Histórias e contos escoteiros.

Histórias e contos escoteiros.
Feitas para você se divertir!

segunda-feira, 30 de maio de 2016

A audácia dos amarelos.


Lendas Escoteiras.
A audácia dos amarelos.

                    Moreno olhava no espelho. Gostava do que via. Era simpático, agradável. Cabelos negros lisos, vasta cabeleira. Um nariz afilado e uma boca que as mulheres desejavam. Usava um perfume exclusivo importado. Sabia que todos o admiravam e sempre impressionava a primeira vista. Moreno não sabia o porquê do seu apelido. Tinha a pele clara, alto, dentes perfeitos. Moreno se achava um partidão. Mas infelizmente Moreno sabia que não era isso que procurava. Ria sempre do que fazia. Dizia a si mesmo – Enquanto houver escoteiro otário nesse mundo eu vou me dar bem.

                   Moreno nunca fora Escoteiro. Um dia em uma cidade do interior tentava aplicar um golpe no prefeito da cidade quando viu os escoteiros. Isso mesmo. Moreno era um escroque. Melhor dizendo ele era um embusteiro, trapaceiro, impostor e fraudador e ladrão. Vivia disso. Seus golpes já não davam os resultados esperados. Porque não dar um golpe nos escoteiros? Bolou um plano. Plano que deu certo. Na primeira cidade na Bahia, conseguiu roubar um cofre cheio de dólares. No Piauí não foi muito, mas deu para o gasto. Assim o nordeste conheceu a fama de Moreno. Ou melhor, os escoteiros. Mas nunca puderam provar nada.

                     Era simples seu golpe. Comprou um uniforme Escoteiro caqui de tergal, um chapéu, distintivos, um lenço azul (ficou sabendo que era o lenço dos dirigentes) e além da meia de seda tinha um sapato preto incrivelmente bem engraxado. Sabia que isso impressionava. Chegava à cidade, se informava do dia de reunião e hora. Chegava com aquela estampa toda – Sempre Alerta! Beijos aperto de mão forte. Moreno aprendeu muitas coisas. Até nós o danado sabia dar. Aprendeu alguns jogos que os meninos adoravam. Fazia amizade com os chefes, mas suas vítimas eram os lobinhos.

                      Isso mesmo. Eles eram sempre mais puros, mais simples, acreditavam em tudo. Moreno escolhia o mais bem uniformizado, o mais falador e aos poucos descobria os mais ricos. Fazia jogos (as Akelás adoravam) Contava história e assim cativa à turma do Mowgly. Na cidade de Ubaráu, interior de Goiás lá estava moreno. Conquistou todo mundo. Os lobinhos riam a valer com ele. Anotava tudo. Vamos fazer o jogo dos ricos – Eu pergunto vocês respondem um por um! – Quem é o mais rico na cidade? Dr. Antônio dizia um - Não o Senhor Ludovico! Dizia outro. E aos poucos ia sabendo o que faziam e o resto era fácil.

                       Escolheu a casa do Dr. Antônio. Sabia que ele era do Lions Club e todo sábado com a esposa ia ao jantar de gala que era uma tradição. Não voltariam antes da meia noite. No hotel tirou o uniforme, vestiu sua roupa preta, guardou a mascara e esperou pacientemente a saída do casal. Eram nove da noite quando entrou. Tinha uma chave mestra. Abria com facilidade qualquer porta. Entrou. Silencio. Tudo na penumbra. Viu a escada que levava ao quarto. Subia pé ante pé quando recebeu na cabeça com toda força um saco de areia na cabeça. Caiu da escada.

                     Uma voz horrenda gritou – Deita no chão bandido. Vou te matar. E Moreno ouviu um tiro. Deitou logo. Alguém amarrou suas mãos e seus pés. O viraram de barriga para cima. Meu Deus! Não acreditava no que via! Era a matilha amarela e a frente Neco, o primo da matilha. Logo chegou o delegado. Levaram Moreno preso. A cidade inteira ficou sabendo. O delegado disse que ele dava golpes em muitas cidades com Grupo Escoteiro.

                    No sábado, após a cerimonia de bandeira todos se reuniram com Neco. Como você desconfiou Neco? Chefe, muito fácil. Muito fácil. Vocês não notaram que ele usava o distintivo de promessa no bolso direito? E o distintivo da região do Rio de Janeiro no ombro esquerdo? E as estrelas de atividade? Todas no bolso direito. Tudo errado! Se ele era "Chefe" Escoteiro, devia saber como colocar no lugar certo!

                        Muitas risadas. E o tiro? Perguntaram. O saco de pipoca.  E o saco de areia? Vimos no filme “Esqueceram de mim” que a Akelá passou aqui. E a voz grossa? Ligamos o som, já tínhamos gravado em casa. Papai achou que era uma brincadeira. A Matilha Amarela se portou com vivacidade e sabia como fazer. Não eram ainda Sempre Alerta, mas abrir os olhos e os ouvidos isto sim, eles eram perfeitos. Esses lobinhos maravilhosos. Fico espantado com eles sempre que os encontro.


E viva os Amarelos, agora chamados na Alcatéia de “OS AUDACIOSOS” Uma grande palma Escoteira para eles! E para terminar eu digo sempre: - Adoro estes lobinhos que bebem água no rio Waigunga e se sentem felizes em Seeonee, onde a vida pulsa, pois eles sabem que são do mesmo sangue. “Tu e Eu”!

domingo, 29 de maio de 2016

Helena.


Helena.

                      Lembro bem dela. Magrinha, sorriso delicioso, rouca para falar. Ultimamente taciturna, problemas que não queria contar. Fui até ao campo de patrulha só ela a cozinhar. - E as demais? Foram pescar outras colher flores eu fiquei chefe. Sentei no banco tosco feito por elas. – Ela me olhou e sorriu. – Chefe, vai ser meu último acampamento. Olhei curioso. – Como sabe? Eu sonhei Chefe. – Sonhou? Sonhei com Deus dizendo que preciso mudar. Olhei enigmático. Falou com Deus? O senhor nunca falou? Foi simples. Eu disse a ele estava próxima de perder as esperanças. Ele sorriu e me disse que meus planos são maiores que os meus sonhos. O que ele queria dizer Chefe? Falei quase sussurrando: - Talvez Deus não mude tua situação, mas ele está usando o agora para mudar você. Ela me olhou sem entender. – Continuei: - Faça algo que nunca teve, faça algum que nunca fez. Nunca saberemos o quão forte somos até que ser forte seja a ultima escolha. Ela não disse nada.

                    Chefe Mamãe me disse que se alguém jogar pedra no meu caminho devo juntá-las e formar degraus para minha vitória. As Escoteiras retornavam. Saudaram-me e eu voltei para o campo da chefia. Neusa a Chefe estava lá. Paciência tem limite, mas o limite dela passou a fase da razão. Era paciente demais. Nem me perguntou o que houve o que Helena disse. Apenas sorriu e me olhou calada. – Não quer saber? Perguntei. – Que seja livre para falar, que seja doce o que pensar e que seja breve o que tiver de ser.  Deus obrigado por iluminar o meu caminho. Minha vida tem sido marcada por realizações diárias, que às vezes não dou o devido valor, mas eu sei que a graça de Deus se faz presente em todos os momentos da minha vida. Eu sabia que uma noite de sono resolve muito. O poeta dizia que a madrugada é a hora que você pensa em todas as coisas que não pensou o dia inteiro.

