Histórias e contos escoteiros.

Histórias e contos escoteiros.
Feitas para você se divertir!

sábado, 21 de outubro de 2017

Era uma vez... Em uma montanha bem perto do céu...


Prefácio.
Era uma vez... Em uma montanha bem perto do céu...

                         Bem vindo a este Blog das mais belas Histórias Escoteiras. Já são milhares delas mostrando como é linda a vida escoteira, suas histórias, suas aventuras e tenho certeza que sendo Escoteiro irá gostar. É bom demais contar histórias. Qualquer uma, seja escoteira ou não. Quantas eu contei ou escrevi? Milhares talvez! Mesmo com minha velhice rabugenta e meu pulmão revoltado não paro de escrever. Aprendi a contar quando em um fogo de conselho qualquer a escoteirada ou a lobada me pedindo uma história com aquele olhar enigmático, olhares incrédulos e outros que se transportavam para dentro do contexto querendo viver toda a história contada. Todo contador de histórias se sente feliz ao ter tantos bons ouvintes.

                         Uma história de fantasma, em uma floresta escura era sucesso absoluto. Um Fogo de Conselho se apagando e você fazendo gesticulando, como se os fantasmas estivessem ali marcavam cada um dos ouvintes Badenianos. Bom demais. E o susto do grito de horror no final? Masoquista Chefe? Não, depende da história. Se ela tem um fundo de exemplos pode contar. Tem seu valor.  “Não há quem resista a boas histórias” escoteiras ou não. Nas páginas dos livros, dos jornais e das revistas, na tela do computador e na televisão, narradas ao pé do ouvido ou transmitidas pelo rádio... Seja lá onde for elas encantam, amedrontam, fazem rir ou chorar, assustam e são capazes de levar ainda que em pensamento há lugares nunca antes imaginados.

                     Não tem quem não se emociona ao contar uma historia e ter ouvintes hipnotizados com a narrativa. Tem chefes que adoram. Quando Chefe de Tropa e Alcatéia adorava contar. Em cursos que dirigi contei muitas. E quem resiste a uma história bem contada ao pé do fogo? Vendo o crepitar da fogueira, olhando as fagulhas que se espalham no céu, e como um lobinho feliz abre os olhos e ouvidos para ouvir e viajar na história do Chefe? A mente está ali fixa no conto, que vai desenrolar uma aventura e ele parte célere junto à história com as personagens. Ele se transforma, é um herói, um explorador, um grande acampador dos seus sonhos inimagináveis.

                     Bom saber que veio a procura de boas histórias. Faço questão que em todas elas a Lei e a Promessa tenha seu lugar. Mas chega de conversa. Fique a vontade. Escolha uma e entre nos sonhos das mais belas histórias Escoteiras.


Sempre Alerta!  

Contos de Fogo de Conselho. Eu peguei um pé de vento para ser feliz!


Contos de Fogo de Conselho.
Eu peguei um pé de vento para ser feliz!

                   Olhei pela janela e um pé de vento passou por mim. Não podia perder esta carona. Já tinha colocado meu uniforme, meu chapéu de abas largas meu lenço e meu cantil. Até cantava a canção que dizia que meu chapéu tem três pontas. Soube que um Chefe cantava dizendo que tinha três bicos. Não importa. Corri até o quarto amochilei a supimpa às costas peguei meu bastão encantado e parti. O pé de vento ia longe. Consegui alcançá-lo entrando na poeira mágica que passava. A poeira me levou a cantos e recantos e com aquele seu “jeitão” escoteiro sorriu dizendo: - Corra, vamos atrás, e se alcançar ela lhe dará uma carona até o Vale da Felicidade.

                  Eu sonhava me perdia em devaneios pensando ir um dia conhecer o Vale. Um Pintassilgo me disse que no vale só entra escoteiros uniformizados. Uma borboletas dourada colhendo néctar das flores foi logo me dizendo: - Escoteiro para entrar no Vale, tem que ter autorização. Quem sabe consegue uma na terra dos anciãos? Não perguntei onde eles moravam, eu sabia que a vida nos leva a lugares nunca imaginados e eu era forte o suficiente para mudar o mundo. Eu queria ser feliz e precisava entrar no vale da Felicidade para alcançar o meu desejo. Eu sabia que os momentos em nossas vidas são mágicos e cabe a cada um de nós, deixa-los mais marcantes fazendo o que precisamos fazer.

                  Na esquina da esperança encontrei o pé de vento. Ele não se fez de rogado. - Suba se acredita que isto o fará feliz e que poderá fazer alguém feliz aí sim a carona é sua. Na viagem pelo céu azul, o pé de vento me dizia sorrindo: Escoteiro todos nós estamos à busca do mesmo sonho. Muito amor, amizade, paz, esperança, afeto tudo porque pensamos que assim seremos felizes. Embarcamos no vento sul e partimos para Sudoeste. Era lá que iria encontrar os anciãos para me autorizar a entrar no Vale da Felicidade.

                 Eu acreditava que curtir o que de melhor a vida oferece seria como viver o ultimo dia de nossas vidas. Eu sabia que a vida é curta e seu caminho é longo. Já me contaram que às vezes precisamos aprender a sorrir, chorar, amar, sofrer e a renascer. Só assim poderíamos encontrar os nossos sonhos. Poetei um sonho lembrando que o ontem passou e o amanhã talvez nunca chegue.

                Ao passar em uma constelação linda e cheia de luzes coloridas o pé de vento naquele espaço infinito gritou para mim: - Pegue três estrelas, coloque no bolso da vida. Se a lua passar não deixe que ela se vá. Use seu cabo trançado e a leve com você. Lá na curva do caminho para o espaço sideral salte e siga no rumo da constelação zodiacal. Vais encontrar os anciãos que poderão lhe dar permissão ou não. Fui em frente. Estava equipado.

                No bolso eu levava três estrelas, na mochila guardei a lua. Se encontrasse o sol ele iria me acompanhar, pois sempre foi meu amigo nas andanças e caminhadas que fiz por aí. Se precisasse de barraca o céu estaria à disposição. Se a chuva viesse eu seria Escoteiro para dizer: Bem vinda, as plantas agradecem. Como se fosse uma nau sem rumo o pé de vento me soltou e rodopiei no ar caindo sem perceber em um universo cheio de brilho e faíscas que me lembravam das noites de inverno à beira de uma fogueira em um acampamento qualquer.

