Histórias e contos escoteiros.

Histórias e contos escoteiros.
Feitas para você se divertir!

domingo, 29 de março de 2015

Os melhores anos de nossas vidas.



Lendas Escoteiras.
Os melhores anos de nossas vidas.

                        Não era uma tarde sombria, havia nuvens no céu e o sol já estava se pondo atrás das montanhas onde tantas vezes eu e ele acampamos. É verdade quando diziam que nos cemitérios os pássaros quando pousam nas árvores quase não cantam. Dizem que ao alvorecer eles fazem seus cantares sem alarde quem sabe saudando os mortos que ali habitam. Sentado à moda índia em frente a sua  sepultura eu chorava copiosamente. Olhava com os olhos rasos d’água aquela campa do jazigo número 343. Não havia nomes, só o número. Ninguém fez uma homenagem em seu epitáfio, pois ali só havia uma cruz de madeira apodrecida com o número. Não havia flores, grama nem mesmo uma árvore com copas altas e sombreadas que ele tanto amava. Eram covas rasas próximas uma das outras. Ninguém poderia saber que ele vivia ali em um túmulo simples sem pompa ou sinal de riqueza.

                   A cruz de madeira já havia caído com as chuvas e ventos que sempre acontecem neste lugar sagrado. Ela poderia representar quem estivesse a sete palmos abaixo da placa que não dizia nada. Todo campo santo tem uma maneira própria de interferir entre o que se foi e o que ficou. Se alguém está ali sem perceber está sofrendo angustias aflição e sofrimento. Ninguém gosta de visitar e quando vão é por pouco tempo. Uma maneira de fugir do inevitável da verdade da morte que sobrepõe à vida. Ninguém nunca poderá evitar. Porque não acreditar que um dia iremos morrer? Porque fugimos da morte e acreditamos sorrindo cheio de felicidade ao nascer uma nova vida para o mundo e dizer: - Ele nasceu!

                          Não arredei o pé. Fiquei ali até que a noite chegou. Um silêncio sepulcral. Era uma noite gelada com vento soprando leve e manhoso como a me dizer que era hora de partir. Mas eu não queria partir, tinha muito para me lembrar dos belos tempos que eu e ele vivemos juntos na Patrulha Leão. Momentos inesquecíveis. Joshua era um jovem formidável. Se existe anjos iguais entre jovens eu e ele éramos a prova viva. Eu acreditava piamente que ele seria prefeito de nossa cidade e possivelmente um grande líder do escotismo no Brasil. Ele amava o escotismo. Vivia em função dele, não havia outro assunto que não fosse escoteiro. Só não usava seu uniforme para ir à escola ou ajudar sem pai na Padaria porque o Chefe não deixava e seu pai também não. Afinal ele dizia os fregueses não iriam gostar. Eu era um seguidor ele o mestre. O seguia onde ele fosse. Amava-o de uma maneira tão Escoteira que muitos interpretaram diferente. Francamente, nem sabíamos ainda o que era isto.

                           Era o meu Monitor meu líder meu amigo e irmão. Eu ficava horas e horas na porta da padaria esperando ele sair. Ele com aquele sorriso maravilhoso me olhava e me perguntava: - Aonde vamos? – Eu nada dizia nem ele. Corríamos pela rua até a porteira de São Romão. Uma porteira que enfeitava a rua que acabava, mas não tinha cercas na sua volta. Em plena trilha corríamos atrás de borboletas, pé ante pé até a Pombinha Rola das campinas e a brincar com o Velho Pintibolim o bicho preguiça amigo de toda a cidade. Ah! Meu Deus! Lembrar era demais. Machucava muito e minha garganta seca me fazia mais e mais chorar. Ainda não estava acreditando que ele tinha partido para as estrelas. Não me passava pela mente que aconteceu justamente com ele.

                        Quantos acampamentos? Quantas jornadas? Quantas bandeiras juntos arvoramos nas mais altas montanhas e lindos lugares que acampamos? Toda a patrulha era submissa as suas orientações. Ele um perfeito líder não mandava dizia – Vamos fazer? E arregaçava as mangas e sorrindo ajudava a todos nas construções do campo. Não dava para esquecer seu amor pela natureza. À noite, o fogo crepitando, as fagulhas levadas pelo vento até o céu e ele deitado na grama com as mãos sobre a nuca sempre a sonhar em voar e tocar em cada estrela brilhante no espaço. Sabíamos que sem nosso Monitor não éramos ninguém. Ele ajudava Tunico o cozinheiro, dava uma mão enorme para Josiel o Intendente, escrevinhava junto a Molencar o escriba. Corria com o aguadeiro, buscava lenha com o lenheiro e dizia para mim: - “Vamo que vamo” com um sorriso enorme. Deus do céu! Como é duro lembrar. E nas fogueiras no meio das florestas ele deixava tudo e corria atrás dos pirilampos com suas luzes coloridas ou mesmo a brincar com vagalumes que pousavam suavemente em seu ombro. 

                         O tempo passou. O tempo passa e não pede passagem. Ah! O tempo. Não nos deixa viver a liberdade da infância e nos retira a alegria da puberdade nos jogando no mundo estranho dos homens feitos. Fui para a faculdade em outra cidade e ele na estação sorrindo me abraçou. – Meu amigo, ele disse – Uma distância enorme estará entre nós, mas ela será pequena por nosso afeto, e um laço invisível nos manterá unidos para sempre. Meu pai o olhou de maneira enviesada. Acho que não entendeu que eu e ele éramos um só, mas com um amor de irmãos. Algum tempo depois pensei que isto foi feito pelo meu pai deliberadamente, pois acusavam-nos de sermos mais que amigos. Nunca fiz uma viagem como aquela. Engasgado, queria chorar e não podia. Meu pai me olhando com olhos bondosos, mas como a dizer que estava me fazendo um favor e no futuro eu ia agradecer. Anos depois me formei, comecei a trabalhar, mas nunca esqueci Joshua. Por uns tempos ele me escrevia, mas um dia por uma razão que nunca soube nunca mais escreveu.

                          Não deixei meu escotismo de lado. A tropa que ajudava não era como a nossa do passado, mas me fazia sorrir, me fazia lembrar e procurava entre os jovens ou entre os chefes alguém como Joshua e nunca encontrei. Minha mãe sempre vinha me visitar e um dia com lágrimas nos olhos me contou que ele morreu. – Meu filho ele depois que você se foi se transformou, largou a escola, não queria trabalhar e foi expulso de casa pelos pais, passou a viver na rua, dormindo sob pontes e viadutos. Um dia o encontraram pela manhã morto entre os arbustos da praça da estação. Estava com seu uniforme Escoteiro e seu chapéu. Não deixou nenhum bilhete, ninguém soube como ele morreu, mas estava sorrindo. Meu Deus meu Senhor porque não soube? Eu pensei. Viajei com ela no mesmo dia. Rezei muito por Joshua. Chorei por uma vida por ele. Não culpei ninguém nem mesmo meu pai. Fui ao grupo e poucos se lembravam dele. Da patrulha só eu, os demais a terra os levou para longe para viverem suas vidas.

Prologo

                          Até ontem acampamentos e pé na estrada juntos. Passamos por vilas cidades, cachoeiras e rios, bosques e florestas... Não faltaram os grandes obstáculos que sorrindo enfrentamos. Freqüentes foram às cercas, ajudando-nos a transpor abismos... As subidas e descidas das serras distantes foram realidade sempre presente. Juntos, percorremos retas, nos apoiamos nas curvas, descobrimos campos e vales floridos... Chegou o momento de cada um seguir a viagem sozinho... Que as experiências compartilhadas no percurso até aqui sejam a alavanca para alcançarmos a alegria de chegar ao destino projetado. A nossa saudade e a nossa esperança de um reencontro nunca será esquecida. Teremos novos caminhos a seguir em nossa vida eterna. Eu nunca me esqueci de você e sei que nunca esquecerei. Tivemos bons e maus momentos, mas sempre deixando eternas saudades. Que esta nossa despedida seja um eterno reencontro!

sábado, 28 de março de 2015

Rio Negro, a cidade das sombras!



Lendas Escoteiras.
Rio Negro, a cidade das sombras!

