Histórias e contos escoteiros.

Histórias e contos escoteiros.
Feitas para você se divertir!

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Uma estrela brilhante para Elizabeth.


Lendas escoteiras.
Uma estrela brilhante para Elizabeth.

“Abro os olhos, não vi nada”. Fecho os olhos, já vi tudo. “O meu mundo é muito grande E tudo que penso acontece”.

               Eles não iriam demorar a chegar. Uma festa quando adentravam naquela área gramada da Casa de Repouso. Vinham uma vez por mês sempre no segundo domingo. Houve dias que não vieram. Eu sabia que estavam acampando ou excursionando. Quanto daria para estar com eles? Saudades, quantas saudades, mas não reclamo. Eu tive tudo que quis. Foram minhas escolhas e se pudesse faria tudo de novo. Gosto desta casa onde hoje moro, gostos dos amigos que fiz aqui. Sempre tem um ou outro voando para as estrelas e eu sei que um dia vou também. Gosto de pensar, lembrar, ficar aqui no jardim lembrando e sonhando com meu passado. Ainda guardo as musicas Escoteiras e quando a saudade aperta, eu canto, e sorrio cantando. Eu alcancei a felicidade que sempre sonhei. Os que vivem aqui não reclamam. Tem muitos que seus filhos e netos dificilmente aparecem. Eles não choram, Tem sempre alguém seu lado para embalar seus dias e suas noites e fazê-los sorrir.

“Aquela nuvem lá em cima? Eu estou lá, Ela sou eu. Ontem com aquele calor Eu subi, me condensei”.

                      Foi um dia inesquecível. – Papai, Mamãe, eu gostaria de ser Escoteira! Eles me olharam espantados, pois sabiam que eu me fechava em meu quarto, não recebia amigas e tinha uma vida reclusa que nenhum psicólogo sabia explicar. Eu sabia que era adotada. Eles nunca me esconderam. Eu os amava e nunca me interessei em saber quem foram meus pais biológicos. – Vou levar você lá Elizabeth. Espero que goste e dedique como tudo que faz. Meu pai tinha mais de sessenta anos e minha mãe cinquenta e oito. Adotaram-me quando tinha oito meses. Eu não tinha o que reclamar. Eles me adoravam tanto que muitas vezes me senti sufocada de tanto amor. – Seja bem vinda Elizabeth! – Espero que goste de ser uma Escoteira e olhe, você tem duas escolhas aqui: - Gostar da vida ao ar livre e saber vencer as dificuldades! – Adorei a Chefe Altair. Adorei tudo que encontrei ali, o escotismo passou a ser minha vida e viver junto de mim e no meu coração.

                         Os tempos foram passando, um dia me disseram que seria guia. Porque não? Para mim a mesma coisa. Fiz novas amigas e amigos. Um respeito enorme um pelo outro. Fui a um Jamboree e outros tantos acampamentos regionais. Mas o que gostava mesmo era meu acampamento de tropa. Ali eu podia jogar crescer e aprender com meus amigos de patrulha. Mas chegou o dia que me disseram que iria ser uma pioneira. Não me dei bem. Havia muitos que nunca foram Escoteiros quando jovem e a gente não falava o mesmo idioma. Conversei com o Chefe Jerônimo que assumiu a responsabilidade pelo grupo. – Porque você não vem ser Chefe? Uma assistente para começar. Irá fazer muitos cursos, conhecer pessoas novas e quem sabe um dia será uma Insígnia de Madeira?

“E, se o calor aumentar, choverá e cairei. Abro os olhos, vejo um mar, Fecho os olhos e já sei. Aquela alga boiando, à procura de uma pedra”?

                          Porque não? Eu pensei. Foi outra maneira de ver o escotismo. À medida que fazia cursos, que trocava ideias com Velhos Lobos eu sabia que ali era meu lugar. Nunca encontrei minha cara metade. Entreguei minha alma e meu coração ao escotismo. Namorei mas nada significativo. Comecei a trabalhar em um Banco da cidade. Todos ali sabiam que eu era Escoteira. Até meu Chefe o Senhor Rodolfo ria quando eu contava casos de acampamentos. Uma tarde recebi um telefonema urgente de uma vizinha – Seus pais foram internados. Os dois. Tiveram um principio de enfarte. Corri ao hospital. Uma semana depois eles partiram. Chorei muito, achei que tinha culpa, pois me entreguei tanto ao escotismo que me esqueci deles. Todos os domingos eu visitava seus jazigos. Orava, chorava e pedia perdão. Um dia uma luz azul brilhante apareceu e ouvi a voz dos dois: Seja feliz filha, um dia você vai vir morar conosco no céu!

“Eu estou lá, Ela sou eu. Cansei do fundo do mar, Subi, me desamparei. Quando a maré baixar, na areia secarei”,

                 Conheci milhares de Escoteiros e Escoteiros por este mundo que Deus me deu. Fiz centenas de amigos e quando recebi minha Insígnia recebi vários convites. Nunca aceitei nenhum. Eu tinha uma missão com os jovens e nunca iria abandoná-los. Minha casa vivia cheia deles. Eu os amava e eles me amavam. Quantos acampamentos fizemos? Quantas atividades aventureiras? E aquela de sair por aí, sem eira nem beira na Montanha da Raposa cinzenta? Fiz excursões incríveis, adquiri uma maturidade de campo invejável.  Eu só me dedicava ao escotismo e nunca pensei em crescer no meu trabalho. Sabia que todos gostavam de mim como eu era. Um dia pensei quando envelhecesse o que seria de mim? Quem iria orar por mim, ficar ao meu lado, me dar de comer, me fazer feliz? Não pensava nisto. Só pensava no meu amor Escoteiro que vivia no meu coração.

“Mais tarde em pó tomarei. Abro os olhos novamente E vejo a grande montanha, Fecho os olhos e comento”:

                Mas o tempo é implacável, eu envelheci. Aposentei-me. Sentia-me sozinha em casa e só no escotismo me sentia bem. Minhas meninas agora eram outras. Quantas passaram pela minha tropa? Um dia o Chefe Jerônimo me disse: - Elizabeth, não interprete mal minhas palavras, você já está com mais de oitenta anos. Não pode viver sozinha assim. Porque não procurar uma Casa de Repouso? Visite, conheça, veja se é o que gostaria para morar. Lá você terá amigas para conversar, para cantar e divertir. Sua palavras doeram, mas era uma verdade. Eu andava mal. Não deu outra, lá fui eu arranchar na minha última morada na terra. Minhas Escoteiras não se esqueceram de mim. Chefes amigos sempre me visitavam. Todos os domingos estavam lá. Eu adorava mesmo era o segundo domingo do mês. Minha primeira patrulha vinha em peso sem faltar ninguém. A gente ria, cantava, chorava e lembrava os velhos tempos dos bons acampamentos das noites geladas, dos fogos de conselho! Ah! Quantas saudades.

“Aquela pedra dormindo, parada dentro do tempo, Recebendo sol e chuva, desmanchando-se ao vento?

                Elizabeth faleceu aos oitenta e oito anos vitima de falência múltipla de órgãos. Nunca aquela campa no alto da Colina da Lua viu tantos meninos, meninas, chefes e até lideres Escoteiros regionais, nacionais e do exterior. Quando o esquife desceu para sua morada nunca se viu tantos chorando. Mas Elizabeth, para quem podia ver estava sorrindo, estava com sua Mamãe e seu Papai que a abraçavam e em uma nuvem branca a levavam para uma estrela brilhante, lá no firmamento onde seria sua nova morada!
                                    ...”Eu estou lá, Ela sou eu”.

O poema é de Adalgisa Nery.

sábado, 24 de outubro de 2015

Lendas escoteiras. O Corvo.


Lendas escoteiras.
O Corvo.

Ave ou demônio que negrejas! Profeta, ou o que quer que sejas! Cessa ai, cessa! Clamei, levantando-me, cessa! Regressa ao temporal, regressa à tua noite, deixa-me comigo. Vai-te, não fica no meu casto abrigo. Pluma que lembre essa mentira tua, Tira-me ao peito essas fatais garras que abrindo vão a minha dor já crua. “E o Corvo disse: “Nunca mais.” Edgar Allan Poe”.

