Histórias e contos escoteiros.

Histórias e contos escoteiros.
Feitas para você se divertir!

terça-feira, 30 de setembro de 2014

A lenda do Escoteiro do mar. Só o vento do mar azul sabe a resposta.


A lenda do Escoteiro do mar.
Só o vento do mar azul sabe a resposta.

Não te prometo a terra, nem o céu, nem o mar; Mas pra sempre, eu vou te amar!

                        Uma linda tarde de setembro. Um céu azul, um vento sul soprando perfumes que o mar generosamente nos oferecia sem nada em troca. Minhas tardes de sábados estavam chegando ao fim. A Bandeira tinha sido arreada. Os sete silvos do apito de marinheiro ainda corriam pelos cantos da sede como se fossem ecos perdidos no tempo. O Grupo Escoteiro do Mar Almirante Graça Aranha teve mais um dia de história. História que ficaria na mente de todos como fantasmas amigos para sempre. Os lobinhos ainda tinham no rosto aquele mote de quero mais. Os Escoteiros aqui e ali se reunião em seus cantos de Patrulha para os avisos finais. Posicionei-me como sempre fazia na saída da sede. Uma rotina. Fazia questão de apertar a mão de cada um e dizer – Obrigado por estar conosco. Conto com você na próxima reunião. Sempre fiz isto nos últimos setenta anos. Poucos ligavam para o que eu fazia. Não davam nenhum valor. Nunca me importei com isto. Chamavam-me de Almirante Ramon. Eu sabia que não era e nunca fui almirante. Para dizer a verdade nem me lembro de quem me apelidou assim. Claro eu amava com todas as forças os Escoteiros do mar. E toda minha vida sempre tive em meu coração o Grupo Escoteiro do Mar Almirante Graça Aranha.

                         Fui até o escritório. Precisa mais de mim? Perguntei ao Chefe Cornélio. - Não Almirante pode ir – respondeu. Sai devagar e com calma. Meu andar já não era o mesmo. Muitas vezes cambaleava e alguns transeuntes achavam que eu tinha bebido. Risos. Quem sou eu. Fui sim um alcoólatra, mas hoje não sou mais graças a ela. Precisava de uma bengala. Meus proventos do INSS não dava. Eu sabia aonde ia. Sempre fiz este trajeto todos os sábados por muitos anos. Menos de um quarteirão descia uma pequena encosta e o mar com todo seu esplendor ali estava a me esperar. Amo o mar. Sempre amei. Só ela estava acima deste amor que eu tinha por aquelas águas azuis que encantaram e encantam gerações. Avistei o Scaler de fibra de vidro, ao lado o Caique (alguns chamam de caiaque), o bote também de fibra de vidro e o barco de alumínio fundo chato movido a motor de popa. Todos do meu querido Grupo do Mar Almirante Graça Aranha.

                         Já não eram os mesmos do meu tempo, afinal fazia mais de setenta anos que tudo aconteceu. De dentro do barco tirei meu banco de madeira. O sol em pouco tempo ia se esconder no horizonte. Engolido pelo mar. Sentei como sempre fazia e esperava ela chegar. Nunca se atrasou. Fazia questão de ver o por do sol junto comigo. Eu sempre sonhei em participar como Chefe. Tirar minha carteira de habilitação de Arrais, e sabia que a Capitania dos Portos nunca ia me reprovar. Todos os chefes do grupo tinham sua habilitação. Seis jovens seniores de dezesseis anos conseguiram autorização para conduzirem suas embarcações sozinhos. Ostentavam com orgulho o seu distintivo de Veleiro. Como sempre meus pensamentos eram como ventos revoltos. O passado não me abandonava. Meus sonhos nunca se concretizaram. Nem Chefe me autorizaram ser. Dizia que eu não falava muito, que não ria que meu semblante não transmitia o oitavo artigo da Lei do Escoteiro. Para ser Chefe diziam tem de ter estilo, aparência e um histórico diferente do meu.

                          Nunca desisti de ser Escoteiro do Mar. Mesmo depois que tudo aconteceu eu Insistia em ir ao Grupo Escoteiro todos os sábados. Pela manhã passava a blusa, a calça com perfeição. O meu chapéu de Marinheiro de brim branco nunca perdeu o vinco. A camisa e o calção de brim mescla nunca mudei. Meu cinto de couro tinha o maior carinho. Meu ritual começa ao colocar o meião preto, e ver se os sapatos estavam engraxados. Fazia questão de o lenço estar bem postado. Nem um botão desabotoado. Ao sair ainda dava outra olhada no espelho. 86 anos. 76 fazendo o mesmo todos os dias. Sempre pensei em comprar um dia o uniforme de gala. Nunca tive condições financeiras. O tempo! O tempo não se apaga, ele faz questão de mostrar que nada pode ser esquecido. Se ele pudesse falar diria que só assim poderemos crescer na eternidade. Como esquecer Bella? Como?

                         Lembro-me de tudo. De cada minuto que a conheci e vivi ao seu lado. Não era da minha patrulha. Eu fui da Lobo e ela da Onça Parda. Quando ela foi apresentada ao grupo no cerimonial o Chefe fez questão de tocar seu apito de marinheiro por sete vezes. Uma espécie de saudação pela primeira jovem que iniciava conosco. Ali, aqueles meninos do clube do bolinha que só sabiam pensar nas aventuras que poderiam fazer no mar não olharam com bons olhos. Eu e Bella ficamos amigos. Passamos a nos encontrar durante a semana não todos os dias. Um dia sim um dia não. Seu pai nos encontrou. Eu tinha quatorze anos e ela treze. Tentei explicar que era Escoteiro do mesmo grupo, mas ele nem deu resposta. Procurou o Chefe da Tropa que me proibiu de vê-la. Impossível. Eu só pensava nela. Até meus estudos estavam sendo prejudicados. Minha mãe me chamou atenção. Meu pai eu não sabia quem era. Sumiu no mundo e nunca mais voltou.

                         Olhei de novo para o horizonte. Mais alguns minutos o sol iria se por. Mais alguns minutos ela ia chegar. Meu coração sempre batia descompassadamente. Pensando no meu passado relembrei um poema que li em um blog – O Escoteiro do Mar representa a água, que garante a vida de todos. Peço a ajuda de Poseidon para que mande um Tsunami e destruir as maldades do mundo, das injustiças e peço também a este Tsunami que se transforme em um manso regato para acalmar todos os corações aflitos e ansiosos. Quando lembrava uma emoção tomava meu ser. Machucava. Amar alguém sem poder tocar? Sem estar junto todos os segundos do tempo? Afinal o que é o tempo? Eu não sabia das respostas. Mas como se fosse um grande tela de cinema, comecei a ver o meu passado que os ventos do sul me traziam. Era assim todos os sábados. Por quê? Eu sabia de tudo. Cada segundo estava preso no fundo do meu coração. Não precisava recordar.

                            Bella! Venha comigo, vamos dar uma volta no mar? Só próximo à praia. Não tem perigo! – Bela me olhava curiosa e renitente. Sorria. Que sorriso. Nunca esqueci. Treze anos e linda como uma deusa. Joguei o Barco de alumínio nas ondas que insistiam em ir e vir. Dentro dois remos comuns. O motor não estava lá. Bella não queria. Uma volta somente eu prometi. Você sabe, vou passar uma semana sem ver você. Sei pai disse se nos ver juntos tira você do Grupo Escoteiro. Ainda não escureceu. A reunião hoje acabou mais cedo. Temos tempo. Ela não queria. Encontrávamo-nos ali onde ficavam as embarcações do grupo. Por ser distante de residências tínhamos liberdade de correr, de sorrir e uma vez ou outra eu pegava em sua mão. Quente. Macia, perfumosa. Ia para casa sentindo o aroma de seu perfume. Relutava em tomar banho. Não queria que ele desaparecesse.

