Histórias e contos escoteiros.

Histórias e contos escoteiros.
Feitas para você se divertir!

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Obrigado por me dar a honra de ser meu amigo e minha amiga!



O ANO FINDA, OUTRO COMEÇA, E COMO BOM MINEIRO DIREI AO ENTRAR EM 2014 - “A NÓS AQUI TRAVEIS”!

Obrigado por me dar a honra de ser meu amigo e minha amiga!

Hoje não vou escrever uma história. O dia foi para analisar o ano que passou. Um ano proveitoso para muitos e principalmente para mim que adquiri centenas de amigos. Os amigos chegaram e os recebi de braços abertos. Na minha página do Facebook, no Grupo Escotismo e suas Histórias, em meus sete blogs sem contar um Clube de leitura via e-mail onde os comentários do que escrevo são vários. Nem todos concordaram com tudo que escrevi, mas não dizem que toda unanimidade é burra? Bem vindos os que deram sugestões, os que fizeram críticas simpáticas, os que por falta de tempo nada disseram. Todos a sua maneira enriqueceram as minhas publicações.
Nunca em minha vida me senti tão feliz ou quem sabe, mais feliz do que se estivesse na ativa com os jovens. Publiquei milhares de fotos quase todas de jovens enaltecendo o escotismo, respondi centenas de e-mails de membros do escotismo todos com suas dúvidas. Em quase todas as minhas escritas fiz questão de falar em um escotismo autêntico, de uma Lei de uma Promessa, comentei sobre a honra, a palavra, a lealdade, a ética e tudo que nossos jovens precisavam conhecer e saber. Se não ajudei mais foi porque minha saúde não ajudou.
Não agradei a todos. Sabia que não. Usei da minha liberdade de pensamento para discordar com nossos dirigentes com os destinos do escotismo no Brasil. Não bati palmas como alguns queriam. Poucos formadores entraram em contato e por isto não dei um sorriso e um abraço, mas aos demais chefes eu fiz tudo para motivá-los. Sai duas vezes da minha caverna para visitar atividades escoteiras a convite. Senti-me honrado onde fui. Por falta de outros convites não houve mais visitas.
Não sei o que me reserva em 2014. Espero que repita 2013 um ano muito frutífero para mim. Entretanto o que vier aceitarei sem reclamar. Seguirei sempre nesta trilha de falar o que penso, de passar o que aprendi, de ajudar quando posso e estar sempre com um sorriso, claro quando não for chorar. Obrigado amigos e amigas por me aceitarem como sou. Estou orgulho de ser amigo de todos vocês.

Gostaria de estar presente e apertar a mão individualmente de todos. Não sendo possível o faço mentalmente com orgulho de ter você como meu amigo. Que 2014 seja o ano do escotismo. Não importa qual nação. Que a felicidade more no coração de todos vocês para sempre!

FELIZ ANO NOVO!

Chefe Osvaldo Ferraz.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Palavra de Escoteiro ou palavra de honra? “Os dez artigos da Lei Escoteira”



Quem me rouba a honra priva-me daquilo que não o enriquece e faz-me verdadeiramente pobre.

Palavra de Escoteiro ou palavra de honra?
“Os dez artigos da Lei Escoteira”

          Estava acampado como sempre fazia bimensalmente com os monitores e subs da tropa. Nos acampamentos de fins de semana eu sempre ia para o Sitio do meu amigo Tornelo. – Chefe, fique a vontade, nem precisa pedir autorização. Boa aguada muitos bambus um local excelente. Eram quatro subs e quatro monitores. Eles adoravam tais acampamentos. Eu também, pois tínhamos mais tempo para conversar, aprender fazendo e trocar ideias. Ouvir adolescentes e suas necessidades eram para mim uma alegria sem par. Com esta nova rotina a tropa deu um salto em motivação e crescimento. O dia já estava no fim e a noite chegava mansa. Jantamos um belo bife com arroz que estava soltinho. Um dos subs era um cozinheiro de mão cheia. Lá pelas nove eles chegaram de mansinho na porta da minha barraca. Eu tinha feito nos outros acampamentos dois bancos de troncos grossos que encontrei cortado perto da lagoa do Jacaré. Cada um foi se assentando e um deles já colocava as batatas no fogo já aceso. Eu terminara o café e no bule esmaltado já tinha colocado junto à fogueira pequena com pedras em volta para não espalhar as brasas.

          Era uma rotina que todos gostavam de participar. Ali ficamos conversando até que um Monitor me perguntou – E a história de hoje Chefe? Sorri de leve. Sempre tinha uma historia para contar. – Vamos lá eu disse. Hoje iremos falar da Lei Escoteira. Uma patrulha que sempre achou que a palavra do Escoteiro vale pela sua honra. Mas o que é honra? Melhor contar a história. Eles se serviram de um biscoito de polvilho e alguns do café que estava quentinho. Um silencio se fez em volta. Mal dava para ouvir os grilos e ao longe na lagoa uma sinfonia de sapos cururus se divertiam todas as noites. – Tudo começou quando a Patrulha Onça Parda estava reunida na casa do Escoteiro Santos Dumont. Estavam lá o Monitor Rui Barbosa, e mais os Escoteiros e escoteiras Olavo Bilac, Caio Martins, Anita Garibaldi, Barbara Heliodora e Joana Angélica. Era uma rotina, pois todas as quartas feiras se reuniam em casa de algum membro da patrulha.  – Chefe! Interrompeu um Monitor, mas estes nomes são verdadeiros? Olhe que todos eles fizeram parte da história do Brasil. Bem pensado Antonio. Mas faz parte da história.  

          - Bem continuando, depois de discutido as sugestões que dariam para o programa do segundo semestre, eis que Anita Garibaldi levantou um assunto – Olhem meus amigos, lembram-se da última reunião que o Chefe fez um Jogo Escoteiro usando a Lei Escoteira? – Sim, disseram todos. Mas foi um jogo meio parado disse Olavo Bilac. – Concordo disse Anita Garibaldi, mas acho que valeu para nós. Afinal somos Escoteiros e o que significa a Lei Escoteira para um escoteiro? – Uma discussão simpática começou. Falou Caio Martins, Santos Dumont, Barbara Heliodora e Joana Angélica. Rui Barbosa o Monitor só observava. Ele sempre se questionou sobre a lei. Cumprir ou não cumprir? Dizia para si. Fazer o melhor possível? Quem sabe assim era mais fácil. Foi Santos Dumont que abriu o jogo – Para dizer a verdade eu não sou muito de cumprir esta lei. Ela existe para nos dar um caminho a seguir. Cumprir todos seus artigos é impossível, finalizou. – Não sei se concordo disse Olavo Bilac. Anita Garibaldi não falava nada. Só ouvia. O mesmo fazia Joana Angélica. Barbara Heliodora não concordou. – Não acho que devemos seguir pela metade. Se ela existe e nós prometemos um dia fazer o melhor possível não podemos continuar assim por toda a vida.

          Joana Angélica que pouco falava lançou um desafio – Porque nós que achamos que a Lei é tudo para os Escoteiros, que falamos em honra em palavra escoteira e em ética escoteira não tentamos por dez dias cumprir a risca todos os artigos? Quem sabe, prosseguiu, poderíamos fazer uma espécie de aposta e os que perdessem pagaria para todos uma rodada de sorvetes na Sorveteria do Paulão? Todos deram opiniões. Foi Rui Barbosa quem finalizou – Se todos aprovam eu estou de acordo. Lembrem-se que faltar com um artigo da lei é questão de consciência do próprio membro da patrulha. Para isto se ele não está preparado para cumprir os dois artigos da Lei que vão reger este desafio, não vale a pena continuar. Caio Martins entrou na conversa – Seria o primeiro artigo? O Escoteiro tem uma só palavra e sua honra vale mais que sua própria vida? – Barbara Heliodora emendou – Este mesmo e eu acrescento o segundo. O Escoteiro é leal. Sem lealdade não existe amor, amizade, fraternidade e consciência de mostrar que acredita no que faz e sabe que os outros reconhecem seu Espírito Escoteiro.

