Histórias e contos escoteiros.

Histórias e contos escoteiros.
Feitas para você se divertir!

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

OS SENIORES, OS CHEFES, AS AUTORIDADES, A LAMBANÇA E O TIRO DE GUERRA



Os seniores, os chefes, as autoridades, a lambança e o Tiro de Guerra.

Não sei se devia contar. Os sisudos do escotismo que me leem podem não gostar. Paciência. Só não viveu quem não tiver feito alguma lambança gostosa para contar.  Eu quando lembro dou enorme gargalhadas e daria minha vida para voltar novamente ao passado, risos. Toda vez que me lembro destes fatos que aconteceram me vem à lembrança a piada já velha e conhecida: Mas escorpião disse o peixe no meio do rio, você me picou! Prometeu que não ia fazer. Disse que não sabia nadar, agora vamos morrer os dois! – Paciência meu amigo peixe. Faz parte da minha sina! Risos.

Duas lambanças, ou melhor, lembranças. Tem mais. Mas hoje só essas duas. Um dia quem sabe conto outras. E acreditem se quiser. Risos.

Primeira – Conselho Regional, 1973, cidade do interior de Minas Gerais. Mais de cento e cinquenta escotistas e diretores presentes. Sábado onze da noite. Trabalhos do dia encerrado. Voltamos ao hotel a pé, estava eu minha esposa, o Escoteiro Chefe (sempre comparecia) sua esposa, um juiz de direito, um médico, três dentistas (estes nunca faltam no escotismo) um coronel do exército, e vários escotistas da plebe (risos, uns pobres coitados como eu). Em dado momento a turma andando no passeio junto a um muro, avista lindas e soberbas goiabas.

Noite de lua cheia. Goiabas enormes. Junto ao muro, dezenas de pés carregados de gostosas e apetitosas goiabas. Na frente uma saliência próxima ao muro. Todos subiram. Encheram os bolsos de goiabas. Enormes, maduras, divez (semi-maduras, assim eram chamadas na época.). O dono vê tudo, chama a policia. Chegam o sargento e dois soldados – Desçam todos! Estão presos! Vamos descendo. Eu, o Escoteiro chefe, o juiz de direito, o médico, o coronel do Exército, os dentistas, as mulheres, a plebe e os últimos assustaram o sargento. Padre Mello? (o padre da cidade) O Senhor Também? E o Sr. Dr. Marins? (o vice-prefeito da cidade).

Todos riram. Os ladrões de goiabas foram para o hotel. Outros para suas casas. O Conselho continuou no domingo. Antes do encerramento o proprietário do lote onde estavam às goiabeiras veio pedir desculpas. – Olhem, falou, quando tudo terminar estão convidados a apanhar quantas goiabas quiserem, claro desta vez pela porta da frente!

Segunda – 1957. Patrulha Sênior, éramos seis. Um acampamento de três dias. Sexta, sábado e domingo. Levamos tudo em nossas bicicletas. De manhã observamos que um pelotão do Tiro de Guerra (unidade do exército que existia e acho que ainda existe nas pequenas cidades) estava montando barracas a uns quinhentos metros onde estávamos. (bem próximo ao Rio Doce). O Arlindo achou à tarde na beira do rio, uma enorme (grande mesmo) abobora amarela. Precisou da ajuda de outros dois para levá-la até ao acampamento.

Não sei quem deu a ideia, mas o Arlindo ficou mais de duas horas limpando por dentro após fazer uma tampa e depois na frente e atrás cortou como se fosse uma gigantesca feiticeira de duas faces, de dentes enormes e olhos arregalados. Ele mesmo preparou tudo. Quatro velas bem postas, muitas folhas verdes em volta e com cuidado eu mesmo nadando a levei até o meio do rio, com as velas acesas e a fumaça saindo por todos os lados.

Foi à conta, quando a abóbora passou pela área do Tiro de Guerra (por volta das onze e meia da noite) o sentinela levou o maior susto. Passou a atirar a torto e a direito e gritava – O capeta! O demônio! O diabo! Socorro! Vieram outros. Armados (Fuzil Mauzer, modelo 1908) e também começaram a atirar. Soldados correndo para todo o lado. O tiroteio só parou quando o sargento Martinho mirou e acertou uma bala bem no centro da abobora que se despedaçou.

No sábado seguinte, estávamos em reunião quando o Capitão Leopoldo do Tiro de Guerra pediu ao chefe para falar conosco. Um medo danado. Formados em linha, em posição de sentido, os seis bravos escoteiros seniores tremiam como varas verdes. O capitão fez uma pequena inspeção nos uniformes, nos olhou, pensou e falou: 

- Então são vocês, seis merdinhas escoteiros que botaram o Exército Brasileiro para correr? E começou a rir desbragadamente. E não parou de rir até que toda a Patrulha parou de tremer e a rir também. A cidade comentou por muitos e muitos anos.

E como digo no final das minhas historias,

E quem quiser que conte outra.




quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

O DIA QUE LEO MARCONDES RECEBEU SEU CRUZEIRO DO SL


O dia em que Leo Marcondes recebeu seu Cruzeiro do Sul
A suprema felicidade da vida é a convicção de ser amado por aquilo que você é; ou, mais corretamente, de ser amado apesar daquilo que você é.
Victor Hugo

                  Leo Marcondes estava sorrindo. O sorriso de um vencedor. Toda a Alcatéia sorria com ele. Lilian, a Bagheera, foi lhe dar um forte abraço. Sussurrou no seu ouvido – Leo estou orgulhosa de você! Eu sabia que você ia conseguir. Lembra-se do que lhe disse? Mas, olhe, foi seu esforço. Seu único esforço para agora ostentar o mais alto distintivo dos lobinhos. Rosaldo, o Baloo, também foi lhe dar um abraço. Sorriu. – Parabéns, Leo Marcondes! Seu desafio foi vencido. Ainda terão outros na vida, mas, um, você lutou e conseguiu.

