Histórias e contos escoteiros.

Histórias e contos escoteiros.
Feitas para você se divertir!

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

ESCOTEIRO? O QUE É ISSO?


Amigo, o que é isto? Você é Escoteiro? - Não diga!

      
       Ah! Meu amigo sou sim, com muito orgulho. Estou aprendendo a ser alguém, para que todos que me amam possam um dia orgulhar. Aprendo que o caráter é importante em cada um de nós. Que ser leal é ponto de honra, e minha palavra? Sim é sagrada. Estou aprendendo que a honra faz parte dos honestos. Que a ética é mais que tudo. Aprendo tantas coisas que cada dia que passa mais me orgulho de pertencer ao escotismo.

       Acho que você não sabe, mas são tantas coisas maravilhosas que acontecem comigo, que hoje sei que a felicidade pode ser alcançada e eu a alcancei. Sou um privilegiado por Deus em estar aqui. Sabe, já vi um céu estrelado deitado na relva, em volta de uma fogueira cheia de amigos e amigas. Ali vi as constelações, um cometa que passa, e isso mais e mais me leva a certeza que o escoteiro é puro nos seus pensamentos, nas suas palavras e nas suas ações.

      Gostaria que um dia, pudesse junto comigo dormir sob as estrelas! Ver o sol nascer e ele se pôr ainda vermelho no horizonte deixando uma marca profunda em nossos corações. Quem sabe um dia vai poder saborear o cheiro da terra molhada, do perfume das flores silvestres, do som maravilhoso da passarada, do piar da coruja em um carvalho qualquer. Ver o lenho crepitando em uma bela fogueira onde todos riem, cantam e vão vendo as fagulhas subirem aos céus, languidas e serenas até que a aragem leva-as para longe.

      Olhe, é lindo ser do escoteiro. Acho que é um privilégio de poucos. Quando vejo a chuva caindo em uma floresta, sinto o som imperdível aos ouvidos de um velho mateiro. Saiba que temos uma ternura imensa com a natureza. Para nós é fácil encontrar o Norte e o Sul, seguir a sotavento, sentir o vento no rosto, descobrir as flores desabrochando nas campinas verdejante. É, podemos tirar o calçado e molhar os pés nas águas geladas de um belo riacho. Sentar e tirar uma soneca em uma grande e frondosa arvore e podemos olhar em volta e sentir o cheiro da relva cujo vento sopra com amor em nossa face. E nada mais maravilhoso que chegar ao cume de uma montanha e ver o horizonte! Um espetáculo imperdível meu amigo!

      Mas olhe, não sei se terá a oportunidade de ter o que temos. Aqui aprendemos que o medo é próprio dos fracos. E é preciso ter coragem e amor para conviver em uma vida saudável junto dos demais escoteiros. Se um dia quiser, quem sabe, você pode até entrar em um Grupo Escoteiro. Mas lembro a você que qualquer um pode entrar, mas é importante saber que ser escoteiro não é para qualquer um!

     Se resolver mesmo, seja bem vindo. Espero que você seja mais um irmão de tantos milhões espalhados pelo mundo. E quando for, vai saber que o nosso fundador Baden Powell disse que aqui, somente os valentes entre os valentes se saúdam com a mão esquerda. E pode acreditar que você será muito bem recebido, pois nós escoteiros somos amigos de todos e irmão dos demais escoteiros.

Coloque sua mochila, cante uma canção, e parta conosco nesta bela aventura!


quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

O ESCOTEIRO JUQUINHA E SUA MARAVILHOSA NOITE DE NATAL


O escoteiro Juquinha e sua maravilhosa noite de Natal

Melhor do que todos os presentes por baixo da árvore de natal é a presença de uma família feliz.

                     Não conhecia a vida de Juquinha. Contaram-me de sua maneira de ser, e como ficou conhecido por todos os escoteiros de sua região. Claro todos vocês conhecem alguém como ele em suas tropas. Ele era aquele que não para quieto nas formaturas, estava sempre rindo, adorava o escotismo, é o primeiro a chegar e o último a sair. Inconfundível.

                     Alguns chefes que procurei me disseram que tais escoteiros eram suas alegrias quando aos sábados encontramos aqueles jovens maravilhosos querendo ser cidadãos, valorosos, sonhadores, enfim, qualidades reconhecidamente de escoteiros espalhados por todo o mundo. Claro, tenho certeza que existem vários Juquinha em seu Grupo Escoteiro.

