma história de natal. A lembrança o emocionou.

           ♫ “Eu era um bom lobo um bom lobo de lei. Não estou mais lobando, o que fazer não sei, me sinto velho e fraco não sei mais lobear, logo a Gilwell Assim que eu possa vou voltar” ♫... O dia amanheceu. Ele estava mal. Sentia falta de ar, tremia e quase não ficava em pé. Seu corpo estava um trapo. Como um robô saiu cambaleando pela rua. As pessoas desvencilhavam-se achando que ele estava embriagado. Viu uma senhora dizer: – “Com esta idade e bêbado pela manhã”? Ele começou a se sentir mal. Uma dor enorme no peito. Sabia que era seu fim. Seus olhos se fecharam.

          ♫ “Prometo neste dia, cumprir a lei, sou teu escoteiro, Senhor e Rei. Eu te amarei pra sempre, cada vez mais. Senhor minha promessa, protegerás” ♫... Viu sua mãe sorrindo, como ela era bela e nova. Viu seus irmãos e irmãs que já tinham partido ali acenando. Fechou os olhos e esperou ser chamado para subir aos céus com eles. Acordou assustado em sua cama em seu quarto. Toda sua família em volta sorrindo. Era sua mulher, eram seus filhos, seus netos e vizinhos. O quarto cheio de gente. Bem vindo Papai, bem vindo marido, Vovô estava morrendo de saudades! Então não tinha morrido? Viu próximo uma jovem uniformizada de Escoteira. – Quem é você? Foi sua esposa quem contou – Ela viu você caindo e dizendo ser um Velho Lobo. Sabia que você era um Escoteiro. Pediu um taxi e o levou ao pronto socorro. Telefonou para várias delegacias e uma delas já sabia do seu sumiço. Comunicaram por telefone. Ela meu marido, foi seu anjo de natal!

Bravo, bravo Bravo, bravíssimo, bravo, bravo bravo, bravíssimo bravo, bravíssimo bravo, bravíssimo bravo, bravo bravo, bravíssimo” ♫...

nota - Ele era apenas um Velho lobo. Sofria de Mal de Alzheimer. Um dia saiu sem dizer para onde. Perdeu-se na cidade de pedra. Seu mundo se transformou em um pesadelo. Mas tudo tem um final feliz. Foi seu presente de natal. Um conto fantástico e emocionante! 

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Contos de Natal. Milagres existem, é só acreditar.


Contos de Natal.
Milagres existem, é só acreditar.

♫ “Rataplã do arrebol, Escoteiros vede a luz”!
Rataplã olhai o sol, do Brasil que nos conduz” ♫

               Liminha não pensou duas vezes, se tinha de pular não ia discutir com o Monitor. Tomou distância e correu, pulou e quase alcançou a margem do outro lado. Não conseguiu, caiu por uns bons cinco metros e sentiu a pancada nas costas. Foi a primeira vez que sentiu uma dor enorme. Foi também que descobriram que ele estava com leucemia. Não foi assim tão rápido. Começou quando após a queda sentia uma dor de cabeça que não passava. Uma fraqueza e cansaço tremendo. Viu manchas arroxeadas na pele e sentia dor nos ossos e articulações. Apareceram outros sintomas, mas os médicos diagnosticaram facilmente. Liminha nunca pensou que podia ter esta doença. Era um Escoteiro alegre, Corredor, valente nas atividades e sempre se sobressaindo em tudo. Quando seus pais souberam acharam que o escotismo era o culpado. A dor é muito forte e achar a culpa de alguém é mais fácil para enfrentar o desespero que passavam. Liminha nunca chorou na presença dos seus amigos de patrulha. Aceitou e muitos estranharam por vê-lo sempre sorrindo.

♫ “Alerta, ó Escoteiros do Brasil, alerta!
Erguei para o ideal os corações e flor!
A mocidade ao sol da Pátria já desperta
A Pátria consagrai o vosso eterno amor” ♫.

               Seus pais não mediram esforços para tentar uma cura. A leucemia era uma doença cruel. Primeiro os medicamentos e a poliquimioterapia. Era demais para ele. Mas com três meses começou a se sentir melhor. Exigiu voltar para sua patrulha. Não pediu e disse aos seus pais que sem o escotismo ele iria morrer logo. Na primeira reunião de patrulha disse para todos o que tinha, mas não queria compaixão – Vocês tem que me considerar como um igual. Se acharem que estou doente nunca mais eu conseguirei melhorar! O escotismo era um balsamo para Liminha. Não perdia um acampamento e com tristeza não pode participar de um bivaque. Seria muitos quilômetros e o próprio Chefe o aconselhou a não ir. Foi a primeira vez que Liminha o viu. Tinha quase sua idade e sem nenhum fio de cabelo, mas com um belo sorriso. Ficaram amigos e seus pais ficaram mais ainda preocupados. Liminha apresentou seu amigo, mas ninguém via ninguém. Um amigo que foi tirado da sua imaginação, todos pensaram. A contra gosto aceitaram. Se isto o fazia feliz porque não? Liminha o chamava de Tércio. Passavam horas conversando.  

♫ “Por entre os densos bosques e vergéis floridos,
Ecoem nossas vozes de alegria intensa!
E pelos campos fora em cânticos sentidos
Ressoe um hino avante à nossa Pátria imensa”! ♫.

