Histórias e contos escoteiros.

Histórias e contos escoteiros.
Feitas para você se divertir!

quarta-feira, 30 de março de 2016

Só o amor será minha herança.


Lendas Escoteiras.
Só o amor será minha herança.

                           Ninguem notou naquela manhã de sábado a luz forte azulada que caiu mansa sobre a cidade de Purgatório. Poucos observaram um jovem alto com o uniforme social dos Escoteiros, atravessando a ponte de madeira com um sorriso contagiante, uma forquilha na mão, uma pequena mochila e passos que não tinham pressa em chegar. Era uma cidade simples, pequena, onde havia poucos jovens por falta de oportunidade profissional. Os mais velhos diziam que no passado havia muito amor, cortesia, fraternidade e amizade entre seus residentes. Ninguem notou também aquele jovem calmo, com passadas curtas, olhando para frente com um sorriso nos lábios cumprimentando a todos que encontrava. Ali ninguém notava ninguém. Purgatório tornou-se uma cidade dispersa, Seus habitantes mudaram de hábito e agora viviam para si sem pensar no seu próximo. Um poeta disse uma vez que era fácil sair com várias pessoas ao longo da vida. Difícil é entender que pouquíssimas delas vão te aceitar como você é e fazer feliz por inteiro. Difícil é ocupar o coração de alguém. Saber que se é realmente amado.

                             O jovem entrou na Rua da Tristeza onde havia poucas casas e na última entrou. Ele sabia que estava vazia. Desde que ele saiu dali a muitos e muitos anos pensou que mesmo dizendo nunca mais ele voltaria de novo. Ninguém o viu entrando em sua velha casa; - Na porta disse - Eu voltei, espero que me aceite, pois aqui é meu lugar! Quanto tempo se passou? Melhor não pensar e seguir seu plano conforme seu sonho durante todo o tempo que ficou fora de Purgatório. Ele sonhava em fazer dela uma cidade para todos poderem sorrir e amar seu semelhante. Abriu às janelas, as cortinas eram as mesmas, brancas de cetim com pequenos babados a enfeitar suas laterais. Os móveis estavam limpos, a cozinha um brinco, tudo bem lavado, asseado e bem cuidado. Fez um café no ponto. Uma pequena chícara e bebeu com gosto. Não estava com fome, deixou para fazer um lanche na sua volta. Estava quase na hora. Entrou no quarto e viu seu uniforme de campo solto e bem dobrado em sua cama e gostou do que viu. Bem passado como sempre foi quando o usava. O lenço ele dobrou devagar. Viu na parede o porta-chapéus com o seu bem acondicionado. Os sapatos foram engraxados e os meiões preparados na cadeira de vime ao lado.

                  Não precisava correr, sabia a hora que ia iniciar a contenda, mais conhecida como reunião. Ele já fora um deles, mas agora o passado era longo e o caminho que achou que não ia acontecer mudou de rumo como o vento que sopra para o norte e alguém lhe diz para ir para o sul. No seu subconsciente sempre achou que não teria mais volta. Vestiu seu uniforme como sempre vestia. O pequeno relógio de seu pai que abraçava a parede verde clara da saleta da entrada marcava quinze para as duas da tarde. Tempo suficiente para ele chegar e rever e resolver a contenda que seu destino o levara até ali. Na Rua da Angustia ninguém olhou para ele. Na Praça dos Piedosos não viu ninguém. Chegou à sede sorrindo, ninguém olhou para ele. Para muitos ele sempre esteve ali. Não era nada não era ninguém. Levantou as mãos e orou. Pediu a Deus em uma prece profunda que mudasse o coração da irmandade, que pensassem mais nos outros que em si. A cidade precisava mudar. Aqueles sorrisos de outrora, aqueles apertos de mãos, aqueles abraços tão gostosos não podiam ficar armazenados no coração das pessoas.

                      Ele sempre soube que o começo de tudo estava ali, naquele Grupo Escoteiro onde se acreditava em uma Lei, onde se dizia que há honra estava acima da vida e da morte. Onde a palavra tinha um dom de ser acreditado, pois a grandeza destas máximas não consiste em receber aplausos, mas sim em fazer por merecer. Todos se dirigiram a ferradura. Hora do Cerimonial. Hora da reunião da família escoteira hora da bandeira ressoar no ar. Ele ficou junto à chefia, não houve sequer um abraço um aperto de mão. Ele notou olhos tristes, faces angustiadas, enrugadas, sorrisos tortos, palavreado difícil para entender. Os lobos tentavam sorrir e não conseguiam. As patrulhas desleixadas, os seniores a conversar entre si. Os chefes não se olhavam e sentia-se que ali não havia amor, amizade, lealdade e os que estavam presentes eram como se fossem mais um dos fantasmas escoteiros que não se conheciam.

                        A bandeira foi içada. Não houve canções, hinos nada. Faltava o calor humano. Faltava um olhar carinhoso, faltava uma voz que unisse a todos outra vez. Ele pediu a palavra. O olharam como se fosse um estranho. Afinal agora era mesmo um estranho. Ele humildemente foi ao centro da ferradura, tentou olhar nos olhos de cada um para transmitir amor. Estava difícil, olhou para o céu e pediu ao Senhor seu Deus: - Dá-me Senhor: um coração vigilante, que nenhum pensamento vil o afaste de ti; um coração nobre, que nenhum sentimento indigno o rebaixe; um coração reto, que nenhuma maldade desvie; um coração generoso para servir. Senhor que cada um de nós possa amar uns aos outros, que possamos aprender a sorrir, a cantar a dizer aleluia Senhor por uma graça alcançada.

                        Um sorriso de um Lobinho se espalhou no ar, os gritos de patrulha eram gostosamente gritados pelos escoteiros de uma maneira exemplar. Os seniores davam risadas e abraçavam-se entre si.  Agora eles contavam “causos” sorrindo e as guias aplaudindo. Um Chefe veio correndo abraçar outro Chefe chorando e pedindo perdão. Um zum zum se espalhou como o vento que soprava sem destino. Ele sorriu e olhou para o céu. Obrigado meu Deus pela graça que me destes. Permitiu-me fazer o meu melhor possível hoje E que eu almeje faze-lo ainda melhor amanhã. Ensina-me sempre que o dever, longe de ser um inimigo, é um amigo. Faça-me encarar até a mais desagradável tarefa, alegremente. Dê-me fé para compreender o meu propósito nesta vida e abra minha mente para a verdade, e enche meu coração com amor. – Era hora de partir, ele sabia que ali tudo havia se alterado. Ele sabia que a cidade iria acompanhar, portanto era hora de voltar.


                           Fez questão de abraçar a cada um em particular. Seu aperto de mão era como se fosse fagulhas de amor e paz a jorrar no coração de cada um. No portão deu seu último olhar. Viu uma Lobinha sorrindo e dizendo adeus. Ele sabia que aquele adeus e o sorriso era o que sua alma precisava. Entrou em sua casa, uma pequena lágrima apareceu e correu pela sua face até desaparecer no chão que ele pisava. Agora era hora de partir, fechou as janelas, beijou um pequeno crucifixo que estava no quarto de sua mãe. Lembrou-se do seu sorriso que sempre lhe deu antes de partir. Saiu devagar pela Rua da Amizade, viu outra placa, tinham trocado. Passou pela praça e viu que se chamava Praça do Amor. Havia cheiro de perfume no ar, rosas sorriam para todos que passavam. A praça cheia, o povo a cantar. Na saída uma nova placa dizia: - Bem vindos a Portal da Esperança. Um clarão azul claro o levou de uma só vez. Ele com um sorriso lembrou-se das palavras de um poeta: - Ainda que haja noite no coração, vale a pena sorrir para que haja estrelas na escuridão...

Os irmãos de Mowgly. A saga de Kaa, Baloo, Bagueera e o Lobo Gris.


