Histórias e contos escoteiros.

Histórias e contos escoteiros.
Feitas para você se divertir!

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Era uma vez... Em uma montanha bem perto do céu...


Prefácio.
Era uma vez... Em uma montanha bem perto do céu...

                         Bem vindo a este Blog das mais belas Histórias Escoteiras. Já são milhares delas mostrando como é linda a vida escoteira, suas histórias, suas aventuras e tenho certeza que sendo Escoteiro irá gostar. É bom demais contar histórias. Qualquer uma, seja escoteira ou não. Quantas eu contei ou escrevi? Milhares talvez! Mesmo com minha velhice rabugenta e meu pulmão revoltado não paro de escrever. Aprendi a contar quando em um fogo de conselho qualquer a escoteirada ou a lobada me pedindo uma história com aquele olhar enigmático, olhares incrédulos e outros que se transportavam para dentro do contexto querendo viver toda a história contada. Todo contador de histórias se sente feliz ao ter tantos bons ouvintes.

                         Uma história de fantasma, em uma floresta escura era sucesso absoluto. Um Fogo de Conselho se apagando e você fazendo gesticulando, como se os fantasmas estivessem ali marcavam cada um dos ouvintes Badenianos. Bom demais. E o susto do grito de horror no final? Masoquista Chefe? Não, depende da história. Se ela tem um fundo de exemplos pode contar. Tem seu valor.  “Não há quem resista a boas histórias” escoteiras ou não. Nas páginas dos livros, dos jornais e das revistas, na tela do computador e na televisão, narradas ao pé do ouvido ou transmitidas pelo rádio... Seja lá onde for elas encantam, amedrontam, fazem rir ou chorar, assustam e são capazes de levar ainda que em pensamento há lugares nunca antes imaginados.

                     Não tem quem não se emociona ao contar uma historia e ter ouvintes hipnotizados com a narrativa. Tem chefes que adoram. Quando Chefe de Tropa e Alcatéia adorava contar. Em cursos que dirigi contei muitas. E quem resiste a uma história bem contada ao pé do fogo? Vendo o crepitar da fogueira, olhando as fagulhas que se espalham no céu, e como um lobinho feliz abre os olhos e ouvidos para ouvir e viajar na história do Chefe? A mente está ali fixa no conto, que vai desenrolar uma aventura e ele parte célere junto à história com as personagens. Ele se transforma, é um herói, um explorador, um grande acampador dos seus sonhos inimagináveis.

                     Bom saber que veio a procura de boas histórias. Faço questão que em todas elas a Lei e a Promessa tenha seu lugar. Mas chega de conversa. Fique a vontade. Escolha uma e entre nos sonhos das mais belas histórias Escoteiras.


Sempre Alerta!  

Ele era apenas um índio... Um índio brasileiro!


Lendas escoteiras.
Ele era apenas um índio... Um índio brasileiro!

                    Ele não era de uma extirpe de índios famosos. Seus antepassados sim, mas agora eram uma tribo de gente triste e sem futuro. Foi batizado como José Raposo. Seus pais disseram que ele se chamava Guaraciaba, aquele que tem cabelos de sol. Zé era um índio simples, curtido, usava um calção verde e com ele ficava por uma semana ou mais. Apesar de jovem tinha um medo atroz de uma doença maldita que quase acabou com sua tribo. Kerexu o pagé ainda contava belas histórias dos índios Botocudos, quando eram fortes e famosos e habitavam a Serra do Onça no Alto Rio Doce. Kerexu dizia ter duzentos anos, não era verdade. Devia ter uns 90 não mais. Na tribo era o Pajé o doutor o psicanalista e o religioso. À noitinha a meninada corria para a porta de sua Oca, e ali ficavam esperando de butuca para contar histórias. Com seu cachimbo enorme, com folhas de tabaco ressequidas soltava gostosos rolos de fumaça que fazia os olhinhos da turma seguirem as letras que ele fazia com a fumaça do cachimbo. Kerexu era uma alma boa. José Raposo o considerava como um pai.

                Zé não tinha o que fazer. Zanzava para um lado e outro da aldeia e seus arredores. Sempre de olho nas águas modorrentas do Rio Doce. Ele sabia que terminando a estação das chuvas Anajé o Branco poderia aparecer. Eles se conheceram quando Zé viu-os acampados próximo à cachoeira do Limão, bem abaixo da curva da serpente. Ficou a olhar de longe os meninos brancos de chapéu longo, de lenços no pescoço e gostava de ver o que iriam fazer. Alguém o cutucou por trás e Zé deu um salto se preparando para a luta. Anajé riu quando viu ele se encrespando. – Paz amigo, muita paz! E sem ele esperar o Branco lhe deu um abraço. – Como se chama? Zé pensou dar seu nome de guerra. Guaraciaba. Mas evitou e disse – Zé... E depois gritou orgulhoso: - Guaraciaba, o índio dos cabelos do sol! - Muito prazer Guaraciaba, meu nome é Vado um Escoteiro, mas me chame de Anajé, o gavião das montanhas! Assim batizado quando saltei a fogueira no Vale das Corujas.

                Ali nasceu uma amizade por toda a vida. À noite na fogueira Anajé cortou seu pulso com a faca, repetiu o mesmo com os demais brancos da patrulha. Juntou as junções que sangravam e disse – Guaraciaba, você e eu e os Patrulheiros da Raposa agora somos irmãos de sangue para sempre. Guaraciaba sorriu. Nunca teve amigos brancos e viu que os jovens de lenço e chapelão bateram palmas. Guaraciaba os convidou para visitar a aldeia.  Meu amigo Anajé, não espere ver tendas de lona redondas feitas de pele de búfalo ou cavalos malhados a saciarem a sede na beira do nosso rio. Não espere roupas coloridas, colares feito de pedras preciosas, penachos de penas de pássaros que só nas mais altas montanhas se encontram. Nada disto, nossas tradições se perderam no tempo, hoje somos à sombra de uma famosa tribo dos Botocudos que um dia se orgulharam de suas histórias e lendas que desapareceram com o vento. Anajé riu. – Amigo e irmão Guaraciaba, não quero ver grandiosidades, basta o amor que vocês têm no coração. Anajé ficou amigo de Kerexu e voltou na tribo por muitas luas.

            Quando Anajé chegava ele e Guaraciaba corriam pelas campinas, pisando em flores macias, saltando riachos de águas cristalinas, escalando montanhas e picos próximos a Nanuque, Crenaque ou na Mata do Condor. Guaraciaba mudou. Sentiu uma felicidade imensa. Kerexu preveniu Guaraciaba que a amizade dos dois era para sempre, mas avisou que um dia Anajé iria desaparecer como o vento da chuva. Anajé o levou a visitar sua cidade, o alojou em sua própria casa. Quando se sentou à mesa com a mãe e o pai de Anajé se sentiu importante por fazer as refeições junto aos brancos. Antes não gostava dos brancos. Zumbiara o Chefe da FUNAI era traiçoeiro. Sempre mandava chamar o seu pai o Cacique Aritana para dar ordens, remédios e mantimentos. O fazia com desprezo, como se estivesse dando do próprio bolso. Mas ali, junto à família de Anajé Guaraciaba se sentiu outro. Mesmo com o orgulho de um índio brasileiro ele sabia que seu coração era feito de sangue vermelho como seus antepassados que nunca esqueceu.

