Histórias e contos escoteiros.

Histórias e contos escoteiros.
Feitas para você se divertir!

terça-feira, 26 de maio de 2015

Da vida nada se leva.


Lendas Escoteiras.
Da vida nada se leva.

¶ Neste mundo eu choro a dor, por uma paixão sem fim
Ninguém conhece a razão porque eu choro num mundo assim...

                     Não foi por falta de aviso, eles foram muitos e ele nunca atendeu ou nunca se interessou. Cataclisma sempre foi assim, na tropa o chamavam de Cataclisma o sovina. Seu nome mesmo era Antonio das Mercês. O apelido ninguém soube quem deu e por que. Alguns monitores mais antigos diziam que ele fora Escoteiro, bem se tivesse sido não aprendeu nada dos valores que o escotismo tem. Muitos o alfinetavam por ele ser um mão de vaca, que só pensa em acumular riquezas e quando partisse desta para melhor, ou para pior se for o caso, não levará consigo os seus bens materiais. Eu mesmo disse a ele muitas vezes que um dia iria enfeitar com seu paletó um esquife de madeira com muitos lírios em volta. E do outro lado ele só poderia apresentar na porta do céu o que ele tivesse feito de bom aqui na terra. – Cataclisma, ajude os outros! Só suas obras terão valor do outro lado. Bem não vou dizer que ele era ruim de todo, nada disto. Afinal Lena do seu Tadeu gostou dele e casou. Mas ela comeu o pão que o   “diabo” amassou.

¶ Quando lá no céu surgir uma peregrina flor
Pois todos devem saber que a sorte me tirou foi uma grande dor.

                       Cataclisma era daqueles que no acampamento ficava dosando os alimentos. Sei que muitos Grupos Escoteiros doam as sobras para algum empregado do sítio ou uma família pobre que mora por ali. Isto traz paz e elogios aos Escoteiros o que é muito bom para conservar locais de acampamento. Cataclisma não, ele não fazia isto juntava tudo e levava para sua casa. Sempre dizia que é de grão em grão que a galinha enche o papo. Interessante que ninguém nunca o viu sair com a família. Lena e Tadeuzinho nunca saiam com ele. Às vezes aparecia na missa ou em uma atividade Escoteira onde havia comes e bebes gratuitos. Olhe, vou dizer uma verdade pelo menos sua mulher e seu filho andavam bem vestidos. Se era a Lena a responsável eu não sei. Ele trabalhava na Loja de Materiais de Construção do seu Nestor. Era bem considerado e bem quisto. Dizem que estava lá desde os quinze anos. Qual o seu salario ninguém sabia, se tinha deposito em banco era segredo absoluto.

¶ Lá no céu, junto a Deus em silêncio a minha alma descansa
E na terra, todos cantam eu lamento minha desventura desta pobre dor.

                      Muitos brincavam com ele por ele seguir a risca os dez mandamentos do pão duro: - Nunca dizer: - Pode ficar com o troco. Não colocar a mão no bolso em vão. Amar seu bolso como a si mesmo. Lembrar que tudo tem seu preço então, vamos às promoções!  Pechinchar sob todas as formas. Não desperdiçar. Ir às compras somente aos domingos, quando quase tudo está fechado. Valorizar cada centavo. Analisar o custo/benefício. Emprestar sempre com juros. Jurar é pecado, cobrar juros não! – risos. Se ele seguia ou não fica o dito pelo não dito. Por outro lado alguns diziam e eu fico em dúvida que ele seguia mesmos os dez artigos da Lei do Escoteiro. Ele nunca perdia um aniversário. Não levava presentes, mas sempre seu bornal a tira colo. Ele dizia para todo mundo: - Vá lá que pode sobrar alguma coisa!

¶ Ninguém me diz que sofreu tanto assim
Esta dor que me consome não posso viver.

                      O Padre Eugenio vivia dizendo a ele: Cataclisma faça boas obras, elas serão as únicas que irão com você quando partir deste mundo. Ele dava risadas sem ofender é claro e dizia ao padre: - Sou Escoteiro Padre. Sigo as leis e sou bom cidadão. Olhe, ele não deixava nada para trás, só andava olhando para o chão. Quem sabe encontraria alguma coisa que os outros tivessem jogado fora? Eu mesmo nunca o vi entrar no açougue ou na Loja Abil famosa por seus materiais eletrônicos. Em sua casa só tinha um radinho a pilha que ele nunca usava. Nena seguia a novela das nove na casa de Marilda sua vizinha. Quando em qualquer atividade Escoteira surgia uma taxa para todos, ele dizia que não ia. Todos sabiam o porquê. Cotizavam e pagavam sua taxa mesmo sabendo que ele tinha no Banco Santander um dinheirão. Quanto ninguém sabia. Bem mesmo sendo bom Escoteiro, seguir suas leis um dia Cataclisma bateu as botas. Começou a sentir dores no peito e não quis ir ao pronto socorro: - Ir para que? Ele dizia. E depois tem receita e remédios e não vou gastar com bobagens!

¶Quero morrer vou partir pra bem longe daqui
Já que a sorte não quis me fazer feliz.

                    O que sei é que depois que morreu, Nena reformou sua casa, fez um belo jardim e casou de novo. E olhe que foi com o Ricardão aquele que nunca fez nada e só vivia à custa das amantes que tinha. Vive sorrindo na varanda, não faz nada e sempre Nena trazendo para ele um tira-gosto e uma cerveja gelada. Comprou até um carrinho novo. No Grupo Escoteiro poucos foram ao seu féretro. Pocahontas uma Escoteira foi a única a depositar flores na sua nova morada. Bem teve o Jadilson que tocou sua corneta e errou varias vezes no tom. Em vez de tocar o silencio, tocou o debandar. Risos. Quem me contou não vou dizer, mas Palito um escoteirinho da Pantera me jurou que o Médium Sabe Tudo contou para ele o seguinte: - Ele saiu do seu corpo, olhou para um lado e outro e não viu ninguém. Andou sem esmo até que encontrou duas porteiras. Em uma um cabra feio de chifre que parecia o diabo, na outra um velhinho de barbas brancas – Ele perguntou: - Para onde eu vou? O Velhinho disse: Trouxe as boas obras? Porque aqui só vale o que de bom você fez na terra!  

¶ Quando lá no céu surgir uma peregrina flor
Pois todos devem saber que a sorte me tirou foi uma grande dor.

                  Dizem, ou melhor, Sabe Tudo disse que o Diabo dá risadas até hoje. Convenhamos que nada mais se soube, mas queira ou não Cataclisma foi Escoteiro e sei que o diabo passa longe de qualquer um que se disser um Badeniano de Coração. Que seja assim, mas que sirva de lição para os que acharem que boas obras é sinal de fraqueza. O bom Escoteiro só sabe fazer o bem e olhe... Sem olhar a quem!

Nota – Saudades de Matão é de autoria de Tonico e Tinoco. Por sinal uma das minhas preferidas para cantar em noites de luar

domingo, 24 de maio de 2015

A mais linda canção Escoteira de todos os tempos!


Lendas Escoteiras.
A mais linda canção Escoteira de todos os tempos!

                          Ainda bem que temos lembranças. Saudosas lembranças. São cicatrizes gostosas que ficam marcadas para sempre. Estou aqui sozinho, olhando o céu, sem nuvens, cinzento e minha mente volta no tempo lembrando tudo que tive e vivi como Escoteiro. Fui abençoado por Deus, ele me proporcionou tudo isto, amigos maravilhosos, jovens esplêndidos, grandes amizades e uma fraternidade sem par. Tive a honra de conhecer as maravilhas que o escotismo nos trás. Hora de puro deleite, de meditação, de sorrisos, alegrias, felicidade. Eu gosto de lembrar-me de pensar como tudo foi bom em minha vida. Estou aqui ouvindo a canção que sempre ouço as tardes pensando em meu passado. Na minha vitrola antiga, gira o LP de Guy Lombardo, e fico a ouvir a suave melodia. É uma musica que toca em todos os corações escoteiros. Auld Lang Syne. Nada mais nada menos que a Canção da Despedida. Dizem que significa “velho longo, uma vez que” ou “muito tempo atrás”, ou então “como nos velhos tempos”. É um poema escocês, escrito por Robert Burns em 1788 e ajustada para uma tradicional melodia popular, bem conhecida no velho mundo.