Os irmãos de Mowgly.
A saga de Kaa, Baloo, Bagueera e o Lobo Gris.

                          Aconteceu há muito tempo. O povo de Seeonee era chamado de Povo Livre. Eles tinham organização, leis e uma grande fraternidade. Sabiam se identificar uns com os outros e se necessário projetar-se neles. Estavam prontos a sacrificar sua própria vida por todos os irmãos da Alcatéia. Lobo Gris era um lobo ativo, prestativo que fazia questão de se mostrar o mais forte sem ser superior aos outros lobos. Não aceitava quem quisesse superá-lo em destreza e na caça ao gamo. Exercia na Alcatéia seu direito de voto, e fazia questão da disciplina e obediência principalmente em proveito coletivo. Quando naquela tarde de sol poente aquela coisinha de pele lisa apareceu ele se assustou. Nunca imaginou que estava chegando ao Povo livre de Seeonee um novo membro que ia ser seu amigo para sempre. Preparou-se para uma luta de morte quando Chery-Khan rompeu a entrada da Gruta e exigiu que os lobos entregassem a ele aquela coisinha miúda.

                        Foi ali que passou a amar o menino, que agora tão franzino não sabia se defender. Foi ali que pela primeira vez disse a ele: - Pele lisa, filhote de homem, um dia tu serás o Senhor da Jângal, agora filho de Raksha, será meu irmão de caverna. Saiba que seu caminho será sempre o meu caminho. A tua caça será a minha caça e se houver uma luta de morte será a minha luta também! Os novos caminhos para Mowgly estavam agora junto aos dele e de todos os seus irmãos lobos. Aceitou Balu o urso gordo como amigo de Mowgly, aceitou Bagheera a Pantera Negra como defensora do menino da selva. Nunca pensou que Mowgly seria aquele que poria para correr o Tigre Manco, comedor de gente e que todos odiavam. Shery Khan era um tigre enorme e robusto e mesmo com toda sua força nunca atacava pela frente, sempre esperando o melhor momento para atacar pelas costas dar seu bote mortal.  Nunca viu falar de Messua, a verdadeira mãe de Mowgly até quando ele cresceu e nos Tempos das Falas Novas sumiu da Jângal por muitas luas.

                   Nunca esqueceu quando Tabaqui atrás de restos de comida satisfazia-se com restos deixados por outros animais. Era por isto que o chamavam de Lambe-Pratos. Pai lobo nunca o deixou entrar na caverna. Dava-lhe as sobras de ossos em um canto da fora da caverna. Naquele dia Tabaqui contou que Shere Khan o tigre manco caçava nestas paragens. Pai lobo ao saber ficou indignado, pois de acordo com a lei da selva ele não podia caçar ali. Se o fizesse teria antes que avisar.  Shery Khan agora uivava de dor porque caiu nas brasas de uma fogueira e saiu rosnando furioso. Foi quando avistou o filhote de homem, uma criaturinha humana nuzinho em pelo. Acostumado a lidar com seus filhotes o levou junto a Mãe Loba, Raksha. Esta acolheu o menino com todo carinho e o aconchegou-se para aquecer. Foi neste dia que Shery Khan exigiu a Alcatéia sua caça. – Ela me pertence – Uivou alto. A entrada da caverna era pequena e o Tigre Manco não pode entrar. Foi naquele dia que o Lobo Gris se orgulho da Alcatéia ao ouvir a voz firme do Pai lobo que dizia ao Tigre: - Somos um povo livre, não recebemos ordens de ninguém além do seu Chefe. O filhote de homem procurou abrigo aqui e aqui vai ficar seguro.

                   Amou Raksha que completou: - O filhote de homem é nosso. Viverá e correrá pelos campos e caçará junto com nossos filhos. Vai-te embora ó Lungri (era assim que ela o chamava por ter nascido manco de um pata). Pai Lobo e Raksha decidiram que Mowgly, que na linguagem dos lobos significa Pequena Rã, iria ser criado junto com todos os filhos da Alcatéia dos lobos. Todos conheciam a Lei da Jângal que dizia que os filhotes desmamados são levados ao Conselho, na noite de lua cheia e lá são apresentados na Roca de Conselho e a toda a Alcatéia. Isto feito começam a viver livres para caçar onde quiserem. Lobo Gris nunca esqueceu aquela noite de lua cheia, quando o pai lobo e a mãe loba levaram Mowgly para a Roca do Conselho. Em cima de uma pedra alta Akelá o Velho lobo solitário e respeitado por sua força e astúcia apresentou um a um os filhotes e dizia: - Vós conheceis a Lei! Olhai bem o lobo! Olhai bem! E quando chegou a vez de Mowgly Pai Lobo o empurrou para dentro do circulo e antes de falar novamente Shery Khan gritou alto na porta da caverna: - Este filhote de homem é meu, o que tem o Povo livre com este filhote de homem?

                     Um pequeno tumulto se formou. Sabia-se que em caso de dúvida manda a lei que para alguém ter o direito de ser admitido na Alcatéia tem de ter dois votos ao seu favor. – Quem se apresenta para defender o filhote de homem? Perguntou Akelá. Foi então que Baloo usando seu direito na Palavra do Conselho disse: - Sou a favor do filhote de homem, não vejo mal nenhum ele permanecer entre nós. Faltava mais um voto e eis que surge Bagheera a Pantera Negra. Todos tinham por ela enorme respeito, pois conheciam sua força e astucia. – Ela disse – Akelá, direito eu não tenho de falar neste Conselho, mas a Lei da Jângal diz que na duvida quanto à vida de um filhote, ele pode ser comprado por um certo preço. Eu ofereço esse preço pela vida do filhote de Homem! É uma vergonha matar um indefeso filhote de homem, que mais tarde pode ser de grande utilidade para todos nós! – Completou Baloo. Bagheera continuou: - Ofereço pela sua vida um touro gordo que acabei de matar a uma milha daqui. Aceitam minha proposta? Um clamor enorme na Alcatéia. Shery Khan urrando de raiva e despeito saiu rosnando: - Urra, urra! Urra que o tempo virá que esta coisinha pequena te fará urrar noutro tom!

                       Os tempos passaram. Mowgly cresceu. Lobo Gris sempre ao seu lado.  Nunca esqueceu os Tempos das Falas Novas, na Embriaguez da Primavera quando Mowgly sentindo-se só partiu sem rumo pela floresta da Jangal. O Lobo Gris foi o único que foi atrás, pois os demais aproveitavam a primavera para correr e cantar e uivar pelos montes e campos. Nunca esqueceu quando Mowgly quase chorando dizia: - Porque não morri nas garras dos dholes? Gemeu Mowgly. Minha força esvaiu-se e não foi veneno. Dia e noite ouço um passo duplo no meu caminho. Quando volto à cabeça sinto que alguém se esconde atrás de mim. Procuro por toda parte atrás dos troncos, atrás das pedras, e não encontro ninguém. Chamo e não tenho resposta, mas sinto que alguém me ouve e se guarda de responder. Se me deito, não consigo descanso. Corri a corrida da primavera e não sosseguei. Banho-me e não me refresco. O caçar enfada-me. A flor vermelha está a ferver em meu sangue. Meus ossos viraram água. Não sei o que...

                     E assim a história vai chegando ao fim. - Para que falar? Observou Baloo. Akelá disse que Mowgly levaria Mowgly para a alcatéia dos homens outra vez. Também eu o disse, mas que ouve Baloo? Bagheera, onde está Bagheera? Esta noite se foi? Ela também sabe disso, é da lei. - Quando nos encontramos nas Tocas Frias, homenzinho, eu já o sabia acrescentou Kaa. Homem vai para homens, embora a Jângal não o expulse. - A Jângal não me expulsa, então? Sussurrou Mowgly.