                     Devia ter dito a Helena que quando as coisas não fizerem mais sentido e nada mais prender nosso destino, não tenha medo de trocar o roteiro. No palco da vida você só descobre novos caminhos quando muda de direção. Alguns meses depois Helena se foi. Sua mãe não contou e nunca nos disse o porquê. Afinal a vida é assim, cada um tem suas escolhas. Uns vão por uma trilha que julgam perfeita outros não. Não importa. Fiquei sabendo que ela se entregou a Deus. Irá viver para sempre enclausurada em um Convento só para elas. Seu espaço será ínfimo, irá falar muito pouco. Sei que dificilmente irá sair dali. Agora vive orando para o Senhor dos céus.  Bonito mesmo é estar de bem com a vida e se ela escolheu assim, assim será. Afinal o destino une e separa. Mas nenhuma força é grande o suficiente para fazer esquecer pessoas que por algum motivo um dia nos fizeram felizes. Vida longa Helena. Sua patrulha ainda fala em você e te saúda. Seja feliz no caminho que escolheu!


sábado, 28 de maio de 2016

Conversa ao pé do fogo. Você já participou de um?


Conversa ao pé do fogo.
Você já participou de um?

Quem ainda não ouviu os grilos e pirilampos cantarem nas noites escuras com suas luzes brilhantes à noite em um acampamento? Quem já teve a alegria de ver um céu cheio de estrelas e ficou horas admirando o vai e vem do seu brilho no céu? Quem já ouviu o piar da Coruja Buraqueira escondida em um galho qualquer? Claro que você sabe que elas cantam para se divertir e só enxergam bem há noite. É bom demais ver o lusco fusco do sol se pondo a noite chegando, a fumaça do fogão e o cozinheiro fazendo um belo jantar. Acende-se um lampião, claridade morna e logo vem um delicioso jantar. O tempo passa, o monitor acende seu fogo em frente sua barraca, cada um se cobre com sua manta, se enrosca em um tronco, e nas brasas da fogueira alguém já colocou ali um bule de café, umas bananas ou batatas para assar. O ar puro da floresta sopra um vento sul delicioso. Os sapos coaxam na lagoa próxima chamando seus namorados ou namoradas. Existe um vento calmo no ar. Uma brisa gostosa chega mansamente.

Ao longe se ouve o cantar do Uirapuru do Curiango, um Quero-Quero ou uma Mãe da Lua. Um calafrio ao ouvir o Rouxinol da montanha cantar sua despedida quando o dia raiar.  Um Escoteiro apaixonado dedilha um violão encantado. Uma melodia se faz ouvir no violão e a floresta fica a ouvir a canção que a faz feliz. Uma harmônica toca maravilhosamente uma linda canção Escoteira. Um Escoteiro passa a narrar histórias de um acampamento gostoso. Era uma vez... A conversa ao pé do fogo está apenas começando. Não tem hora para terminar. São Amigos Escoteiros confraternizando, sorrindo e imaginando como é bom ser Escoteiro. Todos cantam uma canção de ninar. O céu passa a ser a grande barraca. As histórias repicam sonhos realizados. Lá no alto anjos sorriem e sabem que irão velar por todos no acampamento.


Se você ama a natureza venha participar e sorrir sob o luar daquela floresta encantada. Se achegue meu amigo, se assente, cante conosco, conte uma história, pois estamos fazendo escotismo gostoso vibrante, como Baden-Powell nos ensinou. Bem vindo à roda e olhe se sinta em casa, estamos entre amigos nesta noite e em volta de uma fogueira, pois agora vamos começar sem hora para terminar a nossa CONVERSA AO PÉ DO FOGO. 

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Katixilda, a Cascavel encantada do Vale dos Sinos.


Lendas escoteiras.
Katixilda, a Cascavel encantada do Vale dos Sinos.

                         Eu sei de muitos escoteiros que tem medo de cobras. É uma preocupação dos pais. Eles dizem: - Mas lá não tem cobras? Cobras, cobras, quantas já vi. Aprendi a conhecer uma bela Cascavel (é linda!), adorava quando via uma bela Surucucu negra, ou uma Urutu. E as Jararacas? Tantas diferentes são demais. Cada uma mais espetacular que a outra. Custei a aprender e identificar uma coral venenosa de outra que não. Quando tinha onze anos vi uma Sucuri. Nunca esqueci. Linda! Enorme. Meu pai contava que uma noite na revolução de trinta a tropa parou para descansar. Sentaram em um enorme tronco. O tronco começou a mexer e andar. Assustados levantaram. Era uma Sucuri das grandes. Ele ria quando contava, afinal éramos no regimento mais de quarenta soldados e todos sentados no “tronco”. Este meu pai era um pandego.

                        Sempre foi uma preocupação. Eu nunca me preocupei. Quantas vezes acampei? Centenas e centenas de vezes. Quantas cobras mordeu alguém neste período? Nenhuma. Nunca ouvi falar de um Escoteiro mordido por cobra, mas vi muitos serem atropelados por veículos na porta de sua casa. Aprendi que basta conversar normalmente, andar no mato sem medo, fazendo barulho, um bom fogo à noite e as cobras desaparecem. Elas é que tem medo da gente. Só atacam se sentirem hostilizadas ou ameaçadas. Mas poucos acreditam nisto. E olhe se matei duas ou três cobras foi muito. Ouve uma época em uma fazenda onde trabalhei que as casas de cupins proliferavam. Um trator de esteira limpava, mas ficava os buracos. Lá sempre uma Cascavel. O gado não tem medo e assim uma vez ou outra morria uma vaca mais velha e sem defesa. Resolvi então ser um “Caçador de cobras”. Fazia um pequeno fogo no buraco, elas saiam sorrateiras e eu as laçava com uma vara grande com um cabo amarrado. Toda semana mandava uma ou duas para o Instituto Butantã. Ele nos mandava as caixas de madeira própria para isto e um pouco de soro. Sem despesas.

                     Mas chega de “galengas” e vamos à história. Aconteceu as margens do Rio Parecis. Três noites de acampamentos. O Senhor Nicodemos proprietário deu permissão e nos alertou das cobras. Eram muitas, deveríamos tomar cuidado. Acampamos bem próximo ao Vale dos Sinos. Espetacular! Bambus de todos os tipos. Quedas d’água formando piscinas naturais. Uma floresta enorme, quase intocada. Um lago enorme, não deu para ver o seu tamanho. Era para mim o melhor local de acampamento que tinha visto. Eu estava com meus dezesseis anos. No primeiro dia ficamos por conta da preparação do campo. Nosso programa já feito seria que devíamos construir um pórtico diferente, para ser feito no próximo Acampamento Distrital de Patrulhas. Soubemos que haveria uma competição e o melhor pórtico receberia um prêmio.

                    No segundo dia fui até um local descampado atrás de “Barro Branco”. Um barro especial muito bom para cobrir construções, fazer paredes, colocar nas panelas para ficar fácil à limpeza, construir fogões, fornos tantas coisas que nem lembro mais tantas que fiz. Ouvi o barulho conhecido. O chocalho de uma cascavel. Melhor voltar. Sabia que era um aviso e quem avisa amigo é. Dei meia volta quando ouvi uma voz rouca e baixa. – Pode falar comigo? – E agora? Quem seria? Olhei e não vi nada. Eis que apareceu uma linda Cascavel. Seu chocalho era maravilhoso. Mas “diabos” Cascavel fala? Não fala. É um animal peçonhento que ninguém gosta. Eu não tinha nada contra. Parei e olhei para ela. Ela levantou a cabeça e depois metade do corpo. – Fale, eu disse. Mas longe de mim! – Calma ela disse. Não vou morder você. Não posso mais. Não tenho mais veneno. Não sei o que está havendo. Todas as cobras do Vale do Sino perderam suas condições de produzir o veneno que precisam para sobreviver.

                      Caramba! E agora? Uma cobra que fala e reclama? Estou maluco? – Ela continuou – Iremos fazer uma reunião hoje na Pedra do Sapo Morto. Todas as cobras estarão lá. Eu queria convidar você. Quem sabe pode ajudar? – Eu ajudar Dona Cobra? - Claro que sim ela disse. Mas me chame de Katixilda. É meu nome de batismo. – Boa esta pensei. Cobras batizadas. Devia estar sonhando. Mas recusar? Nunca. Convite feito convite aceito. Ela me pediu para ir só. Às quatro da tarde daquele dia. – Dito e feito disse ao Monitor que ia a uma reunião de cobras. Ele riu a valer. Sabia onde era a Pedra do Sapo Morto. Lá fui eu no horário marcado. Na porta encontrei com a Katixilda e centenas de cobras espalhadas. Jiboias, urutus, cascavéis, corais de todo tipo, jararacas, e interessante, lá estava uma Cobra Marrom que não existe por aqui, sem esquecer duas dezenas de Píton. 

