Histórias e contos escoteiros.

Histórias e contos escoteiros.
Feitas para você se divertir!

domingo, 31 de janeiro de 2016

O estranho sem nome da Rua do Cravo.


Lendas Escoteiras.
O estranho sem nome da Rua do Cravo.

                   Ele chegou como um fantasma surgindo na Estrada dos Aflitos. Andava devagar sem pressa entrou na rua principal, atravessou a praça lentamente. Usava uma calça de gabardine azulada e desbotada. Um pulôver cinza cobria parte do seu corpo. Não deu para ver seu rosto, estava coberto por um chapelão de abas largas. Na igrejinha Bolonha o sacristão forçava a corda do sino com as primeiras badaladas da Ave Maria. O inverno chegava manso sem fazer alarde. Um frio cortante percorria a rua e a praça sinalizando uma madrugada aonde cada um ia se virar como pode para se proteger das noites geladas que deviam estar chegando. Todas as janelas estavam encostadas com uma fresta aberta para poder ver o Estranho que chegava. Impossível ver o rosto coberto com a aba do chapéu. A rua deserta os olhos escondidos esmiuçavam quem era o Estranho e o que estava fazendo na cidade. Dobrou na Rua do Cravo e no número 17 entrou. Quem contou foi J. Pessoa, um mendigo que vivia nas ruas do Arraial vivendo da caridade alheia. Uma cidade de menos de duas mil almas não tinha o que fazer. Tudo era motivo de conversa, fofoca, disse me disse e nada mais.

                    Durante um mês ele não saiu e nem na porta chegava. A casa da Rua 17 pertenceu a Dona Joelma que morrera dois anos antes. Todos souberam que tinha um celular e por ele fazia suas compras. Mandava o entregador colocar na porta e pagava com cheque na fresta da janela sem mostrar o rosto. Todos sabiam o que comia o que bebia, mas nada diferente de gente simples ou remediada. O falatório foi aos poucos sendo esquecido. Se o Estranho tinha nome ninguém sabia. O Cabo Marinho sorria quando lhe cobravam investigação – Ele não fez nada, se fizer eu usarei da minha autoridade! – Dois meses depois pela manhã, um sol de rachar eis que surgiram seis rapazes dos seus dezesseis a dezessete anos de bicicleta, bem equipados e fardados de escoteiros. Não perguntaram a ninguém e nem tampouco pararam para conversar. Entraram na Rua do Cravo e no número 17 desceram entrando na casa do Estranho sem Nome sem bater. Naquele dia não saíram. Dormiram na casa por três dias seguidos. J. Pessoa rondava por perto para ver se ouvia vozes, qualquer coisa que pudesse vender a fofoca a troco de um prato de comida.

                        Ao meio dia da quinta feira partiram como chegaram. Nem no Boteco do Amadeu pararam para um café ou um doce. Três meses depois um carro adentrou no Arraial do Roncador e parou na Rua do Cravo em frente ao número 17. J. Pessoa de butuca tudo via tudo sabia, mas não contava nada. Ele viu dois homens de fisionomia alegre, sorrindo também fardados de escoteiros entraram sem bater. Não ficaram muito tempo. Às oito da noite partiram assim como chegaram. Interessante foi à donzela, linda e formosa, cabelos loiros, que ao sol brilhava, chegou no ônibus que seguia para Sol Nascente e com os olhos cheio de lagrimas soluçava. Seguiu sem cumprimentar ninguém direto para a Rua do Cravo no número 17. Estava vestida de azul, com um lenço verde e amarelo no pescoço, um bonezinho com duas estrelas e não olhou para nenhum morador. Interessante, ficou uma semana. Namorada? Esposa? Amante? Ninguém sabia nem mesmo J. Pessoa. Quando ela partiu foi a primeira vez que o Estranho sem Nome apareceu à porta acenando para ela com um sinal que ninguém sabia o que era, mas entre os fraternos se sabia que era Melhor Possivel.

                          J. Pessoa chegou perto demais para tentar ver o rosto do Estranho. Não deu para ver. Um boné de aba comprida tampava tudo. Viu seu corpo, magro quem sabe um metro e setenta e parecia não ter mais que trinta anos. Viu que ele soluçava quando ela partiu. – Borrasca o entregador do Armazém do Grilo dizia que ele pagava com cheque. Sempre com uma gorjeta para ele. Os cheques nunca voltaram e o Senhor Grilo sorria em saber que diferente de muitos moradores da cidade, que lhe deviam há meses e nunca pagavam o estranho era honesto e nunca lhe deu nenhuma preocupação nos pagamentos com cheque. Interessante que o cheque tinha o nome de um banco Inglês e uns rabiscos. Sua assinatura era ilegível, mas e dai? Pensava o Senhor Grilo. O cheque caia e o dinheiro também. Oito meses haviam se passado com a chegada do Estranho. Já não era motivo de fofocas, de indagações e aos poucos o arraial incorporava o estranho como mais um dos seus moradores misteriosos.

                         O tempo no Arraial do Roncador não existia para os moradores e não era medido de nenhuma forma. Ninguem fazia nada. A poeira na rua aumentava. As chuvas da primavera ainda não haviam chegado. J. Pessoa desistiu de investigar o Estranho. Bolonha todas as tardes continuava a tocar seu sino anunciando as seis badaladas da Ave Maria. No rio Corrente as lavadeiras ainda fofocavam, mas o Estranho foi esquecido. Um grito sutil de espanto percorreu todo o Arraial quando viram o Estranho partindo. Partiu as seis em ponto quando Bolonha começava a tocar seu sino na Igrejinha dos Anjos. Pela primeira vez viram seu rosto, era um belo rapaz, olhos azuis, cabelos negros que se sobressaiam com o chapéu de abas largas solto nas costas preso por presilhas em uma tira de couro marrom na aba do chapéu. Estava fardado de Escoteiro. Parou no Boteco do Amadeu e ao entrar deu de cara com o Cabo Marinho e o convidou para um café. Pagou e foi direto ao Armazém do Grilo. Deu uma bela gorjeta para Borrasca o entregador. Sumiu na curva da estrada dos Aflitos e ninguém nunca mais ouviu falar dele.


                           Waldico O Mestre como era chamado era o único que tinha um computador no Arraial. Assustou e saiu correndo a contar a meio mundo a noticia que acaba de ler no Blog do Matador da Capital do Estado. – Dizia: - Prezo Monte Cristo, pai de Anita, professor catedrático do Colégio Gentil. Ele confessou que em um momento de fraqueza violentou e matou Tutinha uma Lobinha do Grupo Escoteiro Local. Ela tinha ido acantonar e sumiu. Todas as provas levavam ao Chefe Billy Grant, mas ele fugiu antes de ser preso. A Delegada Dayse Lustosa o procura para dizer que o inquérito foi encerrado. Ele é inocente e livre para ir e vir. Uma foto do Monte Cristo mostrava um homem já Velho com barba por fazer. Mais embaixo a foto de Billy Grant. Era o Estranho! Explicações, rezas e perdão. Nunca podemos abandonar três grandes palavras que existem para acreditar: - A intuição, a inocência e a fé! 

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

A rebelião dos bichos de Dodge City.


Lendas escoteiras.
A rebelião dos bichos de Dodge City.