                          Gostaria de saber quem foi o Escoteiro que adaptou tão maravilhosa letra para nós escoteiros. Claro, estava ouvindo em inglês, mas quantas saudades, quantas recordações. Ela toca profundamente. Bate fundo no peito. De vez em quando dói e outras vezes nos trás a certeza que vamos nos reunir outra vez. A mente corre para uma clareira na floresta, olhando um fogo crepitante, com o coração firme, ardente esperando que vá ter bis, vai repetir e vamos juntos, dizer: - Não é mais que um até logo, não é mais que um breve adeus... Belo! Simplesmente belo. Não há como dizer outra coisa. Meu nome? Chefe Joel Mistran Moraes, ex-chefe. Oitenta e seis anos. Você não me conhece. Sou um antigo escoteiro. Hoje aposentado só vivo de lembranças. Um dos meus passatempos favoritos. Elas ainda me ajudam a viver. Foi um passado brilhante, saudoso, gostoso e o que mais este "Velho" tem? Tenho filhos, netos, e apesar das dificuldades do meu corpo não me obedecer mais, fico aqui imaginando e agradecendo a Deus por ter me dado tantas alegrias e lembrar-me de tantas e tantas passagens, de um tempo maravilhoso que já se foi.

                           Não dá para esquecer meu primeiro acampamento. Faz tempo. Final da década de trinta, novo na patrulha, onze anos, lobinho de coração. Estranho no ninho. Medo, receio. Uma nova etapa. Sem minha Akelá e o Balu para me proteger. Lágrimas brotaram quando fiz a passagem. Aos poucos fui acostumando. Ângelo o Monitor, grande companheiro. Até quando casei lá estava ele ao meu lado como meu padrinho. Algumas excursões, mas nada como este acampamento. Seis dias. Mata fechada. Selva para mim inóspita, Pânico no primeiro dia. Depois, barracas montadas, cozinha coberta, fogão suspenso, sala de refeições, fossas, Até WC fizemos! Quando a noite chegava, estava em pandarecos. Mas orgulhoso. Era mais um na patrulha. Ajudei, colaborei. Dormia o sono dos justos. Só acordava com alguém me chamando ou puxando meu pé. E tudo continuava a sorrir com meus amigos, fazendo, construindo, aprendendo, brincando. Deus! Eram aventuras maravilhosas. Escaladas (tremia) balsas, pistas de animais, mosquitos, predadores, escorpiões, cobras (que medo!), colher goiabas, mangas, abacate, nas mais altas árvores.

                            Penúltimo dia orgulhoso em ser um Lobo, irmão das demais. Amigos, fraternos, uma chefia maravilhosa. Então a surpresa. Um Fogo de Conselho só da tropa. Senhor! Olhe, fico arrepiado só de lembrar. Ficou marcado para sempre. Ria, cantava, batias palmas, pulava, corria, e então... E então... Todos deram as mãos em volta do fogo e começaram a cantar. Eu a principio não conhecia a letra, aos poucos fui entendo. Meu Deus! Que música maravilhosa! Tocou-me fundo no coração. Impossível agüentar a emoção. “Não é mais que um até logo”! Onze anos e chorando. Lágrimas descendo no meu rosto. Mãos entrelaçadas, apertando uma as outras. Parou a canção. Final, fogueira crepitando, estrelas no céu. Vento frio, brisa no rosto, cheiro da terra, do capim meloso, grilo saltitando, vagalumes aqui e ali querendo mostrar seu brilho. Silencio. Lagrimas caindo, uns olhando para os outros, tentando disfarçar. Trombeta tocando. Reunir! Boa noite, Corte de Honra, oração.

                     Fui para a barraca com um sorriso enorme! Deitei, coloquei as mãos debaixo da cabeça, olhava para o teto da barraca, ele desaparecia. Agora via estrelas piscando no céu. Chorei. De alegria, de saber que tinha encontrado amigos, irmãos e que agora pertencia a uma grande Fraternidade Escoteira. Agora eu era um deles, um escoteiro, um privilégio de poucos! Foi a primeira grande emoção. A Canção da despedida marca. Chorei depois muitas vezes quando novamente cantei em volta do fogo. Nunca deu para esconder está minha fraqueza. Até hoje não consigo explicar. Se ela dói se machuca se uma saudade gritante fala par nós. É uma situação inusitada. Se contarmos para um amigo ou amiga, eles vão rir. Vão achar que somos bobos, tolos. Não entendem. Não sabem o que é isto. Nunca vão saber... Centenas, talvez milhares de vezes lá eu estava participando com orgulho. Dizia a mim mesmo que não mais iria chorar. Engano. Bebê chorão! Sempre ali, lagrimas e lágrimas escorrendo no rosto, caindo e molhando a terra, nosso chão abençoado.

                              Cresci. Tornei-me adulto. Agora era chefe, Cursos, Acampamentos Nacionais, regionais, internacionais viagens, indabas, fóruns, congressos nacionais e internacionais, Jamborees. Conhecendo centenas e milhares de irmãos escoteiros. E em todos eles lá estavam os chorões. Choravam quando se despediam alguns querendo ser durões, mas sempre uma pequena lágrima caindo, descendo devagar pelo rosto... Como não perder as esperanças? Seria isto um breve adeus? A primeira vez, que chorei quando cantava, quando despertei para o escotismo, nunca esqueci e jamais esquecerei. Dizem que a primeira vez a gente nunca esquece. Mas teve uma vez que me marcou profundamente. No México, 1963. Convite para participar de uma solenidade especial de grupo amigo, um irmão escotista de coração que conheci em encontros internacionais e Jamborees. Uma amizade sólida. Juarez Benito Santos. Da cidade de Hermosillo, capital do estado de Sonora. 30 anos de fundação do Grupo Escoteiro. Vários outros grupos irmãos. Achei que dava para enrolar no idioma. Nada. Um paspalho era eu para entender o que diziam. Mas quem disse que em acampamentos escoteiros precisamos disto? Parece que falamos um só idioma. Claro, somos iguais em todas as nações.

                              Nossa! Marcou mesmo. Incrível os escoteiros mexicanos. Gente simples, leal, sem altivez. Tocaram meu coração. Mas quando chegou à hora da despedida! Ah! Não, não queria sair dali. Chorei copiosamente. Um marmanjo. Trinta e quatro anos! Abrindo a boca, lágrimas e lágrimas descendo pelo rosto. E quando terminou a canção? Vieram todos me abraçar, chorando também, dizendo, - “No te vayas, te queremos, quédade nosotros”... Quem agüenta? Diga-me meu amigo, quem? E no dia seguinte, a tomar o trem para a cidade do México, lá estavam eles na estação, barulhentos, amigos, abraçando, cantando canções típicas, e quando o trem foi se afastando, cantaram de novo a Canção da Despedida. Rapaz foi incrível suportar! Impossível! E repetiam, repetiam – “No te vayas, te queremos, quédade nosotros”! Marcou meu amigo. Marcou. Passageiros ao meu lado não entendiam. Um deles se aproximou. Be Prepared! Americano, boy Scouts. Incrível! Que movimento é este? Deus do céu!

                            O tempo passa. Tudo passa, só não passam as lembranças. Dizem que quem não as tem não viveu. Hoje, como sempre acontece às tardes, estou aqui sentado nesta cadeira de balanço, na varanda da minha casa, uma garoa miúda molhando o asfalto, um pequeno cobertor nas minhas pernas, que hoje não mais me obedecem. Levou-me a lugares incríveis. Minha respiração ofegante, o ar faltando, corpo sem graça, relutante, mas a mente! Ah a minha mente! Busca incessante! Errante! De tudo aquilo que já vivi. Que me desculpem os amigos, mas estou ouvindo Auld Lang Syne (A Canção da Despedida) e chorando. Minhas lágrimas não molham a terra, não há mais florestas onde posso ir cantar e viver. Mas olhem, sinto um enorme orgulho, fui Escoteiro! E serei escoteiro até morrer.  Eu sou mesmo um abençoado por Deus! Deu-me mais do que eu merecia! Sinto que meu corpo não obedece. Minha mente vai apagando. Meus olhos piscam querendo fechar. Sinto no peito uma dor aguda e uma pontada no coração. Não sei se e de saudades ou...