                     Ninguém olhou para mim. Olhavam sorrindo para uma Surucucu de três metros, velha e gorda que contava piadas. Piadas? Isto mesmo ela ria e dizia – O cara era gordão. Resolveu fazer suas necessidades perto da minha casa. Quando abaixou dei duas dentadas no seu gordo trazeiro. Precisavam o ver gritando – Meu Deus! Minha Nossa Senhora! Vou morrer! Ajudai-me todos os demônios. Mal sabia ele que não tinha veneno. – E lá na igreja do povoado? Foi em um domingo. O padre celebrava a missa e entrei na igreja. Afinal não posso rezar também? Devagar fui me aproximando do altar, quando ele me viu berrou alto – Cobra! O capeta na igreja! E não ficou ninguém para contar a história. Eu também corri, pois sabia que um valente iria aparecer para me matar. E a Surucucu rolava de rir. Uma enorme Píton Amarela assumiu a presidência. Deu a palavra franca. Discutiram muito. Como achar o veneno? Onde ele foi parar?

                     Entrei na conversa – Onde bebem água? No lago disseram. - Pois é lá que estão perdendo o veneno, eu disse. Deve ser a quantidade de sapos que moram lá. Deixam sua gosma na beirada da lagoa e vocês bebendo engolem a gosma deles. Passem a beber só no riacho. – Uma salva de palmas. Palmas? Elas batiam o rabo nas pedras para fazer barulho. Precisavam ver o barulho de dezenas de Cascavéis batendo o chocalho. Dona Píton veio até onde eu estava e agradeceu. Agora podemos voltar ao que éramos. Muito obrigado escoteiro. – De nada respondi. Faço sempre uma boa ação e ajudar as cobras era uma obrigação. Ri do que disse. Agora sabia que tinha várias amigas. Prometeram-me nunca morder um escoteiro. Confiei na palavra delas. Voltei para o acampamento. Catixilda sorria e me acompanhou. Pediu para me dar um beijo. Abaixei e ela passou a língua no meu rosto. Sumiu depois na ravina do pescador.


                    Quando conto esta história ninguém acredita. Fazer o que? Pelo sim pelo não fiquei amigo das cobras. Sempre quando ia acampar tirava um tempinho para jogar conversa fora com elas. Dizem que somos amigos dos animais e cobra não se enquadra? Eu nunca mais matei nenhuma. Elas sabiam que podiam contar comigo. Só neguei quando uma Cascavel enorme queria saber onde era o Instituto Butantã. Queria ir lá com mais uma centena de cobras para soltar todas que estavam presas lá. “Necas” eu disse. Ela não ficou com raiva e sempre querendo me dar um beijo. Quantos beijos de cobras eu ganhei? Aprendi que a gente não escolhe os amigos. Eles aparecem e nos fazem um bem danado, não é mesmo dona Coral?                   

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Os contos de Natal. Maria.


Os contos de Natal.
Maria.

Olhe o que foi meu bom José, se apaixonar pela donzela
Dentre todas a mais bela, de toda sua Galileia.

                   Nove horas, nuvens escuras cobriam o Bairro de Belém. Maria na janela de sua casinha olhava a rua com um sorriso inocente. Soprava um vento calmo e ela nem imaginava que prenunciava uma forte chuva que já despontava no horizonte. Maria tinha um sorriso maravilhoso. Aos setenta e quatro anos com seus cabelos curtos que um dia foram loiros e hoje de cor metálica parecia uma santa a abençoar os passantes na rua onde morava. Os vizinhos sorriam para ela, todos a conheciam e sabiam que ela sofria falta de memória, não tinha a mente fértil, quase não se lembrava do seu passado e o que aconteceu ontem e só o hoje ainda era lembrado. Ela sabia o que era felicidade, pois demonstrava isto a todo instante. Ainda lembrava quando José saiu para ir trabalhar na marcenaria. José seu marido era para ela tudo na vida. Não lembrava, mas sabia que foram muitos felizes e ainda eram. Uma pequena lembrança de Tiago. Onde ele andava? Foi até o portão. Sempre estava trancado com um cadeado, pois José toda manhã o trancava. Ela não podia sair pela rua. Se isto acontecesse se perderia, pois não tinha mais a mínima noção onde moravam.

Casar com Debora ou com Sara meu bom José, você podia
E nada disso acontecia, mas você foi amar Maria.

                         José trabalhava com afinco. Tinha dois aprendizes. Marcenaria pequena, mas muito procurada. Ele era considerado um dos melhores profissionais marceneiros na cidade. Maria para ele era tudo. Sempre a amou desde que a viu pela primeira vez com seu lindo uniforme de Bandeirante. Um azul que nunca mais esqueceu. Ela o olhou e sorriu. O trevo de quatro folhas estava em sua blusa e ele viu que tinha sonhado com ela. Apresentou-se. Ela sorria inocente. Era um amor perfeito. Casaram-se dois anos depois ela ainda com dezoito anos e ele com vinte e um. Seu pedido de continuar como bandeirante foi bem aceito por José. Como negar? Foram cinco anos de casamento para o nascimento de Tiago. Seu único filho. Maria lhe disse que era a mulher mais feliz do mundo. Ele não sabia por que não tiveram mais filhos. Desígnios de Deus? Sua preocupação com Maria era enorme. Precisava trabalhar, mas tinha medo que ela um dia resolvesse passear pelo bairro. Sabia que ela nunca mais iria encontrar o caminho de volta. Ah! Doença que só Deus sabe e podia explicar.

Você podia simplesmente, ser carpinteiro e trabalhar
Sem nunca ter que se exilar, e se esconder com Maria.

               Tiago infeliz nunca teve paz em seu casamento. Ele e Sara nunca conseguiram ter filhos. Sara ficou amarga, quase não conversavam e quando ele achava que estavam em paz os desentendimentos aconteciam. Ela não se perdoava por não ter condições de ser mãe. Chorava se chamava de desnaturada e muitas outras coisas. Tiago tentou convencê-la a adotar um bebê. Mas ela não queria. A preocupação de Tiago agora era com sua mãe. Seu pai nunca lhe pediu, mas ele sabia que em seus olhos havia a suplica de diariamente levar sua mãe para sua casa até ele voltar. Ele queria, mas Sara não. Eles brigaram tanto que Tiago desistiu. Não seria difícil para ele levar sua mãe todos os dias para sua casa, não era longe e no seu carrinho seria um pulo ir e voltar. Sara dizia: - Ela entra por uma porta e eu saio na outra! Dizer o que? Ele sabia do Alzheimer.

Você podia simplesmente, ser carpinteiro e trabalhar
Sem nunca ter que se exilar, e se esconder com Maria.

                Maria sorriu ao ver o portão aberto. Lembrou-se das reuniões bandeirantes. Correu ao quarto e retirou de uma mala antiga seu uniforme. Estava guardado num Velho bau, mas muito desbotado. Vestiu. O chapeuzinho quase não serviu. Saiu sorrindo pelo portão sem saber para que lado seguir. Nenhum vizinho a viu subindo a rua em passadas simples e calmas. Passou por muitas pessoas que a cumprimentaram. Um sorriso espontâneo brotava em seu rosto. Viu um ponto de ônibus. Pegou o primeiro que passou. Perguntou ao Motorista onde era a reunião da Companhia das Bandeirantes. – Desculpe Dona, mas não sei! – Desceu em uma praça pensando ser a praça onde conheceu José. Alguém deu nela um empurrão. Sentiu várias mãos forçando a retirada de sua bolsa. Lá não tinha nada, nenhum documento. A bolsa estava vazia. Alguém lhe deu um chute e gritou – Velha danada, nem dinheiro tem! Maria sentiu uma dor enorme. Procurou um banco e sentou. O tempo foi passando e a fome chegou. Onde comer? Tinha de voltar para casa, lá ela tinha no forno um “quentado” do jantar de ontem que José deixou.