                     Juquinha, disseram, naquela época era bem gordo para sua idade. Se aproximando dos catorze anos. Na patrulha o chamavam de “meio quilo”. Porque ninguém sabia. Risos. Deveria ser “uma tonelada”. O tempo não ajudou Juquinha a emagrecer. Claro seu corpo se transformou, mas continuava a ser o último da patrulha nas suas andanças com a tropa em atividades aventureiras. A patrulha não se incomodava com isto. Sempre gostavam dele e acostumaram ao seu jeito de ser.

                        O que mais preocupava a patrulha era quando saiam para alguma atividade externa, onde sem transporte móvel, só podiam usar o “ETVV” (Empresa de Transporte Viação Vulcabrás – antiga marca de sapato usado por escoteiros exploradores - risos). Ou seja, a pé mesmo. Mas Juquinha estava aprendendo. Já estava caminhando para a primeira classe. Tecnicamente falando Juquinha era um “craque’. Sabia tudo de tudo. Até seu chefe quando tinha dúvida perguntava a ele.

                      Juquinha era assim. Persistente, muito obstinado. Resolvia-se fazer uma coisa fazia. Logo após entrar para os escoteiros, me contaram que ele resolveu fazer um forno de acampamento. Ficou na historia. Sem ninguém saber fez um bolo de chocolate e que toda a tropa se deliciou. Era escoteiro nato. Tinha um defeito. Era um sonhador. Ri quando me contaram. Ele acreditava mesmo nos seus sonhos. A história das Escarpas Pantaneira quando ele sumiu ficou gravado na mente de todos que lá estiveram. O que ele contou deixou a todos boquiaberto. Mas isto é outra historia claro a primeira historia de Juquinha em busca do vale dos sonhos.

                      Aquele fora um sábado alegre para todos menos para Juquinha. Ultimo dia em que a tropa se reunia, pois nas férias escolares ela também entrava em recesso. Ninguém tinha a menor dúvida que os chefes precisavam de um descanso para si e suas famílias. Todos entendiam, mas Juquinha não. Para ele o escotismo não podia parar. Como todos os anos ele já tinha planejado o que fazer com mais quatro amigos da patrulha e dois de outra. Nada que oferecesse perigo, e de pleno conhecimento de seus pais.

                      Juquinha tinha passado na padaria do bairro, pois sua mãe tinha encomendado uma sacola de pães e outros tipos doces, pois como era sábado ela iria fazer um lanche. Conhecia todos lá. Quando chegava de uniforme o olhavam e o saudavam com o Sempre Alerta. Juquinha era bem quisto. Sorriu com a sacola do lado para todos e saiu da padaria cantando o “Acampei lá na montanha” Era a preferida dele. Nem reparou no garotinho magro, raquítico, com as roupas em frangalhos e com um canivete enorme em suas mãos o ameaçando.

                      Foi um susto. Ele pediu a sacola de pão ou matava Juquinha. Sumiu na esquina com a sacola. Correr não adiantava, ele sabia que não era rápido. Gritar achou que não era bom. O ladrão podia voltar e o ferir com o canivete. Deixou que ele levasse os Paes. Voltou à padaria e comprou outra fornada. Riram quando ele contou o que aconteceu. Disseram a ele que não era a primeira vez que o ladrão de pão tinha atacado.

                     Em casa contou para sua mãe que o tranqüilizou. Ela sabia o filho que tinha. Juquinha ficou pensativo. Começou a andar pelos arredores até que uma tarde o viu próximo a mesma padaria. Viu quando ele ameaçou uma senhora e tomando da sacola de pão saiu em disparada. Juquinha tinha se colocado na esquina do outro lado e viu que ele parou de correr e andar normalmente. Era seu truque. Não ser confundido com um ladrão correndo. Juquinha a uns cem metros atrás o seguiu. Ele entrou em uma viela. Parou olhando os dois lados da rua e entrou num casebre.

                     Viu uma menina de uns três anos e outro menino de dois. A mãe chegou à porta e chamou os dois. Juquinha tomado de coragem bateu a porta. Ela a mãe o olhou assustada. Juquinha contou o que tinha acontecido. Ela começou a chorar. Disse que era culpada. Era doente, não tinha marido, não conseguiram a bolsa família, e até a escola não aceitava mais seu filho. Diziam que ele era um ladrão. Juquinha estava com os olhos cheios de lágrimas. Sua garganta estava seca.