                       Um acampamento, chefes em volta de uma fogueira. A Tropa dormindo. Chefe Lávio contando esta historia. Com seu estilo misterioso, chamas quase apagadas, pequenas fagulhas ciscavam o ar. Sua voz ribombou como se não estive ali. - Nasci em Rio Vermelho... Abri os olhos e os ouvidos. Havia motivos, a sua narrativa me prendeu. Até o Chefe Nevada um novato prestou atenção. Escuro, céu estrelado, uma leve brisa soprando a sudoeste do acampamento. Nada melhor que ouvir uma historia encantada por um Chefe que sabia contar. Disseram-me que na Tropa tinha um apelido. O “Chefe que não ri”. Olhar firme, rosto feito de mistérios, sua Tropa o adorava. Joguei minha manta sobre os ombros. Olhei para o céu, uma estrela cadente saudou o acampamento dos escoteiros. A aragem vinda da margem do rio Sucuri era gostosa e saudável. – tem tempo... Muito tempo... Assim ele começou.

                  Contava como se estivesse falando para o vento. Uma voz cantante, simpática como deve ser em um bom contador de historias. – Foi em Monte Azul, uma pequena cidade no interior de Mato Grosso do Sul. Vida simples, meninada solta nas ruas a soltar pipas, a brincar com suas bolinhas de gude, abaixar a cabeça em sinal de respeito para dona Marly ou dona Noêmia nossas professoras quando passavam. Na missa de domingo a melhor roupa. Padre Thomaz na porta cumprimentava um a um. No púlpito uma surpresa. Um calafrio correu na meninada presente – Amigos! Nossa cidade vai organizar um grupo de Escoteiros. Inscrições abertas no Clube Remanso no próximo sábado à tarde! Acordei às três da manhã. Coitado do meu pai. Papai! Vamos! - Onde? Fazer minha inscrição. Nem almoçamos. Uma fila enorme. Chefe Noel risonho cumprimentava a todos. A inscrição foi feita e tinha lista de espera. É só alguns meses! Dizia. Voltei choroso, não fui dos primeiros escolhidos.

                  Esperei três meses. Uma surpresa no sábado em que um Escoteiro uniformizado bateu em nossa porta. A vaga do Lávio está aberta. Deve comparecer sábado às duas da tarde. Almocei correndo. Carreguei meu pai pelas mãos. Meu primeiro dia. Indicado para a Patrulha Corvo. Que orgulho. Seis patrulheiros. Agora era mais um. Leones o Monitor nem sempre calmo com a gente. Gostei das reuniões, das atividades ao ar livre, das primeiras jornadas no Morro do Cristal. No primeiro acampamento em Águas Cantantes eu fiquei maravilhado. Achei que era um herói. Subir em árvores, atravessar riachos, correr atrás de um macaco prego só para tirar uma foto. Aprendi tudo sobre o corvo, símbolo de nossa patrulha. Seis meses depois me considerava um veterano. Foi no acampamento em Morro Sião que tudo aconteceu. Uma linda cascata formando um lago, peixes brigando para serem pescados. Eu gostava de pescar. Aprendi com meu pai.

               O acampamento durou quatro dias. No terceiro estava programada uma jornada de seis quilômetros até a Mina do Fantasma. Um pequeno mapa, um croqui bem feito, uma bussola, e uma carta prego. Nela as instruções eram claras. Seguir rumo NNE, encontrar uma seringueira virar para WSE. E seguir por cento e cinquenta metros a contar no passo duplo. Sem erros. A Patrulha era boa nisto. Assim foi feito. Havia uma passagem em um barranco estreito que dava para um enorme despenhadeiro. Ficamos longe dele. O percurso era perfeito. A bussola indicava sem erro. Ao orientar não achei a bússola. Eu era o responsável. Procurei no bornal, na mochila nos bolsos nada. Deu vontade de chorar. Leones me olhou espantado. Jair nem falou. Nonato o cozinheiro balançou a cabeça. – E agora? – Pense Lávio, tente recordar. Nada. Assustados sem perceber caímos todos em um barranco que ninguém tinha visto. Quase quarenta metros de queda. Caímos em um espinheiro que feriu muitos escoteiros. Eu gritava de dor e meus companheiros também. Com muito custo saímos numa ravina desconhecida.

               E agora? Para onde ir? Onde estava a bússola? Todos me olhavam e Leones o Monitor não sabia o que fazer. Ouvi ao longe um grasnado de um corvo. “Croc, croc, croc”. Ele voava por cima de nossas cabeças, seguia em uma direção e voltava. Porque ele fazia isto? Disse ao monitor que devíamos seguir o corvo. Fui ridicularizado. - Monitor, insisti – Ele é nosso guia! Nosso símbolo! Ninguem disse nada. Segui o corvo e a patrulha me seguiu. Com dificuldades saímos do espinheiro, paramos próximo a um pequeno riacho para tirar os espinhos. Para nós era o fim do jogo. Esquecemos o estojo de primeiros socorros. Começou a escurecer. O corvo sempre voando sobre nossas cabeças e seguindo em um direção. Perdemos a noção de tudo. Mas sempre seguindo o Corvo. Noite brava. Sem lanternas tudo escuro. Não se via nada. Como estaria os chefes e as demais patrulhas? Nos procurando? Deviam estar aterrorizados com nosso sumiço. Um frio forte cortante e uma bruma da ravina nos pegou em cheio.

               – Alguém tem fósforos? Ninguém. – Lembrei-me do isqueiro que meu pai me deu. Fizemos uma fogueira e deu para esquentar. Impossível dormir. Vi em um galho próximo o corvo. Muitos dormiam. Sozinho cochilei e acordei com o corvo pousado em meu ombro. Assustei e ele voou novamente. Antes do amanhecer partimos seguindo o corvo. Duas horas depois avistamos o acampamento. Eu agradeci a Deus e quase chorando todos nós nos abraçamos. Não houve gritos do Chefe nem gozação das demais patrulhas. O Chefe preocupado nos parabenizou pela coragem. O corvo durante os dias finais de campo sempre próximo ao nosso campo sempre voando e grasnando. Croc. Croc. Croc. Na partida ele nos acompanhou por muitos quilômetros. Da janela do ônibus eu o avistava e ele muitas vezes bicou os vidros querendo dizer alguma coisa. Um sono pesado e dormi feito um anjo. Nunca mais achei a bússola. No sábado seguinte no cerimonial fui convidado para dirigir a oração. Fiquei no meio da Ferradura. – Quando iniciei parei. O corvo estava ali voando em círculos sobre nós. Todos olhando espantados. Ele desceu até onde estava. Pousou no meu ombro. Tinha preso no bico uma pena dourada. Voou para cima do meu chapéu de três bicos. Colocou lá a pena e saiu voando e grasnando rumo sul. Sumiu no céu azul daquela linda tarde de primavera para nunca mais voltar.
                 

                           A Tropa em silencio. A pena dourada coloquei entre a correia e meu chapéu. Fez história a pena dourada do corvo. Tornou-se um mito. Lavrada no livro de Ata da Patrulha. Histórias da saga do Corvo da Pena Dourada foram contadas durante anos. - Olhei para o Chefe Lávio. Chefe Nevada também. Olhávamos para ele com ar de incredulidade. Ele se levantou foi até sua barraca voltando em seguida. No topo do seu chapéu de três bicos lá estava a pena dourada. Linda, nunca tinha visto igual. Nunca mais duvidei de uma historia escoteira. Assim foi dito, assim foi feito e assim será lembrado por todo o sempre!

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Lendas Escoteiras. O último toque de silêncio!


Lendas Escoteiras.
O último toque de silêncio!

           Tony Blanco chorava copiosamente a minha frente ali naquele bar em uma travessa da Avenida São João. Não me lembrava do nome da travessa, mas ficava próximo ao número 300. – O Senhor se lembra Chefe Vado do Pintassilgo? – Claro que me lembrava. Ele e Tony Blanco eram amigos inseparáveis. – Pois é nunca tive um amigo fiel como ele. Amigo mesmo. De todas as horas. Éramos de Patrulha diferente da sua. Lembro que o Senhor era da patrulha Lobo e nós da Touro. Mas fizemos juntos muitos acampamentos. Lembra-se daquela jornada na Ilha do Cajuru? Foi demais não? – Eu lembrava. Minha mente passeava pelo passado. – Pois é Chefe Vado, desculpe chamá-lo assim. Não sou mais Escoteiro. Eu hoje não sou nada. Um molambo largado na vida. Não tenho família, amigos, nada e nem ninguém que se preocupe por mim.