                 Foi um sábado de festa na alcateia. Não era uma conquista comum. Todos sabiam disso. Lembravam-se quando, há três anos, Leo Marcondes adentrou na alcateia. Ninguém acreditava que ia dar certo. Não foram contra, nada disso, mas acharam que o grupo escoteiro não estava preparado. O assunto foi levado ao Conselho de Chefes e a discussão entrou noite adentro. Finalmente aprovaram a entrada de Leo Marcondes. Ufa! Ainda bem. Ele e os chefes de lobinhos provaram que o escotismo pode resolver e pode dar uma nova formação a jovens como Leo Marcondes.

                Mas, afinal, o que Leo Marcondes tinha de especial? Ele era portador da Síndrome de Down. Dona Etelvina, sua mãe, uma pobre faxineira que nada entendia disso, assustou-se quando os médicos lhe disseram quando Leo Marcondes nasceu. Tentaram explicar-lhe o que ela deveria fazer para criar Leo Marcondes. Mas ela olhava e balançava a cabeça. Não entendia nada. As palavras dos médicos só a confundiram. Dona Etelvina ficou grávida do seu antigo patrão que não quis assumir nada.

                Ela nunca casou. Seu patrão mandou-a embora e ela não se intimidou. Conseguiu que uma creche tomasse conta de Leo enquanto trabalhava. Mas lá ninguém se preocupou com Leo. Um dia apareceu uma assistente social e achou um absurdo Leo ficar misturado com outras crianças que não tinham nada a ver com ele. Foi preciso muito choro e pedidos chorosos para ele continuar. Dona Etelvina conhecia um vereador que a ajudou. E assim o tempo passou.

                Quando ele fez sete anos, não havia uma escola para matriculá-lo. Todos diziam a mesma coisa – Não estamos preparados. Arlete ficou sabendo através de uma amiga em cuja casa dona Etelvina fazia limpeza uma vez por semana. Arlete era a Akelá de uma alcateia de lobinhos e lobinhas. Arlete procurou conhecer o que era a Síndrome de Down. Não era um bicho de sete cabeças. Fora a aparência facial, o portador podia desenvolver quase todas as atividades normais de um menino comum.

                Claro, em alguns casos poderia haver um retardo mental leve ou moderado. Mas, dificilmente acontecia em que todos pudessem ter um retardo mental profundo. Arlete se informou junto a médicos que conhecia. Disseram a ela que as crianças portadoras encontravam-se em desvantagem em níveis variáveis face às crianças sem a síndrome. Ela não sabia se Leo Marcondes tinha alguma anomalia que poderia afetar seu sistema corporal.

               Estudou diversas características que somente um profissional na área poderia dar a ela a certeza de que Leo Marcondes poderia ser introduzido na alcatéia. Rindo vocês? Não. Arlete não era fantasiosa. Nunca foi. Leu muito sobre grupos escoteiros que se dedicavam a pessoas portadoras de deficiências especiais. Sempre achou um trabalho formidável. Ali deveriam existir os autênticos escotistas. Não devia ser um trabalho fácil. E agora Arlete pensava em levar Leo Marcondes para a alcateia.

                Muitos acharam uma ideia absurda. O que vão achar os outros lobinhos? Como ele fará para acompanhar o crescimento de todos na alcateia? Eram somente senões. Ninguém para dizer: – Ótima idéia! É sempre assim. Muitos só enxergam as dificuldades. Não foi preciso um fonoaudiólogo e um terapeuta para ver se a articulação e os sons de fala de Leo Marcondes prejudicavam sua maneira de ser. Quando o conheceu ela sentiu uma enorme amizade e admiração por ele.

              Lembrou que tinha lido sobre o preconceito e o senso de justiça com relação aos portadores da Síndrome de Down no passado. Mas será que isto não existia também no presente? Afinal ela sabia que muitos deles se desenvolveram muito bem na escola e deixá-los fora do convívio social era um verdadeiro absurdo. Lembrou também que em seus doze anos no escotismo, não viu quase ninguém portador de deficiência física. Por quê? Só em grupos especiais? Mas, quantos desses grupos seriam hoje e onde estariam localizados?

              Acreditou que seu grupo escoteiro seria o primeiro. Iria fazer tudo para que Leo Marcondes se desenvolvesse como os outros suas tarefas e habilidades. Sabia que seria uma situação nova para ele e que iria necessitar de muitas instruções verbais e visuais. Só assim ele iria consolidar seu conhecimento. Entendia perfeitamente que crianças com Síndrome de Down devem ser reconhecidas como são e não como gostaríamos que fossem. As diferenças deveriam ser vistas como ponto de partida e não de chegada na educação escoteira. Se necessário, seriam desenvolvidas estratégias e processos cognitivos adequados.

              Não teve mais dúvida. Convenceu a dona Etelvina de que seria muito bom para Leo Marcondes. Não só agora, mas para toda a sua formação, visando uma vida adulta como qualquer um dentro de nossa sociedade. Só não esperava as dificuldades encontradas em seu próprio grupo. Mesmo conversando com o Diretor Técnico, com diversos chefes e diretores eles só tinham dúvidas. Exceto seus auxiliares na alcateia, ninguém para lhe dar um “tapinha” nas costas e dizer – Parabéns, vá em frente! Conte comigo!

              Não foi fácil convencer toda a chefia do grupo. Finalmente, aceitaram com reservas. Ela sabia que o apoio de um estabelecimento de ensino, fosse público ou privado com programas de intervenção não existia na cidade. Sabia que a educação e experiência escolar ajudariam e muito a desenvolver em Leo Marcondes sua própria identidade, para além dos limites do lar. Sabia que seria difícil mesmo, Leo Marcondes não havia recebido nada disso.

            Arlete já tinha tomado sua decisão. Ela iria lutar para que os resultados fossem demonstrados aos professores dele que nada fizeram e principalmente a sua mãe, cujo sacrifício nunca teve limitações. Isso mesmo! Convenceu uma amiga diretora de um colégio que o admitisse. Era como ela, uma batalhadora.

                Conversou por muito tempo com Rosaldo e Lilian. Seus assistentes na alcateia. O apoio deles seria importante, pois sabia que o cuidado que deveriam ter com ele seria bem maior que com os demais lobos. Juntos, leram muito sobre tudo. Como poderiam ajudar a evoluir, a tornar-se independente e, claro, ser tratado da mesma forma que tratavam os lobinhos? Dona Etelvina teve medo. Convenceram-na de que Deus iria ajudar. E então planejaram e montaram seu programa. Agora era mãos a obra.

