Histórias e contos escoteiros.

Histórias e contos escoteiros.
Feitas para você se divertir!

sábado, 31 de maio de 2014

As duas vidas do Escoteiro Gegê.


Lendas escoteiras.
As duas vidas do Escoteiro Gegê.

             - Chefe! Eu quero ser um Escoteiro! – Olhei para trás e me deparei com um menino de onze ou doze anos, magérrimo tanto que duvidava como ele pudesse permanecer em pé.  – Por quê? Perguntei – Não sei Chefe, vi vocês aqui e pensei que poderia ser da turma. – Sabe, eu não tenho turma. Parece que todos correm de mim. – Por acaso você sabe o que ser um escoteiro? Ele coçou sua cabeça, pensou e me disse – Francamente não sei. – Olhei para ele de novo – Um menino que parecia não comer a vários dias, mas que estava de cabelos limpos, penteados e roupa apesar de velha limpa. Seus cabelos eram loiros e seus olhos não deu para saber. Eram profundos e quase não apareciam. Disse para ele em poucas palavras o que seria um Escoteiro, falei dos acampamentos, das jornadas, das atividades noturnas, da patrulha e terminei com a lei e promessa. Ele ali em pé me ouvindo como se eu fosse um novo Deus para ele. Sorriu. – Gostei Chefe! Posso começar agora?

                Sempre procurei dar atenção aos meninos e meninas. Nunca deixei ninguém sem uma resposta ou um conselho desde que me pedissem. – Claro que pode. Como se chama? Gegê. - Só Gegê? Bem minha mãe disse que vai fazer meu registro assim não sei o resto. – Pensei comigo, seria filho de alguém inculto que nem registrar o filho o fez? - Gegê meu novo amigo, poderia pedir sua mãe ou seu pai para vir conversar comigo? Vi seus olhos se encherem de lágrimas, nem disse adeus e partiu. Fiquei surpreso não esperava isto. O tempo passou, acho que uns dois meses. Estávamos em marcha de estrada e aproveitando para aprender o passo duplo. Vi que já tínhamos percorridos mais de seis quilômetros – Vamos parar! Eu disse. Vinte minutos. Não esqueçam, pés acima do coração para a circulação voltar! Foi então que vi Gegê, era ele sem dúvida. Estava a uns oitenta metros e parou também. Estava nos seguindo.

               Não o chamei, fui até ele. Ele não correu. – Olá Gegê, como vai? Ele não falou nada. Está nos seguindo? – Não Chefe, eu moro logo ali na Porteira do Aleijado. Eu sabia onde, era um pequeno povoado de gente humilde e pobre. – Porque Gegê não levou sua mãe? Ele abaixou a cabeça. – Chefe, não tenho mãe e nem pai, mas Mamãe Tiana me criou e me ama! E porque ela não foi com você ao grupo? Ela não anda Chefe, ela vive na cadeira de rodas, ela ganha um salario mínimo e me criou desde que mamãe morreu e papai sumiu. – ah! Vida. Sempre a nos dar uma lição. – Me mostre sua casa quando passarmos lá Gegê, na semana tiro um dia e venho visitar você e conversar com Mamãe Tiana. Ele me olhou de soslaio. - Porque Chefe? Ora porque, vou inscrever você na Tropa Escoteira, será meu convidado e todos irão ajudar no seu uniforme! Falei orgulhoso. – Chefe, desculpe não me leve a mal, não quero esmolas! – Quase cai de costas. – Gegê, não é esmolas, nós Escoteiros sempre ajudamos uns aos outros, um dia você vai ajudar a alguém e vai saber o quer é isto.

             Gegê virou as costas e se foi. – Menino difícil pensei. Poderia entender, pois onde foi criado não era fácil sobreviver. Um mês depois empurrando uma cadeira de rodas e uma senhora idosa nela, eis que entra Gegê na sede. – Boa tarde senhor. Vim trazer o Gegê para ser Escoteiro. Ele fala o tempo todo nisto. Disse para ele vir e dizer ao Chefe que não podia vir. Ele disse que não o Chefe foi categórico. Trazer a mãe ou o pai ou um responsável. Olhei para Gegê. Melhor não dizer nada. Os levei para a sala do Grupo Escoteiro. Servi um café e coloquei na mesa alguns biscoitos. Ela só tomou o café. Gegê nem tocou nos biscoitos. Dona Tiana, posso ajudar a registrar o Gegê? Ele me olhou com olhos piedosos. – Não posso pagar. – dona Tiana agora não se cobra mais para quem ganha até um salário. Vou a sua casa e viremos todos ao cartório. Sem delongas. Um mês depois Gegê tinha seu registro e sua identidade. Notei sua alegria em saber que agora era um brasileiro.

              Durante meses Gegê participou da Tropa Escoteira querendo aprender tudo que devia aprender em anos. Eram seis quilômetros para vir e outros tantos para voltar a sua casa, mas ele nunca desistiu. Um dia chegou para mim e me fez um pedido inusitado. – Chefe soube que vai haver no cinema Palácio uma apresentação. Um senhor famoso vai tocar piano e não sei como sempre sonhei com um piano e nunca vi um pessoalmente. – Gegê, você é meu convidado. Vou buscar você e se sua mãe Tiana quiser ela vai também. – Gegê riu. – Não Chefe, ela não pode sair de casa a noite. Ela é cega, não enxerga! – Putz! Cada um carrega sua sina. Quando entrei com Gegê no cinema ele parecia estar entrando no céu. Sorria, nos olhos lágrimas de alegria. Pediu-me para leva-lo até ao piano, ele queria conhecer um. Pedi licença e subi no palco. Ele acariciou o piano a moda dos grandes pianistas. – Posso? Perguntou para um senhor Velho que estava ao lado. – fique a vontade garoto.

            Não sei o que dizer e fiquei espantado, admirado e atônito. Gegê sentou e começou a tocar. Calmamente os sons saiam maravilhosamente. Eu conhecia um pouco de música clássica. Era uma Tocata e Fuga em Ré Menor de Johann Sebastian Bach. Incrível! Fiquei mesmo pasmado. Um menino criado por uma idosa agora cega, sem nenhuma condição financeira e nunca viu um piano e agora ali a tocar Bach? Inacreditável! Meus olhos encheram-se de lágrimas. O Pianista que estava na coxia veio correndo. Como eu ficou maravilhado. Muitos que chegavam ao cinema paravam para ouvir. Quando Gegê parou um silencio total depois uma estrondosa salva de palma. Não vou entrar em detalhes, como o pianista levou Gegê para Paris e claro sua mãe Tiana. Ele ao partir no aeroporto me deu um forte abraço – Chefe nunca vou esquecer o senhor e o tempo maravilhoso que passei aqui na Tropa Escoteira. Diga a todos que eles permanecer no meu coração para sempre.

             Gegê se foi. No céu seu avião azul desapareceu. Tempos depois as noticias começaram a pipocar. Um critico famoso de um jornal local escreveu – Imagine uma excelente pianista, do tipo de referência mundial, tocando com as maiores orquestras do planeta, com um grande humor, um gênio no piano, um talento sem igual e vem tocar em nossa cidade no cine palácio. Fiquei boquiaberto. À tarde recebi um telefonema. Chefe estou chegando. Faço questão de todo o Grupo Escoteiro presente. Eles não irão pagar e ninguém irá pagar. Soube que a cidade inteira quer ouvir. Pedi para que fizessem um palco na Praça Don Gaspar e olhe, gostaria de participar de uma reunião escoteira. Posso? – dizer o que? Só sei que foi o maior evento já acontecido em nossa cidade. Gegê foi até a Porteira do Aleijado onde morou. Deu a todos uma nova casa, exigiu uma escola e me pediu para dar uma força e organizar uma tropa lá.