                Avistei ao longe a Montanha dos Sete Desejos. Linda, maravilhosamente atraente para qualquer Escoteiro sonhador. Passou por mim uma nuvem branca em forma de amor. Saltei e ela me conduziu ao destino que tinha escolhido. Era lindo demais. Não podia ser uma miragem ou uma visão incompleta do que pensava ser a felicidade. Como se materializasse em minha frente, uma senhora de idade indefinida, trazida quem sabe pelo vento, de extraordinária beleza, cabeços prateados em coque, sorriso maravilhoso, um lenço azul brilhante preso por um anel dourado e com o colar da Insígnia me olhava docemente. Com uma voz meiga, simples, sem afetação me olhou e disse:

               - Quer entrar no vale da Felicidade? Tem maturidade suficiente para dizer – Eu errei? Tem ousadia escoteira para dizer – Me perdoe? Tem sensibilidade para expressar a todos dizendo: - Eu preciso de você? Seria capaz de dizer com simplicidade ao seu irmão Escoteiro: Eu te amo? E por acaso quando errar o caminho saberá começar tudo de novo? Se disser sim sei que é um Escoteiro merecedor, apaixonado pela vida e assim vai descobrir que ser feliz não é ter uma vida perfeita. Mas saberá usar as lagrimas para irrigar a tolerância. Usará as perdas para refinar a paciência. Irá corrigir suas falhas para esculpir a serenidade e quem sabe vai usar a dor para lapidar o prazer. Se fizer assim se usar os obstáculos para abrir às janelas da inteligência as portas do Vale da Felicidade estarão abertas para você!

                     Foi então que descobri que tudo fora um sonho. Acordava com o sol a pino em minha barraca no meu acampamento imortal. Lá fora meus amigos de todos os tempos trabalhavam para limpar o campo, fazer o café, na subida da montanha vi o Lobo Guará uivando como a dizer:


- Escoteiro parte do dia já se passou, mas ainda há muitos dias pela frente. Levante, avante, faça sua boa ação! Se ainda não fez, faça se ainda não foi, vá! Não deixe para logo ou para amanhã o que você acha que precisa ser feito, procurado, encontrado. Este é o momento para viver, para ser feliz, não depois, logo ou amanhã, pois agora você pode, mas o depois ninguém pode garantir como será. Então agarre o momento, as oportunidades, crie o que não existe e seja feliz!

Nota de rodapé: - Nunca troque o que mais quer na vida por aquilo que mais quer no momento. Momentos passam, a vida continua. Um ótimo domingo.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Rick e sua fantástica viagem ao Mundo da Jangal.




Lendas Escoteiras.
Rick e sua fantástica viagem ao Mundo da Jangal.


                Conheci Rick desde que ele entrou para a Alcateia. Rick chamava atenção pelo seu porte, estilo e maneiras, diferente dos outros lobos. Ele era daqueles que vivia a mística e sua alegria e companheirismo. Rick era negro. Olhos enormes e um corpo bem desenvolvido para seus oito anos. Seus pais eram educados e prestativos e sempre presentes em tudo que a Alcateia solicitava. Foi na escola que Rick ouviu falar nos escoteiros pela primeira vez. Nonô o Diretor Técnico e os pais de Rich ficaram amigos. Na Alcateia foi bem recebido. Lobos são sempre amigos, não guardam rancores e nem olham posição social.
                 
                            Quando Rich conheceu a Gruta da Alcateia, disseram que ali morava Mowgly. Viu que a entrada era baixa e os chefes tinham que se abaixar para entrar. Notou também que tinha uma linda decoração, desenhos de animais da floresta, do Balu da Bagheera e muitos outros. Assustou-se com o Bastão Totem, mas lhe explicaram o que significava. Aprendeu o que era a Roca do Conselho, assistiu sem participar do Grande Uivo. A Akelá explicou que quando fizesse a promessa ele teria a honra de participar.  Em três meses fez sua promessa. Amava a Alcateia e sempre demonstrou estar feliz juntos aos lobos de Seeonee. No primeiro acantonamento Rick divertiu demais. Foi à tardinha que tudo aconteceu. Os lobinhos brincavam e viram Rick sentado embaixo de uma frondosa árvore com os olhos fechados.

                    Balu foi chamá-lo e notou que ele falava como se estive sonhando. Narrava partes da História da Jangal: - Não me temam, disse Mowgly, eu sou amigo de vocês. Quando estive com Bagheera na encosta do morro frente à Waiganga, fim de inverno vi um vale semi-deserto. Vi um pássaro cantando notas incertas tentando aprender para quando viesse à primavera. Bagheera lembrou que o tempo das Falas Novas está próximo e disse que precisava recordar o seu canto e se pôs a ronronar. Mowgly adorava as mudanças das estações. Ficava triste, porém porque os outros corriam para longe o deixando sozinho.

 – O Balu sentiu que ali estava um ótimo programa para os lobos. Chamou a todos e Rick continuou: - Impossível não gostar como ele narrava. Se ali estivesse um Contador de historia Rick sem sombra de duvida seria seu professor. Em silêncio Rick continuou: - Senhor da Jângal, sabe que tenho que viver sozinho – disse Bagheera olhando para Mowgly. Sabe que é na primavera que vou para todos os lugares, fazer coro com os outros animais, onde posso correr até o anoitecer e voltar ao amanhecer. – Sabe que é o tempo das Falas Novas, e eu faço parte de tudo. - Mowgly sabia que naqueles tempos, via-os rosnando, uivando, gritando, piando, silvando e eram tão diferentes! Uma sensação de pura infelicidade o invadiu da cabeça aos pés. Mas se arrependeu. Tratei mal a Bagheera e aos outros. Esta noite cruzarei as montanhas, e darei também uma corrida em plena primavera até os pantanais.

              - Todos já haviam partido. Só Mowgly ficou. Saiu sozinho aborrecido. Correu naquela noite, às vezes gritando, às vezes cantando. Correu até que o cheiro das flores no pantanal ao longe chegou a suas narinas. Avistou uma estrela bem baixa e lembrou-se do touro que lhe deu a Flor Vermelha. Akelá e os lobos da Alcateia ouviam hipnotizados pelo conto de Rich, ninguém queria sair. Foi uma tarde maravilhosa. Rick ficou um bom tempo narrando a historia da Jangal. Onde tinha lido? Onde aprendeu tudo aquilo? - Mowgly ouviu latido de cães. Ele emitiu um profundo uivo de lobo, que fez os cães calarem e tremerem. Ouviu uma voz. Conhecia aquela voz. Entendeu o que ela dizia. Lembrava bem. Quem está aí? Quem está aí? Mowgly gritou baixinho: - Messua! Messua! – Quem chama? Respondeu a mulher com voz trêmula. – Nathoo! Respondeu Mowgly. – Vem meu filho. Ela se lembrou. O acolheu, deu-lhe de beber e comer. Cansado Mowgly deitou-se e dormiu sono profundo.