Meu bom José você podia, ter muitos filhos com Maria
E teu oficio ensinar, como teu pai sempre fazia.

                      José recebeu um telefonema. Trabalhava até tarde naquele 24 de dezembro para atender um amigo. Era um policial militar dizendo que sua esposa estava na 45º Delegacia do Bairro do Jaçanã. José levou um choque. Como? Será que tinha se esquecido de trancar o portão? Não se perdoava por isto. Ligou para Tiago que chegou correndo com seu fusquinha. Foram direto para a Delegacia. Maria estava sentava em uma poltrona sorrindo e vestida com seu uniforme bandeirante. Tinha no colo um bebê lindo de olhos azuis. Uma menina de doze ou treze anos também bandeirante estava com ela. – Senhor José! – A bandeirante disse: - Eu a vi na Praça do Bom Jardim, sorrindo com esta criança no colo! Quando vi seu uniforme sabia que era uma coordenadora Bandeirante. Chamei um guarda e fomos para a delegacia. Lá no fundo da sua bolsa tinha um telefone. Era o do Senhor! – E de quem é esta criança? José perguntou. – Ela disse que era sua neta! – disse o delegado. Veja como a criança sorri em seu colo. Ela a chama de Madalena! – José não sabia o que fazer. O delegado disse para levarem a criança. Ele se encarregaria de avisar ao Juizado de Menores.

Porque sera meu bom José, que esse teu pobre filho um dia
Andou com estranhas ideias, que fizeram chorar Maria.

                  Na casa de Tiago tudo era festa. Sara não tirava Madalena do colo. Ela sabia que o Juiz daria para ela adotar. Tiago era um marido mais feliz do mundo. José não cabia de contente. Maria só dizia que ganhou uma neta. Uma estrela brilhou no céu. No passado em uma manjedoura Jesus nasceu. Ali naquela casinha uma menina tinha muitos pais que a amavam. Feliz natal, que os sonhos seus se realizem!

Me lembro às vezes de você, meu bom José, meu pobre amigo
Que dessa vida só queria, ser feliz com sua Maria.

Bom José. Nalva Aguiar

terça-feira, 17 de maio de 2016

As aventuras do Escoteiro Chico Landi.


Lendas escoteiras.
As aventuras do Escoteiro Chico Landi.

                            Eu conhecia pouco Chico Landi. Ele com 12 e eu quase Pioneiro havia enorme distância. Mas sua história todos conheciam. Ele mesmo quando entrou para o restrito Primeiro Grupo de Giwell um dia em reunião só dos IMs tive a oportunidade de ouvir dele toda a história que era contada no grupo e que virou mito e lenda. Sei que parte da historia aconteceu. Disse que seu pai era um fã incondicional de Chico Landi, um famoso automobilista brasileiro o primeiro a participar da Formula um. Motivo de seu nome. Seu apelido de Centelha na Tropa não pegou. Chico Landi gostava de dizer bem alto: - Escoteiro não corre, voa! Escoteiro que é Escoteiro não chora da risada! A chuva para o Escoteiro é como pétalas de rosas a cair em seu rosto! Não existe para o Escoteiro a palavra impossível.

                Tinha um caderno onde colecionava frases e ele mesmo inventava na hora outras tantas. A Baguira Vera não sabia como a Akelá Rosinha tinha tanta paciência com Chico Landi. Era um ótimo lobo, mas não parava de falar – Kelá! Tem dois meses que fomos ao acantonamento, vamos fazer outro! Kelá chega de reunião na sede. Vamos passear no campo! Chico Landi adorava a natureza. Quando passou para os Escoteiros tudo mudou. Era uma Tropa quase autônoma de chefia. Marcio o Chefe tinha pouco tempo para dedicar e deixava os monitores agirem sob a sua supervisão. Algumas vezes acampavam juntos e a Tropa seguia sozinha sem adultos. Monty o Guia da tropa dizia sempre: – Onde tem um Escoteiro tem uma Tropa e onde tem uma Tropa tem aventuras. Chico Landi deixou de ser bom aluno. Dona Laurinda conversou com seus pais. – Chico Landi deixou de estudar, só vive nas nuvens, Chico Landi não pode continuar assim, só fala em escotismo, escotismo e mais nada! Doutor Juvenal pai de Chico Landi era um pai compreensivo. Conversou longo tempo com o filho.

                 Chico Landi adorava o pai. Seguia seus conselhos a risca. Mas Chico amava o campo. Adorava correr pelas campinas, espantar as borboletas colher flores silvestres e ficar horas vendo os raios de sol de um amanhecer. Ele gostava de cantar. Sabia fazer nós, reconhecia na natureza qualquer gorjeio, qualquer canto – Olhe! Ouçam! É o pássaro Preto do serrado perdido aqui nas campinas! Pegadas? Chico era um bam, bam. Nos acampamentos sua Patrulha Lobo era a primeira a dar o grito para o almoço, jantar, inspeção, formaturas e sempre motivando a patrulha. - Monty, por que não ganhamos? Monty ria, ora, ora Chico Land, não podemos viver em um acampamento. A sede precisa de nós. Humm! Se é assim vamos fazer um Salcedo! Para quem não sabe Salcedo era um apelido que deram ao Comando Crow. Eles faziam diferente, um de cada lado, ao se encontrarem tinham de passar um pelo outro. Sempre um despencava no chão. A vida era bela para Chico Landi. Uma família que o amava, um grupo Escoteiro respeitado pela comunidade, uma Tropa de aventuras e uma Patrulha sem igual.

                      Não vamos esquecer Dona Laurinda a professora e o Padre Gabriel. Eles também faziam parte da família feliz de Chico Landi. A vida tem destas coisas, quanto menos se espera o destino bate na porta. Desta vez foi uma pancada forte do destino na vida de Chico Landi. Seis bandidos resolveram assaltar o Banco do Brasil da cidade. Prenderam os quatro praças e o sargento Nonô na cadeia. Acharam que a cidade estava dominada. No banco Pinta Cega um vaqueiro da fazenda Luvião não achou graça. Mandaram todo mundo deitar dando chute nas costas e na cara dos clientes. Zé Pinga Cega não levava desaforos para casa. Seu 38 dentro do bolso de seu paletó.

                  Nenhum dos bandidos reparou nele. Era um anão de um metro e cinquenta, magro e um bigodinho a lá Charles Chaplin. Com três tiros Zé Pinga Cega matou três, mais um tiro e outro caiu estrebuchando no chão. Dois correram e Zé Pinga Cega correu atrás. Eles abriram fogo e o Zé Pinga Cega recebeu um balaço nos quadris, mesmo caído atirou. Não acertou ninguém e desmaiou. Os bandidos fugiram sem levar nada. Levaram Zé Pinga Fogo para o Hospital de Eldorado a vinte quilômetros dali. O povo na praça assustado custou para notar que atrás de um pé de Jabuticaba Chico Landi gemia e cantava. Um canto triste. Ele cantava o Rataplã. Ninguem ouviu a principio. Dona Modesta viu. Deu um grito. Chico Landi sangrava seu rosto branco como cera. Mais um para o hospital de Eldorado. Ele tentou imitar o seu herói querendo caminhar com suas próprias pernas.

                  Ainda estava vivo. Uma bala perdida. Chico Landi ficou entre a vida e a morte. A escoteirada, a lobada e os chefes iam ao hospital de Eldorado visitarem-no. Dona Neném sua mãe dia e noite ao seu lado. Seu Pai o Doutor Juvenal fez tudo que podia. Chico não iria morrer, mas estava tetraplégico. Nunca mais iria andar. A noticia caiu como uma bomba na cidade. A lobada e a escoteirada choravam. O Padre Gabriel convidou toda a cidade para uma grande missa e pedir a Deus por Chico Landi. Era o menino mais alegre da cidade. Vivaz, grande Escoteiro, amante da natureza, era uma infelicidade ele ficar assim.