                              Entrei no barco e ela entrou comigo. Eu ria, cantava, fiquei empolgado e em minha mente sonhava estar singrando os mares em um grande veleiro, ela ao meu lado sorrindo, perfumosa e eu a beijava. Um beijo a moda antiga. Um roçar de lábios que marcaria a minha vida para sempre. Até hoje não sei o que aconteceu. Estávamos a menos de vinte metros da praia. Um pé de vento? Um retorno mais forte de uma onda que voltou da praia? Não sei. Nosso barco começou a se afastar da costa. Gritava para ver se alguém nos ouvia. Ninguém. A terra sumiu. Em todos os lados só água e água. Na Patrulha aprendemos que se vai para o mar, avie-te em terra. Não tínhamos nada. Nem água. A noite chegou brava. Nuvens escuras apareceram. O barco a deriva mais a deriva ficou. Não tinha condições de remar. Nem ela. Meus braços que tentaram muito agora estavam prostrados. A tempestade gritava com trovões assustadores e seus raios iluminavam as enormes ondas que se formavam.

                               Eu sabia me orientar. Mas para que? A chuva e o vento forte faziam do barquinho uma folha de amoreira. Mesmo que avistasse o farol do Forte nada adiantaria. Pedia a Deus que outras embarcações quem sabe poderiam aparecer e nos ajudar. Mas quem sabia onde estávamos? Ninguém nos viu. Lembro-me das palavras do Chefe, nunca bebam água do mar. Ainda bem que chovia em um canto do barco a água empossou. Eu e ela estávamos de uniforme, mas sem nenhum apetrecho. Cantil? Em reuniões comuns? Deus ainda ajudou, pois o barquinho aguentou as enormes ondas. A chuva amainou. Estava molhado e cansado. Eu e ela dormimos ali aquela noite. Dois perdidos no meio do oceano. Acordamos pela manhã. Não havia pássaros sinal de que estávamos longe da terra. O sol chegou forte. Ainda deu para beber o resto da agua que se armazenou no bote. Era pouca. Logo ela sumiu. À tarde a sede era enorme. Ainda não tinha fome e nem ela. Ela chorou só noite. Encostou sua cabeça em meus ombros e chorou por muito tempo. Eu não sabia o que dizer. Consolar como? Estávamos perdidos e só Deus poderia nos salvar.

                              No segundo dia comecei a ficar desesperado. Foi ela quem teve as palavras de consolo. Não se desespere! Disse. Lembro que minha Chefe me dizia que o que aconteceu não tem volta. Nunca deveríamos ter saído despreparado. Nem uma lona temos para armazenar água. Se tudo agora aconteceu precisamos manter a calma. Dormi a pior noite da minha vida. Bella me abraçou. Acordamos com o sol queimando meus olhos e o dela. Deitados no barquinho sentimos que ele estava parado balançando com as ondas. Levantei com dificuldade. Meu Deus! Era uma ilha ou o continente. Acordei Bella. Ela gemia. Estava febril. Com muito custo saímos do barco. Puxei-a pelos ombros até sair da água. Vi ao longe uma senhora correndo em nossa direção. Desmaiei. Acordei dois dias depois. – Dona! Onde está Bella? Pelo amor de Deus me diga que ela está bem! – Está sim. Seus pais vieram buscá-la. Ela não os reconheceu. Parecia estar cega!

                               O tempo passou. Um ano talvez. Sempre ficava horas e horas em frente à casa de Bella. Nunca ela apareceu. Um dia na Missa de São Pedro eu a vi. Usava óculos escuros. Foi como uma faca penetrando em meu coração. Pensei em me aproximar, mas o olhar de seu pai me assustou. Fora tudo culpa minha. Quase não ia mais ao grupo. Parecia que eu era culpado sem direito a defesa. Era mesmo. Provoquei tudo. O tempo foi passando e um dia tomei uma decisão. Bati a porta da casa de Bella. Sua mãe assustou. – Bella vai casar comigo. Eu a amo. Nós vamos ficar juntos para sempre! – Demorou para convencer seus pais. Fiz dezoito anos e ela com dezessete me abraçou e jurou ser minha para sempre na Igrejinha de São Raimundo. Voltamos a frequentar o grupo. Era minha segunda paixão. Não fui o escoteiro do mar que deveria ter sido. Mas com Bella ao meu lado eu seria de novo. Mesmo sem enxergar eu seria seus olhos. Eu mostraria a ela a beleza das flores, ela iria sentir o perfume da primavera. Nada iria faltar. Trabalhava na Fabrica do Doutor Romeu.

                              Dez anos de casado. Dez anos de felicidade. Bella tinha uma angina no peito. Ninguém sabia. Morreu de um ataque fulminante num dia qualquer de janeiro. Eu queria morrer com ela. Não podia. Não tinha condições de viver sem ela. Dediquei-me mais ao Grupo do Mar. Era minha segunda paixão. Quem sabe ele poderia me dar à paz que eu queria? Cada sábado era esperado como se fosse ontem. Parei de sorrir. Não havia motivos. Falar? Falar o que? Por muitos anos todos me culparam pelo acontecido. A chefia do Grupo foi contra meu retorno. Mas aceitaram. Passei a ser um faz tudo no grupo. Nunca seria Chefe. Ninguém iria confiar em mim para sair mar adentro. Também não insisti, não adiantava. Ali no grupo Escoteiro eu a via em todos os lugares. Falava com ela. Riam de mim. - Agora deu para isto diziam. 

                             Olhei de novo para o mar. Meus pensamentos desapareceram. Ela estava chegando. A mais linda gaivota que um dia existiu. Não era uma gaivota qualquer. Era branca como a neve e eu sempre quando a via ficava fascinado pela sua beleza. Não chegava sem antes fazer lindas acrobacias. Desenhava no céu com suas asas enormes nomes que ninguém nunca soube o que era. Só eu. Ela com seus escritos fantásticos no céu dizia – Amo você! Amarei por toda vida! Eu ali com meu garboso uniforme de Escoteiro do Mar me levantava. Ela vinha suavemente pousar em meu ombro. Bicava de leve minhas faces. E juntos ficávamos vendo o por do sol, até ele sumir do outro lado do oceano. Ficávamos os dois até altas horas da noite. Quem um dia passasse por ali diria que era loucura. Uma gaivota não fala. Um Velho a conversar com ela?

                              Demorou-se mais de uma semana para darem falta do Almirante Ramon. Ninguém nunca pensava nele como mais um. Não havia mais rancores, mas ele era apenas uma figura apagada. Deram falta de um caíque. Seis meses depois uma fragata da marinha o encontrou a deriva bem longe da costa. Em um sábado uma Patrulha de valorosos Escoteiros do Mar preparava-se para partir rumo a Ilha das Cabras. Acampamento de dois dias. Puseram-se no mar e um deles percebeu duas gaivotas sobrevoando seu Scaler. Todos olharam para o céu e pareciam que elas queriam dizer alguma coisa. Maria Bonita uma escoteira do Mar conseguiu ler. Não acreditou, mas mostrou aos demais Escoteiros o que estava escrito. – Bons Ventos escoteiros do Mar! Não façam do mar um obstáculo, pois ele é o caminho (Amyr Klink). Todos ficaram estupefatos. O vento soprou com mais força, a vela esticou suas asas para frente. Um sorriso brotou e logo o barco navegava para mais uma aventura. Era como se fosse o Rataplã dos Escoteiros do mar! Alguém gritou – Rumo sota-vento! Em frente vamos navegar!