- O Lobo Gris e seus três irmãos uivaram furiosamente: - Enquanto vivermos ninguém, ninguém ousará...

terça-feira, 29 de março de 2016

E o sonho de Pato Manco se realizou.


Lendas Escoteiras.
E o sonho de Pato Manco se realizou.

                   Quanto Pato Manco nasceu sua mãe virou as costas e disse – Não é meu filho! Todos ficaram embasbacados com esta exclamação. Uma mãe dizer isto? Quem sabe por que nasceu sorrindo e não chorou? Diziam na época que quando isto acontece o bebê é filho do Coisa Ruim. Bem os médicos não acreditavam nisto. No hospital de Ponte do Rio Verde ele foi bem tratado. Com cinco dias mandaram chamar Dona Neném e ela relutantemente foi buscar seu filho. Notou que uma perna era mais curta que a outra, um aleijado como filho? Batizou como Mítico da Anunciação Carneiro. – Dona Neném, não existe este nome. Mítico eu nunca vi! Ela foi irredutível. Onde teria achado este nome? Zózimo seu marido que morreu foi quem lhe contou de um tal Mítico que morreu de doença matada quando ele era menino. Aos trancos e barrancos ela o criou. Mítico custou para aprender a andar. Sua perna doía horrivelmente quando dava um passo. Ela lhe dava umas palmadas na bunda gritando – Anda vagabundo! Não vou carregar você à vida toda!

                 Logo que entrou para a escola todos os chamavam de Pato Manco. Que seja ele pensava, melhor que Mítico que foi apedrejado em sua cidade. Mas o que ele fez para isto? Ele pensava. Sua mãe nunca lhe contou. O pior era que ele sempre foi o melhor da classe e mesmo com seu esforço sua professora dona Naildes o olhava com um místico de desprezo. Pato Manco nunca perguntou por quê. Acostumou com a cidade quase em peso lhe virando as costas, jogando pedras e o chamando de coisas impublicáveis. Quase não saia de casa a não ser para ir à escola. Sua mãe nunca lhe deu amor, carinho nada. Ele nunca cobrou, pois não sabia o que era isto. Achava que sua vida seria assim e não tinha motivos para reclamar. Nunca pensou o que seria quando crescesse. Não tinha amigos na cidade e só Vitória o olhava com um misto de piedade que ele não gostava. Vitória era da sua classe. Um dia ela sorriu para ele. Seguiu seu caminho, pois nunca poderia falar com ela. Sabia que por onde passasse todos iriam gritar alto e o chamar de Pato Manco. Que chamem pensou. Até o Padre Nestor não o olhava com bons olhos. Ele sabia o que aconteceu com Mítico em Arroio Seco e quando olhava para Pato Manco pensava estar vendo tudo de novo como se fosse um filme.

                Pato Manco naquela manhã estava sentado no degrau de sua casa. Estavam em férias e não havia escola. Ruim, pois mesmo sendo maltratado ele gostava da escola. Ouviu o som de uma fanfarra. Impossível pensou. Só no aniversário da cidade ou no Sete de Setembro. No começo da sua rua ele avistou a fanfarra. Estranhou. Não era de sua cidade. Quando passaram em frente sua casa ele ficou embasbacado. Dezenas de meninos de calças curtas, Chapelão, um lenço no pescoço e uma mochila nas costas. Cada um tinha um pedaço de pau nas mãos. – Que coisa maravilhosa era aquela? Pensou Pato Manco. Não deu outra, como centenas de meninos da cidade ele foi atrás deles. Marchavam tal e qual o Tiro de Guerra. Ele sorria e mesmo sentindo uma dor terrível nas pernas não desistiu. Quando subiram o morro para o Bairro das Palmeiras ele custou a subir também. Ficou para trás, mas eles viraram para o Colégio Dom Bosco. No bosque estava um caminhão cheio de tralhas.

                Em poucas horas eles armaram as barracas e muitos já faziam comida em seus fogões de barro. Pato Manco não pensava, agora ele só via, cheirava a comida, e sua audição pescava tudo que a meninada dizia. Falavam Sempre Alerta, falavam Monitor, cozinheiro e Pato Manco cada vez mais se apaixonava por eles. Alguém bateu em suas costas – Virou e viu uma menina da idade dele. – Quer almoçar conosco? Pato Manco ficou apalermado. Nunca ninguém dirigiu a palavra assim para ele e nunca o convidaram para nada. Aceitou e foi com a menina. Ela lhe deu um prato de esmalte, uma colher e um canequinho de esmalte. Sorriu para ele. Deus meu! Isto é a felicidade que tanto falam? – Ele pensou. Entrou na fila, comeu com todo mundo. Achou bonito todos rezarem. Ele não entendia nada, mas rezou também. Já estava escurecendo quando Seu Mateus o chamou. Sua mãe me mandou buscar você! Ele não queria sair dali, mas tinha um medo danado dela. Foi embora e todos os meninos e meninas apertaram sua mão e o convidaram para voltar lá no dia seguinte.

                   Pato Manco levantou cedo. Chegou lá quando eles faziam ginástica. Ele sabia que não conseguiria fazer. Mas quando terminou muitos dos meninos da Gaivota vieram lhe abraçar. Foram dias maravilhosos. Ele brincou com tudo que fizeram e até esqueceu um pouco sua dor na perna que sempre o fazia sofrer. Quando a noite chegou o convidaram para um fogo. Nunca tinha visto nada vida. Foi o dia que chorou. Pato Manco aprendeu a não chorar. Ele sofria com sua perna, sofria com falta de amor de sua mãe, e com a meninada a jogar pedra nele na rua. Agora era diferente. Nunca pensou que podia existir uma fogueira assim, onde todos cantavam, riam, brincavam e faziam cinema em volta do fogo. De novo Seu Mateus a chamá-lo. No dia seguinte correu de novo para os Escoteiros. Quando chegou lá já eram onze da manhã. O bosque que estavam estava vazio. Sem perceber correu até a estação de trem. Eles estavam lá esperando para embarcar. Viu a molecada da cidade lá vendo os escoteiros partirem. Nem notou eles gritarem: - Pato Manco! Pato Manco! Ele chorava, pois perdeu amigos que o destino reservou para ele ter poucos dias somente.

                  Seu Mateus foi à estação procurá-lo. Pato Manco sumiu. O delegado mandou um investigador atrás dele na capital onde o grupo escoteiro visitante residia. Ninguém sabia dele. Disseram que deram adeus quando o trem partiu e o viram chorando e correndo junto ao vagão. Depois sumiu em uma moita de capim colonião. Dona Neném não chorou. Que ele suma para sempre!  Só meu deu transtornos e infelicidade. Passaram-se trinta e cinco anos. Dona Neném estava com quase setenta anos. Entrevada em uma cadeira de rodas ela pedia esmolas pelas ruas da cidade. Na esquina da Avenida dos Perdizes com a Marechal Deodoro viu um enorme carro negro parando ao seu lado. A rua ficou cheia de gente. Uma senhora distinta de cabelos brancos com um chalé nos ombros desceu e junto a um homem de cabelos brancos, com um terno muito elegante e com uma bengala de prata foi até ela. Ela o olhou e não sabia o que dizer. Reconheceu logo o seu filho. Seus olhos ficaram marejados de lágrima.


               - Mamãe, ele disse baixinho quase sussurrando. Mamãe.  Eu vim te buscar. Está na hora de ir para casa. Dois homens fortes de terno e óculos escuros a pegaram e colocaram na limusine. Dona Neném não sabia o que dizer, só sabia chorar. Ali entre aquela senhora distinta e seu filho ela não tinha palavras. Só as lagrimas a machucar seu coração pelo que fez ao seu filho quando menino. Toda a multidão viram os três abraçados soluçando profundamente. O carro partiu. A cidade em peso lá – Alguém perguntou: Seria o Pato Manco? Um zum, zum percorreu a multidão. E a senhora distinta? Não seria a Vitória?

domingo, 27 de março de 2016

A doce vingança do Grilo Falante.