                A praça tomada, toda a cidade estava lá. Muitos Escoteiros eram coroinhas e no altar ajudavam na missa. Muitos com os olhos cheios de lagrimas, A Akelá Rosinha, a Baguira Vera e o Balu Nonato choravam como bebês. Monty o Guia da Tropa estava firme com seu bastão em pé ao lado do altar. Não chorava, mas seu coração estava sangrando. A ambulância com o Doutor Juvenal e dona Neném chegaram na praça. Chico Landi em uma cadeira de rodas chorava. Todos olharam para ele e soluçando. Alguém gritou – Uma palma para Chico landi! A praça ribombou de cima em baixo. Chico olhava sem acreditar. Ele não podia estar tetraplégico. Deus não ia dar a ele este caminho. Um grito enorme na multidão. Um silêncio sepulcral. Chico Landi se esforça e fica em pé. Impossível diziam os médicos que o assistiram. Chico sorria. Cambaleando foi até o altar. O padre Gabriel ajoelhou e gritou – Um milagre! Um milagre! Louvado seja Deus! Um coro de palmas durou bem uns vinte minutos. Sorrisos em profusão.

                 Os seis patrulheiros da Lobo o carregaram dando uma volta pela praça. Chico Landi ria e chamava em alto e bom som – “Monty, Monty”! Eu quero acampar! Eu quero voltar ao campo nesta primavera, eu quero ver as flores no monte Sariel, eu quero beber a água da fonte do roncador. Monty, Oh! Monty. Papai e mamãe estão sorrindo eles não vão dizer não. Chico landi levantou do banquinho de madeira que ele mesmo tinha feito. Eu juro por Deus que é verdade. Eu juro por tudo neste mundo. Chico landi com lágrimas parou de contar. Vi um enorme raio de sol iluminando aquela noite. O fogo que eram só brasas reacendeu. As fagulhas da noite iluminaram aquela clareira onde estávamos.


                 Uma brisa gostosa vindo do norte nos pegou de pronto. Olhei para Jota Mauro, ele sorria. Olhamos de novo para Chico Landi, ele olhava para o céu. Uma grande estrela brilhante estava lá. A maior estrela que eu já vira até então. Parecia que ela e ele eram um só. Lembrei-me de Chico Xavier: - Em minhas preces de todo dia, sempre peço coragem e paciência. Coragem para continuar superando as dificuldades do caminho naqueles que não me compreendem. E paciência, para não me entregar ao desânimo diante das minhas fraquezas!... “E guardemos a certeza pelas próprias dificuldades já superadas que não há mal que dure para sempre.”.

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Eram mil gaivotas no ar.


Lendas Escoteiras.
Eram mil gaivotas no ar.

                        Como tinha chegado até ali eu não sabia. Meu corpo se recusava a obedecer, mas eu precisava ver as gaivotas voando no ar. Teria que ser naquela tarde preguiçosa, com o sol se pondo no horizonte, naquela praia antes de tudo desaparecer de minha mente. Passos trôpegos cheguei a areia branca, as ondas ainda não haviam alcançado a ponta da praia no seu esplendor da tarde. Parei, não sabia se eu iria conseguir. Olhei para minha perna que sorria. – Não dá mais Velho Escoteiro. Eu o servi a vida inteira não me obrigue mais a caminhar. Sorri sem graça, mas era verdade, minhas pernas me serviram de maneira exemplar por toda minha vida. Não podia agora reclamar. Tentei levantar os ombros e não consegui, franzi a testa com meu olhar perscrutando o horizonte. Nenhuma gaivota no ar. Olhei o oceano até onde minha vista alcançava. O som das ondas me embalou como se eu ainda fosse uma criança no colo de minha mãe. Senti as pernas fraquejarem. Elas insistiam em dobrar. Pausadamente fui descendo de minha altura até as areias do mar.

                            Ah! O perfume das águas azuis que rebatiam nas pedras da enseada mostrando uma força incrível para me reverenciar. O Ribombar nos rochedos me enchia de prazer e emoção. O mar sempre foi meu céu, meu amor minha paixão. Sentei-me devagar na areia branca cujas ondas ainda não podiam me alcançar. Meus olhos quase fechados viram próximo da mão uma concha, pequena linda e na sua cor branca e me lembrei de um poema que gostava de declamar: A simplicidade de uma concha do mar junta-se o colo da areia onde ela se aninha. As ondas do mar embalam-na num vaivém paternal. Do sol um pingo de ouro suscita-lhe um sorriso madrepérola. E o menino que a colhe tão cheio de curiosidade torna-a num pequeno mundo de mistérios. A simplicidade de uma concha do mar junta-se o universo! Senti uma pontada no peito. Sabia que minha hora se aproximava. Tentei levantar meus olhos, queria levar comigo a vastidão do mar ver nos meus últimos momentos uma gaivota no ar. Meus olhos incompetentes reclamavam querendo fechar. Pensei em rezar, pedir a Deus um último instante. Se houver quem diga o que não falo diz à sorte, ao acaso selvagem, pois já nem sei de mim, sei a imagem do mar que nem mais o sinto, e por isto minhas lagrimas me fazem calar.

                      Meus olhos vão aos poucos se fechando, e como uma tela gigantesca vai se formando na areia branca daquela praia onde minha vida se voltou para me mostrar os acertos e desacertos de tudo que criei ao sabor do tempo. Tempos que já se foram, uma promessa adormecida, embaladas em uma bandeira do Brasil. Uma patrulha de navegantes, valentes escoteiros do mar, eu ali na frente mostrando ser o Pioneiro, o primeiro a achar os caminhos perdidos nas matas a descobrir o luar atrás das estrelas. Tempos que já se foram, quantos sorrisos? Quantas luas para amar? Quantas estrelas no céu para contar? Vi-me um homem feito, esquecendo-se de seus amores, pois meus pendores era o escotismo e nada mais. Eu sabia que fiz amigos, muitos e inimigos? Quem não os teve em sua vida? Afinal sempre nos lembraremos deles de suas palavras silenciosas, mas o bom mesmo era o silêncio amoroso dos nossos amigos. Resolvi ter uma família, mas me esqueci dela por muito tempo. Me dedicava de corpo e alma aquele movimento pelo prazer de servir.

                      E o tempo foi passando, e os meus de sangue foram ficando. Viajei por plagas inacessíveis, fiz acampamentos impossíveis. Amei cada fogo que ascendi, e as brasas hoje adormecidas na trilha do tempo distraídas, deixei-as queimar sem me importar até quando. Quantos apertos de mão? Quantos abraços floridos? E os seus de sangue a lhe esperar? Deu-lhes por acaso neles os abraços merecidos? Não, se um dia pensar o que não penso, em uma trilha de nevoeiro denso, nas terras das sombras que nem existem mais. Esqueceu-se de suas mentes, de suas bocas, olhares sentimentos nobres. Só viu os vales e os mares, à crina das espumas e vendavais. Seus rebentos um dia partiram, suas famílias foram criar. E ela? Sozinha em casa sempre a me esperar.

                     Sei que lhe dei abraços, beijos, mas isto poderia pagar o tempo que passei vagando nos montes e horizontes sem fim? Pelas frestas da sala e da janela, via você fatiada, a boca do sangue esperando um beijo que nunca lhe foi dado. E ela como uma lã, com linho pensando ser artesã, parecia flutuar sobre os lençóis nus que esperavam muitos abraços... Que não vieram... E eu com a mente longe distante, bem além do horizonte, usurpava seu trono seu recato. Um dia ela se foi, e eu fiquei sozinho. Merecia ter este destino. Escolhi o que não poderia escolher. As minhas escolhas não entendiam o que dei, o que fiz, o que deixei de bom para eles. Sabia que era meus últimos momentos, fui ali na praia, pisar nas areias brancas que amei, para ver gaivotas perdidas no ar. Haverá alguém quem diga, o que não falo, pois diz à sorte que ela vem ao acaso, selvagem, pois agora nem tenho imagem, verdade é que nem sei o que sinto ou o que falo.