Seja como as ondas do mar
que mesmo quebrando contra os obstáculos,
encontram força para
recomeçar.


** -- Alguns termos técnicos usados neste conto, foi uma colaboração do Chefe Ronaldo Morgado.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Lord Falcon, o menino de rua que um dia foi Escoteiro.


Lendas Escoteiras.
Lord Falcon, o menino de rua que um dia foi Escoteiro.

                    Não era um mar de rosas. Nunca foi, mas como ele não conhecia outro tipo de vida achava que não devia reclamar. Deste que passou a pensar sabia que sempre havia alguém querendo tirar proveito dele. Nunca soube quem era seu pai e nem sua mãe. Acreditava que era um menor abandonado, um coitado, sem defesa e por isto em qualquer lugar que fosse batiam nele. No orfanato fizeram dele um escravo dos mais velhos e ninguém ali o ajudava. Achou que tinha nascido lá e mesmo com a roupa e comida que lhe davam ele se cansou de tudo e fugiu. Vagou nas ruas pedindo esmolas, mas poucos davam. Havia outros como ele nas ruas da cidade e poucos ele podia considerar como amigos. Se os encontravam queriam tomar dele o pouco que tinha e ele não tinha nada. Procurava não dormir no mesmo lugar. Não podia fazer um ninho embaixo de um viaduto, uma calçada ou um casarão abandonado.

                   Uma vez uma menina lhe ofereceu um “pito” ele se sentiu mal. Ainda bem que não viciou. Seu estomago não aceitava e quando arriscava vomitava tudo. Passava mal dois ou três dias e nem comer podia. Bom isto, um defeito em seu interior não o deixava drogar. Quando fez onze anos uma gripe o jogou na grama da Praça da Sé. Tremia de frio, chorava e não sabia a quem pedir ajuda. Dois meninos de sua idade o socorreram. Ele se perguntou por que fizeram isto. Olhou melhor para os dois quando o deixaram a porta da Casa de Saúde. Eles sorriam para ele um sorriso bonito que ele depois que foram embora tentou dar, mas não conseguiu. Uma enfermeira lhe deu remédios, mas não o deixou entrar. Ali mesmo na porta ele ficou dormindo e acordou sem tremuras e sem febre. Viu os meninos que o ajudaram sem pedir nada em troca. Brincavam na grama onde dormia vez ou outra. Olhou com mais atenção e viu que eram vários. Todos iguais com uma vestimenta caqui e um chapelão na cabeça. Eles corriam, cantavam brincavam e se abraçavam.

                     Nunca prestou atenção neles até que o ajudaram naquela tarde. Foram embora em um ônibus e passou meses para ele os ver de novo. Sem querer os viu em um pátio de uma escola onde ele algumas vezes dormia quando as chuvas chegavam. Em cima do muro ficou olhando a correria que aprontavam. Pensou que seria bom se um dia fosse como eles, pois viu que quando escurecia eles iam embora com seus pais nos lindos automóveis azuis e branco. Quando o último partia ele pulou o muro e ficou embaixo de um Abacateiro enorme, frondoso, sentiu a barriga vazia, precisava comer, mas sabia que só no dia seguinte conseguiria alguma coisa. Sentou junto ao tronco da árvore. Alguém saiu de dentro de uma salinha e o viu. Pensou em correr, pois sempre um vigia, um guarda quando o encontravam enchiam seu corpo de chutes e tapas. Este foi diferente. Era um homem Velho. Ainda com seu uniforme igual os meninos. O olhou, pegou pela mão e disse para acompanhá-lo.

                      Morava perto, uns quatro quarteirões. Foram a pé. Ninguém antes dera a mão a ele. Ele se sentiu bem, parecia um calor passando de corpo a corpo. Entraram e ele sentou na cadeira que o homem lhe oferecera. Lá dentro a casa do homem era agradável. Deu-lhe um prato com arroz, feijão e um bife. Quanto tempo não comia um bife. Estava bom demais. Repetiu duas vezes. O homem não ficava olhando para ele. O deixou a vontade e depois o levou até o chuveiro. Mostrou uma toalha o sabão e as roupas que ele devia usar quando terminasse. Ele não estava acreditando naquilo. Ninguém nunca fizera isto com ele. O que ele queria? Devia ficar prevenido. Tomou um banho, gostoso, quente que maravilha. Era um banho que nunca tomara. Vestiu as roupas, o homem o levou a um quarto com uma pequena cama. Ele dormiu. Como era bom dormir em uma cama, um colchão, um travesseiro e um cobertor.

                       Acordou de madrugada. O homem estava na cozinha sentado e chorando. Ele ficou preocupado. O homem enxugou as lágrimas e lhe ofereceu um pedaço de bolo com leite gelado. Os olhos vermelhos. Não falava. Ele perguntou ao homem porque chorava. Se ele fosse embora ele parava de chorar? O homem levantou pegou um porta retratos nele uma moça de azul e um menino de azul com um lenço e um boné azul sorriam de mãos dadas. Ele não entendeu. O homem disse – Janice e Maninho, eles foram para o céu. Ele entendeu. O homem foi para seu quarto ele também. Acordou cedo. Olhou a casa, muito grande, tinha piscina, tinha grama e jardim. Muita coisa bonita. Quem sabe podia roubar alguma coisa para vender, mas achou que não devia. Nunca ninguém o ajudou como ele. Ficou lá o dia inteiro na porta com medo de entrar na casa de novo. À tardinha o homem chegou. Sorriu, disse a ele  - obrigado. Pensei que tinha ido embora. Não disse mais nada. Jantaram, foram para a sala e viu televisão. Era lindo ali. Ver naquela telinha coisas que ele pouco tinha visto a não ser nas vitrines da Paulista.

                        Uma semana e ele lá. O homem ia trabalhar e ele ficava na porta. Não entrava, tinha medo de roubar e ele não queria roubar. O homem chegava, jantavam, ele tomava banho ia ver televisão e depois dormir. No sábado o homem deu-lhe a mão e saíram. Foram até a escola onde ele o encontrou. Convidou a ele para ser um dos meninos. Uma patrulha, um grito, um aperto de mão e ele no final chorou. Quanto tempo não chorava? Nunca viu tantos amigos, gente boa, gente linda, sorrisos radiantes e ele aprendeu a cantar, a jogar e fazer o nó direito. Para que o nó? Devia ser para que a vida lhe abraçasse mais, pois até então a vida lhe negara tudo. O tempo passou. Ele vivia na casa do homem. Foi para a escola, aprendeu a ler e escrever. Ficou batuta em matemática. Entrou em um concurso. Ganhou. O homem sorriu e lhe deu um chapéu, um lenço e um uniforme caqui. Ele cresceu. Tornou-se um homem como o outro homem que o ajudou.

                       Um dia o homem que lhe dera a mão ficou doente. Ele o levou até o hospital. O homem lhe deu a mão. Disse que ele era seu novo filho  e contou quantas alegrias ele lhe deu. Ele chorou, pois alegria foi o homem que lhe deu. Deu-lhe um lar, uma casa linda, um quarto e comida farta. O homem morreu no hospital. Ele chorou de novo. Agora tinha de viver sua própria vida. Ninguém o condenou. Todos os meninos que cresceram com ele o abraçaram e disseram que eram irmãos de sangue. Ele não entendeu, mas aceitou. Todos os domingos ele visitava o homem que lhe dera a mão no jazigo que tinha no Cemitério da Saudade. Junto a ele também Janice e Maninho. Os três que ele não podia ver sorriam. Agora estavam juntos de novo. Ele nunca reclamou da vida. Do passado e aprendeu um dia que existe um Deus no céu. Que pode ajudar e resolver e ele o ajudou e resolveu.


