Histórias e contos escoteiros.

Histórias e contos escoteiros.
Feitas para você se divertir!

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Saudades do meu Velho pai.


Lendas Escoteiras.
Saudades do meu Velho pai.
 
Naquela mesa ele sentava sempre
E me dizia sempre o que é viver melhor
Naquela mesa ele contava histórias
Que hoje na memória eu guardo e sei de cor.

                   Não, nada disto, não era medo quem sabe era admiração. Eu tinha um enorme respeito pelo meu pai. Tremia quando ele me chamava, assustava quando ele sorria, e me sentia tão bem quando me abraçava. Minha mãe foi morar no céu e só ele agora tomava conta de mim. Nos seus braços eu cresci e explicar como era sentir sua falta é algo inexplicável. Mas tentarei expressar esta saudade, através dessas humildes palavras com muita dor. Pai… Sinto falta de sua voz que me aconselhava com ternura; do seu olhar sereno com doçura; de suas mãos me reerguerem quando eu caia; de seu abraço que me envolvia. Quando naquela tarde ele me chamou eu o segui como bom filho. Ele só disse que eu iria descobrir agora novos mundos, eu iria aprender a ser dono de mim, iria poder viver minha própria vida. Eu não o entendi. Não sabia o que ele queria dizer, mas dei minha mão e fui com ela pela rua sem saber aonde ia.

Naquela mesa ele juntava gente
E contava contente o que fez de manhã
E nos seus olhos era tanto brilho
Que mais que seu filho eu fiquei seu fã

                 Eu não conhecia nunca os vi, mas ele me levou aos escoteiros, no caminho me contou que foi um por muitos e muitos anos. Disse-me que foi monitor da Águia, conseguiu dezenas de especialidades e cordões. Para mim o que ele contava nada significava, pois não sabia o que era. Mas achei que devia ser bom, pois ele me contava com tanta dedicação com tanta vibração e eu sabia que com a sua proteção eu nada devia temer... E seus conselhos eram para o meu bem… Quando me lembro de tudo isto meu pai eu sinto tanta saudade que cada vez a cada dia que passa mais eu te amo! Ele parecia conhecer todo mundo. Eram tantos a lhe cumprimentar, a sorrir a abraçar. Ele orgulhoso me apresentou. Deixou-me lá sozinho e se foi. Fiquei com muito medo. Os meninos foram legais, me trataram como menino e nada mais. Quando a reunião terminou eu corri para achar o meu pai. Ele estava no portão sorrindo e me perguntou: Gostou? Falar o que? Foi meu primeiro dia.   

Eu não sabia que doía tanto
Uma mesa num canto, uma casa e um jardim.
Se eu soubesse o quanto dói à vida,

             O tempo foi passado, eu crescendo, aprendendo a ser alguém, a me virar sozinho a dormir em uma barraca longe dele, a nadar no riacho de águas profundas, a fazer meu fogão e a cozinhar. Mas mesmo ali no campo eu sentia saudades, sempre havia um pedacinho de emoção dentro da gente. Um pedacinho de outra pessoa dentro de mim. Saudades de sua voz, do seu sorriso do seu olhar. Ele sentia um orgulho enorme a me ver como Escoteiro e quando a mochila colocava ele dizia: - Vá filho, conquiste a selva, dance nos vales profundos, se quiser conquiste o mundo, pois ele é seu, basta querer. Eu sorria me sentia além do mundo que ela me ofereceu. Um ano, dois três um punhado. Recebi o que mereci pelas provas que fiz. Quem sabe talvez por saber que ele sorria e se orgulhava de mim. Quando menos assustei era Chefe. Meu pai com seu sorriso franco me dizia: - Não seja presunçoso, prepotente, seja alegre afetuoso, seja bom com todos, pois assim muitos amigos e irmãos irá conquistar.

Essa dor tão doída não doía assim
Agora resta uma mesa na sala
E hoje ninguém mais fala do seu bandolim.

                Quando recebi minha Insígnia ele me abraçou, um abraço enorme ele me deu. Senti uma vontade enorme em dividir com ele minha alegria da vitória, que não era só minha e ele sorridente de novo me disse: - Você não é mais que ninguém, quem sabe tem um pouco mais de saber, mas lembre-se sempre existirá alguém que sabe mais que você. Ele olhou nos meus olhos e vi uma pequena lágrima surgir, eu sei, ele era um romântico do passado, quem sabe sonhou em ser um e não foi. Eu chorei com ele, não me lembro se foram lágrimas de alegria, de tristeza ou de saudade que agora brotava em mim. Vi ali em minha frente ele colocando a mão no peito, mesmo assim sorria e caiu no cimento duro de um pátio que já foi meu... De repente uma angústia. Saudade do que não fez, ou daquela vez. Saudades. Das coisas, do lugar, da pessoa. De um beijo, de um carinho, daquele jeito diferente. Ou do sorriso, de repente. Saudades de alguém. Saudades de você, meu querido pai!

Naquela mesa tá faltando ele
E a saudade dele tá doendo em mim
Naquela mesa tá faltando ele
E a saudade dele tá doendo em mim.

Naquela Mesa-Nelson Gonçalves

quinta-feira, 30 de julho de 2015

E o céu foi testemunha.


Lendas Escoteiras.
E o céu foi testemunha.

                Um sábado gostoso, o frio arrefeceu um pouco e o sol voltou a brilhar. Meus dias de sábados eram um só, ou excursionar, ou acampar, ou uma atividade aventureira qualquer ou uma modorrenta reunião de sede. Porque modorrenta? Ora, a gente era menino e menino queria aventuras. Queria colocar o pé na estrada e descobrir novos caminhos e novas trilhas. Ver a barraca armada, fazer sua “caminha” em um canto dela; correr em volta procurando bambus e construir ali o que sua casa possuía eram questão de honra. Mas hoje não. Hoje era dia de reunião. Passei na casa de João Grilo, ele já estava na porta a me esperar. Nada como um sempre alerta, um aperto de mão e com os braços nos ombros um do outro descemos a Rua Dr. Quinhão até a sede. Era perto, e pela travessa do Tolentino vi a Nenê e a Lucy de mãos dadas também seguindo rumo à sede. Perguntava-me sempre porque todos iam garbosos com seus uniformes com um sorriso nos lábios. Coisa do oitavo artigo ou coisa de gostar demais do que fazíamos?

                  Eu amava aquela Tropa, aquele grupo, sentia-me feliz com meu Chefe Tambor. Tambor? Quem colocou nele este apelido? Será pelo tom de voz? Não tinha nada parecido, mas o nosso Chefe era demais. Em todas as horas em todos os momentos era um amigo, um irmão mais Velho. Ele sempre aprontava uma quando chegávamos à sede. Uma vez o procuramos e nada. Esperamos cinco dez minutos e nada. Ele sempre foi pontual. Fazia questão. Dizia para nós que a pontualidade era uma questão de honra. Eis que ele surgiu segurando uma roldana descendo a toda por uma corda do alto da Magnólia. Chefe Tambor, sempre aprontando uma. Fomos para os cantos de patrulha. Nenê e Lucy eram da patrulha Garça. Só de meninas, eu e o João Grilo da Onça Parda. Pintassilgo da Touro chegou perguntando se viram ou tiveram notícia do Chefe Tambor. Nada. Ele foi de patrulha em patrulha tentando alguma notícia. A hora do cerimonial chegou. Nada do Chefe Tambor. Naldo Orelhudo chamou os monitores. Naldo era o mais antigo e ele sabia que se um dia o Chefe não aparecesse ele devia assumir com todos os demais monitores.

                O chifre do Kudu tocou alto. Naldo era bom nisto. Treinou meses. Corremos a formar. Chefe Isabel perguntou pelo Chefe Tambor. Explicamos. Ela assumiu o cerimonial. Bandeiras subiram aos céus. Bolota o gordinho da Pica Pau fez uma bela oração. Naldo chamou os monitores para a inspeção. – E o jogo? Perguntamos. – Ideias, quero ideias e sugestões ele disse. Várias. Jogos de corridas sempre. Ninguem gostava de jogos parados. A patrulha Múmia? Todos sorriram. Cem metros correndo todos amarrados entre si, fazendo uma tocha humana era bom demais. Tombos e mais tombos, sorrisos e mais sorrisos. Sentados em baixo da Magnólia com aquela sombra enorme pensamos o que seria depois. Começamos a cantar Adeus montes e Vales Queridos. Paramos uma figura e tanto apareceu na porta do pátio. Parecia enorme. Uma barba branca que ia até o pescoço. Um chapéu Escoteiro diferente, mais para grená do que marrom. Bem uniformizado e sua calça curta impecável. Usava perneiras e o chapéu continha um penacho azul. Segurava uma forquilha linda.