                Não foi fácil. Não foi mesmo. Leo Marcondes no primeiro dia ficou com medo de todos. Emburrado em um canto, não queria se enturmar. Lilian ficava com ele contando como era, sorria e ele nada. Fechado em si mesmo. Nas cinco primeiras reuniões quase chegaram a desistir. Sempre foi preciso que dona Etelvina estivesse junto. Se não ele chorava e emburrava. Mas a nossa sorte estava nas mãos de Mirtes. Sim. Uma lobinha. Alegre, espevitada, gritava, cantava e como fazia amigos! No segundo dia, ela foi até Leo Marcondes. Ele a olhou de soslaio.

               Na quarta e na quinta reunião, ele já acompanhava Mirtes. Na sexta, ele ficou por meia hora em sua matilha. Os chefes se abraçaram. Achavam que o caminho estava sendo aberto e, olhe, graças a ela, Mirtes. Quem diria! Na oitava reunião ele ficou o tempo integral. Até procurou o Baloo Rosaldo, dizendo que queria o uniforme. Rosaldo disse que o grupo escoteiro iria adquirir, mas ele teria que se esforçar mais nas etapas. Só assim poderia fazer a promessa e vestir o uniforme. Leo Marcondes não entendeu. Não queria saber disso – Quero o meu uniforme! Gritou.

              De novo pediram ajuda a Mirtes. Ela disse que iria ajudá-lo. Dizem que a suprema felicidade da vida é ter a convicção de que somos amados. Arlete sabia disso. Ela via desabrochar o amor de Leo Marcondes por Mirtes. Claro com o tempo este amor foi estendido a ela os seus assistentes. Quatro meses depois resolveram tomar sua promessa. Rosaldo ficava horas com ele tentando ensinar. Ele abaixava a cabeça e começava a cantar. Mas Rosaldo não desistiu. Um dia Mirtes falou que ele já sabia a Promessa do Lobinho.

              Foi uma festa. Nada de uniforme doado. O Diretor Técnico através dos fundos do grupo mandou fazer um uniforme novo para ele. Pensou em convidar todas as seções para assistir, mas isto não era rotina. As promessas eram feitas só pelas seções e convidados, a critério da chefia da alcateia. Mesmo assim, eles perguntaram a Leo Marcondes o que ele achava. Ele não entendeu muito bem e balançou a cabeça concordando. Perguntaram a Mirtes e ela sorriu dizendo que seria maravilhoso.

              Todo o grupo escoteiro estava presente. Mais de 120 membros. Ali, reunidos em uma grande ferradura para assistir a promessa de Leo Marcondes. Os chefes da alcateia ficaram com medo de que, na hora, Leo Marcondes mudasse de ideia. Chorar, sair correndo e preveniram a todos que se isso acontecesse tudo bem. Nada de espanto. Dona Etelvina não cabia em si de contente. Leo Marcondes foi convidado para dirigir o Cerimonial de Bandeira.  Nunca um lobinho havia dirigido.

                Leo Marcondes foi convidado para proferir a oração. Ele olhou para baixo e sua fala saiu baixa, quase inaudível – “Senhor, senhor, senhor, ajuda todo mundo!” Olhou para Mirtes e sorriu. Mirtes foi correndo abraçá-lo. Ficou sem graça depois que olhou para todos os presentes. Voltou para sua matilha. Arlete estava emocionada. Muito. Seus olhos cheios de lágrimas. Claro, Rosaldo e Lilian choravam mesmo. De soluços. Mas quem podia aguentar aquela emoção? E olhem, foi maior ainda a promessa.

               Arlete chamou o primo de sua matilha e pediu para ele apresentar o novo lobinho que iria fazer a promessa. Claro, era Mirtes. Um sorriso grandioso quando foi à frente junto com Leo Marcondes. Feita a apresentação e Arlete explicar a Leo Marcondes o que era a promessa ele a interrompeu. Ficou em posição de sentido e fez a meia saudação do lobinho dizendo: – Prometo, eu prometo, prometo mesmo, fazer o melhor, sim melhor, melhor e melhor, para cumprir deveres de Deus e a pátria. Já aprendi a lei do lobinho e garanto a todo mundo que vou fazer muitas boas ações!

               Incrível! Uma promessa dita à viva voz, à sua maneira, mas com todos os objetivos propostos! Leo Marcondes estava marcando para sempre todos os presentes. Uma salva de palma escoteira explodiu na ferradura. Leo Marcondes assustou-se. Arlete ficou preocupada. Mas, não. Leo Marcondes se abaixou e disse – Grato e grato e muito gratíssimo. Bem, depois disso foi uma festa, mesmo Arlete não querendo, os primos, monitores, chefes, seniores e porque não até eu corremos em sua direção, o levantamos no ar, bravoo e bravoo!

              Acho que foi o início da virada de Leo Marcondes. Sua mudança foi da água para o vinho. Se sua face não mostrasse quem era nada o diferia dos demais lobinhos. Sua participação em excursões e acantonamentos foi exemplar. Seu aprendizado não foi tão fácil, também não vamos querer tanto, mas, Leo Marcondes em um ano e meio conseguiu sua primeira estrela, daí foi um pulo para a segunda estrela. Mas estava difícil o Cruzeiro do Sul. Ele mesmo achou que ia passar para escoteiro sem conseguir.

             Não aceitava que os chefes da alcateia o ensinassem fora das reuniões, isso já acontecia regularmente. Ele mesmo dizia que era igual a todos. Mas a chefia da alcateia e os chefes sabiam que não. Mirtes de novo salvando a “pátria”. O preparou em tudo. O dia finalmente chegou. Leo Marcondes iria receber seu Cruzeiro do Sul. Não foi tão marcante como foi sua promessa, mas foi uma cerimônia que emocionou muita gente. Desta vez, era norma no grupo que a entrega de Cruzeiro do Sul, Liz de Ouro, Escoteiro da Pátria e Insígnia de BP fosse entregue com todo o grupo presente.

