Histórias e contos escoteiros.

Histórias e contos escoteiros.
Feitas para você se divertir!

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

A Arara azul da Princesa Lorena.


Lendas Escoteiras.
A Arara azul da Princesa Lorena.

                                 Rio da Prata nunca esqueceu aquela tarde que uma revoada de pássaros voou sobre a cidade fazendo acrobacias e com seus chilros e cantos assustando todos os habitantes que se refugiaram em suas casas. Foi realmente algum fantástico. Muitos tiraram fotos e outros gravaram os sons. Havia cinco meses que uma seca infernal não dava trégua à cidade. Vivendo somente de plantações e grande exportadora de tomate o prejuízo aumentava dia a dia. Quase todos os oito mil habitantes dependiam da cooperativa para sobreviver. Romarias, procissões e até os que faziam magia negra corriam em todas as esquinas da cidade. Nada adiantava. Na Tropa Escoteira feminina Kalapalo havia três meses que não saiam para atividades fora da sede. Os pais achavam que não deviam, pois uma queimada poderia produzir acidentes que seriam impossíveis de prever os resultados.

                       A Princesa Lorena, apelido carinhoso dado pela sua patrulha a Lorena, ela tentava entender o porquê não podiam acampar. O programa anual já tinha várias datas canceladas. Quando a noite ia dormir, ajoelhava ao pé de sua cama e pedia a Deus as chuvas que não estavam caindo. Um dia ela leu que se você rezar por chuva por bastante tempo, ela fatalmente cai. Se você rezar para que enxurradas se acalmem, elas fatalmente o farão. O mesmo acontece na ausência de preces. Assim a Princesa Lorena todas as noites rezava de joelhos ao pé de sua cama. Ela rezava a oração de um cantor já falecido (Luiz Gonzaga) e dizia: Senhor, eu pedi para o sol se esconder um tiquinho, eu peço pra chover, mas chover de mansinho. Pra ver se nascia uma planta no chão. Oh! Deus, se eu não rezei direito o Senhor me perdoe, Eu acho que a culpa foi desse pobre que nem sabe fazer oração Meu Deus, perdoe eu encher os meus olhos de água e ter-lhe pedido cheinho de mágoa pro sol inclemente se arretirar.

                       A Princesa Lorena acreditava nas suas orações. Ela conversava muito Kika, uma arara azul que a tropa acolheu em um acampamento na Serra do Pintassilgo. Encontraram-na desfalecida as margens do Riacho Florido. Lorena levou-a para seu campo de patrulha, enrolou-a em um pano e viu que a Arara piscou os olhos várias vezes. Durante os três dias de acampamento a Princesa Lorena cuidou da Arara e a chamou de Kika. Foi amor à primeira vista. Quando após o cerimonial de bandeira e o debandar, ela foi conversar com sua Chefe se podia levar Kika para a cidade. – Tudo bem Princesa – disse ela. Mas você vai levar para sua casa? – A princesa Lorena pensou que a Arara não era só sua. Todos iriam cuidar ela disse. Conversou com a patrulha. As Escoteiras assumiram a responsabilidade de cada dia uma delas iria até a sede e alimentá-la. Assim foi feito. Kika passou a ser mais uma da tropa Kalapalo. Kika adorava. Aprendeu a gritar Sempre Alerta, aprendeu a gritar Melhor possivel e chamar os lobos para o grande uivo.

                   A Princesa Lorena aprendera com sua Chefe Nádia que se você fala com os animais eles falarão com você e vocês conhecerão um ao outro. Se não falar com eles você não os conhecerá, e o que você não conhece você temerá. E aquilo que tememos, destruímos. A vida de Lorena mudou muito depois de Kika. Ela tinha três amores na vida, sua família, sua Chefe e sua patrulha. Um dia sem ninguém esperar um homem adentrou no pátio da sede Escoteira a procura do Chefe do Grupo. Apresentou a ele um papel onde estava escrito: O IBAMA recolhe a Arara por não ter registro de um criador autorizado. Foi um susto enorme. Tentaram explicar que a Kika foi achada quase morta. Não adiantou. Ninguém acreditava no que estava vendo. A Princesa chorava a mais não poder. Os lobos as Escoteiras e os Escoteiros fizeram um circulo em volta de Kika. - Não vamos deixara gritaram. Os seniores e os pioneiros ameaçaram o Fiscal do IBAMA. A Chefe Nádia acalmou todos. Kika foi levada em um carro e desapareceu na esquina da Rua Mercedes.

                Foi então que a seca tomou conta do sertão. A cidade de Rio da Prata sofria com a falta de chuva. Um mês se passou desde que levaram Kika. Havia uma revolta no ar e foi então que uma revoada de pássaros apareceu sobre a cidade. Não era milhares eram milhões ou mais. O céu ficou escuro. Foi Gualberto da Patrulha Onça Parda quem disse que eles atacavam onde Kika e outros pássaros estavam presos. Arrebentaram tudo. Gaviões enormes, Araras gigantescas, Águias formosas, urubus-reis eram tantos que nem dava para imaginar porque faziam aquilo. Trovões ribombaram no céu. A chuva chegou forte e não deu trégua. O que restava do Centro de Triagem dos animais foi destruído pela enchente do Rio da Prata. Os pássaros presos desapareceram com a revoada dos pássaros. Duas horas depois o céu clareou apesar da chuva fina e intermitente. A patrulha Javali da Princesa Lorena fez uma busca onde Kika vivia prisioneira. Não encontram nenhum pássaro.

                Dois meses  depois, mesmo sabendo que Kika agora vivia solta e junto a outros pássaros como ela, a tropa ainda se mantinha tristonha. Quando o Chefe pediu a Patrulha de serviço para hastear a bandeira ouviram uma voz estridente  - “A bandeira, em saudação!”. Olharam para o alto do mastro e lá estava nada mais nada menos que Kika. Uma algazarra geral. Palmas gritos e então notaram que ao lado da Arara Azul estava um lindo Papagaio Verde e Amarelo. Foi ele quem gritou – “Sempre Alerta”! Escoteirada. Foi à conta, o festival de vivas, sorrisos, bem vindos partiam de todas as sessões presentes naquele grupo. Não demorou muito os pais souberam do retorno de Kika e seu namorado. A sede ficou cheia de gente. Kika desceu até o ombro da Princesa Lorena – Bicou-a de leve em seu nariz. Mexendo com a cabeça Kika falou – Adeus Escoteira, diga adeus a todos. Estou partindo para a Floresta Encantada onde moram os pássaros amigos. Não chore com minha partida, pois irei sempre vir aqui visitar você e esta turma maravilhosa. Logo Kika e o Papagaio Verde e Amarelo subiram aos céus e em um mergulho enorme sobrevoaram a sede do grupo e sumiram com o sol que estava se ponto na Montanha do Quati.


               Dizem amigos que passam pela cidade de Rio da Prata que todo ano uma revoada de pássaros se faz presente. Tornou-se um atrativo turístico. Dizem que agora nesta data os Escoteiros e lobos de outras cidades sempre estão lá acampando e quando a revoada termina milhares de Araras Vermelhas, Verdes e Azuis acorrem nos acampamentos gritando alto para todos os acampadores. – Rataplã do Arrebol! Sempre Alerta! Prometo pela minha honra e muitas outras palavras. Todos sabem que foi Kika quem ensinou. Ela sempre não se esquece da Princesa Lorena, pousada em seu ombro, bica seu nariz e parte voando com seus amigos para o céu azul profundo. Quando conto esta história me lembro de que aprendi com um Velho índio que dizia – Conheça a si próprio. Saiba que ninguém faz seu caminho por você e à estrada é sua somente. Acredite que seus amigos andam ao seu lado, mas ninguém anda por você!


sábado, 25 de outubro de 2014

Olimpíadas Escoteiras inesquecíveis.