           Quatro meses depois Liminha teve outra recaída e desta vez passou meses internado no hospital. – Só um transplante de medula óssea poderia resolver, aconselharam. Mas e como achar um doador perfeito? Vários membros da família se revezaram nos exames, mas nenhum serviu. Liminha se tornou um exemplo para os internos do hospital. Vivia sempre sorrindo e contava longas histórias para os meninos internados no mesmo quarto que ele. Todos aprenderam a reconhecer quando Tércio estava com ele. Tércio sabia tantas histórias e mesmo não o vendo eles se divertiam. Até mesmo os Escoteiros da sua patrulha e da tropa gostavam de ir ao hospital para não só visitá-lo, mas para mandar um abraço a Tércio. Um Tércio que só Liminha conseguia ver. Liminha não melhorava. Pediu aos seus pais que trouxessem o seu uniforme. Gostaria que quando houvesse visita ele estivesse com ele. Era contra as normas do hospital, mas os médicos autorizaram. Quinze dias antes do natal Liminha piorou. Quase não falava. Os médicos comunicaram aos seus pais que não havia retorno. A vida de Liminha era uma questão de dias.

♫ “Unindo o passo firme à trilha do dever,
Tendo um Brasil feliz por nosso escopo e norte
Façamos ao futuro, em flores antever
A nova geração jovial confiante e forte”! ♫.

            Liminha pediu e foi autorizado que fizessem uma reunião de tropa em uma área ajardinada do hospital. Era o dia 24 de dezembro. Ele foi em uma cadeira de rodas. O Chefe Escoteiro emocionado fazia tudo para que Liminha participasse sem notar que o programa tinha sido feito para sua participação. Liminha ria a valer nos jogos e gritava a mais não poder para Tércio seu amigo imaginário. No final da reunião na cerimonia de encerramento antes da bandeira Liminha pediu ao Chefe se seu Amigo Tércio poderia fazer a promessa. O Chefe Escoteiro não sabia o que dizer ou fazer. Os pais de Liminha em um canto choravam lágrimas doídas. – Deus oh Deus porque tudo isto? Dizia sua mãe em prantos. Liminha na cadeira de rodas foi até o centro da ferradura e apresentou seu amigo Tércio a tropa. Quando assustado o Chefe Escoteiro tomava a promessa uma forte luz azul se fez presente. Ninguém entendia nada, mas todos viram em uma névoa branca um menino de branco, com a meia saudação a dizer: - Eu prometo, pela minha honra, fazer o melhor possível para: Cumprir o meu dever para com Deus e a Pátria, ajudar o próximo em toda e qualquer ocasião e obedecer à lei do Escoteiro.

♫ “E se algum dia acaso a Pátria estremecida,
De súbito bradar: Alerta aos Escoteiros,
Alerta respondendo, à Pátria a nossa vida
E as almas entregar iremos prazenteiros!
Alerta! Alerta! Sempre Alerta”!

       A emoção foi demais. Lágrimas foram derramadas por todos. Liminha assustou todo mundo quando ficou de pé e corria rindo em volta do arvoredo do pátio do hospital. Ele gritava: Não vá embora Tércio. Não me deixes! Quero ir com você! Todos viram um redemoinho que se elevava aos céus. Alguns juram que ouviram Tércio dizer que voltaria. Seria por pouco tempo. Liminha chorava e andando normalmente pediu aos seus pais que o levassem para casa. Os médicos sem saber o que fazer concordaram. No outro dia ele voltaria ao hospital. Liminha voltou, mas para surpresa de todo mundo ele estava curado. Não sentia mais nada. Um milagre. Um milagre de Natal. Tércio no céu sorria. Liminha na terra sorria. O mundo Escoteiro voltou a pensar que no escotismo tudo pode acontecer. Foi o próprio Liminha quem disse ao seu pai e sua mãe:
♫ “Não é mais que um até logo,

Não é mais que um breve adeus” ♫.

Nota: -  Liminha um escoteiro. Tércio seu anjo da guarda. Viveu feliz enquanto pode e continuou feliz quando foi para o céu. Não há tristeza que supere a felicidade. Bem vindos a primeira história de Natal. 

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Lendas da Jângal. O astuto ratinho de Madame Rosinha. Histórias para lobinhos.


Lendas da Jângal.
O astuto ratinho de Madame Rosinha.
Histórias para lobinhos.

                     Lindolfo levou o maior susto. Quando ia para a reunião Escoteira naquela tarde de sábado, viu Madame Rosinha descer a escada de sua casa gritando e chorando alto. Ela dizia: “Um rato”, um enorme rato. Acudam-me! Socorro! Lindolfo era lobinho da Alcateia do Grupo Escoteiro Pico da Neblina. Já tinha feito sua boa ação, mas resolveu fazer mais uma. Porque não? Partiu célere escada acima a procura do famigerado rato de Madame Rosinha. Em todos os cômodos ele procurou e quando ia sair viu um ratinho muito pequeno, raquítico, magro, com cara chorosa em cima do armário da cozinha. Estava com a vassoura na mão e pensou em dar uma vassourada nele ou uma caricia. Achou que ele precisava mais de uma carícia.

           Ao sair disse para Madame Rosinha que não se preocupasse. Quando terminasse a reunião viria com sua matilha e pegariam o famigerado rato. Fique Calma Dona Rosinha. Ele sabia que sua Matilha não tinha medo de nada! Na reunião comentou com a matilha sobre o ratinho. Explicou que era um “coitado” e precisava e ajuda e não ser morto. Liz não concordou. Ela morria de medo de ratos. Dayane ficou na duvida. Robertinho riu e falou – Vamos acabar com a raça dele! Miltinho e Naninha ficaram do lado de Lindolfo.

