Histórias e contos escoteiros.

Histórias e contos escoteiros.
Feitas para você se divertir!

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Minha inesquecível Chefe Rosinha.


Lendas Escoteiras.
Minha inesquecível Chefe Rosinha.

                         Muitos escoteiros e escoteiros não entendiam a Chefe Rosinha. Tinha no rosto a bondade, o sorriso e a amizade estampada em toda sua aparência. Não vou dizer que era a mais bem uniformizada da Tropa feminina, mas ela fazia na sua apresentação algum que sentíamos ser uma forma de elegância e simplicidade. Eu mesma no principio achei aquilo démodé, careta, fora de moda e inadequado para uma Tropa escoteira. Hoje já casada e com dois filhos sou gratíssima a ela. Deu-me nova visão da vida, principalmente quando comecei no meu primeiro emprego. Ainda me lembro do sorriso enigmático dos meus diretores quando conversavam comigo. Um deles até me perguntou se eu era de família tradicional e ascendência europeia. Eu ria por dentro sem demonstrar presunção ou esnobismo.

                        Nunca esqueci meu primeiro dia na Tropa. Já com meus onze anos, menina sapeca, sorria mesmo sem saber por que sorria. Não tinha modos para assentar nem andar. Parecia um espantalho que adquiriu vida e agora saia pelo mundo pensando que ele era meu. Adorei aquele dia. Ela me recebeu com um abraço sem afetação, me disse baixinho que eu era bem vinda e que contava comigo para ajudá-la. Aquilo me marcou. Ela queria minha ajuda? Porque não? A patrulha Coruja era minha segunda família. Todas as Escoteiras pareciam anjos caídos do céu para fazerem um escotismo que até hoje considero uma dos melhores momentos da minha vida. No principio estranhei a forma como a Chefe Rosinha tirava dez ou quinze minutos para falar em etiqueta, apresentação e educação me deixou inquieta. Pensava que o escotismo me daria muitas descobertas, aventuras, acampamentos e tantas outras coisas que sempre sonhei ter.

                        - Felícia, aqui você vai ter tudo isto e até mais. Mas espero que não me critique, pois ninguém nasce sabendo a maneira ideal de comportar-se em cada momento. Se fosse assim o mundo seria chatíssimo. Ela dizia isto e sorria. Um sorriso que conquistava a todos nós. – A elegância e a educação é um dom pessoal, como o talento, é a única forma de beleza permitida a todos nós. Eu sei que ninguém nasce assim e, portanto acredito que o escotismo pode complementar esta parte que está faltando em muito na nossa juventude. Feche os olhos e imagine comigo: - Se você tentar possuir uma flor verá sua beleza murchando. Mas se você apenas olhar uma flor num campo, permanecerá para sempre com ela. Eu franzia a testa e não entendia muito bem. Mas o tempo ajuda a transformar nossa maneira de ser e pensar se tivermos auxilio de alguém. Minha mãe era exigente e meu pai também. Mas a Chefe Rosinha era totalmente diferente. Com ela era muito fácil aprender.

                       Nossos acampamentos eram demais. Tínhamos liberdade para conversar agir atuar e construir. Nosso campo de patrulha não deixava nada a desejar. Eu adorava fazer uma pioneiria, bem feita ou não e ao terminar olhar com olhos de lince o que tinha feito. Dizem que a mais nobre paixão humana é aquela que ama a imagem da beleza em vez da realidade material. O maior prazer está na contemplação. E como eu gostava de contemplar minhas obras primas. As horas deliciosas do tempo livre, do almoço jantar ou mesmo nas conversas ao pé do fogo eram repletas de alegrias, sorrisos mil, éramos como se estivéssemos vivendo uma nova vida que o escotismo estava ali para nos oferecer. A Chefe Rosinha dizia sempre: - Seja você quem for, seja qual for à posição social que você tenha na vida, a mais alta ou a mais baixa, tenha sempre como meta muita força, muita determinação e sempre faça tudo com muito amor e com muita fé em Deus, que um dia você chega lá. De alguma maneira você chega lá.

                        Eu fazia tudo na patrulha com amor. Uma vez acampamos com outras patrulhas e achei que eles e elas não prezavam a boa civilidade. Muitos palavrões falta de apresentação pessoal ou mesmo até nas horas mais sublimes os seus sorrisos destoavam de tudo aquilo que aprendemos com a Chefe Rosinha. - Escoteiras! Ela dizia sempre: Uma pessoa é considerada chique quando se veste com apuro e bom gosto e se destaca pela elegância respeito e ausência de afetação. De novo, uma questão de atitude e não de indumentária. Lembrem-se se não houver frutos, valeu a beleza das flores; se não houver flores, valeu a sombra das folhas, se não houver folhas, valeu a intenção da semente. Isto minhas amigas eu chamo de caráter de um homem ou uma mulher em sua maneira habitual de ir à caça da felicidade. Primeiro fazemos nossos hábitos, depois nossos hábitos nos fazem.

                        Quando recebi meu Lis de Ouro foi como se o mundo se reverenciasse aos meus pés. Quando minha mãe me abraçou eu chorei de felicidade. Eu olhava a Chefe Rosinha que na sua expressão de bondade me fazia sentir como a escoteira mais feliz do universo. Sempre me lembrando de suas palavras: Se você for educada e simpática, as pessoas ficam dóceis e obedientes. Assim, a polidez faz com a natureza humana o mesmo que o calor faz com a cera. Tentei sorrir quando fui para Guia. Não conseguia segurar minhas lágrimas. Afinal era outra escola, outra maneira de viver e aprender. Se vives de acordo com as leis da natureza, nunca serás pobre; se vives de acordo com as opiniões alheias, nunca serás rico e eu nos seniores me sentia pobre. Eu não ia deixar apagar o que aprendi com a Chefe Rosinha. Eu sei que existem pessoas que se acostumam com seus próprios erros, e em pouco tempo confundem seus defeitos com virtudes. Isto nunca iria acontecer comigo.

                   Foi custoso para viver com outros que não tiveram a oportunidade de aprender a ser educados, gentís, entre outras necessidades de um ser humano que acredita na forma de viver mais voltada para os outros. Eu podia ter dito nas Reuniões ou Conselhos de Tropa o que diferia a Tropa escoteira dos Seniores ou das Guias. Poupar as pessoas de situações involuntariamente vexaminosas é prova de muita educação e civilidade. Palavras que não me esquecia da minha Chefe amada. Aos poucos sem forçar a própria Tropa aprendeu a me respeitar e um dia sem querer disse a um monitor que era muito comum em chegar atrasado: - Monitor, fazer alguém esperar sem uma desculpa séria, sem um motivo importante e, principalmente sem um telefonema no meio do caminho para justificar o atraso, é uma prova de arrogância e falta de civilidade. Ele me olhou espantando e quis retrucar, mas daí em diante nunca mais chegou atrasado.


                 O tempo passou. Fiquei mais alguns anos como Chefe. Cresci me formei e hoje não me arrependo de tudo que aprendi com a Chefe Rosinha. Ela me deu uma nova vida, uma nova maneira de pensar e se não fosse ela eu não seria a mulher que sou hoje. Com a Chefe Rosinha eu aprendi que deveríamos ser gratos a Deus por não nos dar tudo que lhe pedimos, mas nos ter dado o que precisamos para ter uma vida feliz.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

O Lobinho herói de Santa Genoveva.


Lendas Escoteiras.
O Lobinho herói de Santa Genoveva.

                              A história de Jovelino correu mundo. Sei que ninguém nunca esqueceu. Foi um exemplo de vida e marcou seu nome na cidade para sempre. A história aconteceu há mais de quinze anos. Se foi um Super Herói não sei. Bem não vamos saltar a pedra de uma vez. Vamos escalar ponto por ponto para que cada um conheça melhor quem foi o Lobinho Jovelino Troca Letras. Ele nasceu em Santa Genoveva lá pelos idos de 1950. Sua mãe trabalhava no correio e seu pai estava internado em um Manicômio Judiciário de Terra das Vertentes. Diziam que nunca se recuperaria. Na cidade a família de Jovelino era tida como “malucos”. Até os quatro anos ninguém viu nada de anormal em Jovelino. Quando fez quatro anos sua mãe observou que ele só ria. Diziam ser um riso de idiota que pouco falava.