                             E quem estivesse ali naquela varanda, veria a alegria estampada no rosto daquele "Velho", vestido com sua camisa caqui, seu lenço de Giwell, preso pelo anel trançado, o chapéu de três bicos no seu colo. Suas barbas brancas, cabelos brancos soltos na testa, olhos semicerrados, um sorriso nos lábios, e seu coração parando devagar. Uma pequena lágrima tentava correr pelo seu rosto, uma luz faiscante, brilhante saindo de dentro dele, dois lindos anjos ao seu lado, levando-o para grandes nuvens brancas no céu, e meu Deus! Uma grande Orquestra Sinfônica, regida pelo Santo Gabriel, tocando maravilhosamente “Auld Lang Syne”, e acompanhada pelo maravilhoso coro dos querubins, com todos os uniformes escoteiros do mundo, mãos entrelaçadas, num grande círculo de amor, vozes maravilhosas entoando em uníssemos...
            
             Porque perder a esperança, de nos tornar a ver...
             Porque perder a esperança, se há tanto querer.
             Não é mais que um até logo, não é mais que um breve adeus,

             Bem cedo, junto ao fogo, tornaremos a nos ver...

sábado, 23 de maio de 2015

Lendas Escoteiras. O chapéu de três bicos.


Lendas Escoteiras.
O chapéu de três bicos.

♪♪O meu chapéu tem três bicos,
Tem três bicos o meu chapéu!
O meu chapéu tem três bicos,
Tem três bicos o meu chapéu. ♪♪

                                     Tinha história aquele Chapéu com Três Bicos. Pertenceu a três senhores diferentes. Sempre os serviu lealmente e por cada um deu tudo o que podia para ser um autêntico Chapéu Escoteiro com Três Bicos. Poderia até dizer que em sua biografia adquiriu vida, teve momentos alegres e momentos tristes. Amparou impacto, tempo ruim e em todas as ocasiões se orgulhou de si próprio do serviço ao próximo e dos seus amos. Hoje, está ali, pendurado na parede, já velho, desbotado, ainda com um dono que não o usa mais. Quem sabe, mesmo velho e apagado poderia voltar à ativa novamente. Afinal ele ainda se considera um autentico Chapéu escoteiro com Três Bicos. Sabe que foi substituído e não reclama por ter sido abandonado depois de tantos e tantos anos. Seu atual dono dizia que sua aposentadoria tinha chegado. Poderia dizer que foi ele quem me contou sua história. Sei que não acreditam e vão rir de mim. Afinal Chapéu com três bicos é Chapéu com três bicos. Não fala não pensa é um objeto inerte e eu não teria como ouvi-lo. Falar então... Mas a verdade é que sua história tão cheia de aventuras e grandes atividades aventureiras não poderiam ser esquecidas.

                            Acreditem se quiserem. Foi num domingo chuvoso, estava eu olhando o dilúvio pela janela, que caia aos borbotões na calçada da casa de um Velho Chefe que visitava e ouvi o seu chamado. A princípio não vi ninguém, achei até ser brincadeira do meu amigo. Depois com sua insistência, olhei e ele balançou suas abas em minha direção. Estava pendurado em uma parede da sala, limpo, abas retas e orgulhoso do que era. Por favor, não riam! Juro que é verdade. Pelas barbas de Satã! (não sei se ele tem barba). Ele queria desabafar. Ninguém o ouvia e achou que eu poderia ser seu amigo e ter boa audição no que tinha a contar. Não era uma história das mil e uma noites, claro que não. Afinal ele era um Chapéu Escoteiro com Três Bicos e eu o poderia chamar de Chapéu de Três Bicos.

                         Tudo começou com seu primeiro dono. Vadinho. Um escoteiro que morava lá pelas plagas do norte do estado. Entrou na tropa com onze anos. Para fazer seu uniforme engraxava sapatos durante a tarde todos os dias de semana. Pela manhã estava na escola. Conseguiu juntar o dinheiro necessário.  Isto levou quase cinco meses. Tempo que esperou para fazer a promessa, pois sem o uniforme não poderia ter feito. Não tinha o Chapéu Com Três Bicos. Aguardou uma oportunidade para comprá-lo. Era difícil. Só estava a venda na capital de dois estados do país. Como buscá-lo, fazer o pagamento, transporte seria uma epopéia digna de um “super escoteiro”. Sabia que um dia iria ter um. Era calmo e ponderado. Esperou o momento oportuno.

                         Quase todos os irmãos escoteiros da tropa possuíam um. Ele e mais dois usavam um bibico, o que não lhe agradava muito. Sua mãe e seu pai tinham um grande respeito por ele. Era estudioso, bom filho, um excelente escoteiro; A Lei Escoteira era ponto de honra para sua ação diária. Uma irmã de seu pai morava na capital de um daqueles estados. O pai escreveu para ela. Sabia que a carta iria demorar e que somente através de um portador poderia receber o Chapéu com Três Bicos. Recebeu uma resposta dois meses depois. O endereço não batia. Pedia outro. Mandaram outra carta com um número de telefone do Comissário Regional daquele estado.

                     Voltando ao Chapéu com Três Bicos, ele contou que nasceu em um dia qualquer de março, lá pela década de 50. Seu pai, o Sr. Prada foi quem o fez com muito carinho. Naquela época eram destinados somente aos membros do escotismo. Sonhava no dia que teria um dono. Gostaria que fosse um ótimo escoteiro que o mantivesse sempre limpo e com as abas retas. Lembrou quando foi vendido a uma Loja escoteira. O colocaram no fundo do bazar, embrulhado e esquecido. Outro Chapéu com Três Bicos ficara em exposição. Assim ficou por lá mais de seis meses. O atendente da cantina um belo dia, comentou sua venda. Ele explodiu em alegria. Afinal teria um dono e poderia ajudá-lo em tudo que o Chapéu de Três Bicos pode fazer. Rezava para ser um escoteiro com o espírito voltado para o bem.

                     Vadinho voltava de um acampamento de tropa. Cansado, (voltavam a pé), ajudou sua patrulha a guardar a tralha que estava estocada na carrocinha. Quando conseguiram comprá-la todos foram tomados por uma satisfação imensa, pois agora levar e trazer o material de acampamento ficaria bem mais fácil. Da sede até sua casa ainda tinha uma boa jornada. Ele estava acostumado. Sempre fazia este caminho e os passantes e moradores já o conheciam de longa data. Ao avistar sua residência, viu no portão da cerca de madeira, suas irmãs, seu pai e sua mãe, e ficou intrigado.

                    Quando entrou em casa, viu em cima da sua cama, o seu novo Chapéu de Três Bicos. Incrível! Extraordinário! Ria, cantava e abraçava a toda a sua família. O Chapéu de Três Bicos também sorria. Gostou de Vadinho. Achou que seria muito útil e dalí em diante, também iria pertencer àquela família tão simpática. No dia seguinte Vadinho procurou um marceneiro, para saber quanto seria para fazer um porta chapéu. Tinha visto o Chefe com um, e viu que seria ótimo para guardá-lo mantendo sempre as abas retas durante anos e anos. Combinaram o preço e Vadinho trabalhou mais e mais engraxando sapatos para pagar sua encomenda.

                   No primeiro sábado, orgulhosamente exibiu seu chapéu com três bicos a todos os seus irmãos escoteiros. Agora sentia que estava bem uniformizado. O Chapéu com Três Bicos também se orgulhava de seu dono. Fazia tudo para protegê-lo do sol e da chuva, mas quando chovia Vadinho corria para um local protegido para abrigar é claro o seu chapéu com três bicos. Um dia, em uma atividade feita em uma serra próxima a sua cidade, passaram por uma estreita trilha tendo ao lado um despenhadeiro de grande profundidade. Um pé de vento o pegou de frente e seu Chapéu com Três Bicos vou para longe. Deu para o ver caindo bem lá no fundo.

                    O Chapéu Com Três Bicos se assustou com aquilo. Nunca pensou que pudesse acontecer. Não gostaria de acabar no fundo de um penhasco, molhado talvez a rolar e correr por regatos e córregos, esquecido e se desmanchando lentamente. Não. Não podia acontecer. Tinha certeza que Vadinho iria salvá-lo. Vadinho de maneira nenhuma iria desistir do seu Chapéu com Três Bicos. Mesmo contrário às sugestões da chefia, estudou como ir até ao fundo do penhasco e resgatar seu Chapéu com Três Bicos. Voltou por dois quilômetros e encontrou uma pequena trilha que descia até o fundo. Subiu córrego acima e alcançou o ponto onde estaria o seu Chapéu com Três Bicos.