                       Um telegrama simples. Dizia: “Gostaríamos de contar com sua presença nas festividades do Grupo Escoteiro Enigma do Santo Sepulcro. Será dia 28 próximo em Rio Negro, a cidade das sombras. Todas as despesas serão por nossa conta”. Mais nada. Que seria isto? Alguma brincadeira? Eu recebia sim muitos convites para palestras e pequenos cursos escoteiros em várias cidades. Mas aquele convite era extraordinário.  Na internet só descobri uma cidade parecida próxima a Parecis, e mesmo assim diziam que a cidade não existia mais. Deve ser alguma brincadeira pensei. Pitágoras o Comissário sempre fazia isto comigo. Liguei para ele: - Não fui eu! Juro! Ele disse. Dei boas risadas, mas fiquei inquieto, ou melhor, encucado com tudo aquilo.

                      Não dormi bem. Não tive sonhos e nem pesadelos, mas acordei suando. Parecia que alguém dizia para eu ir à estação Rodoviária comprar a passagem. Liguei para a região para me informarem se tinha algum grupo com este nome. Riram na minha cara. Tirei o carro da garagem e fui até a Rodoviária do Tietê. Nem bem entrei vi um homem de paletó roxo, chapéu enterrado até os olhos, descalço, unhas enormes e com uma placa – Passagens para Rio Negro. – Aproximei. Ele levantou o chapéu. Enormes olhos negros. Um nariz comprido e afilado. Uma boca enorme cheia de dentes de ouro. Não tinha orelhas. Nas mãos em cada uma dois dedos.
Tirou do bolso uma passagem. – Mandaram-me entregar, o ônibus parte a meia noite. Terminal dois. O homem desapareceu. Procurei em todos os guichês da rodoviária e nada. Informei-me sobre a cidade. Ninguém conhecia.

                     Seja o que Deus quiser. Não costumo me esconder de desafios. Iria lá nesta cidade fantasma. A final sou um Escoteiro e o Escoteiro não foge dos desafios. Nunca! À noite já com minha mochila e de uniforme social fui para a rodoviária. Eram onze e quarenta da noite. Lá estava o morto vivo a minha espera. O “cara” era esquisito. Disse-me – Siga-me. E lá fui eu. Descemos umas escadas, um corredor escuro, um vento húmido e frio a soprar. Senti frio. Um frio que machucava. Vi o ônibus. Pequeno. Negro. Sem nada escrito. Na placa Rio Negro. A porta aberta. Entrei. Ele pediu a mochila – Vai no meu colo disse – Sentei bem à frente. Não tinha ninguém no ônibus. O ônibus partiu em seguida. Só eu de passageiro. Alguém de voz rouca e cavernosa começou a cantar a canção da Promessa. Dormi. Acordei com o dia amanhecendo. Uma bruma cinzenta cobria minha vista. O ônibus parou. Desci. Suspirei fundo. Um Chefe Escoteiro de uniforme. Brim roxo. Todo roxo. Um lenço negro com uma caveira desenhada atrás. Sem sapatos. Descalço. Unhas enormes. Sempre Alerta Chefe! Sou o Funério, seu assessor pessoal, disse. Venha comigo.

                       Um carro negro fúnebre nos esperava. Atrás levava um caixão. Algum defunto para enterrar. A cidade era coberta por uma bruma cinza e seca. Quase não se via as casas. Aqui e ali pessoas atravessavam a rua devagar, como se estivessem pisando em brasas. Não havia barulho. Nenhuma ave por perto. Não vi cachorro e nem gato. O carro parou. Olhei o motorista. Sempre de costa. Um boné de couro preto. Abriu a porta e sai. Estava em frente a um cemitério. Aqui? Perguntei. Ele se virou. O rosto sem pele. Ou melhor, uma pele fina, mas só os ossos apareciam. – Não se preocupe Chefe. A sede do grupo é linda. Foi toda construída pelos habitantes do lugar. O Senhor vai gostar. Bragg! Comecei a tremer! Onde fui me meter? Ele me pegou pela mão como se eu fosse uma criança. Fui com ele. Não tinha outra saída. Nem sabia onde estava. Catacumbas e mausoléus enormes. Nomes estranhos. Aqui jaz – Baldassari, morreu por falta de sangue – Em outro dizia: Aqui jaz, Narkissa, a princesa beijada pelo Vampiro Damien. E assim se seguia. Meu Deus! O lugar era misterioso, amedrontador.

                     Fechei os olhos, um medo terrível. Abri. Lá estava a sede. Em letra góticas uma enorme placa: Grupo Escoteiro Enigma do Santo Sepulcro. Enormes caixões enfeitavam o teto da sede. Um belo esquife branco estava em pé, na porta e dentro um Chefe bem velho de bigode e cabelos brancos e com a nova vestimenta da UEB. Estranhei. A tropa, Alcatéia e os seniores formados na bandeira. Não havia bandeira nacional. Eram bandeiras negras com escritos em grego e latim e desenhos de zumbis e cadáveres. Um Chefe se aproximou. Bem vindo Chefe! Estamos tristes com sua chegada. Mas não estão alegres? Falei espantado. Aqui Chefe é o contrário. Olhei a escoteirada. Todos de uniformes negros e os lobinhos de roxo. Ninguém sorria. Sérios. Como se estivessem mortos. Vi que nenhum dos jovens tinham olhos. Só um buraco fundo. Putz! Onde fui me meter? Porque aceitei? Não havia volta. Um zumbido e um grito e as bandeiras negras com símbolos vampirescos começaram a ser içadas. Vampiros enormes voavam sobre nossas cabeças. Ao terminar não houve oração. Olhei em uma catacumba mais alta e chacais davam uivos áulicos e lamurientos. Achei que um deles o mais forte poderia ser Duamutef, o filho de Hórus. Abraçaram-se todos os escoteiros e lobinhos e começaram a chorar. Todos se lamentavam por haver morrido. Morrido? Eram mortos vivos? Pensei em correr dali.

                     Pegaram-me pela mão. Levaram-me até um alto mausoléu. Diziam que eu estava no campo santo. Em volta de mim vi um jazigo cheio de ossos. Parecia que o cemitério estava acordando. Em cada catacumba, em cada mausoléu, em cada cova uma mão, uma cabeça e logo uma multidão de mortos em minha volta. Eram milhares. O Chefe do grupo me pediu para fazer a palestra. Todos aguardavam ansiosos este momento. De que meu Deus! Que palestra querem que eu faça? Nada sei do tal grande acampamento. Dizem que lá ficam todos os escoteiros que morreram, mas eu? A última vez que fui a um enterro faz anos! – Chamem Baden Powell. Ele entende disto melhor que eu!  Não Chefe, nada disto. Todos aqui querem saber como funciona a União dos Escoteiros do Brasil. Querem saber como funcionam as alcateias. Querem nomes de akelás e chefes escoteiras que o Senhor conhece para visitarem a meia noite. Todos se preocupam com as tropas. Querem nomes também. Pediram sua opinião quem seria eleito este ano na Assembleia Nacional! Deus do céu! Que era aquilo? Ajuda-me Baden Powell! Socorre-me almas escoteiras do outro mundo que já se foram!


                     Chefe Patrulha Águia convidando para o jantar. Chefe Patrulha Cucu convidando para o jantar. Chefe Patrulha corvo se apresentando para avisar que o jantar está pronto. Acordei. Abri os olhos. Obrigado meu Deus. Era apenas um sonho. Um pesadelo. Estava com meus escoteiros num lindo acampamento. Vi o sol se pondo no horizonte. Bendito sol! Vi o regato de águas límpidas logo ali. Vi um peixinho pulando nas corredeiras. Graças a Deus. Graças a Deus. Ainda bem. Levantei-me. Espreguicei. Dei um enorme sorriso de felicidade. Havia dormido no tempo livre dado a eles para as refeições. Fui até o córrego lavar o rosto e me refrescar. Cantarolava o Rataplã, agora sim, eu estava vivo e gostava de estar. Levantei peguei a toalha para enxugar. Do outro lado do córrego, lá estava ele, o morto vivo da rodoviária. – Disse alto com voz grossa cavernosa e fúnebre – Sempre Alerta Chefe, à meia noite venho te buscar!

quarta-feira, 25 de março de 2015

Lendas Escoteiras. O doce sorriso de Jota B.



Lendas Escoteiras.
O doce sorriso de Jota B.

                Ele não tinha olhos verdes ou azuis. Eram negros, olhos que brilhavam. Sua face era rosada e seus lábios pequenos não diziam nada de sua beleza. Franzino ele conquistava a todos pelo seu estilo franciscano e fraterno.  Jota B era um menino comum. Na Patrulha Lagarto muitas vezes se esqueciam dele. Quase não falava, mas sabia tudo. Nos acampamentos era uma mão na roda. Cozinhava, fazia belas pioneirias, sempre se oferecendo como voluntário em tudo que se pedia. Se ele não fosse todos reclamavam pelo serviço a fazer. O bom em Jota B era sua brandura, sua calma, seu olhar franco e sem afetação e sabia ouvir. Um ótimo ouvinte. Nunca ninguém reclamou dele na patrulha. Ao contrário era sempre elogiado. Não só a Lagarto, mas todos na tropa inclusive o Chefe Dakota, filho de um índio americano com uma brasileira de Porto Seguro. Jota B era a personificação da paz. Olhar para ele era como se estivesse olhando um mar de mansidão, harmonia, serenidade e bonança.