            Quantas surpresas a vida nos reserva. Um filho me pediu para ir até a Santa Efigênia comprar uns itens de computador para ele. Quando desci do ônibus na São João senti que ia passar mal. Corri até um bar em uma travessa da avenida e pedi um copo de água mineral. O remédio estava comigo. Ajuda mas não muito. Depois tinha que sentar e respirar por alguns minutos. Foi então que o vi. Nada mais nada menos que Tony Blanco. Maltrapilho, sujo, cara lisa, mantinha o mesmo corpo forte do passado quando puseram nele o apelido de Maciste. Mas era uma sombra do passado. A última vez que o vi foi em 1978, em um Seminário Escoteiro em Juiz de Fora. Nunca mais nos encontramos. – Pois é Chefe faz tempo não? Mas ele não sorria. Tony me conte o que aconteceu ao Pintassilgo?

            Morreu Chefe. Morreu. Uma morte horrorosa. Ficamos juntos até 1980. Morávamos juntos, mas sempre mantendo a fleuma de amigos somente. Ele nunca me deixou. O Senhor sabe disto. Por causa dele não casei com a Das Dores. Gostava dela, mas mesmo aconselhando ele arrumar uma namorada ele ria e dizia – Não quero. Se arrumar vou casar. Se casar você deixa de ser meu amigo. Olhe Chefe muitos interpretaram mal esta amizade. Acho que não entendem que para ser amigos de verdade não precisamos de subterfúgios. Basta gostar. Gostar de maneira simples, sem desejos, sem aspirações que não seja estar junto de quem gosta. Das Dores riu de mim quando disse isso a ela. Interpretou mal. Vim para São Paulo. Pintassilgo veio também. Comecei a trabalhar em uma construtora como Mestre de Obras. Ele também. Alugamos uma pequena casa no Bairro Cajuru. Pequena mas dava para nós.

             - Tony, você ainda toca o Clarim? Perguntei. Lembra quando eu e você nos exibíamos na “banda” do Grupo Escoteiro mostrando nossas qualidades? E quando formos servir no exército? Ficaram em dúvida entre eu e você ser o corneteiro da unidade. Ele me olhou e mesmo com os olhos marejados de lágrimas deu um pequeno sorriso e disse – O joguei fora. Tinha de jogar – Porque meu amigo? – Pintassilgo um dia desapareceu. Tentei encontrá-lo por toda a cidade. Perdi o emprego por que não ia trabalhar. Passou-se dois meses. Que falta Chefe eu sentia dele Chefe. Nada ajudava. Não conseguia emprego fixo. Fui para as ruas. Morador de rua. Aqui e ali uns trocados. A vida ali é dura, mas hoje aprendi. Sei me virar.

               - Largou mesmo o escotismo? – Larguei. Cheguei a ajudar em um grupo próximo a minha casa. Mas senti dificuldade. Implicaram com Pintassilgo. Ele sempre junto. Falaram coisas que não gostei. Não entendiam o valor de uma amizade. – Olhe, eu fui a várias delegacias, zombavam de mim pelo que eu era. Fui a hospitais, Rodei em prontos socorros, fui ao IML e nada. Não dormia direito. Ainda tinha meu clarim guardado na caixa como quando comprei. Havia anos que não tocava. Um dia com minha carrocinha na descida da Avenida Angélica, avistei o Nonô, o Senhor deve lembrar-se dele. Era Monitor da Pica Pau e sumiu também com sua família. Eu não sabia quem era ele. Não tinha cabelos e seu nariz fino e comprido não dava para esquecer. – Ele me viu e me reconheceu. Convidou-me para tomar uma cerveja e até pagou para mim um almoço. Fazia dois dias que não comia.

                 - Você soube o que aconteceu ao Pintassilgo? Ele disse. – Não! Conte-me. Faz cinco anos que estou procurando. – Morreu torturado por traficantes na Favela da Caixa D’água. – Chorei na hora. – Por quê? Porque meu Deus? – o confundiram com o Maneco Tiro Certo. Eram quadrilhas rivais. Você não sabe, mas sou investigador da 17º Delegacia. Fui ver uma denuncia anônima. Cortaram sua cabeça, seus braços e pernas. Depois atearam fogo. – Ficamos em silêncio por muito tempo. Eu não sabia o que dizer. – Depois perguntei – E onde foi enterrado? Acho que no Cemitério de Vila Alpina. – E você meu amigo, ainda nesta vida de morador de rua? – Conversamos mais algumas horas e ele se foi. Deixou-me um cartão. – Se precisar telefone disse. Lembrei-me do Chefe Tonho que dizia – Um Escoteiro é sempre irmão. Nunca deixa um dos seus na mão.

                     - À tarde do dia seguinte fui até o cemitério de Vila Alpina. Tomei um banho no Albergue que fiquei hospedado. Coloquei meu uniforme Escoteiro. Estava guardado. Nunca me desfiz dele. Todos os mendigos de lá assustaram. Peguei um ônibus até Vila Alpina. A mocinha que me atendeu não tirava os olhos de mim. Disse-me onde ele estava enterrado. Joviel Peixoto. Eu sabia seu nome. Não havia sepultura. Um buraco. Mais nada. Pedi uma pá emprestada. Fiz uma tampa de terra. Tirei de outros túmulos um pouco de capim. Claro algumas flores também. Achei duas taboas. Fiz uma cruz. À mocinha me olhava de longe. Já estava escurecendo. Tirei da minha bolsa meu clarim. Meus olhos se encheram de lágrimas. A boca seca. Não conseguia tocar. - Chefe eu o vi em pé na sepultura. Sorria, não disse nada, estava de uniforme Escoteiro. Brilhava na escuridão. Fez-me a saudação Escoteira. Desta vez toquei meu clarim com garra. E como toquei. O mais triste toque de silêncio que toquei em minha vida. – Sabe Chefe eu vi, eu vi mesmo muitos que ali morreram ficarem de pé em suas sepulturas calados. Eu vi relâmpagos no céu. Eu vi uma estrela brilhante em cima de nós.
             

                    - Enquanto ele me contava o acontecido eu me lembrei de um pequeno poema que tinha lido – “Os clarins tocam pelos heróis, que morrem pela ignorância humana. O Silêncio é das vozes que se calam diante das injustiças e barbárie que são cometidas contra quem não pode por si, se defenderem”.  Eu conhecia o toque. O toquei milhares de vezes. É um toque triste. Fiquei ali com Tony. Eu também chorava. O bar vazio. Dei a ele meu cartão. Escureceu. Não podia mais comprar o que meus filhos pediram. Despedi-me dele oferecendo ajuda. – Obrigado Chefe Osvaldo. Obrigado. Já tenho o suficiente para viver minha vida de morador de rua. É minha sina. Aqui estou vivendo e aqui morrerei. Saiu me dando um aperto de mão e um Sempre Alerta. - - Falar mais o que?

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Lendas Escoteiras. A audácia dos amarelos.


