Histórias e contos escoteiros.

Histórias e contos escoteiros.
Feitas para você se divertir!

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

O repouso do Guerreiro.





Nós não herdamos a Terra de nossos antecessores, nós a pegamos emprestada de nossas crianças.

Lendas escoteiras.
O repouso do Guerreiro.

           Ele não podia medir o tempo. Seus antepassados não lhe ensinaram. Mas ele sabia que muitas luas haviam se passado e seu fim estava próximo. Ele não foi o único, seus pais já tinham ido para as Terras Bravias do Sol Nascente. Seus dias estavam próximos a terminar. Ele sabia que breve iria se juntar a eles. Não ia deixar nada escrito, pois na tribo somente as lendas passavam de pais para filho. Ele era uma lenda? Não era. Nunca foi. Sabia que era um simples índio que conhecia as histórias dos seus ancestrais, pois conseguiu sobreviver de muitas guerras com os Tapuias, os Caraíbas e tantas outras tribos que sempre tentaram raptar suas mulheres e tirarem o que era deles. Foi o único que sabia conversar em Macro-Jê, Tupi e Arauak. Aprendeu nas guerras e nas inúmeras vezes que fora aprisionado. Acostumou-se a sentar embaixo da Aroeira que dizem os espíritos foi plantada por Aplanã, um valente guerreiro, que dizem que correu pelos céus a mil luas atrás. Seus olhos miúdos percorriam as inúmeras Tabas de sua aldeia. Quanto tempo! Nada é mais como antes. O homem branco nada trouxe de bom.

           O Grande Espirito já o tinha avisado que sua morte seria breve. Não tinha medo dela. Nunca teve. Já a enfrentara inúmeras vezes. Afinal fora um guerreiro cujo nome se espalhou por toda a Floresta de Akanã. Amanara sua mulher o olhava de longe. Porque nunca tiveram filhos? Ele daria tudo para ter um herdeiro que levasse seu nome através da história. Que pudesse narrar seus feitos. Sabia que quando fosse para as Terras Bravias nada sobraria de sua vida na terra. Seus pensamentos velejavam através das nuvens brancas espalhadas pelo céu. Teria milhares de coisas para recordar. Viveu uma época que hoje seus descendentes não irão viver. O homem branco agora mandava. Eles não passavam de meninos obedecendo para onde ir, o que fazer e que comer. Desobedecer? Muitos da sua tribo se tornaram homens sem valor. Bebiam, faziam arruaça, viajavam e diziam representar a tribo. Nunca seriam nossos representantes. Eram sim de si próprios em busca de facilidades que um verdadeiro guerreiro desprezaria.  

           O viu chegando em sua jangada como sempre fazia quando atravessa o Rio do Morcego. Não sabia o que ele vinha fazer. A cada cem ou duzentas luas ele aparecia. Lembrou quando chegou pela primeira vez. Jovem ainda, sempre com cabelos brancos soltos ao vento, olhos pequenos azuis, um chapéu esquisito, um lenço amarrado no pescoço, um calção da cor da camisa da cor de uma folha de bananeira desbotada, uma meia que ia até os joelhos e uma botina preta. Desceu de sua jangada e fez um sinal de alô. Não disse mais nada. Ele nunca falou. Aproximou-se de mim e levou sua mão esquerda ao meu coração. Como ele sabia? Nos velhos tempos só os fortes entre os mais fortes se saudavam assim. Fiz o mesmo que ele e um sinal a Ibaretama aquele que veio do céu para que não o matasse com sua lança. O homem branco nunca fora bem recebido na Aldeia. Uma época que os Bororós eram temidos. Cabelos da Neve sentou embaixo da Aroeira. Cruzou as pernas como se fosse um de nós, tirou de seu bornal um cachimbo pequeno e o fumou por horas. Não disse nada. Chegou calado e calado ficou. Lembro que Amanara levou-lhe uma cuia com cuscuz cozido e ele comeu com gosto.