O Delegado Wild Bill Hickok estava assustado. Ele não gostava do seu nome, mas o prefeito Benjamim Franklin baixou um decreto que os grandões da cidade escolhessem um nome famoso dos States. – Delegado! – Pare de reclamar você agora é famoso e todos nem lembram que o chamavam de Praxedes dos Anzóis Pereira. Já pensou me chamarem de prefeito Tião das Botinas seria uma desmoralização não acha?  - Pelo sim pelo não ele não disse nada. Fazia parte dos comensais, ou melhor, da divisão financeira que eles recebiam do Governo Federal. Mas voltemos ao delegado, ele notou que desde que o sol apareceu no Grand Canyon National Park (O nome antes era Morro do Urubu) a bicharada que morava lá começou a invadir a cidade. A principio vieram às cobras, depois os lagartos e mais tarde as onças, quatis, bicho preguiça, papagaios, corujas, cisnes de todas as cores, gavião-carijó, águias, sem contar as duas onças, uma pintada e a outra parda. Diabos! Ele pensou. Que seria aquilo? O Promotor de Justiça George Washington veio correndo e quando viu uma Jiboia deu meia volta e escondeu-se no banheiro do Capitólio e de lá não saiu mais.

                         A bicharada invadiu a cidade. Não se via uma alma Rua Bleecker Street (antes chamada de Rua dos Caloteiros) e suas adjacências.  No Central Park (antes chamado de Mato dos Namorados) não havia ninguém. O que estava Havendo? Ninguem sabia. Os equipamentos telefônicos da American Telephone and Telegraph, não suportou tantas ligações. Ligaram para o Semanário Washington Post (antes chamado de Jornal do Buraco Quente) e eles não sabiam de nada. De olho no beiral da janela viram que a bicharada se dirigiu para a sede do Grupo Escoteiro Águia do Deserto. – “Eureka!” o que iam fazer lá? – Maria Eugenia uma Lobinha segunda estrela não se fez de rogada. Vestiu seu uniforme azul que amava colocou seu lenço verde amarelo bem dobrado seu boné com suas estrelas e partiu para a sede. Ela precisava saber o que estava havendo no pátio da Escola que servia de sede. Subiu em uma Aroeira, pois era treinada em subir e descer de árvores e viu milhares deles em grupo a conversar e pareciam revoltados. A sede escoteira se tornou uma selva de tantos bichos aves e peixes. Como eles respiravam não sei. Quem sabe os desenhos da Disney explicam.

                    Ouviu que cada fauna escolheu o mais douto, o mais sábio e o mais educado. Eles pretendiam mostrar aos escoteiros de todo país que mesmo sendo animais eram civilizados. Ela resolveu entrar, mas uma Arara Azul não deixou. Educadamente disse: - Aqui humanos não entram. Ela voltou para a árvore e viu que tinham uma bela organização.  Chamados pela Coruja Buraqueira que parecia ser a Chefe foram para o Salão nobre, mas não coube. Melhor formar em ferradura onde fazem o Cerimonial da bandeira disse. Notou que os presentes representavam todos os bichos insetos, aves e peixes da fauna brasileira. A Coruja Buraqueira falou alto: - Meus amigos. - Ainda ontem o Quatipuru veio reclamar para mim que nunca o escolheram como nome de Patrulha. O mesmo aconteceu com o Tucunaré, O Sagui de tufo branco e outras centenas deles. Resolvi fazer uma pesquisa. Deu para ver que a escoteirada só querem nomes pomposos, se possíveis retirados da fauna americana ou europeia.

                          Não vou citar aqui os nomes esquisitos em inglês que eles colocam. Até nomes de astronautas eu já vi. Um absurdo. E olhem meus amigos, tenho conhecidos nestes países e me disseram que lá ninguém liga para nossa fauna. Eles são autênticos. Uma palma estrondosa repicou entre os presentes. - Continuou a Coruja Buraqueira: - Temos que tomar uma providencia. Afinal se os escoteiros e seniores não nos escolhem, é melhor que façamos uma revolução e quando eles forem acampar, iremos gritar e infernizar a vida deles. As tais patrulhas de nomes esquisitos não terão mais nosso apoio. – Uma cobra venenosa, a Surucucu riu baixinho – Deixa comigo dona Coruja. Eu e a Cascavel do chocalho negro, damos umas mordidas e resolvemos logo este problema. Todos riram. – Não! Não é assim que vamos resolver. Precisamos estudar uma fórmula de mostrar o que somos, mas sem violência. Estão convidados para um desfile aqui no palco os animais, aves ou peixes que nunca foram lembrados pelos escoteiros. Que façam uma fila e vão passando dizendo bem alto seu nome:

               - Começou o desfile. Ali estavam o Veado Catingueiro, o Quatipuru, a Cotia, O Touro Guzerá, A raposa cinzenta, a Jaguatirica, a Doninha amazônica, O Zorrilho, a Baleia Azul, O Golfinho do Pantanal, o Boto cor de Rosa, o Ouriço Preto, o Puma do Pantanal, o Macaco Prego, o Macuco, a Codorna Amarela, o Aracuã do Pantanal, o Mergulhão Caçador, o Maçarico, o peixe Tucunaré, a Traíra, O Piau, A Corvina de água doce, a Jacupemba, o Sagui de Tufo Branco, o Príncipe Negro, o Bugio, A Ema, a Iguana, a Garça Branca, o Boto Vermelho, o Tracajá, o Canário da Terra, o Tatu Peba, o Gaivotão, o Mutum de Penacho, o Cervo do Pantanal, o Jacaré Açu, o Mocó, o Tuiuiú, o Tucano, o Quati, O Beija Flor, o Tamanduá Bandeira, o Martim Pescador, O Lobo Guará, a Ariranha, a Arara Azul... Um desfile enorme. Todos tristes. Atrás deles tinham mais de cem animais e aves para desfilar. Uma tristeza enorme no salão.

                 Foi o Beija Flor Dourado quem tomou da palavra – Amigos e Amigas pretendo nunca mais beber do caldo açucarado que eles põem para mim nos campos de patrulhas. A Coruja Buraqueira concordou e disse: Eles não me verão mais nos galhos próximos aos Fogos de Conselho. O Canário Belga falou lá no fundo da ferradura: - Eles nunca mais me verão cantar nas madrugadas. Era uma choradeira só. – Vamos tomar uma posição rosnou alto a Onça Pintada. Vamos dar uma surra neles quando forem acampar! – Nada disto, replicou a Coruja Buraqueira. Vamos fazer um abaixo assinado. Quando o próximo sábado chegar, entregaremos uma cópia a cada Patrulha que for a reunião. Cada um de nós que tem asas fica responsável. E assim foi feito. Levaram para as patrulhas, o abaixo assinado por mais de 5.000 membros da fauna Brasileira. Lá escreveram suas insatisfações com a escolha de nomes estrangeiros para as patrulhas e porque não se lembraram deles.


                   A reunião terminou. Maria Eugenia tentou entender a reclamação deles. Ela sabia que por ordem do prefeito tudo agora era americanizado. Dizem que o prefeito quando comprou um computador quebrou as “fuças” para saber o que era Game Over, deletar, internet, Google e ficou abismado com o tal de Facebook. Quem sabe a escoteirada também achava bonito chamar as patrulha de Lobo da Montanha, Green Monkey, Urso Pardo, Bisão das pradarias, Tigre de Bengala, Leão do Deserto, Lince Branco, Leopardo Amarelo e tantos outros. Maria Eugenia conversando com as amigas perguntou: Porque as patrulhas não pesquisam mais a flora brasileira? E olhe disse Mirtes que os seniores nem pensaram nos nossos heróis, nossos poetas homens que um dia fizeram muito pela nação. As lobinhas se entreolharam e não disseram nada. Será que os bichos tinham razão?

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Chefe João Soldado o imortal.


Lendas Escoteiras.
Chefe João Soldado o imortal.