                      Prometeu à senhora que não iria contar para ninguém, mas ela precisa tomar uma atitude, um dia seu filho poderia ser morto tudo por causa de uns poucos pães. Foi para casa inconformado. Achava que a vida era boa para alguns e ruim para outros. Ele tinha tudo eles não tinham nada. Sua mãe contou-lhe um dia que o novo presidente do país disse que não iria descansar enquanto houvesse um brasileiro sem comida na mesa. Seria seu compromisso e pedia ajuda a todas as instituições, todos os partidos, universidade, imprensa e da juventude. Ele era da juventude escoteira e não tinha feito nada.

                      Resolveu fazer alguma coisa. Juquinha era assim. Agora não iria desistir jamais do seu intento. Não falou para sua mãe. Nem com seus amigos. Iria dar um natal aquela família que ela nunca tivera na vida. Planejou tudo. O que comprar como levar até eles na noite de natal. Mas o principal ele não tinha. Condições financeiras para abarcar a compra. Não desistiu. De manhã saiu à procura de uma solução.

                      Parou em frente a um grande Banco muito conhecido na cidade. Entrou e estava apinhado de gente. Procurou o guarda e disse que queria falar com o gerente. O guarda o olhou com aquele olhar arrogante, como se ele não fosse ninguém. Era apenas um menino. Disse que ele tinha mais o que fazer, nenhum gerente ia atender a um menino. Juquinha não gritou. Sabia e cumpria a lei escoteira. O escoteiro é Cortez, educado, sabe à hora certa de dizer desculpa meu amigo, muito obrigado, tudo bem. Eu entendo.

                      Foi para casa. Vestiu seu uniforme escoteiro. Colocou seu chapéu de abas largas, verificou se seu meião estava com a linhagem correta. Seu lenço bem preso com o anel de couro. Pegou seu bastão. Há tempos não o utilizava. Voltou ao banco. O guarda o olhou de novo e não queria deixá-lo entrar. Ele ficou ali na porta em posição de descansar com seu bastão aprumado. Todos que entravam ele dizia – Quero falar com o gerente. O guarda não deixa. Dizem que não atende meninos.

                      Um repórter viu aquilo e gostou. Perguntou o que ele queria com o gerente. Juquinha disse que era uma conversa particular. O repórter insistiu e Juquinha foi inflexível. O repórter ligou para sua emissora. Vieram dois camara-men. Começaram a filmar. Logo uma multidão se formou em frente ao banco. O Presidente da Instituição financeira viu tudo pela televisão. Ficou abismado. Ligou para o gerente do banco. Juquinha foi convidado a entrar.

                     O Diretor Técnico, o chefe da tropa, o Comissário Distrital e até o presidente regional viram tudo também e correram para o banco. Juquinha pediu ao gerente que não deixasse nenhum deles entrar. Era um assunto de homem para homem! O gerente começou a gostar daquele escoteiro gordo e sua obstinação. Quase riu quando ele disse o que queria. A quantia não era pouca e teria que ser exata. Juquinha disse que tinha quer ser tudo. Ele não tinha nada.

                      O gerente ligou para o Presidente do Banco. Este autorizou e queria fazer um grande marketing em cima do episódio. Juquinha disse que se fizessem propaganda ele não queria nada. Tinha de ser confidencial. O gerente ligou de novo para o presidente. Este tinha sido escoteiro. Sabia o que era um escoteiro. Tem uma só palavra, sua honra vale mais que a própria vida. Autorizou o pedido. Juquinha levou o dinheiro vivo. A porta do banco centenas de pessoas. Outros repórteres. Ele não disse nada. Seu pai veio correndo. Juquinha entrou no carro e partiram.

                      Interessante como se desenrolam os fatos quando são dedicados para o bem. Na noite de natal, Juquinha e todas as patrulhas de sua tropa marchavam pela rua em direção à casa do menino ladrão de pão. Em frente à casa, começaram a cantar a canção da promessa, depois cantaram noite feliz e a família assustada ficou da janela olhando desconfiada. Juquinha foi até lá. Convidou todos eles. Fizeram um circulo. Sentaram como se senta em um Fogo de Conselho sem fogo. Foi montado.