             Aprovado o desafio, a reunião de patrulha terminou com um juramento de todos com as mãos entrelaçadas – Prometo ser leal e dou minha palavra escoteira que se errar direi a todos. – Era uma quinta, dia 12 de agosto. O desafio iria durar até o dia 22 de agosto. Rui Barbosa pensativo não sabia se conseguiria cumprir. Olavo Bilac ria baixinho – Este desafio eu tiro de letra - Caio Martins dizia para si mesmo que se quisesse vencer teria que caminhar com suas próprias pernas. Santos Dumont tinha dúvidas se também iria até o final. Anita Garibaldi não tinha dúvidas. Barbara Heliodora sempre se considerou leal e achava que sempre cumpriu os artigos da lei. Joana Angélica tinha medo de suas amigas de classe. Falavam muito palavrão e sempre contavam piadas que iam contra a ética e a honra. Os dez dias se passaram. Estavam todos reunidos na casa de Joana Angélica. Era a hora do acerto de contas. Hora que cada um devia dizer se cumpriu ou não a lei escoteira.

            Rui Barbosa deu o exemplo como Monitor – Não consegui no Sétimo artigo me perdi. Tudo por causa do meu pai. Encheu-me as paciências de tal maneira que fui indelicado com ele. Pedi desculpas depois, mas já havia infligido à lei. Joana Angélica riu baixinho e emendou – Eu também não consegui. O quarto artigo é danado. Amigo de todos? Isto inclui aqueles que não são Escoteiros. Tive que dar um empurrão na Rebecca minha prima. Entrou no meu quarto e fez uma bagunça que só vendo. Depois me arrependi. Afinal ela só tem cinco anos! Caio Martins só falou que cumpriu todos. Barbara Heliodora pediu desculpas, mas não cumpriu o quinto e o oitavo artigo. Não fui cortês com minha mãe e quando ela me repreendeu na frente de todos, eu chorei por dois dias. Nem me lembrei de sorrir. Olavo Bilac disse que cumpriu sem pestanejar e se precisasse ele ficaria para sempre cumprindo a lei escoteira. Anita Garibaldi também não conseguiu. Discuti com minha professora, pois ele me deu oito em história. Merecia um dez. Por último Santos Dumont disse que cumpriu todos.

            Os monitores e subs estavam de olhos arregalados. Chefe é história verdadeira? Quer saber? Eu não sei se iria cumprir como muitos fizeram. Não disse sim e não e encerrei a história com todos tomando sorvete na Sorveteria do Paulão. Empanturraram-se de tanto tomar sorvete. Um silêncio profundo em volta do fogo. Ninguém disse nada. Uma coruja piou ao longe. Os sapos pararam de coaxar. O céu ficou escuro e um relâmpago riscou o ar. – Boa noite meus caros monitores, chequem suas barracas a intendência, o lenheiro. Vem uma tempestade por ai!     

Nenhum homem tem o dever de ser rico ou grande ou sábio: mas todos têm o dever de serem honrados.



quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Ele era meu amigo o Cacique Itagiba, o que tem o braço forte como pedra.



“Ensina-nos a atravessar para o outro lado do oceano”
Nosso Pai ensina como chegar à sua Morada.
Nosso Pai ensina a atravessar para o outro lado do oceano...

Ele era meu amigo o Cacique Itagiba, o que tem o braço forte como pedra.

             Tinha levantado cedo. Afinal seria um dos primeiros para acordar os demais. Era um Cabo Corneteiro na 4ª Brigada de Infantaria, ou melhor, na Brigada 31 de Março em Juiz de Fora MG. Um soldado que não conhecia me avisou que o Capitão Barbosinha queria falar comigo urgente. Ordens superiores não se discutem se cumprem. Apresentei-me a ele em sua sala as sete da manhã. – Ferraz, eu recebi este telegrama. Chegou aberto desculpe. O telegrama dizia – “Meu irmão em breve irei passar para o outro lado do oceano. Não quero ir antes de me despedir de você”. – Ferraz o que significa passar para o outro lado do oceano? Disse o Capitão Barbosinha. – Capitão, significa que meu amigo o Cacique Itagiba está morrendo e não quer ir antes de me abraçar. – Os índios Botocudos quando estão para passar para o outro lado se preocupam com suas três almas na hora da morte. Segundo seus ancestrais, eles têm três almas: a nhe’enguê ou nhe’em, a alma boa espiritual, que vai para o Além quando a pessoa morre, não afetando os vivos; a anguêry, a alma animal, responsável pelas más inclinações e que fica na terra por um tempo depois da morte, assombrando os vivos; a avyu-kuê, a sombra, uma cópia imperfeita da pessoa, permanecendo nos ares e não incomodando ninguém. A doença é a ausência temporária da nhe’em, da alma boa. A morte é a saída definitiva dessa alma. O sonho é a saída nhe’em para esse outro mundo.

                O Capitão Barbosinha não discutiu. Ele me conhecia. Sabia da minha lealdade e das minhas aventuras escoteiras. – Tem uma semana para ir e voltar. Disse. Às nove da manhã eu estava na Br040. Ela me levaria até o entroncamento da Br116. Uma longa viagem e sem dinheiro só como caroneiro. Tive sorte. Um caminhoneiro levando uma carga de arroz para Teófilo Otoni se prontificou a me levar. Ainda estava com o uniforme de campanha do exército. Só em Valadares iria colocar o meu tradicional uniforme escoteiro. Às onze da noite eu estava em casa. Disse aos meus pais o que aconteceu e ficaria pouco tempo. Um banho, o uniforme e parti para a estação ferroviária. Eram duas da manhã e o Nonô o Chefe da Estação me disse – Vado, as três ou quatro da manhã passa um trem de carga para Aimorés. Você pode pegar uma carona. Não deu outra. Tanta sorte que até o Dedé Peito de Pato era o maquinista. Fora Escoteiro sênior e pioneiro. Cheguei a Crenaque as cinco da matina. O dia clareava. Agora era conseguir um barco para atravessar o Rio Doce.

               Nenhum barco, os que existiam de pescadores já tinham levantado vela. Fazer uma jangada demoraria demais. O rio estava calmo e com as águas bem baixas. Escolhi um local onde havia uma grande pedra no meio do rio. Cada braça uns 80 metros. Tirei o uniforme fiz com ele e várias folhas esfoladas de bananeira uma espécie de mochila amarrada nas costas. Iria atravessar a nado. Às oito da manhã eu avistei no alto do morro do Grilo a Aldeia dos Pataxós, remanescentes dos Botocudos e Aimorés. Nada mudou. A mesma aldeia miserável do passado. Os índios ali não tinham vez. A FUNAI nunca se interessou. Parei para descansar, não queria chegar com ar de cansado. Precisava motivar meu amigo o Cacique Itagiba. Eu sempre disse que o sorriso é um remédio dos deuses. Meus pensamentos voltaram ao passado, cinco anos antes. Era Escoteiro passando para Sênior. Os Pintassilgos uma patrulha sênior me recebeu com carinho. A maioria já fora Escoteiro e muitos eu conhecia muito bem. Ainda na fase da Rota Sênior.

               Em uma reunião de patrulha se discutiu muito sobre a história indígena em nosso Vale do Rio Doce. Matheus era nosso escriba e disse que pesquisou muito na biblioteca. Dizia que de uma população de mais de trinta mil índios, todos eles escorraçados de suas terras na Bahia hoje não eram mais que uns três mil. Havia quatro aldeias proximo ao Rio Doce. Em Crenaque, em Conselheiro Pena, em Aimorés e a última em Colatina. – Porque não vamos visitar a de Crenaque? Falei, é perto e poderemos conhecer mais a história deles. Falei. Todos deram sua opinião. Decidimos ir na quinzena seguinte. Uma época que os chefes aprovavam tudo que fazíamos. Em uma sexta a tarde lá estávamos na estação ferroviária a esperar o Trem Rápido para Vitória. Não pagávamos passagem. Tinhamos passe livre na ferrovia Vale do Rio Doce. As seis em ponto nós chegamos a Crenaque. Chegar à Aldeia a noite? Não era uma boa ideia, mas poderíamos atravessar o rio. Um menino de uns doze anos se ofereceu para nos atravessar. Seu pai tinha viajado. Juntamos uns tostões e demos a ele quase dez reais em dinheiro de hoje.