                            No início ninguém ligou muito, mas na escola começaram a rir dele, fazer “chacotas”, chamá-lo de biruta, pirado, lunático, tantan e muito mais. Passaram então a chamá-lo de gaguinho, fanhoso e outros termos que não vale a pena publicar aqui. Jovelino nunca retrucou. Sempre com um sorriso nos lábios. Aos seis anos descobriu os escoteiros. Passava a tarde assistindo as reuniões na sede. Vibrava com os jogos e em seu cantinho pulava e tentava emitir sons que dificilmente saia. Por vários sábados ele ficou lá assistindo. Os lobinhos e os escoteiros já o conheciam do colégio e nas ruas da cidade. A Akelá Márcia um dia perguntou a ele se queria ser lobinho. Seus olhos disseram tudo. Ele balançou a cabeça com a dizer que sim. Marcia ficou intrigada. Será que era mudo? Martinha veio ao seu socorro. Akelá, é o Jovelino Troca letras, na escola todos dão boas risadas com ele é fanhoso e não fala.

                      Marcia pensou como ajudar. Pensou em conhecer a família de Jovelino. Falou com ele devagar – Jovelino! Peça a sua mãe para vir aqui. Certo? – Se ele entendeu ninguém soube, mas a mãe de Jovelino nunca apareceu. Marcia sabia que não podia admiti-lo sem a presença dos pais. Neste interim Jovelino continuava lá, no seu cantinho, vibrando e gruindo, pois assim eram os sons que emitia. Jovelino tinha boa aparência. Cabelos louros e ondulados. Suas roupas eram humildes, mas limpas. Calçava uma sandália de dedo e parece que escovava sempre os dentes, pois estavam brancos e brilhantes. Magro, não era alto pela sua idade. Enquanto pequeno passou por todos os médicos do INSS. Pobre ninguém resolveu sua doença.

                       Uma tarde a mãe dele apareceu. Conversaram muito. Marcia mesmo sem entender e sem experiência no assunto pensou que não custava tentar ajudar Jovelino Troca Letras foi aceito na Alcatéia e colocado na matilha azul. No inicio os resultados foram desastrosos. Os lobinhos e as lobinhas sempre rindo dele. Difícil mudar isto. Oito meses depois o próprio Jovelino estava desistindo. Dizia para a Akelá Márcia: - Ão adianta ontinuar. Ou sair. Olo muito. Os chefes da Alcatéia se reuniam, discutiam e chegavam à conclusão que ele não estava ajudando. Ele não aprende nada. Seu sonho era vestir o uniforme e não deixaram. Um sábado Jovelino não apareceu. Alguns chefes acharam melhor assim. Marcia ficou preocupada. Afinal se sentia culpada. Resolveu ir a sua casa. Com sua filha que era Escoteira foi com ela até a Rua do Ouvidor. Não foi difícil achar sua casa. Na porta a mãe a recebeu com um sorriso triste. Estranharam. A mãe de Jovelino serviu um cafezinho e uns bolinhos.

                     – Chefe, eu fui obrigada a internar o Jovelino em uma casa de repouso disseram-me que poderiam ajudar. Ele passou a gritar, chorar, e dizia na sua maneira inteligível que queria morrer. Pessoas humildes, sem posse e conhecimento Marcia se preocupou. Que casa seria esta? Nunca ouviu falar. Pediu o endereço e foi lá. Coitado do Jovelino. No meio de homens e mulheres que estavam em processo de loucura totalmente insana e degradante. A maioria sem familiares para ajudar. Espalhados pelo pátio faziam suas necessidades na grama, uns gritavam outros davam gargalhadas. Enfermeiros agiam com brutalidade. Viu Jovelino em um canto, e caramba! Sorrindo! Estava com um buquê de flores e veio correndo entregar a Chefe Marcia. Ela não aguentou. Chorando deu nele um abraço não de Chefe, mas de mãe.

                  Na secretaria disseram que ele não podia sair. Nem a mãe poderia tirá-lo. Enquanto não melhorasse. Melhorar? Ali? Marcia foi direto ao juiz da cidade. Conhecia-o. Era pai de um Escoteiro. Jovelino saiu no outro dia. E agora o que fazer? Como reintegrá-lo na Alcatéia novamente? Falar com os lobinhos? Consultou os demais assistentes. Consultou o Diretor Técnico. Fizeram um Conselho de Chefes do Grupo. Claro, todos se apiedaram de Jovelino e foram unânimes em votar a favor de sua volta. Perguntaram-se como ele iria agir e interagir com os demais? A bomba era da Marcia e seus assistentes. Marcia para animá-lo deu a ele um uniforme. Ele sorria de orelha a orelha. Naquele sábado a reunião foi na Praça Central da cidade. Era uma maneira de fazer marketing para o grupo.

                    Na praça um homem grande, barbudo, com um revolver na mão chegou gritando para saírem dali. Pegou pelos cabelos a lobinha Martinha. Ela com os olhos arregalados começou a gritar e pedir socorro. O homem apontava a arma e dizia que a mataria se alguém se aproximasse. A policia chegou e fez o cerco. Ele tentou um roubo no banco e não conseguiu. Matou a tiros o gerente. Uma calamidade. Um silêncio sepulcral no Parque. Os lobinhos e as lobinhas soluçavam e choravam. Marcia e os assistentes indefesos. Uma dezena de policiais gritando para ele soltar a menina. Ele começou a dar gargalhadas. – dizia – Vou matar! Vou matar! Nunca tive uma filha e vou levar esta junto comigo para o Inferno. Martinha gritava e ele dizia a ela para calar lhe batendo na cabeça com as mãos. Incrível, ninguém acreditou no que via. Jovelino estava sorrindo e falando normalmente. Cantando alto e bom som dizia a Martinha – Calma minha irmã! Calma. Tudo vai dar certo e foi chegando para perto dos dois. O bandido gritou para ele parar, pois o primeiro tiro seria dele. A polícia gritou para Jovelino sair dali.


                     Com grande agilidade Jovelino deu um salto e abraçou o bandido pelo pescoço. Ele sentindo o peso do menino soltou Martinha que saiu correndo. Com um safanão o bandido jogou Jovelino no chão e atirou. A policia nesta hora crivou o corpo do bandido de balas. Ele caiu ao chão ao lado de Jovelino que sangrava. Levaram Jovelino para o hospital. Ele quase não respirava. Internado na UTI ficou lá dois meses. Na porta do hospital uma multidão de lobinhos e escoteiros e seus familiares faziam vigília. Quatro meses depois ele recebeu alta. Um milagre aconteceu. Ele agora falava sem gaguejar. Deram a ele uma medalha da cidade. O povo veio ver e aplaudiu. Os escoteiros em uma estrondosa palma Escoteira saudaram Jovelino. O lobinho herói de Santa Genoveva. Sei que Jovelino quando cresceu foi escoteiro Lis de Ouro e Escoteiro da Pátria.  Dizem também que ele se formou em direito e é um grande advogado na capital. Dizem também que ele faz questão de participar de um Grupo Escoteiro lá. Só sei que em Santa Genoveva ninguém nunca mais esqueceu.   

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Um beijo e depois morrer.


Lendas Escoteiras.
Um beijo e depois morrer.

                          Charles era apenas um menino que gostava de sorrir brincar e cantar. Não gostava da escola. Mas sua mãe insistia. Ela dizia que iria partir um dia e ele ficaria só. Ele não deveria ser dependente de ninguém. Um dia passou a prestar mais atenção às professoras. Charles ficava na porta de seu barraco esperando sua mãe chegar. Ela saia cedo, fazia o café deixava no forno seu almoço e quando chegava fazia o jantar. Charles todas as tardes ficava na porta do barraco esperando sua mãe chegar. Sonhava em ter um vídeo game para brincar. Uma televisão colorida, pois a sua queimou e não tinham dinheiro para consertar. Até que isto era bom, pois depois da janta, sua mãe o deitava no seu colo e na velha poltrona desbotada, ela contava para ele belas histórias. Ele amava as histórias de sua mãe. Sem perceber um dia ela contou sobre seu pai. Era uma noite chuvosa e com lágrimas nos olhos disse que seu pai a deixou para nunca mais voltar. Ele não entendeu bem, mas ela o abraçou no final da história e o beijou varias vezes no rosto.