                        E ele virou outro homem. Agora trabalhava e quando passava na grama do jardim da igreja via outros meninos que como ele lá estavam a pedir, a roubar a usar o “pito” e ele pensava se um dia eles não teriam a oportunidade que ele teve. Agora Velho, ainda vivendo sozinho na casa daquele homem que lhe deu tudo ele se lembrava das palavras de um poeta: - Cada pessoa que passa em nossa vida passa sozinha, é porque cada pessoa é única e nenhuma substitui a outra. Cada pessoa que passa em nossa vida passa sozinha, e não nos deixa só, porque deixa um pouco de si e leva um pouquinho de nós. Essa é a mais bela responsabilidade da vida e a prova de que as pessoas não se encontram por acaso.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Cinquenta anos depois...


Lendas Escoteiras.
Cinquenta anos depois...

               A poeira não mudou. A rua também não. Tudo era igual como no passado. A principal rua que recepcionava os visitantes era a mesma, não importa o tempo que passou. Aqui e ali pessoas chegavam às janelas para olhar quem chegava. Ao entrar na Rua do Outono vi que estava asfaltada. A Rua Teófilo Otoni também. Sinal que houve melhora na cidade. A Praça Dom Giovani estava linda. As árvores enormes. Uma grama aparada e toda florida. Bateu uma saudade enorme. Antes não sabia por que retornava, não tinha o porquê de voltar. O que aconteceu deveria ficar esquecido nas areias do tempo. Reviver o passado não valia a pena, mas eu insistente retornei. Parei o meu carro em frente à Pensão Pedreira. Seria por pouco tempo. Iria comprar uma morada só para mim. Quem sabe nela fazer meu consultório.

                Olhei para a prefeitura, saudades do Benevides, um prefeito amigo dos Escoteiros acho que se não fosse ele nosso grupo não teria resistido. Duas senhoras passaram por mim me encarando. Eu sabia como era. Cidade pequena tinha os mesmos sinais e defeitos. Defeitos? Quem sabe uma qualidade? Antes de entrar na Pensão sentei no banco de outrora. A Macaxeira agora era enorme. Uma sombra gigante ela fazia. Deu-me uma saudade enorme. Fechei os olhos e voltei no tempo. Cinquenta anos muito tempo. Parece que eu a via correndo com suas amigas entre as flores do jardim. Porque foi assim? O destino? Acredito que sim, eu sabia que do destino ninguém foge. Via ao meu lado Zé Antonio. Éramos amigos inseparáveis. Ele Sub Monitor da Morcego e eu Monitor. Quanto tempo ficamos juntos? Impossível dizer, mas acredito que desde os lobinhos. Sorria pensando quantas aventuras fizemos na serras, nas montanhas e nos vales sem fim.

                   Quando jovens nossos sonhos são tão fáceis de realizar. Via-me médico, com uma maleta andando pela rua a socorrer os pobres. E depois ia para casa, minha casinha branca de janelas e portas azuis. No alto do telhado via a fumaça do fogão que saia calmamente pela chaminé. Andaluzia preparava meu jantar. Daria nela um beijo apaixonado, tomaria um banho e nós dois a falar do mundo ficaríamos depois do jantar a conversar no banco do jardim. Iria morar perto. Sonhos... Meninos sonham tão bonito. Engraçado que nos meus sonhos não tinha filhos. Esquecia-se dos meus amigos e nem mesmo Zé Antonio aparecia nas sombras da minha mente. Ela vivia somente por Andaluzia. E nos acampamentos? E nas noites de outono quando a chuva caia fina na nossa barraca de duas lonas? Puxando o pé para não molhar, ouvindo o som do martelar dos pingos da chuva que caía. Era gostoso a chuva. Ela aparecia para mim sorrindo. Ah! Eu sabia que era feliz e seria o homem mais feliz do mundo!

                  Mas afinal o que aconteceu a ela? Ninguém me contou ninguém me disse. Só disseram que ela fugira com Capistrano, um marginal da cidade que ninguém gostava. Por quê? Logo ele? Ela não sabia do meu amor? Como doeu. Uma dor difícil de explicar. Dizer que os sonhos de um menino de quinze anos não merecem credito eu sabia que não dava para entender. Continuei amando o escotismo. Diferente agora, pois meus sonhos mesmo sendo os mesmos eu sabia que não iriam se realizar. Esqueci a minha Lis de Ouro. Nem sonhava mais com meu Cordão Dourado. Isto não tinha mais importância. Minha mãe nem ligava e nem queria saber o que eu sentia. Meus Deus! Que burrice que eu fiz. Peguei minha mochila, meu cantil, minha capa negra e parti sem rumo.

                  Só por causa dela? Menino se ponha no seu lugar! Você ainda tem um enorme futuro dizia para mim mesmo. Mas a estrada parecia não ter fim. Um dia, dois um mês. Um ano depois parei. Já com meus desesseis anos e chorei. E como chorei. Por ela? Por minha mãe? Por meus amigos? Chorava por todos. Um Velho passou a cavalo e me viu chorando. Perguntou o que houve. Engasgado não sabia dizer. Suba na minha garupa, vou levar você até minha choupana. Lá vamos comer e conversar como homens. Eu estava magro, osso puro, quase não comia e pense bem, um menino de quinze desesseis anos fazendo aquilo? Fiquei morando com o Senhor Januário por dois anos. Ele um dia morreu. De que não sei. O vi morto e pensei comigo o que fazer. O enterrei debaixo do pé de Juazeiro, pois ele me disse que ali estava Florinda sua mulher.

                    Pé na estrada novamente e cheguei ao Rio de Janeiro. Cidade grande. Ajudei a construir muitos prédios, estudei. Formei-me em medicina. Escotismo? Nunca esqueci. Ele morava para sempre em meu coração. Vez ou outra eu via os escoteiros aqui e ali a correr pelas praças, nos shoppings. Queria dar um Sempre Alerta, mas me envergonhava. Afinal eu não tinha história para contar a eles. Conheci Maria Bonita. Bonita mesmo. Casamos mas não sei por que não tivemos filhos. Um dia ela me deixou. Foi morar com outro. Mulher moderna, eu agora tinha de aceitar era um medico, pois não? Os anos foram passando, eu só trabalhando. Plantão em minha clinica, no Hospital São Marcelino e correndo pelas trilhas de favelas atrás de doentes terminais. Um dia vi que era hora de parar. Um clarão me fez lembrar-se de Rio Feliz. Era hora de voltar. Amigos da clinica choraram quando parti. Na viagem não pensei duas vezes. Não haveria volta.

                   Alguém sentou ao meu lado. Não reconheci. Barbas brancas enormes. Cabelos grandes grisalhos. Um boné amarelo na cabeça. Um sorriso que me lembrou de alguém. Olá Juvenal ele disse. Olhei para ele. Quem era? Meus olhos piscaram, não podia ser era Zé Antonio, meu Sub Monitor. Incrível este reencontro! Contei para ele minha vida, ele contou a sua. – Vai para minha casa até achar uma que lhe convenha comprar. - E o escotismo? Perguntei. – Até hoje ele vive na minha vida. Respondeu. Mas desde que você partiu, ele não foi o mesmo. – Me convida a visitar? Perguntei. Ele riu. Um sorriso de amigos que sabe o que é uma verdadeira amizade. Vamos lá agora. Tenho a chave da sede. Vai ver que nada mudou. Queria perguntar, mas não sabia como. Não sei se ele iria entender. – Ele me olhou. Abaixou a cabeça e disse – Sei o que está pensando. Andaluzia voltou  cinco anos depois que você partiu. Nunca perguntou por você. Nunca perguntou por ninguém. Ela hoje vive na Casa de Repouso Dom Martinho. Lugar simples, ela não se lembra de ninguém.