           Otinga o Pajé logo que a noite chegou começou uma pajelança pela cura de Oititaba, um jovem que caiu da Pedra Solta bem depois da curva do rio do Morcego. O viu bebendo o tafiá e mesmo evocando os espíritos de seus ancestrais e muitos animais da floresta não houve cura de Oititaba. A tribo dançou com ele euforicamente e fez as mimicas conhecidas do animal que estava incorporado a Otinga. Oititaba morreu pela manhã. Cabelos da Neve recusou dormir em alguma Taba ou mesmo na sua. Dormiu ali embaixo da Aroeira sob o calor de um pequeno fogo que fez. Não o vi pela manhã. Ao raiar do dia deve ter partido. Sua jangada não estava apoitada na areia branca do rio do Morcego. Passaram mais de duzentas luas quando ele voltou. Parecia mais Velho assim como eu. De novo nos cumprimentamos e pouca conversa. Ele nunca falava. Apontou a Montanha dos Abutres. Por sinal por a mão em meu peito e me convidou sem falar a subir até o topo.

          Não podia ir. Minhas pernas recusavam a obedecer. A tribo aprendeu a admirá-lo. Colocou sua mochila, atravessou seu bornal e partiu rumo à montanha. Uma semana depois voltou. Descansou por algumas horas e em sua Jangada sumiu nas águas tranquilas do Rio do Morcego. Mais uma vez fiquei só. Ou melhor, sempre estava só, mas quando Cabelos da Neve aparecia havia no ar um certo encantamento. O passado não perdoa o presente. Éramos milhares e hoje? Um punhado que vinte ou trinta tabas acomodavam todos. As nações indígenas foram dizimadas. Caçar, plantar, pescar já não era a maneira correta de sobrevivência. Um posto da Funai nos dava o que Comer. Parecíamos mendigos sem nome, sem honra a depender do homem branco a nossa sobrevivência. A nossa terra não era mais nossa. Nossas crenças desapareciam. As forças da natureza que nos impeliam a continuar não existiam mais. Os espíritos dos nossos antepassados riam de nos. Deuses e espíritos fugiram das nossas cerimonias, dos rituais e festas. O Pajé era uma figura que ninguém mais dava valor.

           Na centésima lua desde que ele se foi fiquei doente. Muito. A pajelança não adiantou. Era questão de dias para me encontrar com os espíritos dos meus pais e dos meus ancestrais. Já tinha passado o meu poder de Cacique ao Conselho da Tribo. Cabia a eles agora escolher quem devia conduzir a aldeia, as mudanças e as guerras se elas tivessem que existir. A mim me restava à lembrança do que fui e do que sou. Preferia não olhar o mundo ao meu redor. Quanta injustiça, quanto sofrimento e dor. Eu sabia que todo mundo sofre insuportavelmente até a morte. Um guerreiro tem de saber enfrentar tudo em qualquer situação mesmo que a falta de amor, da indiferença e da ambição fosse como uma espada a cair sobre ele. Mesmo nos meus últimos dias eu ainda me considerava um guerreiro. Vieram me dizer que ele chegou. Cabelos da Neve com seu chapéu esquisito cumprimentou-me a moda índia. Na taba em que eu agonizava ele sentou com as pernas cruzadas. Tirou seu cachimbo e rolos de fumaça encheram o recinto.

           Deixaram-me só com ele. Ele me olhava e eu a ele. Tirou o chapéu e fez uma espécie de saudação. Com as mãos no peito começou a cantar baixinho uma canção. Dizia que não era mais que um até logo, não era mais que um breve adeus. Eu não o ouvia mais. Meu espirito abandonava meu corpo e me vi junto aos meus ancestrais. Eram centenas de amigos que agora estavam ali nas Terras Bravias do Sol Nascente. Voltei um dia depois. Meu funeral não teve nada diferente. Envolvido na rede dentro da minha maloca, fiquei por dois dias. Nivelaram a superfície da minha sepultura com barro socado. Quando me retiraram a maloca foi queimada. Seria abandonada para sempre. Todos os meus pertences estavam comigo. Em cima da minha sepultura Cabelos de Neve colocou uma placa de metal em formato de uma flor de lis. Todos já tinham ido e ele permanecia sentado de pernas cruzadas, fumando seu cachimbo e olhando para o céu. Eu o ouvia cantar a mesma canção: - Não devemos perder as esperanças de um dia tornar a nos ver.