Olimpíadas Escoteiras inesquecíveis.

“Quem ao crepúsculo já sentiu o cheiro da fumaça de lenha, quem já ouviu o crepitar do lenho ardendo, quem é rápido em entender os ruídos da noite, deixai- o seguir com os outros, pois os passos dos jovens se volvem aos campos do desejo provado e do encanto reconhecido”.
Kipling

             Era o meu quarto acampamento. Tão logo passei para a tropa de escoteiros as atividades aventureiras ao ar livre se multiplicaram. Conhecia bem a Mata do Quati, um local excelente para acampar, com varias aguadas, e o melhor, uma bela cachoeira que hoje deu lugar a uma pequena hidroelétrica que abastece satisfatoriamente a cidade onde morávamos. Lembro bem na época da piracema, onde nos divertíamos em pegar peixes com as mãos, que se multiplicavam na subida complexa de altos e baixos, rindo, brincando entre as pedras, com aquela nevoa a tomar conta de toda orla da cachoeira. Sempre que ali acampávamos não faltavam as fritadas de lambaris, piaus, corvinas e tantos outros peixes, feitas pelo nosso cozinheiro da patrulha. Um expert em cozinha de campo.

Podíamos escolher a vontade onde montar o nosso campo, pois beirando o Rio do Morcego, a mata deixava belas clareiras, mas a preferida era próxima da cachoeira, claro sem considerar o Córrego do Marmelo, que desembocava no rio, formando um remanso onde nos banhávamos de manhã e a tarde. As patrulhas muitas vezes ficavam até 200 ou 300 metros distantes uma da outra. O barulho diabólico e magnífico da queda d’água era como se fosse uma melodia para os nossos ouvidos e a noite, o som entre as arvores trazia toadas cantigas que a plenos pulmões desafiávamos as demais patrulhas, num quebra coco frenético.

Não tenho certeza, mas a cachoeira do Sonho não era muito conhecida da comunidade local. Pouco visitada. Talvez pela localização, afastada da cidade por mais de 10 quilômetros e precisávamos andar mais quatro mata adentro. Através de pequena trilha chegávamos até ela. A queda d’água com mais de 20 metros de altura, com aproximadamente 50 de extensão, caindo de um só salto, formava um grande lago de águas revoltas todo coberto por uma névoa algumas vezes densa outras vezes não. Lembro que sempre quando acampávamos ali, não sei se por tradições criadas por outras patrulhas mais antigas que devem ter iniciado, no penúltimo dia ininterruptamente, realizávamos nossas olimpíadas, o que na época chamávamos de competição escoteira, onde individualmente e sem representar as patrulhas, fazíamos diversas provas bem diversa das hoje realizadas.

Eu não era bom em todas. Mas a prova do macaco sempre me deixava ou em primeiro ou segundo. Na prova da machadinha e da faca, também não era tão ruim. Não era bom na prova dos nós, da escalada, da travessia e da rodada dos pneus, fora o medo do salto na cachoeira amarrado em uma bóia. Quando os seniores resolveram participar e foram aceitos, logo a alcatéia com a aprovação do Akelá foi incluída na grande olimpíada anual com atividades próprias. Foi necessário fazer um regulamento, onde os lobinhos, escoteiros e seniores pudessem participar de acordo com a idade, peso e altura. Na época não entendi bem, mas confiávamos nos nossos chefes e nunca em tempo algum discordamos de uma ou outra vitória de alguém não merecida. Escolhíamos as provas que iríamos realizar, e pelo tempo não podiam ser mais do que três ou quatro.

Toda a chefia e o Chefe do Grupo sempre estavam presentes neste dia. Eram os juízes e quem nos entregava os prêmios, tais como uma faca nova, um canivete escoteiro, um chapéu Prada de abas largas, um lenço de outro grupo, um distintivo qualquer, ou mesmo medalhas simples, bronze, prata ou ouro, como a dizer que éramos os mais perfeitos naquela contenda anual. A data programada para esta atividade escoteira era aguardada com ansiedade. Não tive muitas vitórias e meus prêmios eram raros, mas a diversão era garantida. O local, a Mata do Quati abarcava todos os seus predicados, satisfazendo as necessidades técnicas, mateiras e como tradição não podia ser alterada. Ali começou e ali teria o seu término.

Não sei quando iniciou a participação dos Grupos Escoteiros das cidades vizinhas. Não lembro bem, mas acho que a primeira idéia foi dada quando acampamos na cidade do minério, onde se localizava uma grande ferrovia que extraia minério de ferro e manganês em grandes quantidades e em enormes comboios de vagões puxados por ate cinco locomotivas. Elas eram transportadas até o porto, há mais de 800 quilômetros de distancia, situado em um estado vizinho. A Ferrovia sempre nos oferecia um vagão especial quando acampávamos em áreas próximas da estrada de ferro, (amabilidade cedida devido a um ex-escoteiro atual diretor de operações) a ponto de parar fora dos locais programados para descer. Isto em toda a sua extensão bastando planejar com antecedência. Ele, o nosso vagão era o ultimo do comboio.

Foi em um verão quando lá acampamos (na cidade do minério), e junto com o grupo escoteiro local muito amigo de todos nós, que participamos de uma olimpíada pela primeira vez. Sempre fazíamos acampamentos em conjunto, mas com atividades próprias de campismo e confraternização. De surpresa nos convidaram para participar de uma olimpíada no ginásio local, onde se conheceria o melhor corredor, nadador, saltador e outras modalidades que pouco conhecia. Claro que aceitamos, mas foi uma derrocada sem tamanho. No encerramento conseguimos acho eu umas 8 medalhas contra mais de 50 do grupo da cidade.

Antes de retornarmos, reunimos todos os monitores inclusive os seniores e um de nós que não lembro quem, achou que aquela derrota tinha que ser revertida. Deu a idéia para que convidássemos o Grupo Escoteiro da Cidade do minério para participar da nossa competição anual. Claro que daríamos a eles oportunidades para se preparem, pois não deram esse gosto para nós. Claro que aceitaram. E até que não foi ruim. Reunir dois grupos, mais de 50 escoteiros, 25 seniores e 40 lobinhos na Mata do Quati foi fantástico. As competições foram realizadas com companheirismo e respeito. Era ponto de honra os anfitriões fornecerem toda a alimentação aos visitantes. Isto sempre acontecia em qualquer cidade que possuía um Grupo Escoteiro. Na primeira Olimpíada executadas em conjunto, demos um verdadeiro banho, conquistando mais de 70% dos prêmios. No entanto, isto foi mudando através dos tempos. Os visitantes mais e mais se preparavam e não eram considerados uns pata tenras como dizíamos.

Quando mudei da cidade em fins de 63, havia mais de 3 grupos que participavam se tornando uma tradição distrital. Não sei atualmente se ainda persiste, mas as competições escoteiras realizadas e consideradas hoje como olimpíadas olímpicas não nos traziam como as de antes, lembranças vivas de nossa vivencia mateira e técnicas escoteiras forjando aventuras reais. Acredito que podem existir vários grupos que realizam ou participaram de tal atividade. Pode ser que muitos grupos em nosso país tenham conhecimento de tal intensidade técnica e mateira. E isto é extraordinário. Eram marcantes e facilitavam sobremaneira o desenvolvimento nas provas de classe.

