Histórias e contos escoteiros.

Histórias e contos escoteiros.
Feitas para você se divertir!

sábado, 28 de fevereiro de 2015

O grande jogo do Ouro da Esfinge.



Lendas Escoteiras.
O grande jogo do Ouro da Esfinge.

                     Seria uma atividade de um domingo. Próximo ao Vale Cinzento. Disseram que seria filmado por uma emissora. Uma grande publicidade para o escotismo. Não podíamos ficar de fora. A vida pulsava com alegria em nossa tropa. Claro muitos esperando ansioso o dia em que iriam confraternizar com outras patrulhas. Diziam que estariam presente vinte ou trinta patrulhas. Talvez um pouco mais com as patrulhas femininas. Às oito da manhã partiram para a Matriz onde seria o ponto de encontro. Muitos lá estavam e como sempre a tropa do Chefe Jurema foi à última a chegar. Ele um rapagão de uns vinte e cinco anos, óculos escuros, chapéu de exploradores canadenses e uma vareta embaixo do braço. Chegou sem cumprimentar ninguém e deram o grito de tropa. Como sempre diziam que eram os melhores, iam arrasar. Nem o demônio podia com eles enfim um monte de asneira mais própria de times sem formação e que não sabiam ainda o que era uma fraternidade Escoteira.

           O distrital tomou a palavra e explicou o jogo. A conquista do Ouro da Esfinge. Deu como ponto de partida uma parte do Vale Cinzento que ia da nascente até a estrada do Astro Rei que cortava boa parte do Vale. Ali estavam escondidos quinze lenços escoteiros. Todos numerados. As Patrulhas não precisavam seguir a ordem, mas para achar a pista final precisavam de pelo menos cinco lenços. Menos que isto não seria fácil chegar ao Ouro da Esfinge. A ordem era clara. Toda a patrulha deveria  estar sempre juntos. Em cada ponto haveria um Chefe Escoteiro. Se a Patrulha dispersasse seria desclassificada. Às treze horas poderiam parar para o lanche. Obrigatório. Deu outras instruções e depois o debandar. Paulo Cobra Monitor da Caveira do Diabo (Como deixaram dar esse nome a uma Patrulha Escoteira ninguém sabia) se aproximou sorrindo e disse para Nonôvat – Não me esperava eim? Não tem para ninguém. Você sabe que somos os bons, os melhores da cidade. Melhor reconhecer agora e desistir! E começou a rir se dirigindo para sua Patrulha.

              O jogo começou guerra! Gritou o Comissário Distrital. Eram dez da manhã. Vai aqui, vai ali e a Patrulha Jaguatirica conseguiu achar três lenços. Faltavam ainda dois. Ao meio dia e vinte Nonôvat viu Paulo Cobra sozinho correndo sem a Patrulha. Não podia. Era contra as normas. Chamar um Chefe e dizer? Nonôvat preferiu ir atrás dele e ser sincero – Se continuar vou informar ao dirigente distrital. E ele sabia que faria isto. Correu atrás de Paulo Cobra que tinha subido em um penhasco proibido pela direção do jogo por oferecer grande perigo. Avisou sua Patrulha, deixou Leozinho no comando. Ao subir uns oitenta metros ouviu um grito de socorro. Avistou lá em bairro Paulo Cobra estirado em cima de um galho enorme de uma árvore. Desceu com cuidado.

              Paulo Cobra chorava. Gritava de dor. Dizia ter fraturado uma costela e o braço. Nonôvat achou que deveria ir buscar ajuda. Mas ventava forte e ele sabia que uma tempestade se aproximava. Deixar Paulo Cobra sozinho seria pior. Subiu na árvore. Galho por galho foi descendo Paulo Cobra. Ele gemia. Chorava e pedia sua mãe. Com muito custo chegou ao pé da árvore. A chuva caiu. Forte. Raios cortando pedras e árvores no fundo da garganta. Viu uma grande pedra que fazia uma espécie de caverna a uns quarenta metros. Pegou Paulo Cobra a moda Escoteira e o carregou ombro acima até a pedra. Não foi fácil. Ele era pequeno. Paulo Cobra forte, meio gordo. Nonôvat não desistiu. Chegou à pedra e protegeu o Paulo com sua blusa Escoteira ficando sem nada sobre a pele. Disse que ia buscar ajuda. Paulo gritou que não iria ficar só tinha medo. Muito medo.

             A chuva passou. Nonôvat pegou novamente Paulo Cobra e o colocou no ombro. Poderia ter ido buscar ajuda, mas Paulo Cobra choramingava, pedia para não ficar sozinho. Andava tropeçando. A cada cem ou duzentos metros parava para descansar. Viu que ia escurecer. Resolveu fazer um SOS. Acendeu um fogo com muitas folhas verdes. Com sua blusa presa em duas varetas tentava fazer no código Morse as letras S. O. S. difícil. Se conseguiu ou não a noite chegou. Mas menos de uma hora depois ouviu vozes.  Vários chefes chegando. Paulo Cobra foi levado por uma carroça de um sitiante. Nonôvat soube depois que quebrou duas costelas, uma fratura na coxa direita e no braço direito. Mas ia ficar bom. Levou sua Patrulha para visitá-lo em sua casa. Foi muito bem recebido. Paulo Cobra chorou varias vezes e pediu perdão por tudo que fez. Nonôvat o abraçou. Ficaram amigos para sempre.

                       Dois meses depois um “monte” de chefes adentrou a sede. Nonovat sabia que eram figurões da região e do distrito. A ferradura foi formada. O Chefe Ricardo usou da palavra para apresentar a todos. O Presidente Regional chamou Nonovat a frente. Ele se assustou. Que seria? Então ficou sabendo que iam lhe entregar a medalhar de valor. Ouro. Não era bronze e nem prata. Seria ouro mesmo. Acharam que ele mereceu. Nonovat segurou as lágrimas. Ele não era de chorar fácil. As patrulhas deram o grito. Nonôvat estava tremendo. Emocionado. Viu que seus pais também estavam lá. Todo o grupo se fechou em circulo fechado e deram o grito do grupo. Uma festa. Ele Nonôvat não sabia. No salão de festas muitos comes e bebes. Primeiro entraram os grandões, depois chamaram Nonovat. Ele educadamente disse que sua Patrulha fazia parte dele. Assim como as demais. Entraram todos. Até tarde da noite cantaram e brincaram. Nonôvat em hora nenhuma se sentiu superior. Ele sabia o que tinha feito. Ajudar um amigo Escoteiro. Não importa quem ele seja.


                       Nonôvat teve muitas outras histórias. Histórias que não serão contadas. Histórias de escoteiro de valor. História de Escoteiro amigo e fraterno. Aquele que pensa primeiro nos outros e que tem amor no coração. Dizem que cada coração tem uma sentença. Tem sim, Nonôvat tem a sentença de fazer o bem. Espírito Escoteiro antes de tudo. Soube que ele e seus patrulheiros sempre ficaram juntos mesmo quando passaram para Sênior. José Sanho, Marlon, Leozinho, Marcondes, Daniel um cozinheiro adorado e Zezé Ruaça. Uma vez eu disse para mim mesmo, tem gente que nasce para ser Escoteiro, tem gente que nasce para ser um grande Escoteiro e tem aqueles que nascem para dar o exemplo de humildade e amor com todos ao seu redor. Nonôvat, um Escoteiro que nunca será esquecido!   

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

A Árvore da Montanha.


Lendas escoteiras.
A Árvore da Montanha.
(Um tributo à canção símbolo dos escoteiros do Brasil)

¶ A árvore da montanha
Ole-li aio...

        Não se mede o tempo. O tempo não pode ser medido. O tempo eu o trago comigo presente nas minhas lembranças como se fosse ontem, tudo está ali na minha frente como se estivesse gravado um filme que nunca esquecerei. Tanto tempo se passou? Alguns dizem que sim, mas para mim cada história do meu passado se torna presente quando eu começo a lembrar. Foi em um acampamento na Chapada dos Lagos Negros. Naquela estradinha de terra a carretinha não tinha o barulho peculiar das rodas na engrenagem. Nas retas dois bastavam para empurrar e nas subidas todos colaboravam. Moleque o intendente sabia do seu ofício. Ganhou do Seu Toledo do Posto de Gasolina um galão de graxa. Das boas. Sei que ela durou anos. Todo mês Moleque lavava a carretinha e lubrificava. Fazia isto com um carinho enorme. A carretinha era como se fosse sua vida. Grande sujeito o Moleque.

