Histórias e contos escoteiros.

Histórias e contos escoteiros.
Feitas para você se divertir!

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

A Cigarra Azul do Lago Dourado.


Lendas Escoteiras.
A Cigarra Azul do Lago Dourado.

                       Era apenas uma cigarra azul. Nunca ninguém ligou para ela. No mês que todas cantavam para arrumar um namorado, ela simplesmente se calava. Gostava de ficar no tronco da frondosa figueira próximo de sua morada no Lago Dourado. Era o mês das flores, das abelhas procurando mel, dos beija-flores coloridos a procura do néctar para sobreviver. Suas amigas estavam espalhadas pelo bosque, cantando, pois este era o destino de todas. Assim era na Jângal, na época na Primavera, onde todos ficavam contentes, corriam pelos campos sorriam e cantavam. Isto não acontecia com a Cigarra Azul. Nunca foi feliz. Não sabia por que todas as cigarras eram cinza esverdeadas e ela azul. Não podia entender.

                        Um dia na brisa fresca da manhã, ouviu uma vozinha doce e suave a lhe dizer – Canta minha linda cigarra. Porque você não canta? A cigarra Azul olhou espantada. Viu uma menina vestida de azul, com um lenço verde e amarelo e um bonezinho azul sorrindo para ela. – Quem é você? Perguntou a Cigarra Azul – Eu? Eu sou a Dorothy, da matilha azul como você. Sou uma lobinha minha amiga Cigarra Azul. Ela ficou a pensar como podia conversar com aquela menininha tão magrinha, com uns olhos fundos e tristes, que mal conseguia ficar de pé. - Eu não posso cantar! Respondeu. Porque não pode? – Porque sou azul e todas são cinza esverdeada. Sou diferente. Nunca terei uma família. Nunca serei ninguém! Dorothy pediu de novo, desta vez quase chorando: Cigarra Azul cante para mim. Prometo que cantarei com você. Irei aprender a letra e a melodia e ambas cantaremos juntas.

                        A cigarra ficou pensando porque aquela menina insistia tanto para ela cantar. Dorothy então disse a ela – Sabe Cigarra Azul, eu também estou muito triste. Eu tenho uma doença que me acompanha desde que nasci. Meus pulmões sempre me dão falta de ar, tenho dificuldades para respirar e sinto um aperto no peito e tenho tosse. Sou lobinha, mas sou uma lobinha triste. Quero brincar e correr como todo mundo, mas a minha Aquelá não deixa. Diz que não posso ficar no sol, à noite não posso ver o céu, e nem ver o amanhecer do dia, pois não posso também pegar o orvalho que cai. Veja! Ando sempre com esta bombinha. Ela me dá certo alívio.

                     A Cigarra Azul ficou triste mais ainda. Viu que a menina dos olhos cinzentos era mais triste que ela. Resolveu cantar e sorriu para a Dorothy. - Você sabe cantar música Muito além do arco-íris? Não sei, respondeu Dorothy. Mas cante que vou aprender. A Cigarra Azul tinha uma linda voz. Encantou logo a menina Dorothy. Assim ela começou:
 - ♫♫Além do arco-íris, pode ser que alguém, veja em meus olhos, o que eu não posso ver. - Além do arco-íris, só eu sei que o amor poderá me dar tudo que eu sonhei...

                   Nesta hora a Cigarra Azul parou de cantar. Sentiu que uma pedra atingira suas asinhas. Caiu no chão desmaiada. Dorothy não podia acreditar. Olhou e viu Pedrinho um lobinho com várias pedras na mão. Chorou e gritou com ele – Você matou a Cigarra Azul! Pedrinho ria. A Aquelá veio correndo e viu o que aconteceu. Durante todo o Acantonamento Dorothy chorou. Não se conformava. No dia seguinte após o cerimonial de bandeira, Dorothy deu mais ultima olhada no tronco da figueira. Sabia que não ia ver nada, mas não custava olhar. Pedrinho a procurou chorando. Pedindo desculpas, pedindo perdão. Dorothy não sabia o que dizer. Afinal ele matou a Cigarra Azul! E então, surgindo no final do bosque eis que surge ela, a linda Cigarra azul, acompanhada de outra cigarra verde garrafa.

                  A lobinha Dorothy não cabia em si de contente. Ria, e até começou a cantar. A Cigarra Azul sorria. – Dorothy, a cigarra dizia – Este é meu namorado. Ele me socorreu. Levou-me até onde esta o Arco-íris. O homem que mora lá, um velhinho de asas azuis me colocou as asas de volta. Agora estou feliz. A Aquelá chamou todos para embarcar. Dorothy não queria ir. Vá – disse a Cigarra Azul. Volte no ano que vem. Estarei aqui para cantarmos e sorrirmos muito. Quando chegou a sua casa, contou tudo para sua mãe e seu pai. Eles sorriram. Viram que ela tinha mudado. Já não usava a “bombinha”. Achavam que Deus lhes deu um presente. A saúde de Dorothy.

                   A noite de domingo seu pai disse que tinha alugado um filme para ela. Um lindo filme que ele tinha assistido quando criança. O Mágico de Óz. Era o filme mais lindo que ela tinha assistido. A menina também se chamava Dorothy e a musica era igualzinha a que a Cigarra Azul cantou para ela:

- Um dia a estrela vai brilhar, e o sonho vai virar realidade. - E leve o tempo que levar, eu sei que eu encontrarei a felicidade, - Além do arco-íris, um lugar que eu guardo em segredo e, Que só eu sei chegar... - Me fez ver que o amor dos meus sonhos tinha de ser você...


                  Todos os anos Dorothy ia acantonar com sua Alcatéia no Lago Dourado. Lá ela encontrava a Cigarra Azul, seu namorado e agora eles tinham quatro filhos, duas lindas Cigarras verde garrafa e duas outras lindas cigarras azuis! Ei! Deixe-me contar. Pedrinho virou ao avesso. Transformou-se no mais disciplinado lobinho da Alcatéia. E assim termina a lenda e quem sabe a real história de Dorothy e a Cigarra Azul que morava lá, no Lago Dourado muito além do Arco-íris. 

sábado, 29 de outubro de 2016

Coisas da vida. Carol.


Coisas da vida.
Carol.

               Porque você não matricula seu filho nos escoteiros? Olhei para Jane minha vizinha sorrindo. Nem pensar. Ele só tem sete anos. - Mas é a idade certa. Ele pode ser Lobinho e tenho certeza vai gostar muito. Tanto pensei que no sábado fui lá conhecer. Gostei do que vi. Meninos brincando, sorrindo e disciplinados. Fiz sua inscrição e tive a sorte de ter uma vaga. A taxa mensal era pequena. Os gastos não eram tantos. Gilberto adorou. Voltou para casa falando maravilhas dos amigos, da Akelá do Balu e da Bagueera. – Tem outros chefes Mamãe, mas não decorei o nome deles. Três meses depois me sentia como um deles. Sempre ajudando onde precisassem de ajuda. Chefe Valdo me convidou a participar na chefia. – Onde Chefe? Nos lobinhos tem muitos chefes. – Nos escoteiros Carol. Você aprende fácil. Não é difícil e o Chefe Demétrio está sozinho.

                Assisti duas reuniões deles. Gostei. Achei errado ter meninas e meninos daquela idade juntos sem uma Chefe feminina. Tinha minhas dúvidas com o Chefe Demétrio. Sempre me olhava de maneira lasciva o que não me agradava. – Vai ver que é impressão minha pensei. Afinal ele sempre foi respeitoso e me tratava com educação. Fiz um curso e adorei. Comprei alguns livros e devorei página por página. Senti que a Tropa não crescia. Eram dezoito e alguns faltando. Quatro meses depois fomos acampar. Os faltosos retornaram. A escoteirada vibrava com acampamentos. Sempre cobrando, mas acampar não é fácil. Uma estrutura enorme para montar e realizar. Insisti com o Chefe Valdo para fazer minha promessa antes de acampar. Convidei Matheus meu marido para assistir e ele franziu a testa mostrando não estar interessado.