               No alto do morro do Grilo avistamos a aldeia. Quase nenhuma iluminação. Algumas lamparinas e mais nada. Casas de alvenaria. – Mas eles não tinham Ocas? Eu pensei. Bem isto iriamos averiguar. – Armamos duas barracas e dormimos como sempre. Sem medo, sem receios vivendo somente nossos sonhos de jovens meninos. Acordamos com o sol nascendo e na frente da barraca uma dezena de índios na maioria jovens como nós. Eles sorriam. Nenhum fazendo gestos de maldade. Levantamos acampamento e pensávamos que eles não falavam nosso idioma. – quem sabe Tupi Guarani? Perguntei. Eles riram a valer. Foi então que um jovem forte e atlético, vestindo um calção azul e sem camisa nos convidou para visitar a aldeia e conhecer seu pai o Cacique Upiara e sua mãe a índia Poranga. Não falou mais nada e o seguimos na descida do morro do Grilo. Entramos na aldeia e todos saíram de suas casas. O Cacique Upiara nos recebeu educadamente. Também só com um calção azul, mas com um pequeno cocar. Duas penas que ele se orgulhava, uma de um Azulão Vermelho e outra do Uirapuru. Só os valentes da tribo conseguiam tais penas.

        Ficamos lá até domingo e retornamos, pois a semana sem escola seria um prato cheio para os pais. Conversamos muito com eles e apesar de não entender sobre FUNAI, indigenistas e piratas de bebidas alcoólicas aprendemos muito. Um povo sofrido. As terras que o governo lhes deu foram invadidas diversas vezes. A caça desapareceu. Eles plantavam mandioca e muitas vezes era seu único alimento. Os homens da FUNAI não eram honestos com eles. Uma vez se sublevaram. Prenderam o Chefe da FUNAI. Nada adiantou. Uma barca no outro dia despejou centenas de soldados. Eles viviam como podiam, mas ainda tinham o orgulho dos seus antepassados. Entre os indígenas não há classes sociais e todos tem o mesmo direito e o mesmo tratamento. O pequeno pedaço de terra que ainda tinham pertencia a todos. Quando se conseguia alguma caça e ou uma boa pesca tudo era dividido com todos. Vimos com orgulho que ali todos se respeitavam, as índias sempre tomando conta das crianças e fazendo a comida. Cada casa morava oito ou doze famílias. Até mesmo o Cacique Upiara e sua esposa a índia Poranga moravam com mais oito famílias. Tudo dividido até o radinho de pilha era passado de mão em mão.

             Voltei lá muitas vezes. E até sem patrulha somente a “escoteira”. Fiquei muito amigo do jovem Itagiba. Juntos nos fizemos belas aventuras na redondeza. Caçamos uma Jaguatirica só com armadilhas. Depois fiquei com tanta dó dela que a soltei e Itagiba rolou no chão de tanto rir. Ficávamos horas na pedra do Açu junto ao rio Doce tentando pescar uns dourados. E quando conto que peguei um “moleque” de mais de vinte quilos dizem que inventei. Fizemos uma jornada até a Lagoa dos Macacos muito longe da aldeia. Uma lagoa enorme e nunca tinha visto tantos peixes. Aprendi a gostar do Cacique Upiara e a Índia Poranga. Fiz amizade com o Pajé Jurecê. Meio cheio de trejeitos como se estivesse recebendo espíritos. Todos recorriam a ele nas doenças e dificuldades. Tinha um médico da FUNAI que ia lá duas vezes por ano. Duas vezes! Ficar doente e depender dele era morrer. Uma noite de lua cheia estava eu e Itagiba em um pesqueiro no Rio Piracema quando me deu uma ideia. Expliquei a Itagiba como os Escoteiros faziam juramentos de sangue. Ele me convidou para ser seu amigo para sempre. Tirei minha Mundial da cintura, e cortamos no antebraço. Não saiu muito sangue, mas cruzamos os dois no local de corte e cada um disse que agora seriamos irmãos de sangue por toda vida.

             Quatro anos depois fui servir a Pátria em Juiz de Fora. Sempre mantendo contato com Itagiba pelo correio. Ele mesmo me contou que se casou com a Índia Ibotira a quem chamavam de flor pequena. Seu pai havia morrido de uma doença que germinava por toda tribo. Uma tal de tuberculose. Ele agora era o Cacique. Sempre me convidando a voltar lá, pois sentia muitas saudades e queria que eu fizesse o batismo do seu filho que ia nascer. Era difícil minha ida. No exército as folgas eram pequenas e esperava umas férias para visitar meus pais e ele. Foi então que recebi este telegrama. Não dava mais. Tinha de ir. Desci a trilha do morro do Grilo que me levava à aldeia. Desta vez não tive a recepção do passado. Poucos sorrisos para mim e até os meninos se escondiam da minha passagem. Itagiba ainda morava na mesma casa. Agora quase vazia. Havia um medo generalizado da mesma doença que matou seu pai e quase dizimou a aldeia. A tuberculose fazia às vezes da peste negra. Se a FUNAI quisesse ela poderia dar cabo de tudo. Mas eu sabia que daquele mato não ia sair coelho.

               Itagiba estava deitado em um catre de folhas de bananeira. Ele já sabia que eu estava chegando, pois me avistaram fazendo a travessia a nado e esperava com ansiedade minha presença. Levantou com dificuldade e ficou em pé com a ajuda de sua mulher a índia Ibotira. Abraçou-me fortemente com os olhos cheios de lágrimas. Não me contive e chorei também. Ficamos ali a falar do passado, lembrando tudo que fizemos e ele me contou como estava a aldeia. Já tinha feito um conselho da tribo para a escolha de um novo cacique, pois seu filho não chegou a nascer. Com cinco meses Ibotira abortou. Ele sabia que não haveria mais uma continuação de sua família de bravos. Sorriu ao me dizer que pelo menos deixava um grande amigo e me olhou com aqueles olhos grandes que sabia reconhecer as aves e os animais da floresta como poucos. Itagiba morreu dois dias depois. Mesmo morto poucos foram reverenciá-lo. Um medo terrível da doença. Eu não saí do lado dele um só instante. Conhecia a tuberculose e desde que não usasse seus apetrechos de alimentação dificilmente pegaria. Expliquei isto para sua esposa Ibotira.

            Uma vez o Pajé Jurecê me contou que cada nação indígena possuía crenças e rituais religiosos diferenciados. – Sabe meu jovem nós acreditamos nas forças da natureza e nos nossos espíritos dos antepassados. Eles são para nós os Deuses e os espíritos para nossos rituais cerimônias e festas. No passado quando alguém da tribo morria nós enterrávamos os corpos na Oca onde ele morava. Junto com ele ficava seus objetos pessoais, vasos de cerâmicas que ele adquirira. Nós sempre acreditamos que havia uma vida após a morte. Agora com as casas de alvenaria isto não era mais possível. Itagiba foi enterrado em um pequeno cemitério ao lado da trilha que nos levava sempre em busca de aventuras, o morro do Grilo. Eram poucos os índios da tribo que se arriscaram a acompanhar a cerimônia fúnebre. Colocaram seus pés virado para o nascente para que ele encontrasse com maior facilidade o caminho da Terra sem Males, e que diziam ficava nessa direção depois do oceano. Foi acesa uma fogueira sobre seu tumulo que foi alimentada por três dias isto para que sua caminhada fosse iluminada.        

            Eu sabia que ele sempre acreditou que poderia reencarnar. Um dia ele me disse – Sabe Vado Escoteiro quando eu reencarnar novamente quero ser seu irmão. Quero estar sempre ao seu lado. Voltei no dia seguinte do seu sepultamento para o quartel. Naquele sábado do retorno, na hora do apagar das luzes, toquei em meu clarim o toque de Silêncio mais triste que um dia toquei em minha vida. Para dizer a verdade as notas do clarim se misturaram ao sabor das minhas lágrimas que caiam harmoniosamente. Até mesmo o Sargento da Guarda me olhou com carinho. Ele não conhecia a história, mas sua experiência com corneteiros sabia de antemão que uma bela história de amor e amizade tinha acontecido. Itagiba ficou na minha memória por todo o sempre. Não houve sonhos e nem revelações, pois assim como ele tive amigos que já foram para o outro lado da vida e só deixaram saudades. Eu sei que um dia vamos nos encontrar, pois nosso caminho na vida sempre vais nos levar a eternidade.

Dentro de mim existem dois lobos.
O lobo do ódio e o lobo do amor.
Ambos disputam o poder sobre mim.
-Qual vence?
Aquele que eu alimento!

Velho índio


quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

O ultimo Grande Uivo – É difícil dizer adeus...



As pessoas tomam caminhos diferentes em busca da felicidade e da satisfação. O fato de que o caminho de alguém não coincida com o seu não quer dizer que vocês se perderam. (H. Jackson Browne)

O ultimo Grande Uivo – É difícil dizer adeus...