               Entrou no círculo, sorriu, que lindo sorriso. Fez uma saudação nos trinques. Não disse o nome, só perguntou: - Posso me assentar com vocês? Todos disseram sim. Como se fosse um índio experiente assentou com as pernas cruzadas. – Posso lhes contar uma historia? Ele disse. Todos disseram sim. Naldo educadamente perguntou: Qual o seu nome Chefe? – Ele riu. Meu nome? Podem me chamar de São Patrício. Ninguem entendeu. Era um religioso? - Calma continuou moro muito longe daqui. Visito tropas Escoteiras escolhidas, aquelas que sinto o cheiro da felicidade, aquela que vejo nos olhos a sede de aventura, aquela que acredita que nossa lei vale mais que a própria honra e daria a vida por ela. – Ninguem dizia nada. Um silêncio enorme. Chefe São Patrício nos olhou e chamou um por um pelo nome. Disse que estava orgulhoso em nos conhecer. – Em seguida ficou de pé e começou a contar sua historia:

- Meus amigos escoteiros quando um problema se mostrar difícil, lembrem-se dessa historia que estou a contar. Havia dois náufragos no mar revolto. Um se debateu lutou continuamente contra as ondas ate esgotar sua energia e afundou. O outro, ao invés de dar braçadas contra o mar, apenas boiou, não gastou energias e pode assim, se salvar! Uma emoção sublime tomava a todos. O silencio era total. O tempo era ali uma eternidade maravilhosa. Incrível mesmo descrever a emoção que todos estavam tomados. Ela continuou: Quando invadirem em vocês os impulsos da altivez, do orgulho e superioridade, pare e olhe para o mar, a terra e as estrelas que existem há bilhões de anos e entendam – Suas importâncias, seus brilhos, suas superioridades aqui são diminutos se comparados com tudo o que vêem. São poeira perante as estrelas e um piscar de olhos. Mas se ao contrário se sintam pequenos demais, percebam que a vocês foi dado algo que as estrelas não têm. Elas são inanimadas e executam rumos fixos predeterminados pelo Senhor do Universo. Vocês, porém tem vida, podem rir cantar e amar...

- Finalizou dizendo: - Vocês não podem mudar certas circunstâncias ou situações, mas podem adaptar-se a elas sempre, escolhendo a forma do mal menor. Pode não ser o ideal, mas será o melhor. Aproveitem as oportunidades que lhes derem, mesmos que sejam aparentemente pequenas. As grandes árvores vêm de pequeninas sementes. Quem está disposto a subir grandes montanhas de felicidade deve estar preparado também para descer enormes ladeiras de decepções. No entanto, a chance de chegar ao topo e sentir algo que o acompanhará para o resto da vida pode valer o risco.


                          Ele se calou. Vimos nos seus olhos um brilho estranho. Não sabíamos se ele chorava ou se ria. Pediu licença e foi apertar a mão de cada um dos escoteiros ali presente. Disse um adeus, deu um até logo e completou: Sempre estarei no coração de cada um de vocês. Se quiserem falar comigo é só chamar e partiu. A Tropa não sabia o que fazer. Estava estática e assim ficou. Alguns minutos se passaram em silêncio profundo. Um som nosso conhecido ouvimos entrando na sede. O Chefe Tambor chegava pedindo desculpas pelo atraso. Entreolhamo-nos. Seria mais uma dele? Ele nada disse e nós não perguntamos. A reunião terminou no horário. Eu e Joao Grilo íamos calados pela Rua do Sacramento. Eu parei e olhei para ele? – Seria São Patrício o Chefe Tambor? Ele mexeu com a cabeça como a dizer não. – E mais alto e tem os cabelos e barbas grisalhos. Agora era esperar o próximo acampamento. Despedi de João Grilo e fui para minha casa jantar...

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Nazareno, o menino Escoteiro que falava com o céu. (um conto baseado na doutrina espírita).


Lendas escoteiras.
Nazareno, o menino Escoteiro que falava com o céu.
(um conto baseado na doutrina espírita).

                Quanto tempo? Muito. Mais de vinte e poucos anos. Uma vida. Não sei onde ele anda hoje e se ainda continua nos caminhos que escolheu. Ele não foi um santo ou um pecador nada disto. Poderia dizer que nasceu em uma família errada, na cidade errada e quem sabe na hora errada. Nazareno nunca foi um crédulo, um homem de Deus. Na época ele não teve escolha. Como Escoteiro sempre foi considerado um menino como os outros sem muitos conhecimentos religiosos afora os que lhe foram ensinados como coroinha da Paróquia São Geraldo. Seus pais até sonharam que ele poderia ser um padre, um bispo um cardeal. Sonhos de muitos pais em cidades do interior. Qualquer um podia ver que ele não nasceu para isto. Eu pessoalmente na época, com parcos conhecimentos espíritas achava que ele estava em contradição com as leis da natureza. Claro que tinha excepcional inteligência para sua idade e em alguns casos poderia dizer mesmo que ou fazia milagres ou tinha parte com o demônio. – Deus me livre! 

               Nazareno procurava sempre esconder suas facilidades em falar com os mortos. Ninguém sabia. Dizem hoje que a mediunidade faz parte da natureza. Que todos nós sem perceber somos médiuns, uns mais outros menos. Não vou entrar no mérito da questão. Não estou aqui para escrever sobre uma crença, uma Doutrina, uma ideologia ou uma filosofia como querem alguns definir o espiritismo. Quem sabe Nathalia Wigg explicasse melhor: – “A maior mediunidade que um homem pode desenvolver é a capacidade de amar”. Quando era lobinho sempre o achei taciturno, reservado e retraído. Brincava, cantava, mas não parecia estar ali junto com seus amigos de matilha. Quando passou para Escoteiro o encontrei uma vez depois da reunião chorando. Seus olhos cheios de lagrimas. Seu corpo tremia. Sempre assim calado, sem dizer nada. Perguntei o que havia e ele me respondeu melancólico que eu não iria entender. Ninguém o entendia. Isto aconteceu várias vezes. Nunca comentei o caso na Corte de Honra.

               Cidade pequena, praticamente católica como ajudá-lo? Quanta vez ao sair da barraca pela manhã, com o sol já despontando no horizonte, eu o avistava sentado em um lugar qualquer, olhando para o céu? Um dia me disse – Monitor sabe de uma coisa? Tem alguém me dizendo que se o amor se propagasse no mundo com mais força que a violência desaparecerá, a maneira das trevas quando a luz se lhe sobrepõe. Eu tinha treze anos, não entendia nada do que dizia. O dia amanhecia e lá estava a Patrulha nos seus afazeres. Nazareno corria com os outros nas atividades, mas quase não sorria. Só uma vez o vi sorrindo quando alguém brincou no Fogo de Conselho com os novatos com a velha brincadeira do Serafim. Você conhece o Serafim? Não? Aquele que fica assim? Ele ria. Não aquela gargalhada de quem conhece a brincadeira. Eu mesmo ate hoje dou boas risadas.

              Acredito que tudo piorou quando na missa do domingo, a tropa estava presente e ele sem ninguém perceber foi ate onde estava o padre e em uma voz que não era a sua disse: – “Somos companheiros otimistas no campo da fraternidade”. Se Jesus espera no homem, com que direito deveríamos desesperar? Aguardemos o futuro triunfante, no caminho da luz. A terra é uma embarcação cósmica de vastas proporções e não podemos olvidar que o Senhor permanece vigilante no leme! – Todos os presentes na igreja ficaram estupefatos. Ninguém entendeu nada. Pudera entender o que? Um menino Escoteiro com chapéu na ombreira, olhando para o céu e de mãos postas dizer aquelas palavras? Era santo? Ou estava tomado pelo demônio que fingia para todos ali presentes? O padre ficou possesso.