                          Lembrava-se de tudo que sua mãe contou sobre seu pai. – Alguns anos antes moravam uma pequena cabana em uma fazenda no interior. Seu pai fazia empreitadas consertava cercas, capinava, limpava os currais e quando podia dava uma mão na vaquejada que se realizava anualmente. Um dia ele fazia uma cerca próximo ao Rio Verde e uma enorme tempestade se formou. Um raio caiu sobre ele. Morreu na hora. O Senhor da fazenda um mês depois foi até lá dizer que precisava da casa. Casa? Uma cabana simples de pau a pique – Eu preciso de alguém para ajudar na lida da fazenda. Olhe senhora seu marido se foi e tenho outro arrumado. Preciso que a senhora desocupe. Fazer o que? Ela partiu para a cidade grande. Dormiram ao relento por vários meses. Ele tinha cinco anos. Ela lutou para conseguir seu barraco na favela do Engenho. Não conseguiu uma creche e uma vizinha uma vez ou outra colaborava. Ela era faxineira e trabalhava todos os dias.

                    As noites ele sorria pensando qual historia sua mãe ia contar. Ele ria de felicidade quando ela começava. Gostava do Neguinho do Pastoreio e sempre pedia para ela repetir. Um dia na escola Norberto um menino rico apareceu de uniforme. – Que é isto perguntou. – Sou Escoteiro não sabia? Charles gostou do uniforme. Perguntou a sua mãe se ele podia entrar. Ela riu e disse que não era para eles, lá só tinham ricos e brancos. Charles e sua mãe eram negros. Charles nunca se preocupou com sua cor. Na sua ingenuidade de menino pela primeira vez sentiu que não tinha seu lugar na sociedade. Alguns anos depois ele tanto insistiu tanto que sua mãe o levou. Charles foi aceito. Os chefes foram simpáticos e ele gostou da sua Patrulha Lobo. Em pouco tempo se enturmou. Agora tinha duas alegrias ser Escoteiro e as histórias de sua mãe nas noites após jantar.

                     Um dia na patrulha ficou sabendo que ele era “adotado”. O Grupo Escoteiro pagava suas despesas. – Mãe, não podemos pagar? Não meu filho. Você um dia quando crescer vai pagar trabalhando. Charles sabia ouvir os conselhos de sua mãe. Mesmo sendo negro era bem amado pelos seus amigos da tropa. Acampava, excursionava, brincava cantava e fazia coisas impossíveis com bambus e alguns metros de sisal. Charles cresceu. Passou para os seniores. Já não era tão dependente. Estudava a noite e trabalhava durante o dia na loja do seu Odorico. Pediu para não trabalhar aos sábados a tarde. Ele precisava ir à reunião dos escoteiros. Ganhava metade de um salario mínimo e ainda ajudava sua mãe.

                 Um dia as meninas chegaram. Tinham agora duas patrulhas completas com seis cada uma. Não se enturmou com nenhuma delas. Era arredio e não tinha assuntos para contar. A elas sempre dava nada mais que um Sempre Alerta. Um sábado Nathalya chegou. Cabelos vermelhos cortados no ombro, um rosto lindo um sorriso encantador. No final da reunião disse até logo para Charles. Ele não sabia o que dizer. Não sabia como conversar com uma moça. Ficava sempre envergonhado talvez pela sua cor. David o Monitor sempre ficava ao lado dela. Era o bonitão da Tropa. Sabia que nunca ela poderia ser sua namorada. Em uma excursão no Vale Florido eles deram uma parada próxima a uma linda cachoeira. Olharam extasiados e admiravam a maravilhosa obra da natureza e de Deus. Ela o convidou para sentar em uma sombra onde uma linda Copaíba se destacava. Ali ela alegre e gentil contou muitas coisas sobre a sua vida. Charles encantado não sabia o que dizer. Afinal era negro ela branca ruiva de cabelos vermelhos.

                 Ela insistiu pra que ele contasse um pouco de sua vida. Pensava que ela não iria querer saber da vida pobre e de um negro que morava na favela. O apito do Chefe tocou três vezes. Reunir. A hora maravilhosa daquele momento mágico havia acabado. Eles levantaram e para surpresa de Charles Nathalya o abraçou e o beijou. Ele não sabia o que fazer. Não foi um beijo que seus amigos se gabavam. Foi um beijo lindo, um roçar de lábios olhando nos olhos e sentido seu perfume que exalava e ele audacioso acariciou seu rosto, seus cabelos e de novo o apito do Chefe. Foi um êxtase de momento. Uma quimera de segundos, mas que Charles nunca mais esqueceu. Na semana seguinte Nathalya não veio. Na outra também não. Charles torcia as mãos, olhava para o portão e quando a reunião terminou perguntou ao Chefe o que houve. O Chefe disse que ela não voltaria mais. Era escoteira em outra cidade. Ela tinha pedido para participar das reuniões enquanto estivesse aqui.

                   Charles ficou em estado de choque. Uma dor incrível cravou em seu coração. Sua mãe o abraçou e ambos ficaram assim por um bom tempo com os olhos molhados com lágrimas que insistiam em rolar na sua face. Charles nunca encontrou outra moça para namorar. Não se interessou. Não podia esquecer o momento mágico do afago e do beijo entre ele e Nathalya. O tempo passou. Charles cresceu. Formou-se como Técnico Mecânico. Sua mãe velhinha não trabalha mais. Charles comprou uma linda casinha para ela. Mobilhou e perguntou se queria uma televisão. Ela disse: Minhas histórias ou a televisão? Ele sabia o que iria escolher. Charles continuou Escoteiro, mas preferiu ficar colaborando sem ser um chefe. Durante toda sua vida uma vez por mês Charles devagar sem correr vestia seu uniforme, embarcava em um ônibus e descia próximo ao Vale Florido. Sentava na sombra da Copaíba e sorria olhando seu passado ao lado de Nathalya.


                  Fechava os olhos e sentia seu perfume, sua voz e acariciava o ar pensando ser os seus cabelos lisos vermelhos. Sorria acreditando ter voltado no tempo. Depois de horas ficava de pé, sentia Nathalia a sua frente o beijando. Meu Deus! Era incrível esta visão virtual. Visão de um grande amor que nunca morreu. Hoje aos setenta anos Charles como todos os domingos ainda vai sempre ao vale Florido. Com passos trôpegos procura a mesma árvore. Senta aos pés da Copaíba como se fosse ainda menino e ao seu lado Nathalya. Nunca esqueceu o amor que morava em seu coração. Durante toda sua vida nunca mais beijou ninguém. Não sabia beijar e nem queria esquecer o beijo da Nathalya. Charles morreu na primavera. A Copaíba sentiu sua falta. O perfume que ela deixou em sua sombra nunca mais se esvaiu. Nas suas exéquias Charles viu uma luz azul brilhante e viu Nathalia a lhe convidar com seu uniforme bem postado a seguir para o Vale Florido. Na Copaíba sentaram-se de mãos dadas. Nathalya sorrindo disse que o esperou por todo este tempo. Charles sorria olhando para ela. Sabia que agora estariam juntos para sempre e ele voltava a viver um grande amor que nunca esqueceu!

terça-feira, 22 de setembro de 2015

O requintado e saboroso Bolo de Chocolate de Carminha


Lendas Escoteiras.
O requintado e saboroso Bolo de Chocolate de Carminha

                    Carminha era Lobinha, com seus dez anos sabia que ficaria pouco tempo na Alcatéia. Logo seria escoteira. Quem a visse diria que ela poderia ter 12 ou 13 anos. Tinha os cabelos negros, crespos, olhos castanhos e um porte firme, sempre com um sorriso nos lábios. Uma simpatia! Amava sua Alcatéia Sambhur (animal forte, elefante ou um grande tigre ou touros selvagens). Era uma alcatéia nova, fora fundada há oito anos. A alcatéia estava agora com 12 lobinhos e 10 lobinhas. Carminha era chamada carinhosamente na sua matilha cinzenta de Raksha.  Quando entrou fizeram o Grande Uivo em sua homenagem. Ela achou aquilo o máximo. Ali mesmo no seu pensamento, jurou que nunca mais iria sair do escotismo. Ela adorava as reuniões. Cada uma diferente da outra. Os jogos então eram sua paixão, mas logo descobriu que poderia crescer e ter muitos distintivos colocados em sua camisa.

                Agora Carminha estava diante de um grande dilema. Enorme mesmo. As duas coisas que ela mais gostava na sua vida de lobinha. O Acantonamento anual do Distrito, onde centenas de lobinhos e lobinhas estariam reunidos e a festa de aniversário de Isabel, sua prima. Sem contar é claro o delicioso Bolo de Chocolate que sua tia fazia com um sorriso no rosto. Como era gostoso! Delicioso. Um sabor sem igual. Carminha esperava todos os anos só para admirar a feitura e depois sentar calmamente, olhar seu “pedaço” e ir saboreando cada colher. E agora para sua infelicidade, as duas coisas iam acontecer ao mesmo tempo. Ela estava com a maior indecisão em sua vida. O que fazer? A noite ajoelhou aos pés da cama e pediu a Deus para lhe mostrar o caminho. Mas qual caminho? Ela queria ir ao acantonamento e também estar no aniversário de sua prima e o bolo... Ah o bolo!