           Em nossa vida estamos sempre dizendo adeus. Não é um adeus para sempre. Mas para crescer temos que deixar para trás aqueles que amamos e nunca deixaremos de amar. Todos nós um dia deixaremos o nosso lar, sem perceber dizemos adeus aos nossos pais, nossos irmãos, mas continuamos junto a todos eles sempre na mente e no coração. Um dia vamos partir para mais longe, mas o longe é tão perto que nos manteremos unidos em qualquer tempo. Muitas vezes sentimos saudades do passado, buscamos lá no fundo da memória cada ato, cada ação e isto nos trás um bem tremendo. Dizem que recordar é viver. Acredito sim. Lembrando Drummond ele dizia que fácil é dizer “oi” ou “como vai?” Difícil é dizer “adeus”... Fácil é abraçar, apertar a mão. Difícil é sentir a energia que é transmitida... Fácil é querer ser amado. Difícil é amar completamente só...

           Realmente é difícil dizer adeus. Uma palavra que não gostamos de usar. No escotismo estamos sempre dizendo adeus. Um adeus diferente, pois estamos a poucos passos daqueles que despedimos. Mas aquela saudade gritante ainda machuca quando partimos para a Cidade dos Homens. Se um dia fomos lobos o nosso amor a nossa Alcateia, a nossa Akelá, nosso Balu, Kaa, Baguera ou Raksha ficará para sempre em nosso coração. Se ali vivemos uma vida cheia de amor, nada poderemos fazer para que um dia cada um de nós fique para trás. Vai chegar a hora de dizermos adeus. Faz parte do nosso crescimento? Sim faz parte. Iremos deixar para trás um pedaço de nós. Não foi assim que disseram? O homem ao homem! É o desafio da Jângal! Já parte aquele que foi nosso irmão. Ouvi, então, julgai, ó vós, gente da Jângal, respondei: - Quem irá detê-lo então?

          Tantos anos, um tempo simples cheio de amigos e sem querer sabemos que o homem vai ao homem, mesmo que saibamos que na Jângal está a nossa trilha, ninguém mais vai poder nos seguir. Nem mesmo Shere Khan. Permanece aquela dúvida cruel de menino lobo, a lembrar de que Mowgly queria ter morrido nas garras dos Dholes, quando sua força esvaiu-se e ele sabia que não foi veneno. Dia e noite ouvia um passo duplo no seu caminho. Quando voltava à cabeça sentia que alguém se esconde atrás. Procurava por toda parte atrás dos troncos, atrás das pedras, e não encontrava ninguém. Chamou e não tinha resposta, mas sentia que alguém o ouvia e se guarda de responder. Ele se lembra de tudo. Sabia que tinha de partir. Se Baloo, Akelá disse que ele iria um dia partir para a Alcateia dos homens não tinha como fugir. Não era a lei? Não foi Kaa quem disse que homem vai para os homens? Mesmo que a Jângal não mais o expulse? É não adiantava mesmo que os irmãos Gris uivem furiosamente dizendo – Enquanto vivermos ninguém, ninguém mesmo ousará!

           Ele sente que já está com saudades. Estão todos prontos para o Ultimo Grande Uivo. Quantas vezes ele os fez? Quantas vezes ele gritou melhor, melhor, melhor e melhor? Quantas vezes a Akelá no centro do círculo de braços abertos olhou para ele e ele sabia o que responder? Tudo agora vai acabar para sempre? Mas ele se lembrava das palavras de Bagheera dizendo que ele deveria seguir novos caminhos – Senhor da Jângal, lembra-se que Bagheera te ama, vai em paz. O Grande Uivo terminou. Era a hora da passagem. Passagem? Ele iria partir? Dizer adeus? Olhou além da floresta e viu os homens meninos o esperando. Ele já os conhecia. Ficou varias luas com eles. Foi bem tratado, aprendeu a dizer o Grito da Patrulha, aprendeu o novo lema à saudação. Aprendeu muitas coisas...

              Ele não sabia se chorava ou se dizia adeus quando se despediu de cada um. Mão por mão. Aquela do coração firme como a dizer: - Estarei sempre aqui e vocês estarão sempre aqui no meu coração. Olhou para Kaa e lembrou que ela chorava e que era difícil arrancar a pele, mesmo que Baloo também chorasse e pedia que antes de partir ele o chamasse. Venha até a mim sábia rãnzinha e ele quase rompeu em soluços naquela despedida dolorida. Não se esqueça de mim. Ele lembrava quando estava partindo e Kaa repetia – “Somos todos, eu e você irmãos de sangue”. Seus olhos estavam molhados de lágrimas. Tinha de partir, sabia que está era sua sina seu destino. Ainda deu para ouvir os soluços e os gritos do Lobo Gris que de olhos erguidos para o céu dizia – Onde me aninharei doravante? Pois agora os caminhos são novos...

          Era seu último Grande Uivo. Mais uma vez olhou lobo por lobo. Nunca mais iria esquecer aquele dia. Hora de partir. Sempre é uma hora difícil de dizer adeus. Mais uma vez ele se lembrou das palavras do seu irmão o lobo Gris – “Filhote de homem, senhor da Jângal, filho de Raksha, meu irmão de caverna, O teu caminho é o meu caminho. A tua caça é a minha caça e a tua luta de morte é a minha luta de morte”. E ele completou gritando para a Alcateia quando partiu - “Boa caçada grande povo da Jângal”! Não tinha mais nada a dizer. Mais uma vez deu seu ultimo adeus e ouvindo a canção do lobinho ele partiu para seu novo mundo. Akelá o levou até a trilha que o levaria a cidade dos homens. Segurou sua mão esquerda e disse – Você sempre será bem vindo ao nosso meio. Quem foi um lobo sempre será um lobo. Vá com Deus e que na cidade dos homens você seja feliz como foi aqui!

        O Monitor e o Chefe o esperavam na trilha da cidade dos homens. Com sorriso saudoso e venturoso ele apertou a mão do Chefe e do seu Monitor. Agora teria uma patrulha, agora ele teria de agir como homem. Sabia que todos iriam ajudá-lo na nova vida. Pois ali disseram eles que seriam um por todos e todos por um. Olhou para trás, acenou para a Akelá e os lobinhos. Seu coração bateu forte. Que vontade de voltar de dizer que não queria ir. Mas agora não era um homem? Suas passadas deviam ser para frente e voltar seria um retrocesso. Pensou consigo como era difícil dizer adeus. Difícil mesmo, mas agora era um homem. Disseram para ele que o homem mais sábio e mais digno de confiança é o que aceita as coisas como são. Ele agora tinha uma nova vida. Sabia que não seria fácil, pois nada neste mundo é fácil. Mowgly não era mais o mesmo quando partiu. Seu coração doído iria se regenerar. Foi saudado por todos na Tropa Escoteira, na cidade dos homens. Fez questão de apertar a mão de todos. Havia aprendido que o Escoteiro é amigo de todos e irmãos dos demais escoteiros.

“O abutre Chill conduz a noite incerta, e que o morcego Mang ora liberta - É esta a hora em que adormece o gado, Pelo aprisco fechado. É esta a hora do orgulho e da força unha ferina aguda garra. Ouve-se o grito: Boa caça aquele Que a Lei da Jângal se agarra”.


Quem pergunta permanece ignorante durante somente cinco minutos, mas quem não pergunta será um ignorante para sempre. (provérbio chinês)


terça-feira, 19 de novembro de 2013

Muito além do por do sol. Uma linda história de amor.



Há quem diga que todas as noites são de sonhos.
Mas há também quem garanta que nem todas, só as de verão. No fundo, isto não tem muita importância.
O que interessa mesmo não é à noite em si, são os sonhos. Sonhos que o homem sonha sempre, em todos os lugares, em todas as épocas do ano, dormindo ou acordado.

Muito além do por do sol.
Uma linda história de amor.

       Charles tinha sonhos, sonhava em brincar em sorrir e cantar. Não gostava da escola. Mas sua mãe insistia. Ela dizia que iria partir um dia e ele ficaria só. Ele não deveria ser dependente de ninguém. Não entendeu bem, mas passou a prestar mais atenção às professoras. Charles ficava na porta de seu barraco esperando sua mãe chegar. Ela saia cedo, fazia o café deixava no forno seu almoço e quando chegava fazia o jantar. Ele chegava cedo da escola almoçava e ficava na porta do barraco sonhando acordado. Sonhava em ter um vídeo game para brincar. Uma televisão para ver, pois a sua queimou e não tinham dinheiro para consertar. Isto ele até achava bom, pois depois da janta, sua mãe já de banho tomado eles sentavam nas velhas poltronas da saleta e ela tricotando contava para ele belas histórias. Ele amava as histórias de sua mãe.