           Uma semana depois ele se levantou. Deu um leve sorriso, fez o gesto de amizade colocando a mão esquerda no meu coração invisível. Fiz o mesmo com ele. Parece que ele sabia que eu estava ali, pois disse baixinho que breve, muito em breve nos tornaremos a nos ver. Entrou em sua jangada e partiu nas aguas calmas do Rio do Morcego. A história não termina aí, os dois guerreiros repousaram e dizem que até hoje se encontram sempre na Aroeira que um dia pertenceu à tribo dos Bororós e que hoje não mora mais ninguém.

Sou índio, sou africano, sou europeu
Sou budista, sou cristão, sou judeu
Sou amarelo, sou branco, sou negro
Sou mistura do mundo, com prazer sou brasileiro.



terça-feira, 6 de agosto de 2013

O fantástico curso da Insígnia da Madeira do Chefe Bola Branca.

A razão pela qual algumas pessoas acham tão difícil serem felizes é porque estão sempre a julgar o passado melhor do que foi, o presente pior do que é e o futuro melhor do que será.




O fantástico curso da Insígnia da Madeira do Chefe Bola Branca.

           Gente fina, um andar cheio de trejeitos, mas diziam que era duro na queda. Soube de fonte fidedigna que enfrentou seis em frente ao Cinema Palácios em uma noite de natal. Ficou famoso por causa disto e daí em diante ninguém mais ria dele. Nasceu no escotismo, sua mãe uma Chefe de Alcateia deu a luz em um acantonamento em Rosário. E olhe quase todos os lobinhos ajudaram. Disseram que houve uma grande festa e Bola Branca sorriu a noite toda. Já sabem, filho de Chefe tem direitos que outros não têm. Alguns juram que não, mas Bola Branca aos cinco já era lobinho. E ai de quem falasse que não podia. Bola Branca foi tudo que podia no escotismo. Primeira Estrela, Lis de Ouro, Escoteiro da Pátria, Insígnia de BP, Chefe de Alcateia, Tropa Escoteira, Sênior, Mestre PI, Diretor Técnico, Comissário Distrital e só não foi escoteiro Chefe porque foi trabalhar na Austrália e só voltou dez anos depois. Esqueci-me de dizer, recebeu sua Insígnia da Madeira com dezoito anos. Acho que foi o Chefe mais novo a receber.

         Acredito que ele deva ser mais velho que eu uns vinte anos. Hoje estou com quarenta e cinco e ele já de cabelos brancos parecia um pouco cansado, mas com uma vivacidade incrível. Sempre que nos encontrávamos ele me contava histórias incríveis. Como eu o considerava um técnico escoteiro sui generis eu gostava de ouvi-lo. Tinha combinado encontrar com o Chefe Matusalém no bar do Moita, pois lá ficaríamos mais vontade para discutirmos o 6º ADIP Regional, (acampamento distrital de patrulhas), Eu era o Comissário Regional naquela época e no ano anterior por decisão imposítória de todos os chefes fui eleito como responsável para sua organização este ano. Cheguei mais cedo e o Chefe Matusalém ainda não havia chegado. Tomando um chopinho eis que como em um passo de mágica aparece o meu amigo Chefe Bola Branca e sempre mexendo o corpo pra lá e pra cá. Sente-se meu amigo eu disse. Estou esperando o Chefe Matusalém e você é bem vindo. Quem sabe pode até me ajudar?