              Foi na reunião deles e foi apresentado a Tropa, a Alcateia, e Guaraciaba chorou. Não queria demonstrar fraqueza. Índios não choram pensou. São fortes e valentes, mas ali ele sentiu a força dos meninos de amarelos e azuis, de lenço e chapéu grande. Sentiu uma amizade entre eles incrível. Quem sabe ele poderia fazer isto na sua tribo? Retornou pensando em mudar. Porque não voltar no tempo dos valentes guerreiros que nunca esqueceram os seus antepassados? Guaraciaba casou com Avati e com ela teve dois filhos homens. Mandou vinte guerreiros estudar na capital. Dois voltaram doutores. A tribo mudou. Agora ela tinha uma escola e um posto de saúde e Guaraciaba corria pelos campos, pelos rios e riachos a procura dos gazeteiros. Dava um sermão e eles de cabeça baixa voltavam para a escola. Anajé disse a ele: - Guaraciaba um dia não vou voltar. Tenho que partir para longe em busca do meu destino. Mas quero que lembre que meu sangue está junto com o seu. Em espirito estarei com você para sempre.

              Anajé partiu. Muitas luas se passaram e Guaraciaba ficou doente. Seus doutores e Kerexu fizeram tudo para salvá-lo, mas não conseguiram. Os filhos de Guaraciaba agora adultos juraram ao seu pai que os antepassados dos Botocudos iriam se orgulhar na nova tribo. Uma semana depois Guaraciaba estava nas últimas. Seus olhos quase não abriam. A taba cheia de índios rezando. Alguém pediu passagem e eis que Anajé apareceu. Deu um abraço em Guaraciaba. – Meu amigo, eu estava longe e uma noite Caapora e Catu me apareceram em sonhos. Disseram que você precisava de mim e sumiram em uma nuvem branca no céu. Aqui estou e vim trazer para você o meu amor Escoteiro. Nossos sangues se cruzaram e nossa amizade irá viver além do firmamento e na terra dos seus antepassados. Quando você partir o sol vai sorrir, quando você chegar ao meio do céu Tupanã o Deus do Universo vai abraçar você. Então Tupanã vai dizer – Aqui Guaraciaba você vai esfriar sua sede, aqui o fogo do céu vai aquecer seu corpo quando sentir frio, aqui você vai correr pela terra dos seus pais. 

                 Guaraciaba morreu sorrindo. A tribo começou a cantar aos sons de tambores, chocalhos, guizos e cabaças. No céu um trovão anunciou a chegada de Guaraciaba junto a Tupanã.  Anajé partiu três dias depois. Abraçou Piatã e Apuã os filhos de Guaraciaba – Estarei com vocês em todas as horas e em todos os momentos. Pensem em mim quando precisarem de ajuda. Anajé colocou seu chapéu de abas largas, firmou seu lenço verde e amarelo no pescoço, amarrou sua bota negra e alçou sua mochila verde nas costas. Em uma simples jangada atravessou as águas tranquilas do Rio Doce levando consigo as saudades de um índio que sempre amou!



 nota de rodapé -  “Porque o meu irmão índio também me ensinou o valor da terra, o amor pelo chão e por seus frutos”. “Nós não herdamos a Terra de nossos antecessores, nós a pegamos emprestada de nossas crianças”. Mais uma história, mais uma lenda sobre nossos índios. Índios do Brasil!

domingo, 20 de agosto de 2017

Lendas escoteiras. Sayonara...


Lendas escoteiras.
Sayonara...
(esta história se passa um ano antes do Jamboree no Japão).

                  Mahyna nasceu a bordo do Navio cargueiro Tsuki. Foram quase dois meses de viagem de Kioto até Santos. Hideki seu pai trabalhou duro e sua mãe Keiko ficava como ajudante de cozinha dia e noite. Contaram para ele maravilhas do Brasil. Não foi fácil os primeiros meses e os macacos, as matas, as cascatas e grandes rios que motivaram sua vinda ficaram no esquecimento. Hideki era esforçado e conseguiu ir a gerente de uma fábrica na periferia de São Paulo. Keiko vivia em função de Mahyna. Ela nasceu com uma doença degenerativa articular. Tentaram tudo com fisioterapia e medicamentos, mas Mahyna nunca melhorou.

                  Deus deu a eles a felicidade de Mahyna chegar aos sete anos. Na escola era a preferida da professora pelas suas notas e pela sua educação japonesa. Laís sua amiga lhe convidou para entrar nos lobinhos. Foi uma nova vida e a alegria de Mahyna dava a falsa ideia que um milagre iria acontecer. Não era verdade. Ela definhava ano a ano. Mesmo assim chegou aos onze anos e com relutância passou para as escoteiras. Pouco ajudava na Patrulha Borboleta Azul. Esforçava mas se cansava tanto que logo pensou que não ia dar para continuar.

                  No Grupo Estrelas Brilhantes todos a chamavam de Sayonara. Ela sorria e dizia que este nome significava adeus ou até a vista. – Vocês querem me dar adeus ou um até logo antes de eu partir? Thor o Chefe pedia, por favor, para ninguém mais chamar Mahyna de Sayonara. Mas não tinha jeito. O apelido veio para ficar. Mahyna não ligava. Até gostava. Um dia ficou sabendo do Jamboree Mundial que ia acontecer no Japão. – Pai, Mãe, meu ultimo pedido. Quero conhecer a terra do sol nascente. Preciso estar neste Jamboree. Por favor!

                  Hideki e Keiko não sabiam o que fazer. Mesmo não sendo barato a viagem e a taxa eles fariam tudo para Mahyna ir. Conversaram com Thor e ele desaconselhou. Mahyna não deixou seus pais em paz. Só falava dia e noite no Jamboree no Japão. Hideki tomou uma decisão. Comprou a passagem, inscreveu Mahyna na associação escoteira e disse ao Chefe Thor sua decisão. Todos no grupo sabiam que Sayonara não iria viver muito tempo. Aplaudiram sua viagem e até mesmo Laís sua amiga a abraçou dizendo: Sayonara, ida e volta e esqueça o Adeus. Um mês antes da viagem Mahyna foi levada ao hospital. Não aguentava ficar em pé. Sua respiração aos poucos ia sucumbindo.

                   Mahyna sabia que seu sonho não iria realizar. Alguém teria de ir em seu lugar e ver com outros olhos uma grande confraternização escoteira. Pediu seu pai para chamar Laís. Ela chorou quando Mahyna disse que a escolhera para ir no lugar dela. Adeus Kioto, adeus Japão. A terra dos seus ancestrais ela nunca mais iria conhecer. Sayonara faleceu uma semana antes da viagem da delegação brasileira para o Japão. Laís sem dizer nada a ninguém procurou o escoteiro mais humilde e deu para ele a passagem e sua inscrição.

                   Laís não saiu de perto de Sayonara até que ela desencarnou. Ela sabia que sua amiga concordaria com sua decisão. Antes do seu epílogo na terra Sayonara pegou na mão de Laís e disse para ela: Amiga, se você tem medo de dizer Adeus, diga até breve, mas fale de uma vez... E depois vá. Não quero que você me veja morrer!


                   Lancelot o escolhido foi e voltou no Japão. A viagem e a participação fizeram dele outro escoteiro. Ele mesmo contou que Sayonara sempre estivera junto dele, conversando sorrindo cantando o Rataplã e dizendo: -  常に世界中からスカウトし、私の兄弟日本のスカウト私の兄弟に警告. (Sempre Alerta meus irmãos escoteiros de todo o mundo e aos meus irmãos escoteiros do Japão!).