¶ Esta árvore tinha um galho O que galho, belo galho.
Ai, ai, ai que amor de galho. E o galho da árvore...

        A jornada era para todos os patrulheiros uma diversão. O acampamento nós sabíamos que deixaria saudades. Duas coisas chamavam a nossa atenção quando acampávamos na Chapada dos Lagos Negros. Logo depois da Curva do Lobo Cinzento avistaríamos o Sitio do Seu Modesto. Gente boa, grande amigo. Gostava da gente como se fossemos seus filhos. Tinha dois e eles cresceram, mudaram para a capital e o deixaram sozinho. Dona Salete morrera há muitos anos e ele fazia de tudo não só para os filhos como para os amigos que lhe davam a gratidão de uma visita. Ele não estava na varanda, mas ela lá estava imponente, enorme mais de seis metros, há mais linda Porteira que tinha visto. Dava um ar clássico e acolhedor às paisagens do campo. Entre as duas sebes os mourões de madeira de lei se sobressaiam. Quem a fez era um artista. Ela era verde, uma verde oliva que se sobressaia na entrada do sitio. Corremos até ela, tiramos as mochilas e sem avisar ao Seu Modesto encarapitamos em cima dela no primeiro vão entre uma taboa e outra. Um de nós empurrava até o barranco, dava seu pulo certeiro e lá ia ela correndo ao vão do outro lado com aqueles sete Escoteiros sorrindo e com um cantar que nunca esquecemos.

¶ A arvore da montanha
Ole-li aio...

      O barulho que ela fazia era uma melodia doce e suave para nossa audição de Escoteiros mateiros. Na varanda Seu Modesto chegava e nos cumprimentava. Querem almoçar? – Grato Seu Modesto, temos de partir, queremos chegar até às duas da tarde! E despedindo dele e da porteira partíamos. Agora era o Morro da Saudade. Quase dois quilômetros de subida. Todos em volta da carretinha empurrando. Sabíamos que logo após a Curva da Nascente ela estaria lá, imponente, a desafiar a natureza com sua arrogância de uma altura e copa sem igual. A Castanheira se destacava sozinha naqueles pastos verdejantes. Única a desfilar pelas terras dos sonhos.  Ela com sua magnífica pose reinava sozinha. Era hora de encher os cantis na nascente e molhar o rosto, tirar os sapatos e sentir a água fria nos pés. Uma delicia incomparável! Depois um descanso embaixo dela, descanso que muitas vezes ficamos até o raiar do outro dia. A Castanheira nos fazia sonhar, uma Árvore na Montanha que chegava aos céus.

¶ Este galho tinha um broto Ó que broto, belo broto.
Ai, ai, ai que amor de broto. E o broto do galho E o galho da árvore.

          Nossas mochilas nossos travesseiros saudosos nos fazia sonhar ali embaixo daquele sombreiro maravilhoso. A Árvore da Montanha parecia sorrir. Desta vez não ficaríamos muito tempo. Hora de partir, podia chover ou escurecer e precisávamos chegar. Partimos. Sempre olhando para trás como a dizer a Castanheira que não era mais que um até logo, não era mais que um breve adeus. A volta já estava marcada. No topo da serra onde a Árvore da Montanha reinava avistamos a Chapada dos Lagos Negros. Dois lagos pequenos com um grande bosque em volta. Quantas vezes fomos ali? Nem lembro mais. Eu só lembrava da Montanha onde tinha uma Árvore.

¶ A arvore da montanha
Ole-li aio (bis)...

           Sonhos não morrem jamais, sonhos vividos são lembranças firmes na mente que dificilmente deixaremos fugir com alguma outra recordação que não queremos perder. Acampamentos? Foram tantos! Todos marcados no livro da vida. Os campos que nos receberam sorrindo, as selvas que se apaixonaram por nós, os vales que se deleitavam com nossas presenças. Uma noite, duas um punhado. Sem novidades no Front. Ali na Chapada dos Lagos Negros nos divertíamos em um acampamento gostoso, um vento sul com brisas frescas, sem chuvas, lagos a pedirem que banhássemos em suas águas cristalinas. Foi no penúltimo dia quando a noite chegou fizemos um fogo estrela no centro do campo de patrulha, Escoteiros sorrindo, uma conversa ao pé do fogo, canções indo e vindo e ao cantarmos a Árvore da Montanha veio à lembrança. Olhamos uns para os outros. Não havia o que discutir. Iriamos partir um dia antes.

¶Este broto tinha uma folha. E esta folha tinha um ninho.
E este ninho tinha um ovo.

            O acampamento estava supimpa, gostoso, mas não sei por que nos deu uma saudade enorme da Árvore da Montanha. Partimos à tardinha. Lá estava ela, pomposa, imponente como a nos dizer – Sabia que viriam! Montamos rancho ali sobre sua sombra, um jantar delicioso, um fogo quadrante sem fumaça para não machucar a Castanheira. A noite chegou. Não tinha problemas... Sete Escoteiros ali sob a Árvore iriam tê-la junto às estrelas cintilantes como sua barraca, dormir e sonhar com a vida escoteira. A Árvore da Montanha estava feliz. E ela junto aquelas sete almas nobres também dormiu. Era como se estivessem abraçados. Tornaram-se um só. Brancas nuvens no céu sorriram. A estrela Dalva apareceu como se fosse um anjo para olhar aqueles meninos heróis e aquela Árvore centenária que abrigou para sempre todos os Escoteiros do Brasil. Da árvore do silêncio pende seu fruto, a paz.


¶ E este ovo tinha uma ave. E esta ave tinha uma pluma. E esta pluma tinha um índio.
¶ E este índio tinha um arco. E este arco tinha uma flecha. Esta flecha foi na árvore ó que árvore, bela árvore. ¶ Ai, ai, ai que amor de árvore.
E a árvore da montanha
Olé-li-aio (bis).

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

A lobinha Mariana e o boneco de papel. (um conto baseado na história de Pinóquio)


Lendas Escoteiras.
A lobinha Mariana e o boneco de papel.
(um conto baseado na história de Pinóquio)

                       Ah, Não sei se você a conheceu. Linda menina, olhos alegres, nariz fino, esperta muito esperta. Tinha um defeito enorme que todos que a conheciam sabiam. Ela gostava muito de contar uma mentira. Sempre contando fantasias que nunca existiram. Sempre inventava, tirava da imaginação coisas que não existem e mesmo sua mãe lhe dizendo que era errado, ela ria baixinho e lá vinha outra mentira. Lisbela a Akelá vivia dizendo que um dia ela iria se arrepender se não parasse de mentir. – Marina, você conhece a Lei do Lobinho. A quinta diz tudo, a lobinha diz sempre a verdade! Marina fingia estar triste e sempre prometia nunca mais mentir. Não era de hoje que ela mentia. Enquanto pequena todos achavam graça e riam dizendo que ela tinha uma fértil imaginação. Então foi crescendo e seus pais só ouviam reclamações dos vizinhos, professores e até dos chefes de sua alcatéia. Sua mãe sempre dizendo sempre insistindo para ela não mentir.

                      Muitas das suas mentiras causaram mal estar, prejudicaram pessoas, fizeram com que elas brigassem com histórias que nunca existiram. Um conselho de primos aconselhou que ele fosse mandada embora. Na matilha ninguém mais gostava dela. Mariana um dia se sentiu infeliz. Acreditava que a mentira ajudava falava para si própria que é melhor uma mentira que um verdade enganosa. Sua mãe intercedeu por ela na Alcateia – Não posso prometer nada, mas o que farei se ela sair? As mentiras irão continuar e a possibilidade dela fazer amigos será muito difícil. Uma vez sua mãe a deixou presa no quarto por uma semana. Ela chorava tanto que ela ficou com pena e a soltou ameaçando: Mais uma e você irá ficar lá para sempre. Mariana sabia que não ia parar, não tinha jeito. A mentira se tornou uma verdade para ela. Tudo aconteceu naquele acantonamento de verão. Foram no sítio Vera Cruz do pai de Alfredinho um lobinho da matilha marron. Ela sentiu que ninguém se aproximava dela. Chorou muito e foi sentar embaixo do abacateiro que estava carregado de abacates.