       Foi por elas que ficou sabendo do seu pai. Uma noite chuvosa ela contou com lágrimas nos olhos o seu passado. Ele não entendeu bem, mas ela o abraçou no final da história e o beijou varias vezes no rosto. Tentava no outro dia lembrar-se do que ela contou. – Eles moravam em uma fazenda, em uma cabana de sapê, seu pai fazia empreitadas para o dono da fazenda. Consertava cercas, capinava, limpava os currais e quando podia dava uma mão na vaquejada que se realizava anualmente. Um dia ele fazia uma cerca ao lado do Rio Verde e uma enorme tempestade se formou. Um raio caiu sobre ele que morreu na hora. O Senhor da fazenda um mês depois foi até lá dizendo que precisava da casa. Casa? Uma cabana simples de pau a pique – Eu preciso de alguém para ajudar na lide da fazenda - disse. Seu marido se foi já tenho outro arrumado e preciso que a senhora desocupe.

        Fazer o que? Ela partiu para a cidade grande. Dormiram ao relento por vários meses. Ele tinha três anos. Ela lutou para conseguir seu barraco na favela do Engenho. Não conseguiu uma creche para ele e muitas vezes o levava a tiracolo escondido. Era faxineira. Trabalhava em cinco residências por semana. Sua mãe contava estas histórias e outras que ele ria sem parar. Nunca esqueceu a do Neguinho do Pastoreio. Um dia na escola Norberto um menino rico apareceu de uniforme. – Que é isto perguntou. – Sou Escoteiro não sabia? Charles gostou do uniforme. Perguntou a sua mãe se ele podia entrar. Ela riu e disse que não era para eles, lá só tinham ricos e brancos. Charles e sua mãe eram negros. Charles nunca se preocupou com sua cor. Nunca na sua ingenuidade de menino de onze anos sentiu que não tinha seu lugar na sociedade.

      Charles foi aceito no dia da visita ao Grupo Escoteiro. Os chefes foram simpáticos e ele gostou da sua Patrulha Lobo. Em pouco tempo se enturmou. Agora tinha duas alegrias o Escoteiro e as histórias de sua mãe que ela nunca se esquecia de contar para ele. A televisão ainda estava quebrada. Consertar como? Um dia na patrulha ficou sabendo que ele era “adotado”. Não entendeu. Sua mãe tentou explicar que o Grupo Escoteiro pagava suas despesas. – Mãe, mas porque não pagaram para o acampamento nacional? Eu não fui, pois não pude pagar a taxa, a senhora mesmo disse que seria impossível. Ela sorriu e disse para ele não se preocupar. Um dia ele mesmo iria sem depender de ninguém. Bem Charles não se preocupou com isto. Sabia que mesmo sendo negro era bem amado por todos na sua tropa. Ia acampar excursionar, brincava, cantava e fazia coisas impossíveis com bambus e alguns metros de sisal.

          Charles cresceu. Passou para os seniores. Já não era tão dependente. Passou a estudar a noite e trabalhava durante o dia na loja do seu Odorico. Ele quase não o aceitou, mas depois de muita insistência em trabalhar outros dias ele foi aceito. Ele não queria ser impedido de aos sábados participar do seu querido Grupo Escoteiro. Ganhava metade de um salario mínimo, mas ajudava muito sua mãe. Ele amava os seniores, e ali se sentia realizado. Martinho o Chefe abriu a tropa para as meninas. Vieram três agora a tropa tinha duas patrulhas completas com seis cada uma. Não se enturmou com nenhuma delas. Ele arredio em sem assuntos pouco ria ou falava com uma a não ser o sempre alerta rotineiro. Um sábado Nathalya foi apresentada a tropa. Cabelos vermelhos cortados no ombro, um rosto lindo um corpo sonhador. Ela no final da reunião conversou com Charles. Ele vermelho não sabia onde colocar as mãos, os pés nada. Conversaram banalidades.

            David o Monitor sempre ficava ao lado dela. Charles olhava o par e olhava para o chão. Sabia que nunca ela poderia ser sua namorada. Em uma excursão no Vale Florido eles deram uma parada próxima a uma linda cachoeira. Sentaram nas pedras e extasiados admiravam a maravilhosa obra da natureza e de Deus. Ela o convidou para sentarem em uma sombra onde uma linda Copaíba se destacava. Sentaram ali e ela alegre e gentil contou muitas coisas sobre a sua vida. Charles ficou sem jeito de falar sobre ele. Era negro ela branca ruiva de cabelos vermelhos. Ela insistiu e ele se abriu com ela. Ela nada disse. Ele sabia que agora a tinha perdido para sempre. Sua vida pobre e sem futuro não iria interessar a ela. O apito do Chefe tocou três vezes. Reunir. A hora maravilhosa daqueles momentos mágicos havia acabado. Eles levantaram e para surpresa de Charles Nathalya o abraçou e o beijou. Ele não sabia o que fazer. Não foi um beijo dos que seus amigos se gabavam. Foi um beijo lindo, um roçar de lábios poder olhar nos olhos, sentir o perfume que ela exalava e sem querer acariciou seu rosto, seus cabelos e de novo o apito do Chefe.

          Foi um êxtase de momento. Uma quimera de segundos, mas que Charles nunca mais esqueceu. Na semana seguinte Nathalya não veio. Na outra também não. Charles torcia as mãos, olhava para o portão e quando a reunião terminou tentou achar a casa dela. Ninguém sabia o Chefe disse que ela não voltaria mais. Era escoteira em outra cidade e veio passar uns dias com sua tia. Não lembrava onde era a cidade e nem conhecia sua tia. Ela tinha pedido para participar das reuniões enquanto estivesse aqui. Charles tomou um choque. Uma dor incrível cravou em seu coração. Sua mãe o abraçou e ambos ficaram assim por um bom tempo com os olhos molhados de um choro que não saia. Charles nunca encontrou outra moça para namorar. Não se interessava. Nunca iria tirar o momento mágico do afago e do beijo entre ele e Nathalya.

       O tempo passou. Charles cresceu. Formou-se como Técnico Mecânico. Sua mãe velhinha não trabalha mais. Charles comprou uma linda casinha para ela. Mobilou e perguntou se queria uma televisão. Ela disse: Minhas histórias ou a televisão? Ele sabia o que iria escolher. Charles continuou Escoteiro, mas preferiu ficar colaborando sem ser um chefe. Durante toda sua vida uma vez por mês Charles devagar sem correr vestia seu uniforme, embarcava em um ônibus e descia próximo ao Vale Florido. Sentava na sombra da Copaíba e sua mente ia ao passado distante que nunca esqueceu. Lembrava tudo que Nathalya naquele dia mágico lhe contou. Sorria quando se lembrava. Depois de horas ficava de pé, fechava os olhos e via Nathalia a sua frente o beijando. Meu Deus! Incrível esta visão virtual. Visão de um grande amor que nunca morreu. Estava vivo na sua mente para sempre.

      Hoje aos setenta anos Charles ainda pega o mesmo ônibus e lá está ele com seus passos trôpegos a procurar seu Vale Florido. No mesmo local na mesma árvore, naquela Copaíba que assistiu o desenrolar de um grande amor ele agora com dificuldade sentava naquela sombra e sonhava. Disse para si mesmo que ninguém mais iria beijá-lo, ninguém faria esquecer o beijo que um dia elevou seu espírito aos céus. Um dia Charles se foi. A Copaíba sentiu sua falta. O perfume que ela deixou em sua sombra nunca mais se esvaiu. Nas suas exéquias Charles sentiu uma luz azul brilhante a lhe convidar para pegar sua mochila, seu chapéu de abas largas, sua bandeira e subir para a cidade dos sonhos para uma grande excursão. Todos os Escoteiros estavam lá, seus amigos de outrora que ainda estavam vivos e ela, ela mesmo, Nathalya com seus cabelos brancos foi prantear um amor do passado que nunca esqueceu!

Nunca diga te amo se não te interessa.
Nunca fale sobre sentimentos se estes não existem.
Nunca toque numa vida se não pretende romper um coração.
Nunca olhe nos olhos de alguém se não quiser vê-lo se derramar em lágrimas por causa de ti.
A coisa mais cruel que alguém pode fazer é permitir que alguém se apaixone por você quando você não pretende fazer o mesmo.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

A lenda do Fantasma da Patrulha Morcego.