             Melhor ainda, o Comissário do Distrito estava presente para entregar a Insígnia da Madeira a Arlete, Lilian e Rosaldo. Seria uma grande festa. Fiquei triste. Não pude comparecer. No dia programado a minha empresa me mandou com certa urgência ver uma máquina de café que estava com defeito em uma cidade bem distante. Caramba! Que tristeza. Mas pedi ao meu amigo Lourival que filmasse. Quando assisti, meus olhos encheram-se de lágrimas. Leo Marcondes conseguiu. Leo Marcondes venceu. Claro, muitos o ajudaram, mas Leo Marcondes provou que podia ser um e mostrou ser um grande escoteiro.

               Vi o crescimento de Leo Marcondes na tropa. Não conseguiu o Liz de Ouro. Dependia de outros que não entenderam seu esforço. Mas não vale a pena criticá-los. Um dia irão ver que não se decide a vida de um jovem por um processo qualquer. Atrás daquelas páginas de um processo tem muito mais. Tem uma vida, tem um sacrifício, tem um sonho que pode ser quebrado por uma simples recusa. Mas não estamos aqui para isso, e sim para que todos saibam que Leo Marcondes jurou a si mesmo que iria conseguir o Escoteiro da Pátria!

               E Leo Marcondes conseguiu. Fiz questão de mandar por escrito ao distrito e à região. Queria que soubessem que não só aquela alcateia foi vencedora nos seus ideais, mas muitas outras também poderiam ser. Leo Marcondes foi único. Não digo que nasceu para vencer as dificuldades, mas ele sempre foi um vencedor. Soube valorizar a cada passo e aproveitou todas as oportunidades na vida. Um dia soube que ele estava fazendo carreira política. Não entendi bem.

              Disseram-me que se candidatou a vereador e foi eleito com boa margem de votos. Sua luta era em prol daqueles que diferente ele, não puderam ter a oportunidade que lhe deram. Insistiu tanto, que organizou um grupo escoteiro de crianças excepcionais. Não foi fácil. Voluntários já são difíceis, nessa área pior ainda. Conseguiu unir o Padre Geraldo e o Pastor Celso na mesma ideia. O Rotary Club e o Lions Club também deram seu apoio. O grupo tem dois anos. 45 participantes. Cinco chefes. Três moças e dois rapazes. Muitos pais dos jovens que lá estão dão sua colaboração.

               Soube que ele comprou uma boa casinha para sua mãe. Ainda estava solteiro, mas namorava. Dona Etelvina não precisava trabalhar mais. Nada faltava para ela. Leo Marcondes agora era o chefe da família.

              Não são minhas, mas de Aurino Cândido essas palavras – “Vencedor não é só aquele que vence a batalha e sim aquele que se levanta a cada derrota para lutar novamente. Tente sempre até que as ovelhas se tornem leões”. Meus parabéns, meu abraço, meu bravoo a Arlete, Lilian e Rosaldo. E claro, à menina Mirtes, pois, sem eles, nada disso teria acontecido. E essa história não poderia ser contada. Falar na Mirtes, por onde será que ela anda?

E quem quiser que conte outra.

Quando muitos te olharem com pena, desprezo, pensando que você nunca vai ser um vencedor, apenas sorria e conquiste o mundo, pois ele dá várias voltas.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

A LENDA DO ESCOTEIRO FANTASMA!


A lenda do escoteiro fantasma!

Quem tem medo de monstros e fantasmas, não sabe que o maior monstro e fantasma que existe é o medo.

           Fim do ano, último dia de aula. No Ginásio todos aguardavam o debandar. Eu mesmo esperava ansiosamente. Sabia que minhas notas eram boas e não tinha dúvidas que passaria de ano. Logo ao atravessar o portão vi o Romildo. Sempre fora assim. Romildo era o monitor da patrulha Raposa e eu o seu submonitor. Sempre nos encontrávamos na saída. Ele estava na sétima e eu na sexta série. Tínhamos uma rotina que perdurou por muitos e muitos anos. Romildo era meu principal amigo e irmão escoteiro. Anos depois quando casei lá estava ele como meu padrinho.

             Estávamos aguardando o dia e a hora do acampamento da patrulha. Seria nosso grande acampamento de férias. Quanto tempo preparando! Pela primeira vez só a patrulha iria. Acampar sozinhos era para poucos. Foi difícil. Provar que tínhamos condições para a Corte de Honra não foi fácil. Todos nós já tínhamos boas experiências e com exceção do Mateus, os demais patrulheiros tinham somado mais de cem noites de acampamento. Não queríamos ir aos mesmos lugares. Descobrimos por um irmão do Romildo que em Águas Formosas, pouco abaixo de Aimorés tinha um local maravilhoso.

             Seria uma viagem e tanto. Mais de três horas de trem e depois mais duas a pé até a Fazenda Grandes Rios. Disseram-nos que seu proprietário morava na capital e com um telegrama para ele conseguiríamos autorização. Outra época. Nada de distrital ou autorização regional. Bastava o de acordo da Corte de Honra e do chefe da tropa. O mundo mudou. Hoje é necessário. Em menos de dois dias veio à resposta. Fizermos questão de abrir o telegrama junto a todos os patrulheiros na casa do Matheus. Os olhinhos, a esperança, a duvida estava presente em cada um de nós.

             - “Prezados escoteiros da Patrulha Raposa, adorei o pedido de vocês. Estão autorizados, quem sabe vou lá fazer uma visita?” - Gritos, sorrisos, abraços. Corremos até a casa do chefe Jessé. A notícia correu de boca em boca. Os Touros, os Panteras, e os Corujas, vieram nos abraçar. Tínhamos um belo programa. Pelo menos achávamos que sim. Seriam cinco dias. Dias que seriam contados por muitos anos, e lido no Livro da Patrulha eternamente. Acreditávamos que a patrulha seria eterna.

                 Nosso programa era simples. Montar um bom campo de patrulha, se possível com barraca suspensa, um toldo feito de madeirame trançado com folhas verdes. Uma mesa com bancos onde caberia toda a patrulha, uma cadeira para cada um, e um pórtico. Sim desta vez seria um pórtico de pelo menos cinco metros de altura e que fosse visto de longe para quem nos fosse visitar. Nele colocaríamos uma torre de vigia. Tinha que ter mais de oito metros de altura. Acreditávamos que levaríamos três dias para confeccionar tudo.