                      O Chapéu de Três Bicos viu Vadinho se aproximando. Permanecia em cima de uma árvore e sabia que Vadinho não poderia vê-lo. Não podia deixá-lo ir embora. Balançou, balançou, esperneou, se mexeu tanto que caiu próximo onde Vadinho estava. Os dois, o Chapéu de Três Bicos e Vadinho deram urras de alegria. “Anrê, Anrê, Anrê! Pró Brasil? Maracatu”. Pronto, o agradecimento tinha sido realizado. O Chapéu de Três Bicos ficou com Vadinho por mais de oito anos. Um dia ele foi para outra cidade e presenteou seu Chapéu com Três Bicos a um novo escoteiro. Não gostou do seu novo dono. Zito era desleixado, não tinha interesse pelo Chapéu com Três Bicos, e fazia dele gato e sapato. Mesmo sem uniforme, usava-o e o surrava com todas as intempéries possíveis.

                     Quebrou sua proteção das abas largas e o jogava de qualquer jeito em cima do guarda roupa. Soube depois de um ano que Zito já não participava mais do escotismo. Durante três anos ficou com Zito. Esquecido em um canto, desprezado, sem nenhuma utilidade para um nobre escoteiro. Foi substituído por um boné qualquer. O Chapéu com Três Bicos estava triste e magoado. Um dia um tio de Zito viu o Chapéu com Três Bicos em cima do guarda roupa. Perguntou a Zito se não o presenteava. Sabia que um chefe de tropa escoteira seu amigo precisava de um. Como era pobre e sem condições financeiras não tinha adquirido na capital. Zito é claro viu uma oportunidade de ganhar uns trocados. O tio pagou o que ele pediu. O Chapéu de Três Bicos vibrou com a mudança de dono. Ainda não sabia quem era o terceiro que ia servir. Não importava. Estava cansado do abandono, da sujeira, se sentia torto e com cheiro ruim.

                    Miguel era o seu novo dono. Era um bom chefe. Não entrou no movimento como menino. Já tinha 18 anos quando iniciou sua senda na chefia escoteira. Não entendia nada. O Grupo tinha enorme falta de chefes. Miguel tinha coragem. Aprendeu sozinho ou mesmo com seus monitores as técnicas e a maneira como fazer para a tropa prosseguir em sua caminhada. Todos os jovens o admiravam. Fora duas vezes a capital fazer cursos escoteiros. Aprendeu muito. Estava fazendo dois anos de atividade. Quando soube do Chapéu com Três Bicos e se alegrou. Ao vê-lo, entristeceu. Velho, torto, sem cor e alquebrado. O Chapéu com Três Bicos sentiu-se desprezado. Pensou positivo e deu negativo. Mas logo viu que Miguel não tinha desistido dele. Soube por meio de outros chefes antigos como reformar um chapéu. Pegou uma escova nova de engraxar sapatos, molhando aos poucos com água potável, escovou todo o Chapéu com Três Bicos.

                        Após ver que a limpeza deu resultado, faltava endurecer a aba para se tornar um verdadeiro Chapéu escoteiro com Três Bicos com abas retas e planas. Aprendeu com sua mãe como engomar roupas e viu que ali poderia fazer o mesmo. Jogou pouca goma, também molhada na escova e com o ferro de passar roupa, colocou o chapéu com três bicos em uma superfície lisa, passando a borda do ferro calmamente, sem forçar para não agredir a cor e não borrar. Em pouco tempo o chapéu estava como novo. Faltava somente a proteção. Miguel mesmo a fez. Agora sim, o chapéu com três bicos estava em perfeitas condições de ser usado.

                      O Chapéu com Três Bicos serviu Miguel por mais de 15 anos. Já velho, perdeu muito a cor, no entanto ainda permanecia fiel as origens. Miguel não comprara um novo. Lembrava sempre dos anos que conviveu com Miguel. Das excursões, dos acampamentos, de suas viagens para participar em eventos burocráticos ou de decisões do escotismo nacional. Um dia, Miguel apareceu com um Chapéu com Três Bicos novo. Falou para o amigo Chapéu com Três Bicos que não estava abandonando-o. Estava na hora de sua aposentadoria. Afinal estava fazendo seus trinta e cinco anos de nascimento. Precisava descansar. Miguel o colocou em sua sala. Agora casado, com filhos, seu Chapéu com Três Bicos era um troféu a ser mostrado a todos. Tinha orgulho dele.

                       Achei até que Miguel sabia de toda a história. Quem sabe o Chapéu com Três Bicos também tinha contado a ele. Eu era muito amigo de Miguel. Ele estava agora com 68 anos. Ainda era ativo nas atividades escoteiras. Olhei para o Chapéu com Três Bicos e o parabenizei. Disse que também tinha um em casa. Não com tantas histórias para contar. Agora que conhecia sua fábula, eu também teria mais cuidado com meu Chapéu com Três bicos. Quem sabe depois disto, ele seria mais falante, e me diria o certo e o errado em seu uso.


                   Miguel adentrou a sala e me viu falando com o Chapéu com Três Bicos. Fiquei encabulado e sorri meio sem jeito. Miguel não disse nada. Também sorriu. Ficamos eu e ele calados como a dizer que o segredo seria bem guardado. Fui para casa pensativo. Quantos Chapéus com Três Bicos neste “mundão” escoteiro não tem grandes histórias para contar? Quantos são felizes com seus amos e quantos estão tristes com o tratamento que recebem. Hã! Que saudade. Que saudade do meu Chapéu com Três Bicos... 

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Não deixe o vento levar os seus sonhos.


Crônicas de um Velho Chefe Escoteiro.
Não deixe o vento levar os seus sonhos.

                    Lá estava ele, altaneiro, cheio de vida, correndo com o vento amigo que o levava onde ele queria ir. Ele sabia de sua importância, sabia que todos sempre pensavam nele e não queria decepcionar ninguém. Afinal ele era um Sonho e fazer os sonhos dos que pensavam nele realizarem o fazia feliz muito feliz... Ele sabia que nem sempre conseguia seus intentos, sonhos de alguém e ver a realização do sonhador. Tinha a experiência de ver tantos sonhos realizados, de ver a força de vontade em fazer lembrando sempre que sem isto nada poderia realizar. Ele gostava muito dos que diziam gostar de sonhar mesmo sabendo que os sonhos nem sempre se realizam. Ele sabia que existiam os sonhos possíveis e os impossíveis.  E quando ele os realizava, um sorriso enorme ele dava no seu habitat da nuvem branca onde moram os sonhos. Nunca se importou quando o chamavam de utopia, aquele sonho que não existe. Para estes ele deixava que pudessem ver o sol sem cor, a lua sem brilho as estrelas tão longe de se tocar.  

                      Ele sabia que o vento não tinha sonhos, nem a brisa da manhã que ele sentia sempre ao nascer do sol. A nuvem branca que o levava para todos os lugares agora estava atravessando um enorme oceano. Seus outros amigos sonhos diziam que era o oceano dos grandes amores, onde a felicidade existe e os que chegavam ali navegavam felizes nas águas eternas para sempre. Ele se lembrou de Conchita. Linda menina sonhadora. Morava em uma cabana no alto da montanha Azul. Todas as tardes ela sentava em um pequeno banquinho e nem notava a cor púrpura do sol que se punha no horizonte. Sua mente viajava sem destino, ela nem se lembrava de que um dia alguém disse a ela que se podemos sonhar, também podemos tornar nossos sonhos realidade. È Conchita é bom acreditar, pois naquele dia o Sonho ali passou  e ouviu o que ela queria. Não era impossível, não para ele. Ele viu seus olhos cheios de lágrimas por viver sozinha naquele canto da montanha sem ninguém. Tinha sua mãe e seu pai, mas não podia encontrar um príncipe para viver com ele para sempre?

                      Ah! O Sonho pensou que o sonho de Conchita podia se realizar. Não se sabe como uma manhã linda de sol vermelho, subindo a montanha vinha oito Escoteiros alegres e cantantes sob a luz do sol vermelho. Junto Miguelito o Chefe que adorava acampar. Solteiro quando viu Conchita na porta da cabana de madeira vermelha ele logo se apaixonou. Em seu pensamento disse para si: - Vais ser minha princesa, você terá tudo de mim. Farei de você a moça mais feliz do universo, darei a você de presente todas as estrelas no céu. À noite rezarei para você e quando a lua cheia surgir. Irei pedir a ela para iluminar seus caminhos por onde for. O Sonho sabia que meses depois eles se casaram e viveram felizes para sempre. O Sonho agora atravessava a majestosa floresta verde e formosa de um país tropical. O Sonho sentiu que precisava realizar o sonho de alguém, mas pensava o porquê de poucos agora não mais queriam sonhar. Ele sabia que um sonho para ser realizado o sonhador tem de acreditar, tem de partir na estrada dos sonhos e alcançá-lo com suas forças e lutar para que ele seja real. Fácil é sonhar todas as noites. Difícil é lutar por um sonho impossível só porque não acreditou.  