                  Matheus sempre foi um bom marido. Tivemos uma época inesquecível logo quando casamos. O tempo foi passando e aquela paixão diminuindo. Eu sabia que o amava e ele era bom pai e bom marido. Trabalhava muito e chegava em casa cansado. Poucas vezes me perguntou sobre os escoteiros. Fiz a promessa e até chorei. Foi lindo demais. Pensei comigo que seria escoteira para sempre. Minha alegria com o acampamento foi como se tivesse recebido uma injeção de felicidade. Chegamos lá ainda pela manhã, o corre, corre da escolha do campo, a montagem e a meninada cantando e dando o grito de patrulha quando terminavam alguma pioneiria ou alguma artimanha ou engenhoca. Ajudei o Chefe Demétrio na montagem do campo de chefia. Duas barracas uma minha e outra dele. Dividimos o serviço de limpeza e cozinha. Não dependíamos dos escoteiros para refeições.

                  Tudo corria a mil maravilhas. Estava encantada com tudo. A alegria de todos era demais. Amei os jogos noturnos, a conversa ao pé do fogo e no penúltimo dia o Fogo de Conselho. Foi demais. A cadeia da fraternidade ficou cravada no meu coração para sempre. Após o toque de silêncio com o Chifre do Kudu todos foram dormir. Fiquei na porta da minha barraca esperando o sono chegar. Uma banqueta era um convite para ficar olhando o céu cheio de estrelas. O Chefe Demétrio se aproximou. Sentou ao meu lado. Sem eu perceber passou as costas da mão em meu rosto. Senti um calafrio. À noite, os vagalumes o som da floresta o lago cinzento e o céu cheio de estrelas me mantiveram hipnotizada. Não sei por que não reagi. Tudo aconteceu sem esperar. Quando lembro choro do erro que cometi.

                   O escotismo depois disto nunca mais foi o mesmo para mim. Disse ao Chefe Valdo que não ficaria mais nos escoteiros. Tentou saber por que, mas não disse nada. Comecei a faltar. Levava Gilberto e vi que ele também estava desanimado. Um dia saímos. Fiz questão de agradecer a todos. Matheus nunca me perguntou por que saí. Acho que ele adivinhou, pois passou a me dar maior atenção e fazíamos lindos programas juntos. O Velho amor voltou em todo seu esplendor. Aquela noite de acampamento que devia ser a melhor da minha vida só trouxe tristeza e decepção. Ainda gosto do escotismo, minha promessa nunca esqueci. Sei que não tem volta. Eu errei e não Demétrio. Ele nunca me procurou nunca me deu falsas esperanças e manteve o segredo com ele por toda vida. Sei que muitos passam por isto e tudo fica normal com o tempo. Não era meu caso.


                   Não voltei mais ao Grupo. Ele não teve culpa. A culpa foi somente minha. O escotismo é maravilhoso sinto enormes saudades e belas recordações das reuniões, das amizades dos sorrisos da meninada. Mas eu tenho a culpa de tudo. Preciso aprender a não desculpar as pessoas, mas primeiro, falta eu aprender a dizer não!

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

As lágrimas do silêncio.


Lendas Escoteiras.
As lágrimas do silêncio.

             - Boa tarde! – Olhei para ver quem era. – Um senhor de uns quarenta anos já grisalho adentrou a sede. Estava sozinho. Sério me perguntou – O senhor é o Chefe? Balancei a cabeça levemente concordando. – Vou lhe dizer o motivo de minha vinda.  – Não quer sentar? Ele não se fez de rogado. Ainda nem mesmo sei por que estou aqui. Deveria estar com ela, contando causos, histórias de fadas que ela ainda acredita. – Não disse nada. Agora era hora de ouvir e saber o motivo de sua visita. – Eu tenho uma filha, Helena, tem onze anos e desde que nasceu tem uma doença degenerativa dos ossos, que dizem se chamar artrite degenerativa. Tentei tudo, vendi tudo o que tinha e fui com ela para a Europa, e depois aos Estados Unidos e os melhores especialistas não me deram nenhuma esperança. Ela nunca seria como as outras crianças. Nosso médico já nos alertou que ela tem muito pouco tempo de vida. – Ouvia-o com pesar. Dizer o que? Vi em seus olhos lágrimas caindo. Não interrompi.

                - Helena está pele e osso. Mal aguenta andar. Ela sabe o que tem nunca escondi. Na semana passada me pediu que eu a trouxesse aqui. Ela queria conhecer e ver de perto os escoteiros. Disse que leu sobre vocês e sonhou em ser uma escoteira. Não sabia qual a recepção que a esperava. Ela tem a cartilagem danificada e começa a aparecer uma deformidade em uma das suas pernas. Seria penoso para vocês entender o porquê ela quer estar aqui. Tanto insistiu que resolvi trazê-la. Antes me aconselhei com um psicólogo que disse ser perda de tempo. Um amigo disse o contrário. Seria bom para ela ver um mundo diferente sem doenças e outros males. Pergunto ao Senhor se posso trazê-la algumas vezes para ela assistir e quem sabe voltar a sorrir mesmo sabendo que nunca poderá ser uma de vocês?- Um nó na garganta. Um grito preso sem poder sair e dizer: - Claro que sim! Ela vai melhorar... Ela vai aprender que não se desiste de viver! – Logo eu? Embaralhando minhas palavras concordei. Pode trazê-la quando quiser e faremos tudo para ela se sentir feliz.

               Conversei com a Chefe Luana. Ela não se opôs. Combinamos deixá-la à vontade, e não entrar em detalhes com as demais Escoteiras, dizendo só que era uma jovem em convalescência que sonhava em ser mais uma de nós. No primeiro dia nos conquistou com seu sorriso e sua simplicidade. Ela transpirava felicidade e mesmo com sua alegria eu sabia que não haveria um final feliz. Sorrindo foi logo dizendo a todos nós: - Sempre Alerta! Posso ser uma de vocês?  Incrível vê-la dizer assim. Levei uma cadeira de braço para ela se assentar e ela me olhou e disse: - Chefe, obrigada, mas sonhei tanto com este momento que tenho de ficar em pé para acompanhar. E foi assim a primeira vez. Na semana seguinte ela chegou com uma camiseta que seu pai comprou não sei onde. Dizia – “Sou escoteira e sou feliz”. Seu pai não ficava junto. Muitas vezes saia para voltar quando terminasse a reunião. Eu tinha seu telefone e endereço. Pediu-me que quando achasse que não dava mais eu tinha inteira liberdade de dizer para ele.

                               No segundo dia Rosa uma escoteira perguntou a ela se queria participar de um jogo. Jogo calmo, assentado, onde se passaria uma flor de mão em mão. Sua alegria foi demais. Foi o começo de tudo. Aceita na patrulha Beija Flor ela se transformou. Andava com dificuldade e claudicando e nunca demonstrou estar cansada. Eu até me enganei pensando que a mente derruba doenças, que ela refaz as forças de quem precisa e quem sabe ela voltaria a ser uma menina como as outras. Não corria, mas participava com alegria e quatro reuniões depois queria fazer a promessa. Chefe Luana ficou em dúvida. Eu aprovei na hora. Já tinha participado de milhares de promessas de jovens de todas as idades, mas de Helena foi demais. Chorei copiosamente. Infelizmente sou um eterno chorão. Ela formosa, em seu uniforme, disse a promessa em palavras tão lindas que pensei em mudar os dizeres para o dela: – “Eu Prometo Chefe, fazer tudo que puder para cumprir meu dever patriótico, reconhecer Deus supremo, ajudar a todos que precisarem de mim, obedecer com galhardia à lei escoteira, hoje amanhã e sempre”!