                    Não sei quantos Gegês existem neste mundo. Howard Gardner Professor da Universidade Harvard nos Estados Unidos afiança que são muitos. Nem todos diz ele tem uma existência absoluta. Mas aquele que as possuem são dotados de inteligências que até hoje ninguém conseguiu explicar. Gegê se tornou um amigo que sempre voltava a me visitar e ao Grupo Escoteiro em nossa cidade. Em sua apresentações pelo mundo nunca deixava de tocar o Rataplã e a Arvore da Montanha. Escotismo é assim, surpresas aos montes, alegrias gostosas e amor no coração!

terça-feira, 27 de maio de 2014

Ele era apenas um índio... Um índio brasileiro!


Nós não herdamos a Terra de nossos antecessores, nós a pegamos emprestada de nossas crianças.

Lendas escoteiras.
Ele era apenas um índio... Um índio brasileiro!

                    Ele sabia que não era de uma extirpe de índios famosos, seus antepassados se foram e agora eram uma tribo de gente triste e sem futuro. Seu nome era José Raposo. Seus pais disseram que o primeiro nome dele era Guaraciaba, aquele que tem cabelos de sol. Loiro? Diziam que sim. Zé com seus dezoito anos era um índio simples, curtido de sol, usava um calção verde e com ele ficava por uma semana ou mais. Tinha um corpo jovem, mas um medo atroz de uma doença maldita que quase acabou com sua tribo. Kerexu ainda contava belas histórias dos índios Botocudos, quando eram fortes e famosos e habitavam a Serra do Onça no Alto Rio Doce. Kerexu dizia ter duzentos anos, mas não era verdade. Devia chegar nos 105 anos não mais. Ninguém entendia porque ele não morria. Era tudo na tribo, o Pajé, o doutor, o psicanalista e o religioso. À noitinha a meninada corria para a porta de sua Oca, e ali ficavam esperando a hora que ele com seu cachimbo enorme, com folhas de tabaco ressequidas soltava gostosos rolos de fumaça que fazia os olhinhos da turma seguirem o O ou o U que ele fazia com a fumaça que expelia do cachimbo. Kerexu era uma alma boa. Jose Raposo o considerava como um pai.

                Zé não tinha o que fazer. Zanzava para um lado e outro da aldeia e seus arredores. Sempre de olho nas águas modorrentas do Rio Doce. Ele sabia que terminando a estação das chuvas Anajé o Branco poderia aparecer. Eles se conheceram quando Zé viu-os acampados próximo à cachoeira do Limão, logo abaixo da curva da serpente. Ficou a olhar de longe os meninos brancos de chapéu longo, de lenços no pescoço e tentava em sua pequena compreensão ver o que iriam fazer. Alguém o cutucou por trás e Zé deu um salto se preparando para a luta. Anajé riu quando viu que ele se encrespava todo. – Paz amigo, muita paz! E sem ele esperar o Branco lhe deu um abraço. – Como se chama? Zé pensou que devia dizer seu nome indígena, quase disse – Apenas Zé... Mas orgulhoso falou alto: - Guaraciaba, o homem dos cabelos do sol! - Muito prazer Guaraciaba, meu nome é Josiel, mas me chame por Anajé, o gavião das montanhas! Recebi este nome há dois anos quando saltei o Fogo do Conselho no Vale das Corujas.

                Ficaram amigos e a noite, quando eles fizeram um fogo, Anajé cortou acima de seu pulso com a faca, repetiu o mesmo com o seu e dos demais brancos da patrulha. Juntou as junções que sangravam e disse – Guaraciaba, você e eu Anajé e os Patrulheiros da Raposa agora somos irmãos de sangue para sempre. Guaraciaba sorriu. Nunca teve amigos brancos e viu que os jovens de caqui lenço e chapelão bateram palmas. Guaraciaba os convidou para visitar a aldeia.  Meu amigo Anajé, não espere ver tendas de lona redondas feitas de pele de búfalo ou cavalos malhados a saciarem a sede na beira do nosso rio. Não espere roupas coloridas, colares feito de pedras preciosas, penachos de penas de pássaros que só nas mais altas montanhas se encontram. Nada disto, nossas tradições se perderam no tempo, hoje somos à sombra de uma famosa tribo dos Botocudos que um dia se orgulharam de suas histórias e lendas que desapareceram com o vento. Anajé riu. – Amigo e irmão Guaraciaba, não quero ver grandiosidades, basta o amor que vocês têm no coração. Anajé voltou lá por muitas luas. Fez muitos amigos na tribo e conversa constantemente com Kerexu.

            Guando Guaraciaba e Anajé estavam juntos, eles corriam pelas campinas, pisando em flores macias, saltando riachos de águas cristalinas, escalando montanhas e picos próximos a Nanuque, Crenaque ou na Mata do Condor. Nunca Guaraciaba foi tão feliz. Kerexu fez boas previsões para a amizade dos dois, mas preveniu Guaraciaba que um dia Anajé iria desaparecer como o vento da chuva para sempre. Anajé o levou a visitar sua cidade, o alojou em sua própria casa, ele sentou em uma mesa com a mãe de Anajé e seu pai, se sentiu importante por fazer as refeições junto aos brancos. No passado ele não gostava de brancos. Zumbiara o Chefe da FUNAI era traiçoeiro. Nunca atravessou o rio. Sempre mandava chamar o seu pai o Cacique Aritana para dar ordens, remédios e mantimentos. O fazia com desprezo, como se estivesse dando do próprio bolso. Mas ali, junto à família de Anajé Guaraciaba se sentiu outro. Tinha orgulho agora de ser um índio. Ele sabia que seu coração era feito de sangue vermelho, sangue dos antepassados e agora mais ainda sorria por ser quem era.

              Naquele sábado que ele foi apresentado a Tropa, a Alcateia, ao Grupo Guaraciaba chorou. Não queria demonstrar fraqueza, pois diziam que índios são fortes valentes e não choram. Sentiu a força dos meninos de amarelos e azuis, de lenço e chapéu grande. Sentiu uma amizade entre eles incrível. Quem sabe ele poderia fazer isto na sua tribo? Retornou pensando em mudar. Em voltar no tempo dos guerreiros fortes, sorridentes e que manteriam para sempre seu passado e se orgulhassem dos seus antepassados. Guaraciaba casou com Avati e com ela teve dois filhos homens. Mandou vinte guerreiros estudar na capital. Dois voltaram doutores. A tribo mudou da água para o vinho. Agora a Aldeia tinha uma escola e um posto de saúde e Guaraciaba corria pelos campos, pelos rios e riachos a procura dos gazeteiros. Dava um sermão e eles de cabeça baixa voltavam para a escola. Anajé um dia disse a ele: - Guaraciaba um dia não vou voltar. Tenho que partir para longe em busca do meu destino. Mas quero que lembre que meu sangue está junto com o seu. Em espirito aqui irei morar para sempre.