                 Claro, Romildo adorava semáforos e faríamos alguns jogos utilizando as transmissões a distancia. Nossa duvida era se lá tinha o cipó “trepadeira” que iríamos precisar. Um dos poucos que se podia dar um volta do salteador, ou um volta de fiel. Teria que ter uma utilização para através de cipós finos, fazer um nó de arnês ou mesmo um volta redonda com cotes. Já tínhamos feito em outros acampamentos amarras quadrada ou diagonal. Nossa experiência era muito boa. Naquela época não existia o sisal de hoje.

                  Na quarta feira, lá estava à patrulha na estação da estrada de ferro. Chefe Jessé também estava lá. Deu as ultimas instruções. Nosso saco de intendência era quase completo. Tínhamos quase de tudo. Confiávamos em Lourival (tico tico) nosso intendente. Ele era bom nisso. O trem expresso chegou no horário. Nossas passagens eram gentilmente cedidas pela Companhia da Estrada de Ferro. Sempre fora assim. Fazíamos o pedido por escrito com pelo menos 20 dias de antecedência.

                  Chegamos por volta de onze da manhã. O próprio Chefe da Estação nos ensinou como chegar à fazenda Grandes Rios. Foi uma caminhada gostosa. Beirando o Rio Doce. Três horas e chegamos. O Sr. Gabriel o gerente nos recebeu bem, pois já tinha sido informado de nossa vinda. Ofereceu um pequeno almoço e claro não dissemos não. Ele mesmo nos acompanhou até o local. Disse que quando jovem o Sr. Mario Montes (o proprietário) acampava sempre lá com os escoteiros da capital onde moravam.

                   Era lindo o lugar. Em primeiro plano um pequeno bosque, com grama baixa e logo acima uma grande mata nativa. Um córrego de águas límpidas e transparentes com pequenas corredeiras passava a menos de oitenta metros. Ele nos disse que se seguíssemos acima uns cem metros encontraríamos uma bela cachoeira. Romildo me olhou e disse – Acho que dá para trazer água ao nosso campo de patrulha. Ri, pois sabia que ele sempre sonhara com isso. Colocamos mãos a obra e nosso campo já dava para passar a noite. Um pequeno fogão tropeiro, e nosso sopão sairia fácil nas mãos de Nildo (fumanchú). Ele para mim era um cozinheiro fora de série.

                   Anoiteceu, jantamos e ficamos em volta de uma pequena fogueira. Logo o sono apareceu e fomos dormir logo. Estávamos cansados da viagem. No segundo dia começamos a desenvolver nossas pioneiras. À tarde já tínhamos a barraca suspensa. Também o toldo mateiro com os bancos e mesa. Resolvemos ir até a cachoeira e olhe linda ela. Um belo remanso. Dava para ver os pequenos peixes que ali habitavam. Um banho, muita alegria e muita diversão e voltamos. A rotina da noite. Fumanchú nos reservou um belo jantar de lingüiças fritas, uma farofa com ovos e um pão para cada um.

                   No terceiro dia uma bela surpresa. O Sr. Mario Montes o proprietário veio nos visitar. Uma pessoa alegre e simpática. Ficou conosco por pouco tempo e prometeu voltar à noite. Acreditem, seria melhor ele não ter voltado. Tínhamos acabado de jantar quando ele chegou. De uniforme! O Sr ainda é chefe escoteiro perguntamos? Não ele respondeu. Hoje não mais. Mas achei que devia vestir o uniforme, pois só assim vocês poderiam ter sorte e conhecer ele. – Ele quem? Perguntamos. O Escoteiro Fantasma! Rimos. Ele também riu e disse-nos para acompanhá-lo.

                   Fomos juntos por uns quinhentos metros acima da cachoeira. No caminho ele contou uma historia fantástica. História que ficou marcada para sempre em nossa memória. Quando jovem, um escoteiro amigo seu, caiu de uma árvore perto da ponte Ravina Seca. Caiu de costas nas pedras do riacho. Morreu na hora. Foi um Deus nos acuda! Os pais inconsoláveis. A tropa passou meses sem se reunir. Acampamentos? Nem pensar.

                   O tempo passou. Muitos esqueceram, eu não, dizia o Sr. Mario. Voltamos aos nossos acampamentos aos poucos. Dois anos depois acampamos neste local. Foram quatro dias. Tínhamos um medo enorme. Sempre nos lembrávamos de Nonato (Nonato era o escoteiro que morreu). No ultimo dia quando da realização do Fogo de Conselho um fogo enorme na mata, levantamos correndo, mas a mata não pegava fogo. Nonato apareceu de forma gigantesca. Seu tamanho descomunal foi diminuindo, estava de uniforme e chapéu escoteiro. Sorria e quando abria a boca parecia que fogo azul saia de lá. Seus olhos eram enormes. Chispas de fogo nos dois.

                    Corremos a mais não poder até a barraca. Até o chefe correu. Era outro que não tinha conhecido Nonato. A noite inteira ninguém arriscou a sair da barraca. No dia seguinte levantamos acampamento as pressas. Depois cresci. Fiquei sabendo de algumas historias. Como sênior voltei aqui varias vezes. Nem sempre Nonato aparecia. Um dia vim à noite até a ponte. Lá estava Nonato. Sentado em uma das pedras embaixo dela como se estivesse pescando. Pelas suas costas saiam chispas de fogo.

                    Um ano depois resolvi conversar com Nonato. Falei com a patrulha e eles me deram a maior força só não iriam comigo. Acampamos um pouco afastado daqui. À noite fui sozinho até lá. Afinal Nonato era meu amigo e quando apareceu para nós não nos fez mal algum. Ele estava sentado no mesmo lugar a pescar com uma vara invisível. Aproximei-me e o chamei. Ele se voltou, desta vez não dava para agüentar. Seu rosto não tinha mais carne, só ossos. Tremi e já ia sair em disparada quando ele falou baixinho. – Não vá! Preciso de um amigo!

