Histórias e contos escoteiros.

Histórias e contos escoteiros.
Feitas para você se divertir!

quinta-feira, 30 de abril de 2015

As sombras de um destino.


Lendas Escoteiras.
As sombras de um destino.

            Chico Preto morava em baixo do Viaduto Monterrey. Alguém perguntou para ele se ele sabia o que era Monterrey. Chico Preto não sabia. Achou que podia ser um famoso brasileiro do qual nunca ouviu falar. Tamanduá seu amigo sorrindo lhe disse: Chico, Monterrey era a capital de um país chamado México! – Não era, mas Chico Preto deu de ombros e sorriu para seu amigo. Com 32 anos nas costas Chico era um ingênuo. Não lembrava porque morava ali, muitos o chamavam de sem teto, mas ora bolas, ele tinha um teto, o viaduto era sua casa seu lar. Ganhou de uma moça da prefeitura uma carrocinha. Era seu pedaço de chão. Rodava bairros, ruas e todos lhe davam um pouco do seu lixo especial. Chico Preto sorria, ajoelhava e dizia: Dona, que Deus more sempre em seu coração. Chico Preto tinha um sonho, ele sorria e sonhava mesmo sabendo que nunca iria se realizar. Ele queria ser Chefe Escoteiro, ser como o Doutor Jonny no seu uniforme novinho, fazendo a meninada correr prá todo lado. Todo sábado Chico Preto com sua carroça ia correndo até o Colégio Santo Ângelo. Bom demais. Ficava lá, olhando, sorrindo e pensando que um dia poderia ser um deles.

           Ralph Nelson era Escoteiro. Um escoteirinho de nada. Pequeno magro, mas que belo sorriso ele tinha. Seus amigos e conhecidos o admiravam pelo sorriso. Sua mãe sempre lhe dizia que não existe problema que não possa ser solucionado pela paciência. Cada dia que amanhece assemelha-se a uma página em branco, na qual gravamos os nossos pensamentos, ações e atitudes. Na essência, cada dia é a preparação de nosso próprio amanhã. Ralph acreditava demais em sua mãe. Não eram ricos, mas remediados. Conseguiu uma bolsa no Colégio Santo Ângelo pelo seu enorme saber. Ser lobinho foi um pulo. Todos o adoravam pela sua ingenuidade, pela facilidade em fazer amigos e pelo seu belo sorriso. Ele dizia sempre para si que devia sempre deixar um pouco de alegria por onde passasse. Na Patrulha Esquilo, era bombeiro lenhador. Adorava acampar. Não perdia uma reunião e era o primeiro a chegar e o último a sair. As palavras de sua mãe não lhe saiam da mente: - Meu filho a caridade é um exercício espiritual... Quem pratica o bem, coloca em movimento as forças da alma. Um dia Ralph notou um homem pobre, negro, aboletado no muro do Colégio a olhar para eles e sorrir, Ralph pensou: - Que belo sorriso!

                     Chefe Lontra, ou melhor, Doutor Jonny era aristocrático. Sempre foi Escoteiro, mas mantinha seu porte altivo sabedor de sua importância. Conversava, mas sem se expor demais. De família rica e importante na cidade aprendeu desde pequeno a não se misturar com a plebe, e nunca foi um homem bom com os simples, os pobres e os remediados.  Aprendeu que em um dia de crise, não devia se perturbar seguir em frente, e se possivel servir e orar esperando que suceda o melhor. Havia mais nesta frase que dizia: Queixas, gritos e mágoas são golpes em ti mesmo. Silencia e abençoa, a verdade tem voz. Mas ele só dizia a primeira parte. Achava que como Chefe era um bom cristão. Formou-se em Medicina e como bom clinico tinha fama entre os abastados. Nunca deu uma consulta de graça e os que o procuram pagavam com alegria seus conselhos. Tinha bons contatos com a alta cúpula Escoteira. Fora convidado muitas vezes para interagir com eles ou mesmo ser um deles. A falta de tempo o impedia. Já tinha conquistado a Insígnia e se achava satisfeito com sua tarefa atual.

                 Dizem os historiadores que a tragédia nunca foi bem explicada. Ralph o Escoteiro feliz fez amizade com Chico Preto, se tornaram bons amigos. Ensinou a ele as Leis Escoteiras e Chico decorou. Ensinou sinais de pista, nós e orientação. Disse que um dia iria tomar a sua promessa. Chico Preto se sentia o homem mais feliz do mundo ali na companhia daquele escoteirinho a quem passou a amar como um amigo fiel que nunca teve.  Pensou para sim mesmo que era hora de largar qualquer sombra do passado no chão do tempo, qual a árvore que lança de si as folhas mortas. Iria ser outro. Iria estudar, ser alguém e com a ajuda de Ralph seria um Chefe Escoteiro. Afinal aquela frase não o abençoava? – Infelizmente a felicidade dura pouco e cada um tem de viver seu destino. Completando seu pensamento que Deus permita a todos serem como quiserem, e a mim como devo ser.

                Chefe Lontra no seu Mustang vermelho estava indo para ver sua noiva Isadora. Ele não sabia se amava aquela mulher. Mas ela lhe fazia bem e lhe dava paz e alegria. A sabedoria superior tolera, a inferior julga; a superior perdoa, a inferior condena. Tem coisas que o coração só fala para quem sabe escutar! Ele não acreditava no que via na Rua do Perdão. – Sentado na calçada Ralph e aquele pobretão! Como o chamavam mesmo? Chico Preto um sem teto sem eira e nem beira. Isto não podia acontecer. Um rancor enorme em seu coração. Um Escoteiro puro com alma de criança sendo seduzido por um negro bandido e sujo! Ele nem se lembrou das lindas palavras que um dia ouviu: - Perdoa agora, hoje e amanhã, incondicionalmente. Recorda que todas as criaturas trazem consigo as imperfeições e fraquezas que lhe são peculiares, tanto quanto, ainda desajustados, trazemos também as nossas. Não ia interferir. Não ia sujar suas mãos naquele negro imundo. Ligou para Belzebu. Ele lhe devia favores e sabia com fazer.
               
                 Que eu não perca a vontade de doar este enorme amor que existe em meu coração, mesmo sabendo que muitas vezes ele será submetido a provas e até rejeitado. Chico Preto sorria pensando que amar a todos era o mais sublime dos artigos Escoteiros. Sonhava em fazer uma promessa. Iria prometer mesmo com uma vontade enorme de doar seu coração a toda à fraternidade Escoteira.  Ele aprendeu que ninguém quer saber o que fomos o que possuíamos que cargo ocupávamos no mundo; o que conta é a luz que cada um já tenha conseguido fazer brilhar em si mesmo. Foram cinco estampidos. Todos atingiram seu alvo. O coração de Chico Preto. Ele sorrindo caiu no asfalto ensanguentado. Ele sabia que tinha morrido. O que viu não o assustou. O céu azul, nuvens lindas indo em sua direção. A canção da Despedida que Ralph um dia ensinou a ele era cantada maravilhosamente por muitos meninos e meninas Escoteiras. Alguém de Barbas Brancas lhe deu a mão e subiram aos céus para o reino de Jesus.

                  A história conta que Ralph nunca mais sorriu. Só voltou a sorrir no dia que foi encontrar Chico Preto em uma estrela cadente no céu. Doutor Jonny dizem morreu de desgosto. Não pela morte de Chico Preto, mas pela tristeza de Ralph. Viu seu escoteirinho definhar até que um dia partiu deste mundo e pela primeira vez sua mãe, seus amigos de patrulha e todos do Grupo Escoteiro o viram sorrir. Nada como terminar dizendo: - Gostaria de dizer para você que viva como quem sabe que vai morrer um dia, e que morra como quem soube viver direito. A caridade é um exercício espiritual... Quem pratica o bem, coloca em movimento as forças da alma.


Nota – Muitas das frases aqui citadas foram escritas por Chico Xavier.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Era uma vez... Uma cidade chamada Esperança.



Lendas Escoteiras.
Era uma vez... Uma cidade chamada Esperança.

A Esperança não murcha, ela não cansa,
Também como ela não sucumbe a Crença,
Vão-se sonhos nas asas da Descrença,
Voltam sonhos nas asas da Esperança.

              Contam que ela surgiu pela passagem de uma Bandeira. Alguns afirmam que foi a de Borba Gato. Ele um bandeirante paulista aprendeu com o sogro Fernão Dias Pais. Faleceu em 1718, portanto a Cidade de Esperança é bem antiga. No Museu Histórico situado na Praça Santo Antonio, na porta tem uma placa que diz: - Não há nada impossível, pois os sonhos de ontem são as esperanças de hoje e podem se converter em realidade amanhã! Esperança não tinha nada especial. Era uma cidade grande como muitas existentes neste enorme Brasil. Trens, ônibus, carros cruzavam suas ruas todas as horas do dia e da noite. Se algum dia for visitar Esperança, tente o ônibus “Vale do Sorriso” e no final você vai estar na mais bela favela que existe em todo o mundo. Bem bela favela é um modo de dizer. Ela está cercada por bairros nobres, O governador tem uma residência de verão próximo a Vila do Amor. O Prefeito mora em uma mansão no Bairro Jardim de Versalhes.