              Anajé partiu. Muitas luas se passaram e Guaraciaba ficou doente. Seus doutores e Kerexu fizeram tudo para salvá-lo, mas não conseguiram. Os filhos de Guaraciaba agora adultos juraram ao seu pai que os antepassados dos Botocudos iriam se orgulhar na nova tribo para sempre. Uma semana depois Guaraciaba estava nas últimas. Seus olhos quase não abriam. A taba cheia de índios rezando. Alguém pediu passagem e ninguém mais ninguém menos que Anajé apareceu. Deu um abraço aperto em Guaraciaba. – Meu amigo, eu estava longe e uma noite Caapora e Catu me apareceram em sonhos. Disseram que você precisava de mim e logo sumiram em uma nuvem branca no céu. Aqui estou e vim trazer para você o meu amor Escoteiro onde um dia nossos sangues se cruzaram para que pudéssemos ser amigos até no firmamento na terra dos seus antepassados. Quando você partir o sol vai sorrir, quando você chegar ao meio do céu Tupanã o Deus do Universo vai abraçar você. Então Tupanã vai soprar sobre você e vai dizer – Aqui Guaraciaba você vai esfriar sua sede, aqui o fogo do céu vai aquecer seu corpo quando sentir frio, aqui você vai correr pela terra junto aos seus antepassados. 

                 Guaraciaba morreu sorrindo. A tribo começou a cantar aos sons de tambores, chocalhos, guizos e cabaças. No céu de brigadeiro um trovão anunciou a chegada de Guaraciaba junto a Tupanã.  Anajé partiu três dias depois. Abraçou Piatã e Apuã os filhos de Guaraciaba – Estarei com vocês em todas as horas e em todos os momentos. Pensem em mim quando precisarem de ajuda. Anajé colocou seu chapéu de abas largas, firmou seu lenço verde e amarelo no pescoço, amarrou sua bota negra e alçou sua mochila verde nas costas. Em uma simples jangada atravessou as águas tranquilas do Rio Doce levando consigo as saudades de um índio que sempre amou!


“Porque o meu irmão índio também me ensinou o valor da terra, o amor pelo chão e por seus frutos”.

domingo, 25 de maio de 2014

“O FANTÁSTICO JOGO NOTURNO NA MISTERIOSA ILHA DO GAVIÃO NEGRO”


“O FANTÁSTICO JOGO NOTURNO NA MISTERIOSA ILHA DO GAVIÃO NEGRO”

Caríssimo Chefe Osvaldo. Acabei a pouco de ler seu livro. ADOREI!!! Leitura leve, dinâmica e com um suspense saudável. Nos faz querer acabar logo para ver o que acontece em seguida. Claro que sou uma devoradora de livros, mas, quando a leitura te envolve fica muito mais gostoso. (de uma leitora amiga).

Se você ainda não recebeu o que está esperando para pedir? Mais de 640 leitores já leram. Um livro de Escoteiro para Escoteiro. Uma história incrível, e você vai amar o Chefe Remo, os monitores e os dois Escoteiros seniores. Alma do jogo. Vamos lá, escreva para mim: - Chefe Osvaldo, me mande já urgentíssimo em PDF o livro O Fantástico Jogo Noturno na misteriosa ilha do Gavião Negro. Chefe lembre-se GRATUITO! Pronto, espere e vai receber ainda hoje.

Pense uma tropa de 28 Escoteiros sedentos de aventuras em um grande jogo noturno. Pense em quatro monitores da pesada, daqueles que a patrulha confia até a morte. Pense em dois seniores colaboradores que darão a vida para que exista um jogo misterioso e fantástico. Pense em dois chefes aventureiros que fazem do jogo a maior aventura de suas vidas. Agora jogue todo mundo em uma ilha misteriosa com centenas de gaviões negros e um Velho de barba branca coberto somente por um couro de cobra e que pula de galho em galho como um macaco. Agora entre na pele destes Escoteiros onde cada patrulha lutou para chegar a um ponto da ilha e vai ter de atravessá-la de uma ponta a outra durante uma noite escura e sem luar dentro de uma floresta. E para terminar pense em centenas de armadilhas que faz com que cada Escoteiro fica estarrecido com o silêncio e depois o barulho infernal da floresta como se o céu desabasse sobre a ilha. E para terminar pensem em uma luta de “morte” no final do jogo no Forte Hã-Hã-Hãe-quibaana. E que como diz a lenda de histórias de mistério “Só um pode sobreviver”! E aí, vai ficar sem a maior aventura escoteira de todos os tempos?

elioso@terra.com.br 

domingo, 18 de maio de 2014

A classe dominante vai ao escotismo.


Lendas escoteiras.
A classe dominante vai ao escotismo.

(Uma pequena homenagem a Carlos Kohl, um grande amigo gaúcho que hoje mora lá no céu).

(esta é uma história de ficção, qualquer semelhança com pessoas ou fatos reais é mera coincidência).

Sou gaúcho forte, campeando vivo
Livre das iras da ambição funesta;
Tenho por teto do meu rancho a palha,
Por leito o pala, ao dormir a sesta.
Monto a cavalo, na garupa a mala,
Facão na cinta, lá vou eu mui concho;
E nas carreiras, quem me faz mau jogo?
Quem, atrevido, me pisou no poncho?

                   Vertentes da Saudade era uma cidade pequena, antiga e ainda enraizada nas velhas tradições gaúchas. Ficava a oeste de Uruguaiana mais de oitocentos quilômetros de Porto Alegre. Nada mudou em Vertentes nos últimos trezentos anos. Os antigos donos da terra os Índios Guaranis eram sombra do orgulho do passado. Uma estátua centenária do Padre Jesuíta Cristóvão de Mendonça estava encravada na praça central e hoje poucos param para ver o que está escrito em sua placa de bronze. Havia no ar uma melancolia talvez por falta do que fazer pois a população vivia do plantio do feijão e criação de gado. Ali em Vertentes da Saudade os direitos de cria recria e engorda tinha dono. O Coronel Totonho Mercês Almeida Pais reinava absoluto sobre os demais estancieiros. Ele praticamente era o juiz, o prefeito e o delegado e ninguém poderia de maneira alguma contrariar suas ordens. E olhe que estávamos no século vinte e um.

          O menino Luiz Mercês Almeida Pais com onze anos tinha puxado o pai. Orgulhoso, andava de nariz empinado e conversava com os outros como se estivesse dando ordens. Ninguém tinha coragem de olhar nos olhos diretamente do pai e do filho, diferente de Dona Leonor Mercês Almeida Pais esposa do Coronel Totonho. Uma alma caridosa, nunca levantou a voz para ninguém. Todos a procuravam nas horas mais difíceis e ela sempre bondosa não negava ajuda. O Topógrafo Siqueira Nantes Leal nascera em Vertentes da Saudade e nem sabe como resolveu um dia fundar um Grupo Escoteiro na cidade. Houve uma revoada geral na meninada. De boca em boca o assunto correu e alvoraçou a cidade. Gaúcho de verdade não abandona a sua terra e leva no peito a saudade, que toda tarde, trás dela, assim pensava Siqueira que nunca abandonou sua cidade por nada. Dona Filó diretora do Grupo Escolar Flores da Cunha comprou a ideia e logo ofereceu o pátio e duas salas para que o grupo arranchasse para sempre. Assim ela pensava.