                   Contou-me uma historia que não vou repetir para vocês para não impressioná-los. Mas entendi o porquê ele permanecia ali. Só conto a vocês que ele só fica lá quando alguém acampa neste local. Romildo me olhou e não gostei do seu olhar. Olhei para Fumanchú e os demais da patrulha. Não éramos heróis e nem valentes. Não estava gostando desta historia. Mas o seu Mario foi muito simpático e não podíamos negar isso a ele. Chegamos. Ninguem na ponte e nem na pedra pescando.

                    Já íamos voltar quando seu Mario mandou esperar. Lá na curva da estrada estava vindo cantando e assoviando nada mais nada menos que o Nonato. Olhe, quando se aproximou seu rosto estava normal e afável. Soltava algumas faíscas pelos olhos e fumaça em suas orelhas. Assustador mas dava para agüentar. Seu Mario nos apresentou e ele quis saber o nome de cada um na patrulha. Romildo disse. Ele não pegou na mão de ninguém. Nem podia. Suas mãos estavam vermelhas como brasa.

                    Ele sorria. Disse que nos viu chegar e durante todo o tempo ficou ao nosso lado. Só não apareceu, pois materializava o corpo durante a noite e só próximo a ponte da Ravina Seca. Ele amava o escotismo. Infelizmente onde morava não tinha nenhuma tropa para ele entrar. Claro disse, é gente boa, mas tenho saudades. Estávamos todos de olhos arregalados. Todos juntos uns aos outros. Nonato disse para não nos preocuparmos, ele não podia fazer mal a ninguém.

                    Voltamos para o acampamento. Nonato ficou. Seu Mario dizia que ele estava junto, mas não podíamos vê-lo. Tremíamos. Chegamos e seu Mario se despediu e se foi. Era quase meia noite. Corremos para a barraca. Acho que todos como eu custaram a dormir. Um medo incrível mesmo sabendo que o jovem Nonato disse que não precisamos ter medo dele.

                   A patrulha no dia seguinte em reunião decidiu continuar. Voltar? Não era um bom programa. Afinal tínhamos planejado muito. Não deu para fazer tudo que queríamos. Estávamos sobressaltados. À noite então, dormíamos cedo. Escurecia e nós “pimba” na barraca.  No ultimo dia após o arreamento da bandeira, já com todo o campo desmontado avistamos Nonato a uns cem metros. Dizia-nos sem gritar que não era mais que um até logo, não era mais que um breve adeus, pois bem cedo nos encontraríamos de novo da Ponte da Ravina Seca.

                  Não disse nada, mas nem pensar. Nunca mais voltaria ali. Pobre Nonato. Não sei se teve oportunidade de ver outros escoteiros acampando lá. Contamos para as outras patrulhas. Riram. Desta vez vocês se superaram, disseram. Nós já imaginávamos isso. Sabíamos que ninguém iria acreditar. Até que os Panteras resolveram ir. E foram. Encontraram Nonato.

                Disseram que fizeram amizade com ele. Agora participava da patrulha e não parecia ser um fantasma. Mas só durante o dia. Quando a noite chegava, seu rosto desfigurava, sua pele caia, chamas vermelhas saiam pelos seus olhos. Era uma visão dos infernos, mas dentro um coração (não sei se tinha) de um grande menino. Outras patrulhas lá se dirigiram. Houve até um acampamento distrital.

                A lenda do escoteiro Fantasma nunca foi esquecida. Quinze anos depois ele desapareceu. Todos que iam a sua procura não o encontraram. Nenhuma explicação. Acredito que Nonato achou seu caminho do Grande Acampamento. Olhe, se você que está lendo e um dia acampar perto de uma ponte de madeira, vá até lá à noite. Quem sabe você vai encontrar Nonato e ficar seu amigo e olhe não se assuste com as chamas de fogo em suas costas e em seus olhos. Se ele soltar fumaça tenha calma. Não é nada demais.

                 Hoje, passado muitos anos eu não esqueço essas historia. Sei que vão dizer que é uma invenção, apenas um conto. Paciência. Não quero provar nada. Não há necessidade. Afinal não fui o único, muitos outros viram Nonato pegando fogo. Aprendi a gostar de Nonato. Gostaria de encontrá-lo novamente. Quem sabe um dia acampando por aí, dou de cara com ele?

E quem quiser que conte outra

Saudade, sombra, fantasma,
coisa que bem não se explica:
algo de nós que alguém leva,
algo de alguém que nos fica.


terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

A ESCOTEIRA GIGI, O ROUXINOL DA MONTANHA


A escoteira Gigi, o rouxinol da montanha

Longe um trinado.
O rouxinol não sabe
que te consola.
 "Se você ama a música a ponto de servi-la humildemente, o sucesso acontecerá automaticamente”
– Maria Callas

                      Quando nasceu Maria Eugenia não chorou. Os médicos estranharam. Ela os olhava com seus lindos olhos verdes bem abertos. Quando a colocaram junto à mãe, ela sorriu. Incrível! Gigi falou as primeiras palavras aos oitos meses e com nove já andava pela casa toda. Mas a surpresa maior foi quando ela fez dois anos. Ouvia musicas junto aos seus pais e cantava. Uma linda voz, mas ainda em fase de desenvolvimento. Gigi foi crescendo e quando fez seis anos seus pais se assustaram. Gigi não era uma boa aluna. Só mesmo uma cantora excepcional.

                     Seus pais eram pessoas humildes. Sem posses, mal uma casinha simples na periferia da cidade. Ela convivia com meninas da sua idade, mas tão pobre como ela. Dificilmente os pais podiam comprar um presente para ela no natal. Mas nunca deixaram de dar, sempre um presente simples. Gigi não se importava. Gostava de sentar na frente de sua casa e com as amigas ela cantava, todos calavam e ficavam de olhos e ouvidos fixos em Gigi. Ainda cantava musicas comuns.

                     Quando fez sete anos, viu na escola uma menina de uniforme e ficou encantada. Perguntou o que era e soube que ela era lobinha. Encantou-se. Queria ser uma delas. Sua mãe uma simples lavadeira nem entendeu direito seu pedido. Seu pai, um pedreiro sem emprego, trabalhando como diarista tentou dissuadi-la. Não conseguiu. Ela não chorava, sabia de sua condição humilde, mas tanto falou que sua mãe e seu pai um dia de sábado vestiram suas roupas de ir à missa. As melhores que tinham e a levaram ao Grupo Escoteiro.