                      A patrulha de Juquinha representou o nascimento de Jesus. Outra patrulha os Três Reis Magos e outra imitou o sermão da montanha, onde Jesus se dirigiu a uma multidão falando de seu reino. O bairro inteiro estava em volta dos escoteiros. Todos aplaudiram. Juquinha trouxe um bolo de chocolate. Ele tinha feito. Repartiu um pedacinho com todos em volta. Não deu para todo mundo.

                      Terminou o Fogo de Conselho. Os automóveis dos pais dos escoteiros começaram a chegar abarrotados. Pães, doces, caramelos, bombons, balas de mel. Pedaços de ilusões perdidas, mas uma luz de esperança. Eles não sabiam, mas achavam que Juquinha era o Papai Noel. Aquelas guloseimas coloridas, eram retalhinhos de sonhos de uma vida. Eram visão dourada dos filhos da família pobre.

                       Mas não terminou aí. Vários brinquedos, muitas roupas, todas novas compradas e muitas doadas por generosos lojistas do bairro. Juquinha entregou um cheque para a mãe pobre de mais de trinta mil reais. Disse que era para começar uma nova vida em sua cidade do norte, pois ela havia contado que queria voltar para lá e viver em um pequeno sitio. Uma palma estrondosa da multidão. Olhe quem estivesse lá, nunca esqueceria. Tinha mais de setecentas pessoas. Todos rindo, cantando, uma festa para a família pobre.

                      Não havia mais o rosário de ilusão e a frustração daquela família ficou distante. As brumas embaçadas do tempo se foram como o vento em direção ao mar. O menino ladrão de pão chorava. Dizia que nunca mais, nunca mais faria aquilo novamente. Juquinha o abraçou. O menino arrependido lhe deu seu canivete que usava para assaltar de presente. Juquinha aceitou. Retribuiu dando a ele um uniforme completo de escoteiro que havia comprado na cantina escoteira.

                     A imprensa chegou. A festa acabou. Ninguém conversou com os repórteres e jornalistas. As noticias foram picotadas no jornal noturno. A lembrança daquela noite nunca ficou apagada. Não houve festa na tropa. Não era para ter. Faz parte do escotismo. Juquinha sorria. Chefe, ele disse. - Eu fiz minha boa ação! Nada mais que isto. Uma pequena boa ação! Um dia quem sabe vou fazer uma maior!

                    O menino arrependido cresceu. Misericórdiosas lembranças. O menino ladrão de pão nunca esqueceu aquela noite. Agradecia todo natal a Deus todo Poderoso, por haver transformado o menino ditoso neste homem feliz que hoje sou eu! Um dia voltei naquela cidade. Não encontrei Juquinha. Ninguém sabia onde poderia encontrá-lo. Eu o trago no meu coração. Ele me deu outra vida. Graças a Deus e a ele agora sou um doutor. Formei-me e todos os anos nunca deixo de fazer o meu natal de Fogo de Conselho para os pobres meninos da vida.

E quem quiser que conte outra...

Anônimo
“Oração de Natal de um órfão de guerra”

Papai Noel, você que não se atrasa
Na visita anual que faz a terra
Veja se faz voltar à minha casa,
O meu papai que foi lutar na guerra.

Vê se você que pode mais que a gente
E que tem uma força sem igual,
Traga-me agora este presente
Nesta noite milagrosa de Natal!

Ele partiu em uma noite estranha
Que da lembrança nunca mais me sai,
Disse que ia lutar na Alemanha
E desde então não vejo mais papai.

Ele escrevia sempre, Mamãe lia,
Suas cartas, baixinho... Devagar...
Eu voltarei em breve – ele dizia
Que esta guerra está preste a acabar.

Depois passaram dias, muitos meses
E notícia alguma de papai não veio
E mamãe, na maior das agonias,
Esperava a passagem do correio.

Nada vinha, o silêncio era completo
E até hoje, eu nem sei bem
Mamãe passou a se vestir de preto
E nunca mais sorriu para ninguém.

Até que um dia, com a última batalha
- E só de lembrar o coração me dói
O correio nos trouxe uma medalha
Com as cinco letras da palavra – “Herói”
 
Papai Noel, meu santo e bom paizinho
Porque isso na minha alma me corrói
Se os tais heróis não voltam para casa
Será que vale a pena ser herói?