Talvez, mais tarde, haja alguma inteligência que reduza o meu fantasma a algo comum — uma inteligência mais serena, mais lógica e muito menos excitável do que, a minha, que perceba, nas circunstâncias a que me refiro com terror, nada mais do que uma sucessão comum de causas e efeitos muito naturais.

A lenda do Fantasma da Patrulha Morcego.

           Maneco o Monitor da Morcego estava assustado. E põe assustado nisto. No começo ele achou graça, mas agora... Agora estava ficando diferente. Acontecia em todas as reuniões de tropa, nas excursões e nos acampamentos era o tempo todo. Cada dia mais amedrontado ele ficava. Tudo começou no acampamento realizado na Fazenda Santa Fé. Não ficaram perto da casa sede. O Coronel Tibúrcio proprietário da fazenda disse que na Ravina da Lontra, próximo à queda d’água havia um descampado lindo, gramado, com grama natural é claro, uma mata próxima e muito bambu. Bom isto. O Chefe Mansur não perdeu tempo. Juntamos nossas tralhas e colocamos em cima do carroção do carro de boi que o Coronel ofereceu como transporte. O local era mesmo lindo. Uma queda d’água de mais de trinta metros. O banho ali iria valer o acampamento. Mãos a obra e começaram a montar nosso campo. Ele viu que os Touros, os Javalis e os Leões estavam pau a pau com sua patrulha. Não havia porque duvidar, pois estavam juntos a mais de dois anos e ninguém saiu.

          Tudo começou quando ele apresentou-se ao Chefe para informar que o Jantar estava pronto. Quando corria na trilha até a barraca da chefia ele sentiu um calafrio. Um calafrio diferente. Parecia que alguém estava junto, mas ele não via nada. Fez a saudação de rotina, disse as palavras de rotina e o Chefe agradeceu o convite. Ficaram de almoçar com ele no sábado quando Lovenildo iria “tirar” sua especialidade de cozinheiro. Ele viu um vulto ao seu lado quando fazia a saudação. Um vulto de um menino moreno, magro, roupas simples daquelas sem cinto com uma passadeira segurando sua calça curta. Ele ria, parecia feliz em estar ao lado de Maneco. – Chefe! Tem alguém comigo aqui? O Chefe Mansur riu. – Ninguém Maneco. De onde tirou isto? – Maneco não disse mais nada. Voltou para seu campo e ao seu lado o menino moreno. O que fazer? Rezar é claro. Quem sabe seria uma alma penada do outro mundo. Se fosse era melhor que não ficasse ao seu lado. Não era medroso, mas também não tinha coragem para enfrentar fantasmas do além. Rezou muito antes de dormir.

          Maneco dormiu como um anjo. Teve um sonho, um sonho que ficou gravado em sua mente por toda sua vida. Ele nunca mais se esqueceu deste sonho. Nele um menino humilde, filho de um lavrador da fazenda, um menino que nunca foi à escola, não tinha roupas e as que usava sua mãe lavava enquanto ele esperava secar. Este menino disse que se chamava Taozinho dos Olhos Tristes. Um dia (assim comentava o menino no sonho) ele perguntou para sua mãe porque olhos tristes. - Porque meu filho não vejo você sorrir. Não vejo você correr por aí atrás das cotovias, das borboletas, nunca irás à escola, mas um dia quero levar você para conhecer uma cidade. Quem sabe Montes Floridos, é longe, mas um dia levarei você lá. Vai ver uma rua calçada de pedra, casas enormes, lá tem um prédio onde mora o prefeito e muitas outras casas uma em cima da outra. Vais ver a luz elétrica, quem sabe ouvir um radio tocando músicas. E assim sua mãe falou maravilhas de Montes Floridos. Tãozinho dos Olhos Tristes daquele dia em diante só pensava na cidade de Montes Floridos. Quando iriam? O que seria luz elétrica? O que seria a casa do prefeito muito alta e uma rua de pedra onde todos poderiam andar?

            Tãozinho dos Olhos Tristes nunca foi a Montes Floridos. Seu sonho durou pouco. Ele morreu um dia pisoteado por um touro bravo. Morreu por nada. O touro surgiu na curva do aluvião, perto da Ravina da Lontra. Ele gostava de ficar ali, ver a cascata enorme a cair e nem percebeu o touro chegar. Não deu tempo de fugir. Foi sepultado atrás da cabana de pau a pique que seu pai fizera. Sua mãe chorava sempre que o visitava em seu tumulo simples. Muitas flores, uma cruz de madeira e nela sua mãe pendurou um terço. Terço que todas as tardes ela ia lá para rezar. Ele gostava de sair de perto do seu tumulo. Havia uma árvore frondosa onde ele passava a maior parte do tempo. Ele não entendia porque havia morrido. Parecia estar vivo a rezar com sua mãe. Foi quando viu os Escoteiros chegando. Que lindo! Que coisa mais bela era ver aquela meninada cantando. – Por favor, ele disse no seu sonho – Deixe-me ficar com vocês! Não farei mal a ninguém. Deixe que eu seja um Escoteiro, pois isto é lindo demais!

              Maneco acordou assustado. Levantou e viu sentado em frente sua barraca o menino dos Olhos Tristes. Sorriu para ele e disse – Seja bem vindo a minha Patrulha Tãozinho. Agora somos oito com você. Maneco o viu sorrir, parecia querer agradecer, mas sua voz não saía. Durante os quatro dias Tãozinho se divertiu na Patrulha Morcego. Só Maneco o via. Ele perguntou a Diego o Sub se ele via alguma coisa. Diego riu – Maneco, você está ficando maluco? O jeito era ficar calado. Mas ele se divertia com o sorriso de Tãozinho. Parecia que aquilo era a melhor coisa que aconteceu com ele. Mas tudo que é bom dura pouco. Chegou o dia de ir embora. Quando Tãozinho ficou sabendo ele chorou. Não tinha mais aquele belo sorriso. Maneco ficou numa tristeza só. Mesmo sua patrulha recebendo o troféu de eficiência do campo ele não sorriu. O Chefe Mansur viu sua tristeza e perguntou – O que houve Maneco? – E agora? Contar para o Chefe? Ele sabia que iria sofrer reprimenda. Não aquela de castigo não. Chefe Mansur era seu herói e nunca faria isto. Não contou.

        No ônibus ele viu que Tãozinho dos olhos tristes se aboletou ao lado dele. – Tãozinho, você não pode ir comigo. Você não poderá ir a todos os lugares que eu irei. Eu tenho escola, igreja, meus amigos, meus pais e se você ficar sempre comigo eu não sei o que fazer. Terei uma vida diferente. Meu amigo, eu não poderia viver assim! Ele viu que Tãozinho desapareceu. Chorou sozinho no ônibus. Era para ter sido o melhor acampamento da sua vida. Não foi. Mesmo tendo sido eleito Monitor ele não teve os melhores momentos neste acampamento. Mas ele sabia que não poderia fazer nada. – Eis que a surpresa começou a aparecer uma atrás da outra. Todas as reuniões lá estava Tãozinho dos Olhos Tristes. A tropa toda desconfiou de Maneco. O Chefe também. Eles riam quando Maneco chamava Tãozinho. Isto não era bom pensou o Chefe Mansur. Será que Maneco estava ficando pirado? Chamou seus pais e explicou o que estava acontecendo. Chefe Mansur os aconselhou para leva-lo a um psiquiatra. Ou quem sabe procurasse o Padre Totonho. Ele era bom em exorcismo.

        Seu pai era um homem bom e letrado. Não fez nada disto. Procurou o Professor Afagildo. Ele riu e disse para não se preocupar. No sábado ele mesmo foi visitar a Tropa dos Escoteiros. Logo viu Tãozinho dos Olhos Tristes. O chamou e a alegria de Tãozinho foi grande. Mais alguém o via. Foi conversando com o Professor Afagildo. O primeiro que o ouvia. Ninguém nunca fez isto nem mesmo Maneco, a não ser em sonhos. Naquela noite o Professor Afagildo o apresentou ao Chefe Norberto, um antigo Chefe Escoteiro que havia falecido há muitos anos. Chefe Norberto deu a mão a ele e ambos sumiram em uma luz azul brilhante. Para dizer a verdade Maneco sentiu muitas saudades. Seu pai o levou um dia para conversar com o Professor Afagildo.