                   Quem não soubesse sobre ela não imaginava uma jovem doente, paciente terminal que em pouco tempo seria levada para o céu. Chegou à data do acampamento. Ela me olhou com tanta alegria nos olhos que eu pensei em dizer sim. Não precisava, ela disse que iria nem que fugisse de casa no dia. Conversei longamente com seu pai. – Eu devo ir também Chefe? Olhei para ele e disse não. Ela precisava de liberdade, para agir a seu modo e enfrentar a verdade quando a hora chegasse. Helena não corria, ainda não podia, mas ajudou em tudo e até uma banqueta de bambu ela fez. Se houvesse felicidade neste mundo a felicidade estava ali presente junto a Helena. Cantava, gesticulava, conversava com os pássaros, e até imitou um Sabiá Coleirinho que se assustou pensando que ela era uma igual. No penúltimo dia eu há vi tão alegre tão supimpa no Fogo de Conselho, não tirava os olhos da fogueira, seguia as chamas no ar. Daria tudo para saber o que ela pensava naquele momento. Momento só dela e de mais ninguém.

                    Quando foi formada a Cadeia da Fraternidade ela não se levantou. Todos se assustaram. Eu corri até ela junto com a Chefe Luana. Estava de olhos fechados, seus lábios balbuciavam uma oração que eu não entendia. Abriu os olhos e disse: - Me ajude Chefe, vai ser a última vez! Ela cambaleante foi até junto às outras Escoteiras, mãos entrelaçadas só cantou as ultimas letras da canção: - “Não é mais que um até logo, não é mais que um breve adeus”! – Não aguentou ficar em pé. Liguei para seu pai que prontamente chegou com um médico. Não precisava mais. Helena tinha partido para sua estrela distante. As patrulhas em volta do fogo não paravam de chorar. Lágrimas esparramavam com o vento amigo. Uma brisa vindo da floresta trouxe uma neblina azulada da cor do céu. Nunca tinha visto. Eu passei por muitas situações difíceis no escotismo, mas aquela noite me marcou para sempre.


                     Um silêncio profundo em suas exéquias. Ninguem cantou. As lágrimas caiam aos borbotões. Rosa a escoteira foi até a beira do tumulo. Não chorava, até sorria. Posso Chefe? Ela me perguntou. Não sabia o que ela pedia, mas disse que sim. Rosa disse algumas palavras que ecoou no coração dos presentes de maneira tão significativa que até eu mesmo não contive as lágrimas: Helena você marcou a todos nós. Você foi o poema que nunca deixaremos de cantar. Guardaremos você sempre no coração. Sua presença nunca terá fim. Todos perceberam que o céu começou a brilhar. Uma nuvem parecia voejar sobre nós. Seria Helena? Ninguém sabia dizer. Até hoje aquelas Escoteiras nunca esqueceram aquela que serviu de exemplo para todos nós!

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

A felicidade não se compra.


Lendas Escoteiras
A felicidade não se compra.

                          Gino era de família humilde. Seu pai carpinteiro tinha o hábito de beber. Vez ou outra quando bebia costumava ficar pelas calçadas jogado como um cão sem dono. Sua mãe ao contrário fazia questão de ensinar a Gino ser bom e ser honesto. Gino nunca pensou o pior para seu pai. Sentia-se feliz com a vida que tinha. Era escoteiro da patrulha Corvo. Bom escoteiro por sinal e fazia questão de fazer suas boas ações diariamente. Na sua patrulha era amado e bem considerado. Gino adorava ser escoteiro. Não era fácil. Sua família muito pobre. Mesmo o Grupo Escoteiro não cobrando a mensalidade ele se sentia constrangido. Seu pai quando sóbrio era um bom marceneiro e trabalha sem parar.  Ultimamente começou um velho hábito de beber e ao chegar em casa e ia para o quarto. Gino e seu pai quase não conversavam.

                        Gino evitava falar de seu pai na patrulha. Era para ele uma tristeza enorme. Um dia ele apareceu durante a ortoga de um Lis de Ouro a um monitor da patrulha Cão. Achou que era Gino quem iria receber. Bêbado, quase caindo e Gino não sabia onde se esconder. Foi um vexame, mas todos compreendiam que Gino não tinha culpa. Nos avisos o Chefe falou sobre o ARP da região. Quem vai? Perguntou! A taxa era alta. Gino sabia que nunca poderia ir. Não podia pagar. Gino tinha uma vantagem, sorria quando via seus amigos partindo e chegando. Ele aprendeu que a felicidade é ver os outros felizes. E ele? Não tinha este direito? Tristeza na alma e sorriso nos lábios quando na volta eles contavam maravilhas do acampamento. Vez ou outra sentia uma tristeza enorme por ser pobre. Quando pensava uma lágrima aparecia correndo pelos seus olhos. Na volta seus amigos de patrulha contavam as aventuras e Gino ouvia calado. Ah! Pensava. Meu dia chegará. Ele sonhava com isto. Gino era excelente nas técnicas Escoteiras e todos seus amigos o admiravam. Sonhava em ser um Liz de Ouro.

                     Quando soube do Jamboree que ia ser realizado no Brasil daí a dois anos deu um sorriso e disse para si mesmo: Neste eu vou. Tinha tempo. Iria realizar seu sonho. Afinal ele era um escoteiro e tinha esse direito. Falou com seu pai, sua mãe e eles balançaram a cabeça. Não disseram nada, sabiam de suas condições financeiras. Gino tinha um plano. Começou a economizar. Tinha em seu pequeno cofre mais de trinta reais. Precisaria pelos seus cálculos de uns mil reais. Ele não achava impossível conseguir. Lutou com unhas e dentes, dia a dia para juntar um dinheiro lavando carros, limpando quintais e fazendo tudo que os vizinhos pediam. O tempo passou. Faltavam seis meses para a partida ao Jamboree. Gino já economizara mais de setecentos reais. Dava para a taxa, agora era juntar para a viagem e alimentação. Gino sorria.

                     Seu uniforme era velho com muitas lavadas algumas partes puídas e desbotando. Ia com ele mesmo. Sempre foi econômico e deste que entrou para os escoteiros com seu trabalho comprou seu uniforme, seu chapéu de abas largas, sua faca, sua bússola e seu cantil. Esperava o dia de pagar a taxa de inscrição. Assustou quando viu seu pai chegando. De novo? Pensou. Jurava que iria parar. Seu pai não estava bêbado. Ele disse para Gino que sua mãe estava muito mal no pronto socorro. O médico tinha dado uma receita enorme. Na farmácia do posto de saúde não tinha nada. Sabia do sacrifício que ele tinha feito para conseguir a quantia da viagem, mas só Gino poderia salvar sua mãe. O mundo de Gino caiu sobre ele. Ele amava sua mãe. Não iria negar nunca. Deu toda sua economia. Oitocentos reais. Seu sonho acabou. Jamboree? Adeus! Gino chorou e sentia que não merecia viver. Sonho? Sua mãe valia muito mais.

               Durante cinco dias sua mãe ficou entre a vida e a morte. Um dia ela sorriu. Melhorou e voltou para casa. O sorriso de sua mãe foi um balsamo para a tristeza dele. Tentava esquecer o Jamboree. Tinha de esquecer. Agora era esperar eles voltarem e contarem como foi. Quando na reunião o Chefe cobrou a taxa Gino ficou calado quando o chamaram. O chefe insistiu. Chefe eu não vou mais! Ele disse. Por quê? Não juntou o dinheiro? Chefe prefiro não dizer. Chorou por dentro sua garganta estava engasgada. Não saía voz. Gino foi para casa pensando como a vida era ingrata. Ele sabia que faria tudo pela sua mãe. Mas estava amargurado. Chorava pelos cantos da casa. Prometeu não chorar mais, sabia que não ia resolver nada. Seu sonho não existia mais. Seu sorriso desapareceu de sua face. Agora era um sorriso amargo. Não adiantava fingir. As lágrimas não paravam de cair. Sua mãe desconfiou e chorou com ele sabendo que ela não podia fazer nada.

                 Uma semana depois acordou antes de o dia amanhecer. O sol despontava no horizonte. Os pássaros cantavam nas árvores próximas. Uma brisa gostosa refrescava aquela manhã. Era sábado. Dia em que todos iriam partir para o Jamboree. Gino ficou na janela para ver o ônibus passar. Estava taciturno, calado, mudo. Seu coração batia compassadamente. Deus dizia dai-me força. Vai ser difícil sair dessa fossa! Gino foi para o quintal. Tinha uma mangueira frondosa onde ele ficava. Dormiu encostado ao seu tronco. Sonhou com anjos e um Velho de barbas brancas a dizer que iria conseguir. Acordou assustado. O ônibus buzinou na frente de sua casa. Ele viu seu Chefe seu pai e sua mãe sorrindo.