           A Akelá Safira comentou com o Balu Nonato que comentou com a Bagheera Olhos Negros que a matilha vermelha estava estranha. – Viu como eles só ficaram cochichando hoje? O Balu Nonato era muito amigo de Miltinho, mas ele não contou nada. A reunião terminou com todos dando o melhor possível e dizendo para os chefes – Obrigado Chefe pela linda reunião. O senhor sabe que tenho orgulho de nosso Grupo Escoteiro! Era assim os meninos do Grupo Escoteiro Pico da Neblina.

             A mãe de Aninha estava esperando o fim da reunião. Ela pediu a mãe para ir com a matilha. Iam fazer uma boa ação. Dona Nivea era uma excelente mãe e não se opôs. Mal chegaram à casa de Madame Rosinha e viram o ratinho chorando em cima do armário. Foi Lindolfo que se aproximou pé ante pé e disse no ouvido do ratinho: Calma, vamos levá-lo para outra casinha. Vai ter tudo que tem direito. Miltinho já estava com a caixinha e colocaram o ratinho dentro dela e foram embora. Tinham comprado queijo e uma vasilha de água.

              O ratinho estava com fome. Muita. Comeu tudo! E agora? Onde vamos levá-lo? Todos viram que em suas casas seriam impossível. O medo de rato era comum em todas as famílias. – Já sei! Disse Naninha, vamos voltar à sede. Seu Caloso o Mestre Pi ainda deve estar lá. E quando chegarmos vamos levar o ratinho para a Gruta da Alcatéia. Escondemos a caixinha atrás da caixa de nossa matilha e nos revezamos durante a semana para vir alimentá-lo! Todos concordaram.

              Assim trataram o Tibinho (nome que deram ao ratinho) por quase dois meses e foi então que o pior aconteceu. A Akelá Safira foi mexer lá e viu o rato. Uma gritaria danada. Saiu correndo e pedindo socorro. Custaram a explicar a ela o que tinha acontecido. Ela deu um ultimato – Depois do acantonamento não quero ver ele mais. E agora? Na reunião de matilha chegaram a uma conclusão – Vamos levá-lo junto ao acantonamento. Lá quem sabe descobrimos um local onde ele pudesse viver para sempre? E assim foi feito.

            Na primeira noite do acantonamento aconteceu a maior alegria da matilha. As mães que foram cozinhar saíram gritando e berrando! Um rato! Não era um só eram vários. Agora sim. Descobriram a cidade onde o Tibinho podia morar.  Soltaram-no à tardinha. Tibinho olhou para eles e para seus amigos ratos. Olhou de novo para eles. Uma duvida ficou na sua mente. Ficar com os lobinhos ou seus irmãos ratos? Uma ratinha linda se aproximou e se esfregou nele. Pronto. Resolvido. Lá foi Tibinho com sua namorada e seus novos irmãos. A Matilha Vermelha ficou chorosa. Em todos os olhos lágrimas desciam, mas sabiam que esta seria a melhor maneira e a melhor ação que deveriam tomar.


             Por muitos anos a matilha vermelha pedia aos pais para passarem um domingo a cada dois meses no local do acantonamento. Os pais não sabiam para que, mas a Matilha Verde sempre se encontrava com Tibinho, até que um dia ele e Tibinha chegaram com vários filhotes. Foi uma festa. Uma alegria para a Matilha Verde. E assim acaba esta história. Uma união de lobos, todos pensando em fazer o bem. Lembra sempre que o Lobinho pensa primeiro nos outros, abre os olhos e os ouvidos, está sempre alegre e diz sempre a verdade.   

Nota -  Uma história simples, quem sabe possa sugerir que o lobinho pensa primeiro nos outros? Mas um rato? Não era um simples rato. Era amigo, precisava de um amigo e a Matilha o adotou com carinho e fraternidade. E foi assim que “Tibinho” um ratinho feliz foi morar para sempre em Seeonee terra dos lobos irmãos! 

domingo, 10 de dezembro de 2017

Lendas Escoteiras. As fabulosas aventuras de Tonico Caçarola.


Lendas Escoteiras.
As fabulosas aventuras de Tonico Caçarola.

                  Dizem que histórias são histórias nada mais que histórias. Mas tem umas que a gente acredita, pois se foi um Escoteiro quem contou merece credito. Melhor ainda se a gente estava lá presente e não tem como duvidar. Muitos amigos quando conto a história de Tonico Caçarola dão sorrisos e devem pensar: - Este cara sabe contar uma patacoada. Mas eu juro pelo dente enorme do Pasqualino Monitor da Leão que ainda está vivo que e que um raio caia sobre a cabeça de meu melhor leitor se não for verdade. Só posso dizer que os patrulheiros da Patrulha Corvo riam atoa com Tonico Caçarola.

                  Afinal acampar é bom demais e comer bem melhor ainda. E eles comiam manjares dos deuses. Tonico Caçarola para mim foi um dos maiores cozinheiros Escoteiros de todos os tempos. No campo a turma ficava olhando de longe, pois ele não admitia que ninguém chegasse proximo ao fogão para ver o que ele estava fazendo. E quando ele tocava o sino (o danado tinha um) ninguém queria ficar para trás era uma corrida só. E olhe, se você batia o garfo no prato estava condenado. Ia para o fim da fila e só recebia metade da sua parte.