                 Carlito e Rosana dois pioneiros eram os responsáveis no transporte ida e volta do Chefe João Soldado até a sede neste sábado. O grupo fazia uma vez por mês uma reunião especial onde sempre comparecia boa parte dos antigos escoteiros e todos sabiam que ao terminar haveria um encontro social, com comes e bebes gentilmente levado por cada um dos participantes. Chefe João Soldado era especial. Quase todos conheciam sua história, sua saga no grupo. Nos aniversários que o grupo comemorava o chefe João Soldado era saudado como o pai de todos. Bem não foi ele quem começou o grupo, mas vivo até hoje era o único que participou desde sua fundação. Oitenta e três bem vividos escoteirando. A ideia foi do Padre Rocco e apoiada pelo Doutor Moscato Diretor do Colégio São Pedro que já tinha ouvido falar dos escoteiros. João Soldado tinha seis anos. Uma preocupação para seus pais, pois sempre escapulia e corria para o Tiro de Guerra, marchando e a soldadesca o adotou como mascote. Foi o segundo a se matricular na Alcatéia. Não parava de falar. Falava na escola, em casa, na mesa de refeições e até dormindo falava. Adotou o escotismo para sempre.

                      Com seis anos aprendeu o que era democracia. Foi escolhido com mais seis lobos, oito escoteiros, O Padre Rocco, o Doutor Moscato e Dona Tereza para fazerem a primeira reunião do grupo e escolherem o nome. Sem querer ele sorriu. Sentiu-se importante. Lembrou de que toda noite sua mãe lhe dava boa noite e dizia: - A estrela cadente me caiu ainda quente, na palma da minha mão! Sorria e dizia dorme com Deus. Repetiu o verso. Todos o olharam espantados. Quando contavam isto ninguém acreditava. Achavam que o 29º Grupo Escoteiro Estrela Cadente tinha outra história. João Soldado na primeira reunião de Alcatéia ainda se chamava João Francisco. Foi Mosqueteiro quem o chamou assim. Ficaram amigos para sempre até que aos setenta e nove Mosqueteiro morreu. Poderia escrever um livro de mil páginas da sua vida como escoteiro. Tinha histórias para contar. Nunca esqueceu o seu segundo acantonamento. Barracas armadas próximo ao Riacho da Raposa choveu, uma enchente enorme carregou tudo. Voltaram para casa chorando e pensando como iam ter um novo material de campo.

                    Akelá Tereza era única. – Vamos em frente ela disse, quando um lobo não encontra a si mesmo, não encontra nada! – Em menos de cinco meses tinham tudo de volta. Não chorou ao passar para Escoteiro. Diziam que na cidade dos homens eles diziam entre si: - Se cair levante se deslizar se segure, mas nunca pense em desistir. Quanto mais amarga for sua queda mais doce será sua vitória. Devorou livros, nada ficou sem ele conquistar. Distintivos, comendas enfim era um Escoteiro que não sabia o que era a palavra desistir. Foi um Sênior que sempre dizia: - Eu não sou nada e talvez tenha tudo. Fora isto eu tenho todos os sonhos do mundo. Não houve uma montanha, não houve uma planície ou um vale que ele não viajou com sua mochila que ele mesmo fez. No Clã era um camarada amigo e fraterno. Ficou pouco tempo, assumiu a Tropa Cauã. Era a segunda do Grupo. Seu sorriso era contagiante. Religioso fazia questão de dizer que Deus é tudo e que não existe escotismo sem ele.

                     O tempo passou. O amor ao seu grupo nunca terminou. Nunca se esquecia de dizer nas tropas, nas alcateias que era uma pessoa feliz. – Amo a vida, e dela sou aprendiz. – Tenho várias paixões e o escotismo é minha filosofia e minha inspiração. Mas não se esqueçam eu também possuo imperfeições. Se os caminhos que percorro não forem os que eu quero pelo menos luto por eles. A cada dia me procuro tornar melhor. Nunca assumiu a chefia do Grupo. Insígnia agradeceu convites de ser formador. Amava seu grupo, mas amava mais ainda o escotismo. Era sua filosofia de vida. Nunca pensou em se aposentar e quando se tornou o mais antigo do grupo, quando foi morar nas estrelas seu melhor amigo Mosqueteiro, resolveu diminuir as atividades. Acampava de vez em quando, uma ou duas vezes ao ano acantonava com os lobos. O Grupo Estrelas Cadente tinha vida própria. Ele nunca interferiu. Sorria e lembrava-se do poeta: - O meu ideal politico é a democracia. Torço para que todo homem seja respeitado como indivíduo e que ninguém seja reverenciado e idolatrado.

                       Naquele dia, o céu fazia um azul tão límpido, que parecia saudar a entrada do Chefe João Soldado na sede do grupo. Todos estavam a sua espera. Quem estava ali vibrava. Impossível ver tanta alegria. João Soldado sorria. Ele com seus 89 anos quase não falava. Gesticulava pouco, mas seu sorriso nunca desapareceu. Muitos que estavam há anos no grupo pensavam que a suprema felicidade da vida é a convicção de ser amado por aquilo que você, ou melhor, apesar daquilo que você é. Havia uma cadeira com braços para ele. Não caminhava mais, queria contar causos e não conseguia, mas estar ali junto a quem amava bastava para reviver uma vida cheia de felicidade. Dizem que a gente não precisa buscar a felicidade fora, ela está dentro de você. Se insistir em sair por ai é possivel que nunca vai encontrá-la. O Chefe do cerimonial educadamente olhou para todos, por último em João Soldado. Ambos sorriram. A ordem foi dada:

- Escoteiros firme! A bandeira em saudação! Todos em posição de sentido fazendo a saudação. João Soldado quis levantar, mas não conseguiu. O vento jorrava saudades em busca de novos horizontes. As bandeiras farfalhavam. – João Soldado sem ninguém ouvir falou para si mesmo: - Vento, ar que respiro ventania tempestade que vivo. Flores... Que me fazem respirar. - Firme descansar! O Chefe da cerimônia olhou para o Chefe João Soldado. Ele sorria seus olhos abertos, mas seus braços inertes. Rosa Linda uma Lobinha deu três passos à frente. Chorava. Cantou em forma de poesias o canto noturno do cisne, daqueles que deixam saudades; - Chefe João Soldado! O vento sussurra-me algo ao pé do ouvido. Chefe você é imortal. – Eu falo com esperança de um dia ser como você.  Eu sei que entendes as cantigas do vento, disseram que no Fogo de Conselho você os invocava com sabedoria. Mas Chefe, ah! Se eu pudesse falar a língua dos ventos teria a audácia de mandar-te um beijo um abraço um sempre alerta gostoso e nada mais.


João Soldado o Chefe imortal estava morto. Uma estrela Cadente apareceu no horizonte, brigando com aquele céu azul brilhou intensamente. Todos com seus bastões fizeram a saudação do adeus para aquele Chefe que viveu e morreu com o escotismo no coração. – Alguém baixinho falou: - Para viver não precisamos ser melhor que ninguém, nossas ações falam por si.  Do pó viemos ao pó voltaremos! 

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Impisa – “O lobo que nunca dorme!”.


Lendas Escoteiras.
Impisa – “O lobo que nunca dorme!”.

              Claro que Gegê não era um intrépido. Nem tão pouco valente. Mas tinha lido tantas historias de Baden Powell (BP) que ele pensou que poderia ser um assim. Bem hoje outra época, não existe mais uma tribo dos Ashantís para lutar, e Mafeking hoje é uma cidade pacificada. Pena que ele não pudesse voltar no tempo na guerra do Transwall. Se pudesse! Mas quem sabe ele conseguiria algumas aventuras na sua cidade? Gegê tinha treze anos. Um menino cheio de ideais. Um Escoteiro sonhador. Em sua Patrulha todos achavam graça dele. Seu Monitor sabia que sua mente fervilhava. Ele não sonhava como Dibs, o menino em busca de sí mesmo ou como nas Aventuras de Tom Sawyer “O que um menino faz num sonho não faz também quando acordado?”. Dizem que todo menino normal (parodiando Mark Twain) tem hora que surge um desejo furioso de ir a algum lugar e descobrir um tesouro enterrado. Gegê era assim. Um sonhador!