Algumas provas apostilo abaixo para exemplificar o que fazíamos e outras tantas não são aqui descritas para não atropelar novas idéias que surgirem com a leitura deste artigo:

- Subir em menos de um minuto em uma árvore de até 8 metros, descer pelo volta do salteador em 15 segundos. Não era para qualquer um;

- Fazer 25 nós escoteiros ou de marinheiros em seis minutos. Até que era fácil;

- Nadar de um lado ao outro do Rio do Morcego, (60 metros) no tempo máximo de 10 minutos com águas revoltas. Era um perigo constante;

- Descer o rio e cair na parte mais baixa da cachoeira preso a uma câmara de ar. Adrenalina pura;

- Receber uma caneca média, um pouco de pó, açúcar e 3 palitos de fósforos para fazer um café em 8 minutos sem ter nada preparado. Não era tão difícil;

- Participar da prova da faca e machadinha, com lançamentos a distancia e acertar na melancia ou mamão do campo, não era tarefa simples. Só para os mais treinados;

- Cortar uma tora de madeira de mais ou menos seis polegadas com um facão em menos de 3 minutos. Considerado tarefa fácil;

- Ir e voltar numa falsa baiana de mais ou menos 6 metros de comprimento, por cima do Córrego do Marmelo em dois minutos. Sorrisos constantes dos primeiras classes;

- Transmitir sem ajuda de um “espelho” por semáforas 30 ou 40 letras por minuto. Só para bons sinaleiros;

- Construir uma armadilha para caça de animais ou pássaros que funcionasse em menos de 10 minutos. Prova considerada relativamente simples;

- Montar uma barraca de olhos vendados em 4 minutos. Facílimo para os escoteiros pata tenras;

- percorrer uma trilha de 300 metros em semicírculo com sinais de pistas simples em 12 minutos. Para lobinhos. Os escoteiros percorriam em terreno pedregoso tentando achar pegadas feitas com botinas militar do chefe Do Grupo;

- Encontrar pelo cheiro uma onça pintada, com os olhos vendados. (a onça era representada por um cão, muito amigo nosso e colocávamos amarrado em seu corpo sacolinhas de alho picado com gordura vegetal). Só mesmo para os velhos mateiros;

- Preparar um sinal de fumaça recebendo dois palitos de fósforos com fogo verde e transmitir um S.O.S. em 4 minutos. Não era muito simples;

- Carregar nos ombros a moda escoteira outro escoteiro da sua altura e peso por 200 metros em 5 minutos. Tarefa para os melhores corredores;

- Descobrir dentre 8 feridos espalhados em um raio de 150 metros, quais as tipóias corretas em 2 minutos. “Beleza”;

- Fazer uma pequena cabana para abrigo de dois escoteiros com mãos limpas só com folhas e galhos secos em 15 minutos. Muitos faziam em 06 minutos;

Carregar um peso ou sacos de pedras de aproximadamente 50% do seu peso, sem usar as mãos atados com uma grande tipóia presa à cabeça (usávamos um pequeno lençol) em uma distancia de 100 metros em 05 minutos. Considerado prova simples;  

- Discursar como um palestrante, alto e em bom tom sem interrupção, a Lei Escoteira do último ao primeiro artigo. Ou de dois em dois numero par, terminando em numero impar. Sem erro era de uma bondade só, afinal saber a Lei era obrigação;

- Ficar amarrado a uma árvore em uma distancia de 12 metros, para servir de alvo onde dois escoteiros atirariam 20 tomates maduros, distantes mais ou menos 20 metros em uma lata acima da cabeça. Tempo de duração – 5 minutos. Uma prova de coragem;

- Mergulhar em um remanso, com um ou dois metros de profundidade e ficar por 05 minutos usando um canudinho do galho (pé) da abóbora ou do mamão. Uma festa na primeira vez;

- Montar uma fogueira de Fogo do Conselho, para duração de hora e meia, não necessitando de manutenção, em 20 minutos. Só mesmo para aqueles com a especialidade de acampador;

- Mostrar na prática como é o passo escoteiro, percurso de Giwell em uma área de mata nativa por uma hora. Na Mata do Quati poucos conseguiam;

- Receber um recado verbal no inicio das atividades e ao final explicitar ao chefe o que foi falado sem esquecer nenhuma palavra. Poucos conseguiam;

Durante uma jornada de 20 minutos na Mata do Quati, identificar pelo menos 6 pássaros diferentes e no retorno desenhar dois deles e imitar pelo menos 3 com seus cantos na floresta. Dificílimo;  

Com o passar dos anos, outras provas foram acrescentadas. Sempre provas técnicas treinadas e aprendidas na arte de aprender a fazer fazendo. Muitas foram esquecidas e substituídas, pois não tinham mais o sabor da aventura ou por repetirem sempre os mesmos ganhadores. Todas elas, criadas por nós tinham seu encanto pessoal. A recompensa pelo primeiro lugar incluía o gosto da vitória. Sempre foram as patrulhas que deixavam tudo preparado quando da realização das Olimpíadas. Os escotistas eram os observadores e aqueles que serviam de juiz. Não gostávamos de receber tudo pronto, pois isto nada significava em uma avaliação de nossa capacidade técnica.   

O tempo passou. Vi outro dia grupos escoteiros participando de olimpíadas programadas para eles, uma copia dos métodos olímpicos hoje realizados. Pelas fotos vi que estavam compartilhando com alegria e júbilo. Participei na década de 80/90 de olimpíadas assim programadas, diferentes daquelas do passado, no distrito em que atuava. A participação era maciça e muito bem vista por todos os participantes. Mas sempre me lembro do Rio do Morcego, da Mata do Quati, das grandes competições lá acontecidas. Do barulho da cachoeira do Sonho que sussurravam sons repicantes e harmoniosos aos nossos ouvidos. Foram tempos que nunca serão esquecidos.  Soube que um grande aeroporto foi construído ali. Um Alto Forno siderúrgico que se alimenta com carvão vegetal também. Acredito que a mata se foi. Quem sabe substituída por uma floresta de eucaliptos.

O rio a cachoeira represada formando um grande lago e o córrego devem ainda existir. Espero que não estejam poluídos. Todas as lembranças são substituídas pelo presente e não podemos fugir da realidade. Acredito que ainda existem outros rios, matas e córregos sem os festivos temas que permaneceram na modernidade da poluição universal. Faz parte dos novos tempos. O escotismo não pode e não deve aceitar tal conjuntura. Acredito e quanto a isto não tenho nenhuma dúvida, que existe um local parecido com o Rio do Morcego e o Córrego do Marmelo em qualquer lugar deste nosso imenso território, onde grandes atividades escoteiras acontecem ou estão sendo desenvolvidas. Seja em forma de competições ou de olimpíadas, mas utilizando as técnicas escoteiras hoje tão esquecidas.

Quem sabe, muitos como eu poderão quando envelhecer, lembrar que o escotismo foi e sempre será visto como uma grande aventura. Cheio de surpresas e uma vida mateira magnífica, como uma grande escola da vida. Deu a mim e a todos que participam ou participaram deste notável programa, um orgulho próprio, sem soberba, deixando um rastro de troféus fantásticos, conquistados com o passar dos anos, que ficarão marcados para sempre em nossa memória.





quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Padrões de Acampamentos.


Conversa ao Pé do Fogo.
Padrões de Acampamentos.

“Quem ao crepúsculo já sentiu o cheiro da fumaça de lenha, quem já ouviu o crepitar do lenho ardendo, quem é rápido em entender os ruídos da noite;... deixai-o seguir com os outros, pois os passos dos jovens se volvem aos campos do desejo provado e do encanto reconhecido...”. Kipling.