               Dona Flora sua Professora o amava como se fosse um filho. Os colegas de classe tinham um respeito enorme por ele e no alto dos seus onze anos sempre o procuravam para aconselhamento, e ter com ele um momento de quietude, mansidão e paz. Dona Carminha e seu Randolfo seus pais tinham um orgulho enorme do filho. Ele mesmo já dissera que ia ser Doutor. Queria ser um médico para ajudar a todos sem cobrar um tostão. Quem o conhecesse acreditava. Ele tinha tudo, boas notas, bem quisto, amado e claro, um Escoteiro que sabia  o valor da Lei, da Promessa e tudo que o Chefe Dakota ensinava. O Pastor Rosivaldo da Assembleia de Deus a qual seus pais participavam sorria toda vez que o via. Sempre dizia para ele: - “Valdívian, todos nós sabemos que a oração é o único meio de comunicarmos com Deus. É através da oração que resistimos aos ataques do diabo, recebemos vitória sobre nossas fraquezas e aprendemos que conviver com amor faz parte de todos nós”.

               A vida em Verdes Mares nunca mudou para ele até aquele dia. Porque tinha de ser assim? Tudo aconteceu de repente. – Ela bateu de leve em seu ombro. – Jota B, vamos cabular a aula hoje? Ele olhou para ela. Sabia quem era. Era da Turma A e ele da C. Nunca falou com ela, nem sabia seu nome, mas o convite o assustou. Ela riu. – Está com medo? Você é santo por acaso? Sempre dizendo sim senhor e não senhor? – Jota B sorriu de leve. Não respondeu. Ela continuou. – Adoro viver em perigo, você não gosta? Fazer o que nunca fizemos. Vamos hoje fazer uma rotina diferente, vamos entrar em um ônibus e ir até o centro. Vamos passear de mãos dadas pelas ruas cheias de gente estranha que não sabe quem somos. Quem sabe encontramos uma aventura que você e eu nunca tivemos e nunca vamos esquecer? Ele lembrou seu nome. Dagmar. Não era bonita nem feia. Mas que sorriso ela tinha. Suas palavras entraram fundo em seu coração. Cabular aula? Nunca fiz isto. Não quero, não posso, tenho que aprender tudo para ser o que quero ser no futuro.  

                Ela o pegou pela mão. Mãos macias agradáveis que deram a Jota B uma sensação diferente, uma vontade de ir, de ver o que iria acontecer, de fazer alguma coisa diferente. Lá foram os dois pela Rua Santa Ângelo atrás do ônibus que os levaria para o centro da cidade. Sentaram bem atrás. Jota B não olhava para ela. Estava envergonhado do que fazia, mas ela era uma tentação. Seu convite, seu sorriso, seu desafio e suas mãos macias foi demais para ele. Ela falava, matraqueava e Jota B encantado com tudo que ela dizia. Falou de seus pais, que não gostavam dela, que nunca perguntavam suas notas. Falou de sua professora que nunca lhe deu um abraço, um elogio mesmo com suas notas que eram boas. Falou, falou e falou. Jota B só ouvia. Não tinha o que dizer. Viu quando o ônibus entrou na Paulista. Nunca fora ali e conhecia pela TV.

                 Desceram em frente ao MASP que estava cheio de gente. Muita gente. Uns gritavam palavras de ordem com placas nas mãos. A maioria estava escrito: - Tarifa Zero! Juntos aos manifestantes muitos mascarados. Jota B se assustou. Dagmar não, ela o levou mais para dentro da manifestação. Em pouco tempo explodiram bombas de gás. Jota B tinha os olhos cheios d’agua e chorava. Dagmar sorria e dizia que era seu momento. Sempre Sonhou com isto. Um moleque de uns desesseis anos tentou arrancar um pequeno colar que ela usava no pescoço. Dagmar resistiu e chutou o marginal. Ele tirou da cintura uma arma e apontou para Dagmar. Jota B era pacífico. Nunca brigou ou lutou com alguém e nem sabia como lutar. Quando ele viu que o marginal ia atirar pulou em suas costas segurando sua jugular. O marginal mais forte com um solavanco o jogou ao chão e atirou! Jota B sentiu que tudo ficava escuro. Não sentia dor. A escuridão o levou a uma nuvem que viajou rápido para as estrelas. Em uma delas parou e viu que ali tinha inúmeros amigos que sorriam para ele.

                  Jota B sorria também. Ele se lembrava de que um dia morou ali. Sentiu um vento soprando que o jogou em um redemoinho. Foi puxado com força para O Planeta Terra. Tentou abrir os olhos, devagar, piscou algumas vezes, pois tudo estava como se uma nevoa tivesse invadido aquele quarto. Notou seus pais olhando para ele e sorrido. Notou ao lado deles o Pastor Rosivaldo dizendo: Bendito seja Deus! Notou o Chefe Dakota o olhando severamente, mas com aquela bondade de um segundo pai. – Mamãe! Onde estou? – Você está de volta meu filho, esteve lá na estrela onde sempre morou, mas só vai voltar daqui a muitos e muitos anos, ainda não chegou sua hora! Jota B sorriu, queria perguntar, mas sentiu dificuldade em falar. Sentia dor no peito e quando falava doía. Seu pai disse que seria por pouco tempo, logo ele estaria bom de novo. Sorriu porque não viu neles nenhuma admoestação. O Chefe Dakota deu um passo à frente, olhou para ele e disse: - Jota B, ai fora tem uma menina chorando. Não parou de chorar desde que você foi internado aqui. Quer pedir perdão a você! Posso deixá-la entrar?


“Só quem entende a beleza do perdão, pode julgar seus semelhantes”.

sábado, 21 de março de 2015

Lamparina, um Monitor inesquecível.



Lendas Escoteiras.
Lamparina, um Monitor inesquecível.

                  Quantos monitores eu conheci em minha vida? Acho que centenas deles e olhe muitos foram meus amigos quando juntos convivemos em centenas de atividades Escoteiras. Lamparina eu nunca esqueci. Lembro-me quando passou para a tropa. Tinha corpo de um menino de doze ou treze anos. Forte. Não sei como vivia como lobinho. Pensei como ele seria com seu uniforme azul fazendo o Grande Uivo. Foi direto para a Patrulha Touro. Foi ele quem escolheu. Confidenciou-me que um touro era parecido com ele. Sempre olhando para frente e nunca desistindo de nada. Sabia de sua força por isto ser um Touro o fazia feliz. Todos sempre tiveram o máximo de respeito por ele. Maniento o Monitor do Touro não acreditou muito naquele menino metido a forte e sorridente. Foi logo chegando quando faziam uma reunião de patrulha dizendo: Monitor! No Acampamento do fim do mês na Cachoeira dos Macacos quero que dê para mim como função construir as pioneiras básicas do campo. Sozinho. Por favor! – Use os demais em outras funções!

                Quando Maniento contou para Sorridente seu Sub Monitor logo o boato se espalhou. Ninguém ria na sua presença. Sabiam que um empurrão dele era tombo na certa. Maniento não se fez de rogado. Disse para Canela e Porteira, os responsáveis pelas pioneirias de campo que iriam deixar Lamparina fazer o que queria. – Monitor! – Disse Porteira, mas ele é um lobinho o que sabe de pioneirias? Deixa prá lá. Vamos ver o que ele sabe e se quer ser metido que seja. Dá tempo para pescar e comer umas goiabas vermelhas no sítio do Seu Tomeu. Ficaram boquiabertos na volta. O danado do Lamparina tinha construído uma bela Mesa Tripé, o toldo estava esticado e montado, havia bancos em volta para todos e dois lugares para convidados. O Fogão suspenso e o lenheiro deixou Mosquito o cozinheiro estupefato. Perfeito! E com lenha para dois dias! E as fossas de líquido e detrito? Nunca viram iguais. Todas abrindo as tampas automaticamente com duas cordas esticadas. Cordas não, cipós!