                  Rick levantou-se e olhou todos a sua volta. – Conte mais gritaram os lobos! – Rick sorriu e voltou para a casa onde dormiam. Depois do jantar na varanda da casa Rick continuou a contar: - Mowgly mandou o Lobo Gris reunir o Conselho na Aroca para explicar o que sentia. Mas naquela estação do ano não era fácil reunir os lobos e o povo da Jangal. Quando Mowgly chegou a Roca encontrou apenas Baloo quase cego e a pesada Kaa. – Termina aqui teu caminho homenzinho? – Disse Kaa. Grita o teu grito! Afinal somos do mesmo sangue, tu e eu homens e serpentes! Viu Bagueera nos montes e viu-a gritando: Eu te amo Mowgly! Sempre terei você no meu coração.

                 Algum tempo passado Rick em uma reunião se sentou na escada da biblioteca e surpreendentemente começou a cantar musicas de um vasto repertório de Cantos Gregorianos (um gênero de música vocal monofônica, monódica muito utilizado pelo ritual da liturgia católica romana). Todos pararam. Sua voz retumbava em todo o pátio onde se realizava a reunião.

                  Cantou o “Veni Sancte Spiritus” o “Lauda Sion” a “Ave Maria... Et Benedictus” e por fim “Alleluia, psallite”. Eu fiquei pasmado. Conhecia os cânticos. Sua voz era maravilhosa, um verdadeiro Castrato, ou talvez um soprano, ou um mezo-soprano. Uma tarde seu pai explicou que Rick iria sair. Ele recebeu uma ótima proposta de emprego. Choro geral na Alcatéia. Rick partiu e por muitos e muitos anos ninguém nunca mais ouviu falar nele. Sempre lembrado em todas as reuniões marcou a todos que o conheceram. Seus feitos li são contados para os novos e alguns deles até acrescidos de outras histórias que não aconteceram. A Alcatéia o homenageou colocando sua foto em destaque na Gruta da Alcatéia.

                 Um dia ganhei dois ingressos para assistir a ópera o Elixir do Amor “Uma furtiva Lágrima” no Teatro Municipal. Um famoso tenor iria se apresentar. Surpresa. Era Rich com o nome de Boono Lastimer. Interpretou com tanto sentimento que apesar de não conhecer Enrico Caruso, o mais famoso interprete desta opera, Rich nada ficou a dever. Foi aplaudido de pé. Tentei me aproximar de seu camarim. Ele não reconheceu meu nome. Acompanhei por muitos anos a carreira de Rich. Sei que cantou no Teatro La Scala de Milão e sempre com muito sucesso onde fosse.


                Os que tiveram a honra de ouvir Rich, hoje um grande tenor não deixa de se orgulhar do seu passado Escoteiro. Fatos e acontecimentos são importantes. Eles nos trazem a vida real, nos marcam e fazem de nós o que somos. De volta ao presente, caminhamos com o passado pensando no futuro. Nunca me esqueci de Rich. Quando penso nele me lembro das palavras de Kaa que na sua nobreza de serpente sempre disse – Somos do mesmo sangue, tu e eu!  

Nota de rodapé:  Um dia visitando um Grupo Escoteiro, o Chefe me contou de um lobinho do seu grupo, hoje homem feito que é um tenor reconhecido internacionalmente. Peguei esta história, joguei para o ar e fui “catando” pedaços para fazer dela uma história, um conto. Se vocês quiserem conhecer a historia de Rick fiquem a vontade. Afinal ele foi um exímio contador de histórias principalmente a Embriaguez da Primavera. Como ele aprendeu não sei. Mas que era bom ouvi-lo isto era!

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Lendas da Jângal. O Lobinho Naldinho e a terrível Casa do Espanto. Historias para lobinhos.


Lendas da Jângal.
O Lobinho Naldinho e a terrível Casa do Espanto.
Historias para lobinhos.

                Naldinho estava na janela olhando de soslaio para que ninguém o visse. Olhava uma casa em frente a sua. Fazia isto sempre a noite para que sua mãe não soubesse que ainda estava acordado. Seus Pais achavam que ele estava dormindo. Dormia cedo. As nove já subia para o seu quarto. Mas desde o dia que foi fechar a janela por causa de um vento frio balançando as cortinas, que ele viu uma fumaça descer pela chaminé da casa vizinha. Naldinho tinha nove anos. Era lobinho da matilha amarela. Com dois anos de lobinho todos na alcateia gostavam muito dele.

                Foi promovido a Primo e já conseguira sua Primeira Estrela. Sabia que em breve receberia a segunda estrela e quem sabe o Cruzeiro do Sul. Ele ficava a um canto da janela. Tinha medo. Mas porque a insistência de ficar olhando para a casa vizinha? Esperou às onze da noite. Era a hora que as assombrações apareciam entrando pela chaminé. Todos os dias era sempre assim.

              Naldinho lembrava quando ao chegar da escola não viu a placa de vende-se na casa que fora de Dona Matilde. Seu Geraldo morrera e ela resolveu ir embora morar com a filha em uma cidade do interior. Naldinho ao beijar sua mãe perguntou quem era os novos vizinhos. Sua mãe disse que não viu ninguém. Não houve mudança. Durante muitos dias a casa ficou fechada até naquela sexta feira quando levantou para ir ao banheiro viu as aparições entrarem pela chaminé. Todos os dias eram assim. Ouvia barulhos de portas e janelas batendo. Porque seu pai e sua mãe não ouviam? E as luzes violetas e roxa piscando pela casa?

              Naldinho não sabia quando terminavam. O sono chegava e ele ia dormir. No primeiro dia comentou com sua mãe. Ela como sempre disse que ele estava vendo muito filme de terror. Engano. Naldinho nunca viu nenhum, pois sempre teve muito medo. Na reunião de sábado comentou com Princesa, a sua segunda (o nome dela era Paty) sobre o acontecido. Ela acreditou. Sapinho o terceiro da matilha também (seu nome era Norberto). Os três eram grandes amigos e da mesma Matilha e colegas de classe. Naldinho os convidou para um dia verem os fantasmas noturnos entrando na casa. Sabia que a mãe de nenhum deles deixaria.