Já era noite alta e da fogueira restavam apenas algumas brasas, que aqui e ali iam adormecendo. Algumas fagulhas ainda se arriscavam a subir aos ‘céus’, mas lânguidas e serenas perdiam sua força e desapareciam na escuridão. Alguns metros além, podíamos ouvir o piar da coruja no grande carvalho frondoso e que a noite dava arrepios com sua figura fantasmagórica. Bem próximo à lagoa de águas azuis naquela hora da noite,  eram apenas sombras cinzentas e não permitia ver os sapos e rãs que coaxavam seus cantos noturnos... Até a melodia doce e suave da bica de água límpidas, trinavam sons repicantes e intermitentes na audição de um velho mateiro. Em volta daquele calor que aumentava a sensação da amizade existente, eu, o  “Velho” Escoteiro,  dois chefes escoteiros e duas chefes femininas, uma delas casada com um dos chefes, ainda respirávamos o sabor do ar fresco, vindo da pequena floresta a sudoeste do acampamento. O “Fogo do Conselho” terminara há algum tempo e a alegria, as canções, o folclore das tropas masculinas e femininas, ainda permaneciam como “fantasmas” amigos que prometiam manter aceso pôr toda a eternidade o espírito que reinou naquela “festa” de moças e rapazes, no seu mais puro e inocente lirismo. Uma tradição de anos e anos naquela terra sagrada de “São Lourenço”.

     No semblante do "Velho" Escoteiro se estampava toda a alegria de estar ali presente. O aroma adocicado do seu cachimbo era um perfume doce e suave que se espalhava e misturava com a pequena brisa que soprava vinda de todos os  cantos dos pontos cardeais conhecidos. Quando naquele dia, em sua casa, na Sala Grande, fiz o convite em nome das duas tropas para participar do acampamento, ele se mostrou surpreso, reservado e se fez de rogado. Só após explicar que as duas “Corte de Honra” tinham tomado aquela decisão sem interferência dos Escotistas é que  ele disse que pensaria no assunto. A presença dos seis monitores em sua casa duas delas meninas monitoras fizeram com que ele aceitasse o convite, mesmo assim demonstrando pouco interesse (dentro de si, eu sabia do desejo dele de voltar de novo às terras de São Lourenço, e principalmente analisar como acampam as tropas femininas).

     - “Mas não irei como turista berrou. Vou participar de tudo e quero ver os monitores fazerem o programa junto a suas patrulhas”. Os jovens arregalaram os olhos de espanto e em silencio sorriram compreensivos. Foram vários dias brilhantes de preparativos. Através da vovó, soube dos arranjos do "Velho", escolhendo e montando sua mochila que ainda remontava a década de 40. Levou o que sempre levava aos acampamentos, mas que eram motivo de especulação pôr parte de todos que o conheciam. Ate o famoso sabonete do banho das “três e meia“ da manhã e que ficou famoso pôr onde acampou e até hoje ninguém sabe o que é.

     Quatro dias de acampamento. Talvez uma de minhas maiores emoções e cuja recordação ficou gravado para sempre em minha mente. Aconteceu de tudo e o "Velho" sentiu-se orgulhoso em ver que os “Padrões de acampamento” ainda eram mantidos naquele Grupo Escoteiro. No primeiro dia, o corre-corre da saída, um ou dois atrasados (o “Velho” não aceitava isto) a alegria das canções entre os escoteiros e escoteiras tudo isto fez o "Velho" entrar naquele jogo divertido. Não havia alegria maior que vê-lo cantando as velhas canções e principalmente a “Terra do belo Olmeiro”, recordações saudosas de um acampamento no Canadá.

     A chegada, a orientação aos monitores, à escolha do campo pelos próprios, tudo isto era ponto de honra para o "Velho". - “O acampamento é dos jovens e nós adultos somos intrusos”! É bom saberem disto ele berrava para os Escotistas. Aqui e ali ele observava a movimentação e principalmente o material de “sapa”, todos eles oleados e afiados. O uso pelos jovens o envaideceu mais ainda. Quando dois escoteiros passaram próximo ao campo da chefia, ele largou a construção da sua famosa “Poltrona  de  Astronauta” (conhecida pôr todos que acamparam com ele) e ficou observando como carregavam o facão e o machado do lenhador. - Muito bom, muito bem, resmungava baixinho.

     Notou que os Escotistas e também as Escotistas estavam bem adestrados. No campo da chefia, sabiam dar com maestria  um “volta do salteador” um nó de frade ou arnês bem apertado com destreza. Uma amarra paralela ou diagonal tinha o acabamento de um velho mateiro. A Amarra para tripé não deixava a desejar. Até mesmo, a costura de arremate na tampa da mesa central mereceu um elogio do "Velho", o que deixou a todos embevecidos. A chefia respeitava o campo de patrulha não invadindo desnecessariamente. As instruções eram feitas aos monitores e sempre se usava o “Chifre do Kudu”. (O “Velho” reclamava quando chamavam mais de seis a oito vezes pôr dia). - Isso - dizia, é para “patas-tenras”. Quem fala muito e dá muitas instruções, perde o tempo dele e dos jovens. Fazer fazendo, esta é a maneira certa!

     Elogiou quando os jovens saiam do campo de patrulhas, sempre em duplas e nunca só. O que mais gostou foi da independência das patrulhas e que quando convidados a participarem das refeições nos campos, os Escotistas só aceitavam quando estavam “tirando” alguma prova de cozinha. E olhe que se pudessem delegavam poderes a algum escoteiro 1a classe. Na primeira noite, após um jogo noturno “bem bolado”, tiveram tempo para fazer um chá quente e a “Corte de Honra” foi realizada sem avançar no horário. Notou que o mínimo de 8 horas para o toque de recolher e a alvorada eram ali respeitados.

     - A “Corte de Honra” estava muito tensa, - falou o "Velho"  durante a realização da “Conversa ao pé do fogo”, realizada somente com os Escotistas. Deixem os monitores mais a vontade. O padrão de eficiência a ser exigido na primeira inspeção e avisado anteriormente aos monitores podem e devem ser aumentados. É necessário que eles saibam que a higiene, a limpeza e a apresentação não tem lugar e hora. O bom escoteiro é aquele que sabe se manter digno em qualquer situação e nos estamos aqui para adestrá-los, terminou. Os chefes não retrucaram. Aceitavam o "Velho" como ele era.

     No segundo dia, fez questão de orientar os Escotistas antes da inspeção da manhã, impreterivelmente às 9 horas. Comentou sobre as funções de cada um, o que devia ser exigido e olhado e não ver somente o lado negativo. A Patrulha deve ser elogiada pôr tudo aquilo que merecer, mesmo que não consiga a classificação estipulada em "Corte de Honra". Comentários de erros e defeitos podem ser comentados, mas sem exageros. Nunca tomar atitudes individuais ou coletivas que podem dar a interpretação de humilhação. Falou também da contagem de pontos, começando com a nota mais alta e diminuindo se fosse o caso. E assim o "Velho" foi participando, orientando, falando e agindo. Não parava. Sempre com um sisal, um cipó e sempre fazendo suas pioneirías, aqueles olhos miúdos e azuis a perscrutarem o horizonte em busca de alguma coisa o que me fazia pensar no tempo em que ele acampava estavam sempre alerta.