                Do alto da favela ainda se avistava a Vila Paris, o Parque dos Príncipes e o Lago dos Sonhos. Se você um dia for até lá, tente encontrar uma entrada na favela onde tem uma placa escrita: “Onde estiver, seja lá como for, tenha fé porque até no lixão nasce uma flor”. Siga em frente por cem metros e tem uma viela pequena, onde cabem apenas duas pessoas. Siga por ela até o final. Observe bem e verás um barraco pequeno, folhas de taipa, sem pintura e uma porta pequena onde um homem alto tem de abaixar para passar. Ali é a morada de Monteiro Lobato. Jardel e Neném seus pais queriam um nome pomposo. Queria mostrar a todos na favela que seu filho seria alguém. Nada de extraordinário. Todos os pais sonham pelo futuro dos filhos. Aos dois anos Monteiro Lobato tentou andar e não conseguia. O Doutor Paulo Antonio do pequeno ambulatório da favela diagnosticou uma “Sinovite Vilonodular” – Seu filho precisa amputar a perna direita! – ele disse. Dona Neném não aceitou. Ela tinha fé, era devota de Santo Agostinho. - Ele iria curar seu filho eu tenho certeza, falou para Jardel que não era assim tão crente como ela.

                  Nunca mais voltaram ao postinho de saúde. Um ano, quatro, oito doze e Monteiro Lobato se arrastava pelas vielas até encontrar a escola Dom Pastor. Uma dor incrível na perna, mas ele não demonstrava a ninguém. Até mesmo sua mãe e seu pai não sabiam do seu sofrimento. Ele dizia para si mesmo que a esperança não era sua cidade somente, a esperança era o sonho de se manter acordado e acreditar. Naquele sábado ele foi até sua escola, pois iriam fazer um campeonato de diversas modalidades de esportes e ele gostava de ver. Era a hora que sua dor diminuía. Sentou na arquibancada pequena de pedra, e alguns minutos depois sentou um menino Escoteiro todo sorridente em seu uniforme. Ele já os conhecia quando andavam pela rua e sabia que seu habitat era no Colégio Francisco Delgado. Um colégio só para ricos. Ser Escoteiro lá só sendo matriculado na escola. Ele sabia que nunca teria vez. Não era rico, nunca seria e seus sonhos de Escoteiro menino nunca ia se realizar. Muitas vezes Monteiro Lobato pensou em ser um, mas dos três grupos próximos nenhum o aceitaria. Afinal era pobre e nunca poderia pagar nada. Nem fazer seu uniforme – Disto ele sabia.

                    Dizem que o pessimista se queixa do vento, o otimista espera que ele mude e o realista ajusta as velas. Assim era Monteiro Lobato, sempre com suas velas ajustadas. O menino Escoteiro sentado ao seu lado gritava e vibrava com seu amigo que devia ser Escoteiro e estava participando de uma corrida de revezamento. Monteiro Lobato olhava para ele e sorria também. Sorrisos são assim, contagiantes e ele sabia que poucos sorriam perto ou para ele. Acabou a corrida e o Menino Escoteiro desceu correndo as escadas para abraçar seu companheiro. Escorregou em um degrau e bateu com sua cabeça em uma saliência. Muito sangue, muita correria, ambulância chegando e partindo. Os ânimos calmos e um menino apontou para ele: -  Eu vi, disse – O favelado deu nele uma rasteira, por isto caiu! Monteiro Lobato se assustou. Um homem alto o pegou pela camisa e o jogou longe. Caiu em cima de sua perna. Que dor terrível sentiu. Gritou e implorou para que o ajudassem. Ninguém se aproximou.

                    Todos partiram e deixaram Monteiro Lobato desmaiado sem nenhum socorro. Já escurecendo seus pais chegaram e de novo o levaram ao Postinho de Saúde. – Desta vez não tem jeito dona Neném. Vou levá-lo a um hospital e ver se alguém pode amputar sua perna. Os olhos de Monteiro lobato se encheram de lágrimas. Ele pensou que a esperança dos seus dias de solidão, a angústia dos seus instantes de dúvida, a certeza nos momentos de fé, era melhor deixara a tristeza e trazer a esperança em seu lugar. Quando a ambulância estava saído, o menino Escoteiro Chegou. Sei pai não queria, mas ele tanto insistiu que foram procurá-lo. Dizem que a esperança tem duas filhas lindas, a indignação e a coragem; a indignação nos ensina a não aceitar as coisas como estão; a coragem, a mudá-las. O levaram para o melhor hospital da cidade. Foi operado e não perdeu a perna. Três meses depois voltou ao seu barraco. Lá o esperava o menino Escoteiro e seus amigos de patrulha.


                  Monteiro Lobato nunca deixou a favela. Mas jovens meninos Escoteiros o ajudaram por toda sua vida. Nunca sonhou em ser Escoteiro e foi. Nunca sonhou em formar e se formou. A vida passa e nós acompanhamos seus passos. Não seria melhor dizem que o tempo passa tão depressa, e quando nos assustamos vemos que o tempo já passou? Diga o que você pensa com esperança. Pense no que você faz com fé. Faça o que você deve fazer com amor e tudo vai dar certo! – Ele nunca esqueceu as palavras de seu pai um simples faxineiro que disse para ele – “Quando tudo nos parece dar errado acontecem coisas boas que não teriam acontecido se tudo tivesse dado certo”. Monteiro Lobato nunca se achou diferente, até hoje ainda manca ao andar. Não é empecilho para ele. Voltou para o Postinho de Saúde e ali ajuda a todo mundo com seus conhecimentos médicos. Já não é mais um Escoteiro andante, mas se considera um Escoteiro de coração. Escotismo é assim, acreditar no que faz esquecer as dificuldades, estar sempre alerta o tempo todo, ajudar e sentir a alegria de ter o amor Escoteiro no coração!

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Quando Deus criou o Chefe Escoteiro.



Lendas escoteiras.
Quando Deus criou o Chefe Escoteiro.

                     Amanhã é dia do Escoteiro. Hoje faço uma pequena homenagem aos chefes. Afinal eles merecem, pois são verdadeiros heróis na luta para levar jovens na formação Escoteira. Já foi publicado antes, mas pode ser que muitos ainda não leram. Parabéns chefes pelo seu dia.

Deus estava no sexto dia de horas extraordinárias, quando aparece um Anjo e lhe diz: - - Estás levando muito tempo nessa criação Senhor! O que tem de tão especial esse homem?
Deus respondeu:
- Um Chefe de Escoteiro, ele terá que providenciar local para acampamento, transporte, preparar as crianças e jovens para as atividades, realizar caminhadas nas matas, pular cercas, entrar em rios e lagoas para ver se tem algum perigo. Tem que estar sempre em boa forma física, para poder acompanhar o ritmo dos escoteiros. Tem que fazer tudo isso seguindo as normas de segurança. E no acampamento a noite terá que contas história mesmo estando cansado. Também tem que possuir quatro braços, para poder ajudar a armar as barracas, fazer o fogo, levantar a tampa da panela para verificar se a comida está pronta e ainda passar a mão na cabeça do escoteiro que estiver desanimado como forma de incentivo.

O anjo olha par Deus e diz: - Quatro braços? Impossível!
Deus responde:
- Não são os quatro braços que me dão problemas e sim três pares de olhos que necessita. - Isto também lhe pedem neste modelo? – pergunta o Anjo.
- Sim, necessita de um par com raios-X, para saber se o local tem algum perigo; Necessita de um par ao lado da cabeça para que possa cuidar dos escoteiros e outro para conseguir olhar se alguém está pode se ferir durante uma atividade.

Neste momento, o Anjo diz: - Descansa e poderás trabalhar amanhã.
- Não posso – responde Deus – Eu fiz um Chefe de Escoteiro que é capaz de ensinar um jovem o caminho do sucesso, e depois do jovem alcançar o sucesso pessoal quando for adulto nunca mais irá aparecer no grupo. Ele se esquecerá do chefe, mas mesmo assim o chefe ficará feliz em saber que o jovem está no caminho certo e hoje e um pai ou mãe de família para nação. A, ao mesmo tempo, manter uma família de cinco pessoas com seu pequeno salário do seu trabalho fora do escotismo. Ele estará sempre pronto para colocar dinheiro do seu salário para realizar atividades com os jovens por ser um voluntário.

Espantado, o Anjo pergunta a Deus: - Mas Senhor, não é muita coisa para colocar em um só modelo?
Deus rapidamente responde: - Não. Não irei só acrescentar coisas, mas também irei tirar. Irei tirar seu orgulho, pois infelizmente para ser reconhecido e homenageado ele terá que estar morto. Ele também não irá precisar de compaixão: pois ao sair do velório de outro chefe, ele terá que voltar para sua missão e preparar a próxima reunião normalmente.