Lendas Escoteiras.
A audácia dos amarelos.
                    Moreno olhava no espelho. Gostava do que via. Era simpático, agradável. Cabelos negros lisos, vasta cabeleira. Um nariz afilado e uma boca que as mulheres desejavam. Usava um perfume exclusivo importado. Sabia que todos o admiravam e sempre impressionava a primeira vista. Moreno não sabia o porquê do seu apelido. Tinha a pele clara, alto, dentes perfeitos. Moreno se achava um partidão. Mas infelizmente Moreno sabia que não era isso que procurava. Ria sempre do que fazia. Dizia a si mesmo – Enquanto houver escoteiro otário nesse mundo eu vou me dar bem.
                   Moreno nunca fora Escoteiro. Um dia em uma cidade do interior tentava aplicar um golpe no prefeito da cidade quando viu os escoteiros. Isso mesmo. Moreno era um escroque. Melhor dizendo ele era um embusteiro, trapaceiro, impostor e fraudador e ladrão. Vivia disso. Seus golpes já não davam os resultados esperados. Porque não dar um golpe nos escoteiros? Bolou um plano. Plano que deu certo. Na primeira cidade na Bahia, conseguiu roubar um cofre cheio de dólares. No Piauí não foi muito, mas deu para o gasto. Assim o nordeste conheceu a fama de Moreno. Ou melhor, os escoteiros. Mas nunca puderam provar nada.
                     Era simples seu golpe. Comprou um uniforme Escoteiro caqui de tergal, um chapéu, distintivos, um lenço azul (ficou sabendo que era o lenço dos dirigentes) e além da meia de seda um sapato preto incrivelmente bem engraxado. Sabia que isso impressionava. Chegava à cidade, se informava do dia de reunião e hora. Chegava com aquela estampa toda – Sempre Alerta! Beijos aperto de mão forte. Moreno aprendeu muitas coisas. Até nós o danado sabia dar. Aprendeu alguns jogos que os meninos adoravam. Fazia amizade com os chefes, mas suas vítimas eram os lobinhos.
                      Isso mesmo. Eles eram sempre mais puros, mais simples, acreditavam em tudo. Moreno escolhia o mais bem uniformizado, o mais falador e aos poucos descobria os mais ricos. Fazia jogos (as Akelás adoravam) Contava história e assim cativa à turma do Mowgly. Na cidade de Ubaráu, interior de Goiás lá estava moreno. Conquistou todo mundo. Os lobinhos riam a valer com ele. Anotava tudo. Vamos fazer o jogo dos ricos – Eu pergunto vocês respondem um por um! – Quem é o mais rico na cidade? Dr. Antônio dizia um - Não o Senhor Ludovico! Dizia outro. E aos poucos ia sabendo o que faziam e o resto era fácil.
                       Escolheu a casa do Dr. Antônio. Sabia que ele era do Lions Club e todo sábado com a esposa ia ao jantar de gala que era uma tradição. Não voltariam antes da meia noite. No hotel tirou o uniforme, vestiu sua roupa preta, guardou a mascara e esperou pacientemente a saída do casal. Eram nove da noite quando entrou. Tinha uma chave mestra. Abria com facilidade qualquer porta. Entrou. Silencio. Tudo na penumbra. Viu a escada que levava ao quarto. Subia pé ante pé quando recebeu na cabeça com toda força um saco de areia na cabeça. Caiu da escada.
                     Uma voz horrenda gritou – Deita no chão bandido. Vou te matar. E Moreno ouviu um tiro. Deitou logo. Alguém amarrou suas mãos e seus pés. O viraram de barriga para cima. Meu Deus! Não acreditava no que via! Era a matilha amarela e a frente Neco, o primo da matilha. Logo chegou o delegado. Levaram Moreno preso. A cidade inteira ficou sabendo. O delegado disse que ele dava golpes em muitas cidades com Grupo Escoteiro.
                    No sábado, após a cerimonia de bandeira todos se reuniram com Neco. Como você desconfiou Neco? Chefe, muito fácil. Muito fácil. Vocês não notaram que ele usava o distintivo de promessa no bolso direito? E o distintivo da região do Rio de Janeiro no ombro esquerdo? E as estrelas de atividade? Todas no bolso direito. Tudo errado! Se ele era "Chefe" Escoteiro, devia saber como colocar no lugar certo!
                        Muitas risadas. E o tiro? Perguntaram. O saco de pipoca.  E o saco de areia? Vimos no filme “Esqueceram de mim” que a Akelá passou aqui. E a voz grossa? Ligamos o som, já tínhamos gravado em casa. Papai achou que era uma brincadeira. A Matilha Amarela se portou com vivacidade e sabia como fazer. Não eram ainda Sempre Alertas, mas abrir os olhos e os ouvidos isto sim, eles eram perfeitos. Esses lobinhos maravilhosos. Fico espantado com eles sempre que os encontro.
E viva os Amarelos, agora chamados na Alcatéia de “OS AUDACIOSOS” Uma grande palma Escoteira para eles! E para terminar eu digo sempre,

ADORO ESSES LOBINHOS E LOBINHAS DAS ALCATEIAS DO BRASIL!

sábado, 17 de outubro de 2015

Era uma vez... Um chapéu Escoteiro para Cimarron.


Lendas Escoteiras.
Era uma vez... Um chapéu Escoteiro para Cimarron.

                    Era noite alta. Passava já passava da meia noite. Não tínhamos relógio e os nossos cálculos nunca falhavam. Ali a beira da linha do trem de ferro permanecíamos em vigília. Ou melhor, em tocaia. Tocaiávamos um comboio qualquer que atravesse a Ponte do Alemão. Um pontilhão enorme, mais de um quilômetro sobre o Rio Amarelo. Tininho olhou para Noka o Monitor. – Acho que vamos atrasar... – É respondeu Noka. Ele sempre falava pouco. Uma ou duas palavras e achava que tinha sido entendido. Lilico dormitava sem preocupar com um trem vindo ou indo. Ele sabia que não poderia atravessar o pontilhão antes que passasse algum trem. Se estivessem atravessando e a buzina tocasse, adeus. Não tinha como fugir ou escapar do comboio, seria morte certa. Toliar sorria com seu cabo trançado nas mãos. Sempre a fazer um ou outro nó. Era bom nisto. Quem sabe o Escoteiro que mais entendia de nós de marinheiro e Escoteiro. Délio Abelha dormia a sono solto. A patrulha do Morcego não tinha pata tenras e noviços. Todos experientes e cada um sabia o que fazer como fazer e a hora certa para fazer.

                      Lilico que todos achavam que dormia deitou com os ouvidos em um trilho da estrada de ferro. Está chegando! Falou. A patrulha se animou. Cada um pegou sua bicicleta a espera do comboio. Quem sabe era pequeno? Uma vez na Ponte do Cara Preta ficaram quase meia hora esperando o comboio passar. Mais de trezentos vagões e cinco locomotivas a dizel. Esperavam que não fosse o maior trem do mundo. Aquele de 330 vagões com mais de 3.500 metros de extensão. 40.000 toneladas de minério gemendo nos trilhos daquela ferrovia infernal. Na curva do Maribondo avistaram o farol. Potente! Iluminava tudo. O maquinista e o seu ajudante deviam estar sorrindo quando puxavam a potente buzina. A patrulha sorriu. Délio Abelha sabia que todos sonhavam um dia estar ali, naquelas máquinas infernais, levando minérios e outros bichos para países do além mar. O barulho das cinco locomotivas acopladas e os vagões foram infernais. Quinze minutos e o vagonete da última leva passou com seu lampião vermelho aceso.

                      Atravessaram o pontilhão com calma, nada de correrias. Prender uma perna era programa de índio. Do outro lado respiraram aliviados. Noka custou para falar – Acho melhor arranchar no campinho de futebol do Arraial do Lagarto. Esta hora todos estão dormindo e sairemos cedo para Serra do Roncador. Chegaremos lá antes das onze e a escoteirada ainda deve estar nos esperando! – Falou demais. Deu um suspiro e parou. Meia hora depois chegaram ao campinho. Vinte minutos depois estavam dormindo nas barracas de duas lonas que montaram. Lilico e os demais deixaram seus chapéus no toldo da barraca. Ali sempre ficaram retos sem dobras. O sol ia surgindo quando todos levantaram. Hora de partir. Noka viu que o seu chapéu tinha desaparecido. Os demais ali estavam como os deixaram. Em volta viram umas vinte pessoas olhando. Eram moradores do Arraial. Noka olhou um por um e ninguém com seu chapéu. Um menino magrinho, raquítico gritou: - Foi Cimarron quem levou!

                     Noka perguntou quem era o Capitão da Cidade. Em qualquer arraial sempre tinha um. – Procure o Madrepérola no centro. Ele já deve ter acordado, pois tem quatro vaquinhas leiteiras. Noka montou em sua bicicleta. Os demais fizeram o mesmo. O centro nada mais era que um descampado sem grama e empoeirado com várias casas de taipa em volta. Uma plaquinha dizia – Casa do Capitão. Eles bateram e a meninada riu. – Vá por trás. Ele está tirando leite! Todos deram boas gargalhadas. Os Escoteiros da Morcego não estavam rindo. Sabiam do valor do chapéu Escoteiro e como era difícil adquirir um. Viram atrás da casa de taipa um cercado. Abaixado estava o capitão a tirar leite. Noka com muita dificuldade explicou – De novo? Cimarron precisa aprender. Eu mesmo vou lhe dar uma lição! Foi junto com os Escoteiros a casa de Cimarron.