                      Seus pais se sentiram um peixe fora d’água quando chegaram ao Grupo Escoteiro. Em um canto do pátio observavam tudo até que um chefe bem educado os procurou. Explicaram o porquê estavam ali. Deixaram bem claro suas condições financeiras. Nunca poderiam arcar com despesas se ela fosse aceita. O chefe Carlos foi calmo e sorrindo explicou que não se preocupassem. O Grupo Escoteiro tinha uma verba para ajudar aos jovens mais pobres. Mas que para isso eles deveriam também estar presente a vida do grupo, para qualquer tarefa. Quais eles seriam cientificados posteriormente.

                        Um mês depois Gigi foi apresentada a Alcatéia Seeonee. Foi o dia mais feliz para Gigi. A princípio a Akelá a achou meio “sapeca”. Não levava a serio sua matilha. Alguns meses depois Gigi se transformou. Nelsinho o primo da matilha era um dos seus melhores amigos. Infelizmente Nelsinho não ficou muito tempo. Seus pais mudaram da cidade. Foi nesse dia que descobriram na Alcatéia a voz que Gigi tinha. Ela cantou sozinha a canção da Despedida. Não houve quem não chorasse. Baloo sorriu e disse para Bagheera em seu ouvido – “Incrível! Será uma das maiores cantores do nosso país.”
   
                        Mas Gigi se revelou mesmo quando a Alcatéia foi ao parque municipal, em um domingo ensolarado. Quando das brincadeiras e desenvolvimento da reunião especial, deram falta de Gigi. Encontraram-na próximo ao anfiteatro ao ar livre. Uma orquestra sinfônica fazia uma apresentação com vários cantores. Acredito que foi a primeira vez que Gigi ouviu alguém cantando Tosca, de Giacomo Puccini. Ela estava de olhos arregalados e pediu a Akelá que esperasse até a música acabar.

                        Não sei e não posso explicar, mas quando acabou uma salva de palmas explodiu de todos os ouvintes, Gigi começou a cantar a Tosca. Sem orquestra. Como se diz na gíria, a “escoteira”. Um silêncio enorme de todos os presentes. O maestro acorreu mais perto para ver. Pediu para ela subir ao palco, uma estrondosa palma. Gigi não se abalou. Quando o maestro ia agradecer a ela veio outra surpresa. Gigi começou a cantar Madama Butterfly Lib. Incrível! Incrível mesmo! Ninguém agüentou. Emocionados ficaram de pé aplaudindo Gigi.

                         Ela com seu uniforme de lobinha sorria. Linda a Gigi. Linda mesmo a Gigi. Saiu correndo e voltou para sua Alcatéia sem se despedir de ninguém. Os chefes e as chefes da Alcatéia Seeonee estavam mudos. Não sabiam o que dizer. Foram procurados pelo maestro. Explicaram que não eram os pais de Gigi e não podiam tomar nenhuma atitude a respeito. Que ele desse um cartão e eles falariam com seus pais. Gigi a princípio passou a ser olhada de outra maneira. Mas por um ano ela não cantou. Todos esqueceram o dia no parque. Entregaram o cartão aos pais de Gigi, mas eles acharam prudentes não fazer nada.

                         Ao fazer dez anos, a Alcatéia participou de uma grande atividade do distrito e da região. Mais de quinhentos lobinhos presentes. Cada Alcatéia deveria fazer uma apresentação no ultimo dia. Não seria por matilha, seria por Alcatéia. Dez minutos no máximo. Resolveram fazer um jogral que sempre faziam na sede. Uma apresentação musical contando a historia da cidade onde moravam. Interessante, parecia que todos da Alcatéia sabiam o que ia acontecer.

                         Ao subir ao palco, todos os lobinhos formados um ao lado do outro. Os demais lobinhos e lobinhas assistentes faziam uma enorme algazarra. Claro, quinhentos e oitenta e cinco lobinhos e lobinhas. Quem daria conta de calar a todos? Gigi tomou a frente da Alcatéia e começou a cantar. A principio ninguém notou, mas o silencio em poucos minutos se fez ouvir. Gigi cantava La Traviata. ACT 1. Linda, uma musica que ninguém entendia, mas interpretada por Gigi todos ficaram maravilhados. As palmas e bis mostram que ela podia cantar mais e como cantou. Norma, Lá Wally, Mefistole, Ebbem. Crianças de sete a dez anos sentindo a musica no coração. O tempo correu, Gigi parou e desceu o palco correndo como sempre o fazia.

                           Todos os chefes de lobinhos e lobinhas não sabiam o que fazer. Em coro os lobinhos gritavam – Gigi! Gigi! Gigi! Era incrível mesmo. O tempo passou. Gigi fez a trilha escoteira. Chorou muito quando foi para a patrulha Touro. Não queria. E pouco tempo se acostumou. Em pouco tempo aprendeu a gostar de sua nova vida. Agora era uma escoteira e adorava os acampamentos, excursões e todas as atividades da tropa. Uma nova vida, e não gostava muito quando insistiam para ela cantar. Achava que o tempo era para aprender técnicas escoteiras, fazer boas ações, viver em plena natureza.

                             Gigi adorava deitar na relva e olhar o céu em uma tarde qualquer quando estavam acampadas. Lorena sua monitora uma vez perguntou por quê. Ela custou a responder e disse. Encontro-me no céu. Lá vejo musicas que não conheço. Alguém as dita para mim. Não sei quem é. Nunca vi seu rosto, nem sei sua voz. Vem em forma de sussurros na minha mente. Para sua surpresa seus pais comentaram com ela que tinham recebido um convite de um grande maestro para um teste na orquestra sinfônica da cidade. Gigi não deu muita importância. Nunca se mostrou entusiasmada com convites. Cantava por cantar.

                             Seus pais com as roupas domingueiras levaram Gigi ao teatro Municipal em uma quarta feira à noite. Gigi insistiu em ir de uniforme escoteira. O que aconteceu foi o normal. Todos abobalhados com Gigi. Não podiam acreditar que uma menina (ela já estava com catorze anos) como aquela poderia ser uma copia fiel de Maria Callas. Alguns chegaram a dizer que seria mais famosa que Maria Bárbara Júdice da Costa, ou mesmo que Emma Shaplin ou superior aos homens. Achavam que nem Enrico Caruso se fosse vivo poderia se igualar.