             Gegê não saia à noite. Sempre ia para a varanda de sua casa e ali devorava os livros de Baden Powell (BP). Fechava os olhos e pensava que podia ser um dos dezoito escolhidos por ele para o primeiro acampamento em Brownsea. Sentado na cadeira de balanço de sua vó, Gegê lia e aos poucos seus olhos se fechavam. Algum estranho aconteceu. Gegê se viu em Brownsea, olhou no relógio e viu que era o dia vinte e nove de julho a data do inicio do acampamento. Ele não estava acreditando. A ilha era comum, parecia muito com a ilha da Carlinga de sua cidade. Viu os meninos chegando. Contou um por um, não eram mais dezoito. Ele contou vinte! O tempo estava firme. Alguém recebia os meninos e pelas fotos ele reconheceu Sir Percy Everett um amigo de BP.  Ele sabia que a ilha era pequena, menos de três quilômetros por um e meio. Claro tinha muitos bosques, dois lagos e que BP dizia ser um bom terreno Escoteiro.

              Gegê não estava acreditando. Ninguém o via. Mesmo chegando perto era por eles ignorado. Sabia que cada menino participante levou todo o material pedido e que sabiam de cor e salteado os nós direito, escota e volta do fiel. Gegê se lembrava do que tinha lido, pois o convite que ele enviou foi aceitos com entusiasmo. Os pais se orgulhavam dos filhos participarem com um herói de Mafeking como era conhecido na Inglaterra. Lá estava também seu amigo de armas, o Major Keneth McLaren que ficou como seu assistente. Nossa! Que vontade de ser visto por eles, de participar de uma das patrulhas. Não importava qual. Poderia ser os Corvos, os Lobos, os Maçaricos ou os touros. Viu que os monitores já tinham sido escolhidos e eram responsáveis por tudo que faziam no campo. Sabiam que BP solicitou que a eficiência e a coragem fosse ponto de honra. Ele sabia que os meninos não usavam uniformes. Viu que cada um recebeu as fitas de Patrulhas com suas cores que ficaram para sempre como símbolo daquelas patrulhas.

              Gegê estava embasbacado. Era tudo real. Viu o treinamento de Técnicas de Acampamento, observação, artes mateiras e como ele era desenvolvido. Assistiu BP contar para eles como era um bom rastreador. No Fogo de Conselho ele mostrou como seguir pistas a noite. No dia seguinte (cada Patrulha tinha uma barraca) BP adestrou os monitores e assim o acampamento seguia seu rumo. Gegê lembrava que ele mais tarde comentou que dar responsabilidade ao Monitor, foi o segredo do sucesso da atividade.

              Gegê olhava e aprendia. Construção de abrigos, fazer colchões, acender fogo, cozinha mateira e se divertiu com os jogos que eles fizeram. Eu queria tanto estar com eles dizia.  O que ele mais gostou foi jogo "Caça ao Urso" - Um dos rapazes maiores é o urso e tem três bases nas quais ele pode se refugiar e estar a salvo. Ele leva um pequeno balão de borracha cheio de ar nas costas. Os outros rapazes estão armados com bastões de palha amarrados por um cabo (ou jornal enrolado) e com os bastões procuram fazer estourar o balão, enquanto o urso está fora da base. O urso tem um bastão semelhante com o qual procura tirar os chapéus dos caçadores. Se isto acontecer o caçador está morto, mas o balão do urso tem de ser arrebentado para que ele seja considerado morto.

               Gegê estava vibrando com tudo aquilo. O bivaque feito só pela Patrulha foi sensacional. Mas as Atividades Práticas da Natureza foram demais. Relatórios de observação da natureza - “Envie suas Patrulhas para descobrirem por observação e relatarem depois, coisas como esses: Como o coelho silvestre cava sua toca? Quando um grupo de coelhos é assustado, um coelho corre apenas porque os outros correm ou olha ao redor para ver qual é o perigo, antes de também correr? Um pica-pau tira a casca para apanhar os insetos no tronco da árvore, ou apanha-os pelo buraco, ou como é que os acompanha? etc.”.

                  Gegê viu que Baden Powell era um esplêndido contador de estórias. Tinha um espantoso estoque de anedotas sobre os heróis de todos os tempos. Para seu próprio uso, ele havia criado um código de ética, baseado nos códigos dos Cavaleiros do Rei Arthur e nas suas próprias reflexões. Agora ele pode procurar instilar nos rapazes os mesmos ideais, contando-lhes as façanhas dos heróis admirados pelos jovens e imprimindo em suas mentes a ideia de “Boa Ação Diária”. Gegê procurou um lugar junto a todos e assistiu o melhor debate que BP teve nesta ocasião com os rapazes. Foi ali que viu cristalizar o seu pensamento e a formular um código aceitável para os rapazes: A Lei e a Promessa Escoteira. Ele experimentou jogos que lhe pareciam capazes de por em relevo e dar expressão prática aos traços de caráter que ele desejava que os rapazes possuíssem. Ele pôs à prova a lealdade e a esportividade deles em jogos de equipe com regras estritas. Pôs à prova a coragem deles com alguns golpes e chaves simples de jiu-jitsu, e a disciplina e obediência num jogo em botes - a caça à baleia.

                Gegê queria intervir queria participar, mas não podia. Alguém o balançava e ele assustado e tremendo acordou com sua mãe o chamando para dormir. Gegê queria chorar. Perdera a melhor oportunidade de sua vida, pois queria muito ver os olhares de todos quando o acampamento terminasse. Mas Gegê sabia que ele sonharia de novo. Poucos muito poucos poderiam dizer que viram boa parte do primeiro acampamento dos escoteiros no mundo. Mesmo em sonhos. Gegê viu. Contar para quem? O sonho de Gegê morreria com ele, Ninguém acreditaria. Mas isto importava? Para Gegê não. O que os outros pensassem dele não tinha nenhuma importância. Sabia que muitos gostariam de estar em seu lugar, e só ele teve esta oportunidade. Nunca deixaria de ser o Escoteiro sonhador. Sonhar é viver novamente e acreditar que o mundo pode se modificar. Os sonhos de Gegê pelo menos na sua inocência poderiam mudar o mundo!

Sonhe Gegê, Sonhe!

sábado, 16 de janeiro de 2016

A cruz de ferro da Montanha do Condor.


Lendas Escoteiras.
A cruz de ferro da Montanha do Condor.

               - Não foi fácil. Oito horas parando de duas em duas. Uma subida que derrubaria qualquer um, mas éramos escoteiros e escoteiros não desistem. – Juca olhava com olhos arregalados para Pedrito um Sênior com muitas estrelas de metal no uniforme. Todos conheciam seu valor. Juca no alto dos seus onze anos, um tiquitito de nada, não perdia uma palavra do que Pedrito dizia. – Olhe, o Chefe Arariboia veio desafiar a escoteirada. – Só disse que não iriamos aguentar a subida. Quando ele falou rolei no chão de tanto rir. – Chefe! Parece que não conhece os Lobos Cinzentos. Dê autorização, um mapa e um croqui e chegamos lá num pulo – O Chefe Arariboia riu para nós. Quer saber? Eu fiquei pensativo. Sabia que os pioneiros estiveram lá. Muitos juraram nunca mais voltar. Andaluz foi quem me disse: Se quer aprender a subir no topo da montanha sorria, mas saiba que a felicidade ocorre quando você a está escalando! – Juca sorvia com alegria as palavras de Pedrito. Admirava suas aventuras, cada uma maior que a outra. – E ele terminou assim: Oito horas de subida, muitas vezes usando as mãos para não cair. Mas valeu ver a Cruz de Ferro no alto da montanha pagou todos os pecados da subida.