                  Quando Pé de Cabra foi procurar um matinho para suas necessidades Lamparina gritou para ele: - Siga a seta! E não é que o novato fez uma privada perfeita? Daquele dia em diante Lamparina teve um enorme respeito da patrulha. Fazia questão de fazer bem feito. Seus nós, amarras e costuras de arremate eram de dar inveja. E com que facilidade ele usava um cipó, uma machadinha e um facão. A tropa ficou sabendo e muitos querendo aprender com Lamparina. E não ficou só nisto não. Tornou-se perito em orientação, lia mapas e croquis com facilidade, dominava com facilidade uma bússola Prismática ou a Silva. Em um acampamento construiu um relógio de sól. Até o Chefe veio ver e aplaudir. Era de uma criatividade incrível. O que fez de artimanhas e engenhocas deixavam todos perplexos.  Chefe Montserrat pensou vários dias o que fazer com o crescimento Escoteiro dele. Pelo que via bastava fazer a jornada e entregar a Primeira Classe. Mas como? Ele não tinha nem a segunda classe? Era um simples Escoteiro noviço.

                 Bem o tempo encarregou de tudo. Lamparina se tornou um herói na Tropa Escoteira Visconde de Mauá. Não era soberbo, nunca foi. Sua humildade contrastava com sua força agilidade e inteligência. Quando Maniento passou para sênior assumiu a monitoria. Um exemplo para os demais. Pé de Cabra, Canela e Porteira que tinham três anos de patrulha e eram Primeira Classe não reclamaram. Era natural que Lamparina assumisse. O Chefe Montserrat recebeu um convite para um Curso de Monitores que chamavam de Ponta de Flecha. Ele não simpatizava muito com o curso. Achava que os dirigentes do curso eram pomposos demais e muitas vezes ensinavam aos monitores normas e cerimonias diferente do que fazia. Isto em tropas novas poderia trazer discórdias, pois nem sempre o menino está pronto para entender o objetivo do curso. Claro se tivesse um Chefe da tropa presente e ativo no curso vá lá. Mas isto nem sempre acontecia.

                     Quando Montserrat foi fazer uma visita, pois estava trabalhando e não pode participar da equipe, viram os chefes boquiabertos com Lamparina. Praticamente levou os monitores a aprenderem as técnicas, como fazer, como planejar, com entender seus patrulheiros, como ser um amigo e irmão e ao mesmo tempo liderar e ser liderado e até muitos dos chefes não saiam de perto dele. Ah! O meu amigo Lamparina. Ficou até aos dezessete anos no Grupo Escoteiro. Um belo dia disse que recebeu uma bolsa de estudo para uma faculdade na capital. Muito choro, muitas tristezas muitos apertos de mão e ele partiu em uma tarde fria de um setembro cujo ano nunca esqueci. Mil novecentos e cinquenta e nove! Fez uma falta enorme ao Grupo Escoteiro. Sem ninguém perceber se tornou um líder de todos. Desde os lobinhos até os pioneiros todos o amavam. Passou mais de dois anos sem voltar à cidade de Pedra Quebrada. Eu mesmo como sênior em qualquer Fogo de Conselho ou em uma conversa ao pé do fogo me lembrava dele. Era um mago, um palhaço lindo, um contador de histórias sem igual. Dedilhava um violão com maestria que muitos pensaram que ele seria um dia um cantor famoso.

                       Sempre a cada dois anos ele voltava. Para ele era um volta a Giwell no seu Grupo Escoteiro que tanto amou. Fazia questão de chamar a todos da patrulha, pois lá ainda estava Maniento, Canela, Porteira, Mosquito, Sorridente e Pé de Cabra para um acampamento. Fazia gosto de ver os sete uniformizados, com seus chapelões, orgulhosos com suas mochilas e suas bandeiras ao vento indo descobrir novas florestas, novas campinas, explorando vales e serras altas nas montanhas que circundavam nossa cidade. Eu mesmo que não era da patrulha sonhava em um dia ser convidado por ele. Quando esteve pela última vez deu um abraço apertado em todos. – Amigos agora ficará difícil minha volta sempre aqui ao grupo. Vou partir, uma proposta de trabalho na Suíça vai me tirar o sonho de estar com vocês sempre. Deixo com vocês meu coração, meu amor e minha amizade. Nunca vou esquecer vocês. Nunca. Todos viram em seus olhos naquele homenzarrão forte e alto lágrimas que caiam no chão sagrado de sua cidade.


                         È como se diz por aí - A razão por que a despedida nos dói tanto é que nossas almas estão ligadas. Talvez sempre tenham sido e sempre serão. Talvez nós tenhamos vivido mil vidas antes desta e em cada uma delas nós nos encontramos. E talvez a cada vez tenhamos sido forçados a nos separar pelos mesmos motivos. Isso significa que este adeus é ao mesmo tempo um adeus pelos últimos dez mil anos e um prelúdio do que virá. O adeus triste e choroso valeu por todos aqueles que viveram ao seu lado. Nunca mais voltou e por onde anda deve ter enormes saudades como nós temos por ele. Lamparina, um Monitor que a gente nunca esquece e que se podia se orgulhar!   

Respeitável público! Com vocês... O palhacinho Juju!



Lendas Escoteiras.
Respeitável público! Com vocês... O palhacinho Juju!

Ai, o circo vem aí, quem chora tem que rir,
Com tanta palhaçada, tem hindu que come fogo,
Faquir que come prego, mulher que engole espada!
          
                      Era uma vez, em um país muito distante existia um lindo circo. Cheio de Luzes coloridas tinha trapezistas, palhaços, equilibrista e não faltava o homem que engolia fogo e o outro que engolia espada. Não tinha animais, eles achavam que seria cruel prender um para servir de espetáculo ao público. Esta é a história de Justino, um menino que nasceu paraplégico no Circo Mundo Mágico. Seus Pais se conheceram no Circo. Eram húngaros malabaristas e o amor aconteceu finalizando com o casamento. Foi um dia de festa no Circo. Não sabiam ganhar a vida de outra maneira e o amor à lona estava no coração. Não eram os melhores do mundo, mas sempre foram muito aplaudidos. Possuíam um pequeno trailer e lá viviam felizes. Não tinham contas em banco, cartão de credito e sua fortuna foi aumentada com o nascimento de Juventino. Foi um dia de festa. Adrieen e Gizella estavam sorrindo e contentes com seu primeiro filho. A principio iriam chamá-lo de Nandor, mas disseram que se tivesse um nome brasileiro seria melhor. Foi uma festa no circo. Estavam todos lá. Não havia meninos e meninas, pois havia poucos casais circenses.

                    Naquela noite o espetáculo foi todo dedicado a eles. Claro poucas pessoas, os amantes de circo já não existia como no passado. Justino cresceu e era um menino comum, sorria muito e quase não chorava. Aos dois anos viram que ele não conseguia andar. O médico diagnosticou uma doença desconhecida. – Justino não iria andar nunca mais! Foi um choque para todos. Seus pais tentaram tudo, mas não adiantou. Aos sete anos Justino se acostumou à cadeira de rodas. Rodava para todo lado, sorria, cantava e só ficou muito triste quando soube que nenhuma escola o queria como aluno. Justino adorava de se pintar de palhacinho e nestas horas se transformava em um alegre contador de piadas. Em uma tarde o Senhor Hornelas proprietário do Circo fez um convite: - Quer apresentar como palhacinho? Se quiser tem dez minutos! Foi um estrondoso sucesso. Ficou conhecido da meninada que aos sábados e domingos lotavam o circo só para vê-lo. As palmas pipocavam e todos gritavam – Viva o Palhacinho Juju!

                  A vida não sorria para Justino. Apesar de admirado pela meninada ele se sentia triste. Não tinha amigos, não tinha uma turma para conversar. Quando se aproximava todos se afastavam. Seus pais sabiam o que Justino sentia. O que se passava no coração daquele menino que se mostrava alegre e bonachão. Um dia Justino saiu sem destino. Passou em ruas, pontes e chegou a um pontilhão de estrada de ferro e pensou em passar por ela. Se viesse um trem? Bom pensou Justino, assim minha vida desaparece e quem sabe lá no céu eu possa andar? Seus olhos encheram-se de lágrimas. O que adianta me aplaudirem se fora do circo só mostravam compaixão e diziam piadas sem nexo? Quando se aproximou do pontilhão ele viu vindo em sua direção uma mulher. Linda, vestida de branco, parecia que pairava no ar. Quando chegou perto dele ela disse: - Justino, aceite sua vida, foi você quem pediu. Lembre-se que o mundo da muitas voltas e um dia você irá andar e correr por todo o universo!