      Siqueira Nantes amava Amelinha Salsaparrilha e ela como boa moça quando o viu cantou baixinho: - “Erva, cuia, chimarrão. Não é apenas costume, é amor e tradição. Ela não liga para status, beleza ou dinheiro. O importante para ela, é que ele seja Gaúcho, campeiro e Romântico”. O namoro durou meses e casaram-se na igrejinha do Padre Antonio Feijó numa tarde linda de setembro. Siqueira nem lua de mel teve. Um trabalho encomendado pela Ferrovia do Trigo, que ligava Passo Fundo a Porto Alegre a pedido do Coronel Totonho pensava em fazer um ramal até Vertentes da Saudade, uma linha regular de passageiros e porque não transportar o gado do coronel. Siqueira Nantes não abandonou seu projeto de organizar o grupo escoteiro. Convidou oito jovens e com mais dois professores da escola além da diretora, escolheram o nome do grupo e definiram quando seria feita a solenidade de promessa do grupo. Tudo andava de vento em popa. Siqueira comentava onde passava: “Vai Tche! Por este mundão véio sem porteira, proseando do evangelho, espaiando as boas novas do escotismo prá tudo que é vivente”!

         O menino Luiz Mercês ficou uma fera quando soube que não fora convidado para participar da primeira patrulha do grupo. Falou com seu pai e este mandou chamar Siqueira Nantes para se explicar. De cabeça baixa ele disse que logo teria uma vaga para seu filho. O Coronel Totonho não acreditava no que ouvia. Mandou Zepileu seu secretario chamar os dirigentes do escotismo rio-grandense para se explicarem a ele em sua cidade. Doutor Alfredo Maristo era o Presidente da Região Escoteira. – Que boa bisca é este Siqueira? Se não vou fico de entremeio com a liderança politica. Tenho de ir lá e me rebaixar para um coronelzinho de araque. Doutor Alfredo chegou cedo a cidade. Logo foi levado a presença do Coronel. Com seu vozeirão ele foi dizendo aos gritos de modo mal educado: Moço! Assuma, ou suma da minha frente, pois chega de lero-lero. Se tu não sabes o que quer, eu sei o que eu quero e papo enrolão de homem-banana, é um abacaxi que não quero! Doutor Alfredo tentou se explicar mas não adiantou. – Quem manda na cidade sou eu. Avisa a este sacropanta que se diz Chefe Escoteiro que ele come na minha mão!

          Doutor Alfredo conversou com Siqueira Campos. Um pobre diabo pensou por que foi logo nascer aqui onde Judas perdeu as botas. – Doutor Alfredo, vou desistir. Não quero mais ser Chefe – Na verdade, de que adianta ter a faca e o queijo na mão, quando não se tem mais um fio de vontade, de motivação? Não adiantou a desistência de Siqueira, Coronel Totonho contratou dois profissionais Escoteiros e lá fez um grande grupo que chamaram de Grupo Escoteiro Coronel Totonho. Doutor Alfredo foi obrigado a dar autorização pois ao contrário o Governador do Rio Grande acabaria com ele. E assim fundou-se ou afundou-se as boas práticas escoteiras em Vertentes da Saudade. – Como dizem por aí, Siqueira que nunca foi Chefe e pensou que seria um cantava baixinho: - Vai Tche! Por mundão veio sem porteira, proseando do evangelho, espraiando as boas novas pra tudo que é vivente! – Tô loco de faceiro Tche! Convidaram-me prá ir à casa do patrão celestial pois aqui em Vertentes da saudade nunca mais eu voltarei. Se trouxeres teu orgulho de ser brasileiro, te entregarei a minha honra de ser gaúcho mas nunca submisso.

      Sei que Siqueira foi para outra cidade, se tornou um grande Chefe Escoteiro e até hoje a gauchada de lá o carregam para todo lado a saudar como se ele fosse um herói. Levantar com o pé direito ou esquerdo, não vai determinar se o seu dia será bom ou ruim, suas atitudes sim! Chega um dia que a gente simplesmente muda, os sentimentos mudam e o coração faz novas escolhas. E assim vou terminando este novo conto onde o Escotismo não se abaixou para a classe dominante e nas palavras do gaúcho do Rio Grande eu vou dizendo: - Bueno vou me largando, mais tarde temo aí de novo. “Forte quebra de costela prá toda a gauchada conectada”!


Ó Rio Grande, terra de homens bravos
E mulheres lindas e apaixonadas;
Do chimarrão que aquece noites geladas,
Jardim de sonhos, de rosas e cravos...

Pelo pampa fértil, pelo planalto
Cavalgam gaúchos de olhar obstinado
Rumo ao futuro, relíquias do passado
Que amam a terra e execram o asfalto...

Namoram-no os olhos da Argentina,
Romântica e poética dançarina,
Eterna e apaixonada donzela.

Rio Grande, estado egrégio do sul,
Coberto de oiro sob celeste azul...
Ó terra nobre, ó terra tão bela!
(Luís R Santos) 


sábado, 17 de maio de 2014

A escoteira Gigi, o rouxinol da montanha.


A escoteira Gigi, o rouxinol da montanha.

Longe um trinado.
O rouxinol não sabe
que te consola.
 "Se você ama a música a ponto de servi-la humildemente, o sucesso acontecerá automaticamente”.
– Maria Callas

                      Quando nasceu Maria Eugenia não chorou. Os médicos estranharam. Ela os olhava com seus lindos olhos verdes bem abertos. Quando a colocaram junto à mãe, ela sorriu. Incrível! Gigi falou as primeiras palavras aos oitos meses e com nove já andava pela casa toda. Mas a surpresa maior foi quando ela fez dois anos. Ouvia musicas junto aos seus pais e cantava. Uma linda voz, mas ainda em fase de desenvolvimento. Gigi foi crescendo e quando fez seis anos seus pais se assustaram. Gigi não era uma boa aluna. Só mesmo uma cantora excepcional.

                     Seus pais eram pessoas humildes. Sem posses, mal uma casinha simples na periferia da cidade. Ela convivia com meninas da sua idade, mas tão pobre como ela. Dificilmente os pais podiam comprar um presente para ela no natal. Mas nunca deixaram de dar, sempre um presente simples. Gigi não se importava. Gostava de sentar na frente de sua casa e com as amigas ela cantava, todos calavam e ficavam de olhos e ouvidos fixos em Gigi. Ainda cantava musicas comuns.

                     Quando fez sete anos, viu na escola uma menina de uniforme e ficou encantada. Perguntou o que era e soube que ela era lobinha. Encantou-se. Queria ser uma delas. Sua mãe uma simples lavadeira nem entendeu direito seu pedido. Seu pai, um pedreiro sem emprego, trabalhando como diarista tentou dissuadi-la. Não conseguiu. Ela não chorava, sabia de sua condição humilde, mas tanto falou que sua mãe e seu pai um dia de sábado vestiram suas roupas de ir à missa. As melhores que tinham e a levaram ao Grupo Escoteiro.

                      Seus pais se sentiram um peixe fora d’água quando chegaram ao Grupo Escoteiro. Em um canto do pátio observavam tudo até que um chefe bem educado os procurou. Explicaram o porquê estavam ali. Deixaram bem claro suas condições financeiras. Nunca poderiam arcar com despesas se ela fosse aceita. O chefe Carlos foi calmo e sorrindo explicou que não se preocupassem. O Grupo Escoteiro tinha uma verba para ajudar aos jovens mais pobres. Mas que para isso eles deveriam também estar presentes à vida do grupo, para qualquer tarefa. Quais eles seriam cientificados posteriormente.