E ele dormiu... Abraçado ao retrato
Sonhando sonhos de venturas mil,
Acordou e viu de manhã em seu sapato
UMA ENORME BANDEIRA DO BRASIL!

O REQUINTADO E SABOROSO BOLO DE CHOCOLATE DE CARMINHA


O requintado e saboroso Bolo de Chocolate de Carminha

O bolo e a festa
Feito de chocolate,
Com recheio de coco
O chamam de prestígio
Uma cobertura deliciosa
Com uma textura sem igual;
Encho-me a boca dele,
Humm! Que sabor,
Ai quero mais...
Tomo um gole de guaraná,
Hummm! Delicioso!
Mais uma garfada de bolo,
Escorre o chocolate
Que misturado ao coco do recheio
Mistura-se a saliva
E derrete em meio à vontade
Humm! Queres um pedaço?


                Um dia, caminhando pela rua, vi um senhor que tentava por todas as formas, fazer o seu carro funcionar, sem o conseguir. Nem por isso deixou de acreditar que o carro iria funcionar. Chamou um mecânico e, em poucos minutos, lá estava o carro funcionando como nunca. Se alguém disser que existe a possibilidade de você progredir na vida, realizar os seus sonhos, materializar os seus projetos, pelo menos pare um pouco para pensar, antes de responder que é impossível. A vida, com certeza, é muito melhor do que a que você está viver. E é bem maior do que você imagina. Na verdade os outros não são mais que você. É você que se está a diminuir. Se uma pessoa se deita na rua, pode-se queixar de que os outros passam por cima dele? O que deve fazer é levantar-se e seguir o seu caminho. E claro, pode também comer um pedaço de um gostoso Bolo de Chocolate!

               Porque este inicio? Porque me lembrei de Carminha. Com seus dez anos crescera assustadoramente. Quem a visse diria que ela poderia ter 12 ou 13 anos. Tinha os cabelos negros, crespos, olhos castanhos e um porte firme, sempre com um sorriso nos lábios. Uma simpatia! Carminha era lobinha da alcatéia Sambhur (animal forte, elefante ou um grande tigre ou touros selvagens). Era uma alcatéia nova, fora fundada há oito anos. Poucos lobinhos na época, mas agora não. A alcatéia estava agora com 12 lobinhos e 10 lobinhas. Carminha entrou com oito anos, amor a primeira vista entre ela e a alcatéia. Carminha era chamada carinhosamente na sua matilha cinzenta de Raksha.

           Carminha lembrava sempre do seu primeiro dia. Fora apresentada a alcatéia e fizeram o Grande Uivo em sua homenagem. Ela achou aquilo o máximo.  Ali mesmo no seu pensamento, jurou que nunca mais iria sair do escotismo. Ela adorava as reuniões. Cada uma diferente da outra. Os jogos então eram sua paixão, mas logo descobriu que poderia crescer e ter muitos distintivos colocados em sua camisa.

           Mas Carminha estava diante de um grande dilema. Enorme mesmo. As duas coisas que ela mais gostava na sua vida de lobinha. O Acantonamento anual do Distrito, onde centenas de lobinhos e lobinhas estariam reunidos e a festa de aniversário de Isabel, sua prima. Sem contar é claro o delicioso Bolo de Chocolate que Carminha ficava horas e horas admirando quando sua tia fazia com um sorriso no rosto. Como era gostoso! Delicioso. Um sabor sem igual. Carminha esperava todos os anos só para admirar a feitura e depois sentar calmamente, olhar seu “pedaço” e ir saboreando cada colher.

          E agora para sua infelicidade, as duas coisas iam acontecer ao mesmo tempo. Ela estava com a maior indecisão em sua vida. O que fazer? A noite ajoelhou aos pés da cama e pediu a Deus para lhe mostrar o caminho. Mas qual caminho? Ela queria ir ao acantonamento e também estar no aniversário de sua prima e o bolo... Ah o bolo! Ele surgia incessantemente em sua mente todo o tempo. Ficar sem o Bolo de Chocolate? Sua boca enchia de desejos, pois só de pensar em cada garfada de bolo, o chocolate escorrendo, o coco no recheio, sentia sua saliva derretendo, incrível, que vontade de comer o Bolo de Chocolate!