                   Eça sabia que seria uma decisão difícil de Quem um dia quando criança não se sentiu assim? Uma dúvida atroz, cruel para elas, desumana. Mario Quintana escreveu que só as crianças e os velhos conhecem a volúpia de viver dia-a-dia, hora a hora, e suas esperas e desejos nunca se estendem além de cinco minutos..., não sei se concordo com ele. Dizem ainda que as crianças acham tudo em nada e os homens não acham nada em tudo! Aquele sábado de reunião foi um tormento para Carminha. Logo após a cerimônia de bandeira, ela se esqueceu das palavras que devia ser dita no Grande Uivo. A Akelá a escolheu para responder – melhor, melhor, melhor e melhor? Sim, melhor, melhor, e melhor! E ela nada. Seu pensamento estava no Bolo de Chocolate e no acantonamento. Todos ficaram intrigados, Carminha sempre era a mais alegre, mais participante e parecia estar nas nuvens. A Kaá fez um jogo de abertura já conhecido e que Carminha adorava. A Baratinha e o inseticida e Carminha parecia flutuar em nuvens e não prestou atenção ao jogo.

                      Quanto Hathi contou uma parte da história de Mowgly Trégua das Águas, foi que prestou um pouco mais de atenção. Dizia Hathi: - A Lei da Jângal – que é a mais velha lei do mundo, atende a quase todos os acidentes que possam acontecer para o Povo da Jângal. Código mais perfeito, o tempo e os costumes nunca fizeram. Mowgly vez por outra ficava impaciente com as constantes recomendações de baloo, o urso pardo, que sempre lhe dizia: - “Esta é a lei que vigora em nossa selva e que é antiga como o céu” Como o cipó envolve a árvore, a Lei do Lobinho envolve a todos nós. E depois que tiveres vivido tanto quanto eu, irmãozinho, verás que todos os filhos da Jângal obedecem ao menos uma lei, e não vai ser um acontecimento agradável de ver. Essa lição entrou por um ouvido e saiu pelo outro, porque o menino nunca tinha passado problema sério. Hathi continuou contando e desta vez Carminha prestava muita atenção.

       Carminha no final da reunião se aconselhou com a Akelá. A resposta não ajudou muito. Se quer um bolo de chocolate ou quer ir ao acantonamento, o melhor é o segundo Em casa falou com sua mãe e esta não se mostrou muito interessada no tema. Carminha estava decepcionada. O que fazer? Como agir? Sonhou muito com os dois fatos. Não havia como fugir. Ela tinha de ir ao acantonamento. Afinal sua vida também fazia parte da Alcatéia. Ela não poderia decepcionar sua matilha cinzenta. Sabia que a lembrança do Bolo de Chocolate nunca seria esquecida. Quando chegaram ao sítio o Balu fez o jogo do labirinto, (trançou-se entre as arvores um sisal esticado a um metro de altura e cada lobo de olhos vendados teria que percorrer o labirinto). Comeram em seguida um lanche e foram introduzidas no tema da atividade. A primeira etapa da disputa (história de Mowgly), a segunda (Caçada aos amuletos perdidos) e foram para o almoço. Carminha não esquecia seu bolo de chocolate.

      O acantonamento foi formidável. Tirou sua Insígnia Mundial de Conservacionismo, À tarde foram tomar banho na cascata. Carminha conheceu Rodrigo, um lobinho da matilha azul, de outra alcatéia do distrito e ficaram grandes amigos. Carminha contou seu problema e Rodrigo entendeu perfeitamente. Solidarizou-se com ela em tudo. Após o jantar, Carminha viu que sua alcatéia fora chamada sem a presença das outras e ela não soube o porquê. A Akelá a chamou em particular e pediu para ela ir à cozinha e pegar uma colher Carminha foi correndo. Ela era sempre assim. Disseram uma vez que o lobinho não anda, voa! E ela levava isso a sério. Mal chegou à cozinha e lá estavam sua mãe, sua tia, sua prima Beatriz e mais outras dez amigas de Carminha. Uma enorme surpresa. Sua tia disse – Carminha, vamos agora fazer o bolo de chocolate e você vai me ajudar!

      A vida nos reserva tantas surpresas, coisas que a gente jamais imagina que vai acontecer. Ajudar a preparar e comer o Bolo de Chocolate junto a amigos da Alcatéia com sua família e sua tia, claro também com a Prima Beatriz era um sonho. Foi um aniversário que ficou para sempre na lembrança de Carminha. Nunca esqueceu aquele dia e o Bolo de Chocolate. Como era gostoso! E ali naquele acantonamento ele tinha um sabor todo especial. Cantaram os parabéns, a Alcatéia se refastelou com o bolo de chocolate. Correu e abraçou sua prima Beatriz. - Amo você minha prima, seja feliz como eu estou sendo agora. E as duas ficaram ali abraçadas por um bom tempo. Não muito, pois era hora de Carminha comer seu pedaço de Bolo de Chocolate. O segundo do dia.


                 O escotismo é isto. Sonhos se tornando realidade. Amor retribuído em surpresas e amizades. A cada dia, a cada reunião, ou acampamento vamos recebendo passagens maravilhosas que ficam marcadas em nosso coração. Carminha viveu o escotismo intensamente. Cada um de nós vivemos mais que uma ilusão no escotismo. Ela mais jovem e eu um pouco mais Velho sabemos que temos orgulho em participar, viver, amar, sonhar, e acreditar que nosso movimento nos traz tudo àquilo que alguém pode pensar em ter. Não sei, mas acho que o escotismo é minha vida ou quem sabe minha vida é ser escoteiro!

domingo, 20 de setembro de 2015

O passo do elefantinho. (uma história para lobinhos)


Lendas escoteiras
O passo do elefantinho.
(uma história para lobinhos)

“O circo chegou à cidade,
É tempo de pensar no que se viu
Montaram uma tenda bem grande,
“Uma tenda do tamanho do Brasil”!

             Interessante. A vida da gente é sempre cheia de surpresas e quando nos lembramos das boas damos um enorme sorriso. Estava eu absorto e escrevendo quando começou a tocar “O Passo do Elefantinho” com a orquestra de Henry Mancini (Baby Elephant Walk, escrito em 1961 por este compositor para o filme Hatari). Adoro esta música principalmente porque ela me faz lembrar-se de Rafaella, uma lobinha morena, sete anos, miudinha e sempre de fisionomia séria. Dificilmente sorria para alguém. Nunca faltou uma reunião e mesmo doente chorava para ir. Uma vez chorou tanto que seus pais com sua charrete (não tinham carro) a levaram agasalhada e enrolada em uma manta para a sede. E quem disse que adiantou a Akelá, o Balu ou a Kaa falar com ela? Necas! Ficou lá sentada em uma cadeira só olhando e sem sorrir!

           O Circo dos Palhaços Impossíveis estava na cidade. Naquela época eles armavam sua tenda não sem antes fazer um desfile apoteótico. Ficavam em um terreno plano as margens da Estrada do Fim do Mundo. Chamavam-na assim porque era esburacada, pontes caídas, assaltantes enfim, era mesmo um fim de mundo. Não se chegava a lugar algum. Nem bem o circo chegou e um carro de som saiu às ruas anunciando as atrações. Atrás do carro dezenas de palhaços, equilibristas, artistas e animais exóticos. A rua se enchia de gente e nas janelas apinhavam-se todos. A meninada vibrava correndo atrás e muitos davam plantão junto ao circo na sua montagem para ver o movimento. A maioria dos jovens do Grupo Escoteiro Olavo Bilac estava lá. Boquiabertos. Vendo aquela parafernália sendo montada. Os pais sorriam de contentes, pois pelos menos os filhos tinham aonde ir e os sonhos das molecagens agora tinham uma pausa.