               - Vá se preparar meu filho, você vai para o Jamboree! Falou sua mãe. Foi demais. Ele não estava acreditando. O chefe da tropa contou que todos se cotizaram.  Souberam do seu ato de grandeza. Um escoteiro assim não ia ficar para trás. Gino deu um salto. Gritou alto. Viva! Ainda tenho sonhos e eles estão sendo realizados. Em segundos ele arrumou sua mochila vestiu seu uniforme com orgulho. Descrever a alegria de Gino no Jamboree é difícil de imaginar. Ele viu meninos e meninas com vários tipos de uniforme. Cumprimentava a todos -  Eu? Sou de Mira Flores e você? E assim ia. Canadá, Estados Unidos, México, Inglaterra, muitos países. Gino nunca soube quantos. Quando do último dia, os olhos de Gino encheram-se de lagrimas. Desta vez de alegria. Uma grande cadeia da fraternidade. Cantada em vários idiomas.


     O ônibus, a chegada, a mãe e o pai esperando. Gino gritando – Mãe! Consegui! Mãe eu fui ao Jamboree! Mãe, oh mãe, me abrace, sou o menino mais feliz do mundo! Seus pais choravam de alegria. É. Gino conseguiu. Ficou marcado para sempre em sua vida. Não importava agora se podia ir ou não em outros. Seu sonho foi realizado. Ele pensava e dizia em voz alta – Eu não fiquei olhando a montanha. Eu a escalei. Vi o outro lado. Gino sabia. A chave da felicidade é sonhar. A chave do sucesso é fazer dos sonhos a realidade. O mais importante na vida não é o triunfo, mas a luta para alcançar.

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Os anjos também são escoteiros.


Coisas da vida.
Os anjos também são escoteiros.

                      Ela nasceu em dezembro, dizem que foi no dia vinte e cinco às doze horas. Nasceu prematura com sete meses. Dona Esmeralda sorriu quando ela nasceu. Dizem também e eu não posso afirmar que no céu riscou em nuvens brancas um clarão enorme, como se vários arcos íris cruzassem o espaço iluminando a cidade de Espera Feliz. As pessoas correram para a rua e viram ao longe uma estrela brilhante desaparecendo no espaço. Na maternidade ninguém sabia explicar. Rosa Maria sorria. Incrível! Seu pai quando a colocou no colo ela piscou seus olhos negros grandes, como se dissesse – sou eu, Rosa Maria. Você sabe quem eu sou! Nasceu com dois quilos e meio. Ficou na maternidade por duas semanas e foi liberada a ir para casa.

                   Foi um dia que Espera Feliz recebeu uma revoada de pássaros. Tinha canários dourados, bem-te-vis azuis da cor do céu, araras verde e amarela fazendo acrobacias no céu azul. De novo o povo saiu às ruas. Ninguém sabia o que acontecia. O Padre Rosaldo teve uma visão. – “Um anjo chegou a terra” uma voz falou para ele. Quem seria o anjo? Rosa Maria cresceu como uma jovem menina sonhadora. Não tinha forças para brincar como as outras. Na escola só fazia o bem, dizia amar a todos e ela tinha o mais lindo olhar que uma criança teria. Não era a primeira da classe e nem tinha super poderes. Mas os amigos e amigas sabiam que ela era especial.

                 Naquele ano, quando ela completou sete primaveras, o Grupo Escoteiro Estrela Verde foi fundado. Rosa Maria se inscreveu. Sua mãe não foi contra só preveniu os chefes sobre sua fraqueza. Na primeira excursão não quiseram que ela fosse. Iam andar muito a pé. Ela insistiu. Foi. Todos acharam muito estranho, ela parecia flutuar no ar mesmo que andando em passos largos. Todos na Patrulha amavam Rosa Maria. A principio não deixaram fazer nada, mas foi por pouco tempo. Quando fez a Promessa um fato significativo aconteceu. Um lindo casal de Tuiuiú, enormes, pousou no mastro da bandeira. Não era comum. Principalmente naquela região. Quando ela recebeu o distintivo, eles fizeram uma revoada e pousaram em seu ombro. Deste dia em diante uma serie de estranhos acontecimentos começaram a acontecer.

                  A filha de Dona Matilde tinha quatro anos e estava entre a vida e a morte. Rosa Maria indo para sua casa após a reunião, viu varias pessoas na porta. Entrou. Colocou sua mãozinha na dela e a beijou. A menina sorriu e sentou na cama. Ninguém entendia. As duas começaram a cantar e brincar de roda. A cidade ficou sabendo. Sempre alguém querendo milagres de Rosa Maria. Não houve outros. Não até ela fazer doze anos já Escoteira. Espera Feliz sofria uma enorme seca. O gado nas fazendas morria de sede. Os rios estavam secando. Muitos abandonavam a cidade em busca de sonhos que ali não se realizaram. Pela manhã viram Rosa Maria, uniformizada, em pé e em cima de um banco da praça, mãos abertas, olhando para o céu. Nuvens negras apareceram. Uma chuva fina começou a cair. Os rios voltaram. Os pastos ficaram verdes. Houve dezenas de casos. 

                   O Padre Rosaldo escreveu para o Bispo. Anjo ou Demônio? Ele se lembrou de uma frase de uma poetisa: – “Amigos são anjos que não só nos ensinam a voar como também nos mostram a hora de pousar na realidade”. Um padre de Roma chegou à cidade a mando do Papa. Um pouco tarde. Uma tosse frenética tomou conta do corpo de Rosa Maria. Disseram que ela estava com leucemia. Ficou entre a vida e a morte por três meses. Um dia pediu sua mãe que lhe trouxessem seu uniforme. Com dificuldade o vestiu. Contra os desejos dos médicos foi à reunião. Deixaram. Seria sua ultima vontade.

                        Na sede todos a receberam com abraços e beijos. Ela pediu para falar no cerimonial de Bandeira. Não falou muito. Disse que ia para o céu. Meus irmãos escoteiros lá também é lindo, e melhor tem anjos escoteiros no céu. Eles acampam nas estrelas distantes. Fazem jornadas na Grande Nuvem de Magalhaes, dormem na Via Láctea e adoram passear em Andrômeda. Todos estavam em silencio. Ela tossiu um pouco e continuou. – Deus um dia muito ocupado resolveu criar anjos pra auxiliá-lo. Esses anjos chamam-se amigos. Vocês são meus amigos. Que vocês escoteiros e escoteiras cumpram sua missão. Ajudem uns aos outros. Não chorem por mim, vocês são meus amigos e amigos são como anjos sem asas. Mas que com um único sorriso nos proporcionam tamanha alegria que nos levam até o céu. Eu vou embora logo, não quero que chorem. Devem sorrir e cantar canções alegres quando eu me for. As tristes machucam.

                        Rosa Maria morreu numa tarde de dezembro. Dizem que foi no dia vinte e cinco de dezembro. Não sei. Morreu sorrindo. Na Necrópole da cidade, escoteiros e escoteiras foram dar seu último adeus. Não estavam chorando, mas os olhos marejados de lágrimas era difícil de esconder. Cantaram varias canções. Todas alegres como ela queria. Lembraram-se de suas últimas palavras no Grupo Escoteiro: - Quando alguém nos vê chorar é como se despencássemos de uma alta nuvem. Vocês são meus amigos. São anjos. Foram escolhidos por Deus. Devemos nos alegrar, consolar e compartilhar os momentos que criamos para nós mesmos. Amo todos vocês!