                    Sua mãe estava à porta com o chapéu de Noka. – Onde ele está dona Efigênia? No quarto Capitão. – Chame-o! Cimarron apareceu na porta chorando. – Seu choro eu conheço disse o Capitão. Em volta da casa mais de cem moradores. Para eles um espetáculo a parte. Ali no Arraial nada acontecia. Noka pegou seu chapéu. Olhou para Cimarron. Nunca na vida viu um menino tão magro e tão diferente de todos que conhecera naquele sertão brasileiro. – Cimarron chorava. Soluçando disse que sonhava em ser Escoteiro. Sabia que nunca seria ali no Arraial. Ali não tinha nada para fazer nem mesmo escola! – Noka o olhou melhor. Chamou Délio Abelha e o pediu para arvorar a bandeira nacional. Feito isto pegou na mão de Cimarron. Venha menino. Você vai ser Escoteiro! – Formaram uma ferradura pequena. O povo do arraial sem saber o que ia acontecer. – A bandeira em saudação! Gritou Noka. Pegou na mão de Cimarron ensinando. Firme! Descansar!

                   A patrulha ficou de sentido. Noka pediu para Cimarron levantar a mão direita. Ensinou a meia saudação Escoteira. – Repita comigo Cimarron! – Prometo, pela minha honra, fazer o melhor possivel para: - Cumprir meu dever para com Deus e minha Pátria, ajudar o proximo em toda e qualquer ocasião e obedecer à lei do Escoteiro! Sabe Cimarron, um Escoteiro não mente, um Escoteiro é leal, um Escoteiro respeita o que é do próximo. Agora você é um Escoteiro. Noka tirou seu lenço e o colocou em Cimarron. Depois pegou seu chapéu e o colocou em sua cabeça. Cimarron chorava, e como chorava. Seus olhos rasos d’água quase não abriam. O povo bateu palmas. – Alguém gritou! – Viva Cimarron! Ele é um Escoteiro! – Cada membro da patrulha Morcego o abraçou e o saudou. Arriaram a bandeira. Pegaram suas bicicletas e partiram. Muitos meninos ainda correndo atrás.


                      Pararam na subida da Onça Pintada. Noka desceu da bicicleta e olhou para trás. Cimarron chorava gritava para eles: - Obrigado irmãos! Obrigado. Prometo ser outro e ser honesto. Eu prometo pela minha honra que vocês um dia vão se orgulhar de mim! A patrulha montou em suas bicicletas e partiram na estrada que os levaria ao seu destino. Antes da curva da Coruja ainda ouviram ao longe a voz de Cimarron – Adeus amigos, adeus! Voltem um dia! Agora era encontrar uma Tropa Escoteira conforme o combinado. Ninguém dizia nada, cada patrulheiro sabia o Monitor que tinham. Um orgulho em pertencer àquela patrulha. Se Cimarron ia mudar ou não, não importava para eles. Uma boa ação foi feita. Agora dependia de um menino, perdido em um Arraial qualquer deste mundo de Deus buscar sua verdadeira identidade. A identidade de um verdadeiro Escoteiro. A patrulha virou a curva do morro da Coruja. Sumiram na estrada que os levaria ao destino programado. Todos acreditavam que Cimarron cumpriria sua promessa. Mesmo não sendo um deles por falta de oportunidade. Todos sabiam que agora ele conhecia a raça, a cortesia, o respeito e a fraternidade de uma patrulha Escoteira. Todos sabiam que um dia ele seria um Escoteiro sem tropa, sem patrulha, mas com um imenso amor para dar!

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Primeira Classe, o sonho de Lord Jim.


Lendas escoteiras.
Primeira Classe, o sonho de Lord Jim.

              Lord Jim era um sonhador. Desde que entrou para os escoteiros ele sonhava. Sonhava com acampamentos, com excursões, com a Patrulha, com as viagens enfim, Lord Jim gostava mesmo de sonhar. Havia uma diferença em Lord Jim, ele sonhava com os pés no chão. Emocionou-se no dia de sua promessa. A tropa em posição de Alerta!  Mino o Monitor ao seu lado, o Chefe Maílson o olhando nos olhos e ele dizendo a Promessa Escoteira sem errar.  Lembrou ali na ferradura quando entrou na tropa. O abraço do Chefe, do Monitor e de todos os patrulheiros da Patrulha Gavião. Ele ainda não conhecia estas provas de amizade. Nunca tinha visto. Diziam que os escoteiros são fraternos. No primeiro acampamento ele sentiu a verdadeira felicidade de viver como um herói das selvas. Aprendeu rápido. Até como cozinheiro ele uma vez ajudou.

                 Quando começou na Patrulha Gavião o batizaram como Lord Jim. Seu nome era Stefano. Gostou do apelido. Quando leu que Baden Powell também foi Lord seu orgulho mudou para melhor. Agora seu sonho era outro. Correu atrás da Segunda Classe. Não foi difícil. Em um ano e meio conseguiu. Melhor ainda a recebeu em uma noite de lua cheia, no Acampamento das Vertentes, ascendendo o fogo do conselho com um palito e pulando as chamas três vezes para receber seu nome de guerra. Apesar de que a tradição rezava ser um nome indígena ele pediu para continuar sendo Lord Jim. Seu Monitor o abraçou. Todos deram um enorme grito de guerra da tropa. – Viva Lord Jim! O Chefe Maílson entregou a Segunda Classe e ele se derreteu todo. Não perdia um acampamento, nenhuma excursão. Era um dos primeiros a chegar à sede para as reuniões. Não tinha sonhos de ser Monitor, seu sonho agora era ser um Escoteiro de Primeira Classe. Os cordões não foram esquecidos. Estava lá separado em seus sonhos.

                 As provas foram feitas paulatinamente. Recebeu do seu Monitor como deveria ser e as datas. Ele mesmo procurou o Capitão Lamartine dos bombeiros para que aprendesse a prova das especialidades de Bombeiro e Socorrista. Acampador tirou facilmente. Em dois anos na tropa já tinha mais de trinta noites de acampamento. Comprou um caderno de duzentas folhas e ali anotava tudo. Datas, onde, quando, tempo e as partes importantes que lá aconteceram. Agora estava se preparando para a jornada. Era a apoteose. Todos que fizeram eram respeitados e até endeusados na tropa. Todos queriam ouvir os contos aventureiros da jornada. Aprendeu a ler mapas, tirava de letra os pontos cardeais, colaterais e sub. colaterais, sabia o que era um azimute, graus, aprendeu com facilidade a fazer um esboço de Giwell e seu passo Escoteiro e passo duplo eram perfeitos. Nunca em tempo algum ele errou no seu passo duplo. A quilometragem não tinha erros.  

               O dia da jornada chegou. Ele e Levegildo que ele mesmo convidou partiram rumo ao Vale do Roncador. Não conhecia, nunca tinha ido lá. O Chefe e o Assistente distrital Escoteiro tinham conversado antes. Um ônibus o levou até a estradinha do Sitio do Marcondes. Sua mochila estava perfeita. Nada de mais nada de menos. O farnel o de sempre. Um macarrão, uma batata, um arroz, sal, alho e um vidrinho de gordura. Sabão e mais nada. Não estava pesada. Queria levar a velha Silva de guerra, mas os seniores estavam com ela. Sobrou uma Prismática. Tudo bem. Ele dominava as duas com perfeição. Na porteira abriram o mapa. Na mosca. Era ali mesmo. Ele contava os passos e Levegildo anotava o que via por ali. Dois pintassilgos, um Anu do Brejo, beija flores voando longe, dois macaquinhos pregos no pé de Jaca.

                Às seis e meia da tarde chegaram ao sitio do Marcondes. Não havia duvida. Duvida ouve na senhora que os recebeu. Parecia que não sabia o que eles queriam, mas disse que eles poderiam usar o riacho e acampar a vontade. Uma sopa deliciosa, lavar vasilhame, limpar bem a barraca para evitar animais peçonhentos, e após uma vista no relatório e uma oração foram dormir. Levantaram cedo. Um café, biscoitos nova arrumação e pé na taboa. Agradeceram à senhora e partiram. Sabiam que deviam atravessar a Mata do Canarinho, mas disseram que não eram mais de quatro quilômetros dentro dela.  Engano. Meio dia, uma hora e não saiam de dentro da mata. Voltaram. Foram até o sitio. Perguntaram. O mapa não ajudava. A senhora disse que eles erraram, se voltassem pela serra eles veriam o caminho.