             Rafaella viu o desfile. Não sorriu, mas quando o elefante passou com a Rainha de Sabá sentada em seu dorso seus olhos brilharam. Sua mãe e seu pai não notaram seu súbito interesse. Eles mesmos achavam estranho por ela não sorrir. Eram pessoas humildes sem posses consultas a médicos especialistas estava fora de cogitação. Chefe Noravinio em reunião dos chefes do grupo sugeriu que o grupo todo fosse completo em um espetáculo. Era época de férias e poderiam combinar com o dono do Circo para que a escoteirada pagasse menos. Dito e feito. O Senhor Wiener Neustadt proprietário do circo (exigia que fosse chamado de Arquiduque Maximiliano, pois era trineto do próprio. Discutir para que?) – No seu vozeirão cheio de improvisações em português falou alto: - Sexta, às dezesseis horas. O circo vai apresentar um espetáculo especial para os Escoteiros falou. Uma gentileza de Arquiduque Maximiliano. E nunca se esqueçam disto! Não irão pagar nada!

            Uma festa. Mais de cento e quarenta membros. Grupo grande. Junto outros tantos de familiares e penetras aproveitando a “boca livre”. Duas horas todos na porta. Uniformizados é claro. Rafaella rondava o circo. Viu a jaula dos animais e próximo o elefante. Tentou aproximar. Não deixaram. O espetáculo começou. Uma bandinha, o apresentador – Respeitável publico! Seguiu os artistas, equilibristas, mágicos, saltimbancos e os animais. O brilho e a beleza do colorido dava asas a imaginação e a fantasia dos escoteiros. Eram levados para um mundo diferente. Um mundo de sonhos, das alegrias e os palhaços? Incríveis! A escoteirada pulava de alegria. Mas Rafaella só olhava. Não sorria. Um elefante adentrou na arena. Junto um menino vestido de indiano com um turbante azul. O elefante o seguia. Rafaella ficou de pé. Sorriu! Rafaella sorria! Ninguém a viu sorrindo, acho que só eu.

               Ninguém prestava atenção em ninguém. Naquela hora só a arena e os espetáculos de sonhos, de azuis, amarelos, vermelhos e de mil cores que estavam sendo visto pelos escoteiros. Só viram Rafaella na Arena. Susto! Gritaram – Rafaella volte! Ela não ouvia ninguém. Foi até o elefante. O tocou na tromba. O elefante olhou para ela. Ajoelhou-se e sentou com as patas dianteiras. Pegou-a com a tromba e bramindo a jogou no ar pegando-a novamente. Rafaella dava gargalhadas e a escoteirada acompanhou. Seu Arquiduque Maximiliano veio correndo. Mas o elefante levantando a colocou em seu dorso e ficava em pé sempre segurando Rafaella com a trompa.

                O adestrador de animais conseguiu retirar Rafaella de lá, mas ela gritava para não sair. Na arquibancada ela parou de rir. Ninguém entendeu nada. Rafaella sorrateiramente pulou por baixo da arquibancada, passou por baixo da lona e quando procuraram por ela foram encontrar junto ao elefante atrás do circo e dando risadas. Interessante que o elefante gostava dela. O circo ficou na cidade nove dias. Embarcaram em um trem da Leopoldina rumo à outra cidade. Rafaella sumiu. Cidade pasmada! Impossível diziam. Aqui não tem disso. Procuras mil. Rafaella tinha entrado no vagão do elefante como clandestina. Descobriram quando chegaram a Nuvem Azul. Seu Arquiduque Maximiliano passou um telegrama para buscá-la. Interessante. Rafaella voltou a sorrir. Quando voltou a Alcatéia foi recebida como a heroína de aventuras. Palmas e abraços. Valeu Rafaella. Um dia não há vi mais. Soube que seus pais foram morar em uma fazenda de um parente que morreu. Quem sabe lá junto à natureza ela não esteja sorrindo junto a um Lobo Guará cinzento e brincando pelas campinas verdejantes? Rafaella, um sonho de menina. Uma lobinha que soube fazer sua própria aventura.


Ai, o circo vem aí, quem chora tem que rir,
Com tanta palhaçada, tem hindu que come fogo,
Faquir que come prego, mulher que engole espada!

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Do mundo nada se leva.


Lendas Escoteiras.
Do mundo nada se leva.

                           Na pequena clareira uma fogueira apagada. Nem brasas havia mais. A lua esquecera-se que ele estava ali e se escondeu em uma montanha distante. As estrelas no céu desistiram de tentar alegrá-lo e ficaram paradas no céu sem brilhar. Ele não tinha forças para ao menos colocar mais um galho seco, soprar e quem sabe o calor do fogo poderia ajudar a amainar sua imensa dor. Uma dor cruel, uma perda que marcou seu coração para sempre. Chorar? Sim, ele chorou muito. Chorou quando soube, pensou em se matar em suas exéquias, sentiu a vida se esvair nos meses que ficou só sem ter ela sorrindo ao seu lado como sempre fazia. Os amigos escoteiros tentaram consolar. Palavras bonitas surgiram e ele sabia que seu coração estava morto. Não ligava. Porque falar do artigo da lei? O que sabem da dor de uma perda de alguém que nunca mais vai voltar? Sorrir? Para que sorrir se nunca mais ela estará junto a ele? Preferia estar morto e não se matou por que acreditava em Deus.

          O vento soprava uma leve e a brisa e a noite caia mansamente. Ele não sentia frio e nem calor, seu corpo embruteceu-se nas suas necessidades mais simples. Chorava e por dentro gritava para si que precisava esquecer se não ficaria louco. Os tempos das alegrias se fora. Há tempos não acampava mais com a tropa. Não tinha motivos mesmo porque parou de frequentar as reuniões. Seus Escoteiros o procuraram, mas só viam lágrimas nos seus olhos. Sentia-se bem acampando sozinho. Sem vozes, sem alguém com sua piedade que não o satisfazia. A dor vinha mais forte ele sabia, mas pelo menos a natureza poderia lhe trazer a calma que ele precisava. Durante o dia tentava fazer uma pioneiria para passar o tempo. Mesmo a fome não era tanta ele pouco ligava para ela. Pescara sim bons peixes que apodreceram na mesa rustica da cozinha que construiu. Ele gostava das noites sombrias. Nem ligava para a lua, para as estrelas e esquecera completamente o encanto do nascer e do por do sol.

                 Nunca esqueceu o dia quando a viu pela primeira vez. A chuva caia torrencial e ela brincava na chuva cantando e dançado com uma alegria tal que a encantou para sempre. Quem era ela? Não importava ele sabia que era assim do nada que surgia um grande amor. Ele sempre acreditou que os Escoteiros são fortes, sabem pular uma dificuldade e sabem sorrir. Quem sabe ele pensou que era um deles e nunca foi? Era sua reunião terminar e ele corria apressado a dar os avisos aos monitores e partia célere para encontrar-se com ela. Hã! Rosamaria... O nome de uma rosa, a rainha das flores e Maria mãe de Jesus que diziam ter uma beleza sem igual. Passeavam de mãos dadas, viviam sorrindo um para o outro, iam a mil lugares e ele nunca a tocou a não ser roçar seus lábios vermelhos molhados como o néctar perfumado. Ele gostava do cheiro dela. Gostava do seu modo de sorrir de olhar...

                      Seu casamento foi inesquecível. Para ele o melhor dia de sua vida. A escoteirada sorrindo, brincando com seus bastões sobre suas cabeças, cantando o Rataplã e palmas escoteiras repaginando as folhas do livro da história que nunca existiu. Quando ele e ela ficaram sós ele não sabia o que fazer. Ela estava linda em uma camisola branca como sua pele clara sorrindo envergonhada. Amaram-se sobre a proteção de Deus. Os dias mais felizes de sua vida. A escoteirada sentia sua força e sua nova forma de viver. Notaram que era um novo Chefe. As atividades eram feitas com tal alegria que todos vibravam querendo mais. Ninguém soube realmente o que aconteceu. Ela começou a definhar e morreu em poucos meses. O tempo parou no espaço infinito. Ninguém sabia o que dizer e mesmo as palavras do Velho Pároco, aquele que o batizou poderia imaginar o seu sofrimento.

                      Ele sabia que pensar em tirar sua vida seria um erro só porque perdeu alguém. – Meu filho sofrer pelos outros é caridade, sofrer voluntariamente por motivo próprio é egoísmo! Meu Deus, não deixe que ela morra, ele dizia. Mas ela estava morta. Ele se transformou em um zumbi a correr as ruas da sua cidade sem saber para onde ir. Naquele ultimo dia ele fez a fogueira como se fosse uma máquina que não pensava. Era seu ultimo dia, pois ele precisava voltar. Precisava trabalhar já que suas pequenas economias estavam no fim. As chamas subiram aos céus e juntas as fagulhas faziam seu espetáculo que para ele nada representava. Abaixou a cabeça e começou a chorar. Veio um soluço forte. Estava engasgado de emoção e dos seus sonhos que se foram. Um barulho de um galho quebrado lhe chamou a atenção. Em uma trilha que levava ao Lago Profundo ele viu se aproximado um Velho Escoteiro. Barbas brancas, cabelos brancos e trazia na mão uma forquilha e um tosco chapéu escoteiro. Ele olhou com espanto aquela figura que não era desconhecida. Ele sabia que o tinha visto em algum lugar.