                       Viu um homem perdido nas matas verdes do país tropical, tropeçando, caminhando sem rumo, pensando que não ia sobreviver. Ele não sonhava, lutava pela vida, pois sabia que em poucos dias ia morrer. O Sonho sorriu, é hora de trabalhar. O homem que se chamava Molusco fora no passado um Escoteiro. Aprendeu a navegar, aprendeu onde o norte se encontrava com o sul, nunca precisou de bússola para achar o seu caminho. Tinha vivido em florestas, aproveitou muitas vezes quando menino o que ela poderia oferecer. Um brilho passou diante dos seus olhos. Afinal isto é um sonho? Sonho ou não eu posso vencer! – Ele pensou. Ele viu as árvores, as folhas amarelas e sentiu que elas lhe dariam o rumo. Uma nesga do sol lhe mostrou o caminho a seguir. Enquanto caminhava pensava no seu filhinho que deixou na cidade, de Mariazinha sua amada tão pequenina. Um riacho encontrou, uma jangada ele fez. Dois dias depois uma cidade apareceu na curva do rio das almas perdidas. Molusco um Escoteiro estava salvo. Correu a encontrar seus amores, Picolino e Mariazinha sua amada e seu filhinho querido ele foi abraçar.

                         Era hora de dormir para os humanos do mundo. O Sonho não dormia, mas se recolhia quando as noites quentes não deixavam ninguém sonhar. Ele imaginou que tantos poderiam sonhar sonhos lindos mesmo com sentido na pele o tempo forte do verão. Ele sabia que poemas não são feitos para serem entendidos. Isso é utopia. Bastam aos poetas que seus poemas e sonhos sejam sentidos. Tiquinho não tinha dez anos. Insistia com seus pais em ser um escoteiro. Nunca foi e este era seu maior sonho. Dom Casmurro tinha um bigodão que todos temiam. A maior fábrica de tecidos era dele. Funcionários tremiam quando arriscavam a olhar para seus olhos vermelhos. Tiquinho seu filho sabia que ele nunca iria deixar. Uma noite de verão todos os funcionários foram para casa. Ele mesmo fechou as portas e o portão. Altas horas da noite foram lhe chamar: - A fabrica começou a pegar fogo, mas um menino conseguiu apagar. O menino estava queimado deitado na cama do hospital.

                        - Como foi? Ele perguntou. Senhor ele é Juquinha Escoteiro filho de Filó das Mercês sua funcionária. Ele esperava sua mãe pelo fim do turno. Ela não sabia. Dormiu encostado no Varão da Sala Grande. Quando viu a fumaça, já treinado nos Escoteiros pelos bombeiros ele correu e conseguiu o fogo apagar. Um herói Dom Casmurro! Sem ele o senhor estaria pobre e sem sua fábrica querida. Tiquinho teve seu sonho realizado. Promessado com as vistas de seu pai. Uma alegria sem par. O Sonho viu o seu futuro, lembrou-se da escoteirada que vivia no Luar da Montanha Dourada. Lembrou-se dos tempos dos acampamentos, das alegrias que Tiquinho passou a ter. Ah! Os sonhos. O sonho sabia que eles têm um destino, um lugar para ficar, um lugar para realizar todas as vontades de quem acredita neles. Agora o Sonho partira para o rumo à além mar.


                     Havia outros lugares para ir, encontrar meninos e meninas Escoteiras que sonham e ele na sua boa vontade, os sonhos deles faria realizar. E aqui encerro o sonho de um Sonho verdadeiro. Um sonho sonhado, um sonho amado por aqueles que um dia acreditaram em seus sonhos. Como dizia Augusto dos Anjos a Esperança não murcha, ela não cansa, também como ela não sucumbe a Crença, Vão-se sonhos nas asas da Descrença, Voltam sonhos nas asas da Esperança. 

segunda-feira, 18 de maio de 2015

A marca da Pantera A história de um bastão escoteiro


A marca da Pantera
A história de um bastão escoteiro

            Trinta e cinco anos se passaram. Para mim uma vida. Ainda me lembro de quando fui feito. Um monitor novo, uma patrulha nova, todos iniciando na tropa recém-formada. Para dizer a verdade, tenho orgulho de todos eles. Foram muitos que passaram pela patrulha Pantera durante este tempo. Guardo o nome de cada um no fundo do meu coração. Desculpe, sou de madeira, dizem que não tenho coração. Mas eu tenho. Podem me conhecer melhor no livro de memórias da patrulha que o escriba guarda com muito carinho. La tem o nome de todos que passaram por esta patrulha.            Houve épocas ruins e boas. Monitores desleixados, que não ligavam para mim, me deixavam em qualquer lugar. Já passei por grandes tempestades, caí em gargantas profundas, despenhadeiros, fiquei a deriva em um vagão de um trem de ferro. Incrível! Safava-me com galhardia. Claro tinha sempre um escoteiro bondoso da patrulha que não me deixava desaparecer. Mas acreditem, sempre fui amado pelos grandes patrulheiros da Pantera em todos os tempos.

          Nasci há muito tempo. Eu era um frágil galho de uma goiabeira, mas me orgulhava de minha raça araçá-guaçu. Mesmo sabendo que pertencia a uma família com tronco tortuoso, de casca lisa e descamante. Considerava-me um galho pubescentes e por várias vezes vi as flores que vicejavam brancas, solitárias principalmente na primavera. Nunca consegui dar frutos, não sei por que. Comentavam a “boca-pequena” que nós goiabeiros somos os mais fortes, os que mais duram. Não sei, talvez seja por isso que Romildo me escolheu. Lembro bem quando ele se colocou debaixo da goiabeira e olhando para o céu analisou todos os galhos ali existentes. Eu não sabia, mas ali começaria minha saga do mais antigo bastão totem da Tropa Escoteira Titan (aquele que tem sensibilidade, simpatia, cooperação, diplomacia e receptividade). Orgulho-me de ter começado logo após sua primeira promessa. Não foi no mesmo dia. Romildo e mais cinco amigos ficaram por três meses sendo adestrados como monitores e subs.

        No primeiro dia da formação das patrulhas eu fui apresentado aos demais. Passei por várias etapas. Romildo me deixou secando dentro do quarto dele (dizia que o sol iria me estragar) por uma semana. Depois gentilmente retirou minha casca sem usar faca ou canivete. Passava todos os dias um pano embebido em óleo de linhaça, e fiquei quinze dias ao pé de sua cama. Por último, passou de leve um verniz incolor que produziu um brilho todo especial. Acho que foi amor à primeira vista entre mim e ele. Romildo era um verdadeiro monitor. Fez questão de fazer uma biqueira de aço, leve, que encaixou na minha ponta e em cima também uma pequena tampa de aço com pequena alça onde prenderia a ponta do totem, ambas encaixadas a fogo. “Todos os dias ele me olhava, sorria me colocava junto a ele, vestia o uniforme e dizia Sempre Alerta” me segurando com a mão direita e a esquerda com o sinal escoteiro levava até a altura do coração.

      Comprou de um sapateiro diversos cadarços de couro grosso, tipo Camurção, beneficiado com as fibras do lado do carnal (parte interna da pele). Comprou também outros cadarços feitos de pelica, um couro de cabra, leve de toque macio, alto brilho. Depois me disse o porquê. Não se assustem, eu e Romildo éramos bons amigos e nós conversamos muito. Sua mãe fez um lindo Totem. Eu não sabia, mas tinham escolhido na patrulha que o nome seria Pantera Negra. Romildo era um estudioso. Seu chefe dizia que ele era um monitor de que se orgulhava. Tinha de saber todas as respostas para os escoteiros de sua patrulha. Aprendeu que a Pantera negra (Panhhera pardus melas) vive nas selvas quentes da Malásia, Sumatra e Asia. Também na Etiópia. Seu pelo era inteiramente preto. Na floresta não era amigável. Vivia mais só. Aprendeu que a Pantera sabe mergulhar, nadar, salta sobre pedras soltas e cai a metros de distancia. Ataca mamíferos. Prefere áreas cobertas de arbustos.