                     Me senti puxado, arrancado como se fosse jogado no ar. Olhei e vi meu corpo, esticado nas areias brancas do mar. Sabia que chegou a hora, hora de partir e quem sabe nunca mais voltar. Ainda tentei olhei procurei implorei aos que se foram e não vi as gaivotas no ar. Meu corpo flutuava ao sabor das ondas do mar. Jogado aqui e ali eis que me detive, eram eles, a patrulha do meu tempo, surgiu ali vindo do firmamento todos sorrindo e dizendo bem vindo meu monitor! Lembrei-me de poema do meu tempo. Dizia ele que é ingrato contar sorrisos, pelas praias do amanhã. Quem vai quem fica nada os encanta. Não levam olhos de ver os sem brilhos, os cadafalsos de rotina, os pelourinhos do cansaço. Você aqui na terra era um hospede, morando nas esquinas da vida, de olho no seu passado pensando no seu presente e no seu amanhã. Abracei-os chorando, pedindo perdão. Eles sorrindo me abraçaram cantando, dizendo meu monitor meu amigo, para você, aqui estão, mil gaivotas voando no ar...

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Narkis, o Lobo Solitário.


Lendas escoteiras.
Narkis, o Lobo Solitário.

         Jonny Thorton tinha uma idade indecifrável. O que ele fazia para se manter sempre jovem ninguém nunca soube. Quando o vi pela primeira vez estava com doze anos. Levei o maior susto com ele. Fazíamos um jogo de tocaia e estava escondido na curva do Moinho e de tanto esperar que alguma patrulha passasse para anotar os nomes cochilava. Senti seus dedos tocando o meu ombro e quase cai do galho da árvore que estava aboletado. – Lá vem dois deles disse – Olhei na Estrada e vi Manfredo e Rosinaldo pé ante-pé tentando esconder dos índios selvagens. Eu era um índio selvagem. Quando o procurei novamente ele sumiu. Sumiu como? Ali era o topo do morro e dava para ver todos os lados. Oito anos depois entrando nos meus 21 anos fazia uma atividade aventureira No Rio das Esmeraldas. Calculamos eu e os monitores percorrer 42 quilômetros a pé. Erramos feio. De 42 foi para 65 quilômetros.

         O plano era seguir a estrada do Boiadeiro até o Vale da Serpente. Calculei que atrás do vale havia uma cadeia de montanhas onde era a nascente do Rio Esmeralda. Se fosse verdade com uma boa jangada iriamos alcançar em um dia o Rio Doce e de lá mais um dia até nossa cidade. Uma bela volta. Uma bela atividade aventureira só com monitores. Eu era assistente do Chefe Laerte. Por motivo de saúde não foi. Assumi e disse a ele que não se preocupasse. Após dez quilômetros de caminhada uma chuva rala começou. Esta é a perigosa. Um velho ditado dizia que se tens água e depois vento põe-te em guarda e toma tento. Dito e feito, passamos boa parte do dia debaixo dela. Capas pequenas logo estávamos todos ensopados. Avistei duas pedras na curva do Jacu onde se iniciava o Vale da Serpente. Entrar lá com aquela chuva não era boa ideia. Uma chuvarada no sopé da montanha e poderíamos sofrer consequências graves.

         - Olá Chefe! Ouvi alguém falando atrás de mim, virei e lá estava Jonny Thorton. – Venham comigo, sei onde podem se abrigar. Com a chuva torrencial não disse nada e o segui. Uma hora depois avistamos uma cabana. Entramos. Não era grande, mas dava para descansarmos e até dormir um pouco até a chuva passar. Jonny Thorton era um sujeito estranho. Usava uma espécie de macacão azul de brim mescla, acho que feito por ele mesmo, sem gola e sem mangas e presa por cipó trançado. Andava com um Mocassim feito por ele mesmo e quase não fazia barulho. Acedeu um fogo no seu fogão de barro, colocou um caldeirão grande com agua. Em uma escada de madeira retirou sobre a telha duas mandiocas e um pedaço de carne seca. Quer saber? Nunca tomei uma sopa como aquela. Não sei se foi à fome ou o ambiente, lá fora chuvoso, dentro um ambiente gostoso e em pouco tempo dormíamos a sono solto.

          Acordamos cedo. Não vi Jonny Thorton. Já não chovia e o céu ainda nublado. Fizemos um conselho de patrulha e todos foram unânimes em não desistir. Quando abri a porta da cabana um enorme lobo estava em pé, serrando os dentes e voltamos correndo para a cabana. Enfrentar o lobo não dava. Duas horas depois Jonny Thorton chegou. O lobo deu um enorme salto em cima dele e ambos caíram no chão. Tinha que ajudar a quem nos ajudou. Com o bastão sai pronto a usá-lo no lobo. – Não faça isto! Gritou Jonny Thorton. Ele é nosso amigo! Parei e esperei. A patrulha ficou dentro da cabana. – Narkis! Ele gritou, o Escoteiro é nosso amigo! O lobo me olhou de soslaio. Narkis! Veja! Ele tem alimento como o meu. – Tirei do bornal um pedaço de linguiça e dei para ele. Nunca em minha vida vi um lobo assim. A chuva voltou a cair. Corremos para a cabana e o lobo foi atrás.

        Mais uma noite na cabana de Jonny Thorton. Desta vez em companhia de Narkis, o lobo amigo. – À noite comemos um delicioso quitute de tomate misturado com peixe cozido e uma farinha de milho de dar água na boca. Jonny Thorton tinha no vale um belo restaurante e viveres que nunca iriam faltar. – A noite ele começou a contar sua história. Nascera em uma pequena cidade às margens do Rio Mississipi nos Estados Unidos. Era filho de Cabelos Longos, um índio da tribo Chicksaw. Com nove anos subiu a bordo de um barco em Terra Blanca e foi aprisionado por um capitão mau. Trabalhou a bordo por meses e escondido desceu em Port Gibson mendigando por anos. Com 14 anos conseguiu emprego em um navio cargueiro de ajudante de cozinha e veio parar no Brasil, em Vitória no Espírito Santo. A pé subiu as planícies do Vale do Rio Doce que lembravam sua terra e descobriu este lugar. Olhe Escoteiro, não sei quem é dono destas terras, mas daqui não saio nunca mais.

         Narkis eu o conheci quase morto próximo ao Lago Cinzento. Deram um tiro nele e consegui tirar a bala. Ficamos amigos e ele sempre me salvou de poucas e boas. Olhei para os monitores e subs, estavam de olhos arregalados na história de Jonny Thorton. - Narkis, continuou – Já pôs para correrem muitos malfeitores que fogem para este vale. Aqui não tem ouro e nem pedras preciosas, mas nunca irei sair daqui. Se me lembro bem devo estar com quase setenta anos. Não sei. Perdi a noção do tempo. O Lobo deitou aos seus pés e nós também fomos dormir. No dia seguinte o sol apareceu. Agradeci a Jonny Thorton a acolhida. Ele sorriu. Narkis irá mostrar o caminho até o Rio Esmeralda. Existe? Perguntei. Existe sim, posso apostar, pois eu conheço! Partimos. O lobo sempre à frente. De vez em quando olhava para trás. Uma hora parou com suas orelhas levantadas. Bem acima de nós eu vi uma enorme onça parda. O dobro do peso do Lobo Narkis. Durante alguns minutos um olhava para o outro. Pareciam conversar. Narkis fez um sinal para seguirmos. Passamos a poucos metros da enorme Onça Parda.