Lendas Escoteiras.
A doce vingança do Grilo Falante.

               Pertencia a uma família aristocrática. Netos de um Duque francês no reinado de Luiz XV. Faziam questão do título por isto Luis Alfredo de Albuquerque e Orsinni não podia ser apenas um menino igual aos outros. Sentia-se preso em casa e na escola. Não podia sair sem seguranças. Estudava no melhor colégio da cidade. Alfred o mordomo o vigiava constantemente. Fazia suas estripulias na cozinha com o Dandreia, um cozinheiro francês. Luiz gostava de falar. Falava muito e gesticulava demais. Detestava os professores sempre coloquial com ele. Por qualquer coisa lhe chamavam a atenção. Até Diogo seu motorista implicava o tempo todo – Ordens de seu pai e sua mãe Senhor Luis! Varias vezes foi levado a um Psicólogo Famoso que ria quando estava com ele – Apenas um menino Dom Joaquim Albuquerque e Orsinni! Resolveram levar em outro que aconselhou atividades em grupo que pudesse produzir nele disciplina e autenticidade, e quem sabe novos caminhos. Um amigo Inglês sugeriu o escotismo. Tinham ouvido falar, mas desconheciam por completo o que seria. Sua secretária pesquisou tudo sobre escotismo. Encontraram um grupo próximo a sua casa.

               Em um sábado com sua esposa foram pessoalmente até lá. Preocuparam-se como os acampamentos e excursões sem a presença de um segurança. O responsável não abriu mão. O Chefe mostrou aos pais as vantagens do programa escoteiro. Eles concordaram com reservas. Luiz Alfredo de Albuquerque e Orsinni foi apresentado à Alcateia e entrou na Matilha Verde. Era verão brasileiro. Não dando o braço a torcer seus pais gostaram do que viram.  Assim começou a saga de Luis Alfredo de Albuquerque e Orsinni que de família nobre, disciplina rígida agora era lobo em uma Alcatéia de Seeonee. Não parava de falar, de cantar, conversava ininterruptamente todo o tempo. Não ficava parado. Na matilha Verde muitas vezes não sabiam onde estava.

              Todos na Alcatéia tinham apelido. O dele agora era Grilo Falante. Luiz Alfredo achou bonito. Fez uma pesquisa na internet e gostou do que leu. Mesmo irrequieto e arteiro em dois meses terminou seu adestramento para fazer a promessa. No dia os pais foram convidados. Ainda não sabiam do apelido. Fumacinha, uma lobinha da mesma idade,  tornou-se sua amiga e confidente. A zorra começou quando ligou para sua mansão e pediu para falar com o Grilo Falante. Desligaram. Insistiu. Desligaram. Resolveu bater a porta em sua mansão. O mordomo sério deu nela uma “carraspana” o que a deixou triste e foi para sua casa chorando. A mãe quis saber o que aconteceu e Fumacinha contou. Ela pegou a filha pela mão e foi até a casa do Grilo Falante. Falou poucas e boas com o mordomo. Nunca em sua vida agiu daquela maneira. Educada nunca agiu assim. Sua filha tinha oito anos e não poderia ser tratada daquela maneira.

              Os pais de Grilo Falante não estavam em casa. Quando souberam do acontecido mandaram o mordomo pedir desculpas à vizinha. Afinal primavam pela educação. Sabendo do apelido só o deixariam participar do ultimo acantonamento. Não volta ele não iria mais ao grupo. Explicaram ao Chefe do Grupo que o filho iria sair e disse o motivo. O Chefe Tentou argumentar, mas eles foram irredutíveis. Grilo Falante só ficou sabendo quando chegou a sua casa. Ficou perplexo. Seus pais não perguntaram a ele quando o matricularam e agora faziam a mesma coisa. Ele tinha um enorme amor pelos lobinhos e não ia aceitar. Amava a Alcateia, levava a vida que sempre sonhou. Adorava Fumacinha e os demais de sua matilha. Argumentou, chorou, implorou, mas tudo inútil. Foi malcriado com seus pais.  – Sem discussão. Você só obedece e mais nada.

                 No sábado seguinte ao chegar à janela viu na rua vários lobinhos e lobinhas com faixas e cartazes dizendo: - Volta! Volta! Nós queremos você! Viva o Grilo Falante! Viva o Luis Alfredo de Albuquerque e Orsinni! Seus pais não gostaram. Chamaram a policia. Na vida do Grilo Falante tudo mudou. Mudou na escola e a diretora chamou seus pais. Disse que ele ficou indisciplinado e não participava mais de trabalho em grupo. Não adiantou a reprimenda dos pais. Nenhum castigo resolvia. Tiraram dele o computador, a TV e os seus brinquedos. O tempo não ajudou. Luiz Alfredo de Albuquerque e Orsinni vivia triste, escondido em algum canto da mansão. Uma noite, seus pais fizeram uma recepção de gala em sua residência. Presentes nobres italianos e famosos embaixadores da corte europeia. Autoridades brasileiras e políticos também estavam presentes. Em volta da mansão centenas de limusines e helicópteros.

               A recepção estava no auge. Uma orquestra tocava sem parar. Casais dançavam. Todos se divertiam e a champanhe da melhor qualidade assim como o uísque rolavam a solta. Lá pela meia noite, a luz piscou algumas vezes e os presentes sobressaltados viram cair do teto centenas de enormes grilos que voavam em torno, saltitantes e não deixava ninguém em paz. Assustados, as pessoas corriam para fora da mansão. Ninguém sabia o que fazer. Um clarão aconteceu e no alto da escadaria de mármore nada mais nada menos que Luis Alfredo de Albuquerque e Orsinni fantasiado de Grito Falante, com uma Guguzela tocava alto e dizia: Sou o Grilo Falante! Meus pais não querem meu apelido, mas eu gosto. Eu sou o Grilo Falante e quero ser lobinho!  Abismados os presentes começaram a se retirar. Outros se entusiasmaram e bateram palmas gritando: Grilo Falante! Grilo Falante! Nada mais havia a dizer.

               Os pais o levaram para o quarto. Preocupados e furiosos com o acontecido. Todos se foram. A casa ficou vazia. Naquela noite nada disseram. No outro dia, a imprensa achou o fato um “prato feito” para as manchetes. Luis Alfredo de Albuquerque e Orsinni ficou preso em seu quarto. Nem na escola foi. O tema tomou conta da cidade. Todos os Grupos Escoteiros ficaram sabendo da saída e o porquê foi o motivo. Milhares de telegramas não paravam de chegar. Na internet era o fato do dia. Passado dois meses em um sábado frio, sem sol, lá estava Luis Alfredo de Albuquerque e Orsinni chegando à sede do Grupo Escoteiro. Os pais pediram desculpas ao Chefe do Grupo. Uma alegria geral. Grilo Falante voltou diziam todos.


               Luis Alfredo de Albuquerque e Orsinni voltou à vida de Lobinho. Agora era um Grilo Falante com muito orgulho. Mudou muito sua maneira de ser. Mais responsável e sem abandonar aquela característica que lhe era tão peculiar. Falar, falar e até algumas pequenas traquinagens. Seus pais receberam uma carta da Direção Regional agradecendo por trazê-lo de volta. Grilo Falante ficou por muitos anos na saga escoteira. Formou-se, e hoje dirige a empresa do pai. Casou-se e tem dois filhos. Ambos lobinhos. Um se chama Murilo Vinicius de Albuquerque e Orsinni e a outra Lívia Valquíria de Albuquerque e Orsinni. Na alcateia são mais conhecidos como Risadinha e Cigarra Altaneira. A vida é assim, uns gostam outros não. O respeito é tudo na vida, mas cada um deve escolher seu próprio destino. Disto não tenho nenhuma dúvida!

sábado, 26 de março de 2016

50 anos depois...