       Professor e Tãozinho dos Olhos Tristes foi para onde? – Meu jovem Escoteiro, ele agora está feliz. Entrou em uma Tropa Escoteira lá na Cidade dos Sonhos. Tem muitos amigos e me disse que comenta muito sobre você. O único menino vivo que o aceitou como ele era. – E sua mãe? Ele esqueceu? – Não, a gente nunca se esquece de quem se ama. Eles estiveram juntos no passado e ficarão juntos para sempre. Nosso mestre sabe o que faz. Deixemos Tãozinho em paz. Que ele se divirta na nova patrulha. Eu soube que ele disse que um dia iria fundar uma patrulha do Morcego. Uma homenagem a você, pois foi seu único amigo quando precisou de alguém para consolá-lo. Maneco nunca mais teve noticias de Tãozinho. Nem em sonhos ele apareceu mais.

        Maneco sentiu saudades de Tãozinho por toda sua vida. Esperava um dia encontrá-lo novamente. Ele quando cresceu sabia que só quando fosse para a outra vida poderia encontrar seu amigo. Mas estava tranquilo.  Sabia que onde Tãozinho estava ele era cercado de amor e carinho. A tropa nunca soube. Maneco nunca comentou. Ele sabia que cada um tem sua hora para acreditar. Que ele seja muito feliz lá e que alcance tudo que sonhou um dia. Se eu pude um dia fazê-lo feliz, fico feliz também pensou Maneco. E assim termina nossa história. Uma patrulha que teve em suas fileiras um fantasma! Fantasma? Não. Um menino que sonhou ser Escoteiro e o conseguiu. 


Eu conheço o fantasma que habita dentro de mim, posso ver em seus olhos que não estamos mais sozinhos. Eu não mais me atrevo a tentar te apagar de mim, pois sei que mesmo na solidão meus pensamentos te perseguem. Posso ver minhas lembranças me torturando, nem mesmo minha sombra me segue mais. Talvez tudo tenha acabado por aqui, talvez esse seja nosso fim.



domingo, 27 de outubro de 2013

A FELICIDADE NÃO SE COMPRA - GINO, UM ESCOTEIRO EM BUSCA DOS SEUS SONHOS



A felicidade não se compra
Gino, um escoteiro em busca de seus sonhos

Quantas vezes a gente, em busca da ventura,
Procede tal e qual o avozinho infeliz:
Em vão, por toda parte, os óculos procura
Tendo-os na ponta do nariz!
Mario Quintana

      Existem certos contos que me fazem lembrar de situações ou fatos do passado. Esse é um deles. Quando imaginei a historia e como seria me lembrei do filme A Felicidade não se Compra, de Frank Capra. Para muitos uns dos maiores diretores de todos os tempos. Conta a historia de George, quando um dia sua vida virou de cabeça para baixo e na ocasião do natal, um anjo que lutava para ter suas asas de volta, desce a terra para salvá-lo de um suicídio. George sempre fez o bem, mas seus sonhos desabaram. James Stewart e Donna Reed mostram porque o filme concorreu a quase todas as indicações ao Oscar da época. Estão soberbos.

      Não que a historia de Gino seja a mesma. Nada disso. Gino não tinha nada de extraordinário e nunca pensou em tirar sua vida. Com o que tinha se sentia feliz. Gino era escoteiro da patrulha Corvo. Assim como o anjo que foi fazer a boa ação com George no filme, Gino também adorava fazer boas ações. Na sua patrulha era amado por todos e bem considerado. Gino adorava ser escoteiro. Não era fácil. Sua família muito pobre. O Grupo Escoteiro não cobrava dele a mensalidade e o ajudava muito nas taxas extras das atividades ao ar livre.
 
       O pai de Gino era carpinteiro. Ganhava o suficiente para a família. Infelizmente bebia muito. Chegava em casa e ia para o quarto. Isso entristecia muito a Gino. Nos fogos de conselhos que participava, não gostava de fazer personagem de bêbado. Lembrava de seu pai. Não contou para ninguém, mas um dia ele apareceu durante a ortoga de um Liz de Ouro a um monitor da patrulha Cão. Achou que era Gino quem iria receber. Estava bêbado, quase caindo e Gino não sabia onde se esconder. Seu pai não deu vexame. Mas o Chefe da Tropa notou e olhou de maneira embaraçosa para Gino.

     Naquele dia Gino se sentia feliz. Haveria um Acampamento Regional de Patrulhas (ARP). O Chefe da Tropa estava vendo quem iria. A taxa era alta. Gino sabia que nunca poderia ir. Não podia pagar. Gino, no entanto ria da alegria dos amigos. Boa parte da patrulha iria participar. Ele se sentia feliz em ver a felicidade deles. Isso era próprio de Gino. Sempre pensava nos outros e pouco em si próprio. Só ficava triste porque quando do evento não havia reuniões de tropa. Uma das paixões dele.

     Na semana seguinte, lá estavam eles de volta, contando as novidades, rindo, mostrando fotos e Gino sentia dentro de si, uma alegria por ver tantos amigos alegres. Claro, seus olhos brilhavam. Bem não tanto, aqui e ali uma pequena lagrima por não ter ido. Os membros da patrulha contavam maravilhas. Jogos, canções, fogo de conselho. Centenas até milhares de participantes. Gino ouvia calado. Ah! Pensava. Meu dia chegará. Sim claro. Gino pensava que ele também poderia um dia participar de uma atividade como essa.

      Naquele sábado estavam fazendo uma atividade de base. Eram cinco. Em uma delas treinavam como fazer um tripé com os olhos vendados. Claro, Gino se destacava nessas atividades. Não levou mais que dois minutos para dar uma amarra para tripé. Sabia como ninguém. Claudio era o monitor da patrulha. Desde que Gino entrou para ela, se encarregou de prepará-lo nas suas provas de etapas de classe. Ele dizia que Gino poderia ser Liz de Ouro. Tinha todas as qualidades para isso. Claro, era seu sonho. No entanto ele tinha outro. Um sonho lindo. Participar de uma grande atividade escoteira nacional.

    Ele sabia que uma estava sendo programada. Seria em janeiro, daí a dois anos. Um Jamboree Nacional. Incrível! Uma apoteose! O Máximo que ele podia pensar. Milhares de escoteiros e escoteiras. Ele jurou a si próprio que não iria perder essa. Tinha tempo. Iria realizar seu sonho. Afinal ele era um escoteiro e tinha esse direito. Falou com seu pai, sua mãe e eles balançaram a cabeça. Não disseram nada, sabiam de suas condições financeiras. Gino tinha um plano. Ele ia conseguir. Começou a economizar. Tinha já em seu pequeno cofre mais de trinta reais. Precisaria pelos seus cálculos de uns mil reais. Ele não achava impossível conseguir.

      Sempre ao sair da escola, procurava um meio de aumentar suas economias. Passava de casa em casa, se oferecendo para limpar o quintal, um serviço extra, qualquer coisa. Ele já tinha conseguido quase cem reais nos dois últimos meses. Ainda tinha um ano pela frente. Sua luta não parava. A cada dia mais aumentava suas economias. Sonhava acordado pensando estar chegando na maior atividade escoteira de sua vida. Comentava com seus amigos de patrulha, que desta vez eles teriam companhia. Sabia que quase todos iriam. Seus pais tinham condições financeiras e as taxas seriam pagas na data certa.

    Faltava pouco mais de seis meses para o inicio do Jamboree. Gino já economizara mais de setecentos reais. Já dava para pagar a taxa, só precisava do saldo para a viagem e alimentação. Nas reuniões ele alardeava sua alegria com todos. Desta vez ele estaria presente. Nada de fotos, nada de historias, ele iria viver todo o programa do Jamboree ao vivo e cores. E dava belas gargalhadas. Soube pelo chefe da tropa que vários escoteiros de muitos países estariam presentes. Já pensou? Conhecer outros, uniformes diferentes, quem sabe trocariam distintivos e lenço com ele? Pediu a sua mãe que fizesse cinco. Tirou de suas economias para comprar o tecido.

      Gino olhava seu uniforme. Antigo. Não estava novo. Muitas lavadas algumas partes desbotando. Não dava para fazer outro. Ia com ele mesmo. Tinha tudo. Economizara desde que entrou para a tropa. Seu chapelão tinha as abas retas. Velho mas bem cuidado. Sua faca mateira sempre limpa e ao colocar na capa, usava talco para conservar. O mesmo com sua machadinha. Seu cantil sempre era lavado e a capa perfeita. Ganhou do seu padrinho uma bussola Silva. Tinha um carinho enorme por ela. Ele iria se apresentar garboso, orgulhoso de ser um Corvo, não o melhor, mas procurava ser tanto como os demais. É Gino era um escoteiro de corpo e alma.