                 Moreno alto para os seus catorze anos, ele penteava o cabelo no estilo de Elvis Presley. Sem uniforme a gola da camisa era jogada para cima. Andava como se fosse passarinho, dando pulinhos. O moço era jeitoso mesmo. Metido a bonito, falava compassado, tinha uma voz grossa e sabia como utilizá-la para impressionar. Quem o via pela primeira vez na cozinha de um acampamento ficava embasbacado. Usava um chapéu branco enorme de cozinheiro, e mesmo grande nunca caia de sua cabeça. Uma jaqueta branca tão alva que nunca ninguém a viu suja.

                Colocava um lenço de seda amarrado ao pescoço dando um ar diferente. Infelizmente não podia usar a calça azul dos cozinheiros, pois era obrigado a usar a calça do uniforme e sabia que isto não era roupa para cozinheiros. Quem não o conhecia diziam que era um “mascarado” e só quer aparecer. O fogão de campo era de tirar o chapéu. Fazia questão de separar as bocas e no fim do fogão sempre havia uma pequena chaminé. Ninguém nunca viu a fumaça em seus olhos e ele estava sempre sério no preparo de suas guloseimas.

                  Diziam que a moças da cidade andava atrás dele como se fossem abelhas a procura do mel. Mas nem tudo que reluz é ouro dizem por aí. Tonico Caçarola sofria do intestino e ele se maldizia por ter aquela infelicidade. Se alguém chegasse para ele e dissesse: - E a barriga Tonico, como vai? - Era a conta. Ele saia correndo a procurava de um banheiro e se não encontrasse seus puns eram ouvidos longe. E o cheiro? Impossível de ficar próximo.

                 Uma vez quando o Cinema Palácios passava em sessão de gala os 10 Mandamentos alguém gritou alto: - E a Barriga Tonico, como vai? Foi à conta e ele teve um ataque. Ninguém ficou para ver o final do filme. Para desinfetar o cinema foi preciso trabalhar uma semana. Mas Tonico era demais. Fazia um forno de barro no campo que todos invejavam. No aniversário da tropa fez questão de fazer um Leitão a Pururuca e a fila que se formou era enorme. E olhe, acompanhada por três travessas de feijão tropeiro e muitos queriam saber o segredo do torresmo tão bem preparado.

                  A Patrulha Corvo era uma privilegiada. Todos queriam ser da patrulha, mas quem saia? Ninguém. – Foi em um sábado chuvoso que o Chefe Dentinho comentou que a tropa na semana seguinte ia receber seis meninas, que agora poderia ser escoteiras. A tropa ficou em polvorosa. Tonico Caçarola ficou um dia passando seu uniforme. Um brinco. O lenço parecia uma gravata de tão bem passado. E o chapéu? Deus do céu, Abas retas que nem a Policia Montada. A fivela do cinto parecia de ouro de tão brilhante que doía os olhos ao olhar.

                – Sábado, dia da apresentação. O Chefe vendo que Tonico Caçarola estava muito bem uniformizado, o convidou para receber as meninas em nome de todos os Escoteiros. Um sorriso de ponta a ponta. Bandeira, hino Nacional, as meninas curiosas com tudo. Hora de dar as boas vindas. Tonico Caçarola se dirigiu a todas que estavam formadas em linha. Fazendo uma pose de John Wayne, celebre ator de faroeste de Hollywood, levantou a mão esquerda, mostrou como se entrelaçava e esquerdamente cumprimentou uma a uma.

               Até hoje ninguém sabe quem foi, mas alguém gritou! – “E a barriga Tonico, como vai”? – Todos já sabiam o que ia acontecer e não ficou um na ferradura. Tonico Caçarola corria desembestado procurando uma privada e dando puns para todo o lado. As meninas ficaram amarelas com o mau cheiro e saíram correndo da sede. O Chefe queria matar quem gritou. Sei que por muitos anos nenhuma menina quis ser Escoteira naquela tropa. Mas o danado de Tonico Caçarola com suas guloseimas faziam todos esquecerem suas prontas investidas no ar respirável.

                     Sei que muitos anos depois eu e a Celia resolvemos jantar no Makano, um restaurante famoso em São Paulo e eis que para nossa surpresa o Maitre era nada mais nada menos que Tonico Caçarola. Bem agora ele pomposamente se intitulava Anthony Bassolet o chef. Quando o vi acenei e ele me reconheceu. Veio sorrindo com a pose é claro de grande chef. Seu estilo de andar e falar nunca foi abandonado. Levantei e apresentei a Célia a ele. A desgraça aconteceu. Meu Deus! Porque fui dizer aquilo? Foi sem querer ou foi maldade pura? Desgraçadamente depois do abraço eu perguntei: – “E a barriga Tonico, como vai” – Incrível! Era como se um fedor dos infernos caísse do céu no restaurante.

                  Os puns de Tonico ribombavam como se fossem trovões nas noites de acampamentos. As Socialites, os novos ricos os políticos famosos que naquele dia jantavam corriam como se fossem leopardos em busca da caça. Eu mesmo peguei na mão da Célia e vendo a desgraça que tinha cometido saí correndo feito uma lebre e olhe nunca mais voltei no Makano. Sei que tudo foi apagado da imprensa. Afinal os donos eram sobejamente conhecidos da sociedade local e internacional. Ninguém nunca disse nada, mas sei e posso jurar que Tonico Caçarola foi para a Espanha. É maitre de um famoso restaurante em Valença. Só peço a Deus que nunca e em tempo algum vá aparecer alguém e perguntar em alto e bom som:

- E a barriga Tonico, como vai?