                     Pedi a ele que me levasse lá. Depois iriamos a sede Escoteira. Ele sorriu e falou baixinho: - Eu sabia que seria este seu pedido. Sabia que iria pedir para reviver o passado. Olhei para ele e nada disse. Amigos são assim não dizem não e nos atendem sem fazer muitas perguntas. Um novo momento iria começar em minha vida. Não foi por isto que voltei? Não sei se o futuro seria melhor do que o meu que passou. Um amigo que nunca pensei em rever agora estava ao meu lado e um grande amor ressurgiu das sombras para o meu presente que sempre sonhei. O sol estava se pondo na Serra do Gavião. O mesmo sol de antigamente. Quem sabe um novo sol em minha vida? O futuro? Só Deus para dizer. Não me disseram um dia que do destino ninguém foge?    

A maldição da montanha.



"A fé move montanhas, pequenas ações movem o mundo e pequenos sentimentos movem o universo”.

A maldição da montanha.

(Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência)

               Por muito tempo uma história sobre esta montanha andou nas conversas escoteiras em todo o país. Nunca me aprofundei tanto como no dia que encontrei com o Chefe Ramon. Eu o conhecia pouco. Conversa vai, conversa vem e resolvemos tomar um chopinho e passar a conversa a limpo. Entramos em um barzinho lá pelas oito da noite e a conversa foi tão interessante que saímos de lá depois das duas da manhã. Foi ele quem me contou da Maldição da Montanha. Não era uma maldição e sim quem sabe a falta de preparo de escoteiros para subirem nos seus cumes e apreciarem a mais linda vista que poderiam ver um dia. Sei que não foram tantos, mas me contaram tanto desta montanha que ela me exercia um fascínio e sabia que mais dia menos dia iria conhecê-la.

              Assim começou Ramon, depois de dois chopinhos no ponto, acompanhados com gostosos bolinhos de bacalhau. Relato aqui a maneira de Ramon. Nada mais nada menos. – Chefe, tudo aconteceu há muitos anos atrás. Anos que nunca esqueci. Ficou gravada na minha memória para sempre. Não sei se as recordações são boas ou se as lembranças de tudo que aconteceu foram somente caminhos que cada um de nós busca encontrar nas diversas etapas do nosso crescimento. Hoje sou funcionário público vivendo o dia a dia de uma rotina que não cessa. Tenho dois filhos uma esposa linda e vivemos modestamente, mas felizes. Toda a família participa do escotismo. Linda é assistente de tropa Escoteira e eu Diretor Técnico. Luan é lobinho e Natieli Escoteira.

           Quando entrei para o escotismo não tinha a mínima ideia do que iria encontrar. Estava com onze anos. Um amigo disse que entrou e estava gostando, mas falaram com ele que iria ter muitas aventuras e até agora só viveram reuniões de sede. Convidou-me a conhecer e lá fui eu em um sábado para ver como era. Em principio poucas novidades, mas a correria, os jogos, as canções me animaram. Um Chefe me deu uma ficha de inscrição que levei para casa. Meu pai no sábado seguinte me levou e fez a minha inscrição. Ele era um pai formidável. Sempre me deu todo apoio. Eu era um jovem alegre, mas muito calado. Gostava de estudar e na classe sempre fui o primeiro da turma.

           Não participava de esportes e minha diversão favorita era correr. Corria muito. Acho que todo o dia corria mais de dez quilômetros. Nas primeiras semanas não achei muita graça nas reuniões. Afinal nos levaram até um jardim para limpar o lixo, depois em outra praça para plantar árvores. Até aí tudo bem, mas não era isto que esperava. Um dos amigos da Patrulha Tigre me emprestou um livro. Lindo! Quantas fotos e dizia que nós escoteiros somos heróis, fazemos acampamentos, excursões, sabemos nós, orientar pelas estrelas tanta coisa linda que procurei o Chefe. Sua resposta? Aguardem, um dia vamos fazer isto. Este dia nunca chegava. Acho que foi em agosto que soubemos que o Chefe Valter iria embora. Mudar de cidade, pois sua empresa o transferiu.

          O novo Chefe Álvaro era uma boa pessoa. Novo ainda no movimento chamou os monitores para conversar. Nesta época estava com doze anos e meio e era o sub-monitor da Patrulha. Como o Levi não veio à reunião estava assumindo como Monitor. O Chefe Álvaro nos contou que era bem leigo. Estava lendo muitos livros e tinha muitas duvidas. Precisava de nossa ajuda. Disse que tinha lido sobre uma Patrulha de monitores e nos perguntou se tínhamos. Bem se não tem vamos fazer uma? E mãos a obra. Gostamos de cara do Chefe Álvaro. Tudo que fazia nos consultava. Nunca tomava uma decisão sem nos ouvir. A tropa começou a melhorar a olhos vistos.

           Não só os monitores, mas toda a tropa ficou muito amiga do Chefe Álvaro. Começamos aos poucos sair da sede. A primeira vez pegamos um ônibus sem destino certo. No ponto final andamos em uma estrada de terra por mais cinco quilômetros e avistamos um riacho. Tínhamos levado uma boa corda e tentamos fazer uma falsa baiana. Como não ficou bem esticada muitos tombos aconteceram. Foi à primeira diversão. Todos gostaram. As atividades foram se multiplicando. Em menos de seis meses a tropa adquiriu uma técnica mateira de dar inveja.

          Soube da montanha por meio de meu pai. Contou-me que lá sumiu um Escoteiro a mais de trinta anos. Nunca mais o acharam. Como assim? Ninguém soube explicar. Seu Chefe foi preso, forçado contar o que não sabia e só com a interferência dos pais do menino que sumiu a policia o soltou. Achei a história interessante. Agora queria conhecer esta montanha. Porque sumir e nunca mais ser encontrado? Era um mistério e meu faro dizia para ir lá. Falamos com o Chefe Álvaro e ele não concordou. Só depois de sugerirmos ir só os monitores e subs ele ficou de pensar.

           Uma reunião ele nos chamou. Os monitores e sub monitores. Nossa tropa era masculina, pois na época ainda não fora autorizado a participação das meninas. Disse-nos que pesquisou muito sobre a montanha e inclusive um amigo do Diretor Técnico, Insígnia de Madeira e residente em uma cidade próxima se prontificou a nos dar todo apoio técnico e tático. Assim ele não via mais problema com a subida nossa ate o pico. Vibramos com a ideia de subir a montanha que todos chamavam de Maldita. Iriamos provar que conosco nada disto podia acontecer.

            Aproveitamos um feriado prolongado e numa quinta pela manhã pegamos o ônibus para Monte Verde. Cidade pequena, menos de cinco mil habitantes. Éramos sete escoteiros. Lucio um sub Monitor não foi. Na cidade encontramos o Chefe Leonel, um grande Chefe já com seus sessenta anos, e nos deu todas as coordenadas que sabia. Explicou que não havia erro. A trilha era fácil, bem sinalizada e podíamos acampar logo após dois quilômetros de subida. Encontraríamos uma boa aguada e no dia seguinte poderíamos atingir o pico. Menos de seis quilômetros e voltar no mesmo dia. Uma vista maravilhosa lá de cima.

            Nada encontramos de aventuras. Sem erro chegamos ao local do acampamento. Não era uma perfeição, mas dava para montar as barracas e fazer uma cozinha um pouco apertada, mas em condições de fazer nossas refeições. O tempo ajudava. Uma temperatura agradável e o sol queimando. Passamos todo o dia armando o campo. Uma mesa, bancos, barracas armadas e não fizemos fogão suspenso. Usamos um pequeno fogão tropeiro. Era o suficiente. A noite um pequeno jogo noturno e fomos dormir.