     Um fato desconcertante aconteceu no terceiro dia. Após o almoço e uma inspeção surpresa, na chamada geral uma patrulha não se apresentou (era rotina  apresentarem-se  completos). Faltava um escoteiro. Procura daqui, procura dali e nada. Foi dado o “Alerta Geral”. As buscas foram intensas. Um raio de mais de 5 km foram vistoriados. Quase quatro e meia da tarde e nada. O "Velho" continuava a fazer uma e outra pioneiría, sem demonstrar o menor interesse nas buscas. Não dava a mínima pelo que estava acontecendo. Deslanchando seu corpo magro em num bater de ossos e, sentado em sua “poltrona do astronauta”, tomava um cafezinho quente (detestava chá) feito na hora pôr ele mesmo sem usar o coador (testando a clara de um ovo). Já se preparava para encher o fornilho do seu “cachimbo”, quando gritei com ele com os nervos a flor da pele.

     - “Diabos”!  Todo mundo ajuda e você fica ai parado como se nada estivesse acontecendo? Deus do céu! - Onde esta sua responsabilidade? - Explodi. Ele riscou o fósforo, me olhou, deu sua primeira baforada e na maior calma do mundo olhou uma barraca ao longe da patrulha Touro e falou -: A primeira coisa a fazer depois do almoço é procurar dentro das barracas,  quem sabe ele não esta dormindo? - Tremendo, lá fui eu e encontrei o “danado” roncando. Cessou as buscas. A calma voltou ao campo.

     Durante o jantar feito naquele dia pelo "Velho" e que pôr sinal estava excelente (a chefia tinha campo próprio e ali desenvolvia todas as suas necessidades), perguntei ao “velho” como sabia e porque não tinha falado nada. - “Eu, respondeu, - eu não sabia de nada”. Só que é muito comum após o almoço, um ou outro jovem mais novo na tropa tirar uma “soneca” e que pode causar um reboliço destes. - E porque não falou? - perguntei novamente. - “A arte no escotismo “é aprender a fazer fazendo”“. Nas buscas o aprendizado foi melhor que o jogo programado. E cá pra nós, que foi divertido foi e com que realismo! - É o "Velho". Só ele mesmo.


     No Fogo do Conselho, cantamos com o ele canções nunca ouvidas. Das montanhas geladas dos Alpes, as velhas canções dos caçadores de pele dos Grandes lagos do Canadá. Cantamos também canções inglesas e escocesas, sem faltar as tradicionais do nosso querido país. O Quebra Coco teve que ser interrompido lá pelas tantas. Ele gostou também do desarme do campo. Rápido e simples. Participou da inspeção final e verificou que o campo foi deixado quase como encontrado. Ficou satisfeito e até elogiou as chefias -: Parabéns, vocês conseguiram treinar e adestrar bem toda a tropa. Isto é o que importante. Como diz o antigo ditado, - Se vai para o mar, avie-te em terra.


quarta-feira, 8 de outubro de 2014

O triste destino do Chefe Mario Kovak.


Temos o destino que merecemos. O nosso destino está de acordo com os nossos méritos.

Albert Einstein

 O triste destino do Chefe Mario Kovak.

                    Era angustiante ter de decidir. Porque logo eu ser colocado assim entre a cruz e a espada? Pedir ajuda? Procurar alguém? Não procurei ninguém. Nem os amigos. Não adiantava. Para entender o que estava se passado só se entrassem em minha vida. Ou melhor, duas vidas. Nunca pensei que um dia tivesse de tomar tal decisão. Ainda me lembro de quando tudo começou. Não faz muito tempo, quem sabe uns oito anos? Se não fosse o Chefe Mascarenhas acho que o destino teria sido outro. Mas Deus é quem decide, se ele decidiu assim é porque eu teria de passar por isto. Chefe Mascarenhas apareceu em Águas Calientes não por acaso. Era responsável técnico dos Moinhos Landins. Eu comprei um. Sempre funcionou muito bem. Mas um dia começou a tremer a carcaça e parou. O Doutor Leopoldo o mandou a minha cidade para ver.

                    Eu estava com vinte e dois anos. Meus pais tinham falecido a mais de cinco anos. Deixaram-me uma casa, um sitio, uma loja de material elétrico no centro da cidade e alguma reserva financeira. Tinha cabeça para isto. Não me dei mal. Chefe Mascarenhas ficou na minha casa. Eu mesmo insisti para que ficasse. Gente boa, com seus cinquenta e poucos anos era bom de papo e muito simpático. Era escoteiro. Falava maravilhas da organização. Quem o ouvisse ficava deslumbrado e querendo ser um deles. Acampavam, faziam sua comida, tinham técnicas mateiras de construção, exploravam grutas, picos impossíveis e imagináveis para um menino conhecer. Faziam boas ações ajudando as pessoas e tinham um código de honra sagrado para eles. Interessei-me. – Chefe Mascarenhas! Será que poderíamos fazer um escotismo aqui em Águas Calientes? - Perguntei. – Claro que sim. Alguém tem de dar os primeiros passos e no que for possível eu lhe ajudo.

                    Falei com o Alberto nosso prefeito que deu todo o apoio. O delegado Filote disse que conhecia e o Doutor Lanes Juiz de Direito ficou encantado. – Dizia para todo mundo – Agora vocês vão ver como será a juventude de Águas Calientes. Teremos homens de verdade. O assunto correu de boca em boca. Todo mundo querendo saber. Disseram que as inscrições seriam feitas no Grupo Escolar Santa Cecília. Um pandemônio. Mais de cinco mil crianças em um só dia. Aquilo me aterrorizou. Chefe Mascarenhas tinha sido enfático – Comece com poucos. Máximo de oito. Serão seus Monitores. Depois de três ou quatro meses aceite mais até um máximo de quatro patrulhas de seis ou sete. Os lobinhos se tiver alguém para liderar pode começar com oito ou dez. Dois meses depois ate vinte e quatro. Arrume umas quatro pessoas para diretoria. Vou arrumar para você uma autorização provisória. Neste interim veja um local para as reuniões e um salão para a sede. Depois falamos mais.

                    Estava sempre em estado de euforia. Mesmo com a cidade reclamando querendo ver os escoteiros, pais atrás de mim pedindo para seus filhos, mães chorosas porque as meninas não seriam aceitas (ainda não havia a coeducação).  Adorava meus Monitores. Viviam nas horas vagas em minha loja. Aos sábados na séde do Grupo Municipal Santo Expedito era uma festa. Aprendíamos juntos tudo sobre escotismo. Acampávamos quase todos os fins de semana. Chefe Mascarenhas me mandou uma boa biblioteca. Em dois meses fui a capital fazer um curso. Estava em ponto de bala. A Patrulha de Monitores escolheu como nome um pássaro que diziam ser uma ave pernalta, com pescoço nu, preto, e, na parte inferior, o papo também nu e vermelho. Nada mais nada menos que o Tuiuiú! Ficou para sempre a Patrulha Tuiuiú dos Monitores.

                    Dois meses depois os meninos fizeram a promessa. Quase chorei de alegria. Os primeiros passos tinham sido dados. Convidei algumas autoridades, mas o boato espalhou e mais de duas mil pessoas queriam assistir. Uma balbúrdia! Naninha tinha vinte e oito anos. Professora do grupo escolar onde estava a sede. Aceitou meu convite para ser a Chefe dos lobinhos. Uma festa. Um custo para ficar com vinte e oito. Mas o grupo foi crescendo. Já tínhamos duas alcateias e a segunda tropa a caminho. Chefe Mascarenhas vinha sempre a nossa cidade. Um pai para nós. Passávamos de cento e vinte membros, mas a cidade reclamando. Águas Calientes tinha menos de quarenta mil habitantes, mas se tivéssemos chefes poderíamos ter sem sombra de duvida mais de cinco grupos escoteiros.