- Então ele será uma pessoa fria e cruel? – pergunta o Anjo.
- Claro que não responde Deus. Mesmo sendo um Chefe ele é para os jovens um irmão mais velho, ele não comanda, mas guiará pelo seu exemplo pessoal. Brincará através dos jogos ao ar livre. Simplesmente esquecerá os problemas quando estiver em atividades com os jovens será como um profissional do riso tem que esquecer os problemas e focar na sua missão que é ensinar a promessa e lei escoteira visando alcançar a cidadania, o companheirismo e o gosto pela natureza.

O anjo olha para o modelo e pergunta: - Além de tudo isso, ele poderá pensar?
- Claro que sim! – Responde Deus. Poderá no mesmo dia da instrução para crianças, adolescentes, adultos e explicar sobre a importância do escotismo para formação dos jovens e adultos.
Por fim, o Anjo olha o modelo, lhe passa os dedos pelas pálpebras, e fala para Deus: - Tem uma cicatriz, e sai água. Eu disse que estavas pondo muito nesse modelo!
- Não é água, são lágrimas… Responde Deus.
- E por que lágrimas? – Perguntou o Anjo.
Deus responde: - Por todas as emoções que carrega dentro de si… Por um jovem que não conseguiu seguir o caminho certo da cidadania e entrou no caminho das drogas e da violência… Pelo apoio que muitas das vezes não conseguiu das autoridades para realizar atividades para os jovens!
- És um gênio! – responde-lhe o Anjo.
- Deus o olha, todo sério, e diz: - Não fui eu quem lhe pus lágrimas… Ele chora porque é simplesmente um humano! Um simples Chefe Escoteiro!

PS: O conto foi adaptado do conto quando Deus criou o Policial, autor desconhecido.

domingo, 19 de abril de 2015

Melinda, eu ontem pensei em você...



Crônicas de um Velho Escoteiro
Melinda, eu ontem pensei em você...

                   Pensei mesmo, não duvides afinal você sabe que minha palavra meu caráter e minha honra nunca me deixam mentir. Eu ontem pensei em você. Você sabe, sempre digo isto, mas não é bom? Afinal lembranças são lembranças e elas estão presas no coração da gente, e nunca podem partir. As vezes que voltamos no tempo, através de um pensamento, as lembranças estão aí presentes, e isto é que nos faz nunca esquecer você. Eu mesmo já tentei muitas vezes te olvidar, não queria que me visse chorar... Por você! Mas hoje meu amor eu já desisti de tentar. Pensei até em fugir e seguir por aí. Eu fazia de tudo para não lembrar-me de você só para não sentir aquelas doídas saudades. Desculpe. Perdoe-me, mas até pensei em sumir, desaparecer, despistar, fugir. Só para não me lembrar de você. Tudo bem eu sei que sou culpado e você sabe sem nossas lembranças e esperanças somos mortos vivos pensando que ainda vivemos. Temos que andar prá frente, você mesma me disse naquele dia tão longe que já se foi, que enquanto estivemos juntos valeu por toda uma vida. Você se lembra? Eu tentei fazer uma poesia para você, linhas bem feitas, palavras bonitas. Não consegui.

                Hoje quando estava anoitecendo e a chuva começou a cair eu de novo pensei em você. Pensei no que fizemos no que andamos o que marchamos, nas belas noites enluaradas, no seu olhar de apaixonada a olhar para mim... E pelos demais. Ciúme? Eu não tinha. Não podia ter. Você nunca foi minha eu sabia disto. Você era de todos. Eu sei que o tempo passou, mas qual tempo que não passa? O tempo você sabe não pede passagem, ele não nos dá a chance de dizer não. Eu sei que amanhã é seu aniversário. Fiquei matutando que presente te dar. Mas cadê você? Eu poderia te dar o céu, mas ele é tão grande que não ia caber em você. Quem sabe abraçar um punhado de estrelas e presentar você? Liguei para os outros e poucos ainda se lembram dos belos tempos de outrora que juntos corremos pelas trilhas das montanhas a cantar o Rataplã. Eu, eles e você. Nesta última noite não dormi. Virava na cama prá lá e prá cá. Deveras impaciente. Até me sentei no escuro e pensei: - Não é a posição que ficava quando ao seu lado eu dormia só pensando em você.

                  Não há saudades que sustente, não há lembranças que aumente todo o amor que eu tinha por você. Aceitava que todos estivessem apaixonados, afinal os direitos são iguais. Sei que você nunca decidiu a quem dar seu coração. Eu sabia que era de todos e nunca foste só minha. Que saudades quando no silêncio da madrugada, em teu nome eu pensava, era uma saudade danada e ia ver se tudo estava bem com você. Sentava na grama ao seu lado, com meu olhar apaixonado eu cantava músicas românticas, me lembrava de momentos inesquecíveis, das peripécias marcadas, de uma vida que Deus nos reservou. Que coisa boa era acordar, o lusco fusco do sol saudando belos momentos, a gente sem argumentos tentar fazer você acordar. Sorria como sorri na ponte do adeus que atravessamos, e eu ainda a vejo a sorrir alma linda sorridente, momentos inesquecíveis que ficaram para sempre em todos nós. Quando penso, faço um silêncio que penetra fundo em meu coração. Eu e os outros sabíamos que você era nosso sentido da vida. Você foi nosso amor ontem, hoje amanhã e sempre.

                 Quando nasceu te chamamos de Melinda, Deus que coisa linda era chamar você. – Em frente, Melindaaa! - Nos acompanhou por toda a vida, sempre nos deu guarida por onde pusemos nossos pés. Hoje aqui sozinho, a pensar por um momento, que você minha linda carrocinha dos leopardos, que sempre nos deu alento, viajando com ou sem o vento, subindo serras sem fins. Melinda, você nunca nos decepcionou. Por onde fomos quantos caminhos cruzados e foi você, sim, foi você mesmo quem sempre nos ajudou. E quando no campo armado, você sempre ao nosso lado, com sua capa faceira, duas rodas na algibeira, mostrando ser boa Escoteira, a gente sempre pensava, que naqueles belos momentos, momentos que podiam ser infinitos, você era como uma gostosa música tocada pelos ventos. E agora eu entendo, pois isto explica tudo, só que ninguém entende. Seis jovens meninos Escoteiros, que um dia fizeram você e se apaixonaram por uma linda carrocinha verde e amarela a rodar por longas estradas da vida. Dizem que escoteiro não desiste de quem ama. Ele sabe o amor que tem, pois ser Escoteiro não exige perfeição. Você minha amiga Melinda, nossa linda carrocinha da patrulha Leopardo, nos trouxe a paz e o amor. Mas hoje com minha idade, eu sinto uma enorme saudade... De você!

Melinda! Onde está você?

sábado, 18 de abril de 2015

Um sonho de liberdade.



Conversa ao pé do fogo.
Um sonho de liberdade.

        Jacob desde pequeno sonhava em ser Escoteiro. Sua cidade Ramallah na Palestina nunca teve um Grupo Escoteiro. Eles viviam em sobressalto devido às divergências entre países e Jacob não entendia o porquê eles não davam as mãos e fossem viver em paz e como irmãos. Jacob nasceu em Flores da Cunha uma pequena cidade no interior de Pernambuco. Um dia seu pai juntou a família e partiu para a Palestina. Disse que lá era seu lugar. Seus avós nasceram lá e lutaram até a morte para serem livres. – Livres? E quem é livre? Jacob pensava. Ele mesmo tinha lido em um livro que a verdadeira liberdade é um ato puramente interior, como a verdadeira solidão: devemos aprender a sentir-nos livres até num cárcere, e a estar sozinhos até no meio da multidão. Jacob nos seus onze anos era um sonhador. Nunca imaginou viver em uma cidade onde o medo de morrer era uma constante. Medo? Mas qual palestino tinha medo? Eles sempre não diziam que dariam sua vida pela liberdade de sua terra?

      No inicio a curiosidade e o modo de vida chamou a atenção de Jacob. Viu sua mãe e sua irmã Natividad mudarem completamente. Agora viviam fechadas dentro de casa e quando saiam colocavam véus para ninguém poder reconhecê-las. Assim ele pensava. Alguns meses depois acostumou com tudo. Gente andando para qualquer lado com um fuzil no ombro e gritando palavras de morte ao usurpador. Jacob não entendia nada. Lembrava-se de sua terra onde nasceu, uma cidade cheia de paz e harmonia. Lembrava-se das histórias que seu pai contava e como ele ria quando viajava nos seus pensamentos vivendo as aventuras escoteiras de seu pai. Ele tinha sido Escoteiro. Contou que fora Monitor de patrulha, fizeram centenas de acampamentos, beberam água da fonte, nadaram contra a correnteza para pegar peixes grandes com a mão na época da piracema. Jacob com seus olhinhos miúdos não os tirava do pai. Adorava seu pai quando contava histórias de escoteiros e Jacob vibrava.