Lendas Escoteiras.
50 anos depois...

                    Parei o carro em frente à pensão Estrela. Fora uma nova pintura nada mudou. A Praça Dom Giovani também há não ser as árvores que cresceram e estavam enormes. Havia canteiros de Tulipas, Rosas brancas que Jânio o Velho jardineiro tão bem cuidava. A Poeira fina que o vento trazia do Morro dos Vaqueiros era a mesma. Uma velha mina que de ouro não tinha nada. A Rua do Outono e a Ambares também. De resto tudo igual. Como sempre moradores a espreita nas janelas vendo quem chega e quem sai. Mesmo assim bateu uma saudade enorme. Porque voltei? Não tinha jurado nunca mais voltar? Eu dizia o que o Velho poeta acreditava: - Querido passado, obrigado por tudo que me ensinou... Querido futuro, pode vir! Seria isto mesmo? Antes achava que era por pouco tempo. 50 anos se passaram e agora já velho pensava em comprar uma casinha abrir um consultório e morrer em paz.

               Olhei para a prefeitura, saudades do Benevides, um prefeito amigo dos escoteiros que nunca negou ajuda. Resolvi sentar um pouco no Banco da Praça para recordar. Valeria a pena? Um ar de jasmim cobriu de perfume o lugar onde sentei. Duas senhoras passaram me olhando espantadas. Eu sabia como era. Cidade pequena com os mesmo sinais e defeitos. Ou melhor, não seria uma qualidade? A Macaxeira estava enorme. Sua sombra era um convite para dormitar. Senti uma pontada no peito. Eu nunca perdi as esperanças. A gente nunca sabe o que o amanhã vai nos trazer. Fechei os olhos e deixei a memória viajar no tempo. Era como se menino Escoteiro ainda estivesse ali vendo-a correr entre as flores do jardim, colhendo rosas, tulipas vermelhas... Além dela meu pensamento me fez recordar de Zé Antonio. Meu amigo, meu Submonitor da Patrulha Morcego. Sorria ao lembrar as aventuras na Serra do Lagarto, nas Montanhas do Falcão, nas várzeas do Quati. Lágrimas caíram. Lembrar não me fazia bem.

                  E os meus sonhos impossíveis com Andaluzia? Ah! Casar morar em uma casinha branca de janelas azuis. Sair pela manhã para meu consultório e ajudar os doentes mais humildes que não podiam pagar. Voltar ver a chaminé com sua fumaça cinzenta, sinal que ela fazia o jantar. Ela sorridente chegaria à varanda, com seu vestido de chita azul, me daria um beijo apaixonado e um sorriso entre palavras: - Meu amor, o jantar está pronto! Sonhos de menino Escoteiro, sonhos que nunca se realizaram. Passei a sonhar com ela noite e dia. Nos meus novos sonhos acabaram-se os acampamentos, as aventuras e jornadas a procurar novos rumos para explorar. Até mesmo Zé Antonio meu amigo do peito sumiu nas sombras de minha mente. Eu só tinha pensamentos para Andaluzia. Sempre acreditei que um dia ela seria minha e seriamos felizes para sempre como nos contos de fadas.

                     Um dia ela se foi. Fiquei arrasado. Zé Antonio disse que ela fugiu com Capistrano. Logo ele? Um mau caráter, marginal nunca foi Escoteiro nunca foi amigo de ninguém. Porque Zé Antonio ela fugiu com ele? Será que ela não sabia do meu amor? Da minha paixão, dos meus sonhos construídos do nada para fazer dela a mulher mais feliz do mundo? Ah! Que saudades do seu beijo e do seu abraço que nunca tive saudades do seu sorriso do seu cheiro, meu Deus quantas saudades dela. Esqueci minha patrulha, meu cordão dourado os sonhos da Lis de Ouro. Isto agora não tinha mais importância. Meu mundo ruiu, acabou. Minha mãe nem ligava e nem queria saber o que eu sentia. Meus Deus! Que burrice que eu fiz. Peguei minha mochila, meu cantil, minha capa negra e parti sem rumo. Só por causa dela? Um benfeitor invisível me dizia: - Escoteiro você ainda tem uma vida pela frente um futuro incrível, sua estrada nunca terá fim!

                        Parti sem dizer adeus a ninguém. Nem mesmo a Zé Antonio. A estrada foi minha morada por muitos meses. Um ano depois parei. Sentei na beira do caminho e chorei. Por ela? Por minha mãe? Por Zé Antonio ou meus amigos escoteiros? Eu chorava por todos. Perdi os sentidos e cai na beira do caminho. Um Velho passou a cavalo e me socorreu. Acordei em um catre em sua cabana. Havia me alimentado. Ele sorrindo me perguntou quem eu era. Engasgado com o choro na alma não sabia responder. – Você pode ficar aqui enquanto quiser. Aqui sempre terá um lar. Eu estava magro, osso puro e quase não comia, mas aos poucos as recordações foram ficando para trás. Morei com ele quase três anos. Recuperei minhas forças, resolvi partir. Um dia antes ouvi um tossido forte, corri até ele. Levou a mão no meu peito e falou baixinho: - Sempre há outra chance, uma outra amizade, um outro amor. Para todo fim, um recomeço. Em seguida morreu em meus braços. O enterrei no sopé da montanha ao lado de Marta sua esposa que morrera anos atrás.

                    Parti rumo ao Rio de Janeiro. Trabalhei duro como ajudante de pedreiro, ajudei a construir arranha-céus, pontes avenidas. Não deixei de estudar. Com trinta anos me formei em medicina. Vez ou outra avistava escoteiros em ônibus, estradas, shoppings e me batia uma saudade enorme. Pensei em me apresentar, mas tinha vergonha do que fiz ao deixar minha patrulha ao léu. Um dia conheci Maria Bonita, casei, dois anos depois fugiu com um bancário e nunca mais voltou. Clinicava dia e noite. Muitas vezes sem cobrar. Fiz milhares de amigos. Os anos foram passando e resolvi voltar. A saudade de Andaluzia era demais. Quem inventou a distância nunca sofreu a dor de uma saudade. Teria este direito? Ainda teria amigos? Amigos da clinica choraram quando parti. Eu sabia que não haveria volta. Um vulto sentou ao meu lado no banco da praça. Barbas brancas enormes. Cabelos grisalhos. Um boné amarelo um sorriso que me lembrou alguém. Olá Juvenal ele disse. Olhei para ele. Meus olhos piscaram, era sim Zé Antonio, meu Sub Monitor.

              Incrível este reencontro! Choramos abraçados. Contei para ele minha vida, ele contou a sua. – Vai para minha casa até achar um lugar para morar. - E o escotismo? Perguntei. – Até hoje mora no meu coração. Mas desde que você partiu, ele não foi o mesmo. – Me convida a visitar? Perguntei. Ele sorriu. Bem vindo Doutor. Primeiro matar as saudades. Tenho a chave da sede. Vai ver que nada mudou. Queria perguntar, mas não sabia como. Não sei se ele iria entender. – Ele me olhou. Abaixou a cabeça e disse – Sei o que está pensando. Sim Andaluzia voltou cinco anos depois que você partiu. Nunca perguntou por você. Nunca perguntou por ninguém. Ela hoje vive na Casa de Repouso Dom Martinho. Lugar simples, doente dos pulmões não se lembra de ninguém. Pedi a ele que me levasse lá. Ele sorriu novamente. O passado não perdoa. Olhei para ele e nada disse. Amigos são assim nos atendem sem fazer perguntas.