                       Justino voltou para casa. Correu para seu lugar favorito atrás do circo sem iluminação onde podia ver as estrelas brilhantes e chorou. Chorou muito. Pediu a Deus que o levasse. Ele não queria continuar assim. Que adiantava aprender a ler com seus pais? Que vantagem deles cantar para ele na hora de dormir? Para que aplausos se ao sair do picadeiro sabia que não tinha amigos? Porque meu Deus! Naquela noite foi para o picadeiro triste. Um palhaço que chora por dentro e ri por fora. Pensou até em não apresentar, mas quando as palmas pipocaram ele se transformou. Notou que a plateia era de meninos e meninas de uniforme azul e caqui, de Chapelão, lenço verde e amarelo no pescoço e todos gritavam: - Justino! “Justino”. Ele esqueceu suas mágoas, mostrou suas qualidades de palhaço, contou as mais lindas piadas e no seu numero do barril todos aplaudiram por muito tempo. Alguns rolaram no chão de tanto rir. Quem eram eles? Porque eu também não sou um deles? a tristeza voltou. No final do espetáculo, naquela noite fria ele esqueceu dos novos amigos do circo. A noite escura e sem luar trazia a verdadeira realidade para Justino. Seu momento mágico se foi. Justino como sempre chorou, ficou horas engasgado não compreendendo porque tinha de ser assim.  

                     Foi dormir bem tarde. Teve um sonho diferente. Tinha pernas para correr e andar. Agora estava com a turma dos Escoteiros correndo pelos campos, acampando e cantando o Rataplã! Acordou suado e pensou de  onde tinha tirado isto. Olhou na beira da cama e sua cadeira de rodas estava lá. Amargurado disse que nunca mais iria se apresentar no circo. Resolveu dar um passeio nos arredores, ao sair ouviu uma algazarra enorme. Vários chefes e Escoteiros estavam a sua procura. Não entendeu bem. Eles o pegaram e o jogaram para cima. Sempre dizendo: - Hora de ser Escoteiro amigo! Topas? – Eu? Como? – vais saber como. Seus pais sorriram e disseram para ir com eles. – Justino, você agora será um dos nossos. Todos os sábados vamos vir aqui buscá-lo. Justino estava sonhando, só podia, mas quando chegou na sede e foi ovacionado ele sorriu de felicidade.

                   Justino aprendeu a cantar, a jogar na sua cadeira de rodas e até acampamentos ele fez. A patrulha Cuco sorria com ele com suas piadas seu jeito alegre de enfrentar as dificuldades. Foi no acampamento que tudo aconteceu. Justino amou amar barraca, tentou ser cozinheiro, mas queimou o arroz e o bife. Ninguém reclamou. Dormiu em uma barraca com mais três amigos. Dormia feito um anjo. Todas as noites Justino sentado na sua barraca pedia a Deus para não acordar daquele sonho. Agora sua vida era outra. Ainda dava seu espetáculo no circo, mas com mais alegria e até mesmo o publico aumentou. Seus pais sorriam ao ver a felicidade do filho. Ninguém nunca entendeu quando Justino contou que a mulher de branco o visitou naquela noite. Ninguém acreditou quando ele ficou em pé e deu seus primeiros passos sem ajuda de ninguém. A partir daquele dia Justino nunca mais chorou. Chorou sim de felicidade.


                   Justino cresceu, não foi o palhacinho que deseja ser. Se formou em medicina. Se tornou um médico famoso por ajudar a todos sem olhar se podia ou não pagar. Seus pais nunca deixaram o circo. Justino sempre ficou junto deles em qualquer cidade que armam sua tenda. Lembro quando conheci o Palhacinho Juju, seu circo, seus pais e quando me vem à mente o seu sorriso me encho de júbilos. Foi uma enorme emoção no dia que ele se levantou da cadeira de rodas e andou gritando e chorando agradecendo a Deus. A emoção nunca foi esquecida. Não acreditam? Eu estava lá! 

sexta-feira, 20 de março de 2015

O meu último toque de silêncio!



Lendas Escoteiras.
O meu último toque de silêncio!

           Tony Blanco chorava copiosamente a minha frente ali naquele bar em uma travessa da Avenida São João. Não me lembrava do nome da travessa, mas ficava próximo ao número 300. – O Senhor se lembra Chefe Vado do Pintassilgo? – Claro que me lembrava. Ele e Tony Blanco eram amigos inseparáveis. – Pois é nunca tive um amigo fiel como ele. Amigo mesmo. De todas as horas. Éramos de Patrulha diferente da sua. Lembro que o Senhor era da patrulha Lobo e nós da Touro. Mas fizemos juntos muitos acampamentos. Lembra-se daquela jornada na Ilha do Cajuru? Foi demais não? – Eu lembrava. Minha mente passeava pelo passado. – Pois é Chefe Vado, desculpe chamá-lo assim. Não sou mais Escoteiro. Eu hoje não sou nada. Um molambo largado na vida. Não tenho família, amigos, nada e nem ninguém que se preocupe por mim.

            A vida sempre a nos reservar surpresas. Um filho me pediu para ir até a Santa Efigênia comprar uns itens de computador para ele. Quando desci do ônibus na São João senti que ia passar mal. Corri até um bar em uma travessa da avenida e pedi um copo de água mineral. O remédio estava comigo. Ajuda mas não muito. Depois tinha que sentar e respirar por alguns minutos. Foi então que o vi. Nada mais nada menos que Tony Blanco. Maltrapilho, sujo, cara lisa, mantinha o mesmo corpo forte do passado quando puseram nele o apelido de Maciste. Mas era uma sombra do passado. A última vez que o vi foi em 1976, em um Seminário Escoteiro em Juiz de Fora. Nunca mais nos encontramos. – Pois é Chefe faz tempo não? Mas ele não sorria. Tony me conte o que aconteceu ao Pintassilgo?

            Morreu Chefe. Morreu. Uma morte horrorosa. Ficamos juntos até 1990. Morávamos juntos, mas sempre mantendo a fleuma de amigos somente. Ele nunca me deixou. O Senhor sabe disto. Por causa dele não casei com a Das Dores. Gostava dela, mas mesmo aconselhando a ele arrumar uma namorada ele ria e dizia – Não quero. Se arrumar vou casar. Se casar você deixa de ser meu amigo. Olhe Chefe muitos interpretaram mal esta amizade. Acho que não entendem que para ser amigos de verdade não precisamos de subterfúgios. Basta gostar. Gostar de maneira simples, sem desejos, sem aspirações que não seja estar junto de quem gosta. Das Dores riu de mim quando disse isso a ela. Interpretou mal. Vim para São Paulo. Pintassilgo veio também. Comecei a trabalhar em uma construtora como Mestre de Obras. Ele também. Alugamos uma pequena casa no Bairro Cajuru. Pequena mas dava para nós.

             - Tony, você ainda toca o Clarim? Perguntei. Lembra quando eu e você nos exibíamos na “banda” do Grupo Escoteiro mostrando nossas qualidades? E quando formos servir no exército? Ficaram em dúvida entre eu e você ser o corneteiro da unidade. Ele me olhou e mesmo com os olhos marejados de lágrimas deu um pequeno sorriso e disse – O joguei fora. Tinha de jogar – Porque meu amigo? – Pintassilgo um dia desapareceu. Tentei encontrá-lo por toda a cidade. Perdi o emprego por que não ia trabalhar. Passou-se dois meses. Que falta Chefe eu sentia dele Chefe. Nada ajudava. Não conseguia emprego fixo. Fui para as ruas. Virei Morador de rua. Aqui e ali uns trocados. A vida ali é dura, mas hoje aprendi. Sei me virar.

               - Largou mesmo o escotismo? – Larguei. Cheguei a ajudar em um grupo próximo a minha casa. Mas senti dificuldade. Aqui se fazia tudo diferente. Gostava dos jovens, mas implicaram com Pintassilgo. Ele sempre junto. Falaram coisas que não gostei. Não entendiam o valor de uma amizade. – Olhe, eu fui a várias delegacias, lá zombavam de mim pelo que eu era. Fui a hospitais, Rodei em prontos socorros, fui ao IML e nada. Não dormia direito. Ainda tinha meu clarim guardado na caixa como quando comprei. Havia anos que não tocava. Um dia com minha carrocinha na descida da Avenida Angélica eu avistei o Nonô, o Senhor deve lembrar-se dele. Era Monitor da Pica Pau e sumiu também com sua família. Eu não sabia quem era ele. Não tinha cabelos e seu nariz fino e comprido não dava para esquecer. – Ele me viu e me reconheceu. Convidou-me para tomar uma cerveja e até pagou para mim um almoço. Fazia dois dias que não comia.