Nota de rodapé: -     “Os Jamborees são instrumentos que ajudam a contribuir para um mundo melhor, pois isso só acontecerá quando se construir um ambiente de paz entre as pessoas”. Assim disse Baden-Powell no encerramento do Primeiro Jamboree Mundial, em 1920, Ele completou:Antes de partir estamos dispostos a desenvolver entre nós mesmos e nossos jovens esta amizade, através do espírito mundial da Fraternidade Escoteira, a fim de que possamos ajudar a levar a paz, o bom humor no mundo, e a boa vontade entre os homens”. Sayonara eu escrevi ontem às três da manhã. Se gostar comente se não comentem também! Risos.

sábado, 19 de agosto de 2017

Vai acampar? Cuidado, se alguma coisa pode dar errado, dará!


Lendas Escoteiras.
Vai acampar? Cuidado, se alguma coisa pode dar errado, dará!

                     Acampar é bom, é delicioso, é gostoso, não existe nada melhor. Mas cuidado com a principal lei de Murphy. Ele foi um capitão da Força Aérea Americana. Foi também a primeira vitima conhecida de sua própria lei. Resolveu fazer uma medição que registrava batimentos cardíacos e respiração dos pilotos. O instalador fez tudo errado. Alguns quase morreram. Foi ai que surgiu suas leis. São mais de cem. Mas vamos ao que interessa vou contar o acampamento da Tropa Escoteira do Grupo Escoteiro Flores do Vale. Várias reuniões de Patrulha, duas Cortes de Honra, quatro reuniões dos chefes da tropa e parecia estar tudo muito bem programado. Parecia. O Chefe Vadico teve um mau pressentimento. Nunca aconteceu. A escoteirada vibrando. Seria um acampamento de cinco dias.

                   Chefe Vadico repassou tudo em sua cartilha de anotações: Local? Ok. Transporte? Ok. Intendência? Ok. Autorização dos pais? Ok. Alimentação? Ok. Previsão de tempo? Ok. Farmácia? Ok. Pronto socorro mais próximo? Ok. – Porque o Chefe Vadico estava preocupado? O programa era bom. Fizeram outro para eventualidades. Os Monitores e as patrulhas praticamente fizeram tudo. Nos sacos de Patrulha eles tinham tudo que iriam precisar. – Quinta feira. Oito da manhã. Horário de reunir. Partida as nove em ponto. Chefe Vadico era exigente. Horário é horário. Dona Mercês atrás dele dizendo – Chefe! Cuidado com meu filho. Se não levar o celular vai chorar! Como vou perguntar se ele está bem? – Chefe Vadico conhecia a ladainha. O Acampamento é uma maneira de fazer o jovem se virar. Ele tem de aprender a andar sozinho Senhora. Um dia ele vai ter de partir não acha?

                  Nove em ponto. Tralha arrumada no ônibus. Nem bem pegaram a estrada um pneu furou. Quarenta minutos para trocar. Já na estrada vicinal o motor do ônibus soltou uma fumaceira que não tinha tamanho. Mais quatro quilômetros a pé com a tralha nas costas. Tiveram que fazer o percurso duas vezes para transportar tudo. Quase duas horas. Turma varada de fome. Monitores foram chamados. Ficam dois em uma cozinha improvisada, fazer um arroz, bife e salada de tomate. A demais montagem de campo. – Intendência distribuída. – Chefe faltou o sal. Cadê o sal? Não veio. O pai que comprou tudo esqueceu. Estes pais! Dois chefes tinham celulares. Eram os únicos autorizados. Um pediu para a esposa. Ela só chegaria ao campo às oito da noite. Vamos comer pão com manteiga. A montagem dos campos foi bem. O sal chegou. Nove e meia uma comida mais forte. Forte? Vários com diarreia. Por quê? Levaram escondidos biscoitos e comeram sem ordens.

                  Farmácia completa. Lá estava o Imosec. É tiro e queda. Mesmo assim a escoteirada correndo para o mato até de madrugada. O jogo noturno foi substituído por uma cantoria. Até que não foi ruim. Silêncio. Todos dormindo. Três da manhã. Dois Monitores na barraca do Chefe. – Chefe acorde! O que houve? Mesmo olhando tudo armamos as barracas na trilha das formigas Lava pés. Enormes. Mordem com gostosura. Todos ajudam. Desarmam as barracas. Armam em outro lugar. Muitos foram mordidos. Novamente a Farmácia em ação. Melhor deixar dormir mais uma hora. Alvorada as sete. – Chefe? Vai ter educação física? - Claro! Chefe Vadico não era mole. A manhã foi corrida. Parece que agora tudo engrenou. Física, café, inspeção, bandeira e um jogo/adestramento. A escoteirada vibrou. Meio dia. Tempo livre até as três. Almoço, limpeza e porque não um cochilo? 

                  Uma boiada chegando. Todos gritando. Os bichos nem ai. Vão pastando entre as barracas. Muitas caem. Uma cozinha foi prú brejo. Não importa vamos começar de novo. Escoteiro não desiste. Hora do banho. O remanso do córrego era ideal para isto. Como? – Viram boiando uma enorme Sucuri. Subiram até a cascata. Ninguém se arriscou a entrar na água. Lavam braço, perna e cabeça. A janta foi ótima. O intendente deu açúcar em vez de sal. Paciência. Comida doce faz parte, mas sopa doce é de lascar. Um jogo noturno. Sem problemas. Dia seguinte barulho de onça. Chefe Zezé conhecia. Melhor ficarem todos juntos. Ninguém deve sair do campo. Desta vez montaram guarda. Em todos os campos uma fogueira. - Não deixem apagar!  A onça sumiu! Ainda bem. À tarde depois do jogo todos cansados agora banho. De novo a Sucuri. Desta vez acompanhada de três filhotes.

                  Penúltimo dia. Sempre esperado. Fogo de Conselho. Tudo preparado. A escoteirada vibrando. Fogo crepitando. Rostos queimados e olhares direto na fogueira. Cada um rindo e fazendo diabruras. Bumm! Um trovão. Bumm! Outro. Raios ciscando os céus. Um cai bem perto. Um toró. Um verdadeiro toró. Granizo. Pedras enormes de gelo. Barracas furadas. Esconder onde? Corre aqui corre ali e o granizo diminuiu. A chuva não. Chefe? O que vamos fazer. – Rezar! Mas não adiantou. Só lá pelas quatro a chuva passou. Amanheceu. Um lindo amanhecer. Um sol lindo. Barracas já eram. Material de campo, sapa e intendência espalhado por todo o lado. Melhor por para secar. Comeram alguma comida enlameada. Duas horas o ônibus chegou. – Deus faça com que todos cheguem bem. Chegaram no horário. Dona Mercês correndo – Meu filho! Meu filho! – Mamãe! Sou homem. Veja os outros! Nenhuma mãe fica como à senhora. Guardar tralhas. Cinco dias. Um belo acampamento? Ah! Murphy. É bom aprender. Se alguma coisa pode dar errado vai dar errado!