                       Dizem, eu não sei que aquela noite milhares de cometas passavam brilhando no espaço sideral sobre a cidade deixando um rastro colorido enorme, com cores azuis, brancas, amarelas, alaranjadas e vermelhas. Dizem também e eu não posso afirmar que o brilho das estrelas se superaram. E acho que não posso acreditar no que me disseram. Nasceu uma nova estrela no céu. Brilhante. Um brilho que quase ofuscava a lua quando aparecia. Ficou lá, no céu de Espera Feliz para sempre!


** - algumas frases são do poeta Bruno Ciquetto.

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

A dor de uma saudade.


Lendas Escoteiras.
A dor de uma saudade.

                  Eu me ofereci para levá-lo. Era apenas um encontro de velhos escoteiros em um lugar qualquer da minha cidade. Não me inscrevi para ir e só fui fazer a inscrição depois que soube que ele queria ir. Foi Donana quem me telefonou. – Chefe, a família está aflita, ele não tem condições. Há dias acamado e parece que não deram muita esperança de vida. Ninguem sabe quem disse para ele do Encontro dos Antigos Escoteiros em um Fogo de Conselho dos seus amigos do passado. Não são tantos assim, mas ele não para de dizer que vai. Não arreda o pé! – Eu não o conhecia, nunca o vi pessoalmente, alguns chefes me falaram sobre ele. Diziam que quando mais jovem era uma pessoa maçante, insistente nos seus ideais, sempre a dizer que seu tempo era o melhor e que hoje somos sombra do passado.

                 Eu tinha meus problemas. Por sinal muitos que não seriam de fácil solução. Meu emprego perigava, poderia a qualquer momento ser demitido. Linalda minha esposa sempre dizendo que tinha de ir devagar. – Jove, temos dois filhos já crescidos e precisam de você e de mim. Você gasta muito nos escoteiros. Quem não pode pagar você paga, nunca deixou ninguém para trás. Sempre foi daqueles que diz que ou vão todos ou não vão ninguém. E se você ficar desempregado? – Ela tinha razão, agora tinha um salário razoável, mas até quando? – Era difícil parar, sempre fui Escoteiro desde os seis anos. Amo de montão esta filosofia que me encanta, não iria parar. Se Deus quisesse que eu fosse um desempregado não iria retrucar. Mas do escotismo não iria abrir mão.

                  Donana me telefonou à tarde. – Jove, estou com um problemão. Você não conhece o Chefe Polar. Nem sei se este é seu nome. Já está chegando aos 95 anos. Dizem que conheceu Baden-Powell e eu não duvido. Foi Chefe no Montezuma e só saiu de lá quando o Conselho de Chefes achou que estava na hora dele partir. Diziam que era impertinente maçante e até de irritante o chamaram várias vezes. Comentam que ele chegou em casa chorando, e mesmo Isabel sua esposa tentando consolar ele passou um semana enfastiado, olhos cheios de lágrimas e caiu prostrado em uma cama e não levantou mais. Disseram até que ele queria tirar sua vida. – Olha ele já estava com 81 anos e no grupo dizem era um Pé no Saco! Ninguém estava aguentando mais.

               Fiquei pensando se quando envelhecesse eu seria assim também. Liguei para sua esposa me prontificando em levá-lo. Ela chorava e eu apiedado não sabia o que dizer. – Chefe, Polar quase não anda. Tosse o tempo todo. Sempre com remédios a cada hora do dia. O médico recomendou repouso absoluto, mas ele não obedece. Diz que vai de qualquer jeito e ninguém vai impedir. Não sei por que Joviano o convidou. Ele devia saber que Polar não tinha condições. – E os filhos porque não o levam e ficam junto? – Ela ficou calada por instantes. – Chefe, meus filhos nunca foram bons escoteiros. Só ficaram enquanto ele praticamente obrigou. Hoje não veem com bons olhos o escotismo. Chefe não sei se seria uma boa ideia.

               Combinei com ela que passaria por volta das sete da noite. Eu o levaria com prazer. - Afinal um dia serei como ele senhora. Todos nós que amamos o escotismo um dia seremos velhos, idosos, velhos lobos, ou seja, lá o que nos vão chamar. Se vai ser seu último porque lhe tirar a chance de recordar? Liguei para Fagundes um Velho Escoteiro para saber melhor sobre Polar. – Chefe, um grande homem. Deu sua vida pelo escotismo. Nunca bajulou ninguém. Sempre foi honesto com sua escolha e dizia o que pensava sem esconder. Não quiseram entregar para ele o lenço. Diziam que ele não tinha espírito Escoteiro. Nunca aceitou pagar por uma medalha por isto não tem nenhuma. Gritava e ainda grita aos quatro ventos que seu escotismo é o de raiz, o de Baden-Powell!

               Vesti meu uniforme devagar. Sabia que iria levar alguém que merecia meu respeito e minha admiração. Sempre fui do lado dos humildes, dos que se comprazem em não mudar de rumo ou direção. Quando amarrei o cadarço do sapato preto, vistoriei de novo o friso do meião. Olhei pela última vez no espelho se meu lenço estava como sempre fiz. Perfeito. Sem dobras, sem sobras. Coloquei meu chapéu devagar. Não coloquei as duas medalhas que me deram. Um de bronze de bons serviços e outra de gratidão também bronze. Quarenta anos fazendo escotismo e disseram que eu ainda precisava mostrar como servir a União dos Escoteiros do Brasil com bons serviços prestados. Hoje penso que não devia ter pagado por elas. Era meu direito como Escoteiro. Despedi com um beijo afetuoso em Linalda entrei no meu fusca e parti. Não tinha pressa. Tinha tempo, muito tempo.


               Na esquina da Sete de Setembro com a Saúva uma ambulância passou nos gritantes rumo ao centro da cidade. Meu coração acelerou. Entrei na Rua Peçanha. Na porta da casa de Polar um mundão de gente. Desci Dona Isabel sua esposa me olhou e disse: - Chefe, não precisa mais. Polar partiu, nunca mais vai voltar. – Ela chorava a perda de alguém com quem viveu uma vida. A abracei carinhosamente. – Para onde foi? O Grande Acampamento do Universo? Não sei se ouve o Fogo do Conselho dos velhos. Nunca perguntei. Voltei para casa chorando. Nunca vi Polar, não o conhecia e nunca apertei sua mão. Nem sei como era, mas eu o tenho no coração. Ali ele vai viver para sempre como se fosse meu guia, meu Chefe, e meu irmão! 

O casamento do porquinho Markito.


Vale a pena ler de novo.
O casamento do porquinho Markito.

                     Markito era amigo do Neném, que era amigo do Jofre, que era amigo do Leialdo, que era amigo do Natalino, que era amigo do Zefiraldo, que era amigo do Denis e que sempre foi amigo do Lelé e Geraldinho. Bem, só tinha uma diferença. Markito era um lindo porquinho rajado de cinza com branco. Os demais eram escoteiros da Patrulha Pica-Pau. Desculpem. Sei que pensaram no poema de Drummond. Nada disto. A Patrulha Pica Pau era da Tropa Escoteira Santos Dumont e esta era do Grupo Escoteiro Leão do Norte. Eram muito amigos até o dia que apareceu Markito. Ninguém não deu nada por ele. Estavam em reunião e eis que aparece um porquinho pequeno, branco e cinza e melhor, limpinho. Parecia porco de cinema.

                      No cerimonial de bandeira ele ficou entre o Monitor da Pica-pau e o patrulheiro seis. Eles acharam graça e ninguém falou nada. Nem o Chefe da tropa. Durante toda a reunião ele acompanhou a Patrulha. Quando foram para casa pensaram que nunca mais iam ver o porquinho. Engano. No sábado seguinte lá estava ele, e no próximo e no próximo. Sem perceberem ele virou um patrulheiro. Formava, gruía quando davam o grito de patrulha. Em pouco tempo se tornou uma celebridade na tropa. Onde morava como se alimentava ninguém nunca soube. Fizeram pesquisa na vizinha e nada.