                              Fizeram um contrato. A principio queriam tempo integral. Gigi foi elegante, mas exigente. Minha participação do Grupo Escoteiro não seria abandonada. Não poderia participar de nada da orquestra quando fosse fazer as atividades escoteiras. Para isso ela traria sempre o programa anual para eles. O sucesso explodiu na vida de Gigi. Aos dezesseis anos já participando da tropa de guias, ela foi ao exterior. A orquestra fez um giro por países sul-americanos e onde passavam Gigi era ovacionada de pé por todos. No Teatro/ópera do Chile Gigi se superou. Ao cantar Lá traviata, o teatro veio abaixo. O público aplaudiu por dez minutos seguidos. Os pedidos de bis evocaram pelo anfiteatro.

                             Jornais do mundo inteiro ficaram sabendo de Gigi. Interessante. Na ultima musica apresentada, ela fazia questão de vestir seu uniforme de escoteira. O maestro ria e não se importava. Isto dava uma nova figuração à apresentação. Em sua turnê por Nova Iorque Gigi se apresentou no Orpheu Theatre por duas semanas. A Boy Scout soube que se apresentava de uniforme e comentou em seus boletins e emails a todos os Grupos Escoteiros do país. (diferente do Brasil onde os mais novos entram para uma sessão chamada de Iger Cubs e os mais velhos na Varsity Scout).

                            Não havia mais ingressos disponíveis no teatro durante sua apresentação por duas semanas. Os lideres da Boy Scout procuraram Gigi e o maestro. Combinaram de fazer uma apresentação gratuita no domingo pela manhã, se possível no Conservatory Waty no Central Park onde ao ar livre pudesse reunir o maior numero de escoteiros. Os jornais do outro dia diziam ter participado mais de cem mil escoteiros. A Polícia de Nova Iorque falou que havia menos, uns sessenta mil. Não importa. Gigi impecável no seu uniforme escoteiro cantou Suor Angelica ‘Sister, Mefistofele, Ebbem? Ne andro, Addio Del Passado e Spargi d’amaro pianto. No final cantou Tosca de giacomo Puccine e os escoteiros gritaram entusiasmados aplaudindo. Uma estrondosa palma repercutiu em vários pontos do Central Park.

                             A fama de Gigi se espalhou. Já não era pobre. Ganhava muito. Muito mesmo. Seus pais viviam confortavelmente em uma bela casa em sua cidade. Ma Gigi não estava gostando. Não era bem o que pensou para sua vida. Com vinte e oito anos resolveu parar. Ninguem podia acreditar. A maior cantora lírica de todos os tempos não se apresentar mais aos seus inúmeros fãs em todo o mundo? Foi então que um dia quando estava com seus pais, afastada do palco, recebeu a visita do chefe Carlos, e de muitas amigas que agora tinham crescido e foram com elas lobinhas, escoteiras e guias.

                            Uma delas disse a Gigi que falava em nome de todas. Pediam para ela continuar. Pela primeira vez a juventude se interessava por um tipo de musica. Pela primeira vez a musica clássica ou até a música erudita era apreciada por jovens de todo o mundo e até no Brasil. Afinal era um tipo de musica que é fruto da erudição e não de práticas folclóricas e populares. – Você sabe Gigi, dizia o chefe Carlos, hoje nossos jovens estão vendo o outro lado da musica. Estão aprendendo a gostar de algum que nunca se interessaram.

                            Você com sua voz nos fez entrar em um mundo de sonhos. Onde podemos meditar e viajar com um som inimaginável. Hoje espiritualmente aprendemos a reparar no que estamos ouvindo, o porquê da musica, e quando você canta nos transporta para os grandes acampamentos, onde a noite respiramos a relva, a seiva da árvore, a aragem que sopra o som dos animais noturnos. Você com sua voz harmoniosa e quando seus clássicos são cantados é incomparável. Quem ouve sabe, ela a musica que você canta fala por si só.

                           Quando se foram, Gigi foi para a varanda de sua casa. Era noite de lua cheia. Gigi ficou ali olhando o céu lindo, vontade de trazer a lua perto dela e abraçar. Sentir através dela o mundo. Esqueceu que só tinha amado o escotismo. Seu tempo sempre curto não viu ninguém para amar, entregar seu coração. Mas Gigi sabia. Um dia ele iria aparecer. E ela não iria parar nunca de cantar. Riu quando pensou sobre isso, a lua neste instante parece que riu também com ela. Uma aragem gostosa bateu no rosto de Gigi.

                            Não sei o que aconteceu depois com ela. Soube que agora mora na Itália. Canta por toda a Europa. Gigi a Escoteira ficou conhecida do mundo todo. Tenho todos seus CDs. Agora fez mais um DVD. Continua linda. Dizem que tem um namorado. Nunca vi a foto dele. Mas tenho certeza que Gigi é feliz. Ela se encontrou na musica e no escotismo. Ainda ouço falar de suas apresentações em Jamborees onde sempre é ovacionada pelos milhares escoteiros e escoteiras de todo o mundo.

                           Saudades de Gigi. De sua alegria, de sua voz. Quando me lembro dela coloco em minha vitrola seu CD. Sento na varanda de minha casa e os sonhos entram pela minha mente de volta ao passado. Agora ouço Madama Butterfly. Meus olhos choram. Lagrimas descem pela face. Sempre fui assim. Um apaixonado pela musica linda de Gigi. Espero que ela tenha alcançado a felicidade. Ela sempre mereceu. Teve tudo na vida que uma jovem não teve e teve mais ainda, a felicidade de amar um movimento, movimento que lhe deu a vida, lhe deu o sentido da vida e a revelou para o mundo!

Bravôô Gigi! Bravôô! Que você seja feliz para sempre!!!

E quem quiser que conte outra. 

A esperança não murcha, ela não cansa, também como ela não sucumbe à crença. Vão-se sonhos nas asas da descrença, voltam sonhos nas asas da esperança.