               O atrasado chegou em seguida. Já conhecia o Chefe Bola Branca. A conversa ficou animada. Quem estivesse perto só ouvia escotismo, escotismo e escotismo. Tinha outro assunto mais importante por acaso? Alguém arrastou uma cadeira. – Posso me sentar com vocês? Fui escoteiro e vendo vocês conversarem sobre o movimento me deu saudade. – Fique a vontade meu amigo. O fique a vontade foi dado há mais cinco que também queriam ouvir o que nós dizíamos. Uma mesa grande, chopes e salgados eram servidos. Plateia formada a gosto do meu amigo Chefe Bola Branca. Falamos de tudo. Por último dos novos cursos escoteiros. Cada um tinha uma opinião. Chefe Matusalém era da Equipe de Formação. Achava tudo perfeito. Ele e o Chefe Bola Branca tiveram uma boa troca de opiniões. Cada um convencia até que o outro usava da palavra. – O mundo moderno exige Chefe Bola Branca. Não vivemos mais na época das cavernas disse o Chefe Matusalém.  

               Chefe Bola Branca não disse nem sim e nem não. Aproveitei a oportunidade para perguntar como conseguiu a Insígnia da Madeira com dezoito anos. Ele primeiro floreou sua história. Começou contando quando foi Chefe de uma tropa de escoteiros. Ficou lá por doze anos. Viu jovens crescerem, constituírem famílias, alguns assumindo posições na comunidade e em suas atividades profissionais. Nunca esqueceram o Grupo Escoteiro. Pelo menos uma vez por ano iam fazer uma visita. Quase todos colaboravam financeiramente com o Grupo. Eu perdia poucos jovens - dizia. Eles adoravam as atividades de campo que fazíamos. Os monitores da tropa não eram os melhores, mas não deixavam a desejar. Olhe meus amigos, eu fiz outros cursos que não os do escotismo. Fiz também alguns que não posso menosprezar, mas o meu primeiro. Ah! O meu primeiro foi único, foi o que me deu base para saber conduzir uma tropa escoteira. Se não fosse ele não seria o que sou hoje. Passei por poucas e boas no escotismo. Poderia ter saído, mas não sai. Ainda me lembro, pois completava meus dezoito anos, recém-saído das fileiras do exército, ainda não tinha nada decido em minha vida. Hoje um curso assim nunca nossos diretores vão realizar.

            Um dia recebi em minha casa uma correspondência estranha vinda da Direção escoteira regional. Dizia – Iremos fazer um curso da Insígnia da Madeira ramo escoteiro. Escolhemos 32 chefes. Você é um dos escolhidos. Não é um curso qualquer. Estamos fazendo uma experiência piloto. Caso se interesse mande-nos um telegrama até o fim deste mês. O curso terá duração de dez dias. A partir de 08 de fevereiro próximo. Não é um curso para pata-tenras. Só mesmo para os que chegaram à primeira classe e eficiência II. Uma verdadeira prova de sobrevivência. Caso aceite as passagens ida e volta será por conta da Região escoteira. Não haverá taxas. – Dizer o que? Claro que aceitei. Nunca fugi de desafios. Um mês antes do inicio do curso recebi as passagens e um envelope que dizia: - Só abra o envelope na saída três da rodoviária quando chegar. Isto tem de acontecer às sete da manhã. Se chegar antes espere a hora e se chegar depois dê meia volta para casa.

               Vi cadeiras se arrastando e cada um chegando mais perto do Chefe Bola Branca. A história parecia ser interessante, eu mesmo nunca tinha ouvido falar de um curso assim. – Continuou o Chefe Bola branca – Cheguei na rodoviária às seis e meia. Dei uma busca completa para ver se tinha algum Chefe escondido para me observar. Não vi ninguém. Fui para a saída três e esperei dar às sete horas. Abri o envelope. Um mapa pequeno mais parecendo um croqui e escrito – Boa sorte. Tem uma hora para chegar ao ponto de reunião. Saquei minha bussola silva. Tomei o rumo do mapa e parti a pé. Notei que eram mais de quinze quilômetros nunca chegaria em uma hora. Deveria ter algum mais na carta prego. Virei-a do avesso e não descobria nada. Aí que prestei mais atenção e entre o boa e sorte havia o numero 22 bem pequeno. O que significava? Logo vi um ônibus passado – numero 22! Chapecó – Tinha de ser. Embarquei no ônibus. Pura sorte! Acompanhei seu trajeto com o mapa. O ônibus estava vazio. Alguns passageiros estranhavam aquele Escoteiro mochileiro cheio de bugigangas.