Nota - Contam por aí que Tonico Caçarola é Chief do Restaurante Botafumeiro em Barcelona. Um dos tops 10 da Espanha. Proibiu a entrada de escoteiros brasileiros que conheciam sua fama. Anda com uma borduna de lado e quando vê alguém e desconfia que poderia ser do seu grupo ou distrito, chama o segurança e ambos o põem para fora. E aí Tonico, onde anda a fraternidade? Ele olha com ódio, pois não pode nem ouvir até hoje: - “E a barriga Tonico, como vai”?

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Lendas Escoteiras. Ariranha, um Cão Lobo inesquecível. (Uma história baseada em fatos reais).


Lendas Escoteiras.
Ariranha, um Cão Lobo inesquecível.
(Uma história baseada em fatos reais).

              Aconteceu há muitos anos atrás. Um fato que ficou marcado em minha vida para sempre. Escoteiro da Patrulha Lobo corria o ano de 1952. Foi quando apareceu Ariranha, um cão lobo nas Matas do Quati. Seis dias para ser exato convivemos juntos em um acampamento de tropa que acontecia todos os anos. Não dá para esquecer, pois foi nossa terceira Olimpíada Escoteira, e a cada ano elas marcavam época. Idéia do Munir, um Pioneiro que também tinha a função de Mestre da Banda. Gostava de ser chamado Maestro Munir.

           Chefe Jessé relutou, mas a Corte de Honra achou a ideia esplêndida. Era uma Olimpíada diferente que visava técnicas escoteiras e nada mais. Sempre acampávamos em uma clareira próxima ao Rio do Morcego, onde se avistava a bela cachoeira do Sonho. Na época da Piracema era um espetáculo ver os peixes tentando subir nas corredeiras e pulando sobre as pedras. Se podia pegar com a mão.

          As provas eram divertidas. Só técnicas escoteiras. – Subir em árvores de seis metros de altura descendo pelo nó de evasão com tempo marcado – atravessar o rio nadando em dez minutos ida e volta (60 metros). – Fazer vinte e cinco nós escoteiros ou de marinheiro em seis minutos pendurados de cabeça para baixo em uma corda – Deixar-se cair da cachoeira (oitos metros) em um tambor vazio de duzentos litros. – Semáforas e Morse uma prova onde tínhamos grandes sinaleiros. – Montar um fogo, fazer um café e pão do caçador em oito minutos. – Uma fogueira que durasse pelo menos uma hora sem ser abastecida. – Cortar uma tora de madeira de oito polegadas em oito minutos usando só um facão. – Trilha e pista de animais e tantas outras que deixaram saudades.

         O caminhão da prefeitura nos deixou pela manhã na trilha da mata onde depois se transformou no Campo de Aviação e que nos levava ao Rio do Morcego. O resto era a pé. Apenas quatro quilômetros. Adorávamos este acampamento anual. A Patrulha se preparava meses antes. O troféu pela vitória alcançada não eram medalhas. Podia ser uma faca Escoteira, um canivete Suíço, uma bússola, distintivos de lapela com flor de lis, moedas de boa ação. Prêmios que ambicionávamos muito. Cada Patrulha tinha o seu campo separado da outra mais ou menos por quarenta metros. As pioneiras eram feitas no primeiro dia, pois no segundo as Olimpíadas começavam.

           Lembro que estava fazendo uma fossa para o WC quando avistei Ariranha. Notei algum diferente. Parecia um lobo Guará, mas tinha o pêlo meio amarelado e quase sem rabo diferente do lobo cinzento que conhecia bem. Quem sabe era um cruzamento com um vira-lata qualquer com alguma loba perdida ou habitante da mata. Ele nunca sentava. Sempre em pé, orelhas para o alto e olhando sem piscar o que fazíamos. Quando me aproximava ele dava alguns passos para trás e parava.

            Durante todo o dia ele ficou próximo ao nosso campo de patrulha. Lembro que foi Pedregulho o intendente quem lhe deu o nome de Ariranha. Porque não sei. À noite quando íamos dormir ele ficava na entrada do pórtico com se fosse velar nosso sono. Pela manhã impreterivelmente lá o encontrávamos. Passamos a alimentá-lo e ele parecia se sentir feliz com a nova família.

        Durante a realização das provas da Olimpíada, ele ficava próximo a mim. Uma vez entrando na mata a procura de uma pista pisei em falso e um enorme corte se fez em minha perna bem abaixo do joelho. Ele veio até a mim e levei um susto quando ele começou a lamber o sangue que escorria na perna. Parou na hora. Quando passei a mão em seu pêlo saltou de lado e tomou distância. Uma noite acordamos com seus latidos. Latia para uma enorme cascavel que impreterivelmente invadiria nosso campo. Ele a espantou. Outra vez seus latidos foram mais altos e foi à tarde quando estávamos tomando banho no córrego da Lagartixa. Desta vez era uma Onça parda. Fugiu com seus latidos.

          Durante os seis dias de campo, Ariranha permaneceu conosco. No último dia no cerimonial de bandeira Ariranha se colocou ao meu lado na ferradura. Não esperava por isto. Todos acharam divertida sua pose. Ele não me olhava. Seus olhos estavam fixos na bandeira Nacional. Devia ter assistido todos os cerimoniais que aconteceram. Enquanto ela farfalhava ao sabor do vento e descia dos céus seus olhos acompanhavam. Quando as patrulhas deram o grito ele ficou no meio e pela primeira vez se deixou abraçar. Foi um espetáculo comovente. Todos os escoteiros das demais patrulhas vieram também abraçá-lo, pois já era querido por todas as patrulhas.