               Um novo momento um novo recomeço iria dar forma em minha vida. Não foi por isto que voltei? Não sei se o futuro seria melhor e nem pensava nisto. Meu pensamento era só ela. Um grande amor ressurgiu das sombras para o meu presente que sempre sonhei. O sol estava se pondo no Morro dos Vaqueiros. O mesmo sol de antigamente. Quem sabe um novo sol em minha vida? O futuro? Só Deus para dizer. A distância pode impedir um beijo, um toque, um abraço. Mas não pode impedir um sentimento. Eu queria ser feliz e tinha este direito!

quarta-feira, 23 de março de 2016

Lindos e velhos tempos!


Lendas Escoteiras.
Lindos e velhos tempos!

                 Passava das onze da noite. Em volta do fogo alguns monitores e Leopardo um Chefe meu amigo me fazia companhia naquela noite na floresta do Ouro Negro. Ele aceitou meu convite para acampar. Sua tropa estava em férias e porque não estar ali como agora? O fogo crepitava leve. Pequeno, algumas achas e ao lado o bule de café. Navegador um Monitor mais antigo com uma pequena vara remexia as brasas da fogueira. Eu olhava como hipnotizado para as fagulhas que subiam aos céus e sumindo entre as árvores da floresta. Joshua parecia dormitar sentado no tronco, mas eu sabia que ele via e ouvia tudo. Eu o conhecia de longa data. Mocinho já tinha ido dormir. Estava cansado e merecia o descanso da noite. Zé Lovênio Monitor da Águia me olhava como a pedir para continuar a história que contava. Nem sei por que contei aquela história. Quando me lembrava dela meu coração parecia chorar de lembranças que eu não queria recordar. Às vezes eu penso que um fogo aceso em uma clareira em algum lugar perdido na floresta que acreditamos ser encantada, um céu estrelado sem luar seria o introito para lembranças. Porque fui contar aquela história? Dizem que a sabedoria dos velhos é um grande engano. Eles não se tornam mais sábios, mas sim mais prudentes... Ou não?

                 Não havia como fugir. Minha voz rouca começou novamente a narrar à história do Chefe Dakota. Ah Chefe Dakota! Minha mente voltou novamente ao passado. – Eu não sabia por que estava ali, na rua de alguém que não queria lembrar. Se quiserem saber eu passei em frente a sua casa sem perceber. Desbotada, um verde que ainda permanecia vivo, mas sem as cores de outrora. Quanto tempo estive ali? Nem me lembrava. Senti-me culpado. O jardim ainda era bem cuidado, sinal que ele não esqueceu seu amor pelas flores. Olhei de soslaio se havia alguém na janela. Não vi ninguém. Pensei em passar como quem passa pela vida sem olhar... Sem notar se estava pisando em flores para fugir de um passado que preferia não lembrar. Mas eu não seria o culpado? Não fui eu quem provocou sua saída do movimento? Acho que não. Tudo foi obra do ocaso. Se pudesse se Deus me concedesse está dádiva daria minha vida para voltar atrás. Estaria ainda vivo? Tudo aconteceu quando eu tinha dezesseis anos e ele já com seus cinquenta e poucos.

                  Num ato sem esperar subi os quatro degraus que levava a varanda de sua casa. Por quê? Para zombar dele de um passado que eu queria esquecer? Ele merecia? Mas eu insistia na minha cisma de tentar ver se ainda estava vivo. Quem sabe poderia pedir perdão? Dizer para ele que eu era menino, sem pensar no que fazia, e se tivesse me mantido calado tudo seria diferente. Dizem que os velhos acreditam em tudo, as pessoas de meia idade suspeitam de tudo, os jovens sabem tudo. Bati leve na porta. Ninguém. Bati novamente e uma voz miúda quase sumida disse baixinho: - Entre! – Entrei. A sala não mudou. A poltrona de couro marrom lá estava como sempre. Tentei ver através da luz opaca encontrá-lo. Aqui! Ele falou. Olhei pra perto da janela. Era ele sem sombra de dúvida. Velho, alquebrado, em uma cadeira de rodas com uma manta vermelha e azul em cima das pernas. – Bem vindo Apoema! Saudades de você! – Incrível. Ele lembrava do meu nome! Bem o que fiz não se esquece jamais. Olhei melhor para ele. Rosto fino, magro, olhos fundos que não conseguia saber a cor. Pelos meus cálculos já devia estar com mais de noventa anos!

                Fiquei sem voz. Não sabia o que dizer. A solidão é o preço que temos de pagar por termos nascido neste período moderno, tão cheio de liberdade, de independência e do nosso próprio egoísmo. Olhei para ele com os olhos rasos d’água. Ajoelhei-me em frente sua cadeira de rodas – Perdão Chefe Dakota! Perdão! Tantos anos deixei passar para dizer que me arrependo profundamente do que fiz! – Ele sorriu levemente. Falou baixinho quase sussurrando – Apoema, a juventude muitas vezes diz coisas que não quer dizer. Olhe comentam por aí que a sabedoria dos velhos é um grande engano. Eles não se tornam mais sábios, mas sim mais prudentes. Hoje eu compreendo você. Sei o que pensou. O errado sou eu! Minha mente correu no passado e tudo veio como se estivesse lá de corpo presente fazendo o que fiz. Eu sabia que durante a adolescência é vital repartir nossas experiências com pessoas que pensem como nós e que tenham o mesmo pique: - É importante sentir-se incluído num grupo, de pertencer a uma turma. Perde-se, no entanto, o convívio com pessoas de outras idades e de outros "planetas", que muito poderiam lapidar a nossa visão de mundo.

                   Claro, eu era outro. Mas pensei que ele queria me fazer mal. Entendi errado. Contei para os outros chefes minha visão do que pensei. O acusei de ser quem não era. Tudo porque ele docemente estava com as mãos em meu ombro e por causa de uma serpente sua mão correu minhas costas empurrando. Pensei que ele queria o que eu não era. Corri dali gritando. Ele tentou se defender e eu não o deixei continuar. Foi excluído do Grupo Escoteiro. Minha palavra de menino irresponsável valeu mais que a dele, um Chefe de caráter. Ele vendo as acusações resolveu sair. Deixou-nos órfãos de Chefe. Tudo por que eu o acusei injustamente. Entre iguais, tudo é igual. A vida ganha movimento é na diferença. Se você é rato de biblioteca, iria se divertir ouvindo as histórias contadas por um aventureiro experiente. Se você tem muita grana, ficaria surpreso em saber como dá duro o cara que trabalha de dia para poder estudar à noite e o quanto ele precisa economizar para tomar dois chopes no sábado. Se você é Escoteiro seria bacana que pudesse entendê-lo compreendê-lo, conversar com quem sabe o que faz.

                      O fogo se apagava querendo dizer que estava na hora de deixá-lo ao sabor do vento da floresta. Ninguém mais colocou uma acha para ele iluminar a clareira onde seis jovens e dois chefes pudessem curtir um conto que não era conto. Era mais quem sabe um desejo de se redimir, de pedir perdão, de arrependimento por um ato infantil de um jovem Escoteiro que sonhava e seu coração ficou doído por muitos e muitos anos. Lovênio levantou e nos disse boa noite e sempre alerta. Navegador o seguiu de cabeça baixa. Joshua me olhou, foi até a mim e me abraçou. Leopardo ficou em pé, a sombra da noite o apanhou de jeito. Parecia um gigante perdido na floresta das lembranças. Eu também o abracei. – Ele balançou a cabeça e disse baixinho. Pois é meu amigo Chefe, a saudade aperta... O futuro acorda, mas há coisas que a mágoa não afoga bons e maus velhos tempos em que a vida era um rascunho onde você anotava pedaços do destino. Antes éramos um só... Todos juntos num só caminho... À descoberta da existência de um movimento que até hoje deixa marcas profundas em todos nós...