                        Um mês depois Gigi foi apresentada a Alcatéia Seeonee. Foi o dia mais feliz para Gigi. A princípio a Akelá a achou meio “sapeca”. Não levava a serio sua matilha. Alguns meses depois Gigi se transformou. Nelsinho o primo da matilha era um dos seus melhores amigos. Infelizmente Nelsinho não ficou muito tempo. Seus pais mudaram da cidade. Foi nesse dia que descobriram na Alcatéia a voz que Gigi tinha. Ela cantou sozinha a canção da Despedida. Não houve quem não chorasse. Baloo sorriu e disse para Bagheera em seu ouvido – “Incrível! Será uma das maiores cantores do nosso país.”.
   
                        Mas Gigi se revelou mesmo quando a Alcatéia foi ao parque municipal, em um domingo ensolarado. Quando das brincadeiras e desenvolvimento da reunião especial, deram falta de Gigi. Encontraram-na próximo ao anfiteatro ao ar livre. Uma orquestra sinfônica fazia uma apresentação com vários cantores. Acredito que foi a primeira vez que Gigi ouviu alguém cantando Tosca, de Giacomo Puccini. Ela estava de olhos arregalados e pediu a Akelá que esperasse até a música acabar.

                        Não sei e não posso explicar, mas quando acabou uma salva de palmas explodiu de todos os ouvintes, Gigi começou a cantar a Tosca. Sem orquestra. Como se diz na gíria, a “escoteira”. Um silêncio enorme de todos os presentes. O maestro acorreu mais perto para ver. Pediu para ela subir ao palco, uma estrondosa palma. Gigi não se abalou. Quando o maestro ia agradecer a ela veio outra surpresa. Gigi começou a cantar Madama Butterfly Lib. Incrível! Incrível mesmo! Ninguém agüentou. Emocionados ficaram de pé aplaudindo Gigi.

                         Ela com seu uniforme de lobinha sorria. Linda a Gigi. Linda mesmo a Gigi. Saiu correndo e voltou para sua Alcatéia sem se despedir de ninguém. Os chefes e as chefes da Alcatéia Seeonee estavam mudos. Não sabiam o que dizer. Foram procurados pelo maestro. Explicaram que não eram os pais de Gigi e não podiam tomar nenhuma atitude a respeito. Que ele desse um cartão e eles falariam com seus pais. Gigi a princípio passou a ser olhada de outra maneira. Mas por um ano ela não cantou. Todos esqueceram o dia no parque. Entregaram o cartão aos pais de Gigi, mas eles acharam prudentes não fazer nada.

                         Ao fazer dez anos, a Alcatéia participou de uma grande atividade do distrito e da região. Mais de quinhentos lobinhos presentes. Cada Alcatéia deveria fazer uma apresentação no ultimo dia. Não seria por matilha, seria por Alcatéia. Dez minutos no máximo. Resolveram fazer um jogral que sempre faziam na sede. Uma apresentação musical contando a historia da cidade onde moravam. Interessante, parecia que todos da Alcatéia sabiam o que ia acontecer.

                         Ao subir ao palco, todos os lobinhos formados um ao lado do outro. Os demais lobinhos e lobinhas assistentes faziam uma enorme algazarra. Claro, quinhentos e oitenta e cinco lobinhos e lobinhas. Quem daria conta de calar a todos? Gigi tomou a frente da Alcatéia e começou a cantar. A principio ninguém notou, mas o silencio em poucos minutos se fez ouvir. Gigi cantava La Traviata. ACT 1. Linda, uma musica que ninguém entendia, mas interpretada por Gigi todos ficaram maravilhados. As palmas e bis mostram que ela podia cantar mais e como cantou. Norma, Lá Wally, Mefistole, Ebbem. Crianças de sete a dez anos sentindo a musica no coração. O tempo correu, Gigi parou e desceu o palco correndo como sempre o fazia.

                           Todos os chefes de lobinhos e lobinhas não sabiam o que fazer. Em coro os lobinhos gritavam – Gigi! Gigi! Gigi! Era incrível mesmo. O tempo passou. Gigi fez a trilha escoteira. Chorou muito quando foi para a patrulha Touro. Não queria. E pouco tempo se acostumou. Em pouco tempo aprendeu a gostar de sua nova vida. Agora era uma escoteira e adorava os acampamentos, excursões e todas as atividades da tropa. Uma nova vida, e não gostava muito quando insistiam para ela cantar. Achava que o tempo era para aprender técnicas escoteiras, fazer boas ações, viver em plena natureza.

                             Gigi adorava deitar na relva e olhar o céu em uma tarde qualquer quando estavam acampadas. Lorena sua monitora uma vez perguntou por quê. Ela custou a responder e disse. Encontro-me no céu. Lá vejo musicas que não conheço. Alguém as dita para mim. Não sei quem é. Nunca vi seu rosto, nem sei sua voz. Vem em forma de sussurros na minha mente. Para sua surpresa seus pais comentaram com ela que tinham recebido um convite de um grande maestro para um teste na orquestra sinfônica da cidade. Gigi não deu muita importância. Nunca se mostrou entusiasmada com convites. Cantava por cantar.

                             Seus pais com as roupas domingueiras levaram Gigi ao teatro Municipal em uma quarta feira à noite. Gigi insistiu em ir de uniforme escoteira. O que aconteceu foi o normal. Todos abobalhados com Gigi. Não podiam acreditar que uma menina (ela já estava com catorze anos) como aquela poderia ser uma copia fiel de Maria Callas. Alguns chegaram a dizer que seria mais famosa que Maria Bárbara Júdice da Costa, ou mesmo que Emma Shaplin ou superior aos homens. Achavam que nem Enrico Caruso se fosse vivo poderia se igualar.

                              Fizeram um contrato. A principio queriam tempo integral. Gigi foi elegante, mas exigente. Minha participação do Grupo Escoteiro não seria abandonada. Não poderia participar de nada da orquestra quando fosse fazer as atividades escoteiras. Para isso ela traria sempre o programa anual para eles. O sucesso explodiu na vida de Gigi. Aos dezesseis anos já participando da tropa de guias, ela foi ao exterior. A orquestra fez um giro por países sul-americanos e onde passavam Gigi era ovacionada de pé por todos. No Teatro/ópera do Chile Gigi se superou. Ao cantar Lá traviata, o teatro veio abaixo. O público aplaudiu por dez minutos seguidos. Os pedidos de bis evocaram pelo anfiteatro.

                             Jornais do mundo inteiro ficaram sabendo de Gigi. Interessante. Na ultima musica apresentada, ela fazia questão de vestir seu uniforme de escoteira. O maestro ria e não se importava. Isto dava uma nova figuração à apresentação. Em sua turnê por Nova Iorque Gigi se apresentou no Orpheu Theatre por duas semanas. A Boy Scout soube que se apresentava de uniforme e comentou em seus boletins e emails a todos os Grupos Escoteiros do país. (diferente do Brasil onde os mais novos entram para uma sessão chamada de Iger Cubs e os mais velhos na Varsity Scout).

                            Não havia mais ingressos disponíveis no teatro durante sua apresentação por duas semanas. Os lideres da Boy Scout procuraram Gigi e o maestro. Combinaram de fazer uma apresentação gratuita no domingo pela manhã, se possível no Conservatory Waty no Central Park onde ao ar livre pudesse reunir o maior numero de escoteiros. Os jornais do outro dia diziam ter participado mais de cem mil escoteiros. A Polícia de Nova Iorque falou que havia menos, uns sessenta mil. Não importa. Gigi impecável no seu uniforme escoteiro cantou Suor Angelica ‘Sister, Mefistofele, Ebbem? Ne andro, Addio Del Passado e Spargi d’amaro pianto. No final cantou Tosca de giacomo Puccine e os escoteiros gritaram entusiasmados aplaudindo. Uma estrondosa palma repercutiu em vários pontos do Central Park.