            Ao partirmos ele nos acompanhou até a estrada onde pegaríamos o caminhão da prefeitura. Ao subir na carroceria ele estava lá me olhando. Abanando o pequeno rabo ele deu um uivo enorme. Gritante e choroso. Como se fosse um lobo de verdade se despedindo para sempre. Ainda nos acompanhou por alguns quilômetros na Estrada de São Raimundo e depois sumiu em uma curva no meio da poeira.

           Foi um retorno triste e comovente. Todos os Escoteiros tinham os olhos vermelhos e na carroceria do caminhão um silencio choroso. Eu voltei para casa com os olhos cheios de lagrimas. O uivo de Ariranha me marcou muito. As lembranças ficaram gravadas para sempre. Chorei por vários dias. Nunca me perdoei por não trazê-lo comigo, mas meu pai disse que ele era da floresta e não iria se acostumar na cidade. Chamei o Romildo na semana seguinte e fomos até lá de bicicleta. Rodamos e rodamos e nem sinal de Ariranha. Nunca mais o vi, mas nunca mais o esqueci.


             Ariranha ficou marcado em nossa Patrulha Lobo. No nosso livro de Atas ele teve um lugar especial. Não sei se é fácil explicar como se ama um cão/lobo em poucos dias e nunca mais o esquece. Não sei mesmo. Até hoje me lembro de Ariranha com saudades. Histórias são histórias, tem umas que marcam, tem outras que ficam gravadas em nossa mente para sempre!

De vez em quando escuto alguém me dizer: - Para com isso! É apenas um cão! Ou então... - Mas é muito dinheiro pra se gastar com ele! É apenas um cão. Estas pessoas não sabem do caminho percorrido, do tempo gasto ou dos custos que significam "apenas um cão". “Muitos dos meus melhores momentos me foram trazidos por apenas um cão". O mais altruísta dos amigos que um homem pode ter neste mundo egoísta, aquele que nunca o abandona e nunca mostra ingratidão, é o cão.  

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Madalena


“Madalena”.

                      Mamãe! Eu nunca deveria ter nascido! Não posso ser escoteira? – Ouvir sua filha dizer isto machucava, era como se ela cravasse uma faca em seu coração. Como mudar isto? Ela não conseguia lutar contra estes preconceituosos que acham que os direitos de uns não valem para outros. Era um mundo cheio de dogmas, valores, conceitos do certo e o errado se não acreditassem nas mesmas crenças e vivessem com seus tabus em pleno século 21. Separar? Deixar o amor que ela tinha por Verônica? Lembrou-se de como tudo começou. Amigas no trabalho, nunca sentiram nada por outra mulher e sem perceber o sentimento nascia aos poucos.

                    Difícil explicar a quem não entende ou não quer entender. Afinal amor entre duas pessoas do mesmo sexo não era tolerado na sociedade de Monte Verde. O padre desconjurava, o prefeito fingia não ver. Mas elas resolveram assumir. Esconder? Quando se ama de verdade não existem barreiras. Veronica era negra e Madalena Branca. Pior ainda prometeram viver suas vidas sem se preocupar com o que os outros iriam dizer. Madalena nunca esqueceu o primeiro beijo e o demorado primeiro abraço.

                    As famílias de ambas as abandonaram. Madalena tinha uma filha do seu casamento com João que a deixou para viver com outra. Ambas adotaram Ruth como um objetivo para vencer todos os obstáculos. Tinham por ela um amor muito maior que muitas mulheres que se diziam bem casada. Na escola foi difícil. Elas foram várias vezes conversar com a diretora. Ruth era humilhada constantemente por suas colegas. Tudo piorou quando Ruth pediu para entrar nos escoteiros. Quem sabe lá eles eram mais liberais?

                    – Sinto muito senhoras. Não podemos aceitar. O que direi para nosso Presidente do Grupo? Como explicar isto as mães que trabalham nas sessões? E os pais? Isto foi demais. Afinal se duas pessoas se amam e não podem viver este amor quem pode impedir que ele fosse realizado? Ruth chorou dias e dias. Ela sofria com as admoestações na rua e até mesmo quando foi confessar o Vigário a repreendeu. Afinal era uma menina de nove anos e o Vigário nunca teria este direito.

                     O Chefe Lobato se revoltou. Exigiu um Conselho de Chefes. Poucos compareceram quando souberam o motivo. Ele não se importou. Apenas cinco presentes. Para ele é como se todos estivessem ali. - Não podemos agir desta maneira, começou. Direitos de uns e de outros não? Que escotismo é o nosso? Somos uma fraternidade, só para quem achamos que merecem ou tentamos enganar a nós mesmos? Ninguém deu ouvidos. Chefe Lobato comprou a briga. Se a menina não entra eu saio disse para todos os chefes e diretores.

                   Chefe Lobato ameaçou ir à imprensa. Daria seu testemunho à rádio local. O Comissário do distrito tentou dissuadi-lo. Um oficio da Região o mandou obedecer e não discutir, pois caso contrário seria exonerado. Um absurdo. Ele não se deu por vencido. Foi à casa de Madalena e conversou com ambas. Estou saindo do Grupo, vou organizar outro. Conto com vocês para me ajudarem. Assim foi feito, mandou o registro para a Direção Nacional. Aprovaram, pois não sabiam da história.