                 - Você soube o que aconteceu ao Pintassilgo? Ele disse. – Não! Conte-me. Faz cinco anos que estou procurando. – Morreu torturado por traficantes na Favela da Caixa D’água. – Chorei na hora. – Por quê? Porque meu Deus? – o confundiram com o Maneco Tiro Certo. Eram quadrilhas rivais. Você não sabe, mas sou investigador da 17º Delegacia. Fui ver uma denuncia anônima. Cortaram sua cabeça, seus braços e pernas. Depois atearam fogo. – Ficamos em silêncio por muito tempo. Eu não sabia o que dizer. – Depois perguntei – E onde foi enterrado? Acho que no Cemitério de Vila Alpina. – E você meu amigo, ainda nesta vida de morador de rua? – Conversamos mais algumas horas e ele se foi. Deixou-me um cartão. – Se precisar telefone disse, ainda somos irmãos escoteiros. Lembrei-me do Chefe Tonho que dizia – Um Escoteiro é sempre irmão. Nunca deixa um dos seus na mão.

                     - À tarde do dia seguinte fui até o cemitério de Vila Alpina. Tomei um banho no Albergue que fiquei hospedado. Coloquei meu uniforme Escoteiro. Estava guardado. Nunca me desfiz dele. Todos os mendigos de lá assustaram. Peguei um ônibus até Vila Alpina. A mocinha que me atendeu não tirava os olhos de mim. Disse-me onde ele estava enterrado. Joviel Peixoto. Eu sabia seu nome. Não havia sepultura. Um buraco. Mais nada. Pedi uma pá emprestada. Fiz uma tampa de terra. Tirei de outros túmulos um pouco de capim. Claro algumas flores também. Achei duas taboas. Fiz uma cruz. À mocinha me olhava de longe. Já estava escurecendo. Tirei da minha bolsa meu clarim. Meus olhos se encheram de lágrimas. A boca seca. Não conseguia tocar. Era demais! Estava engasgado!

                    - Chefe Osvaldo, eu o vi em pé na sepultura. Sorria, não disse nada, estava de uniforme Escoteiro. Brilhava na escuridão. Fez-me a saudação Escoteira. Desta vez toquei meu clarim com garra. E como toquei. O mais triste toque de silêncio que toquei em minha vida. – Sabe Chefe Osvaldo, eu vi, eu vi mesmo muitos que ali morreram ficarem de pé em suas sepulturas calados. Eu vi relâmpagos no céu. Eu vi uma estrela brilhante em cima de nós.
             
                    - Enquanto ele me contava o acontecido eu me lembrei de um pequeno poema que tinha lido – “Os clarins tocam pelos heróis, que morrem pela ignorância humana. O Silêncio é das vozes que se calam diante das injustiças e barbárie que são cometidas contra quem não pode por si, se defenderem”.  Eu conhecia o toque. O toquei milhares de vezes. É um toque triste. Fiquei ali com Tony. Eu também chorava. O bar vazio. Dei a ele meu cartão. Escureceu. Não podia mais comprar o que meus filhos pediram. Despedi-me dele oferecendo ajuda. – Obrigado Chefe Osvaldo. Obrigado. Já tenho o suficiente para viver minha vida de morador de rua. É minha sina. Aqui estou vivendo e aqui morrerei. Saiu me dando um aperto de mão e um Sempre Alerta.

                   - Falar mais o que?

quarta-feira, 18 de março de 2015

Velhos Escoteiros não contam histórias...



Lendas Escoteiras.
Velhos Escoteiros não contam histórias...

                      A tarde ia chegando devagar. Ainda havia sol e eu gostava de ficar ali em minha varanda imaginando o nascer e o por do sol. Eu sabia que a vista não tinha montanhas não tinha arvores e em alguns casos nem mesmo o céu azul eu podia ver. Olhava sim um telhado de um sobrado a minha frente e imaginando que ele o sol caminhava para o oeste sabendo que no dia seguinte ele aparecia no leste. Um automóvel parou na minha porta. Quem poderia ser? Não eram meus filhos, eles que de vez em quando apareciam. Desceu a figura que menos esperava em minha casa. Nada mais nada menos que o Chefe Jack Sparrow, ou melhor, o Comissário Plutarco. Quem não ouviu falar dele? Seu distrito Escoteiro foi famoso. Diziam que ele era a cara do personagem de Johnny Depp no filme que lhe deu fama. Eu já o conhecia a muitos e muitos anos e tinha seus livros que escreveu e agora não escrevia mais. Era mesmo uma figura imponente. Cabelos brancos, seu famoso sorriso que conquistava sem considerar seu caráter ilibado. Como sempre vestido a caráter com seu caqui querido e seu Chapelão. Eu gostava de ver as abas sempre retas parecendo ter saído da fábrica. 

                      Fiquei cismado com sua visita. Claro uma bela visita. – Entre meu amigo, muitas saudades de você. Ele abriu aquele enorme sorriso e me abraçou como sempre fazia. – Perguntou-me: - Vamos conversar aqui na varanda? - Você quem manda meu caro Chefe. Jack estava chegando aos seus oitenta anos. Seis a mais que eu. – Chefe Vado, eu vim aqui especialmente para lhe fazer um convite. Olhei espantado. Ele continuou: – Andei meio afastado do Movimento. Senti saudades e vi que voltar não dava mais. Ando com dificuldade e você sabe, nesta idade sempre temos surpresas que a velhice nos reserva. - Faz parte da vida completei. – Bem vamos logo ao que me trouxe aqui. Há meses organizei em uma rede social, um clube de Antigos Escoteiros. Eram bem vindos quem tinha mais de sessenta e cinco anos. Conversamos, contamos potocas, falamos das tradições e evitamos criticar o presente Escoteiro. São muitas lembranças claro sempre uma pitada de nostalgia. Alguém deu a ideia de fazermos um acampamento que poderia ser anual.  – Olhei espantado para ele. – Não me convidou Chefe Jack? – Não a rede que falamos você não está lá. Entre e será meu convidado de honra.

                        - Em síntese, continuou – Vamos acampar no mês que vem. Seremos quatorze participante. Se você aceitar seremos quinze. – Pensei com meus botões, acampar hoje? Mas porque não? Claro que tenho dificuldades em abaixar e levantar, mas poderia dar um jeito. – Chefe Jack, os demais são como eu? Ele riu. Tem um que vai em sua cadeira de rodas, está vindo de Salvador. Tem outro do Rio que anda de muleta! E daí? Somos Escoteiros e não vamos morrer sem fazer nossos acampamentos. Afinal sabemos ou não improvisar? Sorri. Seria o último de cada um? Pode até ser, mas todos os anos um vai acontecer! Celia chegou e depois dos apertos de mãos, abraços entrou na conversa. – Osvaldo ela disse. Você tem de ir. Tem de voltar aos velhos tempos meu marido! Minha mente fervilhava. Acampar novamente? Será que ia aguentar? Seria um desafio e se Chefe Jack e outros toparam eu não iria ficar de fora. A conversa continuou noite adentro. Chefe Jack Sparrow se despediu lá pelas onze da noite. Mando para seu e-mail o dia a hora e o local aonde vamos nos encontrar. Vamos dividir as despesas. Um ônibus estará lá.

                        Olhe não vou contar meus preparativos, pois todos Escoteiros fazem o mesmo. Eu parecia aquele Vado do passado, olhando a mochila, limpando, passando meu uniforme, dando um trato na minha faca e meu facão, desinfetando meu cantil e achei lá no fundo do baú meu cabo ainda enrolado como gostava. Achei a capa preta e sorri ao ver que ela estava nos trinques. Célia me levou ao local do encontro. Cheguei em cima da hora. Ela carregou minha mochila até o ônibus, pois eu estava meio zonzo com tudo. Abraços, eu sou fulano, sempre alerta! Prazer em conhecer você. Vai ser bom convivermos por três dias juntos! – Estas eram as palavras de ordem. No Ônibus? Bem parecia meninos a ir acampar. Bom demais. E a cantoria? E as tosses? E os remédios cruzando de mãos em mãos? Claro todos levavam seus apetrechos farmacêuticos. Esqueci, havia uma mulher. Não vou dizer o nome, mas foi DCIM há muitos anos. Famosa. Até hoje nos seus 84 anos era linda como foi no passado.