        Atravessamos todo o Vale da Serpente sem nenhum tropeço. Se não fosse Narkis não sei se teríamos conseguido. O Rio Esmeralda era majestoso. Fizemos uma bela Jangada e tudo correu conforme os planos. Ficamos dois dias a mais que o planejado, mas valeu. Norberto um dos monitores contou e escreveu toda a saga de nossa aventura no livro de ata da patrulha. Nunca contou onde fica. Combinamos de preservar a identidade do Jonny Thorton. Por vários anos ainda encontrei o Jonny em alguns acampamentos. Um dia ele me procurou na sede do grupo e disse que ia partir. Seu pai tinha falecido e deixou para ele de herança uma vasta terra onde a tribo morava próxima a New Orleans. Ele era o único herdeiro. – E Narkis o Lobo? Perguntei – Ele vive ainda, mas muito velho. Nunca dependeu de mim para sobreviver. O tempo passou e uma lenda se formou no Vale da Serpente. Dizem que um Lobo Solitário e uma Onça Parda dividem as noites de lua cheia e nenhum homem pode se aproximar.


           Verdade ou não eu sabia que a lenda era real. Pensei até em visitar Narkis, agora chamado de Lobo Solitário. Desisti, pois ele tinha uma vida, uma companheira e humanos nem sempre são bem vindos para estes animais. Vida longa para Narkis o Lobo Solitário e sua amiga, uma Onça parda e que vivam para sempre no saudoso Vale da Serpente! 

terça-feira, 10 de maio de 2016

Shyloh, no reino da magia.


Lendas Escoteiras.
Shyloh, no reino da magia.

                    ... Era uma vez... Uma pequenina cidade as margens do rio Belo, entre montanhas enormes e de difícil acesso, pois não havia estradas há não ser pequenas trilhas escondidas por plantas espinhosas, um povo vivia em plena felicidade seus ditosos dias de vida. O último visitante apareceu há mais de trinta anos e não voltou. Resolveu fazer de Shyloh sua nova morada. Era fascinante ver os habitantes sorrindo, o fascínio de um abraço dado a cada encontro nas ruas perfumadas, cujas flores tinham seu encanto, um atrativo para nascer viver e morrer entre jardins mágicos. Em cada esquina, em cada casa, em cada canto nas praças e nos bosques, as bromélias, lindas e rosas flor-de-maio, manacá-da-serra, milhares de alamandas amarelas cor de ouro, violetas, rosas, jasmim e outras centenas espalhadas por lindos Jardins paradisíacos. Era inebriantes as tardes quando o sol se punha e o vento soprava em todas as ruas e praças, sentir o fantástico perfume que faziam seus habitantes sorrirem e acharem que estão no Èdem do paraíso.

                         Em Shyloh todos se sentiam como irmãos. Dormiam com janelas abertas, não havia trancas nas portas, as ruas eram limpas e bem cuidadas sempre pelos moradores que ali viviam em suas moradas. Shyloh não tinha delegado, policiais, prefeito, juiz, pois a fraternidade fazia parte de todos e as tardes iam para as praças dar as mãos e agradecer a Deus pela graça que lhes foi ofertada. O trabalho não era remunerado, ali cada um fazia sua parte para a sobrevivência de todos. As crianças aprendiam nas escolas a dar as mãos, um abraço, respeitar direitos que todos tinham. A cidade era constituída de cidadãos sem distinção de classe credo ou escolha pessoal. O respeito e o sorriso sempre em primeiro lugar. Seis anciãos se reuniam mensalmente para ver o que precisavam como resolver, quem poderia ajudar e na época da colheita dividir o trabalho entre todos.

                        Era uma vez... Uma pequena cidade chamada Shyloh. Os meninos nunca brigavam ninguém desobedecia, não havia perdão, pois não havia o que perdoar. Tudo começou quando em uma noite enluarada nasceu Arthur filho de Loreta e Miguel. Arthur era diferente de tudo e de todos. Era bonito, não tinha defeitos físicos, mas nunca sorriu. Por quê? Os anciãos reuniram-se muitas vezes na tentativa de achar uma resposta. Leram livros enormes, procuraram na mitologia de Xangri-lá se ouve alguém assim. Pela primeira vez uma onda de conversas entre vizinhos aconteceu. Os anciãos estavam preocupados. Arthur poderia mudar tudo que um dia construíram para a felicidade de todos os habitantes de Shyloh. Sugestões foram dadas. Nenhuma dentro dos princípios da razoabilidade. Infelizmente a intriga, a falta de etiqueta a lorota e invencionice começou a viver entre os habitantes do lugar.

                         Na escola Arthur sempre de semblante fechado. Tudo fizeram para ele sorrir. Cantores de sonhos interpretes de histórias da carochinha, palhacinhos da praça tentaram de tudo e nada. Os anciãos não sabiam mais o que fazer. Alguém tinha sugerido que Arthur era uma maçã podre e poderia dar exemplos que destruiria a beleza de Shyloh e a morte consequente dos que acreditavam na beleza de viver sorrindo. Eis que uma bela manhã aparece na entrada da cidade seis meninos montados em bicicletas que eles chamavam de cavalos de aço. Freiaram em frente à praça da alegria e por ali descansaram pensando que à tardinha seguiriam seu destino. Estavam com um uniforme atípico desconhecido por todos. De cor caqui, um cinto de couro com uma fivela cor de ouro, uma flor de lis desenhada, um lenço verde e amarelo no pescoço, e um lindo chapéu e abas largas que fizeram dos meninos da cidade sonhar em ter um.

                           Arthur se aproximou. Não sorriu. Baltazar o monitor sorriu. Olá meu jovem qual seu nome? Arthur não respondeu. Melchior o intendente lhe deu um abraço e Gaspar o sub perguntou o nome da cidade com uma voz calma, sincera e cantante. Arthur se esforçou para dizer que estavam em Shyloh. – E vocês? Quem são? Matheus o menorzinho passou a mão no ombro de Arthur e disse: - Somos escoteiros, viajantes do tempo, descobrindo novos horizontes, novos caminhos, águas puras e límpidas para beber. Armamos barracas se preciso se não usamos a lona do céu. Guiamos-nos com o vento, com o firmamento. Não temos morada, pois qualquer lugar dá para arranchar. Construímos pontes, ninhos de águia, fazemos com cipós construções para viver em família que chamamos patrulha. Arthur sem perceber sorria. O primeiro sorriso depois de anos de vida. Todos ao redor sorriram. Os anciãos ficaram sabendo que Arthur tinha sorrido.

                             Alguém os guiou até a Sala do Trono, onde os anciãos se reuniam. Quiseram saber quem era eles, o que faziam o que os tinha levado ali e para onde iam.  Melchior não se fez de rogado. Foi ajudado por Moisés o cozinheiro aquele que levou sua tribo para novos lugares, onde podiam viver feliz. Contaram o que eram escoteiros do Brasil. Amantes da paz, da verdade, tinham uma só palavra e a honra valia mais que a própria vida. Amavam acampar, viver pelo mundo a procura de novas aventuras. Agradeceram a estadia, mas estava na hora de partir. A meninada na praça sorria, gritavam em plenos pulmões que também queriam ser um deles. Eles partiram ao entardecer. Para onde foram só os anciãos sabiam. Desapareceram na trilha do Urso Pardo e nunca mais voltaram. Shyloh viveu um sonho até aquele dia. O sonho mudou. Meninos escoteiros apareceram. À volta a felicidade não ia acabar, e o melhor Arthur voltou a sorrir!


                              Era uma vez... Uma cidade chamada Shyloh, anos e anos se passaram. De uma cidade dos sonhos passou a ser também a cidade do amor. Sorria ao ver sua meninada de calças curtas, mochilas no costado e chapelão encabeçado, sorrindo e marchando por todos os cantos a dizer a todo mundo: - Agora é nossa vez. Vamos filosofar, vamos escoteirar, vamos sair por aí deixando o vento nos levar. Vamos seguir as estrelas, o sol o firmamento. Que o mundo se prepare, pois a escoteirada de Shyloh será a partir de agora jovens irmãos de sangue, fraternos por toda a vida. Agora temos além da felicidade amor no coração. Era uma vez... Muito longe, lá acima das montanhas a leste de Shyloh se ouvia meninos de valor a dizer em um bravo cantante, formados em patrulhas e entoando suas vozes infantis orgulhosos do que eram a cantar seu Rataplã!

domingo, 8 de maio de 2016

O misterioso caso do Chefe Estrada.