     Jacob sonhava quando chegasse a Ramallah ia ser um Escoteiro. Ele aprendeu com seu pai as leis e a promessa. Um dia seu pai lhe mostrou o uniforme e Jacob pediu humildemente ao seu pai para vesti-lo. Foi autorizado, mas só dentro de casa. Nunca na rua ou nos montes próximos. Ele tentava entender esta guerra sem fim. Seu pai lhe disse que as Terras lhes pertenciam. Era a Terra Prometida. Ia do Mar Mediterrâneo ao Rio Jordão. Havia mais de cinco milhões de judeus vivendo lá, e chamavam a terra de Israel. Outros tantos árabes que se julgavam donos da terra, que chamavam Palestina também acharam que eram os donos da terra. Diziam seus antepassados que chegaram lá primeiro. Seu pai dizia que eles lutavam pela liberdade. Dizia que para ter a liberdade teriam de lutar muito. Seria uma luta difícil, pois só se alcança quando nosso estado de consciência nos torna imune aos sofrimentos de nossa consciência. Um bom Palestino ele dizia devia ser imune aos sofrimentos, do orgulho, do ciúme e da vaidade. 

         Eleazar tinha dezenove anos. Ele era um soldado Israelense. Morava em um kibutz de nome Kfar Aza. Era bem próxima a Faixa de Gaza. Eleazar era brasileiro. Morava em Terra Nova uma cidade ao norte da capital do estado do Paraná. Nasceu lá. Tinha uma vida tranquila e feliz. Pudera, Eleazar era sênior e sem ninguém saber amava Angelina. Angelina era Guia e todos queriam ser seu príncipe encantado. Eleazar tinha conquistado o Lis de Ouro e partia agora para o Escoteiro da Pátria. Eleazar sonhava em casar com Angelina e ter sua casinha pintada de branco com muitas flores. Teriam muitos filhos também. Sonhos de menino homem que ainda não tinha abandonado a puberdade. Um dia estava com ela de mãos dadas. Levou uma pancada nas costas. Era o senhor Mujahid o Pai dela. Um homem mau. Soube que foram embora da cidade. Voltaram a sua terra na Palestina.

       Quando Eleazar fez dezoito anos procurou o Consulado de Israel. Queria ir para lá e garantiu que seria um bom soldado. Sempre foi um Escoteiro. Conhecia as técnicas de travessias, da camuflagem, de campismo e sempre fora obediente e disciplinado. Dois meses depois Eleazar foi embora para Israel. Sua mãe nunca aceitou sua ida. Seu pai calado não disse nada. Eleazar só tinha uma missão, encontrar Angelina. Ele iria atrás dela onde quer que fosse. Seu amor era grande demais para esquecer. Iria dizer ao senhor Mujahid que não tinha ódio. Ele era um Escoteiro, puro nos seus pensamentos nas suas palavras e nas suas ações. Passaram-se seis meses e nenhuma noticia de Angelina. Ele ia disfarçado de cidade em cidade na Palestina e nada. No Kibutz era bem considerado e todos o achavam um bom soldado.

       Um dia Eleazar vestiu seu uniforme Escoteiro. Gostava de vestir. Sentia-se bem com ele e sempre ia para os montes próximos e lá recordava de sua juventude, de seus sonhos do seu amor que como o vento se foi para nunca mais voltar. Ele gostava de deitar em baixo de uma Oliveira e ver as estrelas brilhando no céu. Seu instinto lhe mostrou que alguém se aproximava. Olhou com atenção. Era um menino de uniforme escoteiro. Impossível pensou, ali não tinha nenhum grupo escoteiro. Ele não sabia que era Jacob, o filho de um palestino que desobedecendo às ordens do pai subiu na montanha com uma pequena bandeira do Brasil que ele achou nas coisas do pai. Cada um viu o outro por um prisma. Um achando que encontrou um irmão Escoteiro e outro desconfiado do adulto uniformizado com um fuzil engatilhado.

           Aharon era um bom piloto.  Serviu na Força Aérea Brasileira por muitos anos. Deixou Guaratinguetá e foi para São José dos Campos como piloto de testes dos novos caças encomendados pela FAB. Gostava do que fazia e muito mais do Grupo Escoteiro Flores Vermelhas onde ajudava na Alcateia. Um dia um Major da força Aérea da Palestina disse que precisavam de bons pilotos para treinar a nova esquadrilha de caças que compraram. Seria por cinco anos e o salário era muito bom. Não titubeou e partiu. Um ano depois ele sentia muitas saudades de sua terra e de seu grupo Escoteiro. Em uma inspeção de rotina na fronteira ele estava em um Super Tucano EMB-314 da Embraer ele avistou o impossível. Dois Escoteiros se abraçando no Monte Ararat. Quem seria? Um era um Escoteiro e o outro devia ser um Chefe. Fez um voo rasante para dar as boas vindas e dar o seu sempre alerta. Uma bateria de mísseis israelenses viu a aproximação do Tucano em baixa altitude e abriu fogo.

             O Super Tucano explodiu e atingiu os dois Escoteiros que se confraternizavam naquele monte onde diziam Noé aportou sua Arca. A história termina. Cada um tinha um sonho que não se realizou. No céu uma nuvem azul e branca levou três Escoteiros cujos destinos ninguém nunca pensou que poderiam ficar juntos para o céu. Um dia quem sabe teremos liberdade suficiente para podermos decidir nosso destino conforme nossos sonhos. Todos ansiamos desde muito cedo na vida por mais liberdade. Quando ainda muito jovens, a liberdade é, para nós, essencialmente relacionada à realização de nossos desejos. Queremos fazer tudo, experimentar tudo, sem sermos tolhidos em nossos anseios de descoberta do mundo por quem quer que seja. 

Escotismo, um sonho de liberdade!

sexta-feira, 17 de abril de 2015

O misterioso chefe Jonny Hidalgo. (Uma adaptação do poema “quadrilha” de Carlos Drumond de Andrade).



Lendas Escoteiras.
O misterioso chefe Jonny Hidalgo.
(Uma adaptação do poema “quadrilha” de Carlos Drumond de Andrade).

Jonny amava  Silvana, que amava Danilo
que amava Gisele que amava Salviano que amava Dorita
que não amava ninguém.
Jonny foi para a cadeia, Silvana para o convento,
Danilo foi para o Suriname, Gisele é Escoteira da Pátria,
Salviano ficou maluco e Dorita se casou com Geninho que se tornou
Presidente do Brasil e
não tinha entrado na história.

                      Se eles eram unidos ninguém duvidava. Felizes também e todos tinham um grande amor entre sí. Diziam os pais que um dia eles iriam se casar e seriam as famílias mais felizes de Vale Encantado. Não eram muitos quem sabe um punhado de jovens que se diziam ser um batalhão. Duas patrulhas, seis moços sorridentes e cinco mocinhas sonhadoras e pelo menos duas vezes por semana se encontravam para conversar, comer um lanche, beber um refrigerante, jogar conversa fora. Afinal era uma cidade pequena, onde todos se conheciam e sabiam que muitos ali nasceram e ali iriam partir para alguma estrela quando chegasse o tempo e a hora certa. Sem contar as reuniões de sábado ou as atividades mateiras de um domingo ou feriado prolongado, a vida era preenchida para aquela galera Escoteira como uma história de faz de conta. O nome de todos não importa na história, ficarei com Jonny, Silvana, Danilo, Gisele, Salviano e Dorita. Se havia jovens seniores e guias que se orgulhavam do que eram, tira-se o chapéu para todos eles principalmente os personagens desta história.

                     Jonny chegou em um dia de céu azul a Vale do Encantado. Um amor de pessoa. Um visual alegre, um sorriso incrivelmente belo, um andar que mesmo com tudo que aconteceu foi copiado por muitos e muitos anos. Apareceu assim do nada na Tropa Senior naquele sábado de sol vermelho na reunião. Todos ficaram embasbacados. As moçoilas guias sentiram o coração batendo, os jovens seniores meio enciumados, mas a figura do Chefe era incrivelmente bela. Fez uma bela saudação Escoteira, sua voz entoou o mais lindo Sempre Alerta que a Tropa tinha ouvido. Seu porte era fenomenal. Ninguém tinha visto nada igual. Um uniforme perfeito. Um chapéu de abas largas perfeito, um lenço bem dobrado, sua camisa e calça curta com vinco era demais. O meião bem colocado conforme mandavam as normas. Não tinha medalhas, nem estrelas para dizer quanto tempo, só seu distintivo de promessa que pela cor todos entenderam que tinha tempos de uso. Foi direto a Chefe Norma e a saudou brilhantemente. Norma esposa do Chefe Jamil não cabia em sí de contente. Quase derreteu em frente aquele Chefe soberbo.