            O Velho Escoteiro o saudou carinhosamente e sentou em sua frente em uma pequena tora que há anos estava ali. O Velho não disse nada apenas sorria, um sorriso cativante como se sua vida fosse a mais feliz do universo. O Velho Escoteiro olhou para o fogo que rejuvenesceu. As chamas subiram aos céus. Olhou para o céu e ele nunca viu um céu tão brilhante onde as estrelas no firmamento davam seu espetáculo sem cobrar. A lua saiu de trás das montanhas e uma brisa suave começou a roçar seu rosto trazendo o perfume daquela floresta encantada. Ninguém disse nada. Ele não sabia o que dizer. Começou a sentir uma paz que nunca sentiu antes. Frases começaram a pipocar em seu cérebro – Há uma espécie de conforto na autocondenação. Quando nos condenamos, pensamos que ninguém mais tem o direito de fazê-lo.

          Ele segurava-se em suas lembranças. Não queria esquecer-se delas. Rosamaria não podia ser esquecida. Agora ele sabia que a vida não é o ponto de partida e sim a caminhada. Caminhando e semeando, no fim terás o que colher. Lagrimas começaram a cair, mas diferente das lágrimas doidas de antes. O Velho Escoteiro estava em pé. Sorria para ele da mesma maneira que chegou. Foi até onde ele estava. Colocou a mão em sua fronte. Disse baixinho: Somos irmãos de sangue, tu e eu! Sorriu e partiu sem dizer adeus. Ele o viu andando sobre as águas do Lago Profundo até desaparecer nas sombras da noite. Nesta noite ele dormiu. Sonhou com ela. Ela sorria dizendo; Nosso amor é eterno. Está escrito nas estrelas completou. Ele acordou rejuvenescido. Sabia que nunca esqueceria Rosamaria. Sabia que muitas vidas se foram e outras estavam por vir. Iriam viver juntos por toda a eternidade.


             Naquela tarde ao chegar ao Grupo Escoteiro ninguém perguntou, ninguém tentou mudar a rotina que sempre tiveram. Ele se incorporou a ela. O mundo não para e todos nós seguimos o passo do mundo. Ele sabia que ia lembrar-se dela para sempre, mas como uma alegria diferente. Ao sair do portão para retornar a sua casa ele viu em uma esquina o Velho Escoteiro. Ele estava sorrindo e lhe fazendo o sinal Escoteiro. Ele retribuiu. O Velho Escoteiro partiu desaparecendo em nuvens no ar. Ele não perguntou quem era de onde veio e para onde ia. Ele só sabia que sua vida iria mudar para sempre!  

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Patu o Caolho, o bandido cruel da Caverna do Morcego.


Lendas Escoteiras.
Patu o Caolho, o bandido cruel da Caverna do Morcego.

“Conta-se uma lenda que um bandido cruel se escondia na Caverna do Morcego. Saia sempre à noite para matar qualquer coisa viva que encontrava em sua frente. A lenda dizia que ele nunca foi encontrado e vive perdido perambulando pelas margens do Rio da Chuva próximo a caverna do Morcego que se tornou sua morada”.

          Passava das dez da noite e ainda estávamos papeando em volta do fogo comendo bananas assadas e tomando um delicioso café no bule que se esquentava nas brasas da fogueira. Cortiço um sênior magro e alto, cabelos encaracolados estava em pé de costas para a floresta contando uma história fantástica. Cortiço tinha o dom da palavra, dos gestos e da imaginação. Todos nós da patrulha Serpente tínhamos admiração por ele. Nunca conheceu seus pais e foi criado pela Avó que lhe deu carinho e amor. Cortiço terminou dizendo: - Se quiserem podemos ir lá agora. Não é longe. Em nossas bicicletas é só atravessar O Pontilhão Negro da estrada de ferro, em menos de uma hora chegamos a Riacho Grande. De lá é fácil atingir a curva do Índio. Dizem que embaixo da pequena ponte de madeira do rio Amarelo as cavernas estão lá para quem quiser explorar!

         Um silêncio profundo se fez. Todos pensavam a mesma coisa. Será que iria valer a pena? A lenda que Cortiço contou poderia não ser verdade, mas e se fosse? Não seria fácil atravessar o Pontilhão da estrada de ferro. Nele não existia saída e se um comboio de minério aparecesse para não morrer todos tinham que pular no rio. E as bicicletas? Perder tudo? O que dizer aos nossos pais? – Vagonete o Escriba falou baixinho: - Uma aventura e tanto, mas atravessar a ponte? Se o fantasma do Patu o Caolho estivesse lá tudo bem, a gente já enfrentou fantasmas antes, mas a ponte era um desafio infernal. Pikitito que pouco falava concordou e foi mais além. – Se conseguirmos será a primeira vez que vamos viver uma grande aventura. Orelhudo o Monitor não disse nada. Porteira o sub. riu baixinho. – Sei não disse – Se conseguirmos seremos os primeiros a aventurar em uma travessia mortal. Que eu saiba ninguém nunca tentou. Não deu outra, todos se levantaram, fecharam suas barracas com cipó bem preso para evitar bichos, vestiram seus casacos simples e sem ostentação, montaram em suas bicicletas e partiram. Eram dez e meia da noite.

                Contavam-se fábulas e relatos nem sempre verdadeiros de Patu o Caolho. Lá pelas bandas de Derribadinha e Riacho Grande ele era famoso. Seria demais se eles encontrarem com ele. Já pensou falar com um bandido malvado como ele? Em meia hora avistaram pontilhão. Pararam na entrada. Nenhum som. Cada um olhou para o outro e o coração disparou. – Orelhudo pediu que usassem os cabos que usavam na cintura para amarrar uma bicicleta na outra. Se tivermos que pular pelo menos poderemos recuperar todas elas no fundo do rio. Assim foi feito e ao dar os primeiros passos ouviram o apito do trem. Sorriram. Se esperassem ele passar teriam alguns minutos para correr dentro do túnel escuro do pontilhão até o outro lado. O trem passou. Como coriscos em menos de oito minutos chegaram ao outro lado. Sorriram aliviados. Vinte minutos depois margeando o Rio do Peixe viram a entrada da caverna. Escura, fantasmagórica. A noite parecia a morada do demônio. Eram seniores acostumados. Medo para eles era uma palavra que não existe.

               Levaram um lampião pequeno a querosene. Foi aceso e não iluminava mais que dois metros à frente. E daí? Era o suficiente. Pikitito ficou responsável para marcar o caminho. A certeza da volta sem sobressaltos dependia dele. Ele sabia de sua responsabilidade. Cortiço tentava recordara o que lhe contaram. Havia duas bifurcações na caverna. Uma levava a sala dos morcegos assassinos. Milhares deles. Quem chegou ali foi morto em segundos com suas mordidas fatais. A outra levava a um salão enorme. Diziam que Patu o Caolho morava lá. Sempre com a sua winchester e seu parabélum na mão. Diziam que o teto da caverna era enfeitada de caveiras penduradas, meganhas que ele matou. Diziam que mesmo sem vento balançavam como se estivessem dançando quando um inimigo aparecia. Pé ante pé eles seguiram a caverna e avistaram a bifurcação. Qual escolher? Na moeda? Não tinham nenhuma. Eram os seniores mais duros que existiam, mas para eles dinheiro nunca foi problema. Orelhudo mostrou que era o Chefe. Vamos pela direita! Falou. Ninguém disse nada e o seguiram.

              Quinze minutos depois uma visão do inferno. No salão, bem no meio, Patu o Caolho sentado à moda índia, de costas para eles falou baixinho – Aproximem-se! Eu sabia que vinham! Porteira que sempre ria queria chorar. - E agora? Pensou? O bandido vai matar um por um! Vagonete parecia ser o único a não ter medo. Aproximou-se do bandido e sentou ao lado dele. Um pequeno fogo um tropeiro simples e uma artimanha assando o animal qualquer. – Comam a vontade disse o Bandido. Parecia apetitoso. Pescoço tirou sua faca e tirou uma lasquinha. – No ponto pensou. Todos fizeram o mesmo. Ninguém falava. – Meia hora depois Patu o Caolho contou sua história. Nunca fui bandido, Capitão Micunha da Policia de captura se “arrebicou” pela minha mulher. Não me respeitou como homem. Ele foi obrigado a cortar a garganta do meganha filho da mãe. Escondeu-se ali. De vez em quando um pequeno batalhão aparecia. Ele fechava a entrada da direita e eles caiam direitinho no salão dos morcegos assassinos. Nunca escapou ninguém. Saia à noite até Derribadinha ou Riacho Grande para pegar alguma comida. Não tinha dinheiro. Na entrada das cidades dava uns tiros para cima e ninguém incomodava. Servia-se no armazém com víveres para um ou dois meses.