                Juca foi para casa. Sua mente voltava atrás e corria para frente em velocidade incrível da história de Pedrito. Aquela era demais. E quando ele disse que no alto da montanha ele quase alcançou o sol? Quase queimou a mão? E a noite? Pegou estrelas, muitas ele guardou na mochila outras ele mudou de lugar. Ficou mais impressionado quando ele disse que um sino tocou a meia noite junto a Cruz de Ferro. Um sino? Nossa Senhora! Demais! Pegar estrelas? Juca sonhava acordado. Embebido na história de Pedrito ele sonhava em escalar a montanha do Condor e ver de perto a Cruz de Ferro. Rosaldo o monitor disse para ele um dia: - Olhe Juca as pessoas viajam longos percursos para admirar a altura das montanhas, as imensas ondas dos mares, o longo percurso dos rios, o vasto domínio do oceano e o movimento circular das estrelas. Mas a maioria passa por tudo sem olhar para si mesmo tentando ver e entender o caminho que se perde no tempo e as belezas do universo. Juca tinha eterna admiração por Rosaldo. O achava um sábio. Ao lado dele não tinha medo de nada. Mas a montanha? Seria demais um dia escalar.

                 Ele ia para a sede naquele dia sorrindo. Ainda com a montanha na mente, pois se tornou uma vontade, uma certeza que não poderia nunca deixar de escalar e conhecer a Cruz de Ferro da Montanha do Condor. Até pensava que iria ver Jesus o Salvador sorrindo para a escoteirada em um cometa que passasse soltando faíscas e deixasse seu ribombar no ar. Cantava baixinho, como estivesse voando – No perfume das flores de ameixa, o sol de súbito surge – Ah, ele o leva ao caminho da montanha! A reunião foi demais. Os jogos marcaram, pois o Chefe Arariboia era único. Juca já tinha seis meses de Tropa e promessado. Na reunião de patrulha teve uma surpresa. Quase caiu do banquinho que construiu com muita dificuldade. – Patrulheiros eu consegui! O Chefe nos autorizou a escalar a Montanha do Condor! – Impossível e possivel ao mesmo tempo, Juca quase chorou de alegria. Contou para todo mundo, agora sim seu sonho seria real. Ele iria contar tudo, queria ver os sinos tocarem na Cruz de Ferro, queria trazer duas estrelas cadentes no bornal, queria ver Jesus passar no Cometa espacial.  

                   Chefe Arariboia levou a patrulha até do outro lado do rio no seu Jeep amarelo. Era demais, cantantes a escoteirada da Patrulha Corvo só sabia gritar: - Montanha chega de montanha russa, nos aguarde, daqui a pouco estaremos subindo outra vez! – Outra vez? Não era a primeira? Juca ria e nem se importava. Quando chegarem à trilha da Escarpa do Corvo, o Chefe Arariboia disse: - Quando estiverem escalando a montanha, coloquem em seu rumo uma estrela, assim esquecerão o cansaço e os problemas. Ela será sempre sua estrela guia! Uma hora, o sol escaldante, a patrulha caminhante precisava descansar. Um minuto e mais nove e vamos lá, a montanha está a nos esperar falou Rosaldo. Quatro horas. – Está longe? Onde? Na curva da subida do norte e do leste que não vejo? – Outra parada apenas para esticar as canelas. Os cantis quase vazios. – Bebam menos! Dizia Rosaldo, a nascente está na volta do Condor, e de lá já vamos ver o pico da Montanha do Condor.

                  Seis horas de jornada, sete e nada. Juca nem aguentava mais. Pensava o que disse sua mãe: Amar é o esforço de escalar a montanha. Só podemos apreciar a subida se ver que as pequenas grandes coisas não são assim tão difícil de conquistar. Seu corpo queria desistir, mas sua mente não deixava. Seus sentidos estavam alertas – A visão ajudava a ver a trilha da subida, a audição deixou ouvir o som da cascata, o paladar pedia ajuda para comer e o olfato trazia o doce perfume das flores no ar. – É ali! Gritou Rosaldo, chegamos – Os olhos de Juca fizeram da chegada um sonho que ele não acreditou que iria realizar. Parou em frente a Cruz de Ferro, era bonita demais, grandona enorme quase chegava nas nuvens do céu. Ajoelho e rezou: Senhor meu Deus, tens a gloria e o poder no céu e na terra. Eu contei cada minuto, cada segundo por este dia. Aqui também é o teu reino para todo o sempre. Obrigado Senhor por este dia e esta noite. Obrigado Senhor por proteger aos meus amigos e fazer realizar este sonho que julgava impossível. Amém!

                    Ah! Os tempos de alegria, de ver de sonhar de tocar nas estrelas na noite de lua cheia. De levar em pensamento duas estrelas vermelhas brilhantes em noite de luar.  Juca sorria e cantava: - A vida é um processo... Ela é como subir na montanha! Mesmo que não esteja forte fisicamente, a paisagem compensa a visão do que Deus fez nunca mais vou esquecer! Os anos passaram. Juca cresceu, mas a lembrança da Cruz de Ferro morava agora no fundo do seu coração. Ela era brilhante como um farol para iluminar a escuridão. No alto da montanha do Condor ele fincou uma morada bem no meio do seu coração. Muitos e muitos anos depois, Gentil olhava para seu pai com os olhos arregalados, e sonhando com sua escalada na Montanha do Condor. Juca sorria ao contar. Tantas coisas para lembrar. – Sabes meu filho, eu me rio do que já vi, do que me assustou, mas venci! E daquilo onde sofrendo, eu aprendi!


- A vida pode ser comparada à conquista de uma montanha. Como a vida ela possui altos e baixos. Para ser conquista, deve merecer detalhada observação a fim de que a chegada ao topo se dê com sucesso. À medida que subimos, o panorama que se descortina é maravilhoso. As paisagens desdobram a vista, o verde intenso das árvores, as rochas pontiagudas desafiando o céu. E lá do alto percebemos que os nossos problemas, aqueles difíceis, mas superados são do tamanho das casinhas que avistamos. É aí que precisamos de um amigo para nos auxiliar. Podemos estar tão cansados que nem conseguimos sair do lugar. Quem de nós não quer chegar ao alto de sua própria montanha? 

No mundo da fantasia... Mora a escoteira Luzia.


Aqui pensando e matutando, porque não escrever uma poesia?

No mundo da fantasia... Mora a escoteira Luzia.

Sorriso alegre e bem faceira, uma linda escoteira,
No mundo da fantasia, morava a escoteira Luzia.
Na Tropa da imaginação, Luzia entregou seu coração.
Sonhava a noite e o dia, para o escotismo vivia.

Morava em uma tapera, encantada em sua quimera,
Entregou-se a uma ilusão, e ao escotismo seu coração.
Só falava só cantava na patrulha que amava.
Não importavam os ventos, adorava acampamentos.

Tinha um sonho dourado, e Deus seja louvado,
Sem criar desavença, iria montar uma barraca suspensa.
O tempo sem um final, no campo deitou temporal.
E na chuva molhada, a patrulha ela gritava:
Irmãos eu consegui. Na barraca sobrevivi.

Zé Santana, Nonatinha, Lovegildo e Renatinha.
Ela, Tonho monitor, todos da patrulha Condor.
Reuniões, saudação amores e dissabores.
Um bom aperto de mão mostrava que eram irmãos.