     Na semana seguinte, o chefe iria recolher a taxa de cada um para fazer a inscrição de todos. Só ficariam sem ir quatro escoteiros, pois eram férias escolares e eles iriam com seus pais para outras plagas. Quando acabou a reunião, Gino foi com alguns amigos ate a quadra onde dois times de basquete estavam disputando um campeonato. Era o esporte preferido dele. Quase não jogava. Quando podia entrar na quadra ele demonstrava ser um perfeito conhecedor das regras e de tudo que se fazia ali.

      Viu seu pai chegando. Assustou. Outra vez pensou? Já havia meses que ele não bebia. Tinha prometido parar. Mas não era o que pensava, não estava bêbado. Seu pai o procurava. Sua mãe estava muito mal no pronto socorro. O medico tinha dado uma receita enorme. Na farmácia do posto de saúde não tinha nada. Sabia do sacrifício que ele tinha feito para conseguir a quantia da viagem. Ele não sabia o que fazer, falou com Gino que não tinha onde conseguir. Ele era sua única esperança. Tinha de comprar os remédios. O mundo de Gino caiu sobre ele. Ele amava sua mãe. Não iria negar nunca. Foi com o pai e deu toda sua economia. Oitocentos reais. Seu sonho acabou. Jamboree, adeus! Gino não chorou. Sua mãe valia muito mais que um sonho.

     Durante cinco dias sua mãe ficou entre a vida e a morte. Seu pai vendeu uma pequena serra elétrica de madeira, tinha duas, precisava dela, no entanto o dinheiro acabou. Ele precisava de mais. Vendeu por nada. Um preço muitas vezes inferior ao valor real. O médico do bairro veio duas vezes. Uma pequena fortuna ele cobrava. Gino não saiu da cabeceira de sua mãe. Na quinta feira, ela sorriu. Gino e seu pai sorriram. Ela estava melhorando, até levantou para fazer o almoço. O sorriso de sua mãe foi um balsamo para a tristeza dele. Tentava esquecer o Jamboree. Tinha de esquecer. Agora era esperar eles voltarem e contarem como foi. Fotos, programas, e Gino ia sorrir como sempre fazia e chorar depois.

     No sábado, a reunião foi interrompida para que o Diretor Técnico explicasse como ia ser a viagem e receber dos que ainda não tinham pago a taxa. Gino ficou calado quando o chamaram. O chefe insistiu. Pela primeira vez ele mentiu. Não mentia nunca. Para ele o escoteiro tem uma só palavra. Ele não tinha duas, sempre fora leal. Agora não. Chorou por dentro quando mentiu. Disse que tinha uma infecção intestinal, não podia viajar. O medico proibiu. Não falou mais nada. Sua garganta estava engasgada. Não saía voz.

      Gino foi para casa pensando como a vida era ingrata. Claro, aceitava. Afinal entre a vida de sua mãe e o Jamboree ele ficava com sua mãe. Mas estava amargurado. Não ia chorar. Não podia. Não ia resolver nada. Sonhou tanto com esse Jamboree e o sonho morreu. Pensou consigo mesmo, afinal ainda tenho uma vida pela frente, haverá outras oportunidades. Chegou em casa e tentou sorrir para sua mãe e seu pai. Um sorriso amargo. Tentou fingir, não deu. Foi para seu quarto e chorou. Chorou muito. As lágrimas não paravam de sair. Sua mãe desconfiou e foi até lá. O abraçou e chorou com ele.

        O dia amanheceu. Um lindo sol no horizonte. Os pássaros cantavam nas árvores próximas. Uma brisa gostosa refrescava aquela manhã. Era sábado. Dia em que todos iriam partir para o Jamboree. Gino ficou na janela. Tentando ver em sua mente, a alegria de todos na partida. As canções, o ônibus, sorrisos em profusão. Estava taciturno, calado, mudo. Não chorava mais. Não adiantava. Bola para frente dizia consigo mesmo. Mas era tapear seu coração que doía de uma maneira terrível. Deus dizia daí-me força. Vai ser difícil sair dessa fossa.

      Gino foi para o quintal. Tinha uma mangueira frondosa que ele gostava de sentar na sombra e imaginar tudo que um dia poderia fazer. Ali era onde sonhava. Pensou que logo passaria para os seniores. Lá tinha certeza que iria fazer tudo de novo. Ele seria maior, conseguiria um emprego e não ia perder mais nenhuma atividade nacional. Sonhou que poderia ir em um Jamboree mundial em outro país. Sonhar... Como é bom sonhar. È barato, de graça, não custa nada e muitas vezes conseguimos nesses sonhos tudo que gostaríamos de realizar.

      Gino dormiu encostado ao tronco da mangueira. Agora ele sonhava. Viu anjos, viu nuvens brancas, viu um velhinho de barbas brancas sorrindo para ele e dizendo: - Você vai conseguir. Voce vai conseguir! Não desanime meu filho. A vida é bela. Sabe meu filho, o fantástico da vida é saber fazer de um pequeno momento, um instante de um grande momento. Aprenda que o importante na vida não é o que você tem e sim o que você pode conseguir. Se a felicidade não entrar pela porta não tem problema. Fica um pouco com a tristeza e depois mande ela embora. O velhinho sorriu e desapareceu.

     Era um belo sonho, mas Gino acordou assustado com uma buzina de um ônibus. Levantou esfregou os olhos e viu seu pai sua mãe e o chefe da tropa com eles. Eles sorriam e diziam, vá se preparar meu filho, você vai para o Jamboree! Incrível! Espantoso! Ele não estava acreditando. O chefe da tropa contou que todos se cotizaram.  Souberam do seu ato de grandeza. Um escoteiro assim não ia ficar para trás. Gino deu um salto. Gritou alto. Viva! Ainda tenho sonhos e eles estão sendo realizados.

     Gino correu. Foi ao seu quarto. Vestiu o uniforme. Olhou-se no espelho. Gostou do que viu. Sorriu para se próprio e gritou – Jamboree me aguarde, aqui vou eu! E dava belas gargalhadas. É a vida é assim mesmo. Voltas daqui, voltas dali e as surpresas acontecendo. Algumas muitas vezes não agradáveis, mas outras estupendas.

      Descrever a alegria de Gino na chegada, ver tantas delegações chegando também. Gritos alegres, canções nunca ouvidas. A inscrição, os abraços, os comprimentos. Eu? Sou de Mira Flores e você? E assim ia. Canadá, Estados Unidos, México, Inglaterra, muitos países. Gino nunca soube quantos. Quando do último dia, os olhos de Gino encheram-se de lagrimas. Desta vez de alegria. Uma grande cadeia da fraternidade. Cantada em vários idiomas.

     O ônibus, a chegada, a mãe e o pai esperando. Gino gritando – Mãe! Consegui! Fui no Jamboree! Mãe, oh mãe, me abrace, sou o menino mais feliz do mundo! Seus pais choravam de alegria. É. Gino conseguiu. Ficou marcado para sempre em sua vida. Não importava agora se podia ir ou não em outros. Seu sonho foi realizado. Ele pensava e dizia em voz alta – Eu não fiquei olhando a montanha. Eu a escalei. Vi o outro lado. Gino sabia. A chave da felicidade é sonhar. A chave do sucesso é fazer dos sonhos a realidade. O mais importante na vida não é o triunfo, mas a luta para alcançar.

      Este é o nosso movimento escoteiro. Algumas histórias com final feliz. Todos gostam mais dessas. Mas as tristes existem. E pode estar ao seu lado. Quem sabe existe um Gino em sua tropa? Faça dele também uma pessoa feliz.  Não pense só em si, no seu sucesso, na sua alegria. Todos gostam de contar o que sentiram, mas tem aqueles que nunca poderão sentir o que não viram. Antes de programar uma aventura, pare, veja e olhe. Será que não tem nenhum Gino por aqui?

E quem quiser que conte outra.

"Afogue a tristeza nas ondas da alegria;
Enxugue as lágrimas no manto do sol e faça brilhar um sorriso nos lábios.
 A boca que vive a chorar desaprende a sorrir."




Obs. Uma leitora me alertou que uma frase aqui colocada, pertence a
 um poeta que não foi citado. A citação Afogue as tristeza nas ondas
da alegria seria de Inácio Dantas do blog http:/inaciodantas.blogspot
.com. Minhas desculpas.