                       O tempo é o senhor da razão. Os pais e a sociedade de Monte Verde a principio não aceitou. Depois aprovaram com ressalvas. Admiraram a coragem daquelas duas mulheres que enfrentaram de frente sem esconder o melhor caminho para ser feliz. O grupo vai bem. Ruth hoje é Lis de Ouro. Madalena que tinha perdido o emprego foi chamada de volta. O antigo Grupo Escoteiro se arrependeu. Hoje vivem em perfeita harmonia.


                      Mas olhem, o final da história é surpreendente para não dizer extraordinário. O Chefe Lobato assumiu o que era e apresentou Diógenes com quem vivia há muitos anos. O Doutor Laercio Juiz de Direto amava outro homem e nunca mais escondeu o amor que sentiam um pelo outro. São histórias e historias podem ser verdadeiras ou não. Mas julgar alguém não é tarefa fácil. Como dizia o poeta julgar os erros dos outros é fácil. Difícil é corrigir os seus!

nota -Amor, vida, paixão, carinho, prazer, preocupação, bem querer, alegria, compreensão, amizade, gratidão, companheirismo, solidão, felicidade, sintonia, energia, afeição, química, sentimento... Duas almas ligadas por um só objetivo... Ser feliz! Uma história para pessoas maduras e sem preconceito.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Lendas Escoteiras. O despertar de um pesadelo.


Lendas Escoteiras.
O despertar de um pesadelo.

                         Uma névoa formigava em sua mente. Queria pensar, mas pensar o que? Tentou abrir os olhos, mas tinha certeza que estava aberto. Onde estava? Viu uma janela aberta e lá fora um belo pé de Jacarandá. Como ele sabia que era um Jacarandá? Porque não via onde estava e só a janela cinza o Jacarandá e ainda sem o sol que ele tanto amava? E onde estava lua, as estrelas e o céu azul? Tentou voltar ao passado, mas qual o passado? O que fazia ali? Só a névoa cinzenta em sua mente e mais nada. Fechou os olhos abriu e a nevoa de novo. Sabia que estava vivo, mas vivo como? Forçou a vista e viu uma figura opaca de um menino. Lembrou que conhecia o menino, seu sorriso suas maneiras seu jeito de olhar e sorriu quando ele piscou os olhos. Lembrou que há muito tempo faziam assim. Mas por quê? Quem era o menino? Meu Deus, que passado eu tenho que não me lembro de nada?

                        Fechou os olhos novamente. Quem sabe assim poderia descobrir aquele enigma que não conseguia decifrar. Nada, simplesmente nada! Abriu os olhos e viu de novo o menino brincando com duas cordinhas e mostrou para ele o que fez: - Agora ele sabia, era um Balso pelo Seio. Para que servia? Lembrou-se do nome devia saber o quê aquelas cordinhas representavam. Tentou mexer com um braço e sentiu uma dor imensa. Fixou seus olhos no menino que vestia uma roupa que não era estranha. Tinha um chapéu e um lenço e camisa e caça da mesma cor. Lembrou-se que ele também tinha um chapéu um lenço e uma calça e camisa igual. Onde estava seu chapéu? E o seu lenço? Melhor não pensar muito, pois sentiu a cabeça doendo. Adormeceu. Sonhou. O mesmo sonho o mesmo lugar que viveu por muitos anos. Um vale sombrio, sem água, sem árvores, sem pássaros e nenhuma borboleta. Seria aquele vale sua morada?

                         Não sabia quanto tempo estava naquela cama. Forçou a vista e conseguiu ver junto ao menino outros meninos. Todos de chapéu com aquela roupa que era sua conhecida. Um deles com um par de bandeirolas fazendo piruetas com elas no ar. Ele entendeu as letras, mas para que serviam? O outro menino fez mais círculos com as cordinhas, viu que era um fateixa, ou quem sabe um aselha, mas o que significava aquelas cordinhas que eles brincavam de vai e vem? Alguém abraçou os meninos e ele viu um homem. Tentava lembrar que era. Sabia que o conhecia, sabia que fora seu amigo, o ensinara a saltar obstáculos, dizia para ele que nada é impossível nesta vida, pois bastava querer. Olhou melhor para o homem, ele sorriu e disse duas palavras: - Sempre Alerta meu querido amigo! Que significava? O que ele queria dizer? Fechou os olhos, estava cansado. Mesmo com a respiração ofegante ele nada entendia e nem mesmo quem eram os meninos e o homem.

                          Sabia que ficou preso no vale das sombras. Foi então que acordou revigorado. Pela janela viu o sol vermelho. Amava o sol. Agora se lembrava de tudo. Muito de suas lembranças ainda apagadas. Seu coração batia e disto ele sabia. Não havia morrido naqueles destroços que estava em cima dele. Onde? Por quê? Ouviu meninos cantando uma canção que conhecia: - Acorda Escoteiro acorda que o galo já cantou! Ele sorriu. Então era um Escoteiro? Estava dormindo? Lembrava-se ao acordar na barraca, abrir as portas de lona, ver o campo em flor. Gostoso, sentia o frescor do orvalho da manhã. O sol brilhava. Meu Deus! Era lindo demais. O que ele fazia na barraca? Sentiu seu corpo estremecer ao ouvir alguém dizer: - Acorda Escoteiro, acorda! O café está na mesa! Café? Que aroma gostoso ele sentia.