              Na escola sua professora Dona Neide, uma matrona dos seus quarenta anos sem filhos, magra, parecendo a Olivia Palito esposa do Popeye o pegou varias vezes de olhos fechados, escrevendo sem parar no seu único caderno que era para fazer a lição de casa. Levado a Diretor este não entendia o que estava escrito. Eram vários rabiscos que precisariam ordenar para entender. E depois? Como explicar aquelas palavras? – Não foi uma só vez. Foram várias. Ninguém para explicar e ajudar. As brigas homéricas do padre versus professora versos pais versos chefes eram constantes. Cada um querendo que o outro resolvesse. Ao fazer quatorze anos já com sua Segunda Classe, Nazareno desistiu de sua Primeira Classe. Pela primeira vez pensou em abandonar o Grupo Escoteiro. Ele sabia que era o único lugar que ninguém perguntava e se preocupava com sua maneira de ser. O aceitavam como era. Mas eu, como Monitor de sua Patrulha ficava de olhos nele. Tinha medo que ele fechasse os olhos e desaparece em alguma mata ou bosque e pudesse acontecer o pior. Mal sabia eu que ele era assistido por milhares de espíritos protetores que iriam sempre lhe mostrar o caminho do bem.

                     Um dia sua mãe procurou o grupo e disse para o Chefe umas verdades. Este me chamou e ela sem papas na língua disse em alto e bom som que nós não nos preocupávamos. Que o deixávamos fazer suas ilusões mentirosas e até mesmo falar com Deus. Alguém soprou no ouvido dela e do padre que era mediunidade. A resposta dela já pronta dizia que não era mediunidade coisa nenhuma, era coisa do demônio ou dos escoteiros que o levavam a acreditar em tudo. Mal sabíamos nós que o fenômeno mediúnico já estava fazendo parte dele. Mesmo sendo uma criança a partir do momento que se deixa dominar a influência espiritual está presente. Ainda bem que ele tinha amigos que o protegiam na espiritualidade. Sabemos que quando isto acontece pode um espírito qualquer aproveitar a circunstância e querendo fazer coisas erradas, e claro por satisfação do obsessor que nada mais é alguém de um passado seu. Nunca vi em Nazareno ações destemperadas. Se fosse hoje poderia dizer que ele estava tendo comunicações mediúnicas na acepção da palavra. Mesmo que todos queriam interromper esse fenômeno não iriam conseguir. E tudo seria tão simples com a oração, a pacificação, o desligamento do mal e seria fácil fazê-lo desligar daquela ação.

                 O pior aconteceu. A família de Nazareno começou a ser estigmatizada. Todos passaram a evitá-los. Um dia ele me procurou chorando – Monitor tenho de sair. Meus pais vão mudar daqui. Nem sei qual cidade vamos e eles me pediram e até ajoelharam em meus pés para procurasse ser normal lá. Não entendi, pois me acho normal. Nunca disse para você, mas vejo tanta gente quando ando, quando durmo, e ate aqui no grupo eles estão. Não fazem mal a ninguém, pois me disseram que onde houver um ambiente saudável, cristão, onde Deus está presente eles não faram nenhum mal. Sabe Monitor, aqui encontrei uma paz que não encontrava na escola e nem em minha casa. A Lei Escoteira e minha promessa nunca serão esquecidas.

                 Eles partiram duas semanas depois. O tempo passou. Esqueci-me por completo de Nazareno. Há vinte anos sem perceber alguém me chamou quando descia a pé a Avenida Angélica. Olhei para trás e reconheci Nazareno. Vestia simples, uma camisa verde desbotada e uma calça jeans velha. Calçava um sandália de couro. Convidou-me para um café. Contou-me sua vida depois da mudança. Seus pais morreram logo. Disseram que foi de desgosto. Eu vim para São Paulo aqui me casei e aqui criei meus filhos. São três. Um deles é formado em engenharia. Os demais seguiram outro rumo, mas são pessoas honestas. Eu e Linda minha mulher descobrimos um Centro Espírita próximo a minha casa lá no Bairro Santa Amélia. Gostei quando me aproximei deles. Gente simples. Não são um órgão centralizador. Apenas alguns princípios básicos que sustentam a Doutrina. Participo ativamente quando não estou trabalhando. Sou pedreiro e isto me dá o suficiente para minha família. Há algum tempo estou escrevendo. Ou melhor, psicografando. Ainda não tenho nenhum livro. A maioria do que escrevo são mensagens para pais saudosos, e graças a Deus eu tenho ajuda de amigos espirituais que fiz nesta jornada desde que estou lá.

             Fiquei ali com Nazareno por horas. Para dizer a verdade ele tinha uma voz que me encantava. Falava pausadamente sem ostentação. Seus olhos brilhavam quando contava sua nova vida. Insistiu para que um dia fosse a sua casa. Sua esposa já sabia de mim, pois ele sempre contou sobre seus tempos de escotismo. Hoje não participa. Ainda se sente um Escoteiro. Mas suas horas de folga, seu tempo livre é dedicado a ajudar os que procuram no centro. Sabe Monitor, eu sou muito feliz em poder ajudar no tratamento, orientação dos problemas materiais e espirituais dos que procuram minha ajuda no Centro Espírita. – Monitor, ele disse, eu gosto de recepcionar os que nos procuram. Eu sei que o primeiro contato é a primeira impressão que cativarei para ajudá-lo em tudo que for possível.

            Não fui a casa dele. Talvez pela falta de tempo. Devia ter ido. Afinal sou um Kardecista de mão cheia. Não nos encontramos mais. Ainda tenho seu telefone. Todos os dias penso e ligar e não ligo. Quem sabe já escreveu um livro? Sinceramente? Gostaria de ler. Vou terminar por aqui. Desculpem os que ainda não professam a Doutrina Espírita. Não escrevi um conto com a intenção de catequizar ninguém. Respeitar a escolha individual faz parte da minha maneira de ser. Escrevi mais por recordar alguém que um dia me deu a luz para o espiritismo que conheço hoje. Como diz o nosso querido Chico Xavier: - “Acreditamos que o Criador nos fez rico a todos, sem exceção, porque a riqueza autêntica, a nosso ver, procede do trabalho e todos nós de uma forma ou de outra, podemos trabalhar e servir”.


Obs. Muitos dos escritos aqui foram anotados por Chico Xavier em suas centenas de livros.

terça-feira, 28 de julho de 2015

A pura verdade do Escoteiro Esquisito.


Lendas Escoteiras.
A pura verdade do Escoteiro Esquisito.

                            Não estranhem. Seu nome era mesmo Esquisito. Alto bem magro parecia uma vara de marmelo, daquelas que muitas mães na minha época tinham atrás da porta. Perguntei a ele seu nome e respondeu – Esquisito! – Seu nome verdadeiro Escoteiro! Já disse Esquisito Nobrega. Era verdade. Seus pais o registraram assim. Como o tabelião aceitou não sei. Até que não era feio, mas seu jeito de andar era demais. Quando colocava uma mochila nas costas e saia com a patrulha para acampar todos achavam graça do se modo de andar. Parecia que ia cair, mas acredite era mais forte que muitos da tropa. Olhava para você com um olhar esquisito. Falava esquisito. Era até um pouco refinado e muito educado. Um tipo raro que não se encontra facilmente. No primeiro acampamento foi um susto quando descobriram que ele conversa com os pássaros e insetos maiores. Ficou o tempo todo com um Periquito verde no ombro direito e uma Cigarra azul no esquerdo. Porque a cigarra estava ali era uma incógnita. Não era época e só em setembro saiam de suas tocas para encasalar.

         Fez questão de apresentar os dois para o Chefe Meteoro. Foi uma farra nas patrulhas. Riram a valer com a cara do Chefe quando Esquisito lhe disse na bandeira: - Chefe este aqui é o Bonifácio (o periquito) E esta é a Dondinha (a cigarra). Elas podem participar do cerimonial da bandeira? Vi o Chefe Meteoro ficar vermelho, verde, amarelo e achei que ele ia explodir. Não sei se ele gostava de Esquisito. Quando assumiu a tropa ele já estava lá. Esquisito no fundo era gente boa. Um ar de idiota, mas um sabe tudo em pioneiras. Para dizer a verdade quando ele não vinha ninguém dava falta. Por quê? Só porque era esquisito? Mas cá prá nós, no campo fazia a diferença. Ninguém dizia, mas sentiam muita falta dele. Sabíamos que fora da tropa não se enturmava. Poucos sabiam onde morava. Ninguém conhecia sua mãe e seu pai. Nunca convidou para um aniversário e nunca foi em aniversário de ninguém.