                    No desfile de Sete de Setembro eu há vi pela primeira vez. Milena. A mais linda moça que tinha visto. Linda, simpática, cabelos loiros, curtos uma época que Doris Day, Kim Novak e Grace Kelly enfeitavam as tela de cinema e as moçoilas copiavam. Paixão a primeira vista. Ela teria de ser minha cara metade. Não dizem por aí que almas gêmeas tem de ficar juntas? Cinco meses depois fiquei noivo. A mãe de Milena me preveniu sobre ela – Muito possesiva Chefe Mario Kovak. Sempre quis ser a dona de tudo. Assim tome cuidado para não se arrepender depois. Mas o amor quando está incrustado em nosso coração não tem nada que pode impedir uma grande paixão. Assim eu pensava. Casamos um ano e meio depois. A escoteirada toda na igreja. Queria casar de uniforme, mas ela foi contra – Nem pensar Mario Montes nem pensar! Já mandei vir da capital um legitimo terno inglês da melhor casimira!

                    Assim começou tudo. Ela aos poucos me foi dominando. Tudo ela queria decidir. Meu amor por ela era grande demais. Aceitava tudo. Tentei o máximo para ela participar comigo do escotismo. Foi irredutível. Mostrei que juntos iriamos viajar, excursionar, acampar, escalar lindas montanhas azuis e os picos mais distantes e ela ria. - Barata eu tenho em casa e não gosto de pernilongos. Estive várias vezes em Congressos Nacionais e regionais. (hoje é
Assembleia) Fiz tudo para ela ir comigo. Ia sim, mas me esperava no hotel. Nunca entrava em um salão onde houvesse um escoteiro. Foi então que começou meu inferno pessoal. Eu a amava mais que tudo, mas o escotismo era meu segundo amor. Todos no grupo tentaram demovê-la. Mas nada adiantou. Ela ria de todos e só dizia que o escotismo afasta as pessoas, afasta as famílias, afastam os filhos. Ela não queria isto para sua família.

                   Eu ia para as reuniões escoteiras angustiado. Aquilo que fazia antes de muitos acampamentos e atividades ao ar livre escasseavam. Já não era belo como antes. Milena se interpunha a tudo. Tudo aconteceu muito rápido. Milena começou a sentir dores no seio. Alguns exames e lá estavam dois tumores enormes. Ela teria que operar. Chorou muito. Perder os seios para ela seria o fim do mundo. Não teve jeito. Operou. Em casa só me olhava com os olhos cheios d’água. Meu coração partia de dó. Mais que isto. Ver a pessoa que a gente ama sofrer não é fácil. Minha vida continuava. Meu trabalho e o Grupo Escoteiro. Já não era tão ativo como antes. Fiquei como Chefe do Grupo. Os meninos sentiam minha falta, mas precisava olhar Milena.

                    O pior chegou. Ela começou a sentir fortes dores internamente. Novamente fomos para a capital. O Chefe Mascarenhas colocou sua casa a disposição. Ela não quis. Vamos para um hotel, podemos pagar! Mas ele é gente boníssima eu disse. Nada feito. Os médicos não deram esperança. Mais dia menos dia Milena iria partir. Eu nunca fui espiritualista. Uma época que em nossa cidade pouco se falava sobre isto. Milena um dia me procurou – Mario Montes quero que você me prometa. Enquanto estiver viva você não vai mais para o grupo escoteiro. – Porque meu amor, por quê? Ela nada dizia. Seu semblante mudava. Parecia estar possuída. – Você sabe Milena que eu sempre disse que estavas em meu coração? Sem você não sou nada? Sei que está sofrendo e eu então? Como viverei sem você? – Sozinho Mario Kovak. Sozinho. Não quero que case outra vez. E não aceito você mais nos escoteiros. Peça demissão!

                    Incrível! Que pedido era esse? Um absurdo! Mas o que eu deveria fazer? Sair? Trair meus ideais? Satisfazê-la e depois de sua morte voltar? Minha cabeça estourava de dor. Meus olhos ficavam vermelhos. Ao lado dela, a vendo definhar meu coração partia. Como se um punhal estivesse ali, entrando, rasgando parte por parte! E o escotismo? Oito anos e como eu o amava. Sair e voltar? Trair minha consciência? Enganar a vida e a morte? Ou enganar a mim mesmo? Um dia ela não andou mais. Só ficava acamada. Uma amiga ficou com ela. Contratei uma jovem para ficar com a arrumação da casa. Mas ela agiu sorrateiramente. Pagou a duas para me vigiar. Para ver se eu ia ao Grupo de Escoteiros. Maldita vida pensava. Naquela sexta feira escura, sem lua, um zumbido estranho de cigarras no ar Milena partiu. Não antes de me olhar e fazer prometer que nunca mais seria Escoteiro!

                   Foi aí que entendi seu desejo. Ela me amava. Amava mais que tudo. Não queria me dividir. Tinha ciúmes enormes do escotismo. Ela queria que eu fosse só dela. Até depois da morte. Milena meu amor, peças tudo, mas eu nunca irei esquecer você. Preciso do escotismo para respirar, para viver, sentir que não posso ficar só, poder lembrar que você foi tudo para mim. Nada feito. Tive que prometer. Que promessa meu Deus! Ela se foi. Não sorriu. Sua face ficou branca. Seus olhos não fecharam. Como estivesse me vigiando. As exéquias foram simples. Queria que fossem ao Campo Santo só os mais chegados. Não deu. Muitos da cidade foram. Muitos. Um pisa, pisa, um corre, corre. Muito barulho. Os escoteiros me ajudaram, mas o enterro de Milena foi triste e bagunçado.

                  Duas semanas depois peguei minha mochila, coloquei na porta da minha loja um aviso que ficaria fechado por cinco dias. Precisava pensar. Raciocinar. Estava “baratinado”. Não sabia o que fazer. Tinha prometido a Milena que ia sair. Fui acampar nos Montes Pirineus. Armei a barraca e fiz um fogo. Mais nada. Não tinha fome. Ficava olhando para o céu, para as árvores, para a alegria dos pássaros. Meus olhos vermelhos. De madrugada acordava e me punha a chorar. Que tristeza. Quem diria Milena que nunca mais ia voltar, o amor de minha vida determinava qual seria o meu destino. Pensava que ela estava ali, me vendo, sentindo meu coração doído. Milena, Milena, fale alguma coisa? Diga se é isto mesmo que você quer? Os dias passavam. Um dois três. Sentia fraqueza. Quase não comia. Sempre sentado em volta de um fogo ou a olhar a cascata das águas escaldantes que desciam do Pico do Corão.

                  Nunca Milena falou comigo. Nunca me deu um sinal. Era como estivesse sacramentado seu pedido. Alegrias de uns tristezas de outros. Achei que não ia aguentar voltar para Águas Calientes. Mas ao final do sexto dia ainda não tinha tomado uma decisão. Resolvi voltar. Com dificuldade. Sentia uma fraqueza enorme. Minha cabeça parecia que ia explodir. Custei a chegar à rodovia. Desci na rodoviária da cidade dormindo. Acordaram-me. Minha casa ficava a menos de quatro quarteirões. Eram dez horas da noite. Passei em frente à igreja aonde casei. Estava aberta. Resolvi entrar. Ninguém ali. Sentei próximo a uma imagem de Santa Terezinha. Entre os bancos vi uma bíblia, alguém tinha esquecido. Olhei com curiosidade e vi uma página marcada. Li devagar, calmamente, já respirava melhor.

“O amor é paciente, o amor é bondoso”. Não inveja, não se vangloria não se orgulha. Não maltrata, não procura seus interesses, não se ira facilmente, não guarda rancor. O amor não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade. Tudo sofre tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor nunca perece... Assim, permanecem agora estes três: a fé, a esperança e o amor. O maior deles, porém, é o amor. – trechos de 1 Coríntios 13:4-13;
Não procurem vingança, nem guardem rancor contra alguém do seu povo, mas ame cada um o seu próximo como a si mesmo. Eu sou o Senhor. - “Levítico 19:18”.