                No mapa vi uma estrada secundária sem residências. A mais ou menos oito quilômetros da rodoviária. Fiquei de olho pela janela. As casas começaram a rarear. Logo a estrada surgiu. Desci e parti em passo Escoteiro e claro usando meu passo duplo. Um rio apareceu. Havia uma barca pequena e o barqueiro parecendo me esperar. Logo ele apareceu. – Mais Um, acho que você é o último. - Ultimo? Perguntei. Ele nada disse. Do outro lado perguntei – Para onde foram os outros? – Disseram-me que vocês sabem seguir pistas, portanto se vire meu amigo e deu meia volta com sua barca. As pistas eram visíveis. Não dava para errar. Como tinha treinamento quando jovem deu para ver um gordo, um magro e vários mais altos que os demais. Quase no alto da colina avistei um Velho sentado em um toco. Chamou-me – Graças a Deus você é o último. Aqui está seu envelope. Boa sorte para você!

                No envelope dizia – Não abra, só quando encontrar sua patrulha a um quilometro rumo sul sudoeste. Se até as dez e meia não encontrá-la dê meia volta. Eles já foram para o ponto de reunião. Olhei o relógio. Dava tempo tinha ainda vinte e cinco minutos. Logo avistei todos eles debaixo de um Jatobá enorme. Receberam-me com alegria. – Pensamos que não chegaria! Ri sem alarde. Afinal eles não me conheciam. Apresentamo-nos – Norberto, Acácio, Jonny Marcus, Pierre, Leonardo, Paulo Antonio e eu Romualdo. Disse para eles que podiam me chamar de Bola Branca. Eles riram. Conforme as instruções a abertura dos envelopes deviam ser pela ordem de chegada. Acácio foi o primeiro a chegar e abriu seu envelope, dizia pouco. - Do rio das aventuras... Logo abriu seu envelope o Pierre que era o segundo – Na grande curva do Castello. E assim foi Paulo Antonio, Norberto, Leonardo, Norberto e eu. Juntamos todas as palavras – “Do rio das aventuras, na grande curva do Castello, um bosque de acácias amarelas, irão viver grandes aventuras”. Às onze e meia em ponto, a bandeira vai farfalhar no vento. Aguardamos vocês. Sejam bem vindos!

               Notei que agora a roda aumentara. Até quem nunca foi Escoteiro estava participando. Todos de olho em Bola Branca. Um narrador perfeito e mesmo não sendo uma história das arábias ela chamava a atenção. Bola Branca parecia estar inebriado com sua narrativa. Olhava para um e outro, gesticulava, sentava e voltava a ficar em pé e sem levantar a voz continuou - Foi divertido descer a toda a colina. O rio do alto era lindo. Quem visse ali aqueles homens vestidos de calça curta e chapelão correndo em uma descida perigosa, iriam achar que eram uma turma de loucos. Logo fomos nos conhecendo naquela descida de uma trilha certeira e em menos de meia hora chegamos ao ponto de reunião. Todos estavam lá. Todos não. Dois convidados não conseguiram chegar. Se perderem no caminho. Claro estavam desclassificados do curso. Duas patrulhas de sete e duas de oito. Como se tivessem surgido do nada os quadro diretores apareceram. Misturaram-se conosco. Abraços, apresentação, sorrisos. Eu gostei muito deles. Tinha receio de serem como os sargentões do exército.