              Foi então que teve uma ideia. – Porque não combinar com as famílias e vocês irem dormir lá em casa uma noite qualquer? Inventamos um trabalho para a alcateia. Uma das mães perguntou a Akelá Noêmia e ela não se lembrava de nenhum trabalho. No sábado após a reunião, Naldinho propôs aos dois irem até a casa e tentar entrar. Sapinho tremeu e disse que tinha medo. Princesa apesar de ter duvida topou na hora. Nem bem a reunião terminou saíram correndo, pois se atrasassem na chegada em casa ia ser um Deus nos acuda!

              Procuram alguma janela para entrarem e viram que todas estavam abertas. As portas também. Entraram. Sala vazia. Sem móveis. Cozinha nada. Subiram ao andar superior. Um cheiro de queimado. Um quarto totalmente vazio. No segundo quarto uma surpresa. Cordas, velas, uma machadinha, um facão, potes cheios de uma coisa vermelha (seria sangue?) e muitos gravetos num canto. Princesa começou a chorar. – Calma disse Naldinho não tem ninguém aqui. Entraram em outro quarto e viram uma cama sem estrado. Um emaranhado de arame farpado fazia às vezes de colchão. O que era aquilo? O que significava?

              Sapinho começou a tremer e também a chorar baixinho. Ele e a Princesa pediu para irem embora. Desceram as escadas devagar e foi então que um barulho enorme com as janelas batendo e fechando. Correram até a porta de saída e ela estava trancada. Tentaram abrir e nada. Começaram os três a soluçar e chorar alto. Meu Deus! E agora? Sentaram em um cantinho debaixo da escada e ficaram ali tremendo de medo e chorando. Viram as sombras aparecerem pela saída da chaminé. Sapinho se agarrou a Naldinho e a Princesa. Todos de olhos arregalados.

              Foi então que alguém lhe falou em pensamento. - Naldinho, você é o Primo, você é o responsável. Num raio de coragem ficou em pé e gritou: – Eu não tenho medo! Sou lobinho! O lobinho é forte! – As sombras riram. Foram até eles e os pegaram levando ao andar de cima onde foram amarrados e amordaçados. Umas das sombras tomou vida. Um enorme tigre dentuço. – Queriam gritar e não podiam. Seria o Shere Khan?

            Não tinha jeito. Viram que as sombras iam fritá-los na fogueira. Não podiam gritar e pedir socorro. Naldinho não desistiu. Fechou os olhos e pediu a Deus, a Jângal, aos seus irmãos lobos que não os deixassem morrer. Um clarão enorme quase os cegou. Quando abriram viram um enorme Urso, uma enorme Pantera a gritar para Shere Khan: - Você não desiste mesmo não é seu Tigre Manco! Vamos lhe dar uma lição. Shere Khan deu enormes gargalhadas e sumiu na fumaça. Bagheera e Balu soltaram os três. Baloo o urso grandalhão e amigo os aconselhou – Nunca façam o que sabem ser errado. Vocês conhecem a Lei do Lobinho – “O Lobinho ouve sempre os velhos lobos”. E os dois também desapareceram.

            Cada um saiu correndo para suas casas. Naldinho Princesa e Sapinho aprenderam a lição. Nunca mais faremos isto disseram. O Lobinho ouve sempre os velhos Lobos e sempre iriam consultar seus pais, a professora e a Akelá. Na segunda feira Naldinho viu outra placa de vende-se. Quem iria alugar a casa do Espanto? Pensou – Para ele agora tanto fazia, pois só queria distância.  A máxima da Jângal nunca mais seria por ele esquecida. No seu pensamento dizia que devia pensar primeiro nos outros, dizer sempre a verdade, abrir os olhos e ouvidos andar sempre limpo e sempre alegre.


            E foi assim que o Lobinho Naldinho aprendeu que a Casa do Espanto está na mente dos lobos que não aprenderam a obedecer aos seus chefes e seus pais. 

Nota de rodapé: -  Quero dizer-vos a diferença entre o lobo e o homem; nenhuma, exceto uma, na velhice... O lobo entra nos bosques para esperar o seu fim sozinho: o homem, quanto mais sente que a morte se aproxima, mais busca companhia, mesmo se ele se aborrece e se ela o aborrece. Melhor Possível aos lobos da Jângal!

terça-feira, 17 de outubro de 2017

E o tempo esqueceu de perdoar.


Lendas Escoteiras.
E o tempo esqueceu de perdoar...

              Zepeto deu um soco no ar. Nada de anormal, pois gostava de fazer isto. Quem o conhecia sabia seu estilo fanfarrão. Era um bom sujeito, nunca fez mal a ninguém, mas dava a impressão errada. Fingia ser uma esfinge, que não se importava e por dentro a gente sabia que ele chorava. Isto mesmo. Ele perdeu seu pai num acidente bobo, um acidente que ele nunca poderia imaginar acontecer. Seu pai pisou em um prego enferrujado e nem sabia que precisava vacinar. Morreu em quinze dias dizendo que nunca entrara em um hospital e nunca entraria. Zepeto ficou uma semana fora de casa. Sua mãe morrera de parto e ele agora estava sozinho. Ele estava com quinze anos quando a fatalidade o pegou de pronto. Quando menino entrou para os lobinhos. Ficou alguns meses e saiu. Precisava trabalhar para ajudar o pai. Deu duro com sua caixa de engraxate por muitos anos. Aos doze voltou ao grupo desta vez como Escoteiro.

              O escotismo transformou a vida de Zepeto. Mesmo amando tudo que o escotismo lhe oferecia ele ainda sentia uma revolta interior. Não conversava com ninguém sobre ela. Ficou muito amigo de Juanito o escriba. A ele falou muito do que sentia, mas pediu segredo. Ele e Juanito haviam feito o juramento de sangue em um acampamento no Vale da Redenção. Saíram ao entardecer para buscar lenha e ficaram fora do campo por mais de uma hora. Zé Poliano os encontrou desmaiados sangrando. Cortaram na veia errada e quase morreram. Ninguém nunca soube do juramento e nem explicaram por que se cortaram. O tempo passou. Zepeto entrou na patrulha Itatiaia. Nunca foi Submonitor nem Monitor. Ele nunca pensou nisto. Como sênior achou que poderia ter o Escoteiro da Pátria. Tentou mas não conseguiu. Mesmo assim não abandonou o escotismo. Não foi pioneiro o grupo ainda não tinha um Clã. Havia interesse, mas faltou chefia.