      Romildo foi à biblioteca da sua cidade e lá ficou por vários dias até que achou uma foto linda de uma pantera. (ainda não havia internet) Desenhou o que sabia, pois não era bom desenhista e sua mãe pontilhou em um feltro amarelo, a “Marca da Pantera”. Nunca mais foi mudado. Claro, o totem sempre me reclamava por ficar deitado, torto e poucos notavam o desenho tão bonito da pantera negra. Demorou algum tempo, até que o sexto monitor da patrulha fez uma capa de plástico que só usava em acampamentos (para proteger das intempéries) e um arco em forma do totem para mantê-lo sempre reto. No primeiro dia que fomos apresentados a patrulha, ela deu um lindo grito. Ficamos eu e o totem emocionados. Eu ainda não sabia o que eram os escoteiros, mas aos poucos foi me tornando um deles. Decidiram que a cada etapa mais alta alcançada por um dos seus patrulheiros, seria trançado em mim um cordão fino de pelica. Vermelho para quem conquistasse os cordões de eficiência e azul para os possuidores do Liz de Ouro. Para dizer a verdade, não tivemos muitos. Cordões foram vinte e Liz de Ouro só quinze. Mas quem chegava sabia que ali tinham passados grandes escoteiros.

      Nem tudo foi alegria nestes meus trinta e cinco anos de vida. O oitavo monitor da patrulha não era muito condescendente comigo. Deixava-me de qualquer jeito, e olhe em um acampamento fiquei debaixo de chuva por três noites. O Totem chorou varias vezes. Estava sem a proteção. Ele o Monitor me usava como defesa de lutas com outros jovens. Não fui feito para isto. Mas o pior aconteceu em uma manhã de inverno. Ele cansado da subida na montanha, vendo que ninguém olhava me jogou despenhadeiro abaixo. Ao chegar ao destino, o chefe deu falta de mim e do totem. Ele mostrou onde tinha jogado. Procuraram-me e acharam. Ele perdeu o cargo de monitor. Seu substituto leu todo meu histórico no livro da patrulha. Lá Romildo deixou escrito como devia ser tratado. Limpeza a cada cinco meses e lustrar com um pano embebido em verniz incolor. Olhar todo o bastão para ver se não estava com machas que poderiam ser cupim. Senti-me outro. Gostei do novo Monitor.

      Já com vinte anos de vida, a tropa Titan foi acampar em uma cidade distante e o chefe conseguiu passagens gratuitas para todos. Fomos de trem. Divertíamos muito. Chegamos, eles desceram e me esqueceram! O trem partiu e eu fui com ele. Fiquei arrasado. O Totem como sempre chorava. Ele era muito sensível. Disse a ele para não se preocupar. Eu sabia que iriam atrás de nós. Um homem sentado numa poltrona ao lado me viu. Ao descer me pegou e levou com ele. Achei que nunca mais seriamos encontrados. Mas o homem foi ao chefe da Estação e explicou que os escoteiros desceram na estação anterior e me esqueceram. Passaram um telegrama. Fui embarcado de volta. Na chegada lá estava toda a patrulha me esperando. Um grito gostoso da patrulha foi dado. Estava em casa de novo. Sempre sentia tristeza quando algum escoteiro passava para sênior ou saia do escotismo. Afeiçoava-me há todos eles facilmente.

           Um dia notaram durante um Conselho de Patrulha que o Totem estava se desbotando muito. Pudera, ele já existia a vinte e oito anos. Teve que ser substituído. Fizeram uma linda cerimônia de despedida. Vieram todos os ex-panteras que ainda moravam na cidade e passaram pela patrulha. Foi uma alegria para mim rever meus amigos de outrora. Quando colocaram o novo, olhei para o antigo. Foi colocado em uma proteção de plástico amarela, que lhe dava cor e colocado na parede principal da sede escoteira. Até hoje ornamenta a sala da sede. Fiquei muito triste, pois afinal éramos eu e ele os primeiros bastão totem a existir na tropa escoteira. Tivemos lindas reuniões. Lindos acampamentos. Viajamos muito. Conheci lindos lugares, os mais altos picos, as mais lindas planícies e os rios mais espetaculares que poderia ter conhecido. Participei de centenas de atividades ao ar livre, de competições, de encontros nacionais e regionais. Afinal sou um privilegiado. Era apenas um galho de goiabeira e me transformei em um símbolo. O novo Totem era lindo. Ele sabia disso. Mostrava-se grandioso, magnífico. Tornou-se depois um grande e bom amigo. Ficamos irmãos em pouco tempo. Nosso maior orgulho foi quando Os Panteras foram em um jamboree.

          Uma apoteose. Milhares de escoteiros. Centenas de patrulhas. Conheci bastão totem de todos os tipos. Mas eu e o Totem sorriamos. Sabíamos que éramos da Pantera.  Tínhamos orgulho. O dia mais triste em minha vida foi quando Romildo faleceu. Estava novo ainda. Trinta e dois anos. Diziam que tinha câncer. Não sei o que é isso. A patrulha compareceu em peso nas suas exéquias. Centenas de ex-escoteiros também estavam presentes. Não choravam se sentiam orgulhosos de Romildo. O meu criador, meu pai, meu grande amigo. Os anos passaram. A tropa firme. Houve épocas difíceis. Um chefe que não tinha muita experiência. Os Panteras ficaram reduzidos a três. Mas eram fortes ainda. Difícil competir com outras, pois era uma norma não escrita que não se empresta escoteiro de uma patrulha para outra. Na falta os presentes tem de se desdobrar. Em todos estes anos, não tenho certeza, acredito que mais de cento e oitenta escoteiros passaram pela Pantera. Tivemos dias bons, dias ruins, reuniões que marcaram época e reuniões que deixaram saudades.

        Sempre aos sábados recebíamos visitas de antigos patrulheiros da pantera. Eram sempre bem recebidos. Sabíamos os nomes de todos. Suas idades, seus endereços. E a cada aniversário da patrulha, pois sempre celebrávamos muitos deles compareciam a sede. Era maravilhoso ver todos juntos tentando segurar em mim e dar o nosso grito de patrulha. Seniores, pioneiros, escotistas e vários ex-escoteiros. Dois deles que conosco começaram, agora com seus quarenta e oito anos e o melhor, com seus filhos. Mas meu dia chegou. Estava envelhecendo. Estava na hora de aposentar. Como dizem na gíria – hora de passar o bastão.  Poderia ter continuado por mais alguns anos. Mas não sei se ia dar conta nas duras lidas de um acampamento. Todos receavam que pudesse quebrar rachar e ninguém queria me ver assim. Ravin o novo monitor foi quem cuidou de tudo. Foi até uma goiabeira, olhou para o céu, e escolheu um galho que se parecesse comigo. Estava escrito no livro da patrulha como fui preparado. Romildo escreveu tudo que fez. Ravin sabia como fazer.

       Retiraram o totem e colocaram no bastão novo. O meu amigo do passado foi retirado da parede e voltou novamente a ser meu companheiro. Mantiveram em mim as marcas de todos que foram Liz de Ouro, e os que receberam os Cordões de Eficiências. No novo mantiveram tudo que estava colocado em mim. Fizeram uma réplica. A cerimônia da troca foi feita a noite. Estávamos fora da cidade. A tropa fez um circulo. Eu participei pela primeira vez com todas as patrulhas da tropa. Recebiam-me em saudação pelo monitor, davam o grito de origem e depois o da Pantera. Colocaram-me em pé, e todos um a um passaram em minha frente e deram o Sempre Alerta. Marcou-me meu amigo. Marcou-me. Se fosse gente teria chorado. Mas o pior era que eu achava que era gente. Que era um escoteiro e uma pequena gota d’água correu pelo meu corpo de madeira. Não sabia se era uma lágrima. Mas nunca mais esqueci aquela cerimônia. Todos os monitores, exceto Romildo estavam lá. Eles no final ficaram na minha frente e um por um dizia do seu tempo ao meu lado e das aventuras que juntos passamos. Quanta emoção.