                          Olhou ao redor do quarto onde estava. Viu sua mãe que chorava baixinho. Tentou dizer: - Mãe não chore! Mas porque ela chorava? Viu também seu pai com os olhos cheios de lágrimas. Até Nininha sua querida irmãzinha estava lá. Como cresceu! Ele amava sua irmã. Então viu que estava em um quarto de um hospital, cheio de meninos de uniforme, eles brincavam faziam nós sorriam para ele, era como se dissessem: - Ei amigo, acorde, o acampamento nos espera! Sua patrulha já fez o café, é hora do jogo! Jogo? Ah! Agora se lembrava do jogo, sorriu de novo. Sorriu para sua mãe para seu pai e para Nininha. Seus olhos se enchiam de lágrimas. Lembrou-se dos destroços do ônibus que o levava para a escola. O que aconteceu? Ele não sabia e nem queria saber. Os sorrisos dos amigos de sua família era uma alegria sem fim.

                          Notou o homem de branco, um simpático homem que ficou ao seu lado quando estava dormindo nas sombras. Ele dizia: - Ele voltou do coma, graças a Deus! Coma? Ele estivera acamado? Ouviu alguém dizer que todos se salvaram. Uma canção ressonou no ar. De novo a meninada escoteira cantando a linda canção da promessa. Agora sim ele sabia que era um deles. Tentou cantar junto, mas sentiu a face doer. Ainda não estava pronto, mas sabia que em breve estaria cantando com eles. Sentiu na face o beijo de sua mãe, do seu pai de Nininha e viu que a felicidade não tem preço. O homem que ele conhecia chegou perto e lhe disse: - Bem vindo Conrado, dois anos longe e agora você está de volta! Viu que ele pegou sua mão esquerda e a apertou. Queria chorar e não conseguia, queria sorrir e não conseguia.


                          O quarto onde estava era uma algazarra enorme. Todos queriam abraçá-lo. Ele sorria. Ainda sentia dores no corpo, mas não como antes. Sua alegria foi tanta que dormiu. Desta vez foi para outros lugares que não o vale das sombras e das nevoas cinzentas. Agora via um lindo arco-íris no céu. Sorriu para os amigos de branco que o ajudaram a sair daquele vale sombrio. Agora via o espaço, os planetas, lugares lindos por onde passou. Era bom isto que estava vendo e sentindo. Ele iria acordar novamente e lá na terra, naquele quarto onde as flores espalhadas emitiam um perfume delicioso, onde amigos cantavam onde sua mãe seu pai e Nininha lhe davam beijos ele então pensou em alguém. Pensou Nele, pois só ele poderia ter lhe dado àquela alegria. Obrigado Jesus, obrigado Deus por ter me dado de novo à vida!          

Nota - Um terrível acidente! Um coma prolongado. Uma viagem do medo ao desconhecido vale das sombras. Onde estava? Porque não se lembrava de ninguém? Estava sozinho a deriva na sombria vida do nada? Uma história que vai marcar a muitos pela sua simplicidade onde Deus é a figura central. Espero que gostem. Abraços fraternos.

domingo, 3 de dezembro de 2017

Contos escoteiros - Givaldo.


Givaldo.

- Escoteiro, porque este olhar? - Ele não me respondeu. Não disse nada e seguiu para sua patrulha. Fiquei preocupado. Eu sei que erros podem ser perdoados. Atitudes repensadas. Mas algumas palavras nunca serão esquecidas. Rememorei o programa, as atividades do dia procurando saber por que agiu assim. Sempre fui mais amigo do que Chefe, procurava entender cada um da tropa onde era responsável. Costuma saber de antemão quando alguma coisa não deu certo. Procurava não decepcionar alguém que seria capaz de fazer tudo por mim.

A verdade é que palavras bonitas se tornam descartáveis perto de atitudes estupidas. – O que tinha dito para ele ficar assim? - Seria por adiar a excursão? Por cancelar o que ele sonhava? Primeiro o encanto. Depois o desencanto. Por fim, cada um pro seu canto. Isto não, eu não podia aceitar.

Ao encerrar as atividades o procurei. Afinal quem quer arruma um jeito, quem não quer arruma uma desculpa. Ele confiou em mim e isto era importante demais. Três palavras difíceis de dizer: inconstitucionalissimamente, paralelepípedo e desculpa.


- Conversamos, ouvi mais do que falei. Ele se levantou e me abraçou. – Desculpa Chefe! Isto derruba qualquer coração. Às vezes o apoio e o conforto que você precisa vêm de onde menos espera. Fui para casa com um sorriso de vitória. Todo tempo que ficamos juntos na tropa mantivemos um relacionamento sincero sem subterfúgios. Algumas pessoas foram feitas para ficarem em nossa vida, outras para ficar na nossa memória. Givaldo foi um deles que me marcou muito como um escoteiro responsável.

nota - Ser Chefe não é mandar, ser exímio palestrista, não é ter figura de chefão, de achar que é exemplo e querer se mostrar como um exemplo a ser seguido. Ser Chefe é ser amigo, aconselhador quando chegar a hora, compreender a escolha individual de cada um e saber a hora certa para aconselhar deixando que cada um seja dono do seu próprio pensamento. Ser Chefe é saber a hora do aperto de mão do abraço e do elogio. Ser Chefe é ser alguém respeitado como irmão mais velho e ouvir mais do que dizer.