                    Apresentado a tropa pediu que todos ficassem a vontade. Perguntas mil começaram a se ouvir. De onde? A passeio? Qual Grupo? Quanto tempo? Ele respondeu a todas de maneira vaga. Entrou como lobo e nunca mais saiu. Silvana não se entusiasmou muito. Olhava para Danilo que não percebia seu olhar e olhava para Gisele. Mas ninguém sabia que naquele dia Silvana passou a morar no coração de Jonny. Foi convidado para o sarau que iriam realizar no salão nobre da escola naquela noite. Outras dezenas de moçoilas não Escoteiras acorreram para a festa. Souberam de Jonny e suspiros apaixonados eram jogados no ar. A vida depois da chegada de Jonny Hidalgo nunca mais foi à mesma em Vale Encantado. Ninguém perguntou quem era ele, sua família, qual cidade, pois suas respostas eram vagas e sem sentido. Uma semana, duas um mês e o tempo corria sem perguntar se podia parar.

                    Acampamentos, excursões belas toadas ao luar. Noites de lua cheia, de céu estrelado, de cometas riscando a plataforma do universo sabendo que nunca mais iriam voltar naquelas plagas do universo. Jonny Hidalgo era mais um sem ser de todos. Os amores vividos, os amores esquecidos para aqueles jovens Seniores e Guias sonhadoras continuavam como se ainda não houvesse vida depois da vida para sentir e viver. Só Gisele sonhava. Sem nada para fazer, o que restava a ela era lembrar de você que era apenas uma fagulha perdida entre mil. Chorar de saudades, recordar das lembranças e perguntar o porquê disso tudo. Ela queria amar e sentia que não amava, ela queria sonhar e seu sonho se perdia como as andorinhas que se escondiam no verão. Tudo era como os vagalumes brilhantes em volta da fogueira que riscavam o noturno da noite nos acampamentos inesquecíveis. O tempo sem perdoar enviou a primavera, passou pelo verão e o inverno chegou. Um vento frio soprava de norte a sul. Engastalhados em seu capotes os jovens seniores e guias não se assustavam com o amanhecer nas montanhas  de poucos graus acima de zero.

                       Chico Capeta apareceu do nada. Apenas um tiro, mas que se resvalou no cinto escoteiro de Jonny Hidalgo. Tudo foi mostrado ao vivo e a cores para o populacho de Vale Encantado. Jonny estava armado e ninguém sabia. Outro tiro e Chico Capeta foi dançar com seus irmãos no inferno. Que ouve? Por quê? Quem era Jonny Hidalgo? Ele não era o Don Juan Escoteiro que conquistou a cidade? Uma tropa inocente, meninas e meninos sonhadores, um lindo jovem intrépido que foi amado por muitos era um matador? Ninguém nunca soube. Naquela tarde um homem alto, com um bigode enorme, um chapéu Escoteiro torto e um uniforme amarrotado, um lenço mal enrolado chegou à cidade. Apeou do seu cavalo como o fazem os caubóis dos filmes famosos. Entrou na delegacia e saiu de lá com Jonny Hidalgo algemado. Amarrou as mãos de Jonny em uma corda, passou em volta da cela e montou no seu cavalo partindo sem dizer adeus. Jonny ergueu os olhos para a cidade, olhou seus amigos seniores e guias, não sorriu. O cavalo do homem alto o puxou para longe de Vale Encantado. Para onde foi ninguém sabe, ninguém viu!
                         

                    Jonny amava  Silvana, que amava Danilo que amava Gisele que amava Salviano que amava Dorita que não amava ninguém. Jonny foi para a cadeia, Silvana para o convento, Danilo foi para o Suriname, Gisele é Escoteira da Pátria,
Salviano ficou maluco e Dorita se casou com Geninho que se tornou Presidente do Brasil e que não tinha entrado na história.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Zezito Sansão... Você é um ladrão!



Lendas Escoteiras.
Zezito Sansão... Você é um ladrão!

                      Zezito Sansão, você é um ladrão! - O Delegado Paredes olhava-o com um olhar sem piedade e sem compaixão. Já não sabia mais o que fazer, pois não era e nem seria a última vez que Zezito Sansão iria parar em sua delegacia. O que fazer com este menino? Ele pensou. Olhou novamente para Zezito Sansão. Doze anos, magro, pele morena curtida por viver a maior parte de sua meninice na rua a espera de alguém para roubar. Se pudesse o colocaria por uns dias atrás das grandes, mas sabia que não podia fazer isto. Ligou para Nonato Praxedes o responsável do Conselho Tutelar. Já sabia a cara de enfado que ele faria. – Delegado! – Porque o senhor mesmo não o leva para sua casa? O senhor sabe que não tem outro jeito, disse Nonato. Não tinha mesmo. Sempre a mesma ladainha. A mãe dele dona Tiana vivia em uma cadeira de rodas, enxergava mal e o pior estava ficando surda. Conseguia aos trancos e barrancos lavar a roupa deles, passar e cozinhar, isto quando Zezito Sansão trazia algum alimento para casa.

                    O delegado Paredes o pegou pelo braço, apertou e disse: - É a última vez. Na próxima vou levar você para a capital. Lá eles sabem o que fazer com você. Dona Tiana estava acostumada. Ouviu tudo que o delegado disse. Ela sabia que também não podia fazer nada. Esperou o delegado sair e olhou com olhos rasos d’água para seu filho. Não disse nada, fez um sinal e o ele chegou mais perto. Ela o beijou no rosto. Ela sabia que se ele fosse para a capital ela iria morrer em dois dias. Não tinha o que comer e nem como comprar. Se não fosse seu filho ela já teria morrido há tempos. Chefe Enzo chegou à casa cansado. Um dia difícil no trabalho e queria um banho, jantar e descansar. Priscilla sua esposa sorriu para ele. Ao tirar a roupa no quarto deu falta de sua carteira. Onde foi que deixei? No serviço não foi, pois se lembrou de ter pago a passagem do ônibus. Refez o trajeto. Lembrou-se de esbarrar em Zezito Sansão. Poxa! Só podia ter sido ele. Conhecido ladrãozinho por todo mundo.

                  Contou para Priscilla. Vou lá a casa dele. Tem documentos que não posso perder. Era perto, três quarteirões. Ao chegar viu a porta aberta. Entrou sem bater. Iria dar uma carraspatana no menino ladrão. Na cozinha viu Zezito Sansão dar comida a sua mãe. Ela não podia mexer os braços. Ele paciente colocava uma colher de sopa em sua boca, e sorria e ela sorria também. Em cima da pequena mesa viu sua carteira. Zezito Sansão fechou a cara. Encolheu-se de medo. Muitos entraram ali e batiam nele a valer. Chefe Enzo se desarmou. A cena era demais para ele. Sabia que o menino era ladrão, mas fazer o que? Na carteira faltava dez reais. O resto estava intacto. Chefe Enzo olhou para ele, olhou para ela e viu as sombras do medo nos olhares dos dois. Sabia que não podia fazer nada. Uma ideia surgiu do nada e ele falou – Zezito Sansão quero você na reunião do Grupo Escoteiro neste sábado. As duas em ponto. Se não for vou falar para o delegado.

                    Priscilla o abraçou e disse que ele não tinha outro caminho. Se o Escoteiro é amigo de todos e faz todos os dias uma boa ação, era sua vez como Chefe fazer uma também. Mas e os resultados? Afinal era um menino ladrão. Roubou todo mundo na cidade e até mesmo o Juiz Juvenal não escapou e nem o Padre Antonino. Que seja, se ele não ajudasse quem iria ajudar? – Sábado, às duas da tarde Chefe Enzo chegou à sede. Todos parados olhando para Zezito Sansão. Ninguém sabia por que ele estava ali. Ronaldinho o Diretor Técnico veio correndo – Ele disse que foi você quem mandou, é verdade? Ele não disse nada. Não havia o que dizer. Sabia que toda a chefia não ia entender. Ele se lembrou das palavras de São Francisco de Assis: - Comece fazendo o que é necessário, depois o que é possível, e de repente você estará fazendo o impossível. Iria até as últimas consequências para ajudar Zezito Sansão o ladrão de Santa Helena.

                   Zezito Sansão sabia que ele tinha três oportunidades. Se ele roubasse três vezes seria defenestrado do grupo. Ninguém dos Escoteiros jamais o ajudariam. Nunca ninguém se entregou ao escotismo como Zezito Sansão. Um amor enorme, uma vontade de morar ali com eles, viver com eles, respirar o mesmo ar que eles diziam ser sagrado em um acampamento. Mas e sua mãe? Como iria viver? Onde iria comer? Sem perceber roubou o relógio de Monserato o monitor. Vendeu barato e comprou mantimentos para sua casa. No sábado seguinte Chefe Enzo o olhou. – Uma vez se foi Zezito. Dei um relógio para Monserato o Monitor. Você tem mais duas oportunidades. Só duas lembre-se bem. Zezito chorou muito aquele noite em sua casa. Pensou que seu amor aos Escoteiros nunca seria como estava sendo. Mas não teve jeito. Roubou uma barraca da Patrulha Tigre e não achou ninguém que a comprasse. Mesmo assim foi um roubo. Devolveu. Sabia que só teria uma só oportunidade. Ele sabia disto.