                    O local era maravilhoso. Um lindo bosque, um riacho cantante (adoro riachos que cantam), as barracas ainda por armar e o Chefe Jack Sparrow perguntou se alguém precisava de ajuda. Combinei com ele de uma barraca só minha. Seria uma aventura entrar nela, deitar, levantar várias vezes a noite e voltar. Mas sei que valeria a pena. Uma pequena casa com algumas camas e uma cozinha completavam nosso campo. Combinamos de nós mesmos cozinhar. Dividimos em patrulha. Não sei, mas eu acho que esqueci minhas dores, meu ar e meus amores. Fiz uma polenta que deixou todos de água na boca. Ao lado da casa tinha muitos bambus cortados. Minha poltrona do Astronauta não ia ficar sem fazer. Juntos fizemos uma mesa grande. Cabiam todos. Nunca vi tantos sorrisos de Velhos Escoteiros. Ninguém gemia a não ser uma tosse aqui e ali. Faz parte da velharia diziam. Risos. Todas as noites nos reuníamos em volta de um fogo. Cada um cantava, apresentava um número qualquer para os demais, palmas eram inventadas e um dia ficamos até às duas da manhã, sob os cuidados do orvalho que caia.

                     O Fogo de Conselho foi demais. Ninguém conhecia o Serafim. Rí à beça quando vi aquela velharia caindo de solapa no chão. Há muito tempo não ria assim. Todos pareciam irmãos de patrulha. Sempre com um sorriso nos lábios, hora nenhuma ninguém baixou enfermaria. Na canção da despedida nunca vi tantos velhos Escoteiros chorando. Ao terminar nos abraçamos com lágrimas nos olhos. No final do domingo veio à partida. Fizemos questão de nós mesmos desarmar as barracas e fazer a limpeza do campo. Ninguém fez inspeção, não precisava. Ali estava vários primeiras classes, cinco DCBS, três DCIM e eu me sentia que era um Pata-tenra junto a eles. Na volta as canções custavam a sair. As vozes estavam embargadas. Era difícil cantar. Foi bom demais. Cada um pegou seu taxi e partiu para sua viagem de volta. Célia me esperava. Eu fiquei ali até o último partir. Ainda chorava. Sou Velho e chorão.

                     Acordei deste meu conto e sonho sorrindo. Nada existiu. Sabia que não houve este acampamento. Quem sabe um dia? Não morrerei sem meu último acampamento. Pode ser sozinho ou com amigos. Não posso fugir do meu destino Escoteiro, nunca. E como se dizem por aí: - Se for para esquentar, que seja o sol; Se for para enganar, que seja o estômago; Se for para chorar, que seja de alegria; Se for para mentir, que seja a idade; Se for para roubar, que se roube um beijo; Se for para perder, que seja o medo; Se for para cair, que seja na gandaia; Se existir guerra, que seja de travesseiros; Se existir fome, que seja de amor; Se for para ser feliz, que seja o tempo todo! Feliz Acampamento! 

segunda-feira, 16 de março de 2015

Maléfica, a bruxa malvada do lago Cinzento. (Uma história para contar na Alcateia)



Lendas Escoteiras.
Maléfica, a bruxa malvada do lago Cinzento.
(Uma história para contar na Alcateia)

"Existe aqui uma mulher
Uma bruxa, uma princesa
Uma diva, que beleza!
Escolha o que quiser
Mas ande logo
Vá depressa
Nem se atreva
A pensar muito
O meu universo
Ainda despreza
Quem não sabe
O que quer...”.

                   Tico viu todos na varanda cantando uma canção Escoteira com a Akelá. Tirou os olhos dela e viu um pequeno quati parado em baixo da castanheira. Ele quieto olhava todos sem se assustar. Tico sorriu. Deu vontade de acariciar o quati. Sem pedir foi sozinho até lá. Ninguém viu e Tico pensou que ele era um lobinho esperto. Tico não sabia que era um Porco-espinho, melhor ele nunca tinha visto um. Ninguém nunca soube como ele foi parar ali. Não tem no Brasil e deve ter fugido de alguma fazenda. O porco-espinho é um roedor coberto de espinhos afiados. Se tocar vai furar sua pele na certa. Tico coitado se achava um lobinho esperto. Quantas vezes fez firulas e cambalhotas só para impressionar? Não pediu, não disse a ninguém abaixou e pegou o porco-espinho no colo. Foi um Deus nos acuda, gritou de dor, muitos espinhos furaram seu uniforme e se alojaram em seu peito. Nem Balu que conhecia enfermagem conseguiu ajudar. Tico berrava e gritava sem parar. A Alcateia começou a ficar em pânico. O único veículo saiu para comprar pães e o kaá disse que ia demorar. Ia até a cidade resolver com seu Chefe a dispensa do sábado.

                  A Akelá ficou possessa. Agora que precisava manter a calma ela gritava toda vez que tico berrava de dor. O Balu tentava acalmar, mas ele mesmo estava perdendo a calma. Lambretinha era filho do Caseiro que também não estava em casa. Procurou a Akelá e disse: Leve-o até a Maléfica, era vai curar o lobinho! – Quem é Maléfica? Perguntou a Akelá. – A bruxa do lago cinzento! E onde fica este lago que eu nunca vi? Depois da montanha do Cavalo! E onde é esta montanha do Cavalo? Lambretinha olhou para a Akelá. Mulher que pergunta tudo, linguaruda na certa pensou. Melhor é pegar o lobinho ele mesmo e levar lá. Foi até ao galpão de máquinas e pegou um carrinho de mão. Voltou, pegou Tico e o colocou dentro dele. A Akelá perdida não sabia o que fazer, o Balu disse a ela que ia junto.

                 Era quase onze e meia da noite. Não havia lua e uma lanterna cobria a estradinha de terra que Lambretinha seguia levando Tico. Ele tinha desmaiado. Foi bom, pois a dor era intensa. Pequenina uma lobinha que gostava muito de Tico chorou para ir também. Balu deixou. Quando a matilha azul viu que Pequenina ia ela berrou para ir também. Muitos lobos quiseram voltar quando ouviram latidos de lobos na floresta. Um frio danado. Balu se arrependeu em deixar toda a Alcateia ir, afinal achou que seria não só uma lição, mas um bom programa para que eles voltassem cansados e dormissem logo. Atravessaram uma estradinha com pedras gigantes e avistaram o lago. Porreta primo da matilha verde gritou engasgado: - Lá está à casa da bruxa! Todos olharam perto do lago uma choupana, com muita fumaça saindo pela chaminé. – É hora que ela esta comentando asas de morcego! Falou. Cidinha começou a chorar, atrás dela também o Matheus, o Valentino e a Noêmia. Uma choradeira infernal. Balu ficou com medo da bruxa.

                     Balu lembrou-se quando pequeno, sua mãe recitava para ele: - Morato, Todos temos um bruxo ou bruxa dentro de nós. Queremos poder transformar momentos ruins em bons. Gostaríamos de ter a varinha mágica que mudaria nossa vida. Ele não tinha a varinha mágica. Chegaram à porta. Uma mulher desgrenhada apareceu. Abriu a boca e só tinha dois dentes. Todos pelavam de medo. Moreninha da Matilha branca lembrou-se do que a professora disse, falou alto para todos ouvirem: Uma bruxa tem uma cara horripilante. Anda com roupas imundas e carrega um saco nas costas ou amarrado na cintura! A bruxa é um ser fantástico do mal, que persegue os outros seres fantásticos, seres humanos e os bichos da floresta! A Alcateia se abraçou. Todos queriam ficar dentro da roda. Tremiam igual vara verde. Até o Balu correu para a roda dos lobinhos também. Lambretinha parecia não ter medo, mas tinha. Sempre teve. Mesmo quando a bruxa o salvou da Onça que quase o comeu.

                           A bruxa pegou Tico nos braços e entrou. Ninguém quis entrar. O Balu perguntou a Lambretinha o que ela estava fazendo: - Um ensopado para Tico. Ela já colocou no caldeirão perna de rã, rabo de cobra, minhoca, unha de macaco, banha de porco-espinho, miúdos de anta, alho, sal grosso e pimenta malagueta! Deus do céu pensou a lobada. Ela vai matar Tico! Mas eis que ele aparece na soleira da porta sorrindo. Olhou para trás e disse: - Obrigado Dona Bruxa. Dona não ela gritou lá de dentro, sou solteira e me chamo Maléfica e moro no lago cinzento! Lambretinha perguntou quanto é e ela respondeu: - Trabalho de Bruxa não tem preço, se um dia tiverem língua de meninos e meninas mal criados, que não respeitam os mais velhos, ou nariz de meninos e meninas traquinas que não estudam na escola, podem trazer para mim, me sentirei bem paga!