                 Incrível! Os chefes não acreditavam. O acampamento ficou falado. Comentado em todos os lugares até na escola. Todos queriam saber como foi. Correram lendas, boatos tudo foi contado à exaustão. O Chefe Vadico quando soube das histórias ficou em duvida se seria o acampamento mesmo ou outro.  Nas atas de Patrulha escreveram – O melhor do mundo! Na Corte de Honra quando fizeram a analise todos disseram: - Chefe, por favor, quando vai ter outro igual? É. São coisas da vida. São coisas de escoteiros. Poucos entendem esta meninada de calças curtas ou compridas. Eles são de lascar! Não importa. Murphy? Saibam que os escoteiros adoraram você!  

nota de rodapé: - Lei de Murphy é um adágio ou epigrama da cultura ocidental que normalmente é citada como: "Qualquer coisa que possa correr mal, ocorrerá mal, no pior momento possível". Ela é comumente citada. Se vais acampar cuidado. Se começa mal é sinal que vai terminar mal. Reze muito, pela a Baden-Powell sua proteção e seja o que Deus quiser! Mas o acampamento foi supimpa. Só quem esteve lá sabe por quê!

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Lendas escoteiras. Os heróis não tem idade.


Lendas escoteiras.
Os heróis não tem idade.

                    Mariel não sabia mais o que fazer. Seus pais só diziam não. Ela tinha um sonho, dizem que meninas de sete anos não sonham, mas não é verdade. Podia até ser um sonho novo que substituiu a boneca Modelmuse 2013. Seus pais diziam que era muito cara e ela estava crescendo muito depressa. – O que você quer de Papai Noel perguntou seu pai? Ela abaixou a cabeça e disse – Quero ser escoteira! Ela já sabia a resposta. Desde o dia que pediu para participar que seu pai e sua mãe foram contra. – Nem pensar, não vou deixar você ir para o mato, dormir em barraca e pode aparecer uma cobra ou um bicho qualquer. E se forem para longe? Sabia que sumiu um Escoteiro no Pico do Roncador? – De novo seu pai perguntou o que ela queria de natal. Ela não disse nada. Eles sabiam o que ela queria. Um dia sua mãe comentou que eles eram esquisitos, vestiam uniformes e se achavam os tais. Sua avó contou que seu pai um dia queria ser um, mas não foi. Motivos? Ele nunca contou.

                      Mariel no computador leu sobre tudo sobre eles e o que faziam. Leu as histórias dos acampamentos, aprendeu as provas e se ela entrasse hoje já sabia de tudo. Havia meses que ela teve essa ideia e seus pais sempre negando. Chegaram ao ponto de dizer que se ela falasse mais no assunto eles a poriam de castigo. Sua mãe foi mais amiga, explicou o perigo que ela poderia correr. E se alguém a raptasse? Mariel disse sua mãe, moramos em um bairro nobre, seu pai é Presidente de uma Grande Empresa e não podiam facilitar. Dizer para sua mãe que havia outras crianças iguais a ela não adiantava. Todas as noites Mariel chorava.

                     Um sábado sua mãe foi com seu pai ao Mercado fazer compras. Dona Nana a cozinheira ficou responsável por ela. Mariel não perdeu tempo. Que seja o que Deus quiser pensou. Sabia ser errado desobedecer a seus pais, mas tenho que ir ela pensou. Se pelo menos eu pudesse ver o que eles estavam fazendo já seria uma alegria para mim. Pé ante pé abriu a porta da Mansão e passou sorrateiramente pela portaria do Condomínio. Sabia que não era perto. Ficava a duas quadras do seu colégio. Foram mais de uma hora a pé. Ela não sabia pegar ônibus. Não foi fácil. Sete anos era uma menina frágil. Nem as atividades recreativas do colégio eles deixavam. Chegou ao Grupo Escoteiro na hora do hasteando a bandeira. Ficou de longe olhando. Que belo espetáculo! Seus olhos se encheram de lagrimas. Era bonito demais. E os lobinhos e lobinhas correndo para formar? Que ordem, que disciplina. Ela já sabia que iriam fazer do Grande Uivo. Quem dera eu fosse uma delas. Sei tudo de cor! Disse.

                   Esqueceu-se das horas. Quando viu estava escurecendo. Ficou olhando para eles até o final. Correu a pé até sua casa e quase foi atropelada. Chegou já noite escura. Na porta carros de policia e parentes. Entrou pelos fundos. – Quem foi papai? Ela perguntou. – Meu Deus! Você está aqui. A mãe e o pai correram para abraçá-la. Eles choravam de emoção. Pensavam que tinha sido raptada. Mariel sabia que o lobinho diz sempre a verdade e contou tudo para eles. Contou com lágrimas nos olhos. Sabia que o castigo viria. E veio mesmo. Mais de dois meses sem computador e sem TV. Mariel não se incomodou. Ficou triste por ter feito tudo sem avisar, mas sabia que nunca eles deixariam ir. Todos os meses do castigo ela não parava de lembrar-se do que viu e sentiu. Ah! Se fosse verdade e eu fosse um deles sonhava.

                       Paolo, Billy e Eddy Mário iam para a reunião dos seniores. Todos eles antigos no grupo. Foram lobinhos e agora estavam se preparando para conseguir o Escoteiro da Pátria. Eram amigos desde a Tropa Escoteira. Uma amizade que perdurou por anos. Pararam no farol na esquina da Rua dos Tamoios com a Avenida Campos Gerais. Esperou o farol abrir. Local perigoso e com muitas batidas. Viram quando um Audi em disparada não obedeceu ao sinal e avançou a toda velocidade. Da Rua dos Tamoios um Utilitário azul da Toyota em velocidade normal com o farol aberto seguiu seu caminho. A batida foi forte. Uma explosão. O Audi ficou completamente destruído. O Toyota rodopiou sobre si mesmo e quando parou se ouviu uma explosão no motor. O fogo começou. Não havia o que pensar. Os três correram para o Toyota que pegava fogo. O Audi não estava em chamas. Paolo com se bastão quebrou o vidro da porta do motorista e tentou tirá-lo. Não conseguiu.

                          Nada é impossível para escoteiros. Eles não deixariam o homem morrer. Alguém gritou da calçada que o Toyota ia explodir. Corram daí se querem viver! - Gritaram. Billy pegou o bastão e foi para a outra porta. Quebrou o vidro e passou por ele. A porta estava emperrada. Cortou o cinto que prendia o homem com sua faca. Paolo e Eddy do outro lado arrastaram o homem para fora. O fogo aumentou. Billy sentiu seu uniforme pegando fogo. Pulou para fora do carro e rolou no chão rolando de um lado para outro. Conseguiu apagar, mas seu corpo teve diversas queimaduras. A Toyota explodiu. Graças a Deus ninguém morreu. O socorro chegou em seguida. O homem da Toyota estava desmaiado. No hospital Billy ficou internado por três semanas e saiu direto para a reunião de tropa. Precisava voltar. Nunca faltou. Que chovesse canivete, mas ele estava lá na sua Patrulha Pico da Neblina.

                       Quando Billy chegou uma salva de palmas e todos correram para abraçá-lo e ele dizendo não, pois as queimaduras não haviam sarado ainda. Aceitou aperto de mão, mas fez questão de dizer que ele e os amigos fizeram o que era certo. Somos escoteiros não somos heróis, disse. Na formatura Billy tomou seu lugar na patrulha. Notou a chegada de um homem, uma mulher e uma menina pequenininha. Eles tomaram lugar na bandeira. Após o cerimonial o homem pediu a palavra. Ele era a vitima do Toyota. Chorava. Quase não conseguia falar. Ainda não conseguia andar direito, pois sofrera uma fratura no braço e na perna. Foi até onde Billy, Paolo e Eddy estavam e lhes deu um grande abraço. – Nunca vou me esquecer de vocês! Ele disse chorando. Eu pensava que Escoteiros era uma turma de arruaceiros, de jovens sem formação. Eu me enganei. Por anos neguei que minha filha participasse.