                    Chefe Enzo me olhou com os olhos cheios de lágrimas. Chefe Vado, ele nunca mais roubou. Ajoelhou aos meus pés e disse que nunca mais faria isto, mas sabia que sua mãe iria morrer. Ela não tinha o que comer! – E você Chefe Enzo, o que fez? Chamei a tropa, expliquei sem humilhar Zezito Sansão. Cada um tinha obrigação de ajudar. Por muitos anos todos os meses uma campanha do quilo se fez para Zezito Sansão. Ele entrou para a escola. A diretora queria recusar, mas a insistência minha foi grande. Responsabilizei-me. Se ele roubar eu substituo ou pago. Fã de São Francisco eu sabia que ele disse um dia que ninguém é suficientemente perfeito, que não possa aprender com o outro e, ninguém é totalmente destituído de valores que não possa ensinar algo ao seu irmão. Consegui com meu Chefe o colocar como ajudante na área de transporte. Doze anos Enzo? Não podemos. – Eu me responsabilizo e pago seu salário. Não foi preciso. Ele surpreendeu a todos.

                   Zezito Sansão nunca mais roubou. Não sei se foi o escotismo, se foi o dia que jurou a bandeira ser um homem de bem, que iria cumprir a lei, que seria um exemplo para todos e que nada é difícil quando se quer vencer. Não me considero um Chefe herói, pois não sou melhor que ninguém. Sou um simples ser humano que um dia resolveu ajudar alguém. - A vida nada mais é que, um grande livro de onde nos são apresentadas lições diárias. Agradeço por tê-las. Eu sei que onde há amor e sabedoria, não tem temor e nem ignorância e isto é um fato. Chefe Vado, nunca me esqueço das palavras de São Francisco de Assis: - “Faço tudo o que posso, tento fazer o possível e lá na frente quando olhar pra trás vou ver que fiz o impossível”.


                  Chefe, só para terminar, Zezito Sansão, cresceu se formou e hoje tem uma esposa, três lindos filhos que são a alegria de quem um dia nada teve e nunca pensou em ter.             

sexta-feira, 10 de abril de 2015

O saudoso bastão totem da Patrulha Maçarico.



Lendas Escoteiras.
O saudoso bastão totem da Patrulha Maçarico.

                 Uma vez visitei um grupo para encontrar uma Chefe escoteira. Não estava. Comecei a escrever um bilhete simples para ela e que voltaria outro sábado para nos encontrar. Minha visita foi exclusivamente a ela, pois fizemos um curso juntos e queria matar as saudades. O Chefe do grupo me deixou a vontade na sede enquanto as sessões estavam em atividade no pátio. Era um sábado um lindo dia. Bom mesmo para atividades escoteiras. Estava ali, pois era Chefe de tropa e as quatro patrulhas da tropa que colaborava tinham ido acampar. Não foi o primeiro acampamento sem chefia. Ouve outros. Estavam bem adestrados e o local oferecia segurança e eu confiava nos monitores. Claro iria lá à noite e no domingo também. Ficaria pouco tempo. Só ver se tudo estava bem.

             Já ia sair quando ouvi uma voz meiga, triste dizendo – Oi Chefe! Dá-me um abraço? – Olhei e não vi ninguém. Quem seria? Esconder ali era difícil. Local pequeno. Achei que tinha me enganado. Virei para a porta e de novo ouvi a mesma voz – Não vá Chefe, estou sempre sozinho. Dá-me um abraço! Caramba! Prestei mais atenção e só vi um bastão com um totem da Patrulha Maçarico. Como? Totem não fala. Não chora e nem diz que está sozinho. – Sou eu mesmo Chefe, o Maçarico. Sinto muita falta dos meninos. Hoje ninguém liga para mim. Estou sozinho aqui a muitos e muitos anos. Se tiver tempo lhe conto minha história. Estava deveras surpreso. Claro, muitos me chamaram de louco. Diziam que só eu escuto vozes assim. Escondi muita coisa que vi e ouvi. Não iriam acreditar. Primeiro foi o chapéu de três bicos que falava, depois veio O totem da Patrulha Pantera. E o Lampião Vermelho? Não faltou o lenço verde amarelo que também falou comigo.

             Fui até lá e peguei o bastão com o Totem que estava todo empoeirado. O coitado precisava de uma limpeza. Devia estar ali jogado há muitos anos. Peguei um pano e fiz minha boa ação. Ele sorria agradecido. – Chefe, tem tempo que não me limpam. Não estava mais aguentando a poeira. Dei uma melhorada na amarração do totem com o bastão. Ficou firme. Levantei-o no ar. Ele gostou. Riu de novo. Oh Chefe! Que bom. Saudades dos velhos tempos! Precisava ficar ali. Precisava entender porque ele estava tão empoeirado e sozinho num canto. Vi que era só ele, não tinha outros totens. No mínimo estava com as patrulhas em atividade.

            Encostei-o na mesa e ele me olhou com aqueles olhos tristes (totem não tem olhos podem me dizer, mas aquele tinha, e olhe lagrimas caíram quando me contou sua história). – Sabe Chefe, foi há muito tempo. Acredito que tem mais de vinte anos. Foi quando começou o Grupo Escoteiro. Um Chefe preparou oito meninos como futuros monitores e submonitores. Havia dezenas de meninos querendo entrar. Formaram quatro patrulhas. Juninho meu Monitor conversou com todos. Disse que sua sugestão seria de escolher uma das patrulhas que foram montadas durante o primeiro acampamento Escoteiro na história. Realizado na ilha de browsea por Baden Powell. Corvo, Touro, Lobos e Maçaricos. Ele deu a ideia de chamar a Patrulha de Maçarico. Contou que o Maçarico-pintado é da família “Scolopacidae”. Também são conhecidos como Baturinha, Maçariquinho, Maçariquinho-pintado e rapazinho (no Rio Grande do Sul). Contou que ele habita locais com água, tanto na costa como nas águas interiores. Manguezais, margens de rios e lagos. Vivem sempre em bandos.

           - Continuou o Totem Maçarico – Todos os patrulheiros ficaram entusiasmados.  O próprio Juninho ficou responsável para me fazer. Sua mãe colaborou. Recortou um feltro e ali bordou o que ela achava ser um maçarico. Pode olhar, ela me bordou. Não é uma perfeição, mas se aproxima muito. Juninho o nosso Monitor, ficou cinco dias escolhendo em vários pés de goiaba qual galho seria escolhido para ser o meu bastão. Ele sabia como fazer e o fez com perfeição. Quando fui apresentado à patrulha e eles deram o grito, meu amigo, fui às lágrimas de alegria. A Patrulha se orgulhou de mim. Sentir as mãos deles me segurando sempre quando davam o grito, olhar o Monitor me erguer à frente era demais para mim.

            - Eu lembro-me de um acampamento Distrital de Patrulhas que no terceiro dia os Maçaricos conseguiram a Bandeirola de Eficiência Geral. Quando o Chefe a colocou um palmo abaixo de mim, olhei para ela e sorri. Seja bem vinda eu disse. A Bandeirola também sorriu. Devia ter pensado que agora estaria em boa companhia. Mas não foi o último. A Patrulha Maçarico era valente. Era forte. Não tinha medo, amigos para sempre. Como eu amava aquela Patrulha. Duas ou três vezes por semana lá estavam eles na sede. Seja em reunião de Patrulha, ou mesmo para um trabalho extra eu me sentia em casa. Ninguém se esquecia de mim. - Estivemos juntos tantos e tantos acampamentos que até perdi a conta. Juninho nunca se descuidava. Sempre passando um saboroso óleo que disseram a ele que seria bom para conservar a madeira. Dava gosto de me ver. Sempre limpo. Sempre impecável.

                      Lembro e nunca esqueci quando ele a frente da Patrulha nos levou até a uma elevação bem alta, próximo a nossa cidade, e ali no escuro, noite alta, antes da lua nascer pediu que fizéssemos um juramento. Não deixar nunca que os maçaricos esqueçam um dos outros. Manter a Patrulha a todo custo e que eu sempre ficasse em posição de destaque. Mas o tempo Chefe, o tempo é cruel. As coisas nem sempre são como nós queremos. - Juninho foi com sua família para outra cidade. Ricardinho assumiu a patrulha. Não era mau sujeito não. Mas nada igual ao Juninho. Esquecia muito de mim. Deixava-me na chuva, à noite na intempérie sem proteção. Eu via que minha madeira do bastão já não era a mesma. A continuar assim em breve iria deteriorar e precisaria de um novo. Mas Ricardinho também se foi. Todos se foram. Os novos não sabiam de nosso juramento. Não ligavam a mínima para mim. Tornei-me um pária, um Maçarico abandonado. Sempre jogado em um canto e outro.