                          A Akelá estava na varanda apavorada, quando lhe contaram tudo ela sorriu. Olhou para o Balu como a dizer, melhor não contar que foi uma bruxa quem salvou Tico, mas a lobada sabia que não ia mentir. Todos foram dormir, um canto triste se ouviu nas serras distantes, quem canta? Perguntou a Akelá ao Lambretinha – A bruxa moça, a bruxa. Agora ela foi viver em seu habitat, locais úmidos e escuros, cercada de animais nojentos como baratas, cobras, escorpiões, ratos, morcegos e piolhos. Lá os mosquitos adoram chupar seu sangue! Quer ir lá para ver? Nem morta! Gritou a Akelá! E naquela noite todos dormiram e sonharam sonhos incríveis onde viram Malva, Malvina e Malvona em volta da casa onde dormiam e cansadas de dançar ficaram na varanda fazendo Tricô e lendo histórias de terror!

domingo, 15 de março de 2015

Como era verde o meu vale.



Lendas Escoteiras.
Como era verde o meu vale.

                   Nunca esqueci meu querido pai, era ele que sempre me levou lá. Fazia questão de todos os sábados subir uma pequena montanha na nossa cidade até um descampado onde se descortinava uma vista linda. Lembro que nos meus dois anos, três e quatro eu pouco entendia. Sentávamos e ficávamos a admirar o verde a pequena estrada de terra, as plantações de cana, o pequeno bosque, os montes verdejantes e em alguns meses do ano ficavam dourados. Meu pai dizia que eram as flores que desabrochavam. Dava para ver o sítio do Seu Alfredo, e muito mais longe a Fazenda do Senhor Lomanto. Meu pai não dizia nada. Ele um dia me disse: - Meu filho olhe e ame cada pedaço deste vale. Faça dele um retrato vivo para lembrar em todas as horas que estiver triste e que nada der certo para você! Eu não entendia nada. Olhava e olhava. Queria conversar com ele, queria correr por cima das flores que forravam o chão verde do capim gordura. Queria sorrir e brincar com ele, mas ele sério, sentado na grama não tirava os olhos do vale em flor.

                Até os onze anos, mesmo depois que passei para os Escoteiros ele fazia questão. Parou quando foi para o céu. Dia triste, era como se a terra me engolisse em suas entranhas e me aprisionava com meu choro convulsivo. Os amigos de patrulha ficaram ao meu lado. Minha mãe não chorava diziam que era uma mulher de fibra e eu nem sabia o que era isto. A vida continua disse o Chefe Orlando. Ninguém está livre para dizer que vai viver para sempre. Eu nem me lembrei do vale verdejante do meu pai. Eu devia ter lembrado, pois ele sempre me aconselhava que nas horas tristes fechasse os olhos e pensasse no vale. Seria um bálsamo para o meu coração. Os anos passaram, eu cresci e esqueci completamente o vale florido do amanhecer como o chamavam. Como Escoteiro estive em lugares incríveis que me faziam sonhar, mas sem perceber vinha-me a mente o vale do meu pai. Não havia comparação. Como sênior um dia avistei um vale lindo, amarelado, flores da primavera desabrochando, borboletas azuis, vermelhas e douradas esvoaçando pelo ar. Mas não se comparava ao vale do meu pai.

                  Tornei-me homem, casei amava a mais linda mulher do mundo. Nasceu o primeiro filho e a felicidade era tanta que me esqueci de tudo, da minha mãe e do meu pai com seu vale verdejante sempre em flor. Ninguém é feliz para sempre e eu sabia disto. Eu sabia que os dias passam e as rotinas nem sempre são as mesmas. Meu filho adoeceu. Eu e ela ficávamos ao seu lado no quarto do hospital rezando para ele voltar a ser o que era. Eram dias e noites onde a tristeza se misturava com as orações que fazíamos pedindo a Deus que não o levasse. Chefe Escoteiro eu aprendi a enfrentar as coisas difíceis, aprendi a sorrir se preciso, mas não era um bom seguidor da lei que dizia que devemos sorrir nas dificuldades. Perdi quase tudo que tinha. Vendi minha loja meu carro e minha casa para pagar as despesas de hospital do meu filho. Nunca esqueci a ajuda dos meus amigos do escotismo. Eles nunca me abandonaram nunca me cobraram as reuniões que não comparecia.

                 Eu tinha saudades dos meus Escoteiros e Escoteiras, saudades das reuniões, saudades dos acampamentos, dos sorrisos nas noites de Fogo de Conselho e até mesmo quando junto aos monitores contávamos histórias fantásticas em volta de uma fogueira. Foram quase seis meses de agonia, eu já estava perdendo a fé, meus olhos sempre vermelhos e lágrimas não se faziam de rogadas para cair. Não sei por que não dominamos as lágrimas, elas não pedem para aparecer e descer pelo rosto até cair ao chão e desaparecer no tempo. O médico não nos dava mais esperança. Uma noite chorando eu vi meu pai. Ele sorria, fazia sinal para segui-lo. Eu sabia onde, era assim que ele me chamava sempre para ir com ela no verde vale do amanhecer. Agora eu sabia o que tinha de fazer. Disse para minha amada que ia partir. Que ela rezasse por mim. Seriam poucos dias. Um ônibus me levou a minha antiga cidade. Cheguei lá pela manhã. Avistei a montanha onde se avistaria o Vale do meu pai.

                Senti que não era mais o mesmo. Cansei-me, parei várias vezes antes de chegar ao cume, ao local onde sempre em cima do capim gordura a gente sentava e meu pai nada falava e só olhava o seu verde vale florido. Quando cheguei lá havia um cerca. Antes passe livre agora os homens diziam quem pode e quem não pode entrar. Deus criou a natureza, as montanhas os rios, criou o vento os mares e as estrelas e não disse que pertencia a alguém. O homem tomou tudo para si e decide quem entra e quem sai. Passei entre o arame farpado e um corte profundo aconteceu em minhas costas. Não liguei, fiquei a procurar o local onde meu pai me levava. Encontrei mas com um arvoredo que tampava a vista. Desci um pouco e então eu avistei. O verde vale florido do meu pai continuava lá. Sentei. Queria chorar, mas não era de alegria. Queria que meu filho estivesse ali comigo. – Deus! Por favor, que aconteça o que foi programado, mas se meu filho sobreviver eu o trarei aqui para ver o que não vi antes e agora bate fundo em meu coração.  

                 Fiquei no mesmo lugar por horas. A noite chegou. Desci a montanha e retornei. Ao chegar ao hospital centenas de pessoas na porta. Eu não aguentei. Chorei a mais não poder. A noticia eu pedi que não me dessem. Ninguém sabia a dor que estava sentindo. Entrei, cheguei ao quarto minha esposa e ela veio correndo me abraçar, mas não chorava. Com lágrimas nos olhos me mostrou nosso filho sentado na cama e sorrindo. Quase desmaiei de alegria. Não cabia em mim de contente. Esqueci-me de tudo até da minha promessa de levar meu filho na montanha onde havia o verde vale do meu pai. Um ano depois vi meu pai quando o toque de silêncio aconteceu no acampamento de verão. Ele me fazia o sinal de sempre. Eu sabia que ele estava me cobrando minha promessa. Não me fiz de rogado. Passei o comando para os assistentes e voltei para casa. Falei com minha esposa sobre tudo. Ela sorria e concordou. Acordei meu filho e fomos para a rodoviária. Ele sorria como se fosse sair em férias.


                 Estamos aqui eu e ele a olhar o Verde Vale do amanhecer do meu pai. Ele ainda não entende. Tem quatro anos. Sentados na grama do capim gordura, ficamos eu e ele admirar o verde a pequena estrada de terra, as plantações de cana, o pequeno bosque, os montes verdejantes e em alguns meses do ano eu sabia que ficavam dourados. Disse para meu filho que o colorido e o verde do vale eram as flores que desabrochavam sempre na primavera. Mostrei a ele o sítio do Seu Alfredo, e muito mais longe a Fazenda do Senhor Lomanto. Ficamos ali calados por muito tempo. Eu sabia que como eu no passado distante ele não entendia nada. Baixinho quase sussurrando olhe para ele disse: - Meu filho olhe e ame cada pedaço deste vale. Faça dele um retrato vivo para lembrar em todas as horas que estiver triste e que nada der certo para você! Não sei por que estava engasgado, meu coração batia forte, as lagrimas caiam como cascatas que apareciam sem pedir. Ele me olhou e franziu a testa, alguém colocou a mão no meu ombro. Era meu pai. Sorria, meu filho sorriu e o Vale verde do meu pai também sorriu!