      Hoje, estou colocado na parede da sede. Vejo todos entrando e saindo. Ainda sou um bastão escoteiro. Tenho orgulho de ter sido e sempre serei para a Patrulha Pantera o seu símbolo. Os meus sentimentos nunca serão de altivez. Não.  Eu sei que o passado e as lembranças irão permanecer para sempre. Não ligarei para o silêncio nos dias sem reuniões, ou o som do grito dos Panteras ao longe, pois eu vou lembrar-me de tudo. E se possível vou transformar o meu passado em algo, que no futuro será sempre bom e gostoso de lembrar. Principalmente nosso grito de patrulha. Feito pelos primeiros panteras, a trinta e cinco anos atrás:

“Hei pantera! Sabemos do seu grito, do seu rugido, da sua força. Sabemos que é capaz de manter a união, perseverança. Sabemos que você sabe lutar, vencer, viver, e sua fé une aqueles em sua volta. Pantera Negra patrulha do meu coração!”

Lema da Patrulha Pantera

domingo, 17 de maio de 2015

O despertar para a vida da Tropa Escoteira Kerexu.


Lendas Escoteiras.
O despertar para a vida da Tropa Escoteira Kerexu.

             J. Silva era bom ouvinte. Aprendeu com seu pai que um simples olhar dava para entender tudo o que se passava com ele. Era calmo, honesto e tinha o mais importante que considerava em sua vida. Honra! Dela não abria mão. Sua honra era a sua identidade, documento que lhe abre passagem para trilhar qualquer caminho do mundo. É um documento para toda a vida. Um bem imaterial incomparável, insubstituível. Nesta sexta feira J. Silva estava cansado, pensava em deixar para segunda a estante que prometeu a dona Naná. Mas ele prometeu e sua palavra para ele tinha enorme valor. Olhou de soslaio quando o Padre Jerry adentrou na sua marcenaria. Fazia seis anos que seu pai fora para o céu e ele prometeu não vender e nem fechar a marcenaria. Não era o que sonhava, pensava em ir para a capital e lá entrar em uma faculdade. Mas sonhos precisam de tempo para se realizar. O Padre Jerry foi direto ao assunto que o levava ali – J. Silva, o Conselho Paroquial aprovou em sua última reunião, o início de um Grupo Escoteiro aqui na cidade. Já fizeram varias reuniões e agora busca entre nossos cidadãos os que poderiam assumir como chefes.

               J. Silva calado e calado ficou. Não demonstrou surpresa do assunto do Padre. – Olhe, continuou o Padre Jerry, ficamos sabendo que você já foi escoteiro. Um antigo morador de Monte Mor onde você nasceu, disse que lá havia um grupo e você ficou por muitos anos! – J. Silva sorriu de leve. Tempos idos, belos tempos pensou. O Padre Jerry começou a ficar incomodado com o silêncio dele. – Afinal, você gostaria de conversar sobre isto? Perguntou o Padre. – J. Silva se assentou em um banquinho e deu sua cadeira para o Padre não sem antes limpar a poeira da madeira. – Padre – Disse ele, o senhor sabe que não frequento a igreja, na verdade sou espiritualista. Nada contra a religião de ninguém, todas elas têm o caminho de Deus. Pense nisto antes de insistir no convite. Fui Escoteiro por seis anos e se um dia voltasse seria para fazer o escotismo que aprendi. – O Padre sorriu. – Vamos conversar melhor na reunião deste sábado as nove na paróquia. Você aceita nosso convite?

              J. Silva fechou a marcenaria e foi para casa. Morava sozinho. Tinha 25 anos e poucos amigos. Em Rio Corrente quando seus pais mudaram para ali ele se sentiu sozinho. Tinha dezoito anos e muitos planos. Todos deram errado. Há seis meses ficou noivo de Rosinha e achava que ao lado dela teria uma vida feliz. Nesta noite mesmo conversou com ela. Disse o que pensava. Rosinha sorriu e disse: - Você decide J. Silva, se acha que vai lhe dar alegria entre se não agradeça e continue sua vida. No sábado as nove em ponto ele estava lá. Nem todos haviam chegado. Pontualidade escoteira ali começa mal. Só às nove e meia à reunião começou. Doutor Bartomeu Presidente da Associação dos Lojistas falou por muito tempo. Sorria o tempo todo. Para ele o escotismo seria uma festa. Milhares de Escoteiros correndo pela cidade, limpando jardins, pintando e lavando monumentos, eles comprariam uma grande fanfarra, os desfiles seriam fantásticos. Enfim ele queria começar logo, fazer a promessa de todos no adro da Paróquia. Que festa! – ele dizia. A população em peso! Os vereadores já prometeram um decreto, o prefeito uma verba. Seria o maior acontecimento de todos os tempos que Rio Corrente já teve.

               J. Silva não disse nada. Parecia que na reunião ele já estava contratado e deveria obedecer as ordens da diretoria. O Pior é que havia um dirigente do distrito presente para dar a Autorização Provisória e concordou com tudo. No final vieram cumprimentá-lo e J. Silva falou baixinho para o Padre Jerry. – Desculpe padre, mas não posso aceitar. O Padre surpreso quis saber o porquê. Podemos conversar outro dia? O tema é longo e eu não posso mudar minhas convicções. O Padre o convidou para uma conversa no dia seguinte. J. Silva não era de falar muito. Ele sabia o que era escotismo, como devia ser. No Salão Paroquial ele o Padre Jerry conversaram por horas. Foi difícil para J. Silva falar tanto. – Ele aceitaria dentro do método escoteiro. Ele não iria fazer festa, não iria comandar tantos mil Escoteiros. Seriam apenas oito no inicio e 28 a 32 quatro meses depois. Ele escolheria os oito. Futuros Monitores lideres, iria prepará-los, adestrá-los e então quando estivessem prontos chamariam os demais meninos inscritos por ordem de inscrição.

               O Padre Jerry arregalou os olhos. Entendeu tudo que J. Silva explicou. Não existe educação em massa Padre. A educação tem de ser para cada indivíduo em especial. Seis dias depois o Padre Jerry voltou a sua marcenaria. – J. Silva, a diretoria em peso pediu demissão. Não concordavam, queriam uma festa, uma promessa de mil meninos jurando a bandeira. Você será nosso mentor, você dará as diretrizes para todas as sessões. Quando começamos? J. Silva riu. Mas aceitou o desafio. Nova diretoria foi eleita. Pessoas que entendiam de educação e formação. Pela primeira vez J. Silva sorriu e arregaçou as mangas. Rosinha deu todo apoio. Os oito jovens se tornaram seus amigos para sempre. Seriam os monitores e subs monitores. J. Silva explicou a eles que seriam o baluarte da tropa. Em um acampamento à noite em uma conversa ao pé do foto, os meninos Escoteiros escolheram em votação individual o nome da nova tropa – Kerexu  que significava em Guarani Lua crescente. Deixaram os nomes das patrulhas quando estivessem todos. Aí sim a patrulha poderia sugerir e votar no nome que gostassem. O grito foi da mesma maneira. Tudo democraticamente.

                 Em fins de setembro, os oito meninos fizeram o juramento a bandeira. Pais foram convidados, o Padre Jerry sorria, a diretoria participou. Houve sim uma festa, uma mesa farta de comes e bebes festejando o nascer de uma nova era, um novo grupo uma nova tropa. O Padre sentiu um orgulho próprio daqueles oitos jovens já tão pequerruchos elevados à líder de patrulha. Mas ele tinha ouvido de J. Silva que eram lideres para liderarem e serem liderados. Seriam o irmão mais vivido que os demais. J. Silva estava orgulhoso, agora sim teremos um Grupo Escoteiro que sabe onde pisa. Sem desmerecer a ninguém a festa é deles, dos jovens promessados. O orgulho de ser mais um na grande fraternidade mundial eram marcantes. J. Silva sabia o que estava fazendo. Sabia que ele não era o único, todos ali tinham direitos e deveres. Nada seria feito sem o consentimento deles e nenhum programa deixaria de ter a participação de todos.


                     Passaram-se cinquenta anos. J. Silva com seus setenta e três nos finais de semana ficava em sua varanda conversando com Rosinha e esperando chegar seus dois filhos homens já casados e que iam visitá-lo toda semana. Netinho ainda era Chefe Escoteiro. O foi por todo o tempo da sua juventude e nunca abandonou. Waltinho quando adulto não quis continuar. J. Silva sabia que o escotismo não foi feito para formar chefes, foi feito para formar cidadãos dignos  na sua trilha perfeita que é a lei e a promessa. Que respeitem suas convicções religiosas, que aprendessem que honra e palavra não são simples palavras. È algum que se aprende e levar dentro do peito e na mente por toda a vida. Não era mais Chefe de tropa. Agora só um Velho Chefe Escoteiro. Ia ao Grupo Escoteiro vez ou outra, se orgulhava das três Alcateias, das três tropas, das duas tropas seniores e do Clã pioneiro.  Sorria orgulhoso com as moças que vieram dar nova fisionomia ao escotismo. Bem vindas. Assim é a vida Escoteira, saber começar com poucos para ter um futuro promissor!

sábado, 16 de maio de 2015

Os heróis não tem idade.