                Lembrou quando largou a caixa de engraxate e trabalhou por uns tempos como carregador de malas na estação e na rodoviária. Pouco dinheiro e mesmo sozinho ele tinha de economizar para viver. Dona Eulália mãe de Geraldinho da tropa o convidou para trabalhar no hotel das Flores. Aceitou. Um salário mínimo e meio. Para ele uma fortuna. Ela entendia e dava folga todas as vezes que a tropa ia acampar. Mãe é mãe e sempre a dizer: - Zepeto fique de olho no Geraldinho. A vida continuava para Zepeto. Ele não reclamava, pois voltou a estudar a noite. Sonhava em ser Professor. Muitos diziam que não valia a pena, mas ele agora um Chefe Escoteiro sabia do seu destino. Queria ensinar, ajudar participar da vida dos jovens. Padre Nivaldo o convidou para ser padre: - Zepeto! Oito anos em um seminário e lá você irá aprender tudo. Zepeto pensou na possibilidade. Padre Nivaldo disse que ele teria de decidir até o fim do ano.

               Duas semanas depois disse sim ao padre Nivaldo. Ficou tudo combinado para o inicio do próximo ano. A escoteirada da tropa brincava com ele chamado de Padre Zepeto. Ele amava aquela turma. Naquele sábado o Chefe Besouro perguntou a ele se queria fazer um curso escoteiro na capital. Seriam três dias. Ele sorriu e sabia que Dona Eulália daria a licença para ele viajar. Muitos Escoteiros foram com ele até a estação e quando o trem partiu ele sentiu um enorme vazio. Conseguiu dormir algumas vezes e quando o condutor anunciou a capital ele sentiu um tremor no corpo. Desceu na estação com a mochila quando alguém lhe bateu nas costas. Olhou e viu quatro policiais de revolver em punho. Colocaram nele uma algema e o jogaram em um camburão. Tentou explicar, mas só levou tapas na boca e no rosto. Foi jogado numa cela imunda com mais vinte bandidos. Pela primeira vez Zepeto chorou. Não sabia o que estava acontecendo.

                Cinco dias depois o delegado o chamou. Tentou explicar, mas o delegado ria. Mostrou para ele uma foto – É você? Ele olhou e viu que era ele sem tirar nem por. Mas como? O delegado o chamou de tudo. Ele pensava no que estava sendo acusado. Estuprador, formação de quadrilha e oito assassinatos. Falou para o delegado que era inocente, morava em uma cidade do interior e sua identidade e CPF podiam provar. – Falso muito falso como você é seu filho da mãe seu merda! Falou o delegado. Três anos depois foi a júri. Viu o Padre Nivaldo e o Chefe Besouro assistindo o julgamento com lágrimas nos olhos. Foi condenado a 28 anos de cadeia. Recebeu a visita de ambos e eles lhe disseram que sabiam ele ser inocente. Tentariam provar, mas estava difícil. Contrataram um advogado e ele queria muito dinheiro para colaborar. Eles ficaram de voltar, pois pretendiam fazer uma quermesse e pedir donativos para ajudar a contratar um advogado.

                Passaram-se doze anos. A vida de Zepeto acabou. Comeu o pão que o diabo amassou. Apanhou, sofreu sevicias e pegou uma tuberculose que o jogou na cama. Uma tarde recebeu a visita de uma senhora. Ela era advogada e Chefe Escoteira de um grupo na capital, e ficou sabendo do seu caso. Não iria cobrar nada. Conferiu seus documentos. Nenhum batia com o do bandido. Um ano depois Zepeto foi solto. Chefe Norma disse a ele que poderia pedir uma indenização do estado. Ele chorou. Só queria voltar para sua cidade. Ela quando ele partiu naquela noite no trem noturno, lhe deu a mão esquerda dizendo – Meu amigo, você é um Escoteiro valente. Coloque na sua cabeça que isto foi você quem pediu quando nasceu aqui na terra. Não guarde magoas de ninguém. Sei que vai ser difícil, mas tente. Zepeto chorou e chorava baixinho durante toda a viagem. Chegou a sua cidade de manhã. Ninguém o esperava claro, não avisou ninguém. Pegou sua mochila e foi a pé até sua casa. Encontrou lá uma senhora com seis filhos. Ela disse que tomou conta da casa, mas não tinha aonde ir. E ele? Ia morar onde?


                 Ela pediu se podia ficar ali, ele também podia ser mais um dos seus seis filhos. Dizer o que? Zepeto deixou a mochila e foi atrás de Juanito. Não morava mais lá. Procurou o Padre Nivaldo. Foi para outra cidade. O Chefe Besouro também não morava mais lá. No hotel de dona Eulália ela o recebeu ressabiada. Ele viu que não só ela, mas todos os antigos amigos do grupo faziam o mesmo. A cidade não era mais a mesma. Seu destino? Não sabia. Sabia sim que emprego ali nunca iria conseguir. Partiu duas semanas depois sem nada como chegou. Não sei o que aconteceu com ele, mas sei que a vida não foi o que ele sonhou. Um dia li no jornal que mataram um famoso bandido na capital. Vi a foto, parecia Zepeto. Depois soube que não era ele. O vi um dia trabalhando como peão de obra em uma construção em Ponte Nova. Não falei com ele. Não havia o que falar...

Nota de rodapé: - Minhas histórias às vezes extrapolam a realidade. Se eles existem deixo na imaginação do leitor. Elas podem ter finais felizes, alegres, salpicadas de sonhos ou mesmo de causos escoteiros recém-nascidos ou já na puberdade. Não importa. Tem também aquelas cujos finais não agradam ninguém. Escrevo por escrever, falo por falar. Se vão gostar é outra história, a minha de hoje é essa. Divirtam-se. Hã! Vida. Como dizia Carina Machado à vida nos reserva tantas surpresas, coisas que jamais imaginamos acontecer, lugares que jamais imaginamos conhecer, sentimentos que jamais pensamos em sentir... A vida é tão maravilhosa e ao mesmo tempo tão injusta... Perguntas, inúmeras perguntas sem respostas... Por enquanto...

O portador da Insígnia de Madeira.


Conversa ao pé do fogo.
O portador da Insígnia de Madeira.

Não são seres superiores e nem devem se sentir como tais, mas sim por terem despendidos esforços significativos na participação de um esquema de capacitação e experimentando uma forma impar de vida no campo. A Insígnia da madeira, em si, não tem nenhum valor, são duas contas de madeira, pendentes em um cordão, porem, para todos que a conquistaram, é um sinal de orgulho, pois representa a universalidade de Gilwell e de seu treinamento, que embora tenha sofrido atualizações ao longo dos anos e adaptações à realidade de cada país, se mantém impregnado pelo espírito de fraternidade e eficiência como idealizou Baden-Powell.