                     “Fui dormir como quem não queria nada, mas sabia que todo caminho tinha lembranças e se eu não as encontrasse, minha jornada, meus caminhos não tinham razão de ser”.

segunda-feira, 21 de março de 2016

O preço de um sonho.


Lendas Escoteiras
O preço de um sonho.

                   Qual o preço de um sonho? Afinal sonhar tem preço fixo ou paga-se em suaves prestações? Dizem os poetas que sonho não tem preço, mas realizar tem. Depende de cada sonho, têm os sonhos com valores simples, outros irrealizáveis dependendo do que foi escolhido para um pobre mortal que sonhou por sonhar... Ah Bianca! Quantos sonhos tinha aquela menina? Sua mãe muitas vezes sorria e dizia – Filha põe os pés nos chão. Você sonha demais. Quantas vezes na sala de aula ela se assustava com a Madre Genoveva a gritar em seu ouvido: - Acorde menina pare de sonhar. Você veio aqui para estudar. Fazer o que? Se ela tinha tudo sabia que não tinha nada. O pai um homem importante, rico, quase não ficava em casa. Sua mãe taciturna, a proibia de tudo e não lhe negava nada desde que com ela presente. No seu quarto não sabia quantos presentes recebeu. Era pensar e alguém comprava para ela.

                    Ela sabia que a inveja é um pecado capital. Nas aulas de religião o Padre Enzo ensinou. Mas ela invejava e muito Giovana, Lena e tantas outras. Pareciam livres, pareciam pássaros soltos no ar a voar em qualquer direção escolhida. Ela? Ela não. Um motorista ia buscar e trazer no colégio. Ir ao cinema com sua mãe e mais ninguém. Um dia ouviu o pai dizer que ela podia ser raptada. – Fica de olho mulher. É só ela que temos e não sei se aguentarei viver sem ela. Quando ouviu isto pensou por vários dias. Porque ele não fica comigo, não passeia, não conversa e só uma vez me deu um beijo no rosto no aniversário dos onze anos? Ainda bem que ela podia sonhar. Sonhava acordada em sair por aí, a passear, a ver rapazes e moças de sua idade na praça, em pequenos bailes que ela ouvia algumas amigas contar. Em casa se trancava no quarto. Chorava muito, mas depois dormia e então era hora de sonhar.

                    Um dia fez o que não podia. Um sábado não viu ninguém. Saiu pela porta e nem o segurança estava. Sua mãe também não. Vestindo uma blusa rosa, um jeans velho e sem agasalho resolveu dar a volta no mundo. Iria ser uma nova aventureira, porque não? Pela primeira vez se sentiu forte, valente, corajosa e agora sim era dona de si mesma. Andou devagar, virou várias ruas. Parou em sinais esperando o verde. Bom demais! Vibrava! Isto sim é que é vida pensou. Alguém no seu ombro pós a mão. – Olhou devagar. Isto nunca aconteceu – Menina! Eu tenho uma rosa, formosa, pode pagar qualquer tostão. É para minha patrulha, pois vamos todas acampar!  Bianca ficou surpresa. Na algibeira tinha vinte reais. Deu a menina sorridente, de uniforme com um lenço azul da cor do mar. A menina sorriu. – Obrigada, não é muito? Não preciso respondeu Bianca. Posso conhecer sua patrulha?

                    Lá foram elas de mãos dadas pela Rua das Flores e em uma casinha pequenina outras meninas como ela brincavam de esconde, esconde. – Quer participar? Foi demais. Nunca Bianca teve tal liberdade. Foram horas de felicidade. Sim, o tempo, ele separa a alegria do compromisso e não nos dá a liberdade de brincar. Quando sonhamos queremos o sonhado para ontem de preferência, mas o tempo da vida é muitas vezes completamente diferente do nosso tempo interno e é nesta hora que outros fatores começam a minar a nossa confiança no nosso poder de realização dos nossos sonhos. Bianca se esqueceu de tudo. Tudo estava bom demais. A tarde foi chegando mansamente. E eis que de repente dezenas de radiopatrulhas cercaram a casinha das meninas que espantadas não entendiam por que. O seu pai chegou apressado, sua mãe com expressão severa. – O que fazes? Não avisas? Nos deixa pensando o pior?

                    Bianca queria chorar, mas sua felicidade de horas foi tanta que resolveu sorrir. Se o tempo foi curto sua alegria foi demais. Agora tinha novos motivos para sonhar. Dizem que começamos a criar macaquinhos na nossa cabeça quando resolvemos sonhar. Sonhos que um dia poderão ser verdade, mas será que vai dar certo mesmo? Será que quando eu alcançar isso vou me sentir feliz novamente? Pensou em pedir ao seu pai, a sua mãe, mas sabia que não iriam deixar. Pense bem, meninas de ninguém, você lá de família nobre no meio de gente pobre. Bianca pensava. Será que vale a pena tanto esforço? E assim começava o seu processo de autossabotagem de um sonho que não ia realizar. Se observarmos a natureza, existe nela tempo para tudo, temos as quatro estações, hora de esperar – inverno, hora de recriar - primavera, hora de deixar ir - outono, hora de se expor – verão.

                        A natureza é sábia, devemos usar desta mesma sabedoria, no nosso tempo para realizar o nosso sonho, o importante é você reconhecer se é isso mesmo que você quer isso mesmo que você sonhou, com todas as cores e detalhes. Feito isso, se entregue ao tempo da natureza, ela sabe o melhor momento para ser e será o melhor tempo para você também. Bianca naquela noite foi franca na sala de estar: - Ou me deixem participar ou nunca mais serei ninguém. Amo vocês, mas quero ser amada também, de outra maneira não do que estão a fazer dos meus sentimentos. Foi então que sua vida mudou. Bianca ficou amiga de Lena, que era amiga de Erico, que amava Giovana, que respeitava Enzo que era irmão de Lorenzo. Agora tinha uma patrulha para brincar, sorrir cantar e o melhor ir para as paragens do campo, da vida ao ar livre de poder voar como pássaros.


                         Seja quem você é e não quem o mundo deseja que você seja. Lute pelo que acredita, faça dos seus sonhos realidade. Bianca se tornou a menina mais feliz do mundo. Um cantil na algibeira, um lenço preso no arganéu. Um cinto de couro marrom, saia pelos campos como se fosse borboletas no ar. Não há mal que perdure quando nossos sonhos e desejos mora bem dentro da gente. Bianca agora escoteira aprendeu a sorrir novamente. Chega um tempo na vida que a gente aprende que ninguém nos decepciona, nós é que colocamos expectativa demais sobre o que pensamos. Cada um tem seu destino e a vida está aí para nos oferecer aquilo de bom que ela tem para dar!

sábado, 19 de março de 2016

Devaneios...


Devaneios...

Tem frases que marcam por uma vida. Tem poemas que ficam na história. Tem uns simples que a gente nunca esquece. Uma amiga escreveu: - Veja o que estou precisando: - Viajar, cair no mundo, me mandar... Por o pé na estrada. Nossa! Deu-me um aperto no coração. Estava precisando disto também, mas não posso mais. Quando bate saudades e desejos impossíveis vou para minha varanda e volto ao passado como um pássaro alado a escrever no céu o que um dia fez acontecer. Afinal se não puder fazer tudo, faça o que puder.  E então as palavras de saudades voltaram a acontecer. Coloquei no papel, e aqui deixo para cada um juntar as suas lembranças as minhas. Eu sempre disse a mim mesmo, quando algo bom faça você lembrar, temos três escolhas para decidir: - Deixar isso definir você, deixar isto destruir você ou fazer isto para te fazer mais feliz!  