              Orelhudo, Porteira, Pescoço, Vagonete, Pikitito, Cortiço e Pé de Chumbo da patrulha Serpente estavam calados ouvindo a história de Patu o Caolho. Não tinham nada para dizer. Ficaram em pé e Orelhudo agradeceu o petisco que comeram. Era hora de voltar. Pé de Chumbo fez a pergunta que todos queriam fazer: - E as caveiras senhor Patu? – Ele fez um gesto. Ainda sentado à moda índia o salão se iluminou. Centenas de caveiras penduradas no teto. Todos balançando. Todas com o uniforme da policia de captura! – Obrigado e até senhor Patu. Que vamo que vamo para nosso acampamento. Patu olhou para eles – Boa viagem. Sempre os vi lá acampando. Todos se entreolharam. Cada um em fila indiana percorreu o caminho de volta. No Pontilhão da estrada de ferro não deu outra. Na metade da ponte um trem enorme, com faróis incríveis apareceu sobre eles. Pularam no rio. Quase vinte e cinco metros de altura. Moleza para aqueles seniores. Foram até a margem tiraram as roupas e voltaram para buscar suas bicicletas no fundo do rio.


              Sei que a Patrulha Ventos do Norte também se arriscou e foi até lá. Sei que a última não achou Patu o Caolho. Sumiu neste mundo de Deus. O fato é que Patu o Caolho ficou amigo dos Escoteiros e bandido ou não sempre o trataram bem. Alguns seniores passaram a contar uma história diferente. De Bandido passaram a contar que era um homem perseguido que merecia nosso respeito. Coronel Saldanha do Batalhão militar não gostou. Deu um ultimato: - Se continuarem com esta história acabo com vocês! Pelo sim e pelo não calamos. Afinal respeito é bom e todos nos gostamos. Kkkkkkkkk!                    

domingo, 13 de setembro de 2015

Em algum lugar do passado.

Lendas Escoteiras.
Em algum lugar do passado.

                         Eu tive dois amores na vida. Amei quem não devia amar e amei por me sentir vibrar sendo um Escoteiro. Viver junto a amigos que me faziam feliz era muito bom. Ser Escoteiro sempre foi meu sonho, não aquele sonho que a brisa leva, e um dia volta com o vento. Era um escotismo gostoso, franco, amigo, sincero e leal. Mesmo com a adversidade por ela ter aparecido em minha vida nunca reclamei aos meus amigos, das noites gostosas e mal dormidas e das refeições enfumaçadas dos maravilhosos acampamentos. Poderia dizer que o escotismo foi mais que um sonho, nele eu era como o vento e podia voar, voei pelos campos, pelas montanhas, voei a noite pelas estrelas e vivi as maravilhas de cada lugar. Antes que ela aparecesse na minha vida, eu tinha outro amor, gostava de cantar. Diziam que eu tinha uma bela voz, e mesmo arranhando o velho violão que meu pai me presenteou eu conseguia nos fogos de conselho, nas noites maravilhosas de uma conversa ao pé do fogo, cantar para meus irmãos de patrulha, de outras patrulhas e eles adoravam.

                           Podia dizer que nos meus catorze anos eu tinha tudo que um jovem Escoteiro poderia ter. A felicidade de um pai e mãe queridos, uma escola onde todos me amavam, uma patrulha que nos considerávamos irmãos. Todos sorriam para mim e eu valorizava aquele sorriso. Não era o melhor, mas também não era o pior. Tudo na minha vida era só felicidade até o dia que ela apareceu. Impossível alguém sentir o que eu senti. Eu era apenas um Escoteiro de Primeira Classe no alto dos meus catorze anos. Dizem que meninos não amam, não sabem o que é uma paixão, não sente no corpo o calor de quem ama, não tem ainda mente formada para sonhar sonhos de amor. Foi em um sábado de reunião que apareceu. A primeira Escoteira da Patrulha Leão. Todos ficaram boquiabertos com seu sorriso, com sua voz, com sua beleza e sua maneira de jogar os cabelos compridos para trás e sorrir. Nossa primeira Escoteira e meu primeiro e único amor.

                    À noite na varanda da minha morada, não toquei no violão. Na varanda deitado na rede do meu pai eu olhava para o céu e pensava: Quem é você? Será alguém que nunca vi e que apareceu na minha vida assim do nada? Você que um dia levou meus sentimentos como se tudo o que tivesse guardado na vida fosse meus sábados Escoteiros e solitários depois que você chegou? Custei para dormir. Minha mãe lá pelas tantas quase me carregou no colo até meu quarto onde consegui dormir. – Escoteiros! – o Chefe dizia – Esta jovem é Lisabel, será a primeira Escoteira da tropa. Teremos muitas outras! Ninguém falou nada, só Josué que me cutucou e disse: - Sabe Richard, ela não trará a felicidade para ninguém. Josué era um visionário. Ela não ficou muito tempo. Três anos talvez? No primeiro ano eu fazia planos, planos incríveis de me apresentar. Apresentar como? Ela me conhecia, sabia meu nome, sorria para mim com aquele estilo maroto como a dizer que nem minha amizade lhe interessava.

                   Nos acampamentos eu não era mais o mesmo. Ajudava a patrulha sim, mas sempre a pensar e sonhar com ela. Sua voz era para mim um sonho, como se ela soubesse que cada palavra eu escrevia seu nome ao vento. Lisabel!  E meu pensamento queria encontrar seu olhar no ar, ver seus olhos da cor da noite perdidos no luar. Eu fiz uma canção para ela. Demorou. Fechava os olhos e pedia um favor à brisa da madrugada, leve tudo que for necessário, ando cansado sem saber o que dizer, eu preciso mudar e daqui para frente vou levar apenas o que couber no meu bolso e no meu coração. Na melodia eu pedia ao vento que varresse tudo para longe... Sentava-me no alto da montanha, pois eu sabia que lá ventava forte. Sábio é o mar que nas idas e vindas sabe ser imensidão.

                  Lisabel partiu do Grupo Escoteiro e da cidade. Foram quase cinco anos três no escotismo e dois olhando de longe sua janela da casa onde morava. Não me entreguei como um Escoteiro apaixonado. Minha vida continuou mesmo depois que fui feito gerente do Banco da cidade. Não casei e nem namorei. Só pensava nela. O escotismo que um dia completou as fases da minha vida já não era mais o mesmo. Não parti, não deixei para trás minhas raízes Escoteiras. Todas as noites pegava meu violão e na varanda do meu lar eu cantava a canção que fiz para ela. Eu ouvia o vento e ele me ouvia. Ela dançava no meu corpo, flutuava como uma pluma. Voava até o topo da árvore e quando batia o vento, caía novamente. Rotina de sempre, todos os dias o mesmo percurso. Eu me acostumei com a forma que o vento me consolava, dava vontade de voltar todos os dias, mesmo sabendo que meu destino era grama fresca.

                  O tempo e o vento. Palavras que fizeram sonhos e livros históricos, e que me fazia viver sem rumo sem pensar. Cada ano era uma lembrança. Parecia uma doença em minha mente. Ela tinha partido, nunca mais ia voltar e porque não esquecer? Trinta anos, quarenta, sessenta. Ainda no Grupo Escoteiro. Não casei, não amei mais ninguém. Agora amava o escotismo e ela onde estivesse. Na minha canção eu escrevi – Se não era para ficar, para que você apareceu na minha vida? Bobagem. Canção que não cantei para ninguém. Devia ter dito para ela mesmo de longe e sussurrando – Lisabel, você apareceu na vida, como amiga foi chegando, de mansinho ganhou minha confiança e logo ganhou o meu coração... Mas ela partiu para sempre.