              Duas da tarde. Combinaram de chegar à sede às cinco da tarde. Isto se o ônibus não atrasasse. Agora sim o caminho estava correto. O mapa voltou a funcionar. Só às sete da noite chegaram ao ponto de ônibus. Demorou. Chegaram à sede as onze da noite. O Chefe Maílson muito preocupado. O Assistente distrital não quis esperar. Foi embora. Disse que não daria a prova. Se não tem responsabilidade com horários não merecem a Primeira Classe, disse. Dito e feito. Foram reprovados. Lord Jim não chorou e nem desistiu. Ele tinha têmpera de escoteiro. Seis meses depois repetiu a jornada. Desta vez conseguiu fazer tudo no horário. Lord Jim fez do seu sonho realidade. Pediu ao Chefe Maílson para que o distintivo fosse entregue também no Fogo de Conselho. Claro que sim o Chefe disse.


             Noite escura, raios, trovões, o fogo aceso. O Chefe queria voltar para o campo. Começou a cair uma chuva torrencial. Lord Jim chorou. Preciso receber agora Chefe! Não posso esperar outro acampamento. Terei feito quinze anos e serei Sênior! A chuva caia aos borbotões. A tropa ficou de pé. Em posição de sentido. Trovões ribombavam pelo ar. Lord Jim ali em pé em frente ao Chefe. Era mesmo um vendaval dos bons. O vento soprava forte. Mino o Monitor colocou a mão no seu ombro. - Você está pronto Lord Jim? Sim ele disse. O Chefe entregou o distintivo de Primeira Classe. Refez a promessa. Deu um enorme sorriso. Um raio assustador atravessou os céus. A luz que ele produziu mostrou um rosto de um Escoteiro orgulhoso e valente. Agora era um Escoteiro de Primeira Classe! Agora tinha muitas histórias para contar! Com ribombos e assombros da chuva que caia intermitente, a tropa ainda em posição de sentido cantou o Rataplã. Todo o hino. A selva recebia com orgulho aquela chuva intermitente e o cantarolar dos escoteiros! Ah! Sonhos! Como é bom sonhar e os ver realizados. Viva Lord Jim. Um Escoteiro Primeira Classe!  

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Lendas Escoteiras. A Borboleta Dourada.


Lendas Escoteiras.
A Borboleta Dourada.

          De tempos em tempos as borboletas se reuniam no bosque para conversarem, trocarem idéias e se conhecerem melhor. As borboletas novas se apresentavam à comunidade e as mais velhas as admiravam por sua beleza e as animavam para o trabalho junto às flores. Todas tinham a missão de espalhar o pólen e assim levar a beleza a toda parte: às matas, às florestas, aos bosques e aos jardins. Sentado à porta de sua casa, um velho gafanhoto observava a passagem das borboletas.          Todas o cumprimentavam respeitosamente, pois o velho gafanhoto era tido e realmente era um grande sábio.

          Até que, se aproximou dele uma borboletinha bem jovem, inexperiente, e, diga-se de passagem, bastante sem graça... - Bom dia, senhor Gafanhoto! – disse ela timidamente. - Bom dia! – respondeu o gafanhoto – Vai à reunião das borboletas pela primeira vez? - É isso aí! – falou a borboleta insegura – E estou um pouco preocupada... Será que vão gostar de mim? Diga com franqueza: você não me acha meio feiosa, minha cor não ajuda e as minhas asas são grandes demais? - Não! – respondeu o velho gafanhoto - Cada um é como é! E a aparência das coisas não é muito importante. Cada um se faz bonito ou feio. – acrescentou o gafanhoto com bondade.

          Na reunião todas conversavam entre si alegremente. Riam e brincavam, mas nem olhavam para a borboleta dourada. Era como se ela não existisse. Foi à última a deixar a reunião, na esperança de que alguém ainda a visse e falasse com ela. Mas nada! Ninguém a enxergou ninguém reparou nela. Quando na volta para casa, passou novamente pela casa do velho e sábio gafanhoto e ele perguntou: - Olá borboletinha, não vem da reunião das borboletas? Então... Que tristeza é essa? Não te trataram bem? - Pra ser sincera, nem me viram... Ninguém me notou na reunião. - Ora borboleta, espera aí! Você não é feia como pensa! Falta-lhe um pouquinho de charme... Talvez... Mais isso não é difícil conseguir. Se quiser ouvir os meus conselhos...

         -Ah, senhor gafanhoto! Seria um favor! Eu sei, os seus conselhos são maravilhosos! O senhor já ajudou muita gente a ser feliz! - Em primeiro lugar, quero saber por que você não usa uma das armas mais poderosas que todos nós possuímos para ser felizes: O SORRISO! - O sorriso? – perguntou a borboleta espantada. - Sim, o sorriso ilumina o nosso rosto! Faz a alegria sair de dentro do coração da gente e se espalhar, deixando todos em volta de nós, muito alegres! - Mas como vou sorrir se eu não estou alegre? - Ora Borboletinha! Neste mundo não existe ninguém que não tenha um motivo para ficar alegre! É só procurar! Você não acha maravilhoso o fato de poder voar? - Ah! Isso eu acho mesmo! É legal demais voar por cima de tudo! Fazer piruetas, pousar em qualquer lugar, ir para qualquer parte... É claro! Voar é muito bom mesmo. - O seu trabalho não é espalhar o pólen das flores para multiplicá-las por toda parte? - É exatamente esse o meu trabalho!

         - Espalhar a beleza por onde passa será esse um trabalho qualquer? Não é maravilhoso fazer isso? - Pra falar com franqueza, não reparo. Faço o meu trabalho por obrigação! - Repare então criatura! – tornou a insistir o gafanhoto – Verá que beleza existe em volta de você! Experimente sorrir, seu sorriso será um grande aliado. Pois todo mundo gosta de um belo sorriso! Procure também, fazer as coisas por amor, e não por obrigação! A borboleta animada agradeceu os conselhos e voou confiante e esperançosa. Feliz, ela vinha observando a beleza do pôr-do-sol e o vento a brincar com a folhagem das árvores. - Coisa linda! – pensou – Esse lugar onde moro é realmente uma beleza! De repente notou que estava sorrindo e sentiu esse sorriso vir do fundo do seu coração.

            Estava assim, distraída quando ouviu uma vozinha muito fraca a chamá-la: - Olá... Borboletinha! Você parece ser tão boa. Poderia ajudar-me? Estou coberta de areia e não consigo livrar-me dela. Você não dará um jeitinho? Era uma formiguinha já quase sem fôlego a se debater na areia. - Pois não! – Falou a borboletinha aflita descendo imediatamente para bem perto dela. – Estou aqui para ajudá-la! - Vi o seu sorriso tão bonito por isso me animei a pedir ajuda. Quem sorri como você, só pode ter um coração cheinho de coisas boas! Essas palavras da formiga foram as mais lindas ouvidas pela borboleta até aquele dia, e jamais se sentira tão feliz! Em sua grande alegria a borboleta teve um desejo enorme de cantar e dançar numa revoada de felicidade.

          Um besourinho ao passar ao seu lado voando também, falou: - Como você dança bem! E é linda sabia? - Obrigada! – respondeu a borboleta meio sem jeito, pois nunca havia sido elogiada antes – Suas asas também são muito bonitas sabe? Cada um é bonito ao seu jeito! E lá se foi o besourinho alegremente a dançar também, feliz com as palavras da borboleta. Daí por diante, começou a observar tudo: a relva, as árvores, o céu, as nuvens, a brisa, a chuva, as montanhas ao longe... Nada mais escapava de sua vista e tudo era importante pra ela. Encantada, olhava as flores, reparava na beleza de cada uma, conversava com elas e, sem querer, passou a fazer o seu trabalho de todos os dias com um amor enorme brotando em seu coração. - É incrível mesmo, a diferença de quando se faz tudo com amor!

          O tempo foi passando e a borboleta era cada vez mais feliz, pois por onde passava sentia como era querida. Todos a festejavam e a olhavam com grande simpatia. Todo mundo queria conversar, dançar e brincar com essa borboletinha tão gentil, sempre a sorrir para todos. A sua tarefa diária a borboleta passou a fazê-la muito melhor! É claro! Agora fazia com amor!Afinal, chegou o dia da nova reunião das borboletas. Muito alegre ela recebeu a notícia. Na data marcada, saiu de casa mais cedo. Queria passar pela casa do gafanhoto antes da reunião, pois desejava agradecer-lhe pessoalmente os conselhos preciosos e quase mágicos. Como algumas poucas palavras boas podem ajudar tanto!