                     Dois meses depois a tropa foi para um acampamento de quatro dias aproveitando um feriado de finados na fazenda do Seu Mathias. Na saída ao subir para o ônibus lá estava o porco. Já o haviam apelidado de Markito. Disseram que ele parecia com um Josias Barreto Markito um Sênior namorador do grupo e quando ele soube virou “bicho”. Brigou, berrou, levou o caso para O Conselho de Tropa, para a Corte de Honra e nada. O apelido do porco ficou. Bateram palmas para ele quando subiu com elegância os degraus do ônibus. O acampamento foi uma festa. Markito era o máximo. No terceiro dia ele sumiu de manhã. Lá pelas três da tarde apareceu. Agora com uma companheira. Uma porquinha linda. Dizem que ele falou com o Denis, não acredito nisto, mas o Denis era um bom Escoteiro e não mentia nunca.

                    Chefe, disse o Denis. Markito quer casar. – Casar? O Chefe deu boas risadas. Ele quer que eu faça o casamento? – Sim Chefe. Se ele quer assim porque não? Diga a ele que amanhã no fogo do conselho eu irei celebrar o casamento dele com a... Qual o nome dela? Fiorentina Chefe. Ele insiste que chamem o Seu Mathias. Ele será o padrinho. A tropa quando soube caiu na gargalhada. Foi o Fogo do Conselho mais gostoso que participaram. Em determinado momento o Chefe anunciou o casamento do porco Markito e a porca Fiorentina. Quando iam iniciar um fato inusitado aconteceu. A arena do fogo se encheu de porcos, cavalos, bois, bezerros, galinhas, galos, cabras, gatos, cachorros e uma passarinhada enorme.

                    O casamento foi realizado. Os escoteiros ficaram boquiabertos. A bicharada começou a cantar, a dançar e até uma Coruja com voz de anjo e acompanhada por um violão tocado pelo Urubu Rei engrandeceu aquele casamento histórico. O fato deveria ficar entre quatro paredes, mas não se sabe como na cidade de Bela Aurora uma semana depois se encheu de repórteres de todos os jornais e TV do país. Todos queriam conhecer Markito e Fiorentina. Mas eles? Sumiram. Procuraram em todo o lugar. Passado uma semana um jornal do Rio de Janeiro publicou que o casal foi visto em Búzios na praia das Caravelas se revezando na linda e tranquila praia da Tartaruga com suas águas transparentes.


                    Dois meses e quinze dias depois quase no final da reunião, Markito e Florentina apareceram na sede.  Ela com a barriga bem grande e Markito sorrindo de felicidade. Contou para o Denis que não ia voltar mais para a Patrulha Pica-pau. Construíram uma casinha na Ladeira do Porco, próximo a fazenda do Senhor Mathias, e lá pretendiam viver o resto de suas vidas. Todos desejaram felicidades e assim termina a história do Porco Markito, sua esposa Fiorentina e seus Filhos Newmar, Freed, Ronaldo, Pelé e um porquinho azulado, pequeno bem raquítico que poucos olhavam para ele. Maradona!

sábado, 22 de outubro de 2016


Bem vindos as Maravilhosas Histórias Escoteiras.

                        Dizem que tudo de bom na vida tem seu preço. Se pudermos pagar, pagamos se não... Partimos em busca dos nossos sonhos transformando-os na vida real ou imaterial.  Quanto custa ser feliz? Bendito seja quem encontra a felicidade em pequenas nuances que o tempo nos dá a cada segundo que vivemos. Partiremos agora célere a uma felicidade que muitos conseguiram ter neste maravilhoso mundo dos escoteiros. Hã! Deitar na relva, respirar o ar puro do campo, da floresta encantada, sentir a brisa cair suave no rosto, olhos fixos nas estrelas cintilantes no céu como a dizer que seu brilho vai nos fazer felizes para sempre. Quantos de nós não sorrimos nas noites de acampamento em volta de um de um encantador Fogo de Conselho? É surpreendente estar ali, olhos fixos no fogo, ou mesmo quando as chamas vão crescendo parecendo querer alcançar o céu. Os sorrisos, as paixões, a vontade de ficar ali para sempre. Quem sabe ter asas para voar sobre aquela clareira, ver do alto os amigos cantantes, canções errantes displicentemente cantadas por lábios que aprenderam a entoar o Rataplã. Voltar novamente a terra, olhos vidrados no Contador de Histórias. Ah! O Contador de Histórias. Indispensável na vida escoteira de todos nós.

                 Contar histórias é uma arte, uma arte gostosa, palatável de agrado geral. Histórias se contam em todos os lugares, mas nos Fogo de Conselhos elas têm seu lugar. A fogueira alta, o Contador de História sorrindo a história surgindo seus gestos acompanhando, todos de olhos fixos tentando viver os personagens daquela história maravilhosa. Os olhos da moçada não piscam. Mesmo aqueles que já estiveram ali por muitas vezes são atraídos como os grilos e pirilampos com suas luzes brilhantes e saltitantes parecem querer também participar da história. É lindo estar ali com amigos, vendo um céu de estrelas, ouvindo o piar de uma coruja escondida em um carvalho com seus olhos grandes, negros sem piscar em um galho qualquer.

                    Bem vindos amigos e amigas. Este é um blog especial. São histórias. Inúmeras delas. Se gostar fico feliz, se deixar um comentário mais ainda. Se quiser entrar em contato comigo a página mostra meu e-mail. Meu abraço fraterno e transmita aos seus amigos escoteiros meu abraço fraterno e meu Sempre Alerta.

Chefe Osvaldo 

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Serenata ao luar.


Crônicas de um Velho Chefe Escoteiro.
Serenata ao luar.

             Enfim de volta ao campo! Saudade danada de dormir sob o luar ou sob um céu estrelado. Quantas vezes fiz isto? Perdi a conta. Era bom demais. Sozinho eu Deus e a natureza em flor. Bom demais ficar quieto, mudo, silencioso, ouvindo a floresta, os bichos, pássaros e afins em todo seu esplendor. Meu bastão ia à frente explorando a trilha, batendo o mato verde, mas com cuidado para não machucar uma plantinha que iria desabrochar. Eita mata linda! Copada, verde que te quero verde... O poeta canta em voz doce e suave que tudo na natureza depende da forma como se vê... Ela é linda demais e a vida é bela para ser olhada e aproveitada. Cheguei onde queria chegar. Um pequeno oásis em plena floresta, pássaros cantantes, brisa gostosa, sombras fincadas embaixo das asas de uma árvore adormecida. Parei e cantarolei meus versos de amor. Mostrei meu apreço por um lugar tão lindo que vale a pena ali morrer... Insigne natureza em flor, que se esgueira longe do asfalto, como és bela, delicada e forte...

            Arvorei uma lona lonada para as chuvas de verão se elas chegassem. Um galho verde alceado para segurar minha caldeirinha, onde iria surgir o feijão, uma sopinha, ou quem sabe um quentado de peixes do remanso do pequeno riacho que corria sem parar. Águas límpidas cristalinas para matar a sede de um ser vivente Escoteiro que ama acampar em plena natureza. Os sons eram lindos, galhos fazendo toada, passarada procurando seu ninho, onde os filhotinhos brotavam a olhar o Escoteiro passante que resolveu ali acampar. Água fervendo, pó brincando nas asas da fervura, açúcar cande adoçando a cantilena de boas doses de um café puro em plena mata. Tudo era paz tudo era harmonia. Eu voltava no tempo dos meus sonhos reais de um passado que não quero esquecer jamais. À tarde vai chegando de mansinho, escondendo entre as folhas os raios de sol que se recusavam partir.

            Esperava o anoitecer. Era o mais belo no seio da mata escura, esperando o clarão das estrelas, brilhantes piscantes deixando passar vez ou outra um cometa intrometido, na sua viagem sem destino, mas que alegravam as moçoilas que na terra olhavam para o céu pedindo um amor de um príncipe, que fosse apaixonado, educado, cavalheiro e que desse a ela toda sua paixão. Um pardal voou ao meu redor. Picotou à moda do Pica Pau um galho onde ia dormir. Esperava a rainha da noite chegar. A coruja de olhos verdes cedo ou tarde iria sorrir para mim. Com aqueles olhos grandes, quem sabe esverdeados, na cumeeira de um Jatobá centenário arrepiando seu canto apaixonado. Tão longa a distancia tão longe a saudade e tão bela espera, lá estava ela, a rainha da noite dos meus sonhos de verão. Cantei uma canção para ela, e ela agradeceu com duas balançadas de cabeça aprumada como se fosse sorrir. Onze horas a noite já avançava para a madrugada.

           O foguito pequeno quentito batatas cozidas, bananas na fieira, que mais eu iria querer? Hordas de vagalumes chegavam sem pedir mostrando seu brilho soltavam chispas para mostrar quem manda no lugar. Quanta felicidade! Quantas saudades de tantas noites que acampei. Quantas vezes meu anjo protetor sorria me dizendo que ali era Nosso Lar. Ah! Natureza em flor. Se você não é minha nem eu sou seu, porque brilha tanto no teto do céu? Disseram-me certa vez que vivendo de acordo com as leis da natureza, nunca serei pobre, mas não serei nada se viver pensando nas opiniões alheias, pois elas nunca me faram rico. Fechei os olhos e deixei a brisa da noite me levar... Quantos montes, quantos horizontes viajei com a brisa e a natureza que abrilhantava o lugar?


          Ah! Quanta felicidade! Bem perto uma sonata de Uirapurus tocavam como se fosse uma orquestra de violinos mágicos. A música é celeste, e a natureza divina realça tal beleza que encanta a alma e nos eleva acima do que somos, pois eu sabia que a natureza não faz nada em vão. Dormi acordado esperando o amanhecer. Queria ver o sol brilhante entre as folhas das belas arvores do lugar. Não deu, tudo que eu não queria aconteceu. – Marido! Hora de acordar, o café está pronto e fiz bolo de pastel de queijo. Levantei sorrindo, mas com saudades dos meus sonhos e da minha natureza em flor!

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Zé Celso o pescador.


Lendas escoteiras.
Zé Celso o pescador.

              Zé Celso era Escoteiro da Patrulha Morcego, simples apenas um menino escoteiro. Magro e franzino se esforçava para acompanhar os amigos da patrulha. Sua mãe Dona Eulália e seu pai Senhor Chaparral eram pessoas boas e muitos comentavam que seu avô por parte de mãe foi escravo da fazenda do Coronel Miltinho. Seu pai era considerado um Mestre Pescador. Viviam da pesca que ele retirava do Rio Tambaú. Os peixes estavam rareando. Já não eram mais como antigamente. A pesca de rede era proibida, mas poucos ligavam para isto. Zé Celso nasceu no rio. Adorava pescar. A Patrulha adorava Zé Celso, não só pela sua calma, pela sua educação, pela sua voz ponderada, mas também por que sabia que com ele comeriam uma boa moqueca de peixe. Alem de pescar era exímio nos pratos de pescados. Seja em panela ou assado na brasa.

             Quem me contou esta história não foi ele. Foi Wantuil seu Monitor há alguns anos atrás. Encontrei-me com ele na Barra do Jacu, onde levei um Clã Pioneiro para descer o rio até a foz do São Francisco. Os pioneiros se deliciaram com a história. No final ele foi ovacionado e até pagaram uma lauta refeição no refeitório do barco a vapor que viajamos. Quando contava a história me lembrei do conto de O VELHO E O MAR de Ernest Hemingway. A luta do "Velho" pescador pelo peixe da sua vida. Acho que todos devem ter lido. Mas vamos à história. Wantuil disse que foram acampar na barranca do Rio Tambaú bem próximo onde desaguava o Rio Colorado. No segundo dia centenas apareceram voando em cima do acampamento. O Chefe Mira Flores ficou cismado e tanto procurou que achou uma vaca presa na beira do rio no meio de cipós trazidos pela cheia. Os urubus sabiam que era morte certa. Nada que o Chefe Mira Flores desse um jeito. A vaca foi solta.

             À tardinha Zé Celso foi liberado para sua pescaria. Sabia que ali tinha peixes de bom tamanho e pretendia presentear a todas as patrulhas neste acampamento com um bom pescado. Era mestre em armadilhas. Fazia uma que era tiro e queda. Uma vara flexível de bambu, de mais ou menos dois metros e meio, um cabo fino de mais ou menos um metro preso com um anzol grande. Bem abaixo no pé do bambu outro de uns vinte centímetros amarrado transversalmente com uma amarra diagonal. Na ponta deste menorzinho ele cortava fatias de mandioca que se encaixavam no bocal do bambu. Esticava o cabo segurava no anzol e enfiava a ponta na mandioca. Soltava devagar, pois se não ficasse bem preso sua mão ou seu dedo seriam fisgados.

              Zé Celso fez três destas armadilhas. Entrou na água por um oito metros e fincou cada bambu no fundo do rio. Ali não era fundo. Não mais que um metro e meio. Dava para ver a ponta das varas. Agora era esperar na margem que algum dourado mordesse. Se desse certo e sempre dava em pouco tempo teriam um ou dois peixes fisgados. O primeiro cabo da vara se soltou. Vazia. Lambaris pensou. Eles sempre atrapalham. Meia hora, uma hora e a segunda vara entortou toda. Zé Celso correu para dentro d’água. Sabia que o peixe com sua força arrancaria a vara da areia no fundo do rio. Quando foi segurar a vara levou o maior susto. O maior Dourado que ele já vira. Zé Celso calculou por baixo uns doze quilos. Enorme. De vez em quando vinha à tona e dava um salto que maravilhava Zé Celso. O sol batia sobre sua pele e o peixe brilhava mostrando sua cor vermelha e metálica.

              Ficou segurando a vara fincada no rio por algum tempo. Não podia soltar. Sabia que chamar seus amigos escoteiros era impossível. Longe demais. Nem se deu conta que eles não sabiam qual pesqueiro estaria usando. Meio dia, uma hora, duas três. O peixe não se cansava. Corria para todo lado.  Uma perna de Zé Celso começou a dar câimbra. Ele estoicamente não desistiu. Ficou ali. Era o seu maior peixe. Não iria perdê-lo. Quatro horas, seis começou a escurecer. Agora sabia que já estavam o procurando. Em breve o achariam. Oito da noite, nove, uma hora da manhã. Nada. Um frio de doer. Zé Celso lá. Não largava o seu peixe de jeito nenhum. Seus lábios tremiam. Seus dentes batiam um no outro. Às quatro da manhã começou a se sentir cansado. Seu corpo não queria mais obedecer a sua mente. Fez o que nunca deveria ter feito.

               Pegou o cabo da outra vara e a amarrou em sua perna. Arrancou a vara do peixe fisgado e se deixou levar na correnteza. Nadava bem e sabia boiar. O dia amanhecendo. Zé Celso boiava rio afora. Pensou que quando passasse por baixo da ponte do Cavalo Doido alguém o veria. O dia já havia amanhecido. Um pescador o viu. Foi até ele com seu barco. O ajudou até margem. Quando retirou a vara o peixe era só esqueleto. Um enorme espinhaço. As piranhas do rio comeram todo o peixe. Zé Celso chorou. Tanto trabalho por nada. A tropa o encontrou exausto e chorando próximo à ponte. Procuraram-no a noite toda.


              Zé Celso não pegou seu maior peixe. Mas foi ovacionado por todos os escoteiros. Ficou conhecido pela sua tenacidade. A cidade em peso soube de sua história. Quando passava na rua era cumprimentado. Na sua sala de aula a professora fez um discurso para ele. – Disse: - Que Zé Celso seja o exemplo para vocês. Desistir nunca! Nunca mais Zé Celso pegou um peixe daquele tamanho. Não desistiu de pescar e a patrulha comeu bons guisados de peixe frito na brasa. Sei que levaram a espinha do Dourado e colocaram no coreto em praça publica. Ficou lá por muitos anos. Todos até hoje imaginaram se Zé Celso tivesse pegado seu peixe. Como se diz por aí, nem sempre temos aquilo que gostaríamos de ter. 

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Judas... Da galileia.


Lendas escoteiras.
Judas... Da galileia.

                  Nunca me esqueci da Cidade de Galileia. Don Janvier me procurou; - Seu Vado eu estou precisando achar bons curtumes para me fornecer boas “vaquetas” você sabe, aqueles couros curtidos e preparados à mão. São para calçados finos de uma fábrica em Perúgia na Itália. Por ser calçados especiais precisam de bons couros. Como sócios podemos ganhar algum. Idéia na cabeça pé no caminho e lá fui eu parar no Curtume do Salgado em Tainhomim. Na época eu tinha uma vespa que mais quebrava que andava. Disseram-me que não era longe, uns duzentos e trinta quilômetros de estrada de chão batido indo pela serra da Bodoqueira. Quatro horas depois a pobre da vespa começou a pipocar. Uma pequena placa – Galileia, seis quilômetros – A vespa aguentou firme até lá. Anoitecia. Cidadezinha deserta. Um guardinha me mostrou a pensão da Dona Inês. Melhor pernoitar. Amanhã consigo algum eletricista para ver o que tem a vespinha.

               Não vi a Dona Inês. Um garoto de uns quinze anos me atendeu. Um quartinho simples. Moço o jantar vai até às oito da noite. Banho no chuveiro do corredor. Fui jantar. Restaurante pequeno, oito ou dez mesas. Apenas eu naquela noite. Sentei e logo trouxeram uns pãezinhos deliciosos. Depois uma sopa de cebola estupenda, tão boa que repeti. Passava das oito da noite e fui dar um passeio na cidade. Bebericava uma cervejinha na varanda e uma senhora escura, gorda, cabelos presos por um lenço azul, muito simpática sentou-se ao meu lado. – Olá, sou a Inês. Seja bem vindo a minha humilde pensão! Gostei dela. – Já conhecia Galileia? – Não eu disse. – Aqui já foi uma bela cidade. Chegamos a ter mais de trinta mil habitantes. Hoje? – Nem oito mil e a cada dia mais e mais moradores indo embora.

                 - Ela então começou a contar uma história interessante. – Olhe, disse – A mais de quarenta anos Galileia crescia a olhos vistos. Tínhamos quatro olarias, um enorme curtume e o Prefeito pretendia montar uma indústria têxtil e uma malharia. Foi nesta época que Judas da Galileia nasceu. A Parteira saiu correndo ao ver a marca de corda em seu pescoço. Seus pais arregalaram os olhos. Logo o povo todo da cidade sabia. O tabelião Juventino benzeu o menino e aceitou registrá-lo como Judas da Galileia. O porquê sua mãe escolheu este nome ninguém sabia. Judas cresceu se escondendo nas sombras da cidade. A meninada quando o via saia correndo atrás gritando Judas! Judas! Traidor de Jesus! – Quando ele fez dezesseis anos um dia na Rua do Caroço virou para a molecada, botou a língua para fora, dizem que mais de meio metro e deu um urro tão grande que todos correram como corre o diabo da cruz. Deste dia em diante ninguém mais mexeu com ele. As janelas fechavam a sua passagem.

                   Quando ele fez vinte anos pensou em ir embora da cidade. Não conseguia emprego. Para sua surpresa uma patrulha de escoteiros chegou à cidade de bicicleta. Eram uns doze aparentando quinze a dezessete anos. Armaram barracas no campinho do Zé das Coisas atraindo a atenção da meninada. Judas achou estranho quando um escoteiro o chamou para jantar. Não perguntaram da marca no seu pescoço, não perguntaram nada. O trataram muito bem. Foi à primeira vez em sua vida que Judas da Galileia foi bem tratado. Nem seus pais conversavam com ele. Judas da Galileia chorou muito quando eles foram embora. Foram dois dias os mais lindos que teve em sua vida. Deixaram com ele dois livros que disseram ser do fundador. Escotismo para Rapazes e o Guia do Chefe Escoteiro. Judas da Galileia leu os dois em dois dias. E repetiu a dose.

                  Judas da Galileia queria ser Escoteiro. Sonhava ser Escoteiro. Na sua cidade seria difícil. Não tinha grupo e ninguém interessado em organizar um. Só havia uma solução. Ele mesmo fundar um. Mas como? – Dona Inês me cativava com sua narrativa. Uma emérita contadora de histórias. – Sabe Seu Vado, eu nunca me aproximei de Judas da Galileia. Eu tinha medo. Achava que ele podia ser o próprio Judas reencarnado. O traidor de Jesus. Mas ele me procurou um dia. Olhou-me com uns olhos tão chorosos que não pude dizer não. – Pediu se meu filho o Florindo podia participar. Chamei Florindo e ele de cabeça baixa concordou. Outros pais ficaram sabendo. Ele conseguiu oito meninos. Andava com eles para todo lado. Marchando, fazendo acampamentos, fazendo nós, sinais, tinham umas bandeirolas que divertiam a todos na praça. As moçoilas adoravam os recados que iam e viam das bandeiras dos Escoteiros.

                 - O pior aconteceu em um domingo à tarde. Anselmo Três Dedos chegou à cidade com mais de vinte bandidos. Cercaram tudo. Prenderam o delegado, o prefeito, o juiz e mais oito ordenanças na cadeia local. Deram ordens para ninguém sair de casa. Se uma janela se abrisse eles entravam e matavam todo mundo. Medo geral. O gerente do Banco do Brasil foi obrigado a abrir a agência e o cofre. Foi nesta hora que Judas da Galileia adentrou a cidade cantando com seus oitos escoteiros vindo de um acampamento. Notou a movimentação dos bandidos. Mandou os escoteiros correrem para suas casas. Anselmo Três Dedos o viu parado em frente à fonte da praça. Gritou para ele correr. Ele não correu. Devagar com seu olhar mortífero dirigiu até a onde estava Anselmo Três Dedos. Colocou a mão em sua testa. Anselmo gritou. Um grito horrível. Mesmo assim puxou o gatilho do seu quarenta e cinco. Seis tiros. Judas da Galileia continuou imóvel. Anselmo Três dedos caiu morto. Parecia que um raio o matou. Estava queimado feito carvão.

                        Coloquei os braços na mesa. Olhava sem tirar os olhos de Dona Inês. – Ela continua séria, contando sua história infernal. – Os bandidos que assistiram aquilo saíram correndo da cidade. Não ficou ninguém. Judas da Galileia foi devagar até a praça e sentou ali, naquele banco amarelo. – Olhei pela janela e vi o banco – Todos os políticos vieram abraçar Judas da Galileia. Ele estava sentado, calado, de olhos abertos e morto. Não havia mancha de sangue nos buracos das balas. Só na marca da corda de seu pescoço escorria sangue. Ninguém mexeu no corpo. No dia seguinte o corpo desapareceu. Ninguém nunca mais soube dele. – Parecia que uma praga caiu sobre a cidade. A cada mês, a cada ano famílias e famílias iam embora. Hoje a cidade morreu. Aqui não se vê alegria, ninguém brinca ninguém canta. Dizem e eu posso afirmar que a noite sempre está lá no banco amarelo da praça. Fica lá horas sem se mexer. De vez em quando parece que ele canta o Rataplã com voz rouca.


                 Ela se calou. Olhei para a praça. No banco amarelo vi um vulto. De uniforme e chapéu. Assustei-me. Sai correndo em direção à praça. Precisava ver de perto. No banco não tinha ninguém. Voltei e ouvi baixinho alguém cantando o Rataplã! Voltei-me e nada. Dormi pensando em tudo aquilo. No dia seguinte Joel Boca Torta arrumou minha vespa. Parti sem dar adeus a ninguém em Galileia. Nem a Dona Inês. Perguntei por ela ao menino porteiro. – Minha mãe morreu há vinte anos senhor. Aqui só minha Vó e minha Tia. Falar mais o que? Ainda bem que fiz bons negócios em Tainhomim. Nunca mais voltei em Galileia. Outro dia procurei no mapa. Nada. Olhei no Google, nada. Mas acreditem, havia um Judas da Galileia. Lá constava que era Escoteiro e morava no céu. Foi perdoado e agora faz parte da tropa do além. Deus me livre. Que ele seja feliz e não venha à noite cantar para mim o Rataplã!