                       Meus olhos encheram-se de lágrimas. Milena em espírito estava ao meu lado. Parecia dizer que me compreendia. Pedia perdão pelo juramento que fiz. Disse que não devia ter pedido este sacrifício. Disse que os meninos precisavam de mim e eu devia ficar com eles. Sorrindo me pediu que uma vez ao mês, rezasse para ela aqui onde se casaram. Sua forma foi sumindo, parecia estar feliz. Um padre sentou ao meu lado. Perguntou o que houve. Contei tudo como se fosse uma confissão. Ele sorriu de leve, me abençoou e falou baixinho: - Disse-lhe Tomé: “Senhor, não sabemos para onde vais; como então podemos saber o caminho?” – Respondeu Jesus: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai, a não ser por mim”.

                       Já se passaram dez anos. Ainda me lembro de Milena. Agora só tenho dela as lembrança felizes dos nossos doces momentos que passamos juntos. Não tenho certeza, mas acho que ela guia meus sonhos. Muitas vezes a noite. Nosso Grupo Escoteiro vai bem obrigado. Ainda continuo viúvo. Conheci algumas moças, mas nada que me fez decidir voltar à vida de casado. Quer saber? – tenho medo. Medo de que a nova mulher dos meus sonhos não vá fazer parte da minha vida Escoteira. É meu escotismo! Só sabe quem está com você! Uma chama que marca que fica para sempre em nossos corações!

Não poucas vezes esbarramos com o nosso destino pelos caminhos que escolhemos para fugir dele.



sábado, 4 de outubro de 2014

A lenda do escoteiro fantasma!



A lenda do escoteiro fantasma!

Quem tem medo de monstros e fantasmas, não sabe que o maior monstro e fantasma que existe é o medo.

           Fim do ano, último dia de aula. No Ginásio todos aguardavam o debandar. Eu mesmo esperava ansiosamente. Sabia que minhas notas eram boas e não tinha dúvidas que passaria de ano. Logo ao atravessar o portão vi o Romildo. Sempre fora assim. Romildo era o monitor da patrulha Raposa e eu o seu sub.monitor. Sempre nos encontrávamos na saída. Ele estava na sétima e eu na sexta série. Tínhamos uma rotina que perdurou por muitos e muitos anos. Romildo era meu principal amigo e irmão escoteiro. Anos depois quando casei lá estava ele como meu padrinho.

             Estávamos aguardando o dia e a hora do acampamento da patrulha. Seria nosso grande acampamento de férias. Quanto tempo preparando! Pela primeira vez só a patrulha iria. Acampar sozinhos era para poucos. Foi difícil. Provar que tínhamos condições para a Corte de Honra não foi fácil. Todos nós já tínhamos boas experiências e com exceção do Mateus, os demais patrulheiros tinham somado mais de cem noites de acampamento. Não queríamos ir aos mesmos lugares. Descobrimos por um irmão do Romildo que em Águas Formosas, pouco abaixo de Aimorés tinha um local maravilhoso.

             Seria uma viagem e tanto. Mais de três horas de trem e depois mais duas a pé até a Fazenda Grandes Rios. Disseram-nos que seu proprietário morava na capital e com um telegrama para ele conseguiríamos autorização. Outra época. Nada de distrital ou autorização regional. Bastava o de acordo da Corte de Honra e do chefe da tropa. O mundo mudou. Hoje é necessário. Em menos de dois dias veio à resposta. Fizermos questão de abrir o telegrama junto a todos os patrulheiros na casa do Matheus. Os olhinhos, a esperança, a duvida estava presente em cada um de nós.

             - “Prezados escoteiros da Patrulha Raposa, adorei o pedido de vocês. Estão autorizados, quem sabe vou lá fazer uma visita?” - Gritos, sorrisos, abraços. Corremos até a casa do chefe Jessé. A notícia correu de boca em boca. Os Touros, os Panteras, e os Corujas, vieram nos abraçar. Tínhamos um belo programa. Pelo menos achávamos que sim. Seriam cinco dias. Dias que seriam contados por muitos anos, e lido no Livro da Patrulha eternamente. Acreditávamos que a patrulha seria eterna.

                 Nosso programa era simples. Montar um bom campo de patrulha, se possível com barraca suspensa, um toldo feito de madeirame trançado com folhas verdes. Uma mesa com bancos onde caberia toda a patrulha, uma cadeira para cada um, e um pórtico. Sim desta vez seria um pórtico de pelo menos cinco metros de altura e que fosse visto de longe para quem nos fosse visitar. Nele colocaríamos uma torre de vigia. Tinha que ter mais de oito metros de altura. Acreditávamos que levaríamos três dias para confeccionar tudo.

                 Claro, Romildo adorava semáforos e faríamos alguns jogos utilizando as transmissões a distancia. Nossa duvida era se lá tinha o cipó “trepadeira” que iríamos precisar. Um dos poucos que se podia dar um volta do salteador, ou um volta de fiel. Teria que ter uma utilização para através de cipós finos, fazer um nó de arnês ou mesmo um volta redonda com cotes. Já tínhamos feito em outros acampamentos amarras quadrada ou diagonal. Nossa experiência era muito boa. Naquela época não existia o sisal de hoje.

                  Na quarta feira, lá estava à patrulha na estação da estrada de ferro. Chefe Jessé também estava lá. Deu as ultimas instruções. Nosso saco de intendência era quase completo. Tínhamos quase de tudo. Confiávamos em Lourival (tico tico) nosso intendente. Ele era bom nisso. O trem expresso chegou no horário. Nossas passagens eram gentilmente cedidas pela Companhia da Estrada de Ferro. Sempre fora assim. Fazíamos o pedido por escrito com pelo menos 20 dias de antecedência.

                  Chegamos por volta de onze da manhã. O próprio Chefe da Estação nos ensinou como chegar à fazenda Grandes Rios. Foi uma caminhada gostosa. Beirando o Rio Doce. Três horas e chegamos. O Sr. Gabriel o gerente nos recebeu bem, pois já tinha sido informado de nossa vinda. Ofereceu um pequeno almoço e claro não dissemos não. Ele mesmo nos acompanhou até o local. Disse que quando jovem o Sr. Mario Montes (o proprietário) acampava sempre lá com os escoteiros da capital onde moravam.

                   Era lindo o lugar. Em primeiro plano um pequeno bosque, com grama baixa e logo acima uma grande mata nativa. Um córrego de águas límpidas e transparentes com pequenas corredeiras passava a menos de oitenta metros. Ele nos disse que se seguíssemos acima uns cem metros encontraríamos uma bela cachoeira. Romildo me olhou e disse – Acho que dá para trazer água ao nosso campo de patrulha. Ri, pois sabia que ele sempre sonhara com isso. Colocamos mãos a obra e nosso campo já dava para passar a noite. Um pequeno fogão tropeiro, e nosso sopão sairia fácil nas mãos de Nildo (fumanchú). Ele para mim era um cozinheiro fora de série.

                   Anoiteceu, jantamos e ficamos em volta de uma pequena fogueira. Logo o sono apareceu e fomos dormir logo. Estávamos cansados da viagem. No segundo dia começamos a desenvolver nossas pioneiras. À tarde já tínhamos a barraca suspensa. Também o toldo mateiro com os bancos e mesa. Resolvemos ir até a cachoeira e olhe linda ela. Um belo remanso. Dava para ver os pequenos peixes que ali habitavam. Um banho, muita alegria e muita diversão e voltamos. A rotina da noite. Fumanchú nos reservou um belo jantar de linguiças fritas, uma farofa com ovos e um pão para cada um.