               - Mas o pior mesmo aconteceu. Eram todos novos. Não os culpo. Agora diziam que tudo estava mudando e o nome da Patrulha devia ser mudado. Maçarico era coisa do passado. Escolheram um nome bonito vistoso. Tiger Man. Não sei se era homem tigre. Meu Deus! Não tinha nada a ver. Agora era moda nomes estrangeiros. Enfim, me esqueceram. Fiquei ali onde o senhor me encontrou. Tem mais de dez anos que estou sozinho e abandonado. Ninguém mais quer saber dos nomes tradicionais. Onde foram parar os Touros? Os Maçaricos? Os Corvos e tantos outros? Não disse nada. Dizer o que? O Diretor Técnico chegou. Não entendeu o porquê eu olhava fixo para o totem do Maçarico. Ele não ia entender mesmo. Coloquei o totem no canto onde o encontrei. Falei baixinho para ele: - Volto sábado que vem. Você vai ter o destaque que merece. Perguntei ao chefe se ele autorizava-me colocar o Totem na sala principal, em lugar de destaque, pois afinal era uma das primeiras patrulhas surgidas quando o escotismo começou. Ele não se fez de rogado. – As ordens meu amigo. Fique a vontade.

               Seu Almeida um marceneiro meu amigo fez para mim uma armação para o bastão ser colocado na parede. Na sexta fui buscar. Ele ainda desenhou uma flor de lis na madeira. Mandei fazer um quadro. Eu mesmo escrevi umas palavras que saíram do coração. Cheguei cedo. Comecei o trabalho. A armação ficou linda na parede. Convidei todas as patrulhas para homenagear o Totem do Maçarico. Um Monitor o colocou lá. Eu mesmo coloquei em cima o quadro. Nele tinha escrito: - Maçarico, Baden Powell te viu nascer. Aquela Patrulha do passado vive hoje em você. Você merece nosso aplauso! As patrulhas deram uma palma Escoteira. Não entendiam bem de tudo. Não podiam entender. Todos voltaram à reunião. Fiquei só com o Totem Maçarico. Ele sorria encantado. Seus olhos vermelhos com lagrimas caindo. – Obrigado Chefe. Obrigado mesmo. Você não sabe como me fez feliz. Uma homenagem que nunca esperava receber. Sabe Chefe, precisamos dar valor ao passado. Ele pode voltar e novamente encantar a todos. Mas isto só poderá ser possível se tiver alguém para mostrar que isto faz parte de uma bela tradição.


                Fui embora prometendo voltar pelo menos uma vez por mês. Nunca deixei o Totem Maçarico sem um abraço, sem uma saudação. Sempre tirava um dia para uma visita. Onde ele está vejo que sorri sempre. Ele aprendeu com os escoteiros e eu aprendi com BP. A verdadeira felicidade é fazer a felicidade alguém!

quinta-feira, 9 de abril de 2015

A grande festa de Lagoa dos Açores. O Escoteiro Chefe lusitano vai chegar!



Lendas Escoteiras.
A grande festa de Lagoa dos Açores.
O Escoteiro Chefe lusitano vai chegar!

                     O boato correu de boca em boca em Lagoa dos Açores. O Escoteiro Chefe de Portugal vinha ao Brasil! Mas precisamente em nossa cidade. Um clima de festa tomou conta. Ninguém sabia quem contou e como souberam. Dizem, ou melhor, dona Flancácia quem sabia de tudo quem contou para dona Naninha que contou para dona Bucycleide, que contou para dona Pamonia... Bem isto não importa. Afinal devia ser uma figura importante. O Brasil não tem Escoteiro Chefe e eles os portugueses tem. Maravilha. Acho que foi Tumenodes da venda Dom Cabral quem disse que ele era Duque. Descendente do Marques de Pombal. Mas qual o nome dele? Que dia ia chegar? Doutor Macbeti o prefeito mandou chamar o Delegado Pancrácio, Dona Flancácia, Doutor Jacumé o Juiz de Direito e os Chefes dos Grupos escoteiros da cidade. Uma grande reunião foi feita. Cada um ficou responsável por uma responsabilidade.

                 Lagoa dos Açores passava conforme o último senso de trinta e cinco mil habitantes. Foi fundada em mil novecentos e cinco por Don Panchito Das Torres Altas, um português que aqui chegou com uma mão na  frente e outra atrás, mas logo enricou. Seus patrícios vieram em peso. Lagoa dos Açores pela sua pujança em produzir café de primeira qualidade, teve o privilegio de receber a visita do Presidente da Republica o Doutor Marechal Hermes Rodrigues da Fonseca. Ninguém nunca soube dizer o que ele foi fazer lá. Dizem que foi a mando de Don Panchito. Será? Mas isto ninguém perguntou e nem se interessou. Só sabiam que ele prometera a ferrovia até a cidade. Foi uma festa quando a Estrada de Ferro Leopoldina Railway mandou o primeiro comboio com a “Jamiloca” a primeira Maria Fumaça a aportar na Estação Linda Coimbra. Soltaram foguetes, Bandas de Musica, danças, desfiles e uma “comidaria”  que durou mais de três dias. Agora sim, podia-se ir a capital em apenas vinte e duas horas e dormindo! Havia vagões dormitórios, um luxo que poucas cidades tinham.

                Seu Samuel Ramalho Ramires Ramos, o mais antigo padeiro de Lagoa dos Açores dava risadas o dia inteiro. – Um patrício! Graças a Deus! Se  for um Duque vou dar a ele uma corrente de ouro de São Fidelis. Chefe Micaleide Soraia convidou os chefes de todos os grupos escoteiros para uma reunião. Lagoa dos Açores se orgulhava dos seus seis grupos escoteiros. Todos irmãos. Eram dois da UEB, dois da FET e dois da AEBP. Dois Pastores planejavam criar no Templo Evangélico da Rua Mascarenhas um grupo de desbravadores. Quem viessem. Seriam bem vindos. A cidade poderia ser chamada de cidade escoteira. Quase todas as autoridades foram ou participaram por pouco ou muito tempo em algum grupo escoteiro. Nada faltava para eles. Todas as contribuições eram religiosamente dividas entre os seis. A verba da prefeitura era gorda. Nunca faltou.

                Os chefes reuniram-se no domingo no Theatro Municipal Don Panchito. Pena que ha mais de dez anos nada se apresentou no Theatro, mas Totonho o vigia o mantinha limpo e bem arrumado. Estavam presentes mais de oitenta chefes. Cada grupo esbanjava seus voluntários que sofreram para ser aceitos. Não era qualquer um que podia participar da equipe de chefes. Diziam, não posso afirmar que muitos davam boas gorjetas para serem aceitos. Chefe Ronsato falava pelos AEBP. Chefe Jarisol pelos FET e o Chefe Micaleide pelos UEB. Uma discussão gostosa. O que fazer – como fazer – quando fazer e quem vai fazer. Um esboço do programa foi levado ao Doutor Macbeti o prefeito. Ele olhou, pegou um enorme carimbo, molhou com tinta, deu uma forte carimbada e disse: - Aprovado! Moçoilas corriam as ruas de Lagoa dos Açores para em grupo enfeitarem a cidade de bandeirolas – Qual a cor da Bandeira de Portugal? Vermelho, verde, amarelo, azul, branco e preto disse o Professor Arquimomedes o sábio da cidade.

               Pitito Modinha era um escroque. Varias vezes foi preso por enganar os outros. No fundo não era um mau sujeito. Afinal seus pais foram os maiores fraudadores e vigaristas que o estado conheceu. Dizem que até hoje estão no xilindró na Ilha de Alcatraz. Isto mesmo. Tentaram enganar o famoso General Douglas Mac Arthur um americano e se danaram. Pitito Modinha nunca matou ninguém. Enganar sim. Afinal para que trabalhar? Ele dizia. Ria quando era preso e o delegado Caroço de Manga dava uma prensa nele. Pitito mude de vida. Um dia alguém vai te dar um balaço bem nas “orêias” o tiro vai entrar em uma e sair cheio de cera na outra para não dizer outra coisa. Pitito fingia que ia mudar, mas ao entrar na cela sua velha conhecida dizia – Enquanto houver otário São Judas não anda a pé. – O delegado ria e dizia - São Jorge Pitito, São Jorge! Putz! Não interessa. E ficava cinco trinta dias preso. Uma vez ficou  um ano atrás das grades. Pitito Modinha leu a noticia quando cortava o cabelo na Barbearia do Carioto Cariado quando pegou um jornal velho e leu – Lagoa dos Açores vai entrar em festa por três dias. Vai chegar à cidade em julho de 1959 o Marquês de Pombal, Conde de Caravelas, Infante Duque de Bragança, Príncipe Regente, Grão-prior do Crato, Escoteiro Chefe Dom Manuel Pero Vaz de Caminha de Portugal e do mundo o maior Escoteiro Chefe de todos os tempos!