               Mas era um bom camarada na patrulha. Falava pouco, mas não tinha preguiça. Nunca aceitou nenhum cargo e dizia baixinho que ajudaria a todos nos seus cargos. Na jornada feita ao Pico do Papagaio não reclamou. Até eu mesmo fiquei surpreso, pois os novatos sempre reclamavam. Era uma subida e tanto. Mais de oito quilômetros. Na chegada ao pico era tão íngreme que se colocava as mãos no chão para não escorregar. Esquisito era tudo. Bombeiro, lenhador, aguadeiro, um pouco de cozinheiro e intendente. Para dizer a verdade não me sentia bem vendo os outros da patrulha aproveitar dele. Um dia perguntei onde ele estudava. Não respondeu me deu as costas e se foi. Falei com o Monitor e este com o Chefe Meteoro. Deu de ombros, pois também não sabia. Resolvi um dia segui-lo para ver onde morava. Tentei ao máximo não me mostrar, mas na curva da Rua Águia ele me esperava escondido atrás de uma árvore. – Porque me segues? Fiquei sem graça, não sabia o que falar. Pedi desculpas e voltei.

                    Na reunião seguinte ele me procurou. – Intendente, desculpe de sábado passado. Não gosto de mostrar onde moro. Fica bem na curva da Gaivota, você sabe onde é quase na Pensão do vai quem quer. Era a Zona do Meretrício da cidade. – Não conheço minha mãe e meu pai. Nunca os vi depois que cresci. Moro com Dona Inês, dona da Boate Lua nova. Posso pedir um favor? Balancei a cabeça concordando. – Não conte para ninguém. Tenho muita vergonha, mas amo Dona Inês foi ela quem me criou. Jurei guardar segredo e guardei por toda a vida. Sei que não passou para os seniores. Sumiu da cidade. Chamei Moreno o Monitor para irmos até a casa dele. Moreno se assustou. Você sabe? Sei. Mas não quero ir sozinho. Dona Inês disse que não sabia dele. Juntou suas roupas e partiu.

                 Para dizer a verdade toda à patrulha sentiu muita falta de Esquisito. Para onde foi? Não tinha estudo nem profissão, sumiu assim no ar? Devia ter uns treze anos e não mais o que poderia fazer? O tempo passou eu cresci e esqueci completamente de Esquisito. Anos depois ajudava na Tropa Escoteira como assistente quando vi aparecer na porta da sede uma bela limusine preta. Limusine? Aqui na cidade? Ninguém nunca tinha visto uma. O Motorista todo uniformizado com um boné diferente desceu e abriu a porta de trás. Dois meninos saíram correndo entrando na sede. Impossível! Eles eram a cara de Esquisito quando novo. Mas não foi só. Um homem engravatado, de chapéu coco também desceu. Educadamente esperou uma mulher sair. Deu a ela as mãos cavalheirescamente. Claro que era um cavalheiro para agir assim. Ela num vestido simples amarelo com um chapéu também amarelo entraram na sede. Deus do céu! Era o Esquisito! Sem sombra de dúvida era ele mesmo! Todos boquiabertos. E a mulher? A mesma feição dele!

                   De mãos dadas foram até o Chefe Meteoro. Ele educadamente apertou a mão esquerda do Chefe e me olhou sorrindo. Olá Intendente, quanto tempo em? Balancei a cabeça. Estava estupefato. Não acreditava no que meus olhos viam. Ele educadamente como sempre falou para o Chefe Meteoro: - Estão assustados? Calma cada um de nós tem um destino. Peguei a estrada há muitos anos e durante meses vivi mendigando nas casas próximas uma sobra de comida. Fazia limpeza, plantava e ajudava no que me pediam. Não queria mais voltar aqui. Saudades só dos meus amigos Escoteiros e Dona Inês. Mesmo sendo uma segunda mãe Dona Inês queira ou não eu não me envergonhava dela. Quase dois anos na estrada e em um posto de gasolina vi um homem com a minha feição. Seria meu pai? Não era. Ela se assustou quando me viu. Era o Conde Francesco Lavorate de passagem pelo Brasil. Era um diplomata italiano em viagem ao interior.

                     Conversou comigo por um bom tempo. Fiquei sabendo que perdeu um filho da minha idade. Convidou-me a morar com ele e sua esposa a Condensa Andressa Lavorate em um castelo próximo a Milão na Itália. Conheci sua sobrinha, todos da família tinham a mesma feição minha. Senti-me em casa. A Condessa Aléssia hoje minha esposa se apaixonou por mim e eu por ela. Recebi um título de Nobreza e passei a me chamar Esquisito Lavorate.  Hoje administro os bens do conde que quase não pode caminhar mais. Está com 93 anos. Convidei Aléssia e meus filhos a vir aqui no Brasil e resolvi voltar a esta cidade. Queira ou não senti saudades, principalmente de você Intendente. Olhei para ele e para ela, não sabia o que dizer. Na sede todo mundo parado olhando assustados com o que viam. Uma condensa e um conde na sede?


                     Quando ele foi embora, quando a limusine desapareceu no final da Rua dos Tamoios, pensei comigo como é difícil imaginar as voltas do mundo. Lembrei-me do que diziam os poetas: - Cuidado com as voltas que o mundo dá. Hoje você lança as palavras, amanhã sente o efeito delas.

domingo, 26 de julho de 2015

Eram mil gaivotas no ar.


Lendas Escoteiras.
Eram mil gaivotas no ar.

                        Como tinha chegado até ali eu não sabia. Meu corpo se recusava a obedecer, mas eu precisava ver as gaivotas voando no ar. Teria que ser naquela tarde preguiçosa, com o sol se pondo no horizonte, naquela praia antes de tudo desaparecer de minha mente. Passos trôpegos cheguei a areia branca, as ondas ainda não haviam alcançado a ponta da praia no seu esplendor da tarde. Parei, não sabia se eu iria conseguir. Olhei para minha perna que sorria. – Não dá mais Velho Escoteiro. Eu o servi a vida inteira não me obrigue mais a caminhar. Sorri sem graça, mas era verdade, minhas pernas me serviram de maneira exemplar por toda minha vida. Não podia agora reclamar. Tentei levantar os ombros e não consegui, franzi a testa com meu olhar perscrutando o horizonte. Nenhuma gaivota no ar. Olhei o oceano até onde minha vista alcançava. O som das ondas me embalou como se eu ainda fosse uma criança no colo de minha mãe. Senti as pernas fraquejarem. Elas insistiam em dobrar. Pausadamente fui descendo de minha altura até as areias do mar.

                            Ah! O perfume das águas azuis que rebatiam nas pedras da enseada mostrando uma força incrível para me reverenciar. O Ribombar nos rochedos me enchia de prazer e emoção. O mar sempre foi meu céu, meu amor minha paixão. Sentei-me devagar na areia branca cujas ondas ainda não podiam me alcançar. Meus olhos quase fechados viram próximo da mão uma concha, pequena linda e na sua cor branca e me lembrei de um poema que gostava de declamar: A simplicidade de uma concha do mar junta-se o colo da areia onde ela se aninha. As ondas do mar embalam-na num vaivém paternal. Do sol um pingo de ouro suscita-lhe um sorriso madrepérola. E o menino que a colhe tão cheio de curiosidade torna-a num pequeno mundo de mistérios. A simplicidade de uma concha do mar junta-se o universo! Senti uma pontada no peito. Sabia que minha hora se aproximava. Tentei levantar meus olhos, queria levar comigo a vastidão do mar ver nos meus últimos momentos uma gaivota no ar. Meus olhos incompetentes reclamavam querendo fechar. Pensei em rezar, pedir a Deus um último instante. Se houver quem diga o que não falo diz à sorte, ao acaso selvagem, pois já nem sei de mim, sei a imagem do mar que nem mais o sinto, e por isto minhas lagrimas me fazem calar.