                  A ideia não foi minha. Foi do Chefe Pascoal. Levar um pouco de amor e carinho em uma casa de repouso de idosos. Uma boa ideia eu achei, pois já me considerava um idoso. Quem sabe a melhor ideia que não foi minha. Meu Deus! Que surpresa! Ela estava lá. Acabrunhada, cabelos brancos, sorriso perdido no tempo. Não reconheceu ninguém. Nem se lembrou dos seus velhos tempos de Escoteira. Cheguei de mansinho. Acariciei seus cabelos, ela levantou os olhos sorriu e nada disse. Meu amor que nunca tinha esquecido agora estava ali na minha frente. Velha, alquebrada, doente. Mas eu só via a Lisabel do passado. – Perguntei na secretaria quem era responsável por ela. Ninguém disse a enfermeira. Tomei uma resolução, ia cuidar dela para toda a vida. Custou muito à papelada ser aprovada. Eu já cuidava de minha mãe acamada e agora tinha Lisabel para cuidar.


                      Ela as noites de luar sentava comigo na varanda e eu cantava para ela. De olhos fechados não sabia se ela entendia a canção, se a melodia entrava em sua mente ou se apenas sentia a brisa da noite e o vento passar. De vez em quando ela me olhava com seus olhos miúdos, deixava uma lágrima rolar pelo rosto, eu chorava por dentro e não parava de cantar: - “Quando você apareceu na minha vida, eu era apenas um alguém sem saber aonde ir, o tempo passou, e você tomou meu coração”. - Sei que um dia ela vai partir. Sei que um dia eu poderei ir também. Mas confesso que agora era feliz. Lisabel estava ali, junto a mim e mesmo sem dizer que me amava me fazia o Escoteiro mais feliz do mundo!  

sábado, 12 de setembro de 2015

A classe dominante vai ao escotismo.


Lendas escoteiras.
A classe dominante vai ao escotismo.

(esta é uma história de ficção, qualquer semelhança com pessoas ou fatos reais é mera coincidência).

Sou gaúcho forte, campeando vivo, livre das iras da ambição funesta;
Tenho por teto do meu rancho a palha, por leito o pala, ao dormir a sesta.
Monto a cavalo, na garupa a mala, facão na cinta, lá vou eu mui concho;
E nas carreiras, quem me faz mau jogo? Quem, atrevido, me pisou no poncho? João Simões Lopes Neto

                   Vertentes da Saudade era uma cidade pequena, antiga e ainda enraizada nas velhas tradições gaúchas. Ficava a oeste de Uruguaiana mais de oitocentos quilômetros de Porto Alegre. Nada mudou em Vertentes nos últimos trezentos anos. Os antigos donos da terra os Índios Guaranis eram sombra do orgulho do passado. Uma estátua centenária do Padre Jesuíta Cristóvão de Mendonça estava encravada na praça central e hoje poucos param para ver o que está escrito em sua placa de bronze. Havia no ar uma melancolia talvez por falta do que fazer. A população vivia do plantio do feijão e criação de gado. Ali em Vertentes da Saudade os direitos de cria recria e engorda tinha dono. O Coronel Totonho Mercês Almeida Pais reinava absoluto sobre os demais estancieiros. Ele praticamente era o juiz, o prefeito e o delegado e ninguém poderia de maneira alguma contrariar suas ordens. E olhe que estávamos no século vinte e um.

          O menino Luiz Mercês Almeida Pais com onze anos tinha puxado o pai. Orgulhoso, andava de nariz empinado e conversava com os outros como se estivesse dando ordens. Ninguém tinha coragem de olhar nos olhos diretamente do pai e do filho. Diferente de Dona Leonor Mercês Almeida Pais esposa do Coronel Totonho. Uma alma caridosa, nunca levantou a voz para ninguém. Todos a procuravam nas horas mais difíceis e ela sempre bondosa não negava ajuda. O Topógrafo Siqueira Nantes Leal nascera em Vertentes da Saudade e nem sabe como resolveu um dia fundar um Grupo Escoteiro na cidade. Houve uma revoada geral na meninada. De boca em boca o assunto correu e alvoraçou a cidade. Gaúcho de verdade não abandona a sua terra e leva no peito a saudade, que toda tarde, trás dela, assim pensava Siqueira que nunca abandonou sua cidade por nada. Dona Filó diretora do Grupo Escolar Flores da Cunha comprou a ideia e logo ofereceu o pátio e duas salas para que o grupo arranchasse para sempre. Assim ela pensava.

      Siqueira Nantes amava Amelinha Salsaparrilha e ela como boa moça quando o viu cantou baixinho: - “Erva, cuia, chimarrão. Não é apenas costume, é amor e tradição. Ela não liga para status, beleza ou dinheiro. O importante para ela, é que ele seja Gaúcho, campeiro e Romântico”. O namoro durou meses e casaram-se na igrejinha do Padre Antonio Feijó numa tarde linda de setembro. Siqueira nem lua de mel teve. Um trabalho encomendado pela Ferrovia do Trigo, que ligava Passo Fundo a Porto Alegre a pedido do Coronel Totonho que pensava em fazer um ramal até Vertentes da Saudade. Seria uma linha regular de passageiros e porque não transportar o gado do coronel? Siqueira Nantes não abandonou seu projeto de organizar o grupo escoteiro. Convidou oito jovens e com mais dois professores da escola além da diretora, escolheram o nome do grupo e definiram quando seria feita a solenidade de promessa do grupo. Tudo andava de vento em popa. Siqueira comentava onde passava: “Vai Tche! Por este mundão véio sem porteira, proseando do evangelho, espaiando as boas novas do escotismo prá tudo que é vivente”!

                  O menino Luiz Mercês ficou uma fera quando soube que não fora convidado para participar da primeira patrulha do grupo. Falou com seu pai e este mandou chamar Siqueira Nantes para se explicar. De cabeça baixa ele disse que logo teria uma vaga para seu filho. O Coronel Totonho não acreditava no que ouvia. Mandou Zepileu seu secretario chamar os dirigentes do escotismo rio-grandense para se explicarem a ele em sua cidade. Doutor Alfredo Maristo era o Presidente da Região Escoteira. – Que boa bisca é este Siqueira? – Pensou.  Se não vou fico de entremeio com a liderança politica. Tenho de ir lá e me rebaixar para um coronelzinho de araque. Doutor Alfredo chegou cedo a cidade. Foi levado a presença do Coronel. Com seu vozeirão ele foi dizendo aos gritos de modo mal educado: Moço! Assuma, ou suma da minha frente, pois chega de lero-lero. Se tu não sabes o que quer, eu sei o que eu quero e papo enrolão de homem-banana, é um abacaxi que não quero! Doutor Alfredo tentou se explicar, mas não adiantou. – Quem manda na cidade sou eu. Avisa a este sacropanta que se diz Chefe Escoteiro que ele come na minha mão!

          Doutor Alfredo conversou com Siqueira Campos. Um pobre diabo ele pensou. Por que foi logo nascer aqui onde Judas perdeu as botas? – Doutor Alfredo vou desistir. Não quero mais ser Chefe – Na verdade, de que adianta ter a faca e o queijo na mão, quando não se tem mais um fio de vontade, de motivação? Não adiantou a desistência de Siqueira, Coronel Totonho contratou dois profissionais Escoteiros e lá fez um grande grupo que chamaram de Grupo Escoteiro Coronel Totonho. Doutor Alfredo foi obrigado a dar autorização, pois ao contrário o Governador do Rio Grande acabaria com ele. E assim fundou-se ou afundou-se as boas práticas escoteiras em Vertentes da Saudade. – Como dizem por aí, Siqueira que nunca foi Chefe e pensou que seria um cantava baixinho: - Vai Tche! Por mundão veio sem porteira, proseando do evangelho, espraiando as boas novas pra tudo que é vivente! – Tô loco de faceiro Tche! Convidaram-me prá ir à casa do patrão celestial, pois aqui em Vertentes da saudade nunca mais eu voltarei. Se trouxeres teu orgulho de ser brasileiro, te entregarei a minha honra de ser gaúcho, mas nunca submisso.


      Sei que Siqueira foi para outra cidade, se tornou um grande Chefe Escoteiro e até hoje a gauchada de lá o carregam para todo lado a saudar como se ele fosse um herói. Levantar com o pé direito ou esquerdo, não vai determinar se o seu dia será bom ou ruim, suas atitudes sim! Chega um dia que a gente simplesmente muda, os sentimentos mudam e o coração faz novas escolhas. E assim vou terminando este novo conto onde o Escotismo não se abaixou para a classe dominante e nas palavras do gaúcho do Rio Grande eu vou dizendo: - Bueno vou me largando, mais tarde temo aí de novo. “Forte quebra de costela prá toda a gauchada conectada”!