            Levantamos cedo. Após o café, arrumamos um pequeno bornal (lanche) para cada um, cantis cheios e partimos rumo ao pico da montanha. Não era meio dia e chegamos sem muito esforço. A subida não foi difícil. A vista era realmente maravilhosa. Duas cidades cadeias de montanhas a sumir de vista. Dois rios e foi espetacular vermos uma ferrovia com um trem em movimento. Uma pequena cobra serpenteando o rio. Cantamos algumas canções e as duas retornamos. Na descida menos de uma hora depois lembrei que esqueci no pico o meu cantil.

          E agora? Minha sugestão era eu e o Levi voltarmos pegar o cantil e encontrar todos no acampamento. Ideia que não agradou ao Chefe Álvaro. Mas relutante deixou. Voltamos e o cantil estava embaixo de uma pedra na sombra. Foi aí que aconteceu. Uma serração enorme tomou conta do pico e do caminho. Achamos que podíamos descer, pois dava para ver até dois metros a frente e era só seguir a trilha. Sem erro. Descemos a trilha. Errada. Era outro sentido contrário a quem devíamos pegar. Uma hora, duas três e nada de chegarmos ao acampamento. Levi achou melhor que parássemos. Do jeito que estava à serração não dava para ver nada. Devíamos ter levado a bussola.

          Ficamos ali, a tarde chegou e a noite também. Sabíamos que o Chefe Álvaro devia estar com a cabeça a mil. Agora a lembrança do Escoteiro que desapareceu devia estar fomentando seus pensamentos. Mas não havia nada a fazer. O jeito era nos virarmos e esperar a cerração passar. Não passou. Um frio de rachar. Ainda bem que sempre carreguei um isqueiro pequeno no bornal. Com dificuldades encontramos capim seco e gravetos. O fogo crepitou e deu para esquentarmos um pouco. Estávamos sem abrigo. O plano era subir e voltar ao acampamento no mais tardar às cinco da tarde.

          Não conseguimos dormir. Não dava. O frio era demais. Já estava difícil encontrar gravetos naquela escuridão. Confesso que um desespero abateu em mim e sei que o Levi também estava como eu. Passamos uma noite de cão. Quando o dia amanheceu a serração se foi. Foi então que levamos um grande susto. A menos de cinco metros um despenhadeiro horrível. Cair ali era não ser achado nunca. Ainda bem que paramos na hora certa ou será que foi a mão de Deus! Resolvemos voltar de novo ao pico. Antes de chegar ouvimos os apitos do Chefe Álvaro. Graças a Deus o encontramos. Abraços, choros e retorno.

          À noite fizemos uma fogueira, e lá conversamos muito sobre o acontecido. A consequência de alguém sumir, morrer, desaparecer. Deus me livre. Nem queria pensar nisto. Hoje já crescido exijo mesmo sabendo que será impossível acontecer de novo que todos na tropa recebam um adestramento completo de bússola e orientação. Saber o que fazer se perder. A calma, a paciência, saber que será socorrido. Isto nos valeu e muito. Sem obrigar sugiro a todos que sempre portem no bolso uma pequena bússola. Brinquem com ela, divirtam em seus caminhos da e escola ou onde forem.

          Eu já tinha tomado seis chopes. Minha cota. Estava a pé. Morava perto. O Chefe Álvaro também. Um abraço, um aperto de mão e cada um foi para sua casa. Meditei muito sobre tudo. Sumiu? Desapareceu? Uns dizem que... Melhor não entrar nesta seara. No campo das hipóteses. Isto não é coisa de escoteiros. Nenhum grupo nenhuma tropa pode dizer que nunca passaram ou passarão por isto. Acontece. Aconteceu comigo muitas vezes no passado. Uma outra época. Mais aventureira. E a vida continua e eu continuo escrevendo. Um pouco de ficção, um pouco de realidade. Meus contos são assim, pedaços de sonhos laçados aqui e ali!

E quem quiser que conte outra...
 

As dificuldades são como as montanhas. Elas só se aplainam quando avançamos sobre elas.


quinta-feira, 11 de setembro de 2014

E Maryany a escoteirinha foi para o céu!


Lendas Escoteiras
E Maryany a escoteirinha foi para o céu!

                Ela nem se lembrava como fora parar ali. Sentia falta de visitas inclusive sua família que a visitava poucas vezes. Nati e Andi duas enfermeiras faziam o papel de mãe e pai. Ela amava as duas mais que seus próprios pais. Ela também tinha dois tios que a faziam rir e sonhar que um dia poderia voltar para casa, correr na escola, abraçar amigos que fizera no passado. Joshua o Contador de Histórias e Titio Aquiles, que se vestia de pirata ou palhaço eram tudo para aquela garotada naquela Ala C do hospital. No inicio sofreu muito. Seus pais não explicaram a ela o que tinha, e um dia a levaram para o hospital e ela nunca mais saiu de lá. Custou a entender o que lhe aplicavam três vezes por semana. Depois soube que se chamava quimioterapia e Dona Alma uma enfermeira sua amiga disse que só assim um dia ela podia voltar para casa. Ela chorava nos dias que precisava fazer a tal quimioterapia. Vomitava, gritava de dor e muitas vezes teve que ser levada a força. Com seis meses internada Maryany era intima de muitos amigos ali naquela ala do hospital. Maryany nem se lembrava das dores que sofreu antes de ir para o hospital. Tinha saudades de mamãe Eulália e do papai Alfredo. Filha única ela tinha tudo e agora não tinha nada.

                 Um domingo a vida de Maryany mudou por completo. Não entendeu aqueles dois meninos e duas meninas de uniforme dizendo que tinham recebido ordens de formar ali na ala C, uma tropa de Escoteiros. Ela riu quando disseram isto. Não sabia o que eram os Escoteiros e nem tampouco uma tropa. Os quatros eram formidáveis. Riam, cantavam, faziam jogos e ensinavam as técnicas Escoteiras. Maryany passou a ver sua vida de outra forma. Agora ia para a Quimio mais alegre mesmo sabendo que ia sofrer. Disseram para ela que os Escoteiros não tem medo, que sorriam nas dificuldades. Eram doze naquela ala do hospital. De vez em quando um ia embora e Nati ou Andi diziam que ele tinha ido morar nas estrelas bem próximo de Andrômeda uma galáxia muito distante. Maryany sempre pensava quanto tempo de viagem, pois Guto o seu amigo que dormia proximo dizia que ela iria também para lá. Interessante que dos doze internos nenhum tinha cabelo na cabeça e quando chegavam novos em pouco tempo caiam todos.

                 Miro o mais Velho dos Escoteiros não sabia ficar sério. Sempre sorrindo e brincando. Alencar sorria também, mas nem tanto como Miro. Lena e Tatiana eram uns amores. As duas logo ficaram muito amigas de Maryany. Em pouco tempo a Tropa Escoteira Dos Guerreiros da Ala C sabia tudo de escotismo. Adoravam quando um deles fazia um jogo, ensinavam um nó, cantavam uma canção. E a lei dos Escoteiros? Maryany sabia de cor. Naquele sábado de setembro ela sentiu no peito uma enorme pressão, calor falta de ar e uma dor por todo o corpo. A quimio fazia efeitos mais duradouros. Eles sempre batiam palmas quando os quatro cantavam a canção das panelas. Morriam de rir, pois nenhum deles nunca lavou uma panela. – Quando terminarem as provas, disse Miro, eu vou chamar o Chefe para fazer a promessa de vocês! – E o uniforme Miro? – Vamos trazer para cada um. Todos sorriam e ficavam esperançosos em vestir o uniforme dos Escoteiros.