          Mariel mudou. Agora era um lobinha alegre e cheia de vida. Como era bom saber que seus pais também ajudavam o Grupo Escoteiro. Mariel no final do primeiro dia de reunião se ajoelhou quando os lobinhos e lobinhas faziam o Grande Uivo e mesmo sabendo que ela só iria participar depois da promessa, rezou. – Obrigado meu Deus! Consegui! Meu sonho se concretizou. – Todos olharam para ela espantados. Ela levantou, sorriu e gritou bem alto – “Melhor Possível”! Agora sou uma lobinha, e prometo a mim mesma que serei escoteira por toda a vida.

Nota de rodapé: - De volta com minhas histórias, onde os sonhos se tornam lendas que encantam a todos nós. Gosto disto escrevo com gosto e sempre com um sorriso nos lábios. Quem dera eu tivesse a sina dos grandes fazedores de sonhos, para encantar e fazer do escotismo uma verdadeira escola de amor de fraternidade. Boa leitura e se quiserem comentar fiquem a vontade. Risos. 

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Lendas Escoteiras. Nascer e morrer em Casablanca.


Lendas Escoteiras.
Nascer e morrer em Casablanca.

                     O mundo fugiu dos meus pés... Não era eu quem estava ali, quem sabe apenas meu corpo, pois tudo que amava apagou como a luz brilhante no opaco da vida. Lembrei-me de um lindo poema que decorei: - E agora meu Deus? A festa acabou a luz apagou, meus sonhos sumiram, a noite esfriou. E agora meu Deus? Esqueci o meu nome, zombaram de mim, já não faço mais versos, nem sei mais protestar. Foi como um tapa no rosto, na hora morri de desgosto e achei que não ia dar mais. Afinal foi feita de escotismo, minha vida, meu ser minha alma. O que eu fiz? Juro que não sabia. Jogaram-me aos lobos, maledicências que sem perceber não vi quantos deles estavam a minha volta. Olhei para Dona Belinha, tinha eterna admiração e que decepção. Não era a Belinha que conheci, não era a amiga que eu pensava ter.

                   Perdi meus pais nova demais. Tinha somente seis anos. Chorei por meses e até hoje nunca os esqueci. Minha Avó Ana veio para ficar comigo. Não lembro muito de tudo, mas eu era feliz. Quando ele resolveu mudar viemos parar em Casablanca. Nunca tinha ouvido falar nesta cidade.  Fiz novos amigos, melhor ainda entrei como Lobinha no que mais tarde passou a ser o meu motivo de viver, uma filosofia de vida. – Lembro até hoje do meu pai, nos meus seis anos e ele dizendo: Tônia aqui seremos felizes, aqui eu e sua mãe iremos morar por toda a vida. Eles se foram e eu fiquei. Passei para a Tropa escoteira e depois fui Guia. Cada momento inesquecível.

                   Chefe Lima era um amor de pessoa. Não tinha assistentes. Era só ele e três patrulhas com seis meninas participando. Fiquei na Zodíaco, passei a amar a patrulha. Nunca tive queda por nenhum Sênior. Não era de namorar. Gostava mesmo era de acampar, dormir sob as estrelas, encontrar novos lugares e ali sonhar. Quando pequena pensei em ser freira. Católica, presente em todas as missas, confessando uma vez por mês achava que vivia em paz com Deus. Nunca pensei que aquilo ia acontecer. Até hoje tento esquecer. Quantas vezes fui à Casa do Chefe Lima e Dona Belinha me abraçava me contava “causos” histórias quando ela era de minha idade e eu dava boas gargalhadas. Parecia que ela me amava... Parecia.
                    
                   Ela chegou apressada quando estávamos sentados embaixo de um pequizeiro, uma bela sombra, conversávamos sobre a próxima atividade que íamos fazer. Ela não cumprimentou ninguém. Nem ligou para o Chefe Lima. Parou em minha frente e começou a me chamar de vagabunda, cachorra, desocupada e nomes que prefiro não dizer aqui. – Deus do céu! O que estava havendo? Foi então que o Chefe Lima se aproximou – Belinha, por favor! Pare com isto. Enlouqueceu? – Agora você a defende seu safado! Não vive abraçando? Não vivem beijando? Quando vezes me traiu com ela? Devem ter sido milhares. Maldito, não quero saber mais de você. A Tropa estava boquiaberta. Ninguem sabia o que dizer. Dona Belinha saiu chorando e gritando que preferia morrer a me ver novamente ou ao Chefe Lima.

                    Não dava para ficar na reunião. Corri para casa aos prantos. Minha Avó assustou. Perguntou o que era – Contei a ela, nunca tivemos segredos. Ela não acreditava. Conhecia Dona Belinha e disse que ia a casa dela tirar satisfações. Implorei a ela que não fizesse isto. Fui para o meu quarto. Rezei, pedi a Deus que me desse uma luz. Onde foi que errei? Não sabia. Nunca tive nada com o Chefe Lima. Nunca tive nada com ninguém. Nem namorado eu tinha. Fiquei de cama com febre e não parava de chorar. Quilombo o monitor da Touro veio me visitar. Só ele veio mais ninguém. Não falou uma palavra e nem contou o disse me disse que falavam no Grupo Escoteiro.

                    Nenhum Sênior, nenhuma guia apareceu. Vi que não acreditavam em mim. Neste momento tão difícil em que eu precisava de uma força, que me ajudasse a atravessar a tempestade e ninguém só Quilombo me procurou. Resolvi não voltar mais. Se me achavam culpada que fosse. Eu não ia pedir desculpas por algum que não fiz. Um mês depois uma surpresa. Dona Belinha bateu em minha porta. Fiquei assustada. De novo não! – Mas ela foi pedir desculpas. Desculpas? Destruiu-me internamente, me acusou de algum que não fiz. – Tônia ela disse – Meu Deus, o que fiz a você? A culpa foi do Lima. Eu vivia dizendo a ele que parasse de abraçar as meninas. Ele só as abraçava.

                    Jurou-me que era inocentemente, mas um dia Chico Nonô, Patrício Romualdo e José Carlos da Patrulha Gavião conversavam na minha porta. Só ouvi que o Lima estava de caso com você. Que nos acampamentos foi pior. Chorei a noite toda. Interpelei o Lima e ele sempre dizendo que nada havia e era inocente. No sábado não aguentei mais. Aprontei aquele barraco com você. Deus meu o que fiz? Você inocente e acusei injustamente. O tempo foi passando e procurei saber a verdade. Um dia encontrei os três na porta da padaria. Abaixaram a cabeça e disseram que era tudo mentira. Eles estavam muito arrependidos.

                      E como me redimir? Perdão é a única coisa que posso fazer. Exigi ir ao Conselho de Chefes e lá contei tudo. Ninguém disse nada. Não me deixaram contar a verdade no Cerimonial. Mas o mal estava feito. Lima saiu da Tropa. O escotismo para ele era tudo e agora não é nada. Minha vida com ele não tem mais razão de ser. Ele disse que nunca vai me abandonar, mas eu não sei o que fazer. – Dona belinha foi embora chorando. Pensei comigo como voltar? Se meu grupo meus amigos e amigas nem se deram conta de me visitar, de falar comigo de me ajudar na hora difícil eu iria voltar? Nunca mais voltei. Quando fiz dezoito anos minha Avó ao meu pedido me levou no Convento das Carmelitas. Dez anos se passaram. Sinto-me bem, não tenho mais ódio no meu coração. Volto sempre ao Grupo Escoteiro que foi minha vida. Como freira eles me recebem muito bem. Não guardo mágoa e nem rancores.