                   No terceiro dia uma bela surpresa. O Sr. Mario Montes o proprietário veio nos visitar. Uma pessoa alegre e simpática. Ficou conosco por pouco tempo e prometeu voltar à noite. Acreditem, seria melhor ele não ter voltado. Tínhamos acabado de jantar quando ele chegou. De uniforme! O Senhor ainda é chefe escoteiro perguntamos? Não ele respondeu. Hoje não mais. Mas achei que devia vestir o uniforme, pois só assim vocês poderiam ter sorte e conhecer ele. – Ele quem? Perguntamos. O Escoteiro Fantasma! Rimos. Ele também riu e disse-nos para acompanhá-lo.

                   Fomos juntos por uns quinhentos metros acima da cachoeira. No caminho ele contou uma historia fantástica. História que ficou marcada para sempre em nossa memória. Quando jovem, um escoteiro amigo seu, caiu de uma árvore perto da ponte Ravina Seca. Caiu de costas nas pedras do riacho. Morreu na hora. Foi um Deus nos acuda! Os pais inconsoláveis. A tropa passou meses sem se reunir. Acampamentos? Nem pensar.

                   O tempo passou. Muitos esqueceram, eu não, dizia o Sr. Mario. Voltamos aos nossos acampamentos aos poucos. Dois anos depois acampamos neste local. Foram quatro dias. Tínhamos um medo enorme. Sempre nos lembrávamos de Nonato (Nonato era o escoteiro que morreu). No ultimo dia quando da realização do Fogo de Conselho um fogo enorme na mata, levantamos correndo, mas a mata não pegava fogo. Nonato apareceu de forma gigantesca. Seu tamanho descomunal foi diminuindo, estava de uniforme e chapéu escoteiro. Sorria e quando abria a boca parecia que fogo azul saia de lá. Seus olhos eram enormes. Chispas de fogo nos dois.

                    Corremos a mais não poder até a barraca. Até o chefe correu. Era outro que não tinha conhecido Nonato. A noite inteira ninguém arriscou a sair da barraca. No dia seguinte levantamos acampamento as pressas. Depois cresci. Fiquei sabendo de algumas historias. Como sênior voltei aqui varias vezes. Nem sempre Nonato aparecia. Um dia vim à noite até a ponte. Lá estava Nonato. Sentado em uma das pedras embaixo dela como se estivesse pescando. Pelas suas costas saiam chispas de fogo.

                    Um ano depois resolvi conversar com Nonato. Falei com a patrulha e eles me deram a maior força só não iriam comigo. Acampamos um pouco afastado daqui. À noite fui sozinho até lá. Afinal Nonato era meu amigo e quando apareceu para nós não nos fez mal algum. Ele estava sentado no mesmo lugar a pescar com uma vara invisível. Aproximei-me e o chamei. Ele se voltou, desta vez não dava para aguentar. Seu rosto não tinha mais carne, só ossos. Tremi e já ia sair em disparada quando ele falou baixinho. – Não vá! Preciso de um amigo!

                   Contou-me uma historia que não vou repetir para vocês para não impressioná-los. Mas entendi o porquê ele permanecia ali. Só conto a vocês que ele só fica lá quando alguém acampa neste local. Romildo me olhou e não gostei do seu olhar. Olhei para Fumanchú e os demais da patrulha. Não éramos heróis e nem valentes. Não estava gostando desta historia. Mas o seu Mario foi muito simpático e não podíamos negar isso a ele. Chegamos. Ninguém na ponte e nem na pedra pescando.

                    Já íamos voltar quando seu Mario mandou esperar. Lá na curva da estrada estava vindo cantando e assoviando nada mais nada menos que o Nonato. Olhe, quando se aproximou seu rosto estava normal e afável. Soltava algumas faíscas pelos olhos e fumaça em suas orelhas. Assustador mas dava para aguentar. Seu Mario nos apresentou e ele quis saber o nome de cada um na patrulha. Romildo disse. Ele não pegou na mão de ninguém. Nem podia. Suas mãos estavam vermelhas como brasa.

                    Ele sorria. Disse que nos viu chegar e durante todo o tempo ficou ao nosso lado. Só não apareceu, pois materializava o corpo durante a noite e só próximo à ponte da Ravina Seca. Ele amava o escotismo. Infelizmente onde morava não tinha nenhuma tropa para ele entrar. Claro disse, é gente boa, mas tenho saudades. Estávamos todos de olhos arregalados. Todos juntos uns aos outros. Nonato disse para não nos preocuparmos, ele não podia fazer mal a ninguém.

                    Voltamos para o acampamento. Nonato ficou. Seu Mario dizia que ele estava junto, mas não podíamos vê-lo. Tremíamos. Chegamos e seu Mario se despediu e se foi. Era quase meia noite. Corremos para a barraca. Acho que todos como eu custaram a dormir. Um medo incrível mesmo sabendo que o jovem Nonato disse que não precisamos ter medo dele.

                   A patrulha no dia seguinte em reunião decidiu continuar. Voltar? Não era um bom programa. Afinal tínhamos planejado muito. Não deu para fazer tudo que queríamos. Estávamos sobressaltados. À noite então, dormíamos cedo. Escurecia e nós “pimba” na barraca.  No ultimo dia após o arreamento da bandeira, já com todo o campo desmontado avistamos Nonato a uns cem metros. Dizia-nos sem gritar que não era mais que um até logo, não era mais que um breve adeus, pois bem cedo nos encontraríamos de novo da Ponte da Ravina Seca.

                  Não disse nada, mas nem pensar. Nunca mais voltaria ali. Pobre Nonato. Não sei se teve oportunidade de ver outros escoteiros acampando lá. Contamos para as outras patrulhas. Riram. Desta vez vocês se superaram, disseram. Nós já imaginávamos isso. Sabíamos que ninguém iria acreditar. Até que os Panteras resolveram ir. E foram. Encontraram Nonato.

                Disseram que fizeram amizade com ele. Agora participava da patrulha e não parecia ser um fantasma. Mas só durante o dia. Quando a noite chegava, seu rosto desfigurava, sua pele caia, chamas vermelhas saiam pelos seus olhos. Era uma visão dos infernos, mas dentro um coração (não sei se tinha) de um grande menino. Outras patrulhas lá se dirigiram. Houve até um acampamento distrital.

                A lenda do escoteiro Fantasma nunca foi esquecida. Quinze anos depois ele desapareceu. Todos que iam a sua procura não o encontraram. Nenhuma explicação. Acredito que Nonato achou seu caminho do Grande Acampamento. Olhe, se você que está lendo e um dia acampar perto de uma ponte de madeira, vá até lá à noite. Quem sabe você vai encontrar Nonato e ficar seu amigo e olhe não se assuste com as chamas de fogo em suas costas e em seus olhos. Se ele soltar fumaça tenha calma. Não é nada demais.

                 Hoje, passado muitos anos eu não esqueço essas historia. Sei que vão dizer que é uma invenção, apenas um conto. Paciência. Não quero provar nada. Não há necessidade. Afinal não fui o único, muitos outros viram Nonato pegando fogo. Aprendi a gostar de Nonato. Gostaria de encontrá-lo novamente. Quem sabe um dia acampando por aí, dou de cara com ele?

E quem quiser que conte outra

Saudade, sombra, fantasma,
coisa que bem não se explica:
algo de nós que alguém leva,
algo de alguém que nos fica.