                     Foi então que ela viu um velhinho, barbas e bigodes brancos. Ele se apresentou a ela se dizendo chamar Gepeto. – Você não me conhece? Nunca leu as histórias que contaram sobre mim? Fui eu quem construiu Pinóquio, o boneco de madeira. Não sabia que a fada madrinha dele o transformou em um menino de verdade. Meu boneco criou vida. Eu claro fiquei feliz. Agora eu tinha um filho o que nunca tive. Pensava em fazer de Pinóquio um menino educado. O coloquei na escola mas Pinóquio fugiu e foi brincar no Teatro de Bonecos. Pinóquio me ignorou e ficou com o dono do Teatro e depois ele chorou tanto que o homem lhe deu umas moedas e o deixou partir. Ele voltando para casa encontrou dois ladrões. Mesmo que seu amigo o Grilo Falante desse conselhos, resolveu seguir com eles e foi roubado. Pinóquio ficou triste e resolveu voltar para casa e me obedecer. No caminho um pássaro que cantava me avisou que ele fugiu para o mar. Viu muitas crianças sorrindo que iriam para o país da Alegria. Pinóquio como hipnotizado por eles seguiu-os. Eles o transformaram em um burro.

                     Foi então que lhe deram a maldição do nariz grande. Disseram para ele: - Toda vez que contar uma mentira seu nariz vai crescer um pouquinho. Pinóquio tentava evitar contar mentiras, mas não tinha jeito. Seu nariz crescia e crescia. Ele chorava arrependido e jurava nunca mais contar uma mentira. Sua Fada Madrinha apareceu e desfez o encanto, mas avisou: - Toda vez que mentir seu nariz vai crescer. Pinóquio arrependido correu em busca de Gepeto que era eu. Quando chegar ao mar ele avistou o Grilo Falante e eu. Acontece que uma baleia pulou na areia e engoliu a todos nós. Lá dentro quando a baleia abriu a boca de novo eles fugiram. Chegando em casa a fada Madrinha recompensou a coragem de Pinóquio transformando-o num menino de verdade. Eu e Pinóquio fomos felizes para sempre e olhe ele nunca mais disse uma mentira.

                       Mariana acordou, pois ela estava dormindo. Mas achou que a história foi verdade e Gepeto lhe deu conselhos para nunca mais mentir. Ela sentia seu nariz vibrar, parecia estar estará crescendo. Ela chorava, correu atrás da Akelá e jurou para ela que nunca mais iria dizer uma mentira. A Akelá não sabia da história, mas consolou Mariana e acreditou no que ela dizia. Daquele dia em adiante Mariana nunca mais mentiu. Sempre quando pensava em dizer uma mentira seu nariz coçava e ela não dizia nada. Isto serviu de exemplo para toda a Alcateia. Ali a mentira nunca mais existiu, pudera quem queria ter um nariz grande que só crescia, crescia e crescia? E como em toda história lembre-se – “Boi não é vaca, feijão não é arroz e quem quiser”... Que conte dois!


Esta é uma história baseada no conto de  Carlo Collodi, autor de “As Aventuras de Pinóquio”.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Lendas Escoteiras. A última página do adeus.


Lendas Escoteiras.
A última página do adeus.

“Partida que não teve adeus de um lenço, história antiga que não tem mais senso, Livro que o vento sem querer fechou”! J. G. de Araújo Jorge.

                      Olhe eu nunca há esqueci. Seu sorriso, seu jeito matreiro de conquistar e fazer amigos, sua lealdade e sua honradez eram para tirar o chapéu sempre. Não sei por que partiu. Se houve um motivo no grupo nunca fiquei sabendo. Sei que eu e muitos amigos chefes ficamos consternados com sua partida. Ela partiu como uma bruma escura que não se acha explicação de onde surgiu e para onde foi. Ela se foi sem despedir de todos. No sábado anterior seus olhos vermelhos eram prova viva dos seus sentimentos. Ela tinha estilo, pose de rainha de santa, mas quer saber? não era antipática démodé e arrogante. Era simples, conquistava pelas palavras, pelo carinho pelo abraço simples e seu Sempre Alerta era demais! Ninguém disse não a sua chegada. Diferente de outros que adentraram no Grupo Escoteiro ela chegou sozinha. Sem filhos a tiracolo, maneira corriqueira que sempre acontece com pais que chegam para ver e sentir onde seus filhotes estão e chegam à conclusão que ali é bom, vem a coceirinha e entram nem mesmo sem saber por quê.

                 Raquel foi diferente. Chegou, procurou a chefia e disse que veio ajudar. Ser mais uma e não seria um fardo para ninguém. Ela sempre sonhou em formar jovens e não teve a oportunidade no magistério. Eu quando a conheci pensei com meus botões o que uma mulher com aquela classe fazia ali. Não estou a desmerecer as demais chefes, nada disto. Perdão se ofendi alguém não era e não é o meu desejo ao contar esta história. De onde tinha vindo? Quem seria? Acreditar de chofre no seu altruísmo, do seu amor ao próximo, na benevolência e no seu bom coração seria a forma correta de dizer: - Seja bem vinda? Dizem que a ajuda ao próximo sem buscar qualquer recompensa é notável indicador de elevação moral, que eleva o ser humano, fazendo dele um ser superior digno de ser seguido. Ninguém perguntou. Todos ficaram encantados com ela. Nem mesmo as senhoras chefes que sempre tiveram o dom de desconfiar de alguém que se diz amiga de todos teve um momento de dúvida.

                   Onde quer que fosse antes ou depois da reunião os meninos como abelha no mel ficavam em volta dela. Como contava lindas histórias. Parava assim como começou para cantar com eles, jogar jogos incríveis e todos nós ali olhando e pensando como pode existir alguém como ela? Nunca ouve ciúmes, maledicências, despeito ou mesmo uma rivalidade com o que ela fazia. Pensei um dia que seria uma Santa que desceu do céu para ajudar nosso escotismo tão necessitado de pessoas assim. Não entrou em nenhuma sessão Escoteira. Chegava meia hora antes e saia meia hora depois. Nesse meio tempo distribuía sorrisos, conversava motivando a todos, recebia pais e visitantes, encaminhava os novos para o Diretor Técnico e nunca interferiu nas sessões quando de suas atividades. Ao contrário eram os chefes que a procuravam em busca de conselhos, aprendizado de jogos, sanar dúvidas, sentir sua força interior como se quisessem introduzir em seus corações tudo que ela era, todo seu estilo amigo e fraterno que até então não tinham visto em ninguém.

                  Todos a chamavam de Raquel. De que? Ninguém nunca soube e nunca ela falou. Ninguém sabia onde morava, onde trabalhava se tinha família ou não. Isto se tornou tabu para todos, pois não queriam ofendê-la e nem privar de sua amizade. Se ela não contou é porque não queria contar. Um dia procurou o Chefe e disse para ele que queria fazer a promessa. Todos se alegraram. Ela chegou naquele sábado esplendidamente uniformizada. Se já tinha um belo sorriso naquele dia ele se duplicou. Foi uma festa inesquecível. Festa? Bem após a cerimônia, aonde vieram antigos Escoteiros, ex-Escoteiros, chefes do distrito e da região, pois ela aonde ia conquistava uma legião de fãs, fez questão de oferecer um coquetel a todos. Nem meias palavras para dizer como foi este coquetel. Garçons de smoking serviam os mais gostosos salgados e quitutes de dar água na boca. Todos dos lobinhos ao chefão eram sorrisos só. Interessante que ali só se via o mundo Escoteiro. Seu mundo particular se existia ninguém viu.

                        Nunca ficou um dia, um minuto um segundo sem o uniforme na sede e nas atividades Escoteiras. Lembro que  em uma atividade nacional ela educadamente sem afetação ou vaidade disse ter conseguido um avião para levar todo o grupo. Era em outro estado e todos nós nos assustamos. Um avião? Quem ofereceu? O assunto morreu por aí. A confiança nela era tremenda. Lá foram todos na aventura de todos os tempos que marcou o Grupo Escoteiro por toda a vida. Olhe eu posso garantir que nunca ela faltou, chegou atrasado e em menos de um ano nosso Grupo Escoteiro se tornou o mais conhecido da cidade, da mídia, e tivemos até a visita do Prefeito da cidade que a abraçou sorrindo lhe dando os parabéns. Meu Deus! Quem era essa mulher? Porque ninguém sabia de nada de sua vida? Como ela conseguiu esconder de todos seu curriculum pessoal? Eu sinceramente nunca há vi em jornais, colunas sociais, colunas financeiras nada. Como ela podia manter segredo e ainda ser amiga de muitas autoridade da cidade? 