                         Sei que o escotismo prega o bem, o amor, a bondade e o perdão. Quem sabe aqueles que eram do Grupo Escoteiro ainda não tinham crescido nestas habilidades. Eu rezo muito, peço a Deus que os proteja e o ensine que a Lei Escoteira não foi feita para ler e dizer a todos que existe, a Lei Escoteira faz parte de cada um, se ela não for uma trilha para seguir na vida então nada vale uma promessa. De tudo guardo boas lembranças. Nada de ódio no coração. Que todos eles sejam felizes!

Nota de rodapé: - Uma história de ficção. Todos sabem que a Lei Escoteira não foi feita para ler e dizer a todos que existe, a Lei Escoteira faz parte de cada um que acredita nela, se ela não for uma trilha para seguir na vida então nada vale uma promessa. Não basta dizer que é Escoteiro, tem de mostrar que é. A vida de alguém tem muita importância para que seja jogada aos lobos! Leiam a história e depois comentem. 

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

A lenda do Pica pau amarelo. Uma história para Lobinhos.


Lendas da Jângal.
A lenda do Pica pau amarelo.
Uma história para Lobinhos.

               Era uma vez, uma Lobinha que gostava de cantar. Não era uma cantora nata, mas ela sabia que cantando sempre poderia ter um momento de paz, pois em sua casa sua mamãe e seu papai viviam a brigar. Nas reuniões ela se sentia triste ao ver suas amigas contando histórias de seus pais e ela não podia contar nada, pois não tinha boas histórias para contar.

                Uma vez saindo da reunião, viu um homem vestido de branco com um chapéu enorme na cabeça também branco e parecia estar descendo a escada de uma nuvem do céu. – Olá Lobinha, ele disse sorrindo. Ela disse olá, mas sabia que não devia conversar com ninguém quando estivesse sozinha. Sua mãe lhe disse isso e seu pai exigiu. – Ele demonstrando ser um homem de paz perguntou: - Voce conhece a Lenda do Pica Pau amarelo da felicidade? – Ela balançou a cabeça dizendo não. – Linda Lobinha, pois vou lhe contar... “Se alguém um dia encontrar o Pica pau amarelo da felicidade, será uma pessoa realmente muito feliz”.

                 - A Lobinha o olhou com maior atenção e ele continuou: - Foi em um tempo muito antes das chuvas de verão, que um escoteiro percorreu as montanhas da sua cidade querendo encontrar um Pica pau amarelo. Andou, caminhou, acampou em busca dos seus sonhos. Quando o encontrou o prendeu na gaiola de ouro que construíra. Encantado esqueceu-se de suas reuniões e da escola ficando a admirar a ave, mas ele parecia infeliz. Não comia nada e tudo que ele colocava para ela não queria parecendo muito infeliz.

                 Passou-se três dias e o escoteiro receoso de que o Pica pau viesse a morrer de fome, soltou-o. Mas ele não voou tão logo se viu solta. O escoteiro pensou que ele deveria estar fraco demais para voar. Mas não, ele voou até um galho de um pé de manga do seu quintal e se mostrava feliz. Ele o Pica pau começou a emitir um pio suave e continuo: - Tuit... Tuit... Tuit! – Não se sabe como aquele pio singelo começou a ressoar no íntimo do escoteiro. De coração aberto, ele desejou saber o que ele dizia e pensou: - Seria uma alucinação? Um sonho? Foi então que o pio começou a tomar sentido. Agora ele já entendia o que o Pica pau queria dizer. 

                 Fez um silencio profundo, ouviu a voz do vento e um sussurro piou no seu ouvido dizendo: - A felicidade para que exista você tem de ser livre. Agora que já me ouviu e me conhece, eu te pertenço para sempre. Quando quiseres me encontrar, vista seu uniforme, ponha sua mochila e vá encontrar-me na clareira da montanha. Assim poderemos ficar juntos todos os dias que puder. Mas olhe escoteiro, para que tudo isto aconteça, me arranjes um cantinho eu teu coração e ali me alimentes de AMOR! E assim você poderá ouvir outra vez o entoar do meu canto de felicidade!   

                 O escoteiro espantado viu o pássaro voar rumo ao por do sol. Sentiu uma pontada no coração e suas vida mudou. Toda sua Patrulha e sua tropa notaram sua transformação. Ele passou a cantar e sorrir em todas as horas. Seu cantar de tão lindo atraia a atenção dos amigos e amigas escoteiras. Parecia uma onda de felicidade e todos se sentiram bem quando ficavam perto dele.

                 Só nas horas distantes, quando ficava sozinho ele silenciava. Todos sabiam que nesses momentos ele visitava a clareira da montanha, e junto ao Pica Paul Amarelo se reabastecia de fé, de luz de alegria. Um dia toda a tropa se reuniu e lhe perguntaram: - O que significa aquela gaiola vazia lá no seu quintal com aquela placa colocada na porta dizendo: - Aqui mora o Pica pau Amarelo da felicidade?

                 O escoteiro sorrindo lhes disse: - É preciso ter a gaiola vazia para encontrar o pássaro que mora ali e assim saber que para possuí-lo ele precisa estar em liberdade. Ele meus irmãos escoteiros pertence a todos. – Os escoteiros fitavam-no com atenção.

                 Um deles, um Monitor poeta falou em nome de todos: Sabemos meu amigo e irmão escoteiro à certeza que você o encontrou, porque vemos em seus olhos, vemos em você e no seu sorriso! – Ele sorrindo respondeu: - Olhe meus irmãos escoteiros um dia quando quiserem e desejar ter seu pássaro da felicidade eu poderei com a maior alegria ajudá-los a encontrar em seus sonhos para ser feliz como eu!

                 Conta-se que a Lobinha de tanta felicidade sentiu que pela primeira vez seu papai e sua mamãe também passaram a sorrir com ela!


Baseado no conto: - O Pássaro Azul da Felicidade!

Nota de rodapé - — Que significa aquela gaiola vazia lá fora, com um letreiro: «Aqui mora o Pica Pau Amarelo da Felicidade»? O Escoteiro respondeu, sorrindo: — É preciso ter a gaiola vazia para encontrá-lo e para possuí-lo verdadeiramente. Só se pode possuí-lo em liberdade, porque ele pertence a todos! Os demais escoteiros ponderaram: — Temos a certeza que o encontraste, porque o vemos em ti! Ao que ele replicou: — Se quiserem, posso ajudar-vos a encontrá-lo, também… Uma história para contar aos lobinhos.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Lendas escoteiras. Narkis, o Lobo Solitário.


Lendas escoteiras.
Narkis, o Lobo Solitário.

         A idade de Jonny Thorton era indecifrável. O que ele fazia para se manter sempre jovem ninguém nunca soube. Quando o vi pela primeira vez estava com doze anos. Assustei com ele. Fazíamos um jogo de tocaia e estava escondido na curva do Moinho e de tanto esperar que alguma patrulha passasse para anotar os nomes cochilava. Senti seus dedos tocando o meu ombro e quase cai do galho da árvore que estava aboletado. – Lá vem dois deles disse – Olhei na Estrada e vi Manfredo e Rosinaldo pé ante-pé tentando esconder dos índios selvagens. Eu era um índio selvagem. Quando o procurei novamente ele sumiu. Sumiu como? Ali era o topo do morro e dava para ver todos os lados. Oito anos depois entrando nos meus 21 anos fazia uma atividade aventureira No Rio das Esmeraldas. Calculamos eu e os monitores percorrer 42 quilômetros a pé. Erramos feio. De 42 foi para 65 quilômetros.