                 A alegria como os Escoteiros aos domingos era compartilhada por Nati e Andi. Elas não tinham como fechar o coração para a tristeza que abatia quando alguém era levado às pressas para a UTI. Elas sabiam que de lá não voltariam nunca mais. Mesmo amando aquelas crianças de vez em quando uma lagrima caia solta aqui e ali. O Doutor Pascoal insistia com elas para endurecer o coração, mas era impossível. O câncer é terrível, mas nas crianças é mais terrível ainda. Na Ala C todos os médicos e enfermeiras sabiam que não tinha volta. Quem fosse parar ali dificilmente voltaria para casa. Um coração de ferro para aguentar tudo isto. Principalmente quando elas os viam sorrindo, dentinhos brancos, cabeça raspada, uma bata branca igual para todos e nem sabiam que a esperança poderia não fazer morada naquela Ala C.  

                 Naquele domingo tudo aconteceu. Miro disse a Maryany que ela estava preparada. Ia fazer a promessa. Prometeu trazer o uniforme dela no domingo seguinte. Prometeu também trazer o Chefe e toda a Tropa Escoteira. Nunca se viu um sorriso como o dela. Nunca uma alegria de quem não podia ter nada foi tão grande. Nem bem eles foram embora uma dor enorme no peito quase a levou. Foi uma semana onde Laura e Emília foram levadas para morar na Estrela de Cárpeo. Elas que escolheram esta estrela, pois todos que um dia foram parar na Ala C já tinham escolhido sua estrela preferida no céu. A vida é linda para ser vivida. As experiências mesmo as mais difíceis são provas para que um dia possamos crescer mais espiritualmente e aprender com os erros e entender a vida como ela realmente é.

                  Maryany na quarta gemia de dor. O doutor Pascoal pediu a Nati e Andi que a levassem para a UTI. Ela não iria sobreviver por mais do que uma semana. Lá poderiam aplicar remédios para que a dor fosse menor e quem sabe induzir um coma para que ela pudesse seguir o seu destino. Seus pais não tinham mais esperança, quem sabe na UTI poderia amenizar a angústia e sofrimento que sentiam. Quando Maryany viu que ela seria levada seu mundo desabou. Gritou, chorou, implorou que a levassem na segunda. Ela ia fazer a promessa no domingo era tudo que ambicionava. Ela disse ao Doutor Pascoal chorando que sabia que nunca mais iria voltar. Precisava fazer sua promessa. Queria prometer a Deus e a Pátria que seria uma boa Escoteira na Estrela de Capella. Ela sabia que era onde moravam os bons meninos e meninas que tivessem feito o bem na terra. Prometeu com água nos olhos que não iria chorar de dor. O doutor Pascoal nunca ficou tão emocionado. Aplicou nela uma dose extra de um forte analgésico e ele sabia que em dois ou três dias seu corpo não aceitaria mais o mesmo remédio.

                   Não foi fácil para Maryany aguentar até o domingo. Mas sua força de vontade era tão grande que quando viu adentrarem na Ala C os Escoteiros ela esqueceu a dor que sentia. Quando Lena e Tatiana vestiram nela o uniforme ela chorava de alegria. Seu corpo queria levantar da cama e não conseguia. Estava fraca demais. Miro tirou seu lenço e amarrou na base onde estava colocado o soro e prendeu seu braço mais alto para que ele fizesse o sinal Escoteiro quando fosse fazer a promessa. Todos formaram em volta dos meninos e meninas que ali estavam à espera de um milagre. Miro falou alto para o Chefe – Chefe! Apresento Maryany, uma Escoteira que está pronta para fazer a promessa. – Todos fizeram o sinal Escoteiro. Uma Bandeira Nacional foi desfraldada. Quando o Chefe ia dizer para ela repetir uma vozinha simples, carregada de emoção começou – Prometo pela minha honra, fazer o melhor possivel para – Cumprir os meus deveres para com Deus e a minha Pátria... Maryany não terminou. Seu semblante sorria, seus lindos olhos negros fitavam o infinito. Seu espirito havia partido. Ela não estava mais ali.


                  Um silêncio sepulcral tomou conta da Ala C. O Chefe foi até ela e colocou o lenço. Miro o Monitor colocou nela o distintivo de promessa. A tropa cantava baixinho a canção da promessa. Maryany partira, mas sabia o que estava acontecendo. Amparada por anjos vestidos de branco, Maryany a Escoteira orgulhosa com seu uniforme finalmente descansou. Ela foi morar na estrela de Capella. Todos ali na Ala C sabiam que Maryany foi para o céu!

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

MINHAS PUBLICAÇÕES EM PDF:


MINHAS PUBLICAÇÕES EM PDF:

Quando eu tive a honra de dirigir cursos Escoteiros, sentia a força dos alunos em tentar aprender tudo em poucos dias. Muitos da equipe queriam a todo custo passar para eles uma vida de conhecimentos Escoteiros. Impossível. A literatura sim, ela passa para a gente um aprendizado que nenhuma unidade didática dita por um grande formador pode passar. A leitura trás conhecimentos fantásticos. Não só sobre o escotismo. Fiz uma lista de livros em PDF que podem ajudar a todos. Sei que a maioria os chefes já possuem conhecimento, no entanto tem aqueles que não.
Você pode ter qualquer um destes títulos em PDF. Se um dia souber que estou ajudando me sinto remunerado. Você pede e não paga nada.  

Livros com histórias Escoteiras. (minha autoria)

- A Patrulha da Esperança;
- As incríveis peripécias do Comissário Leocádio;
- O estranho funeral do Chefe Gafanhoto;
- O Fantástico Jogo Noturno na Ilha do Gavião Negro.

Condensados de histórias Escoteiras. (minha autoria)

- As maravilhosas histórias Escoteiras II;
- As maravilhosas histórias Escoteiras III;
- Os pensamentos de Lord Baden-Powell;
- Antologia de meus Artigos Escoteiros;
- Frases e lembranças de Baden-Powell;
- Acampamentos de Gilwell e Sistema de Patrulha.
- Jim, o Escoteiro do futuro e suas aventuras;
- As fabulosas aventuras do Escoteiro Juquinha
- Os Cinco Magníficos – Seniores aventureiros;
- Os contos incríveis da Meia Noite (não Escoteiros);
- Orações Escoteiras;
- A Bravura de um Herói. Baseado na história de Caio Vianna Martins;

Também a disposição em PDF de outros autores:

- O Sistema de Patrulhas – Roland Phillips;
- Interpretação do Livro da Jângal – Blair de M. Mendes;
- O guia do Chefe Escoteiro – Por Baden-Powell;
- Aplicando o Sistema de Patrulhas – de Bi. E.E. Reynolds;
- Sistema e espírito de Patrulha;
- Aprendendo o percurso de Giwell;
- O Ramo sênior;

Se você quer aprimorar seu conhecimento, será uma honra atender ao seu pedido. Não peça todos de uma vez. Não tenho condições de fazer um download de todos. Peça dois, três ou quatro e com o tempo vá pedindo os demais. Escreva: Chefe me mande...


E lembre-se. Só poderei atender quando receber um e-mail do interessado. Portanto deixar o seu aqui não posso atender. Desculpe.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Pirilampo, um Beija Flor no verde Vale de Nagoya.


Acalma-te e serve.
Não fizeste o Sol que te ilumina.
Não fabricaste o ar que respiras.
Não criaste o solo em que te apóias.
Não teceste a vestimenta das flores que te rodeiam.
Não pares de trabalhar.
A vida te pede o bem que se te faça possível.
O impossível virá de Deus.