                      Foi um desastre aquela reunião do sábado. Chovia ninguém se preocupou com a chuva. Todos faziam questão de estar presentes no Grupo Escoteiro. Uma que amavam o escotismo e outra que lá estaria Raquel. Um anjo dourado que Deus deu ao Grupo Escoteiro. Os lobinhos, Escoteiros, seniores guias e chefes entravam aos borbotões pelo portão de aço, pintado de branco, para receber um sorriso e um aperto de mão de Raquel. Onde estava ela? Ninguém sabia. Não veio? – Até agora não, disse alguém. Ficaram o tempo todo em reunião, mas um silêncio mudo persistia entre todas as sessões sempre olhando para o portão vazio. Uma calmaria que assustava. Raquel não veio e nem nas três seguintes. O Grupo Escoteiro sentiu na pele e na mente aquela ausência. Ninguém queria acreditar sempre esperando que ela chegasse, explicasse sua falta, desse aquele sorriso contagiante de dissesse: Sempre Alerta! Mas não. Isto não aconteceu.

                 Ninguém sabia onde morava, ninguém tinha seu telefone, ninguém sabia onde trabalhava e mesmo pesquisando como o prefeito, o juiz o delegado e altas autoridades da cidade ninguém sabia do seu paradeiro e nem onde morava. Ela fez o mesmo com todos eles, conquistando pela amizade, pelo sorriso, pela sua bondade em ajudar. O coração partido, os olhos lacrimejados mostraram um Grupo Escoteiro à deriva. – Muitos diziam alto com rancor o porquê daquele abandono. Outros reclamavam por ela oferecer amor e carinho e desaparecer como uma nuvem levada por um vento mau. Lembro que eu mesmo chorei por muito tempo sempre pensando em sua partida. Já homem feito um dia pesquisando na internet li uma notícia que me estarreceu, eu não podia entender e compreender. A noticia era da década de quarenta antes do inicio do Grupo Escoteiro dizia:


- Dentre os mais de cento e oitenta passageiros que morreram na queda do Avião da Swissair ocorrido hoje, proximo a Kaduna, uma figura simples que labutava no Hospital  St. Nicholas na capital da Nigéria, a Irmã Raquel, considerada uma Santa vai deixar saudades. O Vaticano estuda até hoje sua canonização. Seu trabalho na cruz vermelha na Monróvia, Libéria vai deixar uma lacuna difícil de ser preenchida. O Padre Romulo sempre diz que ela partiu para estrelas para nunca mais voltar! Olhei a foto com atenção. Mesmo preta e branca e opaca era dela, da nossa querida Chefe Raquel!

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Lendas Escoteiras. Ninguém pode fugir ao seu destino.


Lendas Escoteiras.
Ninguém pode fugir ao seu destino.

                  - Eu só o vi Chefe quando ele passou em frente ao meu mercadinho. Assustou muita gente. Contaram-me depois que surgiu lá na trilha que leva ao arraial de Santana e passou pela rua do centro, ou melhor, pela única rua do nosso arraial de cabeça erguida, só olhando para frente e não cumprimentou ninguém! – Quando vi me assustei, ele estava de uniforme chefe, calça curta, Chapelão e uma imponência de fazer inveja. Uma barba grisalha, os cabelos também grisalhos amarrados atrás como um rabo de cavalo. Andava devagar, como se estivesse em transe, atrás seu cavalo e que cavalo Chefe. Um Baio de pêlo castanho com crinas pretas. Eu vi logo que era um Manga-larga marchador, daqueles descendentes dos Alter Real que chegaram ao Brasil por meio dos nobres da corte portuguesa. Era realmente uma imagem incrível para se guardar para sempre. Ele não segurava a rédea. Estava preso em uma linda cela de prata e o baio seguia seu dono onde quer que ele fosse. Todos que estavam nas janelas e portas estavam embasbacados. Ninguém disse nada um silêncio arrepiante. Só quando ele sumiu na esquina que o levaria a Fazenda Céu azul que pertenceu ao falecido Salomão foi que todos deram conta que algum estranho estava para acontecer.

                       Depois daquele dia ele nunca mais apareceu aqui no arraial. Sumiu por completo. Alguém dissera que era um feiticeiro. Que iria destruir o arraial. O boato morreu assim como surgiu. Soubemos dele pelo Terrinha, um meeiro que mora lá pelas bandas da fazenda Céu Azul. Foi ele que nos contou que o Chefe Leopardo comprou a fazenda. Sabíamos que não havia fazenda nenhuma, só terras banhadas pelo Rio Barrento. Terrinha disse que ele construiu uma choupana na beira do rio e ninguém pode chegar até ele. Quando ele vem à cidade o Chefe Leopardo pede que ele compre algumas coisas para ele. Sempre Pó de café, açúcar e sal mais nada. Sempre dá a ele uma gorjeta. Olhei para Campanário o dono da Mercearia. Não duvidava, mas seria mesmo o Chefe Leopardo? Sabia que ele sumiu de um dia para o outro de Monte Azul, deixou tudo para trás, não disse adeus a ninguém. Nem mesmo seus Escoteiros souberam de nada. Eu tive pouco contato com ele, mas quando me contaram do seu sumiço tentei saber o porquê. Chefe Noraço seu amigo não sabia, Malemont um sênior que vivia junto a ele também não. Ele não tinha namorada, pais nada. Morava sozinho.

                         Não poderia deixar passar em branco aquela notícia. Eu tinha de saber o que houve. Parei ali em Verdes Mares, um arraial que nem rio tinha só para completar o tanque do meu carro e porque não bater um papo com Campanário. Ele tinha sido da minha patrulha sênior e o que fizemos naquela época era como se fosse um motivo para não esquecermos nunca nossa amizade. Fiz um lanche na Mercearia dele a única do arraial, pois era um povoado pequeno não mais do que umas duas mil almas. Eu seguia para Lontra Verde, uma cidade não muito distante a pedido de uma fábrica de tijolos, uma olaria do Seu Tanquinho. Já nos conhecíamos. Sempre prestei serviços de manutenção em máquinas para ele. – Campanário, preciso ir lá. É uma oportunidade única. Você consegue um cavalo para mim? Chefe ele disse, são três léguas, mais de dezoito quilômetros a cavalo vai demorar umas três horas. Sem problemas Campanário. Preciso tirar isto a limpo. Ele prestativo deixou a mercearia e meia hora depois apareceu com uma mula linda, uma Andaluz alta, arriada – Chefe Zé Birosca me alugou. Depois o senhor paga para ele.      

                          Duas horas e meia depois avistei a choupana do Chefe Leopardo. Incrível! Toda feita de madeira original nos moldes das cabanas americanas. Em volta ele mesmo cavou um fosso em meio circulo, pois sua choupana era na beira do rio e ninguém poderia chegar sem atravessar o fosso. O mais espetacular era o mastro de bandeira que construiu. Vi que o cabo subia automaticamente tocado pela correnteza do rio. Uma linda bandeira Nacional estava hasteada. Desci do cavalo e ele chegou à porta. – Tarde! Eu disse. – Ele não disse nada. – Ficamos olhando um para o outro. Vi que sua mente tentava lembrar-se de mim. - Olá Vado, o que fazes aqui? – Visita Chefe Leopardo. Ou não posso visitá-lo uma única vez? – Ele pegou um cipó curado, e vi que uma ponte pênsil rodava para se firmar no fosso. –Sua mula fica aí. Perigoso para ela atravessar a ponte. Senti uma pontada de orgulho e inveja. Construiu o mais belo local para morar com suas próprias mãos. Não usou cordas, cabos ou cipós. Tudo na base do encaixe. Pioneirías que poucos um dia podiam fazer. Um belo chiqueirinho, um belo galinheiro e uma horta de tirar o chapéu. Ele plantava mandiocas, na beira do rio fervilhava aboboras de todo tamanho. Tinha pé de manga, goiaba, laranjas e até uma macieira eu vi. – Entrei na sua casa e meu queixo caiu. Uma linda mesa toda de madeira, bancos confortáveis, um quarto com uma cama e mosquiteiro feito de lascas de bambuzinho chinês.