                      Meus olhos vão aos poucos se fechando, e como uma tela gigantesca vai se formando na areia branca daquela praia onde minha vida se voltou para me mostrar os acertos e desacertos de tudo que criei ao sabor do tempo. Tempos que já se foram, uma promessa adormecida, embaladas em uma bandeira do Brasil. Uma patrulha de navegantes, valentes escoteiros, eu ali na frente mostrando ser o Pioneiro, o primeiro a achar os caminhos perdidos na mata a descobrir o luar atrás das estrelas. Tempos que já se foram, quantos sorrisos? Quantas luas para amar? Quantas estrelas no céu para contar? Vi-me um homem feito, esquecendo-se de seus amores, pois meus pendores era o escotismo e nada mais. Eu sabia que fiz amigos, muitos e inimigos? Quem não os teve em sua vida? Afinal sempre nos lembraremos deles de suas palavras silenciosas, mas o bom mesmo era o silêncio amoroso dos nossos amigos. Resolvi ter uma família, mas me esqueci dela por muito tempo. Me dedicava de corpo e alma aquele movimento pelo prazer de servir.

                      E o tempo foi passando, e os meus de sangue foram ficando. Viajei por plagas inacessíveis, fiz acampamentos impossíveis. Amei cada fogo que ascendi, e as brasas hoje adormecidas na trilha do tempo distraídas, deixei-as queimar sem me importar até quando. Quantos apertos de mão? Quantos abraços floridos? E os seus de sangue a lhe esperar? Deu-lhes por acaso os abraços merecidos? Não, se um dia pensar o que não penso, em uma trilha de nevoeiro denso, nas terras das sombras que nem existem mais. Esqueceu-se de suas mentes, de suas bocas, olhares sentimentos nobres. Só viu os vales e os mares, à crina das espumas e vendavais. Seus rebentos um dia partiram, suas famílias foram criar. E ela? Sozinha em casa sempre a me esperar.

                     Sei que lhe dei abraços, beijos, mas isto poderia pagar o tempo que passei vagando nos montes e horizontes sem fim? Pelas frestas da sala e da janela, via você fatiada, a boca do sangue esperando um beijo que nunca lhe foi dado. E ela como uma lã, com linho pensando ser artesã, parecia flutuar sobre os lençóis nus que esperavam muitos abraços... Que não vieram... E eu com a mente longe distante, bem além do horizonte, usurpava seu trono seu recato. Um dia ela se foi, e eu fiquei sozinho. Merecia ter este destino. Escolhi o que não poderia escolher. As minhas escolhas não entendiam o que dei, o que fiz, o que deixei de bom para eles. Sabia que era meus últimos momentos, fui ali na praia, pisar nas areias brancas que amei, para ver gaivotas perdidas no ar. Haverá alguém quem diga, o que não falo, pois diz à sorte que ela vem ao acaso, selvagem, pois agora nem tenho imagem, verdade é que nem sei o que sinto ou o que falo.


                     Me senti puxado, arrancado como se fosse jogado no ar. Olhei e vi meu corpo, esticado nas areias brancas do mar. Sabia que chegou a hora, hora de partir e quem sabe nunca mais voltar. Ainda tentei olhei procurei implorei aos que se foram e não vi as gaivotas no ar. Meu corpo flutuava ao sabor das ondas do mar. Jogado aqui e ali eis que me detive, eram eles, a patrulha do meu tempo, surgiu ali vindo do firmamento todos sorrindo e dizendo bem vindo meu monitor! Lembrei-me de poema do meu tempo. Dizia ele que é ingrato contar sorrisos, pelas praias do amanhã. Quem vai quem fica nada os encanta. Não levam olhos de ver os sem brilhos, os cadafalsos de rotina, os pelourinhos do cansaço. Você aqui na terra era um hospede, morando nas esquinas da vida, de olho no seu passado pensando no seu presente e no seu amanhã. Abracei-os chorando, pedindo perdão. Eles sorrindo me abraçaram cantando, dizendo meu monitor meu amigo, para você, aqui estão, mil gaivotas voando no ar...

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Cinquenta anos depois...


Lendas Escoteiras.
Cinquenta anos depois...

               A poeira não mudou. A rua também não. Tudo era igual como no passado. A principal rua que recepcionava os visitantes era a mesma, não importa o tempo que passou. Aqui e ali pessoas chegavam às janelas para olhar quem chegava. Ao entrar na Rua do Outono vi que estava asfaltada. A Rua Teófilo Otoni também. Sinal que houve melhora na cidade. A Praça Dom Giovani estava linda. As árvores enormes. Uma grama aparada e toda florida. Bateu uma saudade enorme. Antes me perguntava por que retornei. Não havia motivos para voltar. O que aconteceu deveria ficar esquecido nas areias do tempo. Reviver o passado não valia a pena, mas eu insistente retornei. Parei o meu carro em frente à Pensão Pedreira. Seria por pouco tempo. Iria comprar uma morada só para mim. Quem sabe nela fazer meu consultório e viver em paz.

                Olhei para a prefeitura, saudades do Benevides, um prefeito amigo dos Escoteiros acho que se não fosse ele nosso grupo não teria resistido. Duas senhoras passaram por mim me encarando. Eu sabia como era. Cidade pequena tinha os mesmos sinais e defeitos. Defeitos? Quem sabe uma qualidade? Antes de entrar na Pensão eu sentei no banco da praça onde tinha tantas recordações. A Macaxeira agora era enorme. Uma sombra gigante ela fazia. Deu-me uma saudade enorme. Fechei os olhos e voltei no tempo. Cinquenta anos muito tempo. Parece que eu a via correndo com suas amigas entre as flores do jardim. Porque foi assim? O destino? Acredito que sim, eu sabia que não há como fugir do destino. Via ao meu lado Zé Antonio. Éramos amigos inseparáveis. Ele Sub Monitor da Morcego e eu Monitor. Quanto tempo ficamos juntos? Impossível dizer, mas acredito que desde os lobinhos. Sorria pensando quantas aventuras fizemos na serra do lagarto, nas montanhas da lua e nos vales do Capitão Ventania. Há o capitão... É duro lembrar!

                   Quando jovens nossos sonhos são tão fáceis de realizar. Via-me médico, com uma maleta andando pela rua a socorrer os pobres. E depois ia para casa, minha casinha branca de janelas e portas azuis. No alto do telhado via a fumaça do fogão que saia calmamente pela chaminé. Andaluzia preparava meu jantar. Daria nela um beijo apaixonado, tomaria um banho e nós dois depois do jantar falaríamos de tudo sentados no banco do jardim da praça. Iria morar perto. Sonhos... Meninos sonham tão bonito. Engraçado que nos meus sonhos não tinha filhos. Esquecia-me dos meus amigos e nem mesmo Zé Antonio aparecia nas sombras da minha mente. Ela vivia somente por Andaluzia. E nos acampamentos? E nas noites de outono quando a chuva caia fina na nossa barraca de duas lonas? Puxando o pé para não molhar, ouvindo o som do martelar dos pingos da chuva que caía. Como era gostoso a chuva. Ela aparecia para mim sorrindo. Ah! Eu sabia que era feliz e com ela seria o homem mais feliz do mundo!

                  Mas afinal o que aconteceu a ela? Ninguém me contou ninguém me disse. Só disseram que ela fugira com Capistrano, um marginal da cidade que ninguém gostava. Por quê? Logo ele? Ela não sabia do meu amor? Como doeu. Uma dor difícil de explicar. Dizer que os sonhos de um menino de quinze anos não merecem credito eu sabia que não dava para entender. Continuei amando o escotismo. Diferente agora, pois meus sonhos com ela não eram os mesmos. Esqueci a minha Lis de Ouro. Nem sonhava mais com meu Cordão Dourado. Isto não tinha mais importância. Minha mãe nem ligava e nem queria saber o que eu sentia. Meu Deus! Que burrice que eu fiz. Peguei minha mochila, meu cantil, minha capa negra e parti sem rumo.