Lendas Escoteiras.
Pirilampo, um Beija Flor no verde Vale de Nagoya.

        Não faz muito tempo quem sabe uns trinta ou quarenta anos. Já não era mocinho e meus anos ultrapassavam as trinta primaveras. Éramos mais de doze e menos de quinze. A quantidade não lembro-me bem. Foi até um acampamento gostoso, só de chefes. Tinhamos feitos outros e não pertencíamos ao mesmo grupo e isto nada significava para a fraternidade e irmandade que existia entre nós. Programa? Duas patrulhas, dois compôs, trabalhando e se divertindo com seus patrulheiros. Eu era um Guanambi, e quando me disseram o que era fiquei perplexo – Chefe, Guanambi é um beija-flor! Tudo bem, eu admirava os pequenos voadores a procura de seu néctar das flores. Eles entre os pássaros poderiam ser considerados príncipes ou quem sabe Reis? Sabia que tinham todas as cores e nunca parei para observar melhor. Onde estávamos acampados uma calma enorme se fazia acontecer no campo. Uma gostosa passarada a cantar seus cantos maravilhosos, o som intermitente de uma pequena cascata, grilos que anunciavam tempo bom e formigas indo e vindo sem pressa com suas cargas enormes.

           As noites para nós eram belas. Não havia pressa para nada, que o jantar ficasse pronto quando estivesse pronto. O banho da tarde no pequeno remanso refrescou o corpo de tanto sol que pegamos, só por tentar se aproximar pé ante pé de um esquilo. Não dava para mexer e o suor corria naquele sol escaldante das três horas da tarde. Um jantar supimpa e aos poucos os chefes iam chegando na Pedra do Conselho, nome pomposo que dávamos a conversa ao pé do fogo. Um nome roubado dos lobos, mas que seria devolvido tão logo o acampamento terminasse. O Cantor logo deu o ar da graça. Terra do Belo Olmeiro. Linda canção dos caçadores de pele dos lagos canadenses. – ¶“Terra do belo olmeiro, lar do castor, lá onde o alce airoso é o senhor”... Uma letra de tirar o folego. Alguém contou uma piada. Uma piada Escoteira. Ali a pureza nos pensamentos palavras e ações tinham seu lugar ao sol, ou melhor, à noite.

           O bule de café e outro de chá a beira do fogo tinha visitantes frequentes. Todos nós esperávamos que  Cabelos Vermelhos pedisse a palavra. Alto, forte nós sabíamos que ele sempre tinha uma bela história para contar. – Ficou em pé, olhou para o céu, sentou novamente e com uma voz clara começou mais uma bela história para nosso deleite. - Era uma vez... Há muito tempo, eu era menino de calças curtas e recém admitido na tropa. – Cada um de nós nos refestelamos no banco tosco e nenhum som mais se ouviu a não ser o crepitar do fogo e olhar pequenas fagulhas dengosas a subir aos céus. A voz de Cabelos Vermelhos era sonhadora, ele sabia como contar uma história. A principio sentado, mas a gente já sabia que ele ia ficar em pé, ia gesticular pular e cantar. Era seu dom. ele sim era um contador de histórias. – Naquela época, dizia Cabelos Vermelhos a nossa inocência, o nosso amor e a fraternidade nos dava oportunidade de conviver com os animais com os pássaros e até os repteis eram nossos amigos.

                  Nos preparamos para mais um acampamento de verão. Dizem que no verão as chuvas caem mais forte, mas nós não nos importávamos. Não foi Edson quem disse que tudo passa, a chuva passa, tempestades passam. Até furacão passa difícil é saber o que sobra? Sabe amigos, nos amávamos a chuva. Dizíamos para nós mesmos que não importa a chuva que cai... Pois após as tempestades eu tenho encontros com o sol! Nossos preparativos foram rapidamente realizados. Em uma bela manhã partimos rumo ao verde Vale de Nagoya. Era um dos vales mais lindos que conhecíamos. Era lá que o sol quando nascia nos dava um sorriso e quando se ponha deixava escrito no céu – Que a lua e as estrelas cuidem de vocês como eu cuidei. Não choveu a não ser uma pequena garoa no terceiro dia. O nosso programa nos dava tempo para belas construções e explorações de grutas que lá havia as dezenas.

                   Foi em uma tarde bolorenta, daquelas que dá vontade de cochilar e não acordar que vi um Beija Flor em cima da mesa do refeitório. Semblante triste asa caída me olhou choroso e disse – Olá Escoteiro, foi bom ver vocês. Estou partindo do Vale de Nagoya aqui nunca mais voltarei. – Olhei espantado para o Beija Flor e sem precisar perguntar ele continuou. Meu nome? Pirilampo. No passado diziam que eu tinha luzes que piscavam que eu levava o sorriso aos meus irmãos. Hoje Escoteiro, hoje não sou nada aqui neste vale que um dia foi florido e hoje não é mais. Vou as escarpas, voo rasante pelas cascatas no vale, tento subir mais alto para descobrir flores que agora não existem mais. Você meu amigo Escoteiro sabe como somos. Temos o dom de voar em marcha-ré e de permanecer imóveis no ar. Você sabe que podemos voar a velocidade do som e que adianta tudo isto?

                   Olhei o Pirilampo e não disse nada. A patrulha já tinha observado que o Vale de Nagoya já não era mais o mesmo. As flores desapareceram com as queimadas dos sitiantes, onde havia um bosque com uma nascente cristalina desapareceu. As árvores eram vendidas pelo melhor preço para servirem de carvão e nas usinas siderúrgicas produzirem o ferro ou o aço para as máquinas infernais. Vi nos olhos de Pirilampo pequenas gotas de lágrimas que caiam. – Pois é Escoteiro, os sitiantes acreditam que nós somos anjos, que podemos voar em suas terras, que nosso néctar nunca ia se acabar. Eles mesmos inventaram o meio de nos dar água com açúcar como isto fosse substituir nosso néctar. Eles não sabem que quando o sol esquenta fermenta a água açucarada e ela tem nos feito tanto mal que alguns de nós morremos em poucos dias.

              Tenho de partir, meus irmãos já foram. Eu sou o último beija flor do Vale de Nagoya. Não sei se aqui voltaremos, pois acredito que o Vale de Nagoya se foi para sempre. Não queria ir sem me despedir de vocês. A vida aqui no vale me ensinou a dizer adeus às pessoas que tenho amizades e vocês ficarão para sempre em meu coração. Adeus Escoteiro, que as gotas de chuva de hoje possam lavar os pensamentos ruins e alegrar os olhos de vocês para sonhar com um futuro, um Vale de Nagoya novamente seja um vale florido, cheio de Beijas  Flores no céu. Pirilampo levantou voo e se foi. Não deu uma revoada em cima do nosso campo de patrulha. Partiu como se quisesse esquecer aquele vale de agora e lembrar sempre como foi em um passado distante.

                 Cabelos Vermelhos se calou. Todos nós estávamos calados. Não havia o que dizer. Alguém com os olhos vermelhos perguntou – E aí Cabelos Vermelhos, como é hoje o Vale de Nagoya? – Aquele Chefe contador de histórias nos olhou, fechou os olhos e disse: - O homem destrói a natureza na justificativa de sobreviver, a natureza luta para sobreviver, para garantir a sobrevivência do homem!

"Afogue a tristeza nas ondas da alegria;
Enxugue as lágrimas no manto do sol e faça brilhar um sorriso nos lábios.

 A boca que vive a chorar desaprende a sorrir.”.