Quantas noites viagem ligeiras, a dormir sob as estrelas,
Conquistas e façanhas, a escalar as montanhas.
Rosa dos ventos bussola, chuva toma tento.
Ela participava e sorria, assim era a escoteira Luzia.

Mas a vida não é sorriso, e tudo parece improviso.
Eis que de repente, alguém a olha sorridente,
Ela se ergue no ar, é o príncipe do além mar.
Olá, sua voz ecoou, seu coração disparou.

E assim em poucos instantes, iniciou um romance.
Foi amor de improviso o que aumentou seu sorriso.
Mas ele com seu gesto mostrou não ser honesto.
Amou Vania, amou Vanda, amou demais Maria Ana.

A bela não mais sorria coitada da linda Luzia.
Tinha abandonado as amigas, chorava com suas cantigas.
Sem chorar tomou resolução. Ele não vai partir meu coração.
Escoteira acorda e não dorme, vá vestir seu uniforme.

Voltou, não era mais ilusão. A todos pediu perdão.
Na bandeira bem faceira, sorria a bela escoteira.
Junto aos amigos de fato, a todos deu um abraço.
A historia termina e a euforia, da volta da escoteira Luzia.

Que jurou o seu amor, na patrulha do Condor.        

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Pedras brancas de gelo na Mata do Quati. (Atemporal do tempo. Vale a pena recordar).


Lendas Escoteiras.
Pedras brancas de gelo na Mata do Quati.
(Atemporal do tempo. Vale a pena recordar).

12 de janeiro de 2016.

                 Dois dias que temporais enormes caem sobre meu bairro. Ontem choveu granizo. Estava na minha varanda observando e ouvindo o som das pedras de gelo sobre as telhas da varanda e na minha rua. Música sublime para mim. Gosto disto, amo isto eu adoro a chuva. Não sei por que ela se prendeu a mim e ficou presa no meu coração para sempre. Os ventos batiam nas grades do portão e respingos me molhavam, não arredei o pé. Precisava ficar ali, pois as recordações eram muitas. Voltei no tempo atemporal. Seria como se eu tivesse a mágica de transitar no tempo sem necessariamente pertencer ao passado o presente ou ao futuro. Sem querer me lembrei de um conto que li – Sempre me lembro dele. Aqui coloco as suas últimas estrofes: - Ontem chorei. Apronto agora os meus pés na estrada. “Ponho-me a caminhar sob sol e vento”. Vou ali ser feliz e já volto”. Um dia quem sabe vou postar todo ele. Atemporal, voltar no tempo sem medo de perder o presente e o futuro. Com toda aquela borrasca que caia na minha rua, minha mente se foi. Plantou-se em um passado que nunca esqueci.

20 de janeiro de 1958.

                  Seis Escoteiros Seniores. Olhos vivos a perscrutar com a vista todos os lugares naquela noite escura, sem luar sem medo da chuva ou vento. Acampamentos vividos que alguns não esqueciam jamais. Em volta do fogo, eles comiam banana assada. Pareciam mais pioneiros que sêniores. A moda índia sentaram a vontade naquele foguito e se esquentavam de uma noite fria. Um “foguito” pequeno. Chamas baixas, muitas brasas para não adormecer o café no bule, já perdendo seu esmalte de anos e anos de uso. – Parece que vai chover. – Taozinho custava para falar. Era um sênior miúdo e de olhos vivos. Minutos se passaram. – Gosto da chuva, adoro uma boa dificuldade debaixo de tempestades. – Helinho ria para ele mesmo. Que o visse naquela hora achava que estava louco. – Israel olhou de soslaio. Não disse nada. Ele nunca esqueceria o acontecido. Darcy não perdia a pose de dar uma boa gargalhada. – Valeu! O melhor acampamento que fizermos. – Chico o menorzinho dos seniores queria dizer alguma coisa. Não sabia o que dizer. Eu estava com os olhos fechados. Queria reviver o momento. Voltar no tempo. Sentir as tremuras, o medo e a força que fizemos em reviver, em refazer um acampamento destruído.  

04 de janeiro de 1954.

              Cantantes, sorridentes, cada um já sabia o que fazer. O esqueleto da barraca suspensa entre quatro árvores estava quase terminado. Faltava ainda boas amarras nos tripés. Chico e Israel adentraram mais fundo na mata. Precisavam de bons cipós que não quebravam. Sisal? Nem pensar. Nem existia ainda. Aboletado lá no alto Israel e Taozinho elevavam no ar uma bela tora que serviria de escada até o alto da árvore. Eu e Helinho terminávamos nossa cozinha. Planos futuros para ela também ficar suspensa. Belos planos. O céu escureceu. Tãozinho gritou! – Nuvens baixas cor de cobre? Todos juntos responderam – É temporal que se descobre. Melhor armar duas barracas de duas lonas para nos abrigar. O toldo foi jogado em cima da cozinha. Darcy correu a cobrir o lenheiro. Uma patrulha que sabia o que fazer. Não eram amadores. Ploc! Ploc! Uma pedra, duas um punhado. Pedras de gelo enormes!

20 de janeiro de 1958. 

             Em volta do “foguito” que dormitava e queria apagar, cada um pensava na vida que tinham levado em belos acampamentos no passado quando Escoteiros da Patrulha Leão. – Foi duro, não foi fácil. Disse Helinho. Lembra Darcy das barracas? – Tãozinho riu. Ele não gostava de rir. Viraram peneiras. Enterramos antes de voltarmos. Perdemos quase tudo. – E o raio? Disse Darcy. Caiu como um chumaço na base do estrado que fazíamos para as barracas. Não sobrou nada. – Silêncio profundo. Cada um voltava no tempo. Chico levantou e pegou alguns biscoitos – Alguém aceita? Foi você Vado que correu na frente de todo mundo para ficar embaixo da enorme aroeira? – Israel gargalhou forte. – Ele parecia um corisco com medo da chuva! – Medo das pedras enormes que caiam, eu disse. – Bons tempos, disse Israel. Dormimos presos uns aos outros molhados sem poder ou sem onde abrigar. – Todos concordaram com um leve levantar de sobrancelhas. Seniores, quando se encontram em volta de um “foguito” tem histórias para contar. Um vento forte levantou fagulhas no ar. – Vai chover? Disse Tãozinho. Se tem vento e depois água? – todos responderam: Deixe andar que não faz mágoa.  – Vou dormir eu disse. Uns foram outros ficaram. Coisas gostosas para lembrar. Passado que se foi.

12 de janeiro de 2016.

                  Meus olhos ficaram húmidos. Lembranças sempre me tocam o coração. Tempos bons, tempos alegres, cheio de aventuras... Tempos que não voltam mais. Olhei a chuva fininha que caia. Acalento para minha alma. Outro dia recebi um telefonema. Era Israel. A mesma voz. O mesmo estilo mineiro que adoro. Onde anda o Darcy? O Tãozinho? O Helinho? O Chico deve estar zanzando por aí. Era o mais novo. Gente fina. Escoteiros e seniores que tiravam o chapéu quando uma dama bonita passava por eles. Lembranças... Dizem que quem não tem lembranças não viveu. Passou pelo tempo como se não tivesse passado. Hã quanto não daria para entrar em uma máquina do tempo. Mas ela ao me levar teria que fazer menino de novo. Dizem que foi Clarice quem disse: -
               O tempo passa depressa demais e a vida é tão curta. Então — para que eu não seja engolido pela voracidade das horas e pelas novidades que fazem o tempo passar depressa — eu cultivo um certo tédio. Degusto assim cada detestável minuto. E cultivo também o vazio silêncio da eternidade da espécie. Quero viver muitos minutos num só minuto.


             E as pedras brancas embranqueceram minha rua que tanto amo molhadas pela chuva que caia copiosamente!