                          - Sente Vado, olhe não me conte as novidades. Sou feliz assim sem saber o passado, o presente e nem o futuro quero adivinhar. Pegou-me de surpresa. – E você? Eu disse. – Quer saber a minha história não é? Nunca falei para ninguém. Só me dirijo uma vez por mês com o Terrinha. Um bom sujeito. Gosto do silêncio da minha choupana, do meu trabalho, eu estou sempre fazendo uma pioneiria ali e acolá, adoro pescar traíras a noite. Gosto de Caçar um quati, uma capivara com meu arco para comer carne fresta. À noite acendo meu fogo, deito na relva para contar estrelas, amo o por do sol e nunca deixei de ver o nascer do sol com as borboletas ciscando meus ombros e cabelos. Um dia vi que a vida que tinha não era o que eu queria. Amava meus Escoteiros. Mas eu precisava de algum mais. Juntei um dinheirinho e fui para o Nepal. Passei quatro anos em um mosteiro. Também não era o que sonhei para mim. Nunca seria um monge mesmo gostando do silêncio. Comprei esta fazenda. Aqui tenho tudo que quero. A terra é boa, ela é minha amiga, tudo que planto ela dá o retorno. Aqui eu tenho tudo que eu desejo. Não quero companhia, não vou casar e ter filhos. Quando meu corpo não me obedecer mais e chegar a hora de morrer, morrerei aqui, sentado na curva da lontra onde fiz uma linda cadeira de balanço. É lá que vivo e faço parte da natureza. É lá que sinto a minha liberdade e me sinto livre de todas as amarras da civilização.
                          

                          Chefe Leopardo sorriu. Disseram-me que ele nunca sorria. - Hora da bandeira ele disse. – Quer participar? – A bandeira farfalhava ao sabor do vento ali na beira do Rio Barrento cujas águas eram límpidas claras e serenas onde se podia ver os peixinhos a nadar. Durante a descida ele cantou o Hino Alerta. Sua voz rouca não titubeou uma única vez. Apertei sua mão esquerda, ele me agradeceu a visita e me pediu que não contasse a ninguém onde estava. Ele queria continuar sua vida de ermitão. Ali morava e ali iria morrer. Agradeceu-me e quando partia  ele me disse – Dê lembranças ao Campanário! – Você o conhece? Perguntei. – Claro Vado, ele foi Escoteiro junto a você. Parti pensando o que era a vida. Não entrei em detalhes com Campanário. Chefe Leopardo queria ter uma vida só dele. Não queria dividir o silêncio e os ventos do norte que sempre sopravam em sua choupana com ninguém. Chefe Leopardo confiou em mim. Sua vida, o que queria e o que escolheu seria um segredo meu guardado para sempre. Que ele vivesse em paz. Sempre pensei comigo: - Ele não quer ter razão, só quer ter uma vida assim. Quem sabe eu não invejo sua escolha?       

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Uma estrela brilhante para Elizabeth.


Lendas Escoteiras.
Uma estrela brilhante para Elizabeth.

“Abro os olhos, não vi nada”. Fecho os olhos, já vi tudo.
O meu mundo é muito grande E tudo que penso acontece”.

               Eu sabia que eles não iriam demorar a chegar. Sempre foi uma festa quando adentravam naquela área gramada da Casa de Repouso. Vinham uma vez por mês sempre no segundo domingo. Houve alguns dias que não vieram. Eu sabia que estavam acampando ou excursionando. Quanto daria para estar com eles? É hoje só vivo de lembranças, mas não posso reclamar. Eu tive tudo que quis. As escolhas foram minhas e se tivesse de voltar no tempo eu faria a mesma coisa. Gosto até desta casa onde habitam amigos como eu. Muitos deles já foram para as estrelas e eu sei que um dia vou também. Enquanto isto não acontece eu olho na tela gigante que sempre existe em minha mente. Ela me alegra me traz a vida do meu passado. Quando a música que escolhi espalha melodia nas lindas cenas que revejo eu sei, eu tenho certeza que alcancei a felicidade que sempre sonhei. Os que vivem aqui não reclamam. Tem muitos que seus filhos e netos dificilmente aparecem. Eles não choram, nós estamos ao seu lado para embalar seus dias e suas noites e fazê-los sorrir.

“Aquela nuvem lá em cima? Eu estou lá, Ela sou eu.
Ontem com aquele calor Eu subi, me condensei”.

                      Nunca esqueci aquele dia – Papai, Mamãe, eu gostaria de ser Escoteira! Eles me olharam espantados pois sabiam que eu me fechava em meu quarto, não recebia amigas e mesmo sem ser triste levava uma vida reclusa onde fora os dois não havia mais ninguém. Eu sabia que era adotada. Eles nunca me esconderam. Mas eu os amava e nunca me interessei em saber quem foram meus pais biológicos. – Vou levar você lá Elizabeth. Espero que vá gostar e se dedicar como tudo que faz. Meu pai tinha mais de sessenta anos e minha mãe cinquenta e oito. Adotaram-me quando tinha oito meses. Eu não tinha o que reclamar. Eles me adoravam tanto que muitas vezes me senti sufocada de tanto amor. – Seja bem vinda Elizabeth! – Espero que goste de ser uma Escoteira e olhe, você tem duas escolhas aqui: - Gostar da vida ao ar livre e saber vencer as dificuldades! – Adorei a Chefe Altair. Adorei tudo que encontrei ali, o escotismo passou a ser minha vida e tudo que fazia ele estava presente em minha mente, junto de mim e no meu coração.

                         Os tempos foram passando, um dia me disseram que seria guia. Porque não? Para mim a mesma coisa. Fiz novas amigas e amigos pois a tropa era mista. Um respeito enorme um pelo outro pois isto o Chefe Jerônimo fazia questão. Fui em alguns Jamborees, fui em muitos acampamentos regionais. Mas o que gostava mesmo era meu acampamento de tropa. Ali eu podia jogar, crescer e aprender com meus amigos de patrulha. Mas chegou o dia que me disseram que estourei a idade, teria de ser uma pioneira. Eu tentei mas não me dei bem. Havia muitos que nunca foram Escoteiros quando jovem e a gente não falava o mesmo idioma. Conversei com o Chefe Jerônimo que assumiu a responsabilidade pelo grupo. – Porque você não vem ser Chefe? Uma assistente para começar. Irá fazer muitos cursos, conhecer pessoas novas e quem sabe um dia será uma Insígnia de Madeira?

“E, se o calor aumentar, choverá e cairei. Abro os olhos, vejo um mar,
Fecho os olhos e já sei. Aquela alga boiando, à procura de uma pedra”?

                          Porque não? Eu pensei. Foi outra maneira de ver o escotismo. À medida que aprendia, que fazia cursos, que trocava ideias com Velhos Lobos eu já sabia que ali era meu lugar. Interessante que não encontrei minha cara metade. Acho que entreguei meu coração ao escotismo. Namorei mas nada significativo. Comecei a trabalhar em um Banco da cidade. Todos ali sabiam que eu era Escoteira pois só falava nisto. Até meu Chefe o Senhor Rodolfo ria quando eu contava casos de acampamentos. Uma tarde recebi um telefonema urgente de uma vizinha – Seus pais foram internados. Os dois. Tiveram um principio de enfarte. Corri ao hospital. Uma semana depois eles partiram. Chorei muito, achei que tinha culpa, pois me entreguei tanto ao escotismo que me esqueci deles. Todos os domingos eu visitava seus jazigos. Orava, chorava e pedia perdão. Um dia uma luz forte parecia dizer: Seja feliz filha, um dia você vai vir morar conosco no céu!

“Eu estou lá, Ela sou eu. Cansei do fundo do mar,
Subi, me desamparei. Quando a maré baixar, na areia secarei”,

                 Conheci milhares de Escoteiros e Escoteiras por este mundo que Deus me deu a felicidade de caminhar. Fiz centenas de amigos e quando recebi minha Insígnia recebi vários convites. Nunca aceitei nenhum. Eu tinha uma missão com os jovens e nunca iria abandoná-los. Minha casa vivia cheia deles. Eu os amava e eles me amavam. Quantos acampamentos fizemos? Quantas atividades aventureiras? E aquela de sair por aí, sem eira nem beira na Montanha da Raposa cinzenta? Acampei muito, fiz excursões incríveis, adquiri uma maturidade de campo invejável.  Eu só me dedicava ao escotismo e nunca pensei em crescer no meu trabalho. Sabia que todos gostavam de mim como eu era. Nunca casei! Por quê? Até hoje eu não sei. E quando envelhecesse o que seria de mim? Quem iria orar por mim, ficar ao meu lado, me dar de comer, me fazer feliz? Não pensava nisto. Só pensava no meu amor Escoteiro que vivia no meu coração.