                  Só por causa dela? Menino se ponha no seu lugar! Você ainda tem um enorme futuro dizia para mim mesmo. Mas a estrada parecia não ter fim. Um dia, dois um mês. Um ano depois parei. Já com meus desesseis anos e chorei. E como chorei. Por ela? Por minha mãe? Por meus amigos? Chorava por todos. Um Velho passou a cavalo e me viu chorando. Perguntou o que houve. Engasgado não sabia dizer. Suba na minha garupa, vou levar você até minha choupana. Lá vamos comer e conversar como homens. Eu estava magro, osso puro, quase não comia e pense bem, um menino de quinze não podia se deixar abater assim. Fiquei morando com o Senhor Januário por dois anos. Ele um dia morreu. De que não sei. O vi morto e pensei comigo o que fazer. O enterrei debaixo do pé de Juazeiro, pois ele me disse que ali estava Florinda sua mulher.

                    Pé na estrada novamente e cheguei ao Rio de Janeiro. Cidade grande. Ajudei a construir muitos prédios, estudei. Formei-me em medicina. Escotismo? Nunca esqueci. Ele morava para sempre em meu coração. Vez ou outra eu via os escoteiros aqui e ali a correr pelas praças, nos shoppings. Queria dar um Sempre Alerta, mas me envergonhava. Afinal eu não tinha história de coragem para contar a eles. Conheci Maria Bonita. Bonita mesmo. Casamos, não tivemos filhos. Um dia ela me deixou. Foi morar com outro. Mulher moderna, eu agora tinha de aceitar era um medico, pois não? Os anos foram passando, eu só trabalhando. Plantão em minha clinica, no Hospital São Marcelino e correndo pelas trilhas de favelas atrás de doentes terminais. Um dia vi que era hora de parar. Um clarão me fez lembrar-se de Rio Feliz. Era hora de voltar. Amigos da clinica choraram quando parti. Na viagem não pensei duas vezes. Não haveria volta.

                   Alguém sentou ao meu lado. Não reconheci. Barbas brancas enormes. Cabelos grandes grisalhos. Um boné amarelo na cabeça. Um sorriso que me lembrou de alguém. Olá Juvenal ele disse. Olhei para ele. Meus olhos piscaram, não podia ser era Zé Antonio, meu Sub Monitor. Incrível este reencontro! Contei para ele minha vida, ele contou a sua. – Vai para minha casa até achar uma que lhe convenha comprar. - E o escotismo? Perguntei. – Até hoje ele vive na minha vida. Respondeu. Mas desde que você partiu, não foi o mesmo. – Me convida a visitar? Perguntei. Ele riu. Um sorriso de amigos que sabem o que é uma verdadeira amizade. Vamos lá agora. Tenho a chave da sede. Vai ver que nada mudou. Queria perguntar, mas não sabia como. Não sei se ele iria entender. – Ele me olhou. Abaixou a cabeça e disse – Sei o que está pensando. Andaluzia voltou cinco anos depois que você partiu. Nunca perguntou por você. Nunca perguntou por ninguém. Ela hoje vive na Casa de Repouso Dom Martinho. Mal de Alzheimer. È um lugar simples e ela não se lembra de ninguém.


                     Pedi a ele que me levasse lá. Depois iriamos a sede Escoteira. Ele sorriu e falou baixinho: - Eu sabia que seria este seu pedido. Sabia que iria pedir para reviver o passado. Olhei para ele e nada disse. Amigos são assim não dizem não e nos atendem sem fazer muitas perguntas. Um novo momento iria começar em minha vida. Não foi por isto que voltei? Não sei se o futuro seria melhor do que o meu que passou. Um amigo que nunca pensei em rever agora estava ao meu lado e um grande amor ressurgiu das sombras para o meu presente que sempre sonhei. O sol estava se pondo na Serra do Gavião. O mesmo sol de antigamente. Quem sabe um novo sol em minha vida? O futuro? Só Deus para dizer. Não me disseram um dia que do destino ninguém foge?    

terça-feira, 21 de julho de 2015

O Chefe Escoteiro de lua Verde.


Lendas escoteiras.
O Chefe Escoteiro de lua Verde.

                     Três patrulhas. A quarta só no ano seguinte. Tropa nova, com menos de seis meses de atividade. O Chefe Galício era novo, menos de vinte e três anos. Resolveu um dia ser Escoteiro. Nunca foi. Achou nos guardados do seu pai um livro chamado Escotismo Para Rapazes de Baden Powell o fundador. Leu em uma noite. Gostou. Seu pai quase não falava. Vivia em uma cadeira de rodas. A mãe morrera há anos. Ele arrimo da família. Sempre pensou em ir embora de Lua Verde. Só conseguiu terminar o segundo grau. Cidade pequena, menos de dez mil habitantes. Sem perspectivas de crescimento profissional. Não podia deixar seu pai. Para sobreviverem ele montou uma quitanda. Pequena. Na frente de sua casa para não pagar aluguel. Algumas verduras, frutas, doces, e quando pode comprar uma geladeira, refrigerantes e algumas guloseimas geladas. Dava para seguir adiante a cada mês. O “fiado” era a parte mais difícil. Como negar ao Seu Romerildo? A Dona Eufrásia e a tantos outros? Eram como ele. Nem sabiam o que iam comer amanhã.

                    Depois que leu o livro o releu diversas vezes, pensou com seus botões. - Porque não ter uma tropa Escoteira? E assim fez. Mãos a obra. Convidar meninos foi fácil, a sede também não foi difícil. Ficaram num pequeno porão da Igreja Matriz. Mas Galício não entendia nada. Começou assim na raça, nem sabia que existia autorização, alguém responsável acima dele. Ele e os Raposas, os Tigres e os Leões eram os escoteiros mais felizes do mundo. Amigos, irmãos, juntos sempre. Quando os viam pela cidade a correr pelos campos, parecia um bando de meninos loucos a fazerem suas aventuras fantásticas. Galício adorava. Um dia recebeu uma carta. Era do Grande Chefe Escoteiro da Capital. O convidava para um curso. Todas as despesas pagas. Porque não ir? A quitanda deixou na mão de Quinzinho e Marquinho. Dois Monitores que sempre o ajudavam nos sábados quando a quitanda estava cheia.

                   Partiu de trem para a capital. Quinze horas de viagem. Na chegada se informou onde era o Sítio de Do Costelo. Pegou o bonde. Desceu no final e dai seguiu a pé. Eram mais seis quilômetros. Nada que assustasse Galício. Quando chegou viu muitos chefes. Bastante. Gostou do curso. Não gostou de alguns. Prepotentes, vaidosos, cheios de importância. Não era seu estilo. Aprendeu muito. Resolveu que deviam ter uma Alcatéia. Mas quem convidar? No trem quando retornava pensava a respeito. Uma jovem morena sentou ao seu lado. Galício teve duas namoradas. Pouco tempo com elas. Nunca pensou em casar. Novo. Agora com seu pai entrevado não tinha esse direito. Ela o olhou de cabeça baixa. Galício viu que chorava. – Por quê? Perguntou. Ela não respondeu. Acordou com ela dormindo em seu ombro. Reparou que era muito bonita, mas tinha o olhar envelhecido por uma vida de lutas.

                    Toda a viagem ela chorava. Galício insistiu. Ela nada dizia. Só disse que deveria ter morrido e Deus quis assim. Que seja. - Vai para onde? Sem destino respondia – Sem destino? Não tem amigos, parentes, nada? Não tenho. Quando chegou à estação de Lua Verde tinha resolvido. Desça comigo. Ficará uns dias em minha casa. Ela assustou – Descer? E sua família? Não se preocupe. Uns dias em Lua Verde você irá colocar a cabeça no lugar e saberá aonde ir e o que fazer. Ela desceu. A cidade inteira na janela vendo Galício e a bela morena. Quem era? Ele casou? Ele não disse nada. Sua vida continuou. Seu pai nem perguntou. Os escoteiros nada disseram. Sua vida mudou. Lena era uma mulher perfeita. Cuidava da casa. Fazia tudo. Seu pai tinha os olhos brilhando quando estava ao seu lado. A cidade inteira comentando. E a Tropa? Alguns pais querendo tirar os filhos. Os comentários não eram bons. Uma mulher da vida, só podia ser.