               Um deles com uma trombeta na mão fez a chamada geral. Depois fui saber que a trombeta seria o famoso Chifre do Kudu. Um dos diretores no quinto dia contou a história de como Baden Powell trouxe ao movimento este chifre que é famoso até hoje. Não vou repetir aqui toda a história, pois é muito longa. Formamos por patrulha. Ao Monitor novamente foi entregue um envelope. Dez minutos. Tudo era com tempo marcado. A não ser a apresentação na chegada os diretores pouco falavam. – Nome de patrulha – grito – Lema, encargos de patrulha de cada um (mudar a cada 24 horas). Meus amigos, o curso começou de fato. Entregaram-nos uma caixa de patrulha, cada uma escolheu seu campo e o correm corre começou. Uma hora e meia para fazer almoço, vinte para lavar e limpar campo, o danado do chifre berrando e a gente correndo, façam uma ponte, façam uma paliçada, façam uma ponte elevadiça, façam isto façam aquilo. Às seis da tarde nos deram duas horas para preparar o jantar. As oito e meia o chifre berrava e a gente correndo. Um jogo noturno com os de olhos vendados e amarrados uns aos outros.

                 No quarto dia eu estava pregado e olhe tinha dezoito anos na flor da idade e recém-soldado do exercito. Foi no quarto dia que começamos a nos estranhar. Cada um começou a analisar o outro da patrulha e então apareceu os defeitos. Fulano não ajuda sicrano só quer sombra e água fresca e assim os demais. Caras amarradas, respostas curtas, eu mesmo não posso dizer que fiquei amigo de alguém até ali. Os chefes já esperavam por aquilo. Sempre fazíamos conversas ao pé do fogo e eles nunca falavam muito. Davam um tema e um tempo para discutirmos. Primeiro as patrulhas se dividiam em dois depois em quatro e finalmente em oito. Depois duas patrulhas e a tropa toda. Nunca ficamos mais de que quarenta minutos discutindo algum tema. E nunca no mesmo lugar. Quando foi apresentado As normas e regulamentos para banhos e outros similares o Chefe nos chamou dentro do rio. Tirar a roupa e pular na água foi agradável, o que não foi era ficar ali discutindo. Dois a dois, quatro a quatro, oito a oito, duas patrulhas e a tropa toda. Quarenta minutos. Mas quer saber? Eu aprendi muito. Muito mesmo.

                 Havia queira ou não uma solidariedade grande entre nós. Só no sexto dia fomos conhecer o campo de chefia. Era atrás de um pequeno morro. Eles tinham tudo feito por eles mesmos. Suas pioneiras eram perfeitas. Eles faziam suas refeições. A roda d’água que fizeram para levar água ao campo de chefia era perfeita. Havia um respeito enorme durante a noite. Sempre dormíamos às sete horas e meia programada. Mas o Chifre do Kudu quando tocava era um terror. No sétimo dia começamos a nos entender. Cada um sabia até onde o outro poderia ir. Isto me valeu muito para entender as patrulhas de jovens quando não se entendem. Foi no oitavo dia que aconteceu a surpresa. Estava pregado. Cansado mesmo. Fomos dormir às onze e meia da noite. Às três da manhã acordei assustado. O Toque alto do Chifre do Kudu no alto do morro. Levantamos as pressas e mal deu para vestir os uniformes. Chovia a cântaros. Na subida um Chefe chamou duas patrulhas para ir com ele e às outras com outro Chefe. No alto do morro ele pediu para deitarmos um ao lado do outro. Deitamos. – Ele começou a transmitir uma mensagem de ouvido em ouvido. “O acampamento foi atacado”. Índios Carijós destruíram tudo. Vocês devem tentar reaver tudo que perderam se não irão dormir ao relento e comer bananas verdes! Ficamos ali pensando. O Chefe desapareceu.