“Mais tarde em pó tomarei. Abro os olhos novamente
E vejo a grande montanha, Fecho os olhos e comento”:

                Mas o tempo é implacável, eu envelheci. Aposentei-me. Sentia-me sozinha em casa e só no escotismo me sentia bem. Minhas meninas agora eram outras. Quantas passaram pela minha tropa? Um dia o Chefe Jerônimo me disse: - Elizabeth, não interprete mal minhas palavras, você já está com mais de setenta anos. Não pode viver sozinha assim. Porque não procurar uma Casa de Repouso? Visite, conheça, veja se é o que gostaria para morar. Lá você teria amigas para conversar, para cantar e divertir. Sua palavras me marcaram. Eu andava mal. E fiz a escolha certa. O bom de tudo era que minhas Escoteiras, meus amigos chefes sempre me visitavam. Nenhum domingo passava em branco. Eu adorava mesmo era o segundo domingo do mês. Minha primeira patrulha vinha em peso sem faltar ninguém. A gente ria, cantava, chorava e lembrava os velhos tempos dos bons acampamentos das noites geladas, dos fogos de conselho! Ah! Quantas saudades.

“Aquela pedra dormindo, parada dentro do tempo,
Recebendo sol e chuva, desmanchando-se ao vento?

                Elizabeth faleceu aos oitenta e oito anos vitima de falência múltipla de órgãos. Nunca aquela campa no alto da Colina da Lua viu tantos meninos, meninas, chefes e até lideres Escoteiros regionais, nacionais e do exterior. Quando o esquife desceu para sua morada nunca se viu tantos chorando. Mas Elizabeth, para quem podia ver estava sorrindo, estava com sua Mamãe e seu Papai que a abraçavam e em uma nuvem branca a levavam para uma estrela brilhante. Lá no firmamento onde seria sua nova morada!

Eu estou lá, Ela sou eu”.

O poema é de Adalgisa Nery.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Lendas Escoteiras. A passagem!


Lendas Escoteiras.
A passagem!

               Havia muitos dias e muitas noites que Giovanna chorava. Ela não queria acreditar, pensava uma maneira de fugir e ficar ali para sempre na Alcateia. A Akelá, o Balu, a Bagueera sempre ao seu lado acalentando. – Chefe! Eu não quero sair daqui! – ela dizia. Eu quero ser lobinha para sempre. Não adianta me dizer que Mowgly um dia foi para a Alcateia dos homens, eu não sou Mowgly, eu sou uma lobinha da Alcateia de Seeonee que ele um dia participou! Chefe! Ela repetia, eu não sou o Shery Khan, não sou um tigre manco covarde e nem sou o Tabaqui aquele que permuta a própria honra para sua proteção. Não sou covarde e nem aduladora!  Um dia eu serei Hathi que se se fez respeitado pela sua experiência e sabedoria! – Nada, mas nada mesmo fazia Gigi mudar de ideia. Todos os chefes sabiam que ela tinha de passar para a tropa, sua idade e sua maturidade estavam chegando. Diversas vezes eles contaram as maravilhosas histórias de Mowgly, de Akelá o lobo cinzento forte e altaneiro. Do Baloo um urso pesado e grandalhão inofensivo, mas que era um amigão. De Bagheera a Pantera Negra de pelagem linda de seda. Astuta, intrépida, corajosa uma das poucas que compreendia bem Mowgly.

               Não tinha jeito. Gigi se tornou uma menina amarga em casa, na escola e na Alcateia. Tudo porque tinha chegado sua hora. Todos sabiam que este dia haveria de acontecer. No seu intimo ela achava que era Raksha uma loba valente e vigorosa que dava a vida pelos demais lobos. Contam nas alcatéias que os meninos e meninas ao entrarem na Jângal não sabem o que os espera. Eles vão atrás apenas das belezas e aventuras que a floresta oferece. Quando chegam aprendem que ali tudo é organizado, que existe leis a cumprir protegem-se uns aos outros e sabem que na matilha o primo é um irmão mais Velho que deve sempre ser consultado. Ela aprendeu que os erros acontecem na selva, e sabe também que todo erro será julgado, aconselhado ou se receberá uma punição, pois só assim a paz entre os lobos voltará a reinar. Tudo isto martelava a mente de Gigi. Ela lembrava como Naty chorou quando foi embora para a Alcateia dos homens. Ela chorou desde que foi obrigada a fazer a trilha. – Chefe! Ela contava, Naty me disse que não gostou da patrulha, não gostou dos Escoteiros!

                     A mãe de Gigi várias vezes procurou a Akelá para conversar. Ela sabia que um dia isto iria acontecer, as reuniões dos pais na Alcateia era uma gostosa vivência que fazia de todos eles lobos da Alcateia de Seeonee. Ela soube da história de Naty, pois Gigi lhe contou chorando. Chefe! Alguma coisa precisa ser feita. Quem sabe conversar melhor na tropa, tentar mostrar aos meninos e meninas que ali se encontravam que uma passagem significa muito. Gigi sabia que Tininho era para ela o Lobo Gris, seu melhor amigo na matilha verde. Sempre a avisava quando Shery Kaan estaria de volta. Era um irmão de verdade e ele sempre lhe disse isto. Eles eram um povo livre e na Alcateia a alegria reinava para todos sob a liderança de Akelá. Gigi adorava a Dança de Bagheera, a Dança de morte da Shery Khan: - ¶Mowgly está caçando, Mowgly está caçando, matou o Shery Khan,  esfolou o come gado, Rá Rá Rá!¶ Ela adorava esta. Quando a Akela a escolhia para ser a líder e dizer melhor, melhor, melhor e melhor no Grande Uivo ela sabia que seria o dia mais alegre de sua vida.

                       Foi Kaa quem um dia contou o por que Mowgly foi embora para a Alcateia dos homens. Contou tão bonito que ela ficou impressionada. - Gigi, ela dizia um dia Mowgly se cansou. O que os lobos faziam ele achava infantil. Tudo aquilo que para ele significava muito já não era como antes. Mesmo amando seus amigos ele se sentia do lado de fora da Jângal. Embora ele amasse seus amigos e os tivesse na mais alta consideração ele sabia que agora era importante para ele. Ele cresceu, viu na cidade dos homens um motivo para aprender a conviver e aprender como adulto uma nova vida. Sabe Gigi, o lobo ou a lobinha sabe que viveu e aprendeu os ensinamentos da selva. Mas agora crescido já tem maturidade para ver que precisa seguir adiante. A vida é assim, ela nos ensina a prosseguir sempre não podemos estacionar e pensar que aqui o vento sopra todos os dias com a mesma velocidade. Precisamos um dia ser o Mowgly, seguir com os outros para aprender a ser mais que um lobo. Se aqui na selva você se preparou, se amou seus irmãos se aprendeu a se defender do Shery Khan então chegou sua hora de partir. Isto nós chamamos de responsabilidade para com sua própria vida, a seguir as outras trilhas fora da floresta.

                       Gigi ouvia o Baloo e não chorava. Ela estava tentando entender. Ela olhou um pouco seu passado e viu que muitas das coisas que fazia era muito infantil. Quantas vezes pediu para a Akelá novos jogos, novas descobertas e até novos acampamentos mais fortes dormindo em barracas, subir em árvores, atravessar rios e tantas coisas que os lobinhos não faziam? Quando foi para casa Gigi conversou com sua mãe. Ela a abraçou e disse: - Olhe Gigi, você vai crescer, um dia vai-me dizer que precisa ter seu espaço, não vai mais querer morar aqui. Isto não vai significar que não me ama que não ama sua família. Vai chegar a hora de sair da sua segunda ou terceira floresta. Vai chegar a hora de você fazer nova passagem para sua vida adulta, para ter seu própria vida e o seu livre-arbítrio. No sábado Gigi disse para a Akelá que ela podia combinar com o Chefe Escoteiro sua trilha.