                   Galício resolveu casar com Lena. Ela disse não. Por quê? Você não tem ninguém. – Ela chorando disse que ia contar a verdade. Era mulher de vida na capital. Gostava de um soldado. Ele prometeu casar com ela. Morreu em tiroteio com bandidos. Chorou muito e o pior. Tinha AIDS. Sim, isto mesmo! Ainda em fase inicial.  Galício manteve seu pedido. Não importa. Quero você como minha mulher. Casaram-se na Igreja de São Judas Tadeu. Cerimônia simples. Ele uma vizinha e as três patrulhas escoteiras. Casou de uniforme. Ela feliz. Sorria. Viveram muitos anos. Lena se tornou Akelá. Os lobinhos adoravam sua Chefe. Galício e Lena nunca fizeram sexo. O amor dos dois eram diferentes. Lena morreu com quarenta e oito anos. Seu velório foi assistido por toda a cidade. Dizem que virou santa. Não sei. Mas seus lobinhos hoje homens feitos nunca esqueceram a Chefe que tiveram. Galício chorou por muitos anos. Morreu com sessenta e quatro anos.


                  Conheci ambos. Sempre quando vou a Lua Verde não deixo de fazer uma visita ao tumulo dos dois. Lado a lado. Escreveram uma lápide simples. Nem sei quem escreveu. – “Aqui jaz, dois amantes que nunca foram. Amaram o escotismo e com ele viverão para sempre no céu!”.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Um monitor a beira de um ataque dos nervos.


Conversa ao pé do fogo.
Um monitor a beira de um ataque dos nervos.

                Pois é Chefe, foi isto mesmo que aconteceu. Para muitos um fato normal para mim quase desisti de ser Escoteiro. Quer saber? Agarrei-me na minha promessa e minha lei para não deixar o cargo de monitor à deriva. Bem, o senhor sabe eu tinha treze anos e experiência nenhuma em liderança a não ser a que aprendi ali mesmo na patrulha. Não era um pata-tenra como monitor isto não, assumira a mais de um ano quando Nonô foi embora com seus pais. Como ele chorou Chefe. Marcou-me muito sua saída. Nós todos tínhamos por ele uma enorme amizade e quem sabe considerado por muitos como um irmão. Por ser muito emotivo não fui à estação despedir dele, depois mandei uma cartinha que contribuiu para durante anos manter uma correspondência gostosa com ele.

               A patrulha me recebeu bem. Não esperava ser escolhido Jairo Submonitor seria a escolha certa. Mas ele mesmo me indicou e disse que não gostaria de ser monitor. Com o Nonô não éramos os primeiros, mas também não fomos os últimos. Saímos bem em qualquer acampamento. Quando assumi a patrulha no acampamento de julho no Vale dos Sinos durante dois dias ficamos em primeiro lugar. Um orgulho danado Chefe. Mas tudo que é bom dura pouco. Com a saída de Nonô a patrulha ficou com seis. Abriu-se uma vaga e o Chefe Djalma me chamou na sala da chefia. - Visconde temos muitos querendo participar da Tropa, o mais correto era admitir a reserva mais antiga e não fiz isto. O menino Anthony Lambert é filho do meu Chefe, ou melhor, o dono da fábrica que trabalho. Pediu-me a vaga. Negar não podia. No próximo sábado ele será apresentado à patrulha. Gostaria que conversasse com todo e fosse sincero porque ele foi admitido. Não sei o que vai acontecer, mas abri uma exceção e não pretendo abrir outra.

                 Não disse nada, a escolha era do Chefe. Fiz minha parte e a patrulha ficou ansiosa para conhecer o novo membro da patrulha. Pois é Chefe ninguém estava preparado nem eu. O menino era um chato, exigente, pensava ser o dono da patrulha. No primeiro dia pegou o bastão da monitoria e disse que seria dele a partir daí. Tomei dele educadamente e saiu chorando procurando o Chefe. Era sempre assim. Se se via tolhido nas suas nuances corria chorando para o Chefe. Assim foram três reuniões. A patrulha se reuniu e pediu a saída dele. E agora? O que fazer? Mas eis que ele chegou naquele sábado com uma pasta cheia de papéis. – Monitor! No próximo acampamento quero fazer estas pioneiras. Tirou da pasta um amontoado de desenhos de pioneiras que nem sei se foi ele quem desenhou. Não disse nada. Já pensava aguentar o dito cujo por três dias na Fazenda Aconcágua de Dona Iraci.

                 Chefe, não sei se passou por isto, mas eu passei e não quero passar de novo. Falei para o Chefe Djalma que seria seu primeiro acampamento. Que ele prevenisse seus pais sobre o que seria. Mas sabe o que o Chefe Djalma me disse? – Seu pai deu ordens para ele ir. Colocou a caminhonete da empresa a disposição. Caso ele não goste ou se sinta mal, ela traz ele de volta! – Chefe! O senhor aceitou? – Não aceitei. Ele vai e aconteça o que acontecer vai ficar todos os dias. No dia da partida lá estava sua mãe com uma lista enorme. – Chefe Djalma dizia ela – Ele deve tomar tais e tais remédios. Ele deve comer quatro vezes por dias nos horários certos. Ele não gosta disto e daquilo. Se tomar sopa ele vomita tudo. Gosta de dormir tarde e levantar depois das dez... Fiquei olhando aquilo tudo e pensando, comigo não terá folga. Ou come o que comermos ou passa fome. E tem mais vai levantar as seis em ponto!

                  Quando chegamos ele todo serelepe queria escolher o campo da patrulha. Ameaçou pegar um berreiro se não fosse com os monitores. Pela primeira vez vi o Chefe Djalma dar um grito com ele. Ele correu e se escondeu atrás das árvores. Preveni o Jairo para não dar folga a ele. Até que no primeiro dia ele foi bem. Ajudou nas pioneiras, fez sozinho duas fossas de liquido e detrito que se abriam a um simples toque de pé ou mão. Mas quando chegou a noite nem bem escureceu me procurou. – Monitor, quero ir embora, a comida do almoço foi uma droga. Aqui tem muito mosquito. Vou e volto amanhã, chame o Chefe para me levar! Chefe Djalma gritou: - Você come aqui, dorme aqui, vai fazer tudo que os outros fazem e se chorar prendo você naquela árvore e deixo você sozinho lá passando a noite no frio!

                  Poxa! O Chefe estava arriscando seu emprego. Sabia que podia ser demitido e todos nós sabíamos que se isto acontecesse ele tinha de mudar de cidade para arrumar outro emprego. E quem disse que Anthony Lambert arrefeceu sua gritaria? Necas! Gritou, esperneou, chorou tanto que acreditou mesmo que chorava. Lá pelas nove da noite me pediu um pouco de comida. Flávio o cozinheiro tinha guardado para ele. Ficou manso, sentou-se a mesa de patrulha e comeu com gosto. Tinha de comer, fiz questão de limpar sua mochila dos doces chocolates e biscoitos que sua mãe colocou la. Chefe, Anthony Lambert mudou e como mudou. Na chegada sua mãe veio correndo abraçar o seu filhinho. Ele disse: Mãe espere tenho de ajudar a patrulha a descarregar o material e guardar. – Seu pai gritou: - Que o Chefe Djalma o faça você vai pra casa! Ele respondeu para o pai: - Aqui sou Escoteiro, vá gritar com seus empregados. Só vou quando terminar e saiu de perto carregando uma barraca!

                   Olhe Chefe, nunca vi uma mudança tão rápida. Precisava ver o novo Escoteiro Anthony Lambert. Eu mesmo não acreditava no que via. Sem perceber ficamos amigos. Ele ia a minha casa e eu na dele. A patrulha reunia la muito. Sua mãe era ótima nas guloseimas que fazia questão de fazer no lugar de Lourdinha sua cozinheira. Sei que passei para os seniores e ele me disse: - Visconde me espere, breve estarei lá com você! E o tempo passou, cresci estudei e hoje o senhor sabe, sou dono da Fabrica que foi do pai de Anthony Lambert! – Olhei para Visconde. Estava eu ele JF e Juliano sentando em volta de um fogo amigo, na montanha do Grilo. Passava da meia noite. Todos os escoteiros já tinham ido dormir.