         O plano era seguir a estrada do Boiadeiro até o Vale da Serpente. Calculei que atrás do vale havia uma cadeia de montanhas onde era a nascente do Rio Esmeralda. Se fosse verdade com uma boa jangada iriamos alcançar em um dia o Rio Doce e de lá mais um dia até nossa cidade. Uma bela volta. Uma bela atividade aventureira só com monitores. Eu era assistente do Chefe Laerte. Por motivo de saúde não foi. Assumi e disse a ele que não se preocupasse. Após dez quilômetros de caminhada uma chuva rala começou. Esta é a perigosa. Um velho ditado dizia que se tens água e depois vento põe-te em guarda e toma tento. Dito e feito, passamos boa parte do dia debaixo dela. Capas pequenas logo estávamos todos ensopados. Avistei duas pedras na curva do Jacu onde se iniciava o Vale da Serpente. Entrar lá com aquela chuva não era boa ideia. Uma chuvarada no sopé da montanha e poderíamos sofrer consequências graves.

         - Olá Chefe! Ouvi alguém falando atrás de mim, virei e lá estava Jonny Thorton. – Venham comigo, sei onde podem se abrigar. Com a chuva torrencial não disse nada e o segui. Uma hora depois avistamos uma cabana. Entramos. Não era grande, mas dava para descansarmos e até dormir um pouco até a chuva passar. Jonny Thorton era um sujeito estranho. Usava uma espécie de macacão azul de brim mescla, acho que feito por ele mesmo, sem gola e sem mangas e presa por cipó trançado. Andava com um Mocassim feito por ele e quase não fazia barulho. Acedeu um fogo no seu fogão de barro, colocou um caldeirão grande com agua. Em uma escada de madeira retirou sobre a telha duas mandiocas e um pedaço de carne seca. Quer saber? Nunca tomei uma sopa como aquela. Não sei se foi à fome ou o ambiente, lá fora chuvoso, dentro um ambiente gostoso e em pouco tempo dormíamos a sono solto.

          Acordamos cedo. Não vi Jonny Thorton. Já não chovia e o céu ainda nublado. Fizemos um conselho de patrulha e todos foram unânimes em não desistir. Quando abri a porta da cabana um enorme lobo estava em pé, serrando os dentes e voltamos correndo para a cabana. Enfrentar o lobo não dava. Duas horas depois Jonny Thorton chegou. O lobo deu um enorme salto em cima dele e ambos caíram no chão. Tinha que ajudar a quem nos ajudou. Com o bastão sai pronto a usá-lo no lobo. – Não faça isto! Gritou Jonny Thorton. Ele é nosso amigo! Parei e esperei. A patrulha ficou dentro da cabana. – Narkis! Ele gritou, o Escoteiro é nosso amigo! O lobo me olhou de soslaio. Narkis! Veja! Ele tem alimento como o meu. – Tirei do bornal um pedaço de linguiça e dei para ele. Nunca em minha vida vi um lobo assim. A chuva voltou a cair. Corremos para a cabana e o lobo foi atrás.

        Mais uma noite na cabana de Jonny Thorton. Desta vez em companhia de Narkis, o lobo amigo. – À noite comemos um delicioso quitute de tomate misturado com peixe cozido e uma farinha de milho de dar água na boca. Jonny Thorton tinha no vale um belo restaurante e viveres que nunca iriam faltar. – A noite ele começou a contar sua história. Nascera em uma pequena cidade às margens do Rio Mississipi nos Estados Unidos. Era filho de Cabelos Longos, um índio da tribo Chicksaw. Com nove anos subiu a bordo de um barco em Terra Blanca e foi aprisionado por um capitão mau. Trabalhou a bordo por meses e escondido desceu em Port Gibson mendigando por anos. Com 14 anos conseguiu emprego em um navio cargueiro de ajudante de cozinha e veio parar no Brasil, em Vitória no Espírito Santo. A pé subiu as planícies do Vale do Rio Doce que lembravam sua terra e descobriu este lugar. Olhe Escoteiro, não sei quem é dono destas terras, mas daqui não saio nunca mais.

         Narkis eu o conheci quase morto próximo ao Lago Cinzento. Deram um tiro nele e consegui tirar a bala. Ficamos amigos e ele sempre me salvou de poucas e boas. Olhei para os monitores e subs, estavam de olhos arregalados na história de Jonny Thorton. - Narkis, continuou – Já pôs para correrem muitos malfeitores que fogem para este vale. Aqui não tem ouro e nem pedras preciosas, mas nunca irei sair daqui. Isto não vai demorar, pois estou chegando aos meus setenta anos. O Lobo deitou aos seus pés e nós fomos dormir. No dia seguinte o sol apareceu. Agradeci a Jonny Thorton a acolhida. Ele sorriu. Narkis irá mostrar o caminho até o Rio Esmeralda. Existe? Perguntei. Existe sim, posso apostar, pois eu conheço! Partimos. O lobo sempre à frente. De vez em quando olhava para trás. Uma hora parou com suas orelhas levantadas. Bem acima de nós eu vi uma enorme onça parda. O dobro do peso do Lobo Narkis. Durante alguns minutos um olhava para o outro. Pareciam conversar. Narkis fez um sinal para seguirmos. A Onça Parda sumiu na floresta.

       Atravessamos o Vale da Serpente sem nenhum tropeço. Se não fosse Narkis não sei se teríamos conseguido. O Rio Esmeralda era majestoso. Fizemos uma bela Jangada e tudo correu conforme os planos. Ficamos dois dias a mais que o planejado, mas valeu. Norberto um dos monitores contou e escreveu toda a saga de nossa aventura no livro de ata da patrulha. Nunca contou onde fica. Combinamos de preservar a identidade do Jonny Thorton. Por vários anos ainda encontrei o Jonny em alguns acampamentos. Um dia ele me procurou na sede do grupo e disse que ia partir. Seu pai tinha falecido e deixou para ele de herança uma vasta terra onde a tribo morava próxima a New Orleans. Ele era o único herdeiro. – E Narkis o Lobo? Perguntei – Ele vive ainda e nunca dependeu de mim para sobreviver. O tempo passou e uma lenda se formou no Vale da Serpente. Dizem que um Lobo Solitário e uma Onça Parda dividem as noites de lua cheia e nenhum homem pode se aproximar.


           Verdade ou não eu sabia que a lenda era real. Pensei até em visitar Narkis, agora chamado de Lobo Solitário. Desisti, pois ele tinha uma vida, uma companheira e humanos nem sempre são bem vindos para estes animais. Vida longa para Narkis o Lobo Solitário e sua amiga, uma Onça parda e que vivam para sempre no saudoso Vale da Serpente! 

Nota de rodapé: - Uma lenda? Pode ser. Narkis ficou no tempo e tanto tempo faz que ele não deve existir mais. E Jonny Thorton? Nunca mais ouvi falar. Os tempos são outros. Hoje isto não é mais possível me dizem alguns chefes. Concordo. Não há mais rios caudalosos, não há mais lobos e nem alguém como Jonny para nos alegrar nas noites chuvosas. Vida longa Jonny!

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Lendas Escoteiras. “Gigante”.


Lendas Escoteiras.
“Gigante”.