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Em cada coração uma sentença.


Lendas Escoteiras.
Em cada coração uma sentença.

                        Nonôvat era diferente de muitos monitores. Existem os amigos, os gentís, mandões, morcegos, irmãos mais velho, indiferentes, falastrões, humildes. Mesmo assim são eles que dão a vida pela patrulha. Seu nome verdadeiro era Antônio Medeiros. Nonôvat tinha um grande coração. Monitor da Patrulha Jaguatirica e O Chefe Ricardo o escolheu. A escolha de Nonôvat foi bem recebida. Na Curimbatá e na Gavião, Josivaldo e Moreno na Corte de Honra deram seu aval. Havia uma Tropa feminina que tinha atividades em separado, mas faziam outras em conjunto. Acampavam, faziam excursões e atividades aventureiras em conjunto, mas cada tropa com sua própria individualidade. Havia um respeito enorme.

                 O Chefe Ricardo e a Chefe Loreta eram ótimos chefes. Eles sabiam que nada poderia dar certo se não tivessem bons Monitores. Sempre diziam aos graduados: – Para ser um líder, você tem que fazer as pessoas quererem te seguir, e ninguém quer seguir alguém que não sabe onde está indo. Na Patrulha Jaguatirica ninguém disse não para a promoção ode Nonôvat. Eram experientes com mais de um ano de patrulha. Giba o Sub. era uma mão na roda. Nonôvat sabia cobrar sem gritar, e sempre o primeiro a fazer e ajudando. Não era e nunca foi um mandão. Aos treze anos aprendeu bem como liderar a Patrulha. Sabia que liderar é preciso também saber ser liderado. Dizia aos seus patrulheiros sorrindo – Olhem! Se ficarem mal humorado tome café! Se não gostarem sigam a luz, se no final dela tiver um buraco negro, se joguem. E dava boas risadas. Os escoteiros adoravam sua maneira de liderar.

               Os patrulheiros davam a vida pela patrulha. Todos sabiam exatamente o que fazer. Suas funções eram seguidas a risca. A tralha da patrulha era a melhor da Tropa. Panelas sempre limpíssimas, material de sapa afiados e oleados, duas barracas bem cuidadas, duas lonas seminovas tudo muito bem acondicionado. Na patrulha os patrulheiros eram peritos em afiar e usar perfeitamente uma machadinha um facão ou uma faca escoteira. Conseguiram com muita dificuldade uma bússola Silva e outra Prismática. Nos grandes jogos ou nos mais simples a patrulha aprendeu que ganhar é bom, mas saber perder é uma arte. Para que se achar sempre ser o melhor? Palavras do Chefe Ricardo e completava: Bertrand Russell dizia que: – A raiz do mal reside no fato de se insistir demasiadamente que no êxito da competição está a principal fonte de felicidade.

                  Nonôvat gostava do modo do Chefe Ricardo. Gente fina e respeitava a todos. Nunca faltou um aperto de mão, um abraço nas horas difíceis, um Anrê ou um Bravo! Chefe Ricardo incentivava ao máximo, mas cabia a cada um dar o primeiro passo. Dizia que o espelho era Caio Vianna Martins: - O Escoteiro caminha com suas próprias pernas. Na última Corte de Honra ficaram sabendo da nova atividade do distrito. - Chefe! Mas não estava programado! – Eu sei ele disse, reclamei, mas vai ficar mal se não formos. Na próxima não iremos se não estiver programado. Seria uma atividade de um domingo. Próximo ao Vale Cinzento. 23 patrulhas. Não podemos ficar de fora. No dia da atividade chegaram no horário. Durante meia hora se confraternizaram com as demais patrulhas presentes. Quase vinte patrulhas.

                A tropa do Chefe Jurema foi à última a chegar. Ele um rapagão de uns vinte e cinco anos, óculos escuros, chapéu de exploradores canadenses (gostava de inventar) e com uma vareta embaixo do braço dava seu show particular. Sem cumprimentar ninguém deram o grito da Tropa que terminava dizendo que eram os melhores e iam arrasar. Nem o demônio podia com eles enfim um monte de asneira não digna de escoteiros que prezam a lei. O distrital explicou o jogo. O Ouro Misterioso. Deu como ponto de partida a trilha onde começava o Vale Cinzento até a estrada do Astro Rei Estavam escondidos quinze lenços escoteiros. Todos numerados. As Patrulhas não precisavam seguir a ordem, mas para achar a pista final precisavam de pelo menos cinco lenços. Menos que isto não seria fácil chegar ao ouro perdido. A ordem era clara. Todos deveriam estar sempre juntos.

                   Em cada ponto haveria um Chefe Escoteiro. Se a Patrulha dispersasse seria desclassificada. Às treze horas seria parada para o lanche. Paulo Cobra Monitor da Caveira do Diabo (nome esquisito) se aproximou sorrindo de Nonôvat – Não me esperava eim? Não tem para ninguém. Você sabe que somos os bons, os melhores da cidade. Melhor reconhecer agora e desistir! E começou a rir voltando para sua Patrulha. - O jogo começou guerra! Gritou o Comissário Distrital. Eram dez da manhã. A Patrulha Jaguatirica conseguiu achar três lenços. Faltavam ainda dois. Ao meio dia e vinte Nonôvat viu Paulo Cobra sozinho correndo sem a Patrulha. Era contra as normas. Nonôvat foi atrás dele para dizer que se continuasse iria informar ao distrital. Correu atrás de Paulo Cobra que tinha subido em um penhasco proibido pela direção do jogo por oferecer grande perigo. Avisou sua Patrulha. Ao subir uns oitenta metros ouviu um grito de socorro. Era Paulo Cobra estirado em cima de um galho enorme de uma árvore. Desceu com cuidado.

               Paulo Cobra chorava. Gritava de dor. Dizia ter fraturado uma costela e o braço. Nonôvat achou que deveria ir buscar ajuda. Ventava forte e ele sabia que uma tempestade se aproximava. Deixar Paulo Cobra sozinho seria pior. Com muito custo o levou a uma pequena gruta próxima. Paulo Cobra gemia e chorava pedido sua mãe. A chuva caiu. Forte. Raios cortando pedras e árvores no fundo da garganta. Não foi fácil. Ele era pequeno. Paulo Cobra forte e alto. Tirou sua blusa e colocou nele. Disse que ia buscar ajuda. Paulo gritou que não iria ficar só tinha medo. A chuva passou. Nonôvat pegou novamente Paulo Cobra e o colocou no ombro. Paulo Cobra choramingava. Andava tropeçando. A cada cem ou duzentos metros parava para descansar. Viu que ia escurecer. Resolveu fazer um SOS com um fogo com muitas folhas verdes. Com sua blusa presa em duas varetas tentava fazer no código Morse as letras S. O. S. A noite chegou. Logo viu vários chefes chegando.


              Paulo Cobra foi levado ao hospital. Quebrou duas costelas, fraturou a coxa direita e o braço direito. Mas ia ficar bom. Nonôvat e sua patrulha fez questão de visitá-lo. Foi muito bem recebido. Paulo Cobra chorou varias vezes e pediu perdão por tudo que fez. Nonôvat o abraçou. Ficaram amigos para sempre. Um dia apareceram na sede dois figurões escoteiros. A ferradura foi formada. O Presidente Regional chamou Nonôvat a frente. Que seria? Entregaram a ele medalha de valor Ouro. Acharam que ele mereceu. Nonovat segurou as lágrimas. Ele não era de chorar fácil. As patrulhas deram o grito. Emocionante foi o abraço de Paulo Cobra. Ele chorava copiosamente. Nonôvat estava tremendo. Emocionado. Nonôvat em hora nenhuma se sentiu superior. Ele sabia o que tinha feito. Ajudar um amigo Escoteiro. Não importa quem ele seja.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

E a vida continua...