Significado e valores da Insígnia de Madeira.
A partir do significado simbólico que lhe é atribuída, é possível anunciar um conjunto de valores associados à Insígnia que devem estar sempre presente ao Escotista, seu portador.

Um primeiro grupo de valores é a da idoneidade: seu portador deve ser um Escotista formado e qualificado para exercer a missão de educador, com uma competência reconhecida através da pratica de um escotismo de alta qualidade.

Um segundo grupo de valores tem a ver com a idoneidade moral: sendo o Escotismo um método de educação baseados na pratica de princípios morais expressos na Lei e na Promessa Escoteira, o educador que é chamado a aplicar tal método não pode, ele mesmo, deixar de ser um exemplo de vivencia desses princípios essa é, por conseguinte, uma condição a exigir aos portadores da Insígnia da Madeira.

Um terceiro grupo, decorrente do anterior, tem a ver com a firmeza do compromisso assumido, como segue *uma responsabilidade de aplicação das suas competências ao serviço dos jovens.

* uma responsabilidade de auto-avaliação continua e permanente, no sentido desenvolver cada vez mais aquelas competências e de dar cada vez mais testemunho daqueles valores;

*uma responsabilidade de disponibilidade pessoal e de abertura, sem a qual os anteriores não são possíveis.

Por tudo isto, finalmente, a Insígnia da Madeira deve ser vista como um desafio e nunca como uma distinção ou  premio.

O uso como peça em uniforme ou vestimenta escoteira.

 O uso do colar e do arganel são apropriados em todas as circunstancias em que seu portador se apresente em vestimenta e/ou uniforme regulamentar.

Em atividades dirigidas, primeiramente, aos jovens, os portadores da IM NÃO DEVEM USAR O LENÇO DE GILWELL, devendo limitar-se a usar o colar e o arganel com o lenço regulamentar do órgão (grupo, distrito, região e/ou nacional) que representa em reuniões, atividades ou eventos em vez do Lenço de Gilwell.

O uso do lenço de Gilwell é exclusivamente em atividades de formação no sentido amplo, isto é, nas ações para formação propriamente ditas e ainda nas reuniões, cursos e atividades que de alguma forma tenha ligação com a formação de Escotistas, restrito ou não a portadores da IM.

Da IM, que compreende as terceiras e quartas contas, permanecem  de propriedade da Associação Nacional, a quem seu portador deve devolver quando solicitado por quem o nomeou.

O uso da Insígnia de Madeira sempre será um exemplo para os demais. O garbo, a apresentação pessoal é ponto de honra para seu portador. Garbo significa elegânciadistinção, graça, boa aparência, bom portegalhardia. Ser garboso é ser esbelto, bem apessoado, ter porte vistoso, elegante.

O exemplo vem de cima:
ABRAHAM LINCOLN, o décimo sexto Presidente dos Estados Unidos da América do Norte (1861-1865), certa vez caminhando pela Capital daquele País, ao avistar um cidadão noutra calçada cumprimentou-o. Imediatamente foi questionado por um assessor, que inconformado lhe disse: o senhor é o Presidente, ele deveria saudá-lo primeiro, não o contrário. Em resposta, Lincoln afirmou: você acha que ele deveria ser mais educado do que o Presidente?


Desta situação se obtém que o bom exemplo de condutas sociais deve partir daqueles que estão em situação de destaque junto à sociedade, por serem o esteio moral, ético e legal para todos os demais membros sociais. Vale dizer: o exemplo deve obrigatoriamente vir de cima, por que a sociedade se espelha no comportamento daqueles que detém o poder, para então agir assimetricamente e manter a ordem, a paz, que resulta no bem-estar social.

Nota de rodapé: -  A apresentação pessoal, o garbo e a boa ordem significa muito para o Chefe Escoteiro. Os jovens tendem a seguir seus chefes e se você tem como objetivo transformá-lo em um homem de bem seu exemplo faz parte de sua função de educador. Seja a mudança que tanto espera nas pessoas, dê o exemplo, ao invés de exigir algo que nem você pratica. Dar o exemplo não é a melhor maneira de influenciar os outros. É a única.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

As névoas brancas do Rio Formoso.


Contos de Fogo de Conselho.
 As névoas brancas do Rio Formoso.

O nada é a profecia da minha partida
o tudo é sopro que busca aquiescer
sou uma cor do arco-íris... Perdida
o lume solar na gota de chuva a correr
para beijar a névoa que deita escondida
a deleitar-se nos braços do amanhecer
Cellina

                      Fazia tempo, muito tempo quando a Patrulha descobriu as lindas e espetaculares cachoeiras do Rio Formoso. Eram incrivelmente belas. Ainda sem rastros humanos. Nonato disse para todos que precisavam acampar ali. Três quedas simultâneas, um som imperdível das cataratas caindo sobre as pedras e dando outro salto no espaço. Em volta uma floresta ainda inóspita. A névoa se formava a qualquer hora do dia. Uma visão fantástica. Quando ele viu pela primeira vez estava com seus treze anos. Descobriram por acaso. Uma jornada até o Serrado do Gavião onde existiam milhares de Folhas Secas. Um terreno vazio, sem árvores e muitas folhas. Era um mistério saber de onde vinham. Souberam da história. Vamos lá disse o Romildo Monitor. Patrulha Sênior, cheia de ardor, procurando aventuras, vontade de enfrentar desafios e nada como descobrir. Isto Está no sangue dos seniores.

                    O caminho iniciava na Mata do Tenente, famosa porque uma tropa do exército ficou vinte dias perdidos nela. Saíram com dificuldade, fracos e quase morreram. Bem, eles não eram escoteiros como nós. Risos. A mata não era um obstáculo e o rio também não. Dava para andar bem nas suas margens. Com quatro horas de viagem, viram uma bruma cinza que se espraiava no ar. A mata parecia que estava em chamas. Que seria? O ribombar da cachoeira os fez estremecer. Um espetáculo magnifico. Incrivelmente fantástico! A cachoeira formava redemoinhos no ar. Uma nuvem de vapor cobria certas partes da queda d’água. Os pássaros se deleitavam. Voavam de supimpa naqueles redemoinhos e saiam do outro lado molhados como se estivessem sorrindo. Não entenderam o porquê da névoa. O Rio Formoso era todo formado por quedas de diversos tamanhos e na falta delas as corredeiras davam outro brilho magnífico rio. Quem o batizou deveria ter sonhado muito com coisas belas, pois o Rio era formoso e um grande espetáculo.