               Minino! Meu Deus! Deu certo! Desta vez vou enricar mesmo. Olhou no espelho da barbearia, sorriu e disse: Pitito Modinha você é bom cara, muito bom! - Tudo começou quando ele na biblioteca atrás do fazendeiro Bom Senso a que queria surrupiar a carteira, sentou em uma cadeira num canto e viu na mesa um livro escoteiro de Portugal. Viu a foto de um lusitano a quem chamavam Escoteiro Chefe. Pitito não era bobo. Correu as páginas do inicio ao fim. Leu tudo sobre os escoteiros da terrinha. Cacilda! Desta vai vou acender charuto com nota de cem! Bolou um plano. Ficou dias pensando. Prá dar certo tenho de fazer um uniforme, mas eles lá da terrinha usam outro. Melhor fazer igual o deles. Calça marrom, sapato preto, camisa marrom clara e um chapéu. Não vai ser mole. Mas tenho tempo. Procurou Praquitinha sua noiva. - Me empresta um dinheiro? Vais receber em dobro. Praquitinha sabia que não ia receber nada de volta mais ela gostava de Pitito. Não ia negar.

                  Enviou um telegrama para Seu Samuel Ramalho Ramires Ramos da padaria. Daí as viúvas lavadeiras, era um pulo. Logo a cidade toda sabia. A escoteirada ficaria alvoraçada e assim o plano começou. – Mais um telegrama e Seu Samuel correu até a prefeitura da cidade. Seu prefeito o Doutor Makbeti suava, gordo, barrigudo sonhava que agora Lagoa dos Açores seria conhecida “nos estrangeiros” -  O telegrama dizia - Chego no dia nove de julho próximo. Irei só. Quero conhecer a cidade dos meus conterrâneos os escoteiros. Diga a eles que vou levar uma grande foto do nosso Fundador. Lordi Badi Pawell. As ruas enfeitadas. A praça um brinco. A escoteirada pintou tudo. Não havia um toco de cigarro jogado. As filhas de Maria ensaiaram uma canção Escoteira. Zé Calango dos Vicentinos fez uma poesia. Nos grupos escoteiros  uma preparação enorme. – Todos de luvas brancas. Treinaram evolução, a banda, a turma da bandeira, Todos iriam com suas mochilas e montaram em cima de cinco caminhões diversas pioneiras, pois sabiam que os português eram bambas no assunto.

                 Cilene Maria era lobinha. Quieta. Quase não falava. Diziam que era uma menina possuída. Só porque lia tudo que encontrava desde os dois anos. Na escola com oito já tinha feito o ginásio. Nos lobinhos adorava. Sentia-se bem na matilha azul. Poderia ser prima, mas achou melhor não. Evitava ler os livros escoteiros para que os outros não se sentissem humilhados. Ela não queria isto. Queria que eles a considerassem uma irmã, uma amiga que gostava de todos eles. Quando iam acantonar ela ficava encantada com as árvores, com a grama, com os lagos e riachos de águas frias e gostosas. Adorava ver  por e o nascer do sol. Conhecia uma por uma as constelações no céu. Naquele sábado a Akelá Juely comentou sobre a honra que todos teriam em conhecer o Escoteiro Chefe de Portugal. Contou para os lobos que ele lá em Portugal era querido, todos faziam continência, era carregado quando visitava os grupos escoteiros, enfim era um Escoteiro inigualável.

                 Cilene Maria ficou desconfiada. Sua mente rebuscava na memoria todos os livros escoteiros que lera. Sabia que havia não só uma, mas três associações escoteiras em Portugal. De qual ele representava? Sabia também que ninguém tinha mais esta enormidade de nome como o dele. -  Marquês de Pombal, Conde de Caravelas, Infante Duque de Bragança, Príncipe Regente. Grão-prior do Crato, Escoteiro Chefe Dom Manuel Pero Vaz de Caminha de Portugal e do mundo. Impossível. Só reis tinham tanto nome. E ele misturava tudo. Conde com Duque, com infante, com príncipe regente que só Dom Pedro II foi quando seu pai voltou para Portugal. Não estava certo. Muita coisa errada. Soube que ele o Escoteiro Chefe mandou varias fotos de Baden Powell que ele chamava de Lordi Badi Pawell. Ele era analfabeto? Impossível! E a foto? Não tinha nada do fundador. Era de um homem magrelo, novo, cabelo preto, e uma das fotos sorrindo. Era banguelo. Faltava dois dentes na frente. Aquele não era e nunca foi Lord Baden Powell.

                 Cilene Maria procurou a Akelá. Ela não acreditou. Procurou o Chefe  Micaleide Soraia. Ele também duvidou. Ninguém acreditava nela. Sabia que o talzinho que se fazia passar por Escoteiro Chefe era um enganador. Procurou então o Seu Samuel Ramalho Ramires Ramos da padaria. Ele a ouviu calmamente pensando. Também tinha duvidado do primeiro telegrama. O que ele vinha fazer aqui? Porque não na capital? Disse a Cilene Maria que ia investigar. Passou um telegrama para seu irmão em Coimbra e pediu que investigasse. Cinco dias mais tarde chegou à resposta. Chamou Cilene Maria e mostrou o que seu irmão escreveu. Ela também havia investigado a foto do tal Lordi Badi Pawell. Agora era armar um plano. O delegado entrou no meio. O dia chegou!

                      O Trem serpenteava na beira do Rio Luar do Sertão. Em cada curva o Seu Japinondas o maquinista apitava. Na beira da linha a molecada corria com o trem. Uma fumaceira danada na chaminé anunciava a modernidade. Ele sabia que uma alta autoridade estava viajando no seu trem. Seu bisavó Tutunael sempre contou quando era maquinista que trouxe muitas “otoridades” para Lagoa dos Açores. Agora ele podia contar para seus netos que também carregou um. Pitito Modinha viajava de Primeira Classe. Com seu uniforme de Escoteiro lusitano e seu chapéu que custou a encontrar para comprar todos o tratavam como um rei. Quando levantava todos levantavam. Mandou fazer um lindo lenço dourado. Amarelo, verde e um pouco de azul. Comprou um anel grande de brilhantes para prender o lenço. Na mala alguns presentes que conseguiu comprar nas mãos do Caixeiro Paraguaise.

                         Quando atravessaram à ponte do Rio Luar do Sertão ele viu pela janela a cidade. Riu de leve. Depois riu mais. Agora gargalhava. Disse para sí baixinho – Pitito Modinha, você é brilhante. Será o maior golpe de todos os tempos. Desta vez vou encher as burras de dinheiro. Praquitinha iria saber quem ele era. Iria visitar a “horopa” com ela. Ela ia ver a Torri efailde. O Arco do Truque. Contaram para ele maravilhas do tal Palácio das Vertentes. Iria mostrar para ela o Bigue Bend. E depois nas Américas ela ia ver a Estatueta qui liberta tamem. Eles iriam falar gringo, falar françoá, ingreis. Seriam recebidos por reis e rainhas e quem sabe teriam um tituro de pobresa? Já pensou? - Lord Duque Pitito Modinha? Misse Duquesa de Orleanas dona Praquitinha Castiana? E assim ele sonhava. O trem apitando. A cidade chegando. Ele sorrindo de oreia a orêia.

                Olhou pela janela, a estação apinhada de gente. Uma escoteirada sem tamanho. Todo mundo ali para vê-lo. Pensou de novo consigo mesmo. Pau que nasce torno não tem jeito morre torno. Ops! Nada disto. Pau que nasce torto e é sabidão e morre ricasso. E ria, e ria. O trem parou. Silêncio. E a Banda que pediu? Pegou sua mala, desceu. Ninguém bateu palma. Cacilda, o que houve? Onde eu errei? Meu uniforme está impecável aprendi a fazer o nó de escoita e barso pelo seio. Até sei fazer a saudação deles e eles estão me olhando deste jeito? Uma mão bateu em seu ombro. – Olá Pitito Modinha. Quanto tempo eim? Meu Deus! Era a voz do delegado Caroço de Manga! Uma longa salva de palmas. O delegado agradeceu. Colocou as algemas em Pitito Modinha. Entraram de novo no trem. Uma vaia sem tamanho.


                   Por muitos anos Pitito Modinha foi cantado em prosa em todos os fogos de conselhos que a cidade conheceu. Cilene Maria recebeu todas as honras possíveis. Não só do Grupo Escoteiro, mas de toda a cidade. Ela dizia que não tinha feito mais que sua obrigação, era lobinha, mas não dizem que os escoteiros estão Sempre Alerta? Alguém disse para ela - SAPs Cilene! Valeu! SAPs? Que isto? Não é Sempre Alerta? Risos. Escoteiros, ah Escoteiros. Estão aí por todo lado, observando, olhando, escolhendo, sorrindo, apertando mãos dos amigos e irmãos, e claro sabendo sempre o que acontece em sua volta. Eles são espertos, bons meninos e meninas, vivendo a lei e a promessa como um dia juraram em suas promessas. Eles estão sempre alerta sempre e nunca SAPs sempre. Mais risos.  E eu? Eu nunca esqueço Pitito Modinha e o que disse o meu amigo Dalai lama: - “Só existem dois dias no ano que nada pode ser feito. Um se chama ontem e o outro se chama amanhã, portanto, hoje é o dia certo para amar, acreditar, fazer e principalmente viver”!