       Para alguns de nós, adultos, era uma decisão fácil de tomar. Afinal não temos mais os sonhos de uma menina, que vivia ainda seu belo conto de fadas. Quem um dia quando criança não se sentiu assim? Uma dúvida atroz, cruel para elas, desumana. Mario Quintana escreveu que só as crianças e os velhos conhecem a volúpia de viver dia-a-dia, hora a hora, e suas esperas e desejos nunca se estendem além de cinco minutos..., não sei se concordo com ele. Dizem ainda que as crianças acham tudo em nada e os homens não acham nada em tudo!

        Aquele sábado de reunião foi um tormento para Carminha. Logo após a cerimônia de bandeira, ela se esqueceu das palavras que devia ser dita no Grande Uivo. A Akelá a escolheu para responder – melhor, melhor, melhor e melhor? Sim, melhor, melhor, e melhor! E ela nada. Estava muda. Seu pensamento estava no Bolo de Chocolate e no acantonamento. Todos ficaram intrigados, Carminha sempre era a mais alegre, mais participante e parecia estar nas nuvens. A Kaá fez um jogo de abertura já conhecido e que Carminha adorava. A Baratinha e o inseticida.

 (No começo do jogo é sorteado um lobinho que será o inseticida, os demais participantes serão as baratinhas. As baratinhas devem tentar atravessar de um lado do campo para o outro, já o inseticida deve tentar topar nas baratinhas. No soar do apito as baratinhas devem atravessar. As baratinhas que forem pegas se transformarão em inseticidas. O jogo acaba quando todas as baratinhas se tornam inseticidas ou quando restar apenas uma baratinha. Aconselho a utilizar os muros como os pontos das baratinhas, lá elas estarão salvas, e não poderão ser transformadas em inseticidas.)

         A reunião transcorreu normal, e Aninha não participava. Estava alheia a tudo. Mas quando Hathi contou uma parte da história de Mowgly Trégua das Águas, foi que prestou um pouco mais de atenção. Dizia Hathi:

- A Lei da Jângal – que é a mais velha lei do mundo, atende a quase todos os acidentes que possam acontecer para o Povo da Jângal. Código mais perfeito, o tempo e os costumes nunca fizeram. Mowgly vez por outra ficava impaciente com as constantes recomendações de baloo, o urso pardo, que sempre lhe dizia:

- “Esta é a lei que vigora em nossa selva e que é antiga como o céu” Como o cipó envolve a árvore, a Lei do Lobinho envolve a todos nós. E depois que tiveres vivido tanto quanto eu, irmãozinho, verás que todos os filhos da Jângal obedecem ao menos uma lei, e não vai ser um acontecimento agradável de ver. Essa lição entrou por um ouvido e saiu pelo outro, porque o menino nunca tinha passado problema sério. Hathi continuou contando e desta vez Carminha prestava muita atenção.

       Carminha procurou no final da reunião a Akelá e expôs para ela sua duvida, seu tormento, mas acreditem o aconselhamento da Chefe não ajudou em nada a Carminha. Em casa falou com sua mãe e esta não se mostrou muito interessada no tema. Carminha estava decepcionada. O que fazer? Como agir? Vou para o acantonamento? Não vou e participo do Bolo de Chocolate? Carminha dormiu naquela noite e nas seguintes um sono ruim, sem sonhos, sem perspectivas.

       Não havia como fugir. Ela tinha de ir ao acantonamento. Afinal sua vida também fazia parte da Alcatéia. Ela não poderia decepcionar sua matilha cinzenta. Sabia que a lembrança do Bolo de Chocolate iria se manter viva durante todo o tempo que estivesse acantonada, mas não havia outra saída. O Sábado chegou. Com uma dor no coração Carminha embarcou com a Alcatéia rumo ao acantonamento.

      Chegaram e logo o Balu fez o jogo do labirinto, (trançou-se entre as arvores um sisal esticado a um metro de altura e cada lobo de olhos vendados teria que percorrer o labirinto). Logo após a montagem do campo. Um lanche e foram introduzidas no tema da atividade. A primeira etapa da disputa (história de Mowgly), a segunda (Caçada aos amuletos perdidos) e foram para o almoço. Carminha ainda tinha na mente o seu bolo de chocolate.

      O acantonamento seguiu o previsível. Um tempo livre, uma preparação para a Insígnia Mundial de Conservacionismo, outros jogos, lanche, um ótimo jogo (Batalