Histórias e contos escoteiros.

Histórias e contos escoteiros.
Feitas para você se divertir!

quinta-feira, 30 de junho de 2016

Alfredo. Um menino escoteiro


Alfredo.

Os trovões ribombavam no ar. Raios explodiam pela Serra caindo em qualquer lugar. A trilha da subida virou um rio. Subimos em uma saliência e ali enrolado na lona esperamos o dia clarear. A chuva não parava. As lonas não protegiam. – Olhei para Alfredo. – Menino imberbe, sem experiência. Chorou para vir. – Ele me olhava através da escuridão como a pedir socorro. – Chefe, o medo é demais! – Olhei para ele. Sabia o que ele passava. São aprendizados que nos tornarão mais fortes amanhã. O vento chegou forte e bravio. Lembrei que antes do escurecer a chuva caiu mansa, sem vento, parecendo que logo iria passar. Engano. Nem sempre tudo dá certo e nesta hora nas pequenas batalhas que nos tornamos mais fortes. Alfredo iria entender? – Eram onze escoteiros, duas patrulhas. Muitos mais experientes, mas Alfredo não. Um pata-tenra legítimo.

Queria ter o dom de mudar o tempo, de abrir o sol, de fechar a torneira da chuva. Eu sabia que não era um herói, mas eram onze meninos escoteiros que dependiam de mim. Forçava minha mente para descobrir a minha força interior. Eu sabia que é dela que viria a solução para superar meus medos e minhas dificuldades. Comecei a tremer. Meus dentes batiam e por mais que tentasse eles não paravam. O medo chegou e sem perceber vi que os onze meninos escoteiros também tremiam. Eu precisava ignorar o passado imperfeito, até mesmo o presente cheio de defeitos. Eu tinha de pensar e fazer um amanhã do meu jeito. Senti alguém segurando minha mão. Era Alfredo. – Chefe acredite que algum maravilhoso vai acontecer! – Assustei. Era eu quem devia dizer isto e não ele. – Ele sorriu. – Calma Chefe, não grite, não adianta usar a força para tudo. Seus gestos agora são importantes. Suas ações nos darão a calma para prosseguir.

Alfredo? O menino escoteiro medroso me ensinando a crescer? – Os demais escoteirinhos se levantaram e todos se abraçaram fazendo um grande circulo de amor. A chuva amainou. No céu apareceu algumas estrelas. Abri os olhos agradecendo a Deus por uma nova noite. Meu coração acalmou. Os meninos escoteiros sorriram. Aprendi naquele momento que teria de dominar meu próprio eu. Agora seria outra pessoa, mas forte, mais experiente seria um desperdício continuar aquele fraco que eu era. Tinha de enfrentar meus medos. Aqueles meninos me ensinaram muito mais que a vida me ensinou. Alfredo pegou na minha mão. – Vamos Chefe? Sorri para ele. Um pata-tenra que cresceu em pouco tempo. Um cozinheiro da Onça Parda cantou uma canção. Era hora de partir. Tínhamos um destino a chegar.

Eu sabia que não era original, único, eu sabia que não era uma fonte de criatividade e intuição, mas tinha de aprender vivendo e fazendo. Um menino Escoteiro me ensinava uma lição. Só você pode ver com seus olhos o que sente seu coração. Era hora de escutar e seguir com fé a jornada que seria nosso destino. Aprendi com meninos escoteiros que a idade não é a única com responsabilidade. Eu vi ali que não era o Chefe, era um irmão mais Velho aprendendo com os mais novos. Aprendi que onde estiver seu coração lá estará a sua verdade. E a minha verdade me fazia vibrar com aqueles meninos escoteiros. E onde tudo vibra a força chega e os sonhos acontecem. Aprendi que era um Chefe aprendiz amadurecendo. Que a gratidão é o sentimento mais doce que existe. Aprendi que sabia amar e que a maturidade não está na idade e sim na mente. Partimos para nosso acampamento. Um doce sentimento nos dizia que o segredo da vida não é ter tudo que queremos, mas amar tudo o que temos. Eu tinha onze meninos escoteiros para guiar e aprender!


- E a lua rechonchuda nos acompanhou por aqueles vales molhados, mostrando que o tempo tem uma forma maravilhosa de nos mostrar o que realmente importa. – Escoteiro? Sim Chefe, com muito orgulho e amor! 

segunda-feira, 27 de junho de 2016

O chefe Lomanto Zarilson Mendes.


Lendas Escoteiras.
O chefe Lomanto Zarilson Mendes.

              Desci da barcaça em Pedra Azul no porto da esperança e o vi na beira do Rio Amarelo. A principio tive dúvidas, mas depois a certeza era única. Era sim, tinha agora certeza absoluta. Ali estava o meu amigo Lomanto Zarilson Mendes. O homem mais procurado do mundo! Mudou muito nestes últimos vinte anos. Mais curtido e com aquele chapéu de palha e sua barba branca ninguém diria que era ele. Enchia a caçamba de uma carroça com as famosas areias brancas do Rio Amarelo. – Ei Lomanto! Gritei. Ele me olhou, pensou e depois viu que era eu – Chefe Vado Escoteiro! Que prazer! Fui até lá. Abraçamo-nos. Quanto tempo eim amigo? – É Chefe, faz tempo. – Mas olhe meu amigo Lomanto, não estou entendendo você aqui neste serviço braçal! – Quer tomar um café comigo? Ele disse. Com a carroça cheia e um descanso, então posso explicar. Lá fomos nós até a Praça de Pedra Azul em um barzinho onde ele tinha amigos e fomos muito bem atendidos.

               Sentamos em uma mesinha embaixo de um Jacarandá enorme, com uma sombra linda e agradável. Uma sombra para ninguém botar defeito naquele dia ensolarado com calor acima dos trinta e seis graus. Olhamos um para o outro. Ele sorria. Um sorriso de alguém que encontrou a felicidade. Mas ele também não era feliz antes? – Minha mente voltou em segundos ao passado em Figueira do Rio Mimoso. Cidade onde nasci e cresci. Lomanto, quem não conheceu Lomanto? A cidade inteira sabia dos seus passos. Aos quatro anos diziam que tinha lido todos os livros da biblioteca. Uma mente privilegiada. No maternal as professoras não sabiam o que fazer com uma inteligência de um adulto doutor. Aos seis o colocaram no Grupo Escolar na oitava série. Não deu certo. Ele estava acima disto. O doutor Pilatos emprestou a ele seus livros de medicina. Era comum vê-los discutindo temas médicos na praça da cidade. O mesmo aconteceu com o Doutor Leimon um grande advogado e o Engenheiro Lamartine.

                 Seus pais nos procuraram no Grupo Escoteiro. Ninguém sabia o que fazer, mas recusar nunca. Os chefes de alcateia quebravam a cuca para moderar seus conhecimentos assim como quando passou para a tropa com oito anos. Errado? Não conheciam Lomanto para dizer isto. Se aos nove o vissem em um acampamento ficariam embasbacados. Lomanto era um mestre em tudo. Suas pioneiras tinham o acabamento dos melhores marceneiros do mundo. Fogões fechados a vácuo, fornos de barro, escadas giratórias, amarras impossíveis de fazer assim como costuras de arremate que ele inventou com cipós. Aos onze insistiu em ir para os seniores. Com menos de seis meses tudo perdeu a graça para ele. Fez uma grande pesquisa sobre o escotismo. Estudou tudo que era publicado pela direção nacional e internacional. Aos quinze foi ao seu primeiro Congresso Nacional. Deixou todos embasbacados. Todos o procuravam para tirar dúvidas. Sabia de cor todas as publicações escoteiras no Brasil e no mundo. Sugeriram fazer dele aos quinze anos o novo Diretor Nacional de Formação de Adultos.

                     Foi uma discussão e tanto quando deram a ele aos dezesseis anos o certificado de DCIM. Foi convidado para palestras no mundo inteiro. No Grupo Escoteiro Manto Sagrado onde eu era o Chefe, passei o cargo para ele. Foi bom, eu viajava muito. Convidado para cargos políticos recusou todos. Na cidade romarias de cientistas de todo o mundo era comum. Lomanto nunca cobrou nada de ninguém. Conseguiu um emprego nos Correios e lá recebia seus minguados salários. Jornais, revistas, TVs estavam sempre lá em busca de noticias. Lomanto ficou famoso. A WOSM insistiu para ele ser o seu Diretor Geral. Não aceitou. Fazia palestras em vários países a convite e com passagens pagas. Todos sabiam que ele falava e escrevia mais de trinta idiomas. Foi agraciado com medalhas de diversas organizações escoteiras mundiais. Mas não ficava só nisto. Laboratórios farmacêuticos, grandes empresas de engenharia, outras de advocacia os procuravam sempre para pedir sugestões ou tirar dúvidas.

                      Todos nós que ficamos amigos dele estávamos preocupados. Isto não podia continuar. Seus cabelos aos dezoito anos estava quase todo branco. Seus olhos vermelhos pareciam não dormir nas últimas semanas. Um dia um helicóptero desceu sem nenhum aviso em Figueira do Rio Mimoso. Era a Policia Federal. O levaram para Brasília. Ministros queriam falar com ele. Os presidentes do Congresso Nacional o intimaram para uma homenagem. O presidente do Banco Central exigiu sua presença. Queria opinião se subiam ou baixavam os juros. O Presidente da República o homenageou no Palácio da Alvorada. O novo Papa mandou um recado para ele ir a Roma. O pentágono ficou cismado. Nações do mundo inteiro mandavam espiões. Figueira do Rio Mimoso começou a ficar insuportável. Surgiram centenas de hotéis pousadas e campings. Restaurantes internacionais, livrarias e até uma TV se instalou ali. Um dia Lomanto sumiu. Desapareceu no ar! Ninguém conseguiu achá-lo. A Policia Federal e a Interpol fizeram tudo para encontrá-lo. Seus pais riam quando perguntavam. - Ele agora resolveu ir morar em um templo budista no Tibet. Quer ser um monge e descansar.

                       Aos poucos foram esquecendo-se de Lomanto. A cidade tomou enorme prejuízo com a estrutura hoteleira que foi construída para os visitantes. Muitas lojas seguiram o mesmo caminho. Quinze anos depois acharam que ele tinha morrido. – Pois é Chefe Vado, dizia ele – Achei melhor assim e olhe hoje sou feliz. Conheci Noêmia, minha companheira com quem tivemos três filhos. Ela coitada nem ler sabe. Mas eu a amo demais. Não a trocaria por nada neste mundo. Fingi para ela ser um iletrado. Precisa ver como ela tenta me explicar às noticias que ouvimos no radio. Mudei de nome. Aqui sou conhecido como Arlindo Landiscap. Ela nunca poderia saber o que eu era. Não esqueci nada e minha mente é a mesma. Aprendi a não pensar mais nisto. Aqui comprei esta carroça e faço carretos o que me dá o sustento que preciso. Levantei e me despedi de Lomanto. O trem da Central do Brasil que me levaria a Santos Dumont partiria dali à uma hora. Se não fosse só no outro dia.


                       Lomanto me pediu que não contasse a ninguém. Segredo de escoteiros. Dei minha palavra escoteira. Ele me conhecia e sabia que podia acreditar. Fui embora pensando o que é a vida. As escolhas que fizemos. Cada um sabe onde o sapato aperta. Lomanto poderia ter tido uma vida de rei. Seria mesmo um vida de rei? Entender suas escolhas só se estivéssemos em seu lugar. Escolheu ser um carroceiro, profissão digna, mas humilde. A maior inteligência de todos os tempos estava ali, apagada em um lar de quatro pessoas. Uma mulher e três filhos. Um lar de privilegiados. Mas quem disse que eu escolho a minha felicidade? Nunca. Você, só você sabe o que fazer para ser feliz. Que Lomanto com seu destino alcance o que quer. Que ele seja feliz para sempre!

domingo, 26 de junho de 2016

Um por todos e todos por um!


Lendas escoteiras.
Um por todos e todos por um!

            Nanquim sempre foi um bom Escoteiro. Era também um bom católico, e por muitos anos foi coroinha na Paróquia Santo Antonio. Nanquim nunca prestou atenção nas vicissitudes da vida, pois ele era apenas um menino. Deus sabia que ele era bom, levava a sério a lei escoteira e fazia do décimo artigo seu modo de vida. Ele estudava, mas não entendia muito, pois Nanquim tinha a “cabeça fraca” como sua mãe dizia. Seu pai pouco ligava para ele e sempre viajando na firma que trabalhava. Nanquim não entendia muito das provas escoteiras e seus amigos de patrulha ficavam horas em sua casa tentando mostrar a ele os nós Escoteiros, os sinais de pista, entender o desenho da Bandeira Nacional e cantar o rataplã. Todos sabiam que ele dificilmente ia ler um mapa, nunca iria fazer um percurso de Giwell e dificilmente seria um Sinaleiro.

           Todos na patrulha amavam Nanquim. Seu sorriso simples sem reclamar o fazia o preferido de todos. Bem mandado no inicio foi preciso que o Monitor explicasse a patrulha que ele não era empregado de ninguém. Em vez de pedir porque não dividir as tarefas junto a ele? Quando ele fez a promessa não só ele, mas toda tropa veio às lagrimas, de alegria é claro. Nanquim quando recebeu o lenço e o distintivo de promessa, deu um enorme salto e gritou: - Viva Deus, viva meu Monitor, viva meu Chefe e viva a minha mãe! E começou a cantar alto o Rataplã. O bonito é que toda tropa acompanhou. Dois anos depois ele com catorze anos ainda continuava noviço. Sem desmerecer ninguém seu Chefe deu a ele varias especialidades e um distintivo que ninguém conhecia. O chamou de Escoteiro Padrão. Nanquim ria e andava olhando seu distintivo de Escoteiro Padrão.

         Quando soube do Jamboree Nanquim sorriu de orelha a orelha. – Já pensou? Eu lá? Vendo tantos escoteiros? Todos sabiam ser impossível. Era uma fábula para ir. E não é que Seu Josué da Loja de presentes soube e mandou chamá-lo: - Nanquim, veja quando vai dar. Vou pagar toda a sua despesa. Você vai ao Jamboree. Durante dias Nanquim sorriu, cantou e foi a todas as missas na paróquia Santo Antonio. Padre Wantuil estava assustado. Quem mais iria? Perguntou ao Chefe escoteiro – Ninguém Padre. Ninguém tem condições financeiras para ir. – E você acha que ele pode ir sozinho? – claro que não padre, mas o que eu posso fazer? Sabemos todos até onde ele pode ir, sabemos que ele tem um pouco de deficiência mental, mas o que eu posso fazer Padre? Ele sonha dia e noite com esta viagem. Tenho medo, medo de falar com ele e isto piorar seu desenvolvimento mental. Até hoje senti que ele está amadurecendo, mas deixá-lo ir só? O que vai acontecer lá?

            O Chefe procurou a mãe de Nanquim para conversar. Foi uma conversa triste. Dona Elza, não sei o que fazer – Nem eu Chefe. Ele fala neste tal de Jamboree o dia inteiro. Vai para a escola cantando a canção do Jamboree. Foi na biblioteca e leu tudo sobre o tema. Voltou e me chamou aos gritos: - Mamãe, Mamãe! Nosso Chefe mundial foi em três jamborees! Já pensou em encontrar com ele lá? Todos da tropa ficarão surpresos. – Depois Chefe fui saber que o Senhor Baden-Powell é falecido. Falei para ele e ele sorriu – Mamãe, consegui as taxas para ir ao Jamboree agora vou encontrar o Baden-Powell e a senhora vai se convencer que ele está vivo. – Como fazer? Como resolver? Falar com ele seria uma decepção tremenda. Dona Marisa a sua professora dizia que o escotismo deu outra vontade a ele de estudar. Se continuasse assim ele poderia terminar aquele ano o primeiro grau.

           Na patrulha ninguém dizia nada. Então um dia, em um Conselho de Patrulha foi votado que o Martins seria o responsável para explicar tudo ao Nanquim sobre o Jamboree. Como ninguém a não ser ele iria, precisava conhecer como agir, como participar, como fazer amigos enfim, tudo que ele precisasse saber para divertir no Jamboree. – Nanquim quando ouviu Martins ficou pensativo. Nunca poderia fazer nada sem a sua patrulha. Em casa comentou com sua mãe que eles não iriam, e ele? – Mamãe o que vou fazer sem eles? Eles me ajudam nunca me deixaram sozinho e agora vou sozinho no Jamboree? – Sua mãe não disse nada. Ela não sabia o que dizer. Durante toda a semana Nanquim não pensava em outra coisa. Com o Chefe ele não obteve resposta, com o Padre Wantuil também não chegaram a uma solução. – Chefe, disse o padre, é ele quem tem de decidir sozinho.

           No sábado, quando terminou o Cerimonial de Bandeira e feita à oração Nanquim foi até o centro da ferradura e pediu ao Chefe a palavra: - Chefe e meus amigos da tropa um dia vocês me disseram que aqui somos todos irmãos. Somos iguais aos três mosqueteiros que sempre disseram – “Um por todos, todos por um” Ou vamos todos ao Jamboree ou não vai nenhum! Nunca irei sair daqui sem vocês, afinal somos todos irmãos fraternos não? A tropa calada explodiu em uma palma escoteira que até hoje ninguém esqueceu. Nanquim sorriu. - Quanto vale um Jamboree? Perguntou a todos, quanto vale a amizade de vocês? Esta não tem preço. Nunca irei para nenhum lugar sem ter vocês junto e podem acreditar irão morar no meu coração para sempre! – O Chefe da tropa estava às lágrimas. Carregaram Nanquim por todo o pátio da sede. Daquele momento em diante todos eles por causa de Nanquim sabiam o que significa “Um por todos, todos por um”.


            Sei que Nanquim cresceu, sei inclusive que vinte anos depois foi eleito prefeito da cidade, sem ainda que ficou famoso naquele município e muitos quiserem fazer dele um deputado ou um senador. Ele nunca aceitou. – Aqui nasci aqui morrerei. Aqui fiz amigos e com eles ficarei para sempre. Se fosse verdade o romance que Alexandre Dumas escreveu, Athos, Aramis, Phortos e D’Artagnan iriam levantar suas espadas, abraçar Nanquim e junto a ele gritar aos quatros ventos – “Escoteiros! Um por todos? Todos por um”.

sexta-feira, 24 de junho de 2016

“Célia” Era uma vez... Em uma fazenda...


“Célia”
Era uma vez... Em uma fazenda...
Uma história quase real.

                      Era uma casinha pequena. Pintada de branco e cheia de flores em volta. Dois quartos. Eu dormia em um com meu marido. Os quatro meninos em outro. Uma salinha de nadinha com uma poltrona e mais nada. Uma cozinha estreita. Mané Vaqueiro e Tonhão construíram um puxadinho atrás. Ali fizeram um fogão de barro, um forno de barro e o piso de terra batida. Na frente uma diminuta varanda. Uma cadeira de balanço e um banco de madeira. Muitos jarros de plantas. Eu amava tudo aquilo. Na varanda dava para ver a minha horta, pujante, verduras, frutas nascendo sem parar. Tomates, couve, cebolinha, batata doce, alface, pés de mamão, goiaba, taioba que meu marido adorava e muito mais. Nos fundos um chiqueirinho. Limpo, sem cheiro sempre com dois ou três capados no ponto. Mais a frente o galinheiro. Centenas delas. Dava para colher umas três dúzias por dia.

                       Como a gente era feliz. Sem preocupações das grandes cidades. Durante o dia o passear dos avestruzes, das galinhas d’angola, um ou outro veadinho que passavam correndo, passarinhada que escureciam o céu. Na época certa as cigarras faziam a festa. À noite então! Coisa linda! Quando se aninhava em frente a minha casa os vagalumes aos milhares eu apagava o lampião. Não precisava, pois eles davam conta. Um espetáculo digno de ser ver. Nos fins de semana ele me levava para passear de barco no Rio das Velhas até o grotão onde uma pequena cachoeira embeleza o rio cheio de esplendor. Depois a gente descia até à foz do São Francisco. Gente, minha mente mexe comigo ao lembrar. – Marido vamos comer um peixe? – Um pequeno, pois a geladeira a gás está cheia. Carne de porco de vaca até de tatu e capivara tinha. Sempre um cavalo arriado na porta. Sem pestanejar Ele montava e em pouco tempo voltava com um pintado ou um dourado.  

                               Vovó Lavínia era uma grande amiga. Tinha o apelido de Vovó, mas era da minha idade. Uma Akelá de um grupo Escoteiro da Capital. Nunca se esqueceu da gente. Foi fazer uma visita de uma semana. Ficou lá um mês. Risos. Não sabia que ela conversava com a natureza. Uma tarde fiquei estupefata quando ela acariciava o pelo de um pequeno veado. Um animal arisco e nem sei como ela conseguia. Um dia a vi conversando com dois avestruzes. Velozes não deixavam a gente chegar. Nunca tinha visto nada igual. Mas Vovó Lavínia conseguia. Levei o maior susto quando vi uma cobra enorme atrás dela. Gritei para ela correr, ela parou olhou para a cobra que se enrolou toda. Vai dar o bote pensei. Impossível, Vovó Lavínia ficou agachada e parece que falou com a cobra por instantes e ela foi embora. Desculpem é verdade. Uma noite sentados na varanda, filharada dormindo ela pôs os dedos na boca como a pedir silêncio. – Escutem falou baixinho. As estrelas estão cantando no céu. Gente, na fazenda havia o mais belo céu que tinha visto. Bilhões e bilhões de estrelas. Uma via láctea que marcava qualquer um. Fizemos silencio. Olhávamos para o céu. Um som calmo e refrescante. Se for o cantar das estrelas não sei, mas que era lindo era.


Quando ela foi embora sentimos uma tristeza enorme. Um vazio grande. Tentei várias vezes ouvir as estrelas cantarem. Se ela ainda estive ali me diria: - Amai para entendê-las, pois só quem ama pode ter ouvidos capaz de ouvir e entender as estrelas! O tempo se foi, eu daria tudo para voltar no tempo. Mas o tempo não para. 

terça-feira, 21 de junho de 2016

Os contos dos Bosques de Viena.


Lendas Escoteiras.
Os contos dos Bosques de Viena.

                      - BJ, está na hora de mudar. Não fiques assim tão nostálgico, deixe seus caminhos longos e desconhecidos passear por lugares nunca vistos. Pise no chão que é sua terra. Afinal ache outra maneira de viver. O General já se foi, eu sei que deixou um legado e que comprou a ideia de ser mais um seguidor. Mas você tem de pensar em si, está fazendo dezesseis anos, tens uma vida pela frente. Breve será um universitário a para fazer seu caminho e o seu destino. – Eu amava o meu pai e sabia que ele estava certo. Era um homem bom, educado e muito meu amigo. Eu sabia que ele tinha razão. Escotismo é bom, mas não é tudo. Sempre me entreguei em demasia e esqueci que existe outro mundo além da filosofia escoteira. – Mudei de assunto: - Pai, há meses ouço uma orquestra tocando uma valsa. Não sei qual é, Tem uma jovem linda, cabelos louros cacheados e nós dois passeamos abraçados dançando pelo salão. Um salão enorme, dos tempos antigos, e lá só eu e ela a valsarmos. – Assoviei para ele a valsa – Ele sorriu. – BJ é de Strauss, trata-se dos Contos dos Bosques de Viena. Johann Strauss II foi um grande compositor.

                  - Pai, porque não ouço outra valsa e só esta? E onde está à bela menina moça que sendo tão atraente se dispôs a dançar comigo? – Meu pai não sorriu. Olhou nos meus olhos e disse: - BJ, hoje é só um sonho, amanhã se pode tornar real, dê tempo ao tempo tudo tem sua hora e seu lugar. Quando as coisas não fizerem mais sentido e nada mais prender você, não tenha medo de trocar o roteiro. Você só descobre novos caminhos quando muda de direção. Tentei entender o meu pai, mas não consegui. A hora chegava e tinha de partir para minha reunião escoteira. Eu sempre amei o escotismo. Quando estava com meus amigos escoteiros eu esquecia de tudo e de todos. Desde Lobinho que adorava os dias de reunião, das atividades ao ar livre e os acampamentos que me faziam ser tudo que um dia sonhei. Mas mesmo lá no campo as noites na barraca eu sonhava com a mesma menina escoteira, nós dois de uniforme a dançar a Valsa que era sempre a mesma: - Os contos dos Bosques de Viena.

                   Antes do término da reunião, o Chefe Jafé pediu um tempo para nos apresentar duas jovens Escoteiras. Quase caí de costas. Uma delas era a menina escoteira dos meus sonhos. Incrível, impossível, era ela mesmo? Me belisquei para ver se estava acordado e não sonhando. Ela chegou a minha frente, aquele mesmo sorriso encantador, jogou para o lado seus cabelos loiros cacheados. – Prazer! Sou Justine, escoteira em Cidade Alegre. Estamos eu e a Isa passando férias aqui. Pedimos ao Chefe Jafé se nas férias podíamos frequentar as reuniões! Eu não sabia o que dizer. Engasgado disse um Sempre Alerta abobado. Era linda demais. Nunca me apaixonei. Nunca namorei e pensava que se fosse acontecer seria quando crescesse mais em idade e pensamento. Ela me cumprimentou com a esquerda como se estivesse cumprimentando alguém importante. Que mão deliciosa, tentei segurar, mas ela puxou o braço. Sem perceber senti seu perfume. Minha mão agora estava perfumada. – Posso ficar na sua patrulha? Ela disse. Claro que sim, falei com dificuldade. Se quiser para sempre! Ela riu de novo. Um sorriso de uma deusa vinda diretamente do Olimpo.

                      No final da tarde ela se foi, prometendo voltar na próxima reunião. Tanto tempo assim? – Olhe podemos conversar na semana? Ela sorriu e disse que não. Sua tia era exigente e só aceitou ficarmos com ela se prometêssemos não nos comprometer com ninguém. Mesmo assim pedi seu endereço. Foi uma semana saudosa, cheia de valsas, eu na esquina a olhar sua janela, sua porta esperando vê-la pelo menos de relance. O acampamento se aproximava. Será que ela ia embora antes? Uma bomba explodiu quando ela disse que iria também acampar. Amava acampamentos, amava o escotismo e era sua única maneira de viver. Deus meu! Sentir seu perfume no campo de patrulha? Não ia deixá-la cozinhar e nem cortar madeira. Aquelas mãos de seda não podia abandonar a maciez que existia em seus braços, em seu corpo.

                       Como fui feliz. Nunca pensava que podia haver tanta felicidade fora do escotismo. Mas o fim chegava, eu sabia que após o acampamento ela ia partir. Eu sabia que  dificilmente poderia ir a sua cidade. Sênior sem dinheiro, sem trabalho não podia sequer pensar em tal hipótese. Na ultima noite, no Fogo do Conselho eu só tinha olhos para ela. Sinceramente não sabia se era correspondido. Pedi ao Chefe para cantar uma canção, uma que gostava demais: - “Em meus sonhos volto sempre a Gilwell”. Quando iniciei ela se levantou e ao meu lado me acompanhou. Não sei quantas estrelas caíram do céu. Não sei quantos cometas cruzaram o espaço sideral. Sua voz era linda demais. Mas tudo que é bom dura pouco. O fogo acabou hora de recolher. Todos se foram e ali naquela clareira com a fogueira já se extinguindo, eu perguntei a ela se dançaria comigo. Ela quase desmaiou de susto. Não sabia explicar.

                        Prometi a ela que seria um cavalheiro, arrumei meu uniforme, coloquei o chapéu em um gramado, olhei para ela, fiz o gesto que um dia vi em um filme de amor. Me curvei e disse: - Linda Justine, aceite dançar comigo? – Ela riu e me deu a mão. Ouvindo a musica que não tinha som, nem sabia se havia luar, a tirei para dançar. – Cantarolava baixinho os “Contos dos Bosques de Viena”, ela espantada me acompanhou. Sabia também da musica da valsa. Rodopiamos calmamente na floresta enluarada ela sorrindo e meu coração explodindo. Ela parou! – BJ, eu também danço esta valsa em meus sonhos de amor. É você? – Deus meu! Obrigado, era um sonho de dois e não de um só. Uma palma escoteira repicou na floresta. Todos os seniores e os chefes ali estavam a nos espiar escondidos entre as árvores.


                         Foi à última vez que estivemos juntos. Foi a ultima valsa ou quem sabe a primeira. Nunca mais a vi, mas nunca desisti de sonhar. Os Contos dos Bosques de Viena ficaram na minha mente para sempre. Justine tinha vida e morada na mente do Escoteiro que se apaixonou e nunca mais deu seu coração a ninguém. Quem sabe um dia vamos nos encontrar? Todas as noites em ouço a valsa. Eu sabia que havia uma lenda que Strauss leu e compôs: - Uma certa noite um músico sonhou com criaturas fantásticas que existiam em uma floresta. Ele não sabia se era um fauno sedutor, se era o fantasma da Ninfa e uma criança que viravam um Cisne. O mito conta que estes seres mágicos pediam sempre ao maestro que fizesse uma música em homenagens a eles. E foi assim que surgiu os Contos, ou melhor, as Lendas dos Bosques de Viena!

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Coletor um saudoso Escoteiro e seu violão mágico.


Lendas Escoteiras.
Coletor um saudoso Escoteiro e seu violão mágico.
        
              Eu me lembrei dele hoje. Não sei por quê. O frio estava acabando e o calor chegando. Havia dias que não eu não cantava nada. Ou melhor, quase não canto mais, pois a tosse não deixa. Se não me engano, pois minha memória não anda boa nos o chamávamos de Coletor. Porque este apelido eu não sei afinal Coletor lembra os templos bíblicos onde os Coletores de Impostos eram odiados. Alguém um dia me disse sorrindo que o imposto é a arte de pelar o ganso fazendo-o gritar o menos possível e obtendo a maior quantidade de penas. Risos. Ninguém gosta de pagar impostos. Seu nome verdadeiro era Cristófamo. Nome que eu nunca tinha ouvido falar e nunca perguntei a ele porque o batizaram com este nome infernal. Melhor mesmo chamá-lo de Coletor.

           O moço era um craque no violão. Como tocava. Era ele aparecer e uma grande roda se fazia. Não tinha uma bela voz, mas não precisava. Seus dedos deixavam a todos embasbacados. Coletor era um homenzarrão. Grande mesmo. O violão nos seus braços se tornava parte do seu corpo. Parecia que o violão gostava dele, pois se olhasse bem o violão estava sempre sorrindo, embalado por aqueles dedos especiais. Ele entrou para nossa patrulha entrando nos seu quatorze anos. Logo se tornou um de nós pela sua simpatia e esforço. Coletor era negro e forte como um touro. Naquela época acredito que tinha mais de um metro de oitenta. Não sabíamos de suas qualidades e seu domínio com um violão. Perguntou-me se podia levar seu violão nos acampamentos. – Claro, eu disse. Mas só pode tocar nos tempos livres. Ele enrugou a testa e perguntou – O que é tempo livre? – Eu ri dele, pois sabia que no campo nosso tempo livre era para trabalhar.

              Qual não foi nossa surpresa quando a noite na Conversa ao Pé do fogo que sempre fazíamos todas as noites ele pegou o violão e começou a dedilhar. Naquela época o bom violonista tocava sempre com maestria o Luar do Sertão, As Rosas não Falam, Prece ao vento, Para dizer adeus, Chão de estrelas e tantas outras. Deitados em volta da pequena fogueira e olhando para o céu estrelado esquecíamo-nos de tudo. Quando Coletor aprendeu as músicas escoteiras foi um sucesso. A escoteirada vivia em sua casa. Ele nunca disse não. Tocava com alegria de saber que os ouvintes apreciavam sua técnica. Afinal quem não gosta de ouvir lindas músicas escoteiras? Ou quando ele tocava as suas prediletas? Eu sonhava o dia que ele pudesse gravar em um disco de vinil aquelas músicas que só seu violão tocava como se estivesse cantando. Já tinha em minha casa o disco do Trio Irakitan que tantas alegrias me trouxe, mas achei que Coletor era melhor no violão.

             Em Conselheiro Pena fizemos um acampamento de grupos, uma época que não tínhamos distritos, mas uma grande amizade entre todos. Eram quatro Grupos Escoteiros. Na primeira noite, no nosso campo de patrulha as outras ouviram o dedilhar do violão do Coletor. – Dá licença? E assim foram chegando e sua fama se espalhando. No fogo de conselho foi ovacionado de tal maneira que no debandar ninguém debandou. Ficaram lá ouvindo as maravilhosas músicas de Coletor.

               Eu só conhecia sua mãe. Ele nunca falou de seu pai. Perguntei ao Farolete, um sênior vizinho dele e pelo seu olhar vi que não iria contar nada. Só fiquei sabendo no dia seguinte da tragédia. Seu pai um bandido famoso veio visitar o filho e a esposa. A Polícia de Captura estava de campana e uma saraiva de tiros se abateu sobre à casa de Coletor. Morreram todos. Nunca se cobrou nada das autoridades, uma época que a Policia de Captura não dava satisfações a ninguém. O enterro do Coletor e sua família foi a noite. Para evitar palavrórios contrários decidiram que ninguém poderia participar. Ficamos de longe com olhos cheio d’água e chorando de fazer dó. Só espiando no alto de algumas árvores próximas ao cemitério. Durante uma semana dois policias ficaram de guarda na porta do cemitério. Ninguém podia visitar o local onde foram enterrados.

              Uma semana depois tiraram a guarda e eu corri até lá. Não só eu, mas a maioria dos jovens do Grupo Escoteiro. Era uma sepultura comum, só terra em cima e nem uma cruz havia. Não foi preciso de Conselho de Patrulha e nem Corte de Honra. Fizemos nosso trabalho. Com a ajuda do Mausoléu, um coveiro amigo nosso demos a ele e sua família uma bela sepultura. Era o local mais florido daquela morada onde todos diziam que quem estava lá não poderia voltar. Muitos Escoteiros e eu também juramos de pé junto que nas noites de lua cheia Coletor tocava. E como tocava. O campo santo começou a encher de ouvintes. Milhares e milhares acorriam. Eu mesmo ouvi o som do seu violão tocando o Canto da Promessa, da Despedida, do Fogo de Conselho e muitos outros. Nesta hora ninguém chorava e sim dávamos as mãos e fechávamos os olhos para sentir mais a presença do Coletor.


               Um dia a necrópole se silenciou. Os sons do violão do Coletor emudeceu. Alguém disse que ele foi para o céu. Nossa patrulha mesmo assim não desistiu. Todas as noites fazíamos questão de arrumar as flores, limpar seu jazigo e na hora de ir embora dávamos as mãos em volta de sua morada e rezávamos baixinho um Pai Nosso pensando que ele, nosso amigo Coletor estava conosco nesta hora. Dizem que a vida não tem começo e nem fim. Os maiores poetas já diziam também que viver é uma maneira de sentir o mundo em um minuto e morrer é viver para sempre. Nunca mais voltei a minha cidade. Pelas correspondências o ex-Escoteiros da nossa patrulha que ficaram lá sempre diziam que o jazigo continuava limpo. Um deles me escreveu que nasceu sem ninguém plantar um enorme jequitibá. Outro dizia que muitos viram Coletor tocando seu violão em um galho do enorme Jequitibá. São coisas de cidade pequena. As histórias contadas sempre aumentadas, mas que nos fazem sentir que a felicidade existe nas lembranças para sempre!

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Ninguém foge ao seu destino.


Lendas escoteiras.
Ninguém foge ao seu destino.

Prólogo

“Saiu de casa para conversar com um amigo e contar para ele a novidade”. Vibrava com a possibilidade de ser Escoteiro. Seu pai iria levá-lo neste sábado. O presenteou com seu uniforme que usou quando era menino. Ele se encantou com o chapelão e o lenço. Um sonho que acalentava há muito tempo. Ao atravessar a rua, foi pego por um carro a toda a velocidade, fugindo da policia que vinha logo atrás. Foi arremessado à grande distância. Ficou inconsciente e perdeu muito sangue. - Levado ao hospital ficou em coma dois meses. Saiu do coma, mas sem movimentos no corpo, ficara paraplégico. Durante um bom tempo não lembrou mais de seus sonhos. Agora eram outros e escotismo para ele ficou em um passado distante. “Pensou que com o tempo seus movimentos voltariam, ele não desanimou e o tempo passou.”

           Quatro anos se passaram quando seus pais o levaram para casa. Nenhum movimento durante este tempo. Conseguiu mexer os braços isto depois de muito tratamento em um centro de reabilitação. Mas as pernas não. O corpo também não. No primeiro ano não falava. Não tinha o que dizer. A voz engasgada. Uma terapeuta fez tudo para ele sorrir e nada. Não acreditava em que diziam a ele. O dia mais feliz de sua vida se foi como uma grande tempestade. Ele agora só via raios e trovões a lhe auscultar o cérebro. Seu atropelamento foi um desastre. Matou seu sonho e até sua vontade de viver. Treze anos uma vida a começar assim interrompida. Sua mãe sempre com os olhos vermelhos. Seu pai fez tudo que podia, gastou o que não tinha até que os médicos disseram que era melhor ele ir para casa. Seu corpo não mais reagia ao tratamento.

          Em casa pediu a sua mãe que colocasse o uniforme Escoteiro que seu pai lhe dera no baú do seu pai. Ele não queria vê-lo nunca mais. Seu quarto era aconchegante, a janela dava para um pequeno jardim que sua mãe cuidava diariamente. Mas ele não sentia mais o perfume das flores e o sol e a lua para ele não tinha diferença. Dormia de dia ficava acordado a noite. Dormia a noite e ficava acordado durante o dia. Trocava sempre à noite pelo dia. Em tempo algum nada lhe faltou. Sua mãe sempre presente. Banhos, fraldas, refeições, virá-lo sempre para não dar ferida ao corpo, enfim uma mãe incansável para que seu filho pelo menos sorrisse.

        Uma tarde bateram em sua porta. Sua mãe atendeu. Surpresa. Dois escoteiros uniformizados queriam falar com Miltinho. Ele não entendeu nada. Não os conhecia. Nunca os viu e esteve na sede deles por pouco tempo. – O que querem? Falou. Sejam breve estou sem tempo agora! Mal educado. Nunca pensou que um dia falaria assim. Eles sorriram. Nós não queremos nada de você. É você que vai querer de nós. Chega de auto-piedade. Você só sabe sentir compaixão de si mesmo? Está com dozinha de você? Lastimando-se? Não vê que tem pessoas sofrendo a sua volta? Afinal, você é um homem ou um rato? – Quem são vocês? Quem dá o direito de falarem assim comigo? – Eles não responderam.  Mudaram de assunto. – Sábado que vem vamos vir aqui e levar você para a reunião escoteira. Afinal não era seu sonho? Só porque se acidentou se acovardou?

            Miltinho não escondia sua surpresa e eles foram embora. Chamou sua mãe e perguntou quem eram eles? Eles quem? Ela disse. Os dois escoteiros que aqui estiveram. – Meu filho, não veio ninguém aqui hoje. Miltinho ficou mudo. Por quê? Quem eram? Fantasmas? Assombração? Afinal ele já estava com dezesseis anos e não tinha medo de nada mesmo entrevado numa cama. Mas porque, porque, insistiu com seu pensamento. No sábado bateram a porta. Lá estava os dois de novo. Vamos – disseram. Ir com vocês? Vocês são fantasmas! Não ando com fantasmas. Eles riram. Pegaram Miltinho, colocaram-no em uma cadeira de rodas e saíram de casa rumo à sede Escoteira. Nem despediu de sua mãe e seu pai. Os dois a pé empurrando a cadeira de rodas. Uma festa. Aplausos de todos os jovens. Abraçaram-no, e foi para uma Patrulha Sênior com duas meninas e três meninos. Ele era o sexto. Claro na cadeira de rodas.

Miltinho! Largue esta cadeira, agora vamos fazer um jogo e não dá para você ficar sentado feito um folgado! Um deles sem ele esperar o levantou e outro empurrou a cadeira para o canto do pátio. Miltinho pensou que ia cair, mas suas pernas se firmaram. Ele não acreditava! Vamos molenga! Diziam todos! Miltinho sorriu, correu, brincou, suou e de volta a sua casa quando entrou viu que esqueceu a cadeira de rodas na sede. Que fique lá para sempre, disse para si mesmo. Aperto de mão, abraços e Sempre Alerta e lá foram os dois escoteiros.

            Sua mãe o chamou várias vezes e ele custou para acordar. – Mãe a senhora me viu chegar ontem com os dois escoteiros? Como? Ela disse. Eu fui lá com os dois escoteiros. Sua mãe sorriu. Mas e a cadeira de rodas? Ela não veio! Meu filho, você nunca teve uma cadeira de rodas. Não pode sentar. É bom que ele sonhe pensou sua mãe. Pelo menos não fica tão triste como estava. Se isto lhe faz bem vou ajudar. E eis que Miltinho senta na cama, se levanta e diz a sua mãe – Deixa que eu vá ao banheiro, escovar os dentes e depois vamos todos tomarmos juntos o café da manhã. Há tempos não fazemos isto! Sua mãe estava boquiaberta! Meu Deus! Um milagre? Ela não sabia se ria ou chorava. Gritava de alegria e chamou seu pai que veio correndo. O abraçou. Quem visse veria uma família maravilhada e sorrindo como ninguém sorriu antes.

           Miltinho voltou a estudar. Seu pai o levou aos escoteiros. Ele se tornou um jovem tão feliz que o mundo mudou e ele acompanhou. Sei que hoje é muito requisitado na fábrica que trabalha pela sua felicidade. Os outros querem saber como fazer para ser feliz. Miltinho lembra-se de tudo que aconteceu. Não sabe explicar o que houve quem eram os escoteiros e qual o grupo que foi. Não importava. Se Deus quis assim, agradecemos a Deus por ter me dado à vida de novo. Os escoteiros do sonho nunca mais apareceram. Mas Miltinho nunca os esqueceu. Casou e teve um filho sendo batizado com o seu nome. Miltinho Alencar. Quase não tinha tempo para ele. Quando fez treze anos disse que queria ser Escoteiro. Miltinho sorriu. Deu para ele seu uniforme. Vou lá com você no sábado, seu filho sorria de alegria.



          De manhã abriu a janela, agradeceu a Deus pela vida e sua alegria em ser Escoteiro. Correu a casa de um amigo para contar a novidade. Ele seria escoteiro como seu pai fora. Ao atravessar a rua viu um carro em alta velocidade fugindo de um carro da policia. Pneus rangeram uma batida forte. Alguém gritava. Miltinho por sorte escapara.  Não sabe como não foi atropelado. Alguém o empurrou antes da batida. O carro dos bandidos bateu em um poste. Um morto e outro ferido. Miltinho Filho respirava ofegante. Graças a Deus, Graças a Deus. Olhou no final da rua e viu dois escoteiros acenando. Seriam eles os escoteiros dos sonhos de seu pai? Acenou também. Meus anjos da guarda ele pensou. A vida nos reserva surpresas sem explicação. Fazer o que? Aceitar o seu destino, pois Miltinho sabia que ninguém foge ao seu destino. 

terça-feira, 14 de junho de 2016

a promessa


Chefe, prometer significa o que?

Olhei para Anne da Patrulha Esquilo – Não sabia o que ela tinha prometido.
– Juntei uma resposta dos meus tempos de promessa. - Anne, todos nós precisamos ter credibilidade. Isto significa que quando se diz se faz. Prometeu cumpriu. Afinal palavra é compromisso. Não sei o que prometeu, mas lembre-se nunca prometa se acha que não vai cumprir. Sua força interna recebe os reflexos da duvida, da incerteza e da insegurança.

– Ela me olhou quase chorando. Chefe mas e se eu não puder?
- fiquei preocupado - Olhe não sei se vai ser a sua promessa. Nela se destaca a palavra o Melhor Possivel. Lembre-se que fazer o melhor possível, nada mais nada menos pode parecer algo triunfante de início. Sem perceber vai criando uma corrente positiva em seu coração. Quando você vê outros escoteiros passa a acreditar na sua meta. Sua busca se torna verdadeira na medida em que é originada por uma vontade autêntica, e não por um mero desejo de vitória e conquista.

- Ela me olhou com um olhar esperançoso.
- Fazer o melhor possível pode ser um desafio e tanto, pois se trata de um compromisso em alcançar o que se pode, passo a passo, como um alpinista que galga metros preciosos ao escalar uma montanha. A responsabilidade pelo fracasso é toda sua, o mérito pelo sucesso é todo seu, pois você sabe o tempo todo que está lidando com algo que pode concretamente fazer ou alcançar.

– Mas lembre-se Anne, sempre temos que aprender a viver em comunidade. Prometer e não cumprir é enganar, enfim é agir por má-fé. Bem melhor é pensar no que vai dizer e prometer. Não esqueça em nenhuma circunstância se sabe que pode não cumprir não garanta este compromisso. Se necessário tenha a coragem de dizer: - Preciso de tempo para refletir, resolver pendências ainda agora não posso prometer.
Anne me olhou e só respondeu:

- Obrigado Chefe, agora sei o que tenho de dizer!

domingo, 12 de junho de 2016

Lis de Ouro, o sonho de Lord Jim.


Lendas escoteiras.
Lis de Ouro, o sonho de Lord Jim.

              Lord Jim era um sonhador. Desde que entrou para os escoteiros ele sonhava. Sonhava com acampamentos, com excursões, com a Patrulha, com as viagens enfim, Lord Jim gostava mesmo de sonhar. Havia uma diferença em Lord Jim, ele sonhava com os pés no chão. Emocionou-se no dia de sua promessa. A tropa em posição de Alerta!  Mino o Monitor ao seu lado, o Chefe Maílson o olhando nos olhos e ele dizendo a Promessa Escoteira sem errar. Lembrou ali na ferradura quando entrou na tropa. O abraço do Chefe, do Monitor e de todos os patrulheiros da Patrulha Gavião. Ele ainda não conhecia estas provas de amizade. Nunca tinha visto. Diziam que os escoteiros são fraternos. No primeiro acampamento ele sentiu a verdadeira felicidade de viver como um herói das selvas. Aprendeu rápido. Até como cozinheiro ajudou.

                 Quando começou na Patrulha Gavião o batizaram como Lord Jim. Seu nome era Stefano. Gostou do apelido. Quando leu que Baden Powell também foi Lord seu orgulho mudou para melhor. Agora seu sonho era outro. Correu atrás do Cordão Verde e amarelo. Não foi difícil. Em um ano e meio conseguiu. Melhor ainda recebeu a segunda Classe em uma noite de lua cheia, no Acampamento das Vertentes, ascendendo o fogo do conselho com um palito e pulando as chamas três vezes para receber também seu nome de guerra. Apesar de que a tradição rezava ser um nome indígena ele pediu para continuar sendo Lord Jim. Seu Monitor o abraçou. Todos deram um enorme grito de guerra da tropa. – Viva Lord Jim! O Chefe Maílson entregou o cordão Dourado e ele se derreteu todo. Não perdia um acampamento, nenhuma excursão. Era um dos primeiros a chegar à sede para as reuniões. Não tinha sonhos de ser Monitor, seu sonho agora era ser um Escoteiro Correia de Mateiro. Deixou as especialidades, já tinha muitas delas.

                 As provas foram feitas paulatinamente. Recebeu do seu Monitor como deveria ser e as datas. Ele mesmo procurou o Capitão Lamartine dos bombeiros para que aprendesse a prova das especialidades de Bombeiro e Socorrista. Acampador tirou facilmente. Em dois anos na tropa já tinha mais de trinta noites de acampamento. Comprou um caderno de duzentas folhas e ali anotava tudo. Datas, onde, quando, tempo e as partes importantes que lá aconteceram. Agora estava se preparando para a jornada. Ainda era realizada na Tropa e era a apoteose. Todos que fizeram eram respeitados e até endeusados na tropa. Todos queriam ouvir os contos aventureiros da jornada. Aprendeu a ler mapas, tirava de letra os pontos cardeais, colaterais e sub. colaterais, sabia o que era um azimute, graus, aprendeu com facilidade a fazer um esboço de Giwell e seu passo Escoteiro e passo duplo eram perfeitos. Nunca em tempo algum ele errou no seu passo duplo. A quilometragem não tinha erros.  

               O dia da jornada chegou. Ele e Leôncio que ele mesmo convidou partiram rumo ao Vale do Roncador. Não conhecia, nunca tinha ido lá. O Chefe e o Assistente distrital Escoteiro tinham conversado antes. Um ônibus o levou até a estradinha do Sitio do Marcondes. Sua mochila estava perfeita. Nada de mais nada de menos. O farnel o de sempre. Um macarrão, uma batata, um arroz, sal, alho e um vidrinho de gordura. Sabão e mais nada. Não estava pesada. Queria levar a velha Silva de guerra, mas os seniores estavam com ela. Sobrou uma Prismática. Tudo bem. Ele dominava as duas com perfeição. Na porteira abriram o mapa. Na mosca. Era ali mesmo. Ele contava os passos e Leôncio anotava o que via por ali. Dois pintassilgos, um Anu do Brejo, beija flor voando longe, dois macaquinhos pregos no pé de Jaca.

                Às seis e meia da tarde chegaram ao sitio do Marcondes. Não havia duvida. Duvida ouve na senhora que os recebeu. Parecia que não sabia o que eles queriam, mas disse que eles poderiam usar o riacho e acampar a vontade. Uma sopa deliciosa, lavar vasilhame, limpar bem a barraca para evitar animais peçonhentos, e após uma vista no relatório e uma oração foram dormir. Levantaram cedo. Um café, biscoitos nova arrumação e pé na taboa. Agradeceram à senhora e partiram. Sabiam que deviam atravessar a Mata do Canarinho, mas disseram que não eram mais de quatro quilômetros dentro dela.  Engano. Meio dia, uma hora e não saiam de dentro da mata. Voltaram. Foram até o sitio. Perguntaram. O mapa não ajudava. A senhora disse que eles erraram, se voltassem pela serra eles veriam o caminho.

              Duas da tarde. Combinaram de chegar à sede às cinco da tarde. Isto se o ônibus não atrasasse. Agora sim o caminho estava correto. O mapa voltou a funcionar. Só às sete da noite chegaram ao ponto de ônibus. Demorou. Chegaram à sede as onze da noite. O Chefe Maílson muito preocupado. O Assistente distrital não quis esperar. Foi embora. Disse que não daria a prova como realizada. Se não tem responsabilidade com horários não merecem a Primeira Classe, disse. Dito e feito. Foram reprovados. Lord Jim não chorou e nem desistiu. Ele tinha têmpera de escoteiro. Seis meses depois repetiu a jornada. Desta vez conseguiu fazer tudo no horário. Lord Jim fez do seu sonho realidade. Pediu ao Chefe Maílson para que o Liz de Ouro fosse entregue também no Fogo de Conselho. Claro que sim o Chefe disse.


             Noite escura, raios, trovões, o fogo aceso. O Chefe queria voltar para o campo. Começou a cair uma tempestade que encharcava a todos. Lord Jim chorou. Preciso receber agora Chefe! Não posso esperar outro acampamento. Terei feito quinze anos e serei Sênior! A chuva caia aos borbotões. A tropa ficou de pé. Em posição de sentido. Trovões ribombavam pelo ar. Lord Jim ali em pé em frente ao Chefe. Era mesmo um vendaval dos bons. O vento soprava forte. Mino o Monitor colocou a mão no seu ombro. - Você está pronto Lord Jim? Sim ele disse. O Chefe entregou o Distintivo Liz de Ouro. Ele fez questão de refazer a promessa. Deu um enorme sorriso. Um raio assustador atravessou os céus. A luz que ele produziu mostrou um rosto de um Escoteiro orgulhoso e valente. Agora era um Escoteiro Liz de Ouro! Agora tinha muitas histórias para contar! Com ribombos e assombros da chuva que caia intermitente, a tropa ainda em posição de sentido cantou o Rataplã. Todo o hino. A selva recebia com orgulho aquela chuva intermitente e o cantarolar dos escoteiros! Ah! Sonhos! Como é bom sonhar e os ver realizados. Viva Lord Jim. Um Escoteiro Lis de Ouro para sempre. 

sábado, 11 de junho de 2016

As seis badaladas da Ave Maria.


Lendas Escoteiras.
As seis badaladas da Ave Maria.

                           Padre Tomazo tinha não mais que vinte e seis anos. Sempre sonhou em um dia ser um religioso. Dizia com convicção que foi a Virgem Maria quem um dia lhe apareceu em sonhos sorrindo e dizendo para ele ser um sacerdote, homem de Deus junto aos homens. Seu pai era um incrédulo e não levou a sério os desejos do menino. Sua mãe agradecia a Deus por lhe dar aquela graça. Entrou para o seminário contra a vontade de seu pai, mas com as graças da sua mãe. Era sua vocação e ele acreditava. Devoto de São Francisco de Assis tinha como modelo sua vida e seguidor do evangelho de Jesus. No seminário todos o admiravam. Diziam até que ele tinha todas as condições para ser um bispo e quem sabe um cardeal. Don Carmelo o arcebispo da cidade quando ele se formou o pós a prova. O mandou para a cidade de Cataclisma. Ele sorriu, já tinha ouvido falar de lá. Terra de criminosos e ladrões.

                         Quando subiu às escadarias da Casa de Deus ele parou no primeiro degrau. Parecia que na porta tinha alguém com uma figura de Satanás. Ajoelhou, rezou para a Virgem Maria, fechou os olhos e entrou. Vazia a igreja. Ninguem a esperá-lo. Dois anos depois havia dois mundos em Cataclisma, um formado por bandidos e ladrões, outro pelos novos catequistas formados pelo Padre Tomazo. Sentia-se uma mudança profunda nos rumos da cidade. O comércio aumentou e até mesmo turistas voltaram a visitar para ver o que o Padre estava realizando. Belzebu um maldito ladrão de estradas jurou o Padre Tomazo de morte. Seus comparsas tentaram dissuadi-lo, mas não houve jeito. O Padre Tomazo agora estava vibrando com sua nova criação. Um Grupo Escoteiro em Cataclisma. Ele pouco entendia e contava com a colaboração de Nilo Ventania. Fora Escoteiro na juventude e aceitou o convite do padre. A vida da cidade mudou muito com a chegada dos escoteiros. A bandidada se sentia ameaçada e o Padre Tomazo orava por eles, pois para ele todos eram filhos de Deus.

                     O primeiro acampamento do Grupo Escoteiro São Francisco foi o máximo. Padre Tomazo se obrigou a tirar umas férias de cinco dias e ficar com eles durante todo o tempo que lá permaneceram. Bebeu á agua da fonte da filosofia escoteira e sabia que nunca mais deixaria de ser um ativista Escoteiro. Na igreja muitas das organizações que o Padre organizou começaram a se sentir enciumados. Mesmo mantendo seu otimismo e seu ele sorriso, se desdobrando para estar presente eles queriam mais. Reclamaram com o Bispo Dom Carmelo. O próprio foi à cidade de Cataclisma para verificar o que acontecia. Não gostou dos escoteiros. Achava que a meninada era promiscua, pois junto estavam dezenas de meninas que se vestiam igual a eles. Por mais que o Padre Tomazo insistisse recebeu ordens de acabar com o Grupo Escoteiro. Que eles fossem fazer escotismo onde quisessem na sua igreja não.

                    O que fazer? - Ajoelhava-se no altar e de olhos fechados cantava baixinho o Te Deum, exaltando a Deus. Pedia uma graça, um milagre para que o Bispo visse como ele via aquela filosofia de uma organização sem igual. Cada badalada da Ave Maria era uma prece, um pedido, quem sabe Deus na sua infinita sabedoria poderia ajudar a dar a benção escoteira para o coração do Bispo? Sua prece foi atendida. Naquele dia o bispo voltava para sua cidade e uma chuva torrencial caiu na estrada. O carro do bispo um Velho Ford atolou na lama e nem ia para frente e nem prá trás. O Bispo não sabia o que fazer. Tinha reunião, tinha missa tinha de atender o cardeal que ia chegar. Eis que um olhar astuto, bonachão de um jovem disse para ele de supetão: - Deixa com nois Padre, marque no seu tic tac 20 minutos e vai voar que nem avião.

                  O Bispo espantado viu que eram seis escoteiros sendo duas mocinhas. Mochilas as costas, chuva no costado e eles nem aí, cortaram paus, escoraram pedras e logo o fordinho do Bispo de pôs a andar. Ele olhou os escoteiros, saiu do carro e pisou no barro sujando a batina, mas fazendo questão de abraçar e agradecer a cada um. Sem perceber o mosquito filosófico Escoteiro penetrou em seu coração. – Vai carona? Perguntou. “Gracias” padre. “Temos um caminho a percorrer, afinal nosso herói deixou para nós uma frase que ninguém esquece: - O Escoteiro caminha com suas próprias pernas”. O Bispo adorou aqueles meninos. Se o escotismo era assim ele teria que apoiar. Passou um telegrama para o Padre Tomazo. – “Mande bala, escoteiros aprovados. Conte cm minha benção”. – Bom demais para ser verdade pensou o Padre Tomazo.

                   A vida não é feita só de caminhos floridos. Em cada estrada existem espinhos nas curvas que aparecem. Belzebu entrou com mais uma quadrilha de bandidos na cidade. – Digam ao Padre se ele aparecer na minha frente lhe meto um balaço na cabeça. Na igreja Padre Tomazo pensava em seu mestre: - Vamos confiar mais em Deus e obedecer às Suas magnânimas leis. Se trabalharmos em favor do Bem, esse Bem virá ao nosso encontro, esta é a lei. Dito e feito. Um raio caiu na porta do banco. Belzebu ficou branco. Quase rachou no meio. Montou em sua égua Sibina e partiu correndo de Cataclisma. Nunca mais voltou. Quando em um final de novembro um padre de caqui e chapelão se dirigiu a bandeira à cidade inteira estava lá. Disse pensando em Deus: Senhor fazei de mim um instrumento de vossa paz. Eu prometo senhor fazer o melhor possivel... E Padre Tomazo foi promessado. Os escoteiros voltaram a sorrir. Para pregar a Paz, primeiro você deve ter a Paz dentro de você.

E de novo Cataclisma ouviu as seis badaladas da Ave Maria!

          

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Tarde demais para esquecer.


Lendas Escoteiras.
Tarde demais para esquecer.

                         Nunca esqueci quando tudo começou. Oito anos atrás. Não fosse o Chefe Mascarenhas meu destino teria sido outro. Mas Deus é quem decide, se ele decidiu assim é porque eu teria de passar por isto. Chefe Mascarenhas apareceu em Águas Calientes para consertar um moinho que comprei com a poupança do meu pai falecido. A herança me permitiu viver trabalhando e nada me faltava. Tinha cabeça para isto. Não me dei mal. Chefe Mascarenhas ficou na minha casa. Eu mesmo insisti para que ficasse. Gente boa, com seus cinquenta e poucos anos era bom de papo e muito simpático. Era escoteiro. Falava maravilhas da organização. Quem o ouvisse ficava deslumbrado e querendo ser um deles. Acampavam, faziam sua comida, tinham técnicas mateiras de construção, exploravam grutas, picos impossíveis e imagináveis para um menino conhecer. Faziam boas ações ajudando as pessoas e tinham um código de honra sagrado para eles.

                Interessei-me. – Chefe Mascarenhas! Será que poderíamos fazer um escotismo aqui em Águas Calientes? - Perguntei. – Claro que sim. Alguém tem de dar os primeiros passos e no que for possível eu lhe ajudo. Não faltou ajuda. Alberto o Prefeito, o Doutor Lanes Juiz de direito todos encantados com a ideia. A Rádio local dizia que tudo ia mudar com a juventude de Águas Calientes. Nas inscrições mais de cinco mil crianças. Um pandemônio. Fiquei aterrorizado. Chefe Mascarenhas me aconselhou: - Comece com poucos. Máximo de oito. Treine-os. Serão seus Monitores. Depois de três meses vá aceitando e formado as patrulhas. Os lobinhos não tem problema com a quantidade. Veja alguém para dirigir a Alcatéia. Arrume umas quatro pessoas para diretoria. Vou arrumar para você uma autorização provisória. Consiga um local para as reuniões e um salão para a sede. Depois falamos mais. Eufórico eu sorria de felicidade. A cidade reclamava porque não colocava todos de uniforme a marchar pelas ruas centrais. Pais e mães chorosos faziam pedidos pelos seus filhos.

                        Adorava meus Monitores. Viviam nas horas vagas em minha loja. Aos sábados na sede do Grupo Municipal Santo Expedito. Aprendíamos juntos tudo sobre escotismo. Acampávamos quase todos os fins de semana. Chefe Mascarenhas me mandou uma boa biblioteca. Em dois meses fui a capital fazer um curso. Estava em ponto de bala. A Patrulha de Monitores vivia para o escotismo. Escolheram como símbolo o Tuiuiú! Virou tradição a patrulha Tuiuiú dos Monitores. A Promessa foi feita dois três meses depois. Uma professora do Grupo Escolar aceitou meu convite para os lobinhos. O grupo foi crescendo e apareceram pais para ajudar. Nada faltava. No desfile de Sete de Setembro eu há vi pela primeira vez. Milena. A mais linda moça que tinha visto. Linda, simpática, cabelos loiros, curtos uma época que Doris Day e Grace Kelly enfeitavam as tela de cinema. Paixão a primeira vista. Minha alma gêmea.

                      Cinco meses depois fiquei noivo. A mãe de Milena me preveniu sobre ela – Muito possesiva Chefe. Sempre querendo ser a dona de tudo. Mas o amor esquece tudo. Nada poderia impedir uma grande paixão. No meu casamento a escoteirada toda na igreja. Queria casar de uniforme, mas ela foi contra – Nem pensar Mario Montes nem pensar! Já mandei vir da capital um legitimo terno inglês da melhor casimira! Assim começou tudo. Ela aos poucos me foi dominando. Sempre decidindo a minha vida. Meu amor por ela era grande demais e aceitava tudo. Ela criticava meu modo de vida e os escoteiros. Aos poucos minha vida se transformou em um inferno. Eu a amava e quase deixei o escotismo por ela. No grupo todos ficavam penalizados com minha vida pessoal. Ela ria de todos e dizia que o escotismo afasta as pessoas e a família. Ela não queria isto para a família que nós iriamos fazer.

                   Eu ia para as reuniões Escoteiras angustiado. A rotina que fazia de muitos acampamentos e atividades ao ar livre foram aos poucos acabando. Já não era belo como antes. Milena se interpunha a tudo. Tudo aconteceu muito rápido. Milena começou a sentir dores no seio. Alguns exames e acharam dois tumores enormes. Ela teria que operar. Chorou muito. Perder os seios para ela seria o fim do mundo. Não teve jeito. Operou. Em casa só chorava. Meu coração partia de dó. Ver a pessoa que a gente ama sofrer não é fácil. Minha vida meu trabalho e o Grupo Escoteiro Já não era como antes. Tirei uma licença de alguns meses. Os meninos sentiam minha falta, mas precisava olhar Milena. Cada dia um sofrimento. Ela começou a sentir fortes dores. Fomos para a capital. Os médicos não deram esperança. Mais dia menos dia Milena iria partir. Eu nunca fui espiritualista. Uma época que em nossa cidade pouco se falava sobre isto. Milena um dia me procurou – Mario Montes quero que você me prometa. Quando eu morrer você não vai mais para o grupo escoteiro. – Porque meu amor, por quê? Ela nada dizia. Seu semblante mudava. Parecia estar possuída. – Meus olhos ficaram vermelhos. Minha cabeça não sabia o que pensar. E o escotismo? Oito anos e tinha de deixar tudo para trás? Eu a amava, mas iria trair minha consciência? Enganar a vida e a morte? Ou enganar a mim mesmo?

                 Um dia ela não andou mais. Morreu dois meses depois. Eu entendia o desejo dela. Amava-me demais e mesmo morta não queria dividir. As exéquias foram simples. Duas semanas resolvi abandonar a cidade. Peguei minha mochila, coloquei na porta da minha loja um aviso que ficaria fechado por algum tempo. Precisava pensar. Raciocinar. Fui acampar sozinho nos Montes Pirineus próximo à fazenda Além Mar. Armei a barraca e nem fogo fiz. Não tinha fome. Olhava para o céu, para as árvores, ouvir o cantar dos pássaros. Meus olhos vermelhos. De madrugada acordava e me punha a chorar. Nunca Milena falou comigo. Nunca me deu um sinal. Resolvi voltar à cidade. Na rua caí desfalecido. Levantaram-me. Agradeci. Ao seguir pra casa passei em frente à igreja aonde casei. Estava aberta. Resolvi entrar. Ninguém ali. Sentei próximo a uma imagem de Santa Terezinha. Entre os bancos vi uma bíblia, aberta em uma página. Olhei com curiosidade e comecei a ler devagar, calmamente, já respirava melhor. “O amor é paciente, o amor é bondoso”. Não inveja, não se vangloria não se orgulha. Não maltrata, não procura seus interesses, não se ira facilmente, não guarda rancor. O amor não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade. Tudo sofre tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor nunca perece... Assim, permanecem agora estes três: a fé, a esperança e o amor. O maior deles, porém, é o amor. – Meus olhos encheram-se de lágrimas.


                    Um padre sentou ao meu lado. Perguntou-me o que houve. Contei tudo como se fosse em confissão. Ele sorriu me abençoou e falou baixinho: - Disse-lhe Tomé: “Senhor, não sabemos para onde vais; como então podemos saber o caminho?” – Respondeu Jesus: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai, a não ser por mim”. Passaram dez anos. Nunca esqueci de Milena. Tenho lembranças felizes dos nossos doces momentos que passamos juntos. Ainda continuo viúvo. Houve pretendentes, mas nada que me fizesse voltar a casar. Quer saber? – tinha medo. Medo de que a nova mulher dos meus sonhos fosse exigir de mim o que não posso prometer. O meu escotismo sempre morou em meu coração! Para mim é uma chama que marca e ficará para sempre dentro da minha alma.