                       Naquele sábado ela estava preparada. A passagem foi linda e Gigi sabia que nunca mais iria esquecer aquele dia. Apertou a mão de cada lobo com um sorriso. Dizia para si própria que ia em busca de uma nova vida. Uma vida de descobertas para que ela pudesse assimilar mais seu crescimento interior. Todos fizeram a cadeia da fraternidade e uns poucos choraram. Ela não. Sabia que ia voltar sempre para estar um pouco junto deles. Quando vestiu seu uniforme de Escoteira Gigi sentiu orgulho e tristeza. Tristeza pequena por deixar o uniforme que amava, mas ela sabia que o novo ela o amaria também. Abraçou fortemente aos seus antigos chefes e se apresentou ao novo Chefe na tropa. Uma patrulha se aproximou e a convidou a dar o grito. Foi gostoso demais, foi formidável. Gigi agora sorria, Ela iria viver uma nova vida na cidade dos homens. Sabia que nunca desistiria de prosseguir a jornada que ela escolheu, ela sabia que tinha o escotismo na mente, junto dela e no seu coração Escoteiro!


“A Lei da Jângal vai lhe ensinar a dominar-se a ter segurança entre os amigos da Alcateia, e aprenderá que as Leis da Alcateia que um dia você não conhecia e agora aprendeu a amar para o seu próprio bem”.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Era uma vez... Um chapéu Escoteiro para Cimarron.


Lendas Escoteiras.
Era uma vez... Um chapéu Escoteiro para Cimarron.

                    Era noite alta. Quem sabe já passava da meia noite. Não tínhamos relógio e os nossos cálculos nunca falhavam. Ali a beira da linha do trem de ferro permanecíamos em vigília. Ou melhor, em tocaia. Tocaiávamos um comboio qualquer que atravesse a Ponte do Alemão. Um pontilhão enorme, mais de um quilômetro sobre o Rio Amarelo. Tininho olhou para Noka o Monitor. – Acho que vamos atrasar... – É respondeu Noka. Ele sempre falava pouco. Uma ou duas palavras e achava que tinha sido entendido. Lilico dormitava sem preocupar com um trem vindo ou indo. Ele sabia que não poderia atravessar o pontilhão antes que passasse algum trem. Se estivessem atravessando e a buzina tocasse, adeus. Não tinha como fugir ou escapar do comboio, seria morte certa. Toliar sorria com seu cabo trançado nas mãos. Sempre a fazer um ou outro nó. Era bom nisto. Quem sabe o Escoteiro que mais entendia de nós de marinheiro e Escoteiro. Délio Abelha dormia a sono solto. A patrulha do Morcego não tinha pata tenras e noviços. Todos experientes e cada um sabia o que fazer como fazer e a hora certa para fazer.

                      Lilico que todos achavam que dormia deitou com os ouvidos em um trilho da estrada de ferro. Está chegando! Falou. A patrulha se animou. Cada um pegou sua bicicleta a espera do comboio. Quem sabe era pequeno? Uma vez na Ponte do Cara Preta ficaram quase meia hora esperando o comboio passar. Mais de trezentos vagões e cinco locomotivas a dizel. Esperavam que não fosse o maior trem do mundo. Aquele de 330 vagões com mais de 3.500 metros de extensão. 40.000 toneladas de minério gemendo nos trilhos daquela ferrovia infernal. Na curva do Maribondo avistaram o farol. Potente! Iluminava tudo. O maquinista e o seu ajudante deviam estar sorrindo quando puxavam a potente buzina. A patrulha sorriu. Délio Abelha sabia que todos sonhavam um dia estar ali, naquelas máquinas infernais, levando minérios e outros bichos para países do além mar. O barulho das cinco locomotivas acopladas e os vagões foram infernais. Quinze minutos e o vagonete da última leva passou com seu lampião vermelho aceso.

                      Atravessaram o pontilhão com calma, nada de correrias. Prender uma perna era programa de índio. Do outro lado respiraram aliviados. Noka custou para falar – Acho melhor arranchar no campinho de futebol do Arraial do Lagarto. Esta hora todos estão dormindo e sairemos cedo para Serra do Roncador. Chegaremos lá antes das onze e a escoteirada ainda deve estar nos esperando! – Falou demais. Deu um suspiro e parou. Meia hora depois chegaram ao campinho. Vinte minutos depois estavam dormindo nas barracas de duas lonas que montaram. Lilico e os demais deixaram seus chapéus no toldo da barraca. Ali sempre ficaram retos sem dobras. O sol ia surgindo quando todos levantaram. Hora de partir. Noka viu que o seu chapéu tinha desaparecido. Os demais ali estavam como os deixaram. Em volta viram umas vinte pessoas olhando. Eram moradores do Arraial. Noka olhou um por um e ninguém com seu chapéu. Um menino magrinho, raquítico gritou: - Foi Cimarron que levou!

                     Noka perguntou quem era o Capitão da Cidade. Em qualquer arraial sempre tinha um. – Procure o Madrepérola no centro. Ele já deve ter acordado, pois tem quatro vaquinhas leiteiras. Noka montou em sua bicicleta. Os demais fizeram o mesmo. O centro nada mais era que um descampado sem grama e empoeirado com várias casas de taipa em volta. Uma plaquinha dizia – Casa do Capitão. Eles bateram e a meninada riu. – Vá por trás. Ele está tirando leite! Todos deram boas gargalhadas. Os Escoteiros da Morcego não estavam rindo. Sabiam do valor do chapéu Escoteiro e como era difícil adquirir um. Viram atrás da casa de taipa um cercado. Abaixado estava o capitão a tirar leite. Noka com muita dificuldade explicou – De novo? Cimarron precisa aprender. Eu mesmo vou lhe dar uma lição! Foi junto com os Escoteiros a casa de Cimarron.

                    Sua mãe estava à porta com o chapéu de Noka. – Onde ele está dona Efigênia? No quarto Capitão. – Chame-o! Cimarron apareceu na porta chorando. – Seu choro eu conheço disse o Capitão. Em volta da casa mais de cem moradores. Para eles um espetáculo a parte. Ali no Arraial nada acontecia. Noka pegou seu chapéu. Olhou para Cimarron. Nunca na vida viu um menino tão magro e tão diferente de todos que conhecera naquele sertão brasileiro. – Cimarron chorava. Soluçando disse que sonhava em ser Escoteiro. Sabia que nunca seria ali no Arraial. Ali não tinha nada para fazer nem mesmo escola! – Noka o olhou melhor. Chamou Délio Abelha e o pediu para arvorar a bandeira nacional. Feito isto pegou na mão de Cimarron. Venha menino. Você vai ser Escoteiro! – Formaram uma ferradura pequena. O povo do arraial sem saber o que ia acontecer. – A bandeira em saudação! Gritou Noka. Pegou na mão de Cimarron ensinando. Firme! Descansar!

                   A patrulha ficou de sentido. Noka pediu para Cimarron levantar a mão direita. Ensinou a meia saudação Escoteira. – Repita comigo Cimarron! – Prometo, pela minha honra, fazer o melhor possivel para: - Cumprir meu dever para com Deus e minha Pátria, ajudar o proximo em toda e qualquer ocasião e obedecer à lei do Escoteiro! Sabe Cimarron, um Escoteiro não mente, um Escoteiro é leal, um Escoteiro respeita o que é do próximo. Agora você é um Escoteiro. Noka tirou seu lenço e o colocou em Cimarron. Depois pegou seu chapéu e o colocou em sua cabeça. Cimarron chorava, e como chorava. Seus olhos rasos d’água quase não abriam. O povo bateu palmas. – Alguém gritou! – Viva Cimarron! Ele é um Escoteiro! – Cada membro da patrulha Morcego o abraçou e o saudou. Arriaram a bandeira. Pegaram suas bicicletas e partiram. Muitos meninos ainda correndo atrás.