Lendas Escoteiras.
O misterioso caso do Chefe Estrada.

                         A noite estava fresca e a brisa começou a cair. Passava das onze da noite e a fogueira estava quase apagando. Cansado do corre-corre dos escoteiros durante o dia pensei em dormir logo. O programa do dia seguinte seria um grande jogo e eu sabia que iria dar um trabalhão. Olhei as estrelas no céu e noite uma mais brilhante quem sabe me trazendo alguma mensagem. Tudo no campo Escoteiro é possível e pelo sim pelo não olhei novamente. Ali estavam anotadas muitas histórias que ouvi e contei nos últimos 20 anos. Lembrei-me de um fogo igual a este em um acampamento no Chile com dois grupos escoteiros amigos. Eu não tirava os olhos do Chefe Leopardo. Em volta do fogo da fogueira eu e mais oito chefes cantavam e contavam causos. Ele se levantou e perguntou se alguém já tinha ouvido falar no Chefe Estrada. Ninguem conhecia. – Ele está aqui no campo, eu o encontrei depois de anos e anos desaparecido. Fiquei intrigado. Quem seria o Chefe Estrada?

                   - Eu o encontrei um dia em um acampamento regional, na cantina do campo – continuou o Chefe Leopardo. Quando o vi ele sorriu e me abraçou. Nem sei por que, pois não éramos tão amigos assim. Fui logo pergunto a ele porque desapareceu do Curso da Insígnia da Madeira que fizemos juntos. Nunca esqueci. Ele sumiu no terceiro dia. Quase cancelamos o curso por causa dele. Durante um dia inteiro fizemos uma busca completa e até na delegacia fomos fazer um boletim de ocorrência. No sexto dia ele retornou. Disse ao Diretor do Curso que iria embora. Não seria honesto continuar. Pelo sim pelo não foi convidado a ficar, mas sem receber o certificado. Não quis comentar com ninguém o que aconteceu, e isto me encucou demais. Agora mais de vinte anos depois ali estava ele. Não iria perder a oportunidade. Conversa vai conversa vem, me contou o que fez nos últimos vinte anos. Trabalhou em uma multinacional Alemã, e como engenheiro de minas passou uma temporada no Amazonas fazendo um levantamento Topográfico nas margens do Rio Xingu. Procurava algum veio de minério muito procurado ultimamente.
 
                        - Olhe Chefe foi divertido – disse ele. Vinte dias na floresta sequestrado por uma tribo de índios Caiapós, próximo a fronteira do Pará com o Mato Grosso. Estava acampado com mais dois funcionários próximo ao rio Xingu. Havia uma grande jazida de bauxita e eu mapeava tudo. Levaram-nos para sua aldeia que não era longe. Em uma oca nos apresentou ao “Benadióro” uma espécie de cacique. Bom sujeito. – Disse em mau português que ficaríamos ali até o homem branco da estrada de ferro fosse conversar com ele. Eles queriam uma paga pela invasão do seu território pela ferrovia. Disse a ele que não era funcionário deles. Não adiantou. Quando a FUNAI apareceu, resolvi ficar. Valeu a pena. Aprendi com eles a caçar, pescar com armadilhas e fizemos grandes jornadas na selva. O escotismo me deu uma bagagem enorme e eu me divertia com isto. A meninada da tribo era divertida. Aproveitei para fazer patrulhas e nos aventurarmos na selva. Mas eles nem aí com formaturas só queriam se divertir.

                   Fiz uma grande amizade com o cacique Babitonga, gente fina. Cheguei a casar com a Índia Guaraci. Adorável! Um dia tive que partir. Queria levá-la comigo, mas ela irredutível não quis ir.  Disse-me que os homens brancos não se conhecem, são estranhos e ela não se sentia bem com eles. O Chefe Estrada se levantou para ir embora. Levantei também. – Chefe – Não pode ir embora sem me contar o que houve do seu desaparecimento do curso. Até hoje isto não me saiu da cabeça. Ele sentou novamente. Sorriu para mim. Vou contar a você o que nunca contei a ninguém. Se duvidar paciência. Contarei a verdade só a verdade e o Escoteiro tem uma só palavra. – Prestei a máxima atenção. Até pedi uns salgados acompanhado de um vitamina que faziam na hora. – Ele começou: - Tudo iniciou quando fui ao banheiro após a sessão do Chefe Nonato, ao pegar a trilha vi um brilho intenso. Fui elevado no ar e perdi o sentido.

                          Acordei deitado em uma espécie de prato de aço, brilhante e ao meu redor pessoas estranhas, pareciam formigas gigantes com duas pernas. – Encarei o Chefe Estrada, mas não sorri. Verdade ou não precisava ouvir sua versão. – Ele continuou – Eu tinha sido abduzido. Já tinha lido sobre isto, mas acreditar? Nunca. Vi que era uma grande nave que fazia um zumbido constante. Onde estava? No espaço? Os estranhos me olhavam e vi que tinha agulhas por todo o corpo. Eu os ouvia falando, mas suas bocas não mexiam. Parecia que os ouvia com o cérebro. Enviavam-me mensagens telepáticas me tranquilizando dizendo que em breve voltaria. Contaram-me que moravam em um planeta distante mais de vinte milhões de anos luz, e que suas tecnologias faziam com que cruzassem o espaço em velocidades que a mente não pode medir. Disseram-me que estavam há mais de um mês no espaço, mas na terra significava poucos dias.

                 - Eu olhava para o chefe Estrada e não sorria. Poderia ser verdade. – Ele continuou: - Levaram-me até um local envidraçado. Um espetáculo. A nave parecia estar parada e milhões de estrelas passavam como um raio, uma profusão de luzes brilhantes e cintilantes, em um panorama incrível. Ver tudo aquilo compensava todas minhas pequenas dores que ainda sentia pelo corpo. Fui até um salão, sem móveis, se despediram e disseram que não me preocupasse que iriam apagar tudo da memória e eu não ia lembrar-me de nada. Pedi que não fizessem aquilo. Não podia esquecer. Eles não tinham esse direito. Entreolharam-se e balançaram a cabeça concordando. Minha mente ficou nevoada. Desmaiei. Acordei no mesmo local. Daí para frente você sabe o fim da historia. Não podia contar a ninguém. Tinha prometido isso a eles.

    - A historia do chefe Estrada foi emblemática. Tinha ouvido historias assim, mas não acreditava. Agora não. Ele era um Escoteiro desde criança. E o escoteiro tem uma só palavra e sua honra vale mais que sua própria vida. Ele se calou. – O Chefe Leopardo se calou. – Abruptamente me olhou e disse – Olhe depois disso ele sumiu.  Procurei e nada. Não sei onde anda, se está vivo, ou se voltou para sua amada Guaraci. Se ele voltou deve estar lá se divertindo, fazendo o seu escotismo que ama junto a índios amigos. Olhe, eu o invejo. Hoje estou aqui, sem respirar o ar puro da mata, sem ver a força de um rio caudaloso, sem poder ver o sol nascer atrás de uma montanha. Daria minha vida para mudar tudo isso.


                  - Voltei novamente ao presente. Um silêncio inquietante. Eram mais de onze da noite. Preparei-me para ir dormir. Tudo que acontece tem um motivo, o porquê abduziram o Chefe Estrada eu não sei. Entrei em minha barraca de duas lonas e dormi como se estivesse em viagem pelas estrelas abduzido por um povo de uma estrela distante que queriam fazer em seu planeta um Grupo Escoteiro! Quem sabe eu poderia ajudar?