                     Só encontramos nossas tralhas com o sol nascendo. Não foi fácil debaixo do temporal encontrar nossa tralha. Ao retornarmos ao campo encontramos tudo destruído. As duas patrulhas separadas também fizeram o mesmo jogo. Sentamos pensativos o que seria tudo aquilo – A chuva amainou e horrorizados olhamos nosso campo. Armar tudo de novo? Montar de novo as pioneiras? De novo o toque do Chifre do Kudu – Hoje vocês terão folga até às quatro da tarde. Montem seus campos e tirem uma soneca de seis horas. A Chefia vai servir um café reforçado e quando acordarem um delicioso almoço com frango caipira! Gritos de urras! De Bravos! De Anrê! Amigos, no décimo dia eu estava em pandarecos. Mas querem saber? Nunca aprendi tanto.

                 Hoje quando lembro sobre acampamentos à moda de Giwell, e as discussões em grupo que fizemos acreditem, nunca esqueci. Foram tantas que algumas marcou. O sistema de patrulhas, a Corte de Honra, programando o programa, aprender a fazer fazendo, padrões de acampamento, lei e promessa, normas e regulamento e tantos outros temas que nos foram apresentados que dou graças a Deus por ter feito este curso. E sabe a surpresa? No último dia ali no cerimonial de bandeira, com a tristeza da partida os quatros dirigentes do curso tomaram a frente e um deles disse – Vocês se mostraram autênticos conhecedores. Estão perfeitamente aptos a receberem o premio a que tem direito sem necessidade de cumprir a etapa um e três (um era o questionário e a três observação). Foi um susto. Mas que surpresa agradável. Um por um éramos chamados à frente e recebíamos o anel de Giwell o Lenço, o colar e o certificado. Pode? Sem observador? Sem parte I? Mas que valeu, valeu. Até hoje me orgulho do meu lenço. Lutei por ele e não me comparo nunca os que receberam de outra maneira.

                       O discurso do Diretor do Curso foi maravilhoso. Convidou-nos a cada três anos participar de um curso de apoio e aperfeiçoamento. Seria como ele dissesse uma volta a Giwell, terra boa. Porque não? Eu nunca perdi um. Fui em cinco depois tudo mudou. Mas mesmo assim ainda vou em algum curso para me atualizar. Preciso aprender o que a nova metodologia tem de bom como dizem por aí. Sei que muitos não vão entender, mas um desafio como foi feito a nós acredito que ainda tem muitos que gostariam de participar. Afinal se vamos dar aventuras aos nossos jovens temos que saber como elas são. Foi para mim marcante. Uma aventura que marcou a todos. Mantivemos contatos por muitos anos. Várias vezes encontramo-nos em vários acampamentos nacionais e internacionais. Sei que dos trinta participantes mais de vinte ainda estão até hoje no escotismo. Hoje tenho orgulho e muito do meu lenço. Alguns me contam como conseguiram o seu. Claro o orgulho é próprio e devemos valorizar sempre o que conquistamos.

                       Uma da manhã. O Mota dono do bar nos olhava desconsolado – Não tem mais histórias? Perguntou. Não mota eu disse. Se possível traga a salgada. Ela sim vai ser uma boa história para cada um dos presentes pagar sua parte sem chiar. Rimo-nos a valer. Cada um dos presentes foi saindo de mansinho. Claro depois do rateio das despesas que não foi pouca. Ficamos eu, Bola Branca, Matusalém e o Mota sentados em volta da mesa. - Tenho que ir meus amigos eu disse. Ainda tenho um pedaço de chão para chegar em casa, nada que seja um percurso de Giwell bem bolado, mas sabe como é a esposa me ama, mas chegar neste horário é demais. Um abraço, um aperto de mão e o Mota me perguntando – Chefe, quando voltarão novamente? Estas histórias são supimpas para fazer a turma beber e gastar! E deu boas risadas. Fui embora pensando. Eu gostaria de ter feito um curso assim. Será que ele vale mais do que os de hoje?   

Fácil é ser colega, fazer companhia a alguém, dizer o que ele deseja ouvir. Difícil é ser amigo para todas as horas e dizer sempre a verdade quando for preciso. E com confiança no que diz.