          A chegada da borboleta à reunião foi sensacional! Todas pararam para admirá-la. - Mas que borboleta linda!- diziam. - É dourada!... Venham ver! Parece luminosa! Você é superlegal! Todas as rodearam alegremente, e perguntaram: - Você é uma das novas, não é? É a primeira vez que vem aqui? - Não! –respondeu ela - Já estive aqui na reunião passada, mas ninguém me notou! - Não é possível! Você é linda demais! É uma borboleta dourada! Sabe lá o que é ser uma borboleta dourada? Ninguém deixaria de vê-la!

         –Essa é uma história muito comprida... Qualquer dia eu conto a vocês. Agora quero me apresentar a todas as borboletas, quero conhecer todas as minhas irmãs, conversar com elas e se muito amiga da comunidade das borboletas. À tardinha, depois de sair da reunião, passou novamente pela casa do velho gafanhoto. Desta vez queria fazer-lhe uma pergunta: - Senhor gafanhoto, diga-me uma coisa: eu mudei de cor? - Não borboletinha, a sua cor é a mesma... – Por que então me chamam de borboleta dourada? - Mas você é uma borboleta dourada! Sempre foi... Apenas a sua beleza estava escondida. - Agora você reflete o seu interior! E é dele que vem a verdadeira beleza: A que sai do coração e se reflete em todo o ser! - Por isso você está luminosa e linda!


         - Você agora, é a borboleta dourada mais linda que eu já vi em toda a minha vida! (um conto de Bellah Leite Cordeiro)

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Lendas Escoteiras. Em cada coração uma sentença.


Lendas Escoteiras.
Em cada coração uma sentença.

                        Nonôvat era diferente de muitos monitores. Existem os amigos, os gentís, mandões, morcegos, irmãos mais velho, indiferentes, falastrões, humildes. Mesmo assim são eles que dão a vida pela patrulha. Seu nome verdadeiro era Antônio Medeiros. Nonôvat tinha um grande coração. Monitor da Patrulha Jaguatirica e O Chefe Ricardo o escolheu. A escolha de Nonôvat foi bem recebida. Na Curimbatá e na Gavião, Josivaldo e Moreno na Corte de Honra deram seu aval. Havia uma Tropa feminina que tinha atividades em separado, mas faziam outras em conjunto. Acampavam, faziam excursões e atividades aventureiras em conjunto, mas cada tropa com sua própria individualidade. Havia um respeito enorme.

                 O Chefe Ricardo e a Chefe Loreta eram ótimos chefes. Eles sabiam que nada poderia dar certo se não tivessem bons Monitores. Sempre diziam aos graduados: – Para ser um líder, você tem que fazer as pessoas quererem te seguir, e ninguém quer seguir alguém que não sabe onde está indo. Na Patrulha Jaguatirica ninguém disse não para a promoção ode Nonôvat. Eram experientes com mais de um ano de patrulha. Giba o Sub. era uma mão na roda. Nonôvat sabia cobrar sem gritar, e sempre o primeiro a fazer e ajudando. Não era e nunca foi um mandão. Aos treze anos aprendeu bem como liderar a Patrulha. Sabia que liderar é preciso também saber ser liderado. Dizia aos seus patrulheiros sorrindo – Olhem! Se ficarem mal humorado tome café! Se não gostarem sigam a luz, se no final dela tiver um buraco negro, se joguem. E dava boas risadas. Os escoteiros adoravam sua maneira de liderar.

               Os patrulheiros davam a vida pela patrulha. Todos sabiam exatamente o que fazer. Suas funções eram seguidas a risca. A tralha da patrulha era a melhor da Tropa. Panelas sempre limpíssimas, material de sapa afiados e oleados, duas barracas bem cuidadas, duas lonas seminovas tudo muito bem acondicionado. Na patrulha os patrulheiros eram peritos em afiar e usar perfeitamente uma machadinha um facão ou uma faca escoteira. Conseguiram com muita dificuldade uma bússola Silva e outra Prismática. Nos grandes jogos ou nos mais simples a patrulha aprendeu que ganhar é bom, mas saber perder é uma arte. Para que se achar sempre ser o melhor? Palavras do Chefe Ricardo e completava: Bertrand Russell dizia que: – A raiz do mal reside no fato de se insistir demasiadamente que no êxito da competição está a principal fonte de felicidade.

                  Nonôvat gostava do modo do Chefe Ricardo. Gente fina e respeitava a todos. Nunca faltou um aperto de mão, um abraço nas horas difíceis, um Anrê ou um Bravo! Chefe Ricardo incentivava ao máximo, mas cabia a cada um dar o primeiro passo. Dizia que o espelho era Caio Vianna Martins: - O Escoteiro caminha com suas próprias pernas. Na última Corte de Honra ficaram sabendo da nova atividade do distrito. - Chefe! Mas não estava programado! – Eu sei ele disse, reclamei, mas vai ficar mal se não formos. Na próxima não iremos se não estiver programado. Seria uma atividade de um domingo. Próximo ao Vale Cinzento. 23 patrulhas. Não podemos ficar de fora. No dia da atividade chegaram no horário. Durante meia hora se confraternizaram com as demais patrulhas presentes. Quase vinte patrulhas.

                A tropa do Chefe Jurema foi à última a chegar. Ele um rapagão de uns vinte e cinco anos, óculos escuros, chapéu de exploradores canadenses (gostava de inventar) e com uma vareta embaixo do braço dava seu show particular. Sem cumprimentar ninguém deram o grito da Tropa que terminava dizendo que eram os melhores e iam arrasar. Nem o demônio podia com eles enfim um monte de asneira não digna de escoteiros que prezam a lei. O distrital explicou o jogo. O Ouro Misterioso. Deu como ponto de partida a trilha onde começava o Vale Cinzento até a estrada do Astro Rei Estavam escondidos quinze lenços escoteiros. Todos numerados. As Patrulhas não precisavam seguir a ordem, mas para achar a pista final precisavam de pelo menos cinco lenços. Menos que isto não seria fácil chegar ao ouro perdido. A ordem era clara. Todos deveriam estar sempre juntos.

                   Em cada ponto haveria um Chefe Escoteiro. Se a Patrulha dispersasse seria desclassificada. Às treze horas seria parada para o lanche. Paulo Cobra Monitor da Caveira do Diabo (nome esquisito) se aproximou sorrindo de Nonôvat – Não me esperava eim? Não tem para ninguém. Você sabe que somos os bons, os melhores da cidade. Melhor reconhecer agora e desistir! E começou a rir voltando para sua Patrulha. - O jogo começou guerra! Gritou o Comissário Distrital. Eram dez da manhã. A Patrulha Jaguatirica conseguiu achar três lenços. Faltavam ainda dois. Ao meio dia e vinte Nonôvat viu Paulo Cobra sozinho correndo sem a Patrulha. Era contra as normas. Nonôvat foi atrás dele para dizer que se continuasse iria informar ao distrital. Correu atrás de Paulo Cobra que tinha subido em um penhasco proibido pela direção do jogo por oferecer grande perigo. Avisou sua Patrulha. Ao subir uns oitenta metros ouviu um grito de socorro. Era Paulo Cobra estirado em cima de um galho enorme de uma árvore. Desceu com cuidado.

               Paulo Cobra chorava. Gritava de dor. Dizia ter fraturado uma costela e o braço. Nonôvat achou que deveria ir buscar ajuda. Ventava forte e ele sabia que uma tempestade se aproximava. Deixar Paulo Cobra sozinho seria pior. Com muito custo o levou a uma pequena gruta próxima. Paulo Cobra gemia e chorava pedido sua mãe. A chuva caiu. Forte. Raios cortando pedras e árvores no fundo da garganta. Não foi fácil. Ele era pequeno. Paulo Cobra forte e alto. Tirou sua blusa e colocou nele. Disse que ia buscar ajuda. Paulo gritou que não iria ficar só tinha medo. A chuva passou. Nonôvat pegou novamente Paulo Cobra e o colocou no ombro. Paulo Cobra choramingava. Andava tropeçando. A cada cem ou duzentos metros parava para descansar. Viu que ia escurecer. Resolveu fazer um SOS com um fogo com muitas folhas verdes. Com sua blusa presa em duas varetas tentava fazer no código Morse as letras S. O. S. A noite chegou. Logo viu vários chefes chegando.