                     Visconde! Perguntei, e onde anda Anthony Lambert? Chefe! Oh Chefe! Ele hoje mora em Paris. Casou com a Duquesa de Windsor, vive bem, tem mais cinco fábricas na Europa. Fez questão de me fazer sócio e depois me vendeu sua parte! Olhe me garantiu que viria aqui fazer uma visita. Saiu de Paris as três e deve estar chegando no seu jatinho particular. – Um farol iluminou a estrada dos Afonsos. O carro não podia prosseguir, pois não havia mais estradas. Meia hora depois chegou respirando fundo Anthony Lambert. Gordo, barrigudo, mas com um sorriso encantador – Preciso voltar ao escotismo disse: - Deu um abraço apertado em cada um. Sentou na beira do fogo, pegou uma banana assada, no caneco tomou um cafezinho. - E então? Vamos continuar a prosa? 

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Longo é o caminho para ser feliz.


Lendas Escoteiras.
Longo é o caminho para ser feliz.

“Nunca esqueci Santillana del Mar. Minha mente e minha alma recordam sempre da minha casa, da minha rua, do hotel e seu bar com pedras. Minha mãe dizia que era um lugar bucólico e que tudo ali era como antigamente. “Mas meus sonhos sempre me levam de volta a minha cidade que tanto amei”.

                 Eu estava com onze anos quando meus pais morreram de maneira trágica. Nunca me contaram porque eles estavam naquele ônibus maldito. O que iam fazer em Zaragoza ninguém nunca me disse. Um pavoroso desastre provocado por uma explosão de uma bomba levou para sempre quem eu sempre amei e respeitei. Completava oito anos quando tudo aconteceu. Todos tentaram esconder de mim todo o trágico acontecimento. Lembro que chorei muito e não sei por que daí em diante nunca mais sorri. Ainda não sabia o que era viver, deixar de viver ou sumir para sempre. Acharam para meu próprio bem que não deveria mais morar ali em Santillana Del Mar. Encontraram uma tia minha que morava no Rio de Janeiro. Nem condições financeiras ela teve para ir me buscar. O “Cuerpo Nacional de Policía” me embarcou um mês depois no “Aeroporto de Barajas” numa tarde cinzenta e olhe, nunca viajei em um avião e mesmo com a atenção das “Aeromozas”, lindas educadas, impecáveis em seus uniformes nem isto conseguiu me fazer sorrir. Ao meu lado uma senhora de idade, de nome Ana Lucia conversou comigo em toda a viagem. Eu escutava nada dizia. Meus pensamentos eram sombrios e nada fazia para esquecer meu pai Lorenzo e minha mamãe Luna.

                  O avião taxiou em Cumbica, e eu nem prestava atenção a nada. Minha tia me esperava no saguão de espera. Abraçou-me beijou e disse: Bem vinda a São Paulo Polliana. Nada mais disse. Pegou minha pequena sacola de roupas e fomos juntas para minha nova morada. Ela não tinha carro e pegamos um ônibus até o centro onde fomos para o Bairro Bom Jardim onde ela morava. Quer saber? A cidade não me chamou a atenção, nada chamava. Minha mente de sete anos estava presa a minha linda Santillana Del Mar. Meu pai e minha mãe estavam presentes a cada instante e eu sempre me lembrava de sua voz seu jeito de sorrir e minha mãe? Ah! Quantas saudades. Não posso negar que Lavinia minha tia fazia tudo por mim. Mas quando as noites chegavam eu ia para o meu quarto, deitava, começava a pensar e as lágrimas apareciam. Saudades, ah! Meu Deus quantas saudades.

                   Ia para a escola todos os dias. Aprendi fácil o português e acho que todos me entendiam. Não me enturmei com ninguém. Dona Laurita a professora era simpática e sorria sempre para mim. Um dia me perguntou por que eu não sorria e eu nada disse. Não tinha o que dizer. Não ia contar minha história a uma estranha. Foi numa quinta feira que durante a aula Dona Laurita pediu a atenção de todos. Entram dois jovens pouco mais velhos que eu. Ele e ela portavam lindos uniformes de cor caqui, um chapéu enorme que logo colocaram sobre o coração. Um lenço Verde e Branco que lhes dava um aspecto de gravata. Não sabia quem eram eles. Foi Dona Laurita que os apresentou – Joel e Larissa. Eles são Escoteiros do Grupo São Romão. Vieram aqui hoje para dar um testemunho. Irão lhe explicar o que é escotismo e dizer que hoje 23 de abril é o dia deles.

                Larissa era simpática, um sorriso lindo, falava com voz de anjo e pela primeira vez eu prestei atenção. Convidaram seis alunos para uma brincadeira. Chamavam de Serafim. Todos ficaram um ao lado do outro esbarrando ombros, e Joel com cara feira gritava ao primeiro: - Você conhece o Serafim? E ele dizia – Não. Respondia o Joel – aquele que fica assim e fazia uma careta. O primeiro repetia para o segundo que repetia para o terceiro até o último. Primeira cara feia, depois torto para a esquerda, depois meio abaixado e por ultimo Joel sorrindo dizia – aquele que faz assim! Dava um empurrão no primeiro e a fila caia toda no chão como o jogo de dominó. A classe explodiu de tanto rir. Eu queria rir, tentava, fazia força, mas nada. Não consegui. Larissa viu que eu não sorria. Dirigiu-se até a mim e me convidou para ser uma delas. Olhei para aquela menina mais velha que eu e pensei – Porque não?  

                Tia Lavinia foi comigo em um sábado. Era lindo tudo aquilo. Um deles jurou a bandeira, colocaram nele um lenço e fui apresentada a todos na ferradura. Não me senti importante e nem pensei que minha vida ia mudar, mas como mudou e como mudou! Durante cinco meses permaneci com sempre fora. Olhava as pessoas, os meninos e as meninas Escoteiras, aprendi a dar um abraço, a dar um aperto de mão esquerda e a fazer o sinal Escoteiro e a continuar sem sorrir. No primeiro acampamento estranhei muito. Dormir em uma barraca, fazer pioneirias, comer uma péssima comida (depois acostumei). Que saudades de uma Paella ou de uma Tortilha de Patatas que minha mãe fazia. Mas isto era passado. No segundo dia Larissa a Monitora me convidou a dar um passeio com ela no bosque. De mãos dadas fomos a passear próximo ao lago e ela só apontou um lindo cisne que navegava calmamente sobre as águas. Já era tarde e o por do sol jogava raios vermelhos sobre o lago fazendo um belo espetáculo da natureza.

                  Levantamos subimos uma pequena trilha e ela me mostrou a lua nascendo atrás de um arvoredo. Lindo, a coisa mais linda que tinha visto. Durante muito tempo nada falamos. Ela baixinho começou a declamar: - Um rastro de lua, na rua de rastros, depois que a chuva parou! Olhei para ela espantada e ela sorriu. Olhou-me no fundo dos olhos e disse: - É fácil apagar nossos rastros, sejam bons ou maus, mas a consciência está sempre de prontidão nos cobrando. Difícil mesmo é caminhar sem pisar no chão da realidade. Voltamos ao campo de patrulha e eu pensava nas suas palavras. Comecei a ver que minha vida não era uma redoma de vidro onde eu me prendia para não sair mais. Se Larissa pensava que eu estava presa ao passado ela estava certa. Nos dois últimos dias me soltei mais. Na penúltima noite estávamos todas em volta do fogo em frente a minha barraca e alguém começou a cantar a Arvore da Montanha, depois cantamos A Santa Catarina e quando alguém com uma voz doce e suave começou a cantar Adeus Montes e Vales Queridos eu comecei a chorar.


                  Desta vez não chorava pelo meu passado. Chorava porque aquela música tocou meu coração. Lembrei sim de Papai e Mamãe e em meu pensamento eu os agradeci por ter feito de mim o que era. Não podia mais ficar com o coração partido. Eu não queria mais correr sem saber aonde ir, eu queria sorrir na certeza que a minha dor se foi para sempre. Eu iria chorar com certeza, pois a vida é assim, dia de sol dia de chuva. Minhas amigas de patrulha me olharam embevecidas. Sorriram para mim e eu sorri para elas. O céu cheio de estrela me apontou uma lá ao longe que seria minha guia para sempre. Cantei com elas a última canção da noite – Em silêncio acampamento, este canto vinde e ouvir, são fagulhas da fogueira que nos dizem, Escoteiros a Servir! Amo mesmo ser Escoteira. O escotismo me mudou e fez de mim uma nova pessoa. Obrigado meu Deus!