                             A fama de Gigi se espalhou. Já não era pobre. Ganhava muito. Muito mesmo. Seus pais viviam confortavelmente em uma bela casa em sua cidade. Ma Gigi não estava gostando. Não era bem o que pensou para sua vida. Com vinte e oito anos resolveu parar. Ninguem podia acreditar. A maior cantora lírica de todos os tempos não se apresentar mais aos seus inúmeros fãs em todo o mundo? Foi então que um dia quando estava com seus pais, afastada do palco, recebeu a visita do chefe Carlos, e de muitas amigas que agora tinham crescido e foram com elas lobinhas, escoteiras e guias.

                            Uma delas disse a Gigi que falava em nome de todas. Pediam para ela continuar. Pela primeira vez a juventude se interessava por um tipo de musica. Pela primeira vez a musica clássica ou até a música erudita era apreciada por jovens de todo o mundo e até no Brasil. Afinal era um tipo de musica que é fruto da erudição e não de práticas folclóricas e populares. – Você sabe Gigi, dizia o chefe Carlos, hoje nossos jovens estão vendo o outro lado da musica. Estão aprendendo a gostar de algum que nunca se interessaram.

                            Você com sua voz nos fez entrar em um mundo de sonhos. Onde podemos meditar e viajar com um som inimaginável. Hoje espiritualmente aprendemos a reparar no que estamos ouvindo, o porquê da musica, e quando você canta nos transporta para os grandes acampamentos, onde a noite respiramos a relva, a seiva da árvore, a aragem que sopra o som dos animais noturnos. Você com sua voz harmoniosa e quando seus clássicos são cantados é incomparável. Quem ouve sabe, ela a musica que você canta fala por si só.

                           Quando se foram, Gigi foi para a varanda de sua casa. Era noite de lua cheia. Gigi ficou ali olhando o céu lindo, vontade de trazer a lua perto dela e abraçar. Sentir através dela o mundo. Esqueceu que só tinha amado o escotismo. Seu tempo sempre curto não viu ninguém para amar, entregar seu coração. Mas Gigi sabia. Um dia ele iria aparecer. E ela não iria parar nunca de cantar. Riu quando pensou sobre isso, a lua neste instante parece que riu também com ela. Uma aragem gostosa bateu no rosto de Gigi.

                            Não sei o que aconteceu depois com ela. Soube que agora mora na Itália. Canta por toda a Europa. Gigi a Escoteira ficou conhecida do mundo todo. Tenho todos seus CDs. Agora fez mais um DVD. Continua linda. Dizem que tem um namorado. Nunca vi a foto dele. Mas tenho certeza que Gigi é feliz. Ela se encontrou na musica e no escotismo. Ainda ouço falar de suas apresentações em Jamborees onde sempre é ovacionada pelos milhares escoteiros e escoteiras de todo o mundo.

                           Saudades de Gigi. De sua alegria, de sua voz. Quando me lembro dela coloco em minha vitrola seu CD. Sento na varanda de minha casa e os sonhos entram pela minha mente de volta ao passado. Agora ouço Madama Butterfly. Meus olhos choram. Lagrimas descem pela face. Sempre fui assim. Um apaixonado pela musica linda de Gigi. Espero que ela tenha alcançado a felicidade. Ela sempre mereceu. Teve tudo na vida que uma jovem não teve e teve mais ainda, a felicidade de amar um movimento, movimento que lhe deu a vida, lhe deu o sentido da vida e a revelou para o mundo!

Bravôô Gigi! Bravôô! Que você seja feliz para sempre!

A esperança não murcha, ela não cansa, também como ela não sucumbe à crença. Vão-se sonhos nas asas da descrença, voltam sonhos nas asas da esperança.



sexta-feira, 16 de maio de 2014

O último chefe Escoteiro


O último chefe Escoteiro

Congratulamo-nos às vezes, no momento em que despertamos de um lindo sonho. Não poderia ser assim no momento que segue a morte?

Quando eu for, um dia desses,
Poeira ou folha levada

No vento da madrugada,
Serei um pouco do nada
Invisível, delicioso

Que faz com que o teu ar
Pareça mais um olhar,
Suave mistério amoroso,
Cidade de meu andar
(Deste já tão longo andar!)
E talvez de meu repouso...


                Essa história foi-me narrada por um Comissário Distrital muito meu amigo, quando o visitei em sua residência a muitos e muitos anos atrás. Era comum visitá-lo. Nos conheciamos desde o tempo da patrulha senior. Juntos fizemos belas atividades escoteiras. Aquela de ser metido a herói e fazer escalada sem nenhuma experiência ficou na história. A patrulha inventou de escalar uma montanha onde existia uma pedra muito alta. Subimos 400 metros. Sem condição de prosseguir. Paramos um pequeno lanche para a descida. Descida? Nem pensar. Um medo horrivel. Olhavamos lá embaixo. Vertigem. Tremedeira.

              À tarde, o sol se pondo, os cinco valentes ali no meio da pedra tremendo. Uma noite terrível. Meio metro por dois a saliência. Só no outro dia os bombeiros da cidade foram acionados. Sempre lembravamos deste fato. Belas risadas. Foram tantas que nossa amizade perdurou durante toda nossa vida. Soube que ele se juntou a turma lá no Grande Acampamento. Que Deus o tenha. Daqui a uns tempos vou dar uma passadinha lá. Não pretendo ficar (risos).

              Bem voltemos ao que  ele me contou.  No seu distrito havia um chefe Escoteiro bem antigo, bem "Velho" alíás. Ficou toda a vida em um só Grupo Escoteiro e era amado e bem considerado por todos. Deixou de frequentar por problemas de saúde. Tinha que inalar várias vezes ao dia e suas forças não eram a mesma. Claudicava, tremia, respira mal e sua vóz quase não se entendia. Claro, estava com 82 anos. Um dia resolveu lembrar o passado. Comprou um pequeno balão de oxigênio, que dava para seis dias, preparou um bornal para ele, de maneira a não atrapalhar o que iria fazer.

               Isso mesmo. Seu último acampamento. Ele queria fazer um antes de morrer. Ria e contava para todo mundo. Ninguém acreditava. Mas ele era teimoso. Muito obstinado. Sua esposa horrorizada tentou demovê-lo da idéia. Não conseguiu. Chamou os filhos (eram três) nada obtiveram. Vieram amigos escoteiros, desistiram em pouco tempo. Chegaram à conclusão que se ele não fosse morreria alí na sua casa em poucos dias. Quem sabe bem tutorado ele podia ir? Claro os filhos sem ele saber iriam vigiá-lo de longe. Um deles era médico. Assim ficou combinado.

              Chefe Zezé (como era conhecido) preparou tudo com calma. Tirou sua mochila do baú, seu uniforme, ele mesmo lavou e passou. Sua manta de fogo de consêlho, seu chapéu de tres bicos, ainda prensado no porta-chapéu. Colocou seu tope que comprou em 1947, seu penacho azul de dirigente (tinha o verde e amarelo de Diretor Técnico, e os demais de outras sessões, hoje não se usa mais). Engraxou sua botina de campanha, olhou seu meião com carinho, a jarreteira deixou no lugar. Não iria usar. Pediu à esposa que pregasse os seus barretes na camisa cáqui. As medalhas levaria consigo, mas guardadas na mochila. Seria seu troféu de campo.