                      Pararam na subida da Onça Pintada. Noka desceu da bicicleta e olhou para trás. Cimarron chorava gritava para eles: - Obrigado irmãos! Obrigado. Prometo ser outro e ser honesto. Eu prometo pela minha honra que vocês um dia vão se orgulhar de mim! A patrulha montou em suas bicicletas e partiram na estrada que os levaria ao seu destino. Antes da curva da Coruja ainda ouviram ao longe a voz de Cimarron – Adeus amigos, adeus! Voltem um dia! Agora era encontrar uma Tropa Escoteira conforme o combinado. Ninguém dizia nada, cada patrulheiro sabia o Monitor que tinham. Um orgulho em pertencer àquela patrulha. Se Cimarron ia mudar ou não, não importava para eles. Uma boa ação foi feita. Agora dependia de um menino, perdido em um Arraial qualquer deste mundo de Deus buscar sua verdadeira identidade. A identidade de um verdadeiro Escoteiro. A patrulha virou a curva do morro da Coruja. Sumiram na estrada que os levaria ao destino programado. Todos acreditavam que Cimarron cumpriria sua promessa. Mesmo não sendo um deles por falta de oportunidade. Todos sabiam que agora ele conhecia a raça, a cortesia, o respeito e a fraternidade de uma patrulha Escoteira. Todos sabiam que um dia ele seria um Escoteiro sem tropa, sem patrulha, mas com um imenso amor para dar!

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Lendas Escoteiras. Lindos e velhos tempos!


Lendas Escoteiras.
Lindos e velhos tempos!

                 Passava das onze da noite. Ali em volta do fogo alguns monitores e Leopardo um Chefe amigo me fazia companhia naquela noite na floresta do Ouro Negro. Ele aceitou meu convite para acampar. Sua tropa estava em férias e porque não estar ali como agora? O fogo crepitava leve. Pequeno, algumas achas e ao lado o bule de café. Navegador um Monitor mais antigo com uma pequena vara remexia as brasas da fogueira. Eu olhava como hipnotizado para as fagulhas que subiam aos céus e sumindo entre as árvores da floresta. Joshua parecia dormitar sentado no tronco, mas eu sabia que ele via tudo. Eu o conhecia de longa data. Mocinho já tinha ido dormir. Estava cansado e merecia o descanso da noite. Zé Lovênio Monitor da Águia me olhava como a pedir para continuar a história que contava. Nem sei por que contei aquela história. Quando me lembrava dela meu coração parecia chorar de lembranças que eu não queria recordar. Às vezes eu penso que um fogo aceso em uma clareira em algum lugar perdido na floresta que acreditamos ser encantada, um céu estrelado sem luar seria o introito para lembranças. Porque fui contar aquela história? Dizem que a sabedoria dos velhos é um grande engano. Eles não se tornam mais sábios, mas sim mais prudentes... Ou não?

                 Não havia como fugir. Minha voz rouca começou novamente a narrar à história do Chefe Dakota. Ah Chefe Dakota! Minha mente voltou novamente ao passado. – Eu não sabia por que estava ali, na rua de alguém que não queria lembrar. Se quiserem saber eu passei em frente a sua casa sem perceber. Desbotada, um verde que ainda permanecia vivo, mas sem as cores de outrora. Quanto tempo estive ali? Nem me lembrava. Senti-me culpado. O jardim ainda era bem cuidado, sinal que ele não esqueceu seu amor pelas flores. Olhei de soslaio se havia alguém na janela. Não vi ninguém. Pensei em passar como quem passa pela vida sem olhar... Sem notar se estava pisando em flores para fugir de um passado que preferia não lembrar. Mas eu não seria o culpado? Não fui eu quem provocou sua saída do movimento? Acho que não. Tudo foi obra do ocaso. Se pudesse se Deus me concedesse está dádiva daria minha vida para voltar atrás. Estaria ainda vivo? Tudo aconteceu quando eu tinha desesseis anos e ele já com seus cinquenta e poucos.

                  Num ato sem esperar subi os quatro degraus que levava a varanda de sua casa. Por quê? Para zombar dele de um passado que eu queria esquecer? Ele merecia? Mas eu insistia na minha cisma de tentar ver se ainda estava vivo. Quem sabe poderia pedir perdão? Dizer para ele que eu era menino, sem pensar no que fazia, e se tivesse me mantido calado tudo seria diferente. Dizem que os velhos acreditam em tudo, as pessoas de meia idade suspeitam de tudo, os jovens sabem tudo. Bati leve na porta. Ninguém. Bati novamente e uma voz miúda quase sumida tentou dizer: - Entre! – Entrei. A sala não mudou. A poltrona de couro marrom lá estava como sempre. Tentei através da luz opaca encontrá-lo. Aqui! Ele falou. Olhei pra perto da janela. Era ele sem sombra de dúvida. Velho, alquebrado, em uma cadeira de rodas com uma manta vermelha e azul em cima das pernas. – Bem vindo Apoema! Saudades de você! – Incrível. Ele lembrava do meu nome! Bem o que fiz não se esquece jamais. Olhei melhor para ele. Rosto fino, magro, olhos fundos que não conseguia saber a cor. Pelos meus cálculos já devia estar com mais de noventa anos!

                Fiquei sem voz. Não sabia o que dizer. A solidão é o preço que temos de pagar por termos nascido neste período moderno, tão cheio de liberdade, de independência e do nosso próprio egoísmo. Olhei para ele com os olhos rasos d’água. Ajoelhei-me em frente sua cadeira de rodas – Perdão Chefe Dakota! Perdão! Tantos anos deixei passar para dizer que me arrependo profundamente do que fiz! – Ele sorriu levemente. Falou baixinho quase sussurrando – Apoema, a juventude muitas vezes diz coisas que não quer dizer. Olhe comentam por aí que a sabedoria dos velhos é um grande engano. Eles não se tornam mais sábios, mas sim mais prudentes. Hoje eu compreendo você. Sei o que pensou. O errado sou eu! Minha mente correu no passado e tudo veio como se estivesse lá, agora fazendo o que fiz. Eu sabia que durante a adolescência, é vital repartir nossas experiências com pessoas que pensem como nós e que tenham o mesmo pique: é importante sentir-se incluído num grupo, de pertencer a uma turma. Perde-se, no entanto, o convívio com pessoas de outras idades e de outros "planetas", que muito poderiam lapidar a nossa visão de mundo.

                   Claro, eu era outro. Mas pensei que ele queria me fazer mal. Entendi errado. Contei para os outros chefes minha visão do que pensei. O acusei de ser quem não era. Tudo porque ele docemente estava com as mãos em meu ombro e por causa de uma serpente sua mão correu minhas costas empurrando. Pensei que ele queria o que eu não era. Corri dali gritando. Ele tentou se defender e eu não o deixei continuar. Foi excluído do Grupo Escoteiro. Minha palavra de menino irresponsável valeu mais que a dele, um Chefe de caráter. Ele vendo as acusações resolveu sair. Deixou-nos órfãos de Chefe. Tudo por que eu o acusei injustamente. Entre iguais, tudo é igual. A vida ganha movimento é na diferença. Se você é rato de biblioteca, iria se divertir ouvindo as histórias contadas por um aventureiro experiente. Se você tem muita grana, ficaria surpreso em saber como dá duro o cara que trabalha de dia para poder estudar à noite e o quanto ele precisa economizar para tomar dois chopes no sábado. Se você é Escoteiro seria bacana que pudesse entendê-lo compreendê-lo, conversar com quem sabe o que faz.

                      O fogo se apagava querendo dizer que estava na hora de deixá-lo ao sabor do vento da floresta. Ninguém mais colocou uma acha para ele iluminar a clareira onde seis jovens e dois chefes pudessem curtir um conto que não era conto. Era mais quem sabe um desejo de se redimir, de pedir perdão, de arrependimento por um ato infantil de um jovem Escoteiro que sonhava e seu coração ficou doído por muitos e muitos anos. Lovênio levantou e nos disse boa noite e sempre alerta. Navegador o seguiu de cabeça baixa. Joshua me olhou, foi até a mim e me abraçou. Leopardo ficou em pé, a sombra da noite o apanhou de jeito. Parecia um gigante perdido na floresta das lembranças. Eu também o abracei. – Ele balançou a cabeça e disse baixinho. Pois é meu amigo Chefe, a saudade aperta... O futuro acorda, mas há coisas que a mágoa não afoga bons e maus velhos tempos em que a vida era um rascunho onde você anotava pedaços do destino. Antes éramos um só... Todos juntos num só caminho... À descoberta da existência de um movimento que até hoje deixa marcas profundas em todos nós...


“Fui dormir como quem não queria nada, mas sabia que todo caminho tinha lembranças e se eu não as encontrasse, minha jornada, meus caminhos não tinham razão de ser”.