- Bom demais partir sem destino. Como se o tempo não existisse e a vida fosse uma luz em um túnel do tempo que me levasse a qualquer lugar.  Uma mochila as costas, um bornal no costado, uma estrada sem fim, um sol poente se escondendo para a lua cheia chegar. Estrelas no céu, cantarolar pelo caminho, passadas simples sem pressa para vencer a jornada que não tem destino. Ouvir os pássaros noturnos no seu cantarolar. Uma clareira, uma pequena fogueira uma coruja a croquear. Insetos noturnos sapecando sons imperdíveis, vagalumes piscando luzes de amor. Sem tempo de partir, sem horário a cumprir. Uma cascata ao lado, fazendo sons miraculosos como se fosse uma orquestra de cordas desafiando os sons da madrugada. Quisera eu ter uma varinha de condão, me elevar no ar, tocar uma nuvem alva que passa e sorri para mim. Sentir o vento soprar com mais força e me deixar levar como uma pipa encantada procurando seu lugar. Pensamentos abstratos de desejos impossíveis que vagueiam no tempo, nada mais nada menos que sonhos que partem na velocidade do pensamento de um Velho que sabe que seu tempo já foi. Hoje? Hoje é sorrir, lembrar, sentir saudades e esperar quem sabe uma nova vida para tudo de novo recomeçar... Afinal a vida não é um recomeço?


Boa noite!

quinta-feira, 17 de março de 2016

A estrada do Adeus.


Crônicas escoteiras.
A estrada do Adeus.

                           Pingo D’água e Varetinha estavam desanimados. Já estavam cansados de dizer a mesma coisa e sabiam que não estavam sozinhos. Tudo mudou da água para o vinho. O escotismo agora era outro e eles não sabiam o que fazer. Pedir conselhos? Comentar com alguém? Eles acreditavam que nenhum adulto iria dar razão a eles. Claro fizeram tentativas no Conselho de Patrulha, mas o próprio Monitor não via nada de errado, portanto suas opiniões nunca foram levadas em consideração na Corte de Honra. Pensaram em comentar com o Diretor Técnico, mas ele e o Chefe Tavinho eram unha e carne. Eles não queriam sair do Grupo Escoteiro, mas tudo estava sendo levado para isto e o pior ninguém via nada. Ninguém enxergava que a tropa encolhia a cada mês e poucos procuravam agora se inscrever. Não dizem que o pior cego é o que não quer ver? Não iam a tanto, mas pensavam que tem gente que é cego e não por cegueira. Deve ser por falta de inteligência.

                             Pingo D’água e Varetinha eram amigos desde que se conheceram na tropa. Ambos eram de patrulhas diferentes. Ele da Patrulha Lobo e Varetinha da Patrulha Texugo, no entanto eram unidos como se fossem da mesma patrulha. Foram mais de dois anos de felicidade, fazendo acampamentos, excursões, grandes jogos, aventuras mil que agora escassearam e praticamente não existem mais. Lembravam-se do antigo Chefe Tornado com saudades. Ele sim era um Chefe que nunca deveria ter saído da tropa. Quando entrou a Lobo tinha seis patrulheiros. Ele foi o sétimo. Chefe Tornado era daqueles que dizia – Aprender é fazer. Quer aprender? Faça o nó na árvore ou no galho mais alto com uma só mão. Fazer no braço ou bastão na vai ajudar na hora do vamos ver! Ele lembrava que em vários acampamentos as patrulhas estavam completas e as atividades foram lindas. Eles não paravam. Era Morse à noite ou semáforas ou fumaça no dia, sinais de pista, seguir pista a moda índia, grandes pioneiras, dezenas de nós e amarras, barracas suspensas, artimanhas e engenhocas, nossa! Que saudades!

                     Tudo mudou com a mudança do Chefe Tornado para a Capital. Ele nunca teve um assistente uma pena, pois poderia ter dado continuidade à tropa. Chefe Lobão convidou o Chefe Tavinho para assumir a tropa. Chegou com ares de chefão. Sempre gritando falando com todo mundo e as patrulhas começaram a desanimar com as atividades. Jogos? Nem consultava ninguém. Muitas vezes dava uma bola e dizia - Se virem! Jogar futebol não era meu forte. Bastavam minhas atividades de educação física no colégio. Eu queria escotismo de campo, de luta, de aventuras e de desafios. Ele era cego mesmo, pois não percebia que as faltas aumentaram. Alguns desistiam e nem iam mais ao grupo para dizer que saíram e não iam mais voltar. De 32 escoteiros a tropa agora tinha 18 e muitas reuniões não passavam de 12.

                         Perna Fina o Monitor nem se incomodava. Ele sempre foi um bom gritador. Por ser maior e mais forte levava a patrulha no muque. Em tempo algum aprendeu que o bom líder e aquele que sabe liderar e ser liderado. Não ensinaram isto para ele. Esqueceu completamente que precisávamos ser consultados e ouvidos. Mesmo falando para ele entrava em um ouvido e saia por outro. E olhe que foi num tal Ponta de Flecha e voltou todo posudo se achando o tal. Mostrou o certificado como se fosse o melhor Monitor do mundo, e só faltou dizer que agora o respeito a ele tinha de ser maior. Eu e Varetinha conversávamos muito sobre isto. A maioria dos patrulheiros que ainda frequentavam nada dizia. Eu conversei com meu pai. Ele nunca foi Escoteiro e seu conselho foi – Faça o que achar melhor e completou – Aprenda a tomar decisões. Achar melhor? Tomar decisões? Chamei Varetinha e disse a ele que ia sair. Amava o escotismo. Sempre pensei que seria Escoteiro para sempre. A minha maneira aguentei por quase um ano as mudanças na tropa. Não dava mais. Nossa patrulha não tinha mais que três ou quatro frequentando. Ouve dias que éramos três.

                       No último acampamento, um dos poucos que fizemos não tivemos liberdade. Ele levou pais para cozinhar para nós. Disse que assim teríamos mais tempo para outras atividades. Deus do céu! Pensei que isto só com lobinhos. No nosso canto de patrulha ele não saia de lá. Sempre fazendo o que deveríamos fazer. O fogo do conselho foi o pior que participei. Só ele determinava só ele falava só ele dizia o que fazer. Esperei a reunião seguinte e procurei o Chefe Tavinho. Queria ser sincero e dizer por que estava saindo. Nunca devia ter feito isto. Ele me olhou e disse que ser Escoteiro não era para qualquer um. Para ficar e participar tinha de ser forte, aceitar sem reclamar. No escotismo não tem lugar para perdedores. Meu Deus! Nunca esperei isto dele. Eu era para ele um perdedor? Será isto mesmo? Será que ele estava certo e eu errado? Varetinha me disse que não ia falar com ele e lá não pisava mais. No sábado seguinte não fui. Por dois meses não apareci no Grupo Escoteiro. Ninguém nunca me procurou para saber o que houve. Nem o Monitor.  Diversos outros meninos que saíram me procuraram para reclamar. Outros que nunca foram riam e diziam que lá nunca iriam aparecer. Ser Escoteiro? Nunca meu amigo. Nunca!


                      De vez em quando encontro com um e outro que ainda estão lá. Dizem que quase todos saíram e entraram outros. Nada tinha mudado. A tropa tinha 15 agora, mas com as meninas. Elas foram incorporadas por falta de chefia. O Chefe Tavinho continua. Não mudou nada. Labareda um Monitor da Tigre me contou em segredo – Olhe Pingo D’água, eu estive para sair. Fiquei por causa da patrulha, ou melhor, para dois deles, pois os demais saíram e entraram novos. Tudo continua como antes. É só apito, jogos repetidos, ele gritando para todos e sorrindo para as meninas. Elas agora são o xodó dele. Só tira foto com elas. Acampamentos? Poucos. Muito poucos. Dizem que ele vai substituir o Chefe Lobão que anda muito doente. Rezo que sim, pois quem sabe aparece um Chefe de verdade?