              “Gigante”? Never, nunca, não passava de um quase anão. Bem era um pouco maior, mas todos olhavam para ele com cara de piedade. Laredo da Paz vivia sorrindo. Sua face, sua maneira era de um pequeno grande homem que nunca fez ou desejou mal a ninguém. Sua mãe morreu no parto e seu pai quando o viu sumiu de Morro Vermelho. Afinal que iria querer cuidar de um menino que nasceu assim? Coitado. Nasceu com síndrome de Down e isto afugentou boa parte da população do seu convívio que desconhecia esta característica e achou que era uma aberração da natureza. Nem sabiam que elas apresentam personalidades e características diferentes e únicas. Quem ia dizer para elas que Síndrome de Down se bem cuidada pode alcançar excelentes capacidades pessoais de desenvolvimento, de realização e autonomia. São entes que são capazes de sentir, amar, aprender, divertir e trabalhar. Iria aprender facilmente a ler e escrever e pode tranquilamente levar uma vida autônoma. Sem sombra de dúvida pode ocupar seu lugar próprio e digno na sociedade.

                    Mas quem em Morro Vermelho sabia disto naquela época? Sua Avó já quase cega o levou para casa. Cuidou, deu carinho amor e tudo que ela podia dar com os parcos salários que recebia de aposentadoria. Laredo cresceu como um excluído, exilado ou um Pariá que ninguém queria se aproximar. Aos quinze anos viram que ele não era um perigo para a sociedade. Mesmo excluído de amigos da sua idade ele sorria, nunca fez nenhum mal a ninguém. Era aquele que senta lá atrás na sala de aula e nunca reclamou. Aos vinte anos sua Avó faleceu. Ficou só e não sabia como sobreviver. Tentou de tudo, mas ninguém lhe deu uma oportunidade. Foi Dona Ana que acreditou e o levou para ajudante em sua vendinha na esquina da Rua do Contador. Recebia uma migalha, mas não reclamava. Os “fregueses” gostavam dele. Educado prestativo e sempre com um sorriso seu atendimento era o melhor que podiam encontrar.

                     Substantivo e Adverbio monitor e Submonitor da Patrulha Garça discutiam o futuro da patrulha e da Tropa. Chefe Corel ficou muito doente. Diziam que era câncer e que em breve ele iria “bater as botas”. Era um Chefe não muito amado pela Tropa escoteira. Prepotente, gritante se julgava o melhor e sempre falando que todos deviam seguir seu exemplo. Pelo sim pelo não a Tropa não chorou sua partida para tratar na capital. Agora estavam sem Chefe. A Corte de Honra se reunia todas as semanas atrás de uma solução. Seu Domingos presidente da Diretoria disse que sem Chefe eles não poderiam ficar. Ele iria fechar o Grupo. A Alcatéia de lobos já tinha acabado por falta de chefes. Ninguem queria assumir. Parecia uma maldição em vez de uma graça para alguém liderar jovens em sua formação moral e ética. Por quê? Bem o escotismo desde sua fundação pelo Sargento Cacildo nunca foi bem visto. Uma história que ninguém queria contar.

                    Substantivo andava pela cidade chorando e pedindo a Deus que os ajudasse. Sentou em uma calçada e começou a passar mal. Filho de imigrantes Japoneses nunca foi bem aceito pelos matutos de Morro Vermelho – Dizem que são “camicases”, dizia Bonfá o barbeiro. Ele nem sabia o que era camicases. Caiu na calçada e ninguém correu para ajudar. Gigante passava na hora. O pegou no colo e levou para sua casa. Deu-lhe um refresco de groselha, lavou sua testa com agua fria e a respiração de Substantivo voltou ao normal. Era apenas uma insolação e a fresca água e sombra foi um perfeito remédio. Surgiu daí uma grande amizade. Substantivo pensou: - Porque ele não poderia ser nosso Chefe? Levou a ideia para a patrulha e a Tropa. Todos se espantaram. - Ele? Não dizem que é irmão do capeta? Disse Parafuso. Pelo sim pelo não aceitaram a visita de Gigante em um sábado para conhecerem melhor.

                    No dia 16 de maio de 1956 a Tropa o empossou como Chefe da Tropa. Como? Poderão perguntar. Não sei. Seu Domingos presidente nem ligava mais para o Grupo que só tinha uma Tropa e nem Chefe tinha. - Quem se importa? Pensou. Seis meses depois chegou um Chefe impoluto com banca de chefão um homem que se dizia Zé Boquinha o representante do Escotismo nacional. – Ele não pode ficar! Não tem curso, nem ler sabe e é um doente, uma aberração da natureza! Gigante no alto da sua humildade disse que sabia ler e escrever e ser irmão e amigo de todos nunca uma aberração. Sabia matemática, português, e estava aprendendo filosofia. O Grande Chefe da capital riu. – Não quero saber. Fora daqui! Enfrentou a ira de 30 escoteiros com seus bastões prontos para agredi-lo. Saiu correndo e nunca mais voltou. A cidade riu quando soube de tudo. Orgulhou-se dos seus meninos e bateu palmas para Gigante que não levantou uma mão para agredir ou machucar alguém.

                       Passaram quinze anos. Muitos dos meninos daquela Tropa viraram homens feitos. Alguns foram embora para tentar uma faculdade, outros arrumaram emprego e até mesmo Zé Dedão um antigo cozinheiro se casou e se tornou um grande industrial da cidade. Mosca Branca o intendente dos Touros se formou “Devogado” e voltou juiz de direito. Morro Vermelho hoje se sente orgulhosa com seus mais de 140 escoteiros e lobinhos. Na escola quando da matrícula perguntam: - É Escoteiro? Nada contra, qualquer um pode entrar sendo Escoteiro ou não, mas todos os escoteiros sorriam mais, alegravam mais, eram mais corteses e educados e bons estudantes.  O melhor mesmo é Gigante. Tirou o segundo grau, e não quis continuar estudando. Deu sua vida pelo Grupo Escoteiro. Era seu amor sua paixão. A meninada adorava seu Chefe. Hoje tem muitos oriundos daquela época, mas Gigante nunca quis ser o chefão do grupo. Boticário o Monitor mais antigo assumiu a chefia do Grupo. Não faz nada sem primeiro consultar Gigante.


                      Bem, as coisas são assim mesmo e eu não aconselho a todos seguirem o mesmo caminho. O Grupo nunca se registrou. Tentaram processos de todos os tipos para fechá-lo. Mosca Branca o Juiz ria e dizia – Que eles se preparem para uma boa luta do Scalp! Gigante continua na vendinha de Dona Ana. Agora são sócios. Dona Ana quase não aparece. A vendinha cresceu e muitos aconselham Gigante a construir um Super Mercado. – Eu? Nunca meus amigos. Sou feliz assim e porque mudar? Nada como descobrir o caminho da felicidade. Não sei não, mas se Baden-Powell fosse um ser super poderoso e olhasse na terra sua criação, ficaria orgulho do Grupo Escoteiro de Morro Vermelho. “Mais ainda de Gigante, um Chefe que não precisou ser dono da verdade, prepotente ou mesmo o líder que muitos esperam e que foi amado e idolatrado por todos que um dia passaram pelo Grupo Escoteiro da cidade de Morro Vermelho”.    

Nota de rodapé: - “Aquilo que você faz, fala mais alto do que aquilo que você diz”. O que você plantar hoje certamente colherá amanhã. Já um disse um sábio: “Plante uma ação e você colherá um hábito. Cultive o hábito e você desenvolverá um caráter!”. Gigante não era anão, não era famoso, mas fez da tropa de Rio Vermelho a melhor de todo o estado. Não acreditam? Leiam a história e depois me digam.