Lendas escoteiras.
Os heróis não tem idade.

                    Mariel não sabia mais o que fazer. Tentou de tudo e nunca foi sequer ouvida pelos seus pais. Mariel tinha um sonho, dizem que meninas de sete anos não sonham, mas não é verdade. Podia até ser um sonho novo que substituiu a boneca Modelmuse 2013. Seus pais diziam que era muito cara e ela estava crescendo muito depressa. – O que você quer de Papai Noel perguntou seu pai? Ela abaixou a cabeça e disse – Quero ser escoteira! Ela já sabia a resposta. Desde o dia que pediu para participar que seu pai foi contra. Sua mãe também. – Nem pensar, diziam. – Não vou deixar você ir para o mato, dormir na barraca, pode aparecer uma cobra ou um bicho qualquer. E se forem para longe? Não sabe que sumiu um Escoteiro no Pico do Roncador e até hoje ele não apareceu? – Agora eles perguntavam o que ela queria de natal pensando que ela mudou de ideia. Nunca há deixariam entrar naquela turma. Eles eram esquisitos, vestiam um uniforme e se achavam os tais. Ninguém sabia, mas o Pai de Mariel quando jovem queria ser um e não foi. Motivos? Ele nunca contou.

                      Mariel em seu pequeno computador leu sobre tudo o que era os Escoteiros, o que eles faziam, leu as histórias dos acampamentos, aprendeu as provas e se ela entrasse hoje já sabia de tudo. Havia meses que ela insistia com seus pais e eles sempre negando. Chegaram ao ponto de dizer que se ela falasse mais no assunto eles a poriam de castigo. Sua mãe foi mais amiga, explicou para ela que ela era nova, eles não conheciam os responsáveis e se alguém a raptasse? Afinal eles moravam em um bairro nobre, seu pai era Presidente de uma Grande Empresa e ela seria presa fácil para sequestradores. Dizer para sua mãe que havia outras crianças iguais a ela não adiantava. Ela sempre dizia que os pais delas eram irresponsáveis.

                     Uma tarde de sábado sua mãe foi com seu pai ao Mercado fazer compras. Dona Nana a cozinheira ficou responsável por ela. Mariel não perdeu tempo. Que seja o que Deus quiser pensou. Sei que é errado e estou desobedecendo meus pais, mas tenho que ir - pensou. Se pelo menos eu pudesse ver o que eles estavam fazendo já seria uma alegria para mim. Pé ante pé abriu a porta da Mansão e passou sorrateiramente pela portaria do Condomínio. Sabia que não era perto. Ficava a duas quadras do seu colégio. Foram mais de uma hora a pé. Ela não sabia pegar ônibus. Não foi fácil. Com seus sete anos ela era uma menina frágil. Seus pais não deixavam nem ela participar de atividades recreativas mais pesadas no colégio. Chegou ao Grupo Escoteiro bem na hora que estavam hasteando a bandeira. Ela ficou de longe olhando. Que belo espetáculo! Seus olhos se encheram de lagrimas. Era bonito demais. E os lobinhos e lobinhas correndo para formar? Que ordem, que disciplina. Ela já sabia que iriam fazer do Grande Uivo. Quem dera eu fosse uma delas. Sei tudo de cor! Disse.

                   Esqueceu-se das horas. Quando viu estava escurecendo. Ficou olhando para eles até o final. Correu rua fora e quase foi atropelada. Chegou a sua casa já noite escura. Na porta carros de policia e de parentes. Entrou pelos fundos. – Quem foi papai? Ela perguntou. – Meu Deus! Você está aqui. A mãe e o pai correram para abraçá-la. Eles choravam de emoção. Pensavam que tinha sido raptada. Mariel sabia que o lobinho diz sempre a verdade e contou tudo para eles. Contou com lágrimas nos olhos. Sabia que o castigo viria. E veio mesmo. Mais de dois meses sem computador e sem TV. Mariel não se incomodou. Sim ficou chateada por ter feito tudo sem avisar, mas sabia que nunca eles deixariam ir. Todos os meses do castigo ela não parava de lembrar-se do que viu e sentiu. Ah! Se fosse verdade e eu fosse um deles sonhava.

                       Paolo, Billy e Eddy Mário iam para a reunião dos seniores. Todos eles antigos no grupo. Foram lobinhos e agora estavam se preparando para conseguir o Escoteiro da Pátria. Eram amigos desde a Tropa Escoteira. Uma amizade que perdurou por anos. Pararam no farol na esquina da Rua dos Tamoios com a Avenida Campos Gerais. Esperou o farol abrir. Era um local perigoso e já ouve muitas batidas. Da avenida viram quando um Audi em disparada não obedeceu ao sinal e avançou a toda velocidade. Da Rua dos Tamoios um Utilitário azul da Toyota em velocidade normal viu o farol aberto e entrou. A batida foi forte. Uma verdadeira explosão. O Audi ficou completamente destruído. O Toyota rodopiou sobre si mesmo e quando parou uma pequena explosão no motor. O fogo começou. Não havia o que discutir e nem pensar. Os três correram para o Toyota que pegava fogo. O Audi não estava em chamas. Paolo com se bastão quebrou o vidro da porta do motorista e tentou tirá-lo. Não conseguiu.

                          Nada é impossível para escoteiros. Eles não deixariam o homem morrer. Alguém gritou da calçada que o Toyota ia explodir. Corram daí se querem viver! Gritaram. Billy pegou o bastão e foi para a outra porta. Quebrou o vidro e passou por ele, pois a porta estava emperrada. Cortou o cinto que estava preso com sua faca. Paolo e Eddy do outro lado arrastaram o homem para fora. O fogo aumentou. Billy sentiu seu uniforme pegando fogo. Pulou para fora do carro e se jogou ao chão rolando de um lado para outro. Conseguiu apagar, mas seu corpo teve diversas queimaduras. A Toyota explodiu a seguir. Graças a Deus ninguém morreu. O socorro chegou em seguida. O homem da Toyota estava desmaiado. No hospital Billy ficou internado por três semanas e saiu direto para a reunião de tropa. Sentia uma falta tremenda. Nunca faltou. Que chovesse canivete, mas ele estava lá na sua Patrulha Pico da Neblina.

                       Quando Billy chegou uma salva de palmas e todos correram para abraçá-lo e ele dizendo que não. As queimaduras não haviam sarado ainda. Aceitou aperto de mão, mas fez questão de dizer que ele e os amigos fizeram o que era certo. Todos eles a sua maneira agiram como Escoteiros. A formatura estava em andamento. Billy tomou seu lugar na patrulha. Notou que chegaram um homem, uma mulher e uma menina pequena e frágil. Eles tomaram lugar na bandeira. Após a cerimonia o homem pediu a palavra. Ele era a vitima do Toyota. Ele chorava. Quase não conseguia falar. Ainda não conseguia andar direito, pois sofrera uma fratura no braço e na perna. Foi até onde Billy, Paolo e Eddy estavam e lhes deu um grande abraço. – Nunca vou me esquecer de vocês! Ele disse chorando. Eu pensava que Escoteiros eram uma turma de arruaceiros, de jovens sem ter uma forma de vida e me enganei. Por anos neguei que minha filha fosse uma, pois ela sempre o desejou.


          Mariel mudou. Agora era um lobinha alegre e cheia de vida. Como era bom saber que seus pais também ajudavam o Grupo Escoteiro. Mariel no final do primeiro dia de reunião se ajoelhou quando os lobinhos e lobinhas faziam o Grande Uivo e mesmo sabendo que ela só iria participar depois da promessa, Mariel rezou. – Obrigado meu Deus! Consegui! Meu sonho se concretizou. – Todos olharam para ela espantados. Ela levantou, sorriu e gritou bem alto – “Melhor Possível”! Agora sou uma lobinha, e prometo a mim mesma que serei escoteira por toda a vida.