                    Pretendiam chegar ao Serrado do Gavião ainda naquela tarde se não parassem para descansar. Foi o espetáculo da cachoeira que os hipnotizaram. Sentaram numa pedra próxima e o barulho das quedas d’água eram tão intensos que mal dava para conversarem. O ribombar das águas batendo nas pedras eram imensos.  Romildo levantou e fez o sinal. Mochilas as costas. Foram em frente. Com tristeza, pois sabiam que na volta o caminho não seria o mesmo. Voltariam pela Mata do Peixoto já conhecida. Subiram nas pedras, olharam novamente, pois iam embrenhar na mata longe do Rio Formoso.

                    Impossível prosseguir. Aquela cachoeira os hipnotizou. Parecia dizer para eles que não podiam deixá-la sozinha na noite que estava por vir. Pararam. Um círculo de seis seniores se formou. Ir ou parar? Seis votos a favor, nenhum contra. Todos escolheram e Romildo aceitou. Escolheram um local próximo à primeira queda para pernoitar. Não armaram barracas. Iriam dormir sob as estrelas em pedras lisas que as enchentes do Rio Formoso construíram. Sem sinal de chuva. “Vermelho ao sol por, delicia do pastor”. A noite chegou um jantarzinho gostoso foi servido pelo cozinheiro. Comeram ali mesmo olhando para as quedas no lusco fusco da tarde. Um espetáculo maravilhoso. Era uma visão dos Deuses.

                   Ficaram horas e horas sem conversar. O barulho era imenso. Cada um meditava sobre as maravilhas que foram feitas pelo Mestre. A noite chegou de mansinho, o espetáculo maior ainda estava por vir. Uma bruma, uma nevoa branca foi tomando conta onde estavam e penetrando na mata calmamente. Eles com os olhos pregados no que viam e nunca iriam esquecer. Viram surgindo da bruma um gavião procurando seu ninho. Israel acendeu um fogo. Pequeno. As chamas se misturavam com a névoa branca. Raios vermelhos das chamas ultrapassaram a nevoa. Que espetáculo! Um céu colorido como se fossem milhares de arco íris noturnos. Ninguém queria falar. Ninguém falou em dormir. Não sei quanto tempo ficaram ali. Estavam encantados com aquela névoa e esqueciam-se de quem eram e o que estavam fazendo ali.

                   Acordaram de madrugada. Amanhecendo. O rosto molhado com o orvalho que caia da bruma branca que fez companhia por toda a noite. Cada um foi levantando. Arrumaram a tralha. Comeram biscoitos de polvilho. Olharam pela última vez aquelas quedas que os levou sem saber a um paraíso perdido daquele rio que chamavam de Formoso. Calados, mochilas as costas se puseram em marcha. Alguém olhou para trás, a névoa branca se dissipava. Deu para ver centenas de pássaros molhando nos respingos da cascata imensa. Durante horas ninguém falou. Sempre olhando para trás. Somente o pequeno trovejar ainda se ouvia das quedas que já haviam desaparecido no horizonte. Nunca mais voltaram lá. Ninguém voltou. Passaram uma cerca de “arame farpado” em tudo. O homem só o homem resolvia quem entra e quem sai. Já não havia mais a natureza, pois foi substituída pelos desmandos do ser humano. Aquele que mesmo chegando depois dela, diz arrogantemente: “sou o dono da terra, dono da natureza”.

Quanto ao Serrado do Gavião é outra historia. Não deixou tantas saudades como a Névoa branca do Rio Formoso.


Nota de rodapé: - O nordeste hoje implora, as águas da cachoeira a chuva corre por fora nem passa pela porteira, por causa dessa demora, nordestino quando chora as lágrimas são de poeira. Guibson Medeiros. Um conto sem muitas pretensões mas que trazem recordações para muitos que tiveram suas aventuras marcadas para sempre. A eles meu Sempre Alerta!  

domingo, 15 de outubro de 2017

Lucy - Uma historia escoteira


Contos de Fogo de Conselho.
“Lucy”

                              Era uma amizade que parecia ser para sempre. Na Matilha Cinza havia uma química entre elas. A conta de telefone sempre alta. – Lucy! Precisamos economizar! – Um dia a mãe de Lucy desistiu. Nas reuniões de Alcatéia conversavam o tempo todo. Os chefes compreensivos procuravam entender. Receberam o Cruzeiro do Sul no mesmo dia. A passagem por insistência também foi feita com ambas. Exigiram ficar na mesma patrulha. Os Leopardos tiveram seu momento de glória. Elas deram nova vida à patrulha. Aos quinze passaram para os seniores. Foi difícil ficar na mesma patrulha, pois eram duas e ambas com seis. Uma não poderia ficar com oito, seria desproporcional. Isto não impedia a conversa, os sorrisos, os causos e os segredos que duas moçoilas contavam da vida. Faziam planos para o futuro. Ambas diziam que não iriam casar. Seriam amigas para sempre.

                    Mirtes se apaixonou. Lucy viu o distanciamento. Chorava e pensava que não queria perder a amiga. Encontravam-se agora fora das reuniões poucas vezes. Lucy sentia falta, muita falta. Nas reuniões o sol para ambas não era o mesmo. Não esqueciam os momentos felizes, os acampamentos, os fogos de conselho e principalmente a excursão em Lagoa dos Mares. A lua ajudou, as estrelas deram nova conotação. – Um dia vou morar em uma estrela – Lucy riu. Eu também. Quero sentar em uma ponta brilhante e ver um cometa passar. – Eu não, quero fazer dela minha morada, meu transporte e viajar pelo cosmos conhecer um buraco negro e ir até onde ninguém até hoje foi. As duas riam e contavam suas ilusões seus pensamentos seus sonhos.


                      - Ele quer que eu saia. Disse- sem meias palavras – Ou o escotismo ou eu! Não posso viver sem ele. O amo demais e não tenho como escolher. – Lucy viu a partida de sua amiga e chorou por dias e dias. Ninguém nas patrulhas comentou. Parece que sua falta não era sentida. Ela tinha medo, muito medo de se apaixonar. Medo de ter de decidir entre um e outro. O que diria? Qual ação tomar? Conheceu Miguel, se apaixonou. Não era e nunca foi escoteiro. Era compreensivo, muito mais amigo que um amante. A vida sempre nos coloca em nossa frente várias opções. A escolha é livre, mas, uma vez feita à opção, cessa nossa liberdade e somos forçados a recolher as consequências. Após a reunião ele estava à espera. Nem entrar entrava. Dizia não se sentir bem. De mãos dadas saíram a caminhar. Ela então ouviu o que nunca queria ouvir. Sempre pedia a Deus para isto não acontecer. – “Escolha, ou o escotismo ou eu”...