               Estava ainda lá sua faca escoteira, limpa e com saudades viu que ainda possuia o talco que colocou antes de embainhar. Seu facão limpo, sua machadinha pequena e lá bem escondido em um canto do baú, sua bússola silva. Olhou tudo, viu que o cinto de couro ainda estava firme, e a fivela brilhando. Até mesmo uma bandeira nacional bem antiga ele levou. Sentou em sua cama e fechou os olhos. Sua mente só via o acampamento que iria fazer. Tinha de ser superior a todas as suas 780 noites de acampamento. Nem mais e nem menos. Deveria marcar sua vida para sempre.

              Não levaria seu lenço de insígnia. Iria com o verde e amarelo quando fez a primeira promessa. Um suspiro, quantas saudades. Aproveitou para ver algumas fotos que ali guardava. Seu primeiro acampamento de lobos (na época lobinhos acampavam), sua promessa escoteira, sua patrulha senior, e vários amigos que junto a ele fizeram com que as matas, florestas, campinas,  serras, montanhas e tantos lugares fossem incrustados para sempre na sua memória.

            Disse que iría na semana seguinte. Serra do Rio da Serpente. Sozinho. Não queria companhia. Todos os filhos sabiam onde era. Já tinham ido lá com ele várias vezes. Sorriram e não disseram nada. Ele preparou tudo com carinho. Ração C para três dias. Capa leve de chuva. Uma lona simples e macia para montar um pequeno toldo de sua cabana (ia fazer uma), seus remédios, seu inalador, e no bornal o bujão de ar. Pelo telefone comprou a passagem. Eram quatros horas de viagem.

           Pediu a seus filhos para o levarem à rodoviária. Estava uniformizado. Na entrada subiu sozinho. Deu até logo e disse que não precisava de ajuda. Subiu as escadas com dificuldade. Fingiram não o observar. Viram quando ele entrou no ônibos. Um dos filhos seguiu de carro atrás. O filho chegou à cidade de destino primeiro. Sabia que dali até a subida da serra seriam mais quatro quilometros. Ele disse que iria alugar um animal. Cavalo ou burro. Não dava para subir a pé.

           O ônibos chegou. Desceram todos. Surpresa! Chefe Zezé não estava no ônibos! O motorista disse que ninguém tinha viajado com aquelas características. E agora? Se eles o viram embarcar no ônibos, ou foi miragem? O filho ligou para os outros. Todos se dirigiram para a cidade de destino. Reunião de família. O que fazer? Onde estaria seu pai? Onde? Procuraram por todos os lugares, por toda a parte. Nada. Foram de novo na rodoviária, nenhuma informação. A empresa disse que não vendeu nenhuma passagem com o nome de chefe Zezé ou mesmo o nome completo dele.

           Um dia, dois três. Se ele resolveu dar um golpe e seguir sozinho a outro lugar, pois sabia que aonde ia seria vigiado, deveria estar de volta à noite do terceiro dia. Nove da noite. Dez meia noite. Nada. O dia amanheceu. A familia desesperada. Policia acionada. Busca em todos os lugares. Bombeiros, elicópteros. Nada. Chefe Zezé sumiu! Abduzido? Não era hora para brincadeiras. Não sabiam mais o que fazer. A polícia desistiu. Ninguém quis mais procurar. Seus filhos precisavam voltar à luta. Tinham seus empregos. Esposas, flhos. A vida continua.

           A esposa do chefe Zezé, parou de chorar. Os olhos vermelhos inchados. Seis dias, sete, oito, dez, doze, quinze. No décimo quinto dia, receberam um recado. Um telegrama. Um vaqueiro disse ter visto um homem parecido conforme foto nos jornais na serra do Canta Galo. Todos os filhos foram para lá. Bem longe. Mais de nove horas de viagem. Serra desconhecida para eles. A cidade pequena. Alguns tinham visto quando ele chegou quinze dias atrás.

           Conseguiram um guia, encontraram o vaqueiro. Arrumaram cavalos e subiram a serra. Local ermo e de difícil acesso. Tinham medo, muito medo do que iriam encontrar. Avistaram ao longe uma fumaça branca subindo aos céus. Pequenas esperanças. Quem sabe está vivo? Chegaram ao local. Viram-no enconstado em uma árvore, como se estivesse desfalecido. Correram até ele. Respirava e parecia dormitar. Abriu os olhos, sorriu. Como me encontraram disse?

           O filho médico o examinou. Achou estranho. Sua respiração parece ter melhorado. Viu o bujão de ar ainda cheio. Ele não tinha utilizado. Ele se levantou, olhou para o céu, para as arvores, um pássaro preto em um galho voou. Alguns outros se juntaram a ele. Todos voando em volta do chefe Zezé. Borboletas surgiram. Azuis, vermelhas, verdes e amarelas. E então vamos? -  Disse. Com sua cabeleira vasta e caindo na testa, cantava a pleno pulmões – Avançam as patrulhas, ao longe, ao longe! Adeus meus amigos, ou melhor, até breve, eu voltarei, disse ele olhando os pássaros, a mata, o riacho e não viram mais nada.

            Arrumou sua mochila, sempre com calma e bem arrumada nas costas gritou! - À frente tropa! Bandeiras ao vento! Marche! E lá foi ele a pé, os outros a cavalo levando a mula que ele tinha alugado. Em hora nenhuma reclamou. Agradeceu a oferta de ir a cavalo. Andava como uma lebre. Incrivel pensavam. Mais acima dois quatís acompanhavam e mais ao longe dois lobos guarás do rabo curto também. Uma passarada foi com eles até a cidade. Uma figura o chefe Zéze. Dizem que na cidade todos bateram palmas. Os pássaros quando ele entrou no automóvel do filho, cantaram alto.

            Mas o que houve com ele? Perguntei ao distrital. Olhe, soube pela esposa que tinha um livro e anotou tudo que aconteceu. Uma especie de diário. Ela me emprestou. Xeroquei. Vou te dar uma cópia. Ele ainda vive. Está com 91 anos. Não usa mais sua máquina para inalar. Não toma mais remédios. Ainda anda cinco quilometros por dia. Voltou ao Grupo Escoteiro. Ele hoje é chefe Senior e dos bons. Fui para casa e nem bem cheguei “apoitei” em minha poltrona favorita. Lí com sofreguidão e pressa tudo o que o "Velho" Escoteiro escreveu.

            Que doce leitura. Linda. Que aventura! Que inveja do chefe Zezé. Quanto daria para estar no lugar dele. Querem conhecer o diário? Saber o que  ele escreveu? Não sei. Não sei se devo. Mas olhem, não dá para esconder. Vivam comigo essa explêndida historia de um "Velho" que se transformou através de um acampamento só dele. Cheio de amigos, amigos que todos nós gostariamos de ter. Amigos sinceros, leais, sem interesses, e que não ficavam azucrinando com aquelas palavras chatas que ouvia. "Velho" gagá, babão, seu lugar é em casa. Não invente!

        - Quinta feira, nove de outubro de 2010 – Preparei tudo. Meu plano fora traçado. Combinei com um chapa carregador de malas, para colocar um chapéu parecido com o meu, e levar minha mochila até o ônibos combinado. Assim ele fez. Fingiu que entrava e deu meia volta. Escondeu-se em outro ônibos cujo motorista era amigo dele. Embarquei duas horas depois. Não fui para a Serra da Serpente. Sabia que iriam me monitorar. Queria liberdade.