Lendas escoteiras.
E a vida continua...

                  - Você a conheceu? Olhei para Liz, fechei os olhos e minha mente passeou no tempo. – Foi minha melhor amiga. Sempre me lembrei dela e nunca esqueci seu sorriso quando naquele sábado chegou à sede escoteira, com sua mãe praticamente a puxando, pois ela chorava sem parar. – Não quero! Não quero! – Ela usava um vestidinho comprido rosa, cabelos presos em um rabo de cavalo e pensei comigo: - Outra chorona? Apresentaram-me despretensiosamente. Esta é Ruth, vai ser Lobinha, será da sua matilha. – Olhei para ela, tinha parado de chorar. Olhava-me espantada e sem perceber me deu sua mão e um sorriso. Sorri também. Ali nasceu uma grande e bela amizade. – Liz perguntou novamente: - E sua vida você ficou sabendo de tudo que aconteceu? – Não respondi de imediato. Era um tema que me doía muito. O que aconteceu para mim foi um golpe do destino. Somente balancei a cabeça para Liz e meus pensamentos não eram mais meus, eram do meu passado.

                      Ruth confiava em mim. Na matilha sempre me procurava para pedir ajuda. Nos jogos ficava ao meu lado, nos acantonamentos não saia de perto de mim. Não sei se a Akelá e o Balu viam tudo aquilo com bons olhos. Pelo menos nunca me disseram nada. Ruth cresceu. Eu também. Muitos disseram que um dia seriamos um do outro. Não era verdade. Amava Ruth como uma grande amiga. Parecia mais uma irmã que não tinha do que minha namorada. Fiz a passagem para a Tropa primeiro que ela. Como chorou. – Gritava e dizia: - Não vá! Não sei viver sem você! Se for não serei mais Lobinha. Já sendo apresentado à patrulha Tico Tico voltei. A abracei tentei consolá-la, mas não adiantou. O tempo ajuda tudo. O tempo faz esquecer, o tempo muitas vezes é cruel. Um ano depois ela chegou até a mim sorrindo. – Vou fazer a trilha, breve estaremos juntos outra vez. Sorri, tinha aprendido a ficar longe, mas sentia uma falta enorme da minha amiga Ruth.

                       Muitos me criticaram pela proteção que dei a Ruth na Patrulha Onça Parda. Não era a minha. Tentei falar com o Chefe, mas ele não me deu ouvidos. Hoje acho que foi até bom. Ruth cresceu internamente e externamente. Ficou uma moça bonita, todos se aproximavam dela. Claro que sentia ciúmes, mas não de um namorado, pois eu já há tinha no meu coração e sabia que ela ficaria ali para sempre. Brincamos, acampamos, éramos amigos escoteiros na sede e fora dela. A levei ao cinema ao Shopping, fomos passear de trem e como era linda quando sorria olhando pela janela o trem voando como se tivesse asas. Fui para os Seniores e não sei como ele deu um jeitinho e antes de fazer quinze lá estava também. – Olhei para Liz. Meus olhos encheram-se de lágrimas. Era cruel lembrar-se de tudo dos detalhes dos acontecimentos e saber que do destino ninguém consegue sair facilmente.

                        Assustei quando ela me procurou depois da reunião. – Meu amigo ela disse, vou-me embora. – Embora? Para onde? Sua família vai mudar? – Os olhos dela se encheram de lágrimas. – Conheci alguém. Apaixonei-me perdidamente. Os pais dele não aceitam minha mãe acha que sou nova para isto, mas você sabe que sei o que faço que sou bastante madura nos meus quinze anos. Hoje me considero alguém que amadureceu só por ter encontrado um grande amor. – Não perguntei quem era, seria desagradável perguntar. Achei que ela iria me dizer quem. Não disse. – Me abraçou me deu um beijo na face, segurou minha mão esquerda com a dela, apertou e disse: - Adeus! E partiu sem ao menos dizer o porquê, e a quem iria dar seu coração.

                         - Deus Liz, foi demais. Parecia que o amor abandonado era eu. Mas nunca disse que a amava para mim eu era seu melhor amigo, seu irmão que ela nunca teve. Um ano depois fiquei sabendo quem foi que conquistou seu coração. Rodney Sacramento. – Impossível pensei. Ele tinha vinte três anos e ela quinze. Sua mãe foi quem me contou. Saiu com a roupa do corpo. Só me disse que ia embora e nunca mais iria voltar. Quando lhe perguntei ela disse: - Mãe eu amo Rodney, ninguém acredita, dizem que ele não é homem para mim, é mais velho e eu nem conheço a vida. Mas como mandar no meu coração? Eu o amo demais. E partiu. – Olhei para a mãe dela que chorava e suas lágrimas não paravam de cair. Meu tempo de Sênior se foi. Para dizer a verdade eu nunca a esqueci.

                           Foi na semana passada Liz que eu soube que ela tinha voltado. Pense bem, nunca deixei de ser Escoteiro, você sabe que é a mulher da minha vida. Nossos filhos são tudo que um homem como eu pode desejar. Mas você soube da história, nunca me perguntou e eu achei que não deveria contar. Eu a procurei sim, vi que ela precisava de ajuda. Sua mãe a internou no Sanatório Santa Maria. Quando a vi estava em pandarecos. Magérrima, os olhos escamoteados, o rosto cortado e cheio de rugas. Poxa! Eu sabia que ela não tinha nem vinte e seis anos. Quem a maltratou deste jeito? O médico me disse que ela tinha uma tuberculose avançada. Não sabia se podia curá-la. Deixou-me vê-la em seu quarto que repartia com mais seis outras mulheres. Ela tinha os olhos fechados. Não abriu. Tentou sorrir, mas não era mais o sorriso de outrora. Só falou baixinho – Eu sei que é você!

                            Ficamos ali calados, eu nunca iria perguntar a ela o que aconteceu. Nunca iria dizer que eu sabia do seu erro de sua aventura que não ia dar certo, que eu podia ter lhe aconselhado. Mas quem é dono da verdade? Eu? Não sou. Perguntei-me em pensamento se não erraria também. Não tive um amor assim, amava sim você Liz, amava e amo demais. Você me deu tudo que eu tenho e sou reconhecido por isto. Hoje soube que ela morreu. Não deixou testamento. Não contou a ninguém sua história. Fui lá na sua campa. Não havia ninguém. Tornou-se uma desconhecida, sem amigos, sem pais sem ninguém. Eu não poderia abandoná-la nestas horas. Sentei na grama de sua sepultura e chorei. Precisava chorar. Rezei sim, pedi ao Pai que desse a ela a alegria de novo, daquela Lobinha que conheci e que sorriu para mim pela primeira vez na matilha Azul. Tempos que se foram destino traçado, ruídos da noite que marcaram uma vida.


                            As coisas tem que passar, os dias têm que mudar, os ares têm de ser novos e a vida continua isto não há como mudar. Todos sonham em ser feliz, uns sim outros não. Alcançar a felicidade é fugir das dificuldades que encontramos sempre em nossa frente. Como disse o poeta: - E assim a vida continua, ganhando, perdendo, sorrindo e chorando... Construímos nossa história em momentos fragmentados no dia a dia, detalhes perpetuados na memória e registros que só o coração é capaz de guardar... Vivemos em um mundo louco e cada dia mais acelerado, vivemos emoções variadas de segundos em segundos, nos perdemos em deslizes que são necessários para nosso amadurecimento... Procuramos desculpas no passado para alimentar melhoras futuras e nos esquecemos que o momento de se viver é agora, no presente, com todas as emoções e situações possíveis... Viva!