Nota de rodapé: - Um dia você aprende que as verdadeiras amizades continuam a crescer, mesmo a longas distâncias. E o que importa não é o que você tem na vida, mas quem tem na vida. Aprende que não temos que mudar de amigos, se compreendermos que os amigos mudam. Mas nem tudo dura para sempre...

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Histórias de Fogo de Conselho. O Formador.


Histórias de Fogo de Conselho.
O Formador.

                     Eu o conhecia de vista. Desculpe por não dizer o seu nome. Eu não sabia. Sou ruim de memória para muitas coisas. Mas sou bom para lembrar minha Promessa e minha Lei. Soube que era um velho formador daqueles das antigas que ainda está na ativa. Não sei se ele me conhecia e até mesmo suspeitava que eu não fosse para ele muito simpático. Por mim eu sei que não era verdade. Muitas vezes cria-se uma barreira entre duas pessoas por motivos abstratos e incompreensíveis que nem imaginamos o porquê de tudo.

                     Seria do nosso passado? Encontros em vida anterior? - Quem sabe o temor, o receio de ser melindrado por outro que poderia não ter o mesmo pensamento a mesma maneira de ver pontos de vista diferentes faziam com que ele não se abrisse para mim.

                     Já o tinha visto em publicações nas redes sociais. Conhecia bem o escotismo de BP. Nunca trocamos palavra e ele vivia sua vida e eu a minha. Muitas vezes pecamos por não dar um sorriso, um aperto de mão e dizer: - Olá! Como vai? Quem sabe só isso abre portas que estavam fechadas. Temos em nosso mundo muito disto. Desconhecemos muitas vezes quem está ao nosso lado.  

                     Sei que muitos mais ligados à liderança não me olham com bons olhos. Acho que eles têm razão. Não sou mesmo flor que se cheire e metido a conhecedor do escotismo, por esta razão não sou bem visto por muitos dirigentes. Dias destes fui convidado por um Chefe que também não conhecia para participar de uma atividade em um Grupo Escoteiro que ele fazia realizar anualmente. Precisava me espraiar voltar às origens e ver se ainda tinha aquele espírito escoteiro que sempre acreditei ter. Aceitei.

                     Foi-me apresentado e educadamente nos cumprimentamos como manda a boa ordem escoteira. Ficamos eu e ele próximos em um banco ao lado do pateo de reuniões e por minutos não sabíamos o que dizer. Achei que era hora de dizer a ele que éramos do mesmo sangue Badeniano e não poderia haver distâncias em pessoas que acreditam na filosofia escoteira. Ele se levantou e meio constrangido me deu um aperto de mão e calmamente me disse Sempre Alerta. Sorri para ele e lhe dei um abraço. Ficou inibido e ruborizado. – Me apresentei. Meu irmão escoteiro sou o Chefe Vado e quero que saiba que é uma honra conhecer você! Ele se abriu. – Disse seu nome e completou: - A honra é minha! A ponte em cima do fosso se materializou. Com aquelas palavras já nos considerávamos amigos de longa data.

                    Vimos no desenrolar do tête-à-tête que tínhamos muitos pontos em comum. Seu estilo não era agressivo. Fora Sênior e passou uma temporada fora do escotismo. Voltou pelo seu filho. – Velha formula que hoje traz bons frutos. Rapidamente contou-me sua história. Nada de novo no front. Histórias de muitos que foram e desejam voltar de novo à ninhada. Os tempos passados ficam na memória e voltar aos tempos de menino é uma questão de honra para todos nós. Falei de mim com cautela. Não queria me mostrar esnobe e nem vaidoso com o escotismo que fiz. Outra época, outro momento que dificilmente voltará a acontecer.

                   Sem ser pedante me contou que em um curso há anos, dava uma palestra quando um Chefe-aluno perguntou: - Chefe! – Diga uma frase sobre seu pensamento de caráter! – Chefe Vado, ele disse, fui pego de surpresa. Lembrei-me de Rui Barbosa e o imitei: - Meu caro Chefe eu não me importo com o que os outros pensam sobre o que eu faço, mas eu me importo muito com o que eu penso sobre o que eu faço. Isso é caráter! Ele ficou cismado e aproveitei para completar: - O caráter é como uma árvore e a reputação como sua sombra. A sombra é o que nós pensamos dela, a árvore é a coisa real...

                   O olhei com respeito. Sabia que ali estava um homem de bem e conhecedor da metodologia Badeniana. Muitas vezes precisamos estar próximo, ouvir muito, sentir a respiração e seu amor à causa. Sabemos por experiência própria que quando estamos juntos em um acampamento o conhecimento e a amizade aparece com rapidez. Eu poderia ter completado que o caráter de uma pessoa é ver como ela trata os que podem não lhe trazer benefício algum. Falamos de banalidades, de cortesia, de ética e vi que ele fazia questão de ser um Chefe com dignidade. Não me convidou para uma visita a seu grupo. Não precisava. Sabia que ele me mostrou que tinha seu coração aberto e se o fechava não era pela pessoa e sim pelo que os outros disseram.

                   Voltei para casa satisfeito. Ele era um formador dos bons. Eu sempre soube que o talento educa-se na calma e o caráter no tumulto da vida. A gente nunca perde a capacidade de se surpreender. A vida se renova em velocidade muito rápida e, por mais que você ache que já viu de tudo, ela sempre terá algo novo pra te mostrar. Nós escoteiros e chefes ou mesmo dirigentes e formadores não podemos ficar presos em um casulo. Nosso líder Baden-Powell fazia questão de sorrir e de cumprimentar a todos em seu redor.


                   Marcamos nos encontrar novamente. Eu e ele sabíamos que teríamos muita coisa para comentar e aprender mutuamente. Muitas vezes é no até logo que há um verdadeiro encontro. É na distancia que podemos nos aproximar mais. Infelizmente não aconteceu. Soube meses depois que ele tinha partido para o Grande Acampamento no Céu!

Nota de rodapé; - Um conto simples sem muitas pretensões. Real? Deixo para cada um pensar a respeito. Muitas vezes sem conhecer sem conviver temos animosidade com alguém. Isto não significa que não poderíamos conviver em fraternidade. Um passo de cada vez. Uma noite linda e um final de semana cheio de paz e amor.