       - Sexta feira, dez de outubro de 2010 – Cheguei à cidade de Catuava, e lá aluguei uma mula. Para 20 dias. Arrumei tudo e parti para a Serra do Canta Galo. Vi em mapas e li sobre ela. Linda. Achei um local maravilhoso. Um pequeno bosque, mais ao longe uma mata linda, próximo uma cascata, águas limpídas, bem arejada. Neste dia montei minha cabana. Ficou “joia” Toda de galhos e folhagem verde. Dava para ficar em pé. À tarde construí uma mesa e o fogão suspenso. Que saudades das que eu fazia no passado. Uma fossa de liquido, outra de detrito e retirado uns 50 metros um WC. O vento soprava do meu campo para ele. Era um verdadeiro campo de patrulha.

         Almocei lingüiça na brasa. Dois pães. Um suco. Mais tarde fiz um café. Saudades do meu café mateiro. Atrás de umas folhagens avistei dois quatís. Olhavam-me espantados. Sorri e eles se aproximaram. Daí para frente seriam meus amigos de todos os momentos. Notei que um pássaro preto me encarava. Sorri para ele. Ele cantou uma canção noturna. Outros pássaros se aproximaram. Comecei a conversar com eles. A noite chegou. Uma coruja veio e pousou no meu ombro. Arrumei alguns galhos e fiz uma fogueira.

         Foi minha primeira noite. Antes de dormir lembrei que não tinha feito minha inalação e nem tomado meus remédios. Não sei por que não sentia falta. Não usei mais. Sentia-me bem. O ar entrava em minhas narinas de maneira agradável e apetitosa. Como respirava bem. O sono veio. Nem olhei as estrelas, nem a brisa gostosa que soprava. Deitei e dormi não sem antes agradecer a Deus pela vida maravilhosa que me dava. Há muito tempo não dormia assim. Que sonhos lindos. Que canções lindas. Acordei com o cantar da passarada na mata.

         Os dias foram passando. Eu não queria contar. Estava vivendo os mais belos dias da minha velhice. Horas? Não tinha interesse. Não levei relógio. Celular. Radio. Nada. Minha ração começou a acabar. Achei na beira do riacho uma boa plantação de “taioba” adorava taioba. Comi taioba por três dias. Um pequeno remanso e vi trairas e lambarís bocarra. Lindos, fáceis de pegar. Peixe frito no almoço e na janta. Um pé de maracujá. Minha sopa preferida. Depois dois pés de mamão carregados. Maduros e verdes. Vagem mais abaixo do riacho. Amigos alí era um édem. Poderia ficar a vida inteira neste paraíso.

         Não sei como, a tarde um casal de capivaras apareceu. Ficaram em volta do meu campo por dois dias. No segundo nasceram três capivarinhas. Um espetáculo incrivel. Mas o melhor mesmo foi à amizade que fiz com dois lobos guarás. Eles me seguiam aonde ia e o pássaro preto nunca me abandonou. Uma tarde vi um homem a cavalo. Ví que minha privacidade tinha acabado. Dito e feito. Fui encontrado. Deixei lá meu amigo pássaro preto, a coruja “buraqueira”, que me acompanhou todas as noites quando deitava na relva e ficava a imaginar como seria o universo.

          Valeu. Disseram-me que foram quinze dias. Dias maravilhosos. Quantos amigos eu fiz lá. E olhe só eu falava e eles educadamente me ouviam. Ainda vou voltar lá, O caminheiro e a Midiata, nome que dei aos lobos guarás eu sei que estarão lá me esperando. Quando chego à janela, olho no horizonte e lá estão na castanheira em frente a minha casa, os sabiás que cantavam na serra e hoje cantam para mim todas as tardes. Sei que acham que sou louco. (Risos) não sou. Que pensem assim. Não me importo. No próximo verão irei voltar. Saudades da minha serra querida, dos meus amigos, bons tempos que não quero que termine nunca mais.

          Fiquei ali na minha poltrona por muito tempo. Parecia um conto inexplicável, contado de uma maneira tão simples, tão pulcra, que muitos iriam dizer que se tratava de uma fábula. Que seria uma história inverossimel mal contada e que o chefe Zezé nunca existiu. Lembrei-me de uma fábula que tinha lido a muitos e muitos anos.

             Um jovem mochileiro chega a um pacato vilarejo cercado por correntezas. Toda casa ou construção do vilarejo possui uma azenha construída dentro dela. O viajante encontra um velho ancião da vila, muito sábio, que está consertando a roda quebrada de um moinho. O ancião explica que as pessoas do seu vilarejo decidiram há muito tempo atrás abrir mão da influência poluidora da tecnologia moderna e retornar para uma sociedade mais feliz e limpa.

          Eles escolheram a saúde espiritual a despeito da conveniência, e o mochileiro fica surpreso e intrigado com esta noção. No final da seqüência que é também o final da fábula, a procissão de um funeral de uma mulher ocorre no vilarejo, que ao invés de estar de luto, celebra contentemente o propício fim de uma boa vida.
        O ancião, que até então conversava com o jovem viajante, resolve acompanhar a procissão, não sem antes contar-lhe sobre algo que o jovem presenciou ao entrar na vila - crianças colhendo flores e colocando-as sobre uma pedra ao lado da trilha. O ancião diz que há muito tempo um homem havia morrido ali depois de muito sofrer, e desde então o ato de colocar flores sobre a pedra debaixo da qual foi sepultado se faz uma tradição do vilarejo. O viajante se despede do lugar repetindo o gesto das crianças.

      Não sei se me fiz entender. Acho eu que o chefe Zezé encontrou o seu lugar. Uma expécie de Shangri-lá. Não era a cidade lendária descrita no conto de James Hilton, na sua novela Horizonte Perdido onde todos nunca envelheciam. Mas lá na serra do Canta Galo o Chefe Zezé encontrou sua fonte da juventude. Descobriu que lá em plena natureza e junto aos pássaros e animais amigos, ele continuaria eternamente no vigor da sua mocidade, ou melhor, da sua adolescência.

      Eu gostaria de encontrar um lugar assim na minha velhice. Um Xangri-lá, onde pudesse viver como se vive em um paraíso. Onde ninguém fenece ninguém fica "Velho" e quem sabe eu possa encontrar também uma montanha e lá viver junto à natureza o que o chefe Zezé viveu.

          Saudades de tudo. Saudades da minha infância. Saudades da minha terra, da minha juventude, das minhas aventuras escoteiras. Tempos que se foram e nunca mais vão voltar. Mas eu luto até hoje para não só eu e sim todos os participantes da fraternidade escoteira, que encontrem seu xangri-lá, sua terra de sonhos. Eu acho que encontrei o meu. No maravilhoso mundo do escotismo onde todos podem  sonhar e realizar seus sonhos!

Nessa vida de mistérios

onde tudo pode acontecer,
eis que depois da tempestade,
na luta constante prá sobreviver,
encontramos um mundo,
onde a bonança haverá de se fazer…



Nossa dor, às vezes nos arrasta,

nos faz perder a esperança,
mas não desistamos,
pois um dia encontraremos
a paz que tanto buscamos…
Nesse mundo de ilusões,
de fantasias, de sonhos guardados
eis que avistamos ao longe
um caminho,
que nos trará felicidade
Shangri-la, terra de sonhos
onde o tempo não passa,
e somente alegria se faz…
um horizonte perdido,
que buscamos ao longo da vida
onde a felicidade se perpetuará.