              Paulo Cobra foi levado ao hospital. Quebrou duas costelas, fraturou a coxa direita e o braço direito. Mas ia ficar bom. Nonôvat e sua patrulha fez questão de visitá-lo. Foi muito bem recebido. Paulo Cobra chorou varias vezes e pediu perdão por tudo que fez. Nonôvat o abraçou. Ficaram amigos para sempre. Um dia apareceram na sede dois figurões escoteiros. A ferradura foi formada. O Presidente Regional chamou Nonôvat a frente. Que seria? Entregaram a ele medalha de valor Ouro. Acharam que ele mereceu. Nonovat segurou as lágrimas. Ele não era de chorar fácil. As patrulhas deram o grito. Emocionante foi o abraço de Paulo Cobra. Ele chorava copiosamente. Nonôvat estava tremendo. Emocionado. Nonôvat em hora nenhuma se sentiu superior. Ele sabia o que tinha feito. Ajudar um amigo Escoteiro. Não importa quem ele seja.

domingo, 11 de outubro de 2015

João de Deus.


Lendas Escoteiras.
João de Deus.

                  Dois dentes grandes o faziam parecer um coelho quando sorria. Afável, gostava de um sorriso. Moreno cabelo cortados com máquina zero. Fazia parte do lugar onde estava. Magro e pequeno para sua idade de doze anos. Poderia ser Lobinho que ninguém viria à diferença. Filho de Dona Maria Noêmia, mulher boemia que passava as noites onde ninguém podia contar. Dificilmente ia visitar seu filho. Seu pai fugiu um dia e nunca mais voltou. Ele sentia falta. Queria um pai. Olhava para Miro como se fosse seu pai. O escotismo lhe deu outra vida outro motivo para voltar a viver. Esteve internado havia dois anos. Suspeitavam de um câncer. Um tratamento de quimioterapia nem sempre ajudava. Tossia, sentia dores tremendas no peito, gritava de dor e os médicos sem nada poder fazer. Nunca esqueceu aquele dia que Miro entrou na enfermaria. Na mão segurava um bastão com um totem do Tico-Tico. – Gritou alto! – Quem quer ser de minha patrulha? João nem pestanejou. Gemendo de dor se levantou. – Eu quero! – Disse.

                 Todo sábado pela manhã Miro chegava, sempre só, sempre falando alto: - Patrulha em forma! João se levantava com dores horríveis, mas formava com mais três. Leonel, Pedro e Josias. Josias morreu cinco meses depois, Pedro ficou mais tempo na enfermaria até o dia que saiu para operar e nunca mais voltou. Leonel morreu sorrindo no dia que a patrulha ouvia a historia de Caio Vianna Martins que Miro contava com emoção. Todos ouvindo atentamente. Ninguem viu Leonel escorregando da cama e caindo ao chão. Chamaram as enfermeiras que o levaram. Também nunca mais voltou. A patrulha teve mais dois patrulheiros novos na enfermaria que aceitaram entrar. João contava nos dedos o dia de reunião. Aguardava ansioso. Miro um dia narrou fazendo gestos como eram os acampamentos Escoteiros. As barracas, a mesa, as poltronas de madeira a cozinha e o fogão de barro. João sorria um sorriso de um jovem que sonhava em ser sem saber que nunca poderia ser um deles.

                  Ele imaginou como seria a barraca, sorria pensando que estava dormindo em uma delas, como seria a mesa que chamavam de pioneiria. Imaginou o fogão aceso, as brasas, a panela fazendo arroz e a frigideira fritando ovo. Era lindo pensava. Um dia Miro não foi. João de Deus sentiu tanta falta que chorou baixinho por muito tempo. Miro era seu bastão, seu sonho que nunca se tornaria realidade. Dois sábados seguinte Pablo chegou. Era o Sub. Monitor. Explicou que Miro foi operar na cidade grande. Queria despedir, mas o Doutor do Hospital disse que não. Seria muito triste sua despedida e não iria fazer bem para ninguém. Pablo era diferente. Pequeno, olhos negros enormes como se tivesse forçando para ver. Mas era um Escoteiro legal. Logo fez amizade com todos. Disse que a patrulha Tico-Tico não iria acabar. Ele estava ali para levantar o bastão e darem o grito. João de Deus sentiu saudades de Miro, mas voltou a sorrir o que não fazia há muito tempo.

                    Pablo ensinou a Canção da Despedida. João gostou, mas achou muito triste. Preferiu o Cuco, a árvore da montanha e adorava o Avançam as patrulhas. Pablo trouxe xerocado uma foto de patrulhas correndo pelas campinas, com a bandeira do Brasil. Era do caderno Avante. Lindo de morrer. João não tirava os olhos. O tempo todo ali olhando até desligarem as luzes. Fechava os olhos e seu corpo era transportado para os montes, para as montanhas, para as campinas e junto com seus companheiros eles cantavam o Rataplã. Seu sonho era fazer a promessa, pois sabia a Lei de cor e salteado. Um sábado também Pablo não veio. Ninguem explicou por que. Quem sabe a enfermaria só com ele presente a patrulha não podia se reunir. Juca, Moisés, Nonato também partiram para as estrelas conforme Dona Matilde a enfermeira explicava a morte dos jovens enfermos.

                    Mas ele queria continuar Escoteiro. Sabia que mesmo com um ele podia ser. Foi Miro antes de ir embora quem disse que onde houver um Escoteiro tem uma Tropa. Ele não sabia o que era Tropa, mas sabia que podia continuar amando sua patrulha e o escotismo. Um sábado bem tarde apareceu um Escoteiro bem mais velho. Já com seus dezesseis anos. Procurou João de Deus. Disse para ele que se chamava Rael. Não podia ficar ali, pois o Diretor do Hospital proibiu. Achava que a patrulha estava prejudicando muitos os meninos doentes e eles no último momento sempre pediam para dar o ultimo grito de patrulha. Era impossível. Isto não ajuda contou Leo o Sênior. – João, estou aqui a pedido de patrulha Tico-Tico. Ela está na porta do hospital. Não deixaram eles entrarem. Só eu e me pediram para sair logo. Mandaram entregar para você o Livro do Fundador do Escotismo. Baden-Powell O Escotismo Para Rapazes. Eu mesmo comprei outro para presenteá-lo. O Caminho para o sucesso também de B-P.

                    Leo partiu e João de Deus começou a ler os livros que fizeram dele um Escoteiro diferente. Agora conhecia tudo porque ele deveria ter sido um. Deveria ter acampado, deveria ter conhecido trilhas e montes, deveria ter subido nos mais altos picos, deveria ter acampado nas mais lindas florestas do Brasil. Seu sonho era sentar em volta de um fogo, bater palmas, cantar sorrir e representar uma bela esquete.  Quase não jantou naquele dia. Quando a luz apagou ele chorou. Não queria parar de ler. Nunca na vida se sentiu assim. Fechou os olhos devagar. Suas lagrimas caiam sobre a cama. Sentiu uma luz azulada entrar no quarto. Viu um velhinho sorrindo para ele. Parou ao pé da sua cama. Falou pausadamente o lema Escoteiro – Sempre Alerta João de Deus. Quer ir comigo para o Grande Acampamento do céu? João de Deus parou de chorar. Olhou para um lado e outro e viu centenas de patrulhas formadas. Havia uma, um jovem sorrindo chegou até ele: - João vim buscar você. Era Miro. A Patrulha Tico-Tico não é a mesma desde que você foi morar na terra!


                      Na vida real ninguém viu uma enorme nuvem brilhante e alva sobre o Hospital. Uma linda estrela esperava o menino João de Deus. O Doutor Tavares sentiu um calafrio. Correu até a enfermaria e viu João de Deus de olhos fechados e sorrindo. Viu que ele estava morto. Ninguem viu seu último suspiro, mas o Doutor Tavares sorriu pensando que João de Deus morreu feliz. Na porta do hospital uma multidão de escoteiros de mãos entrelaçadas cantava uma canção estranha para ele. Diziam que não era mais que um até logo, não mais que um breve adeus. Completavam dizendo que breve muito breve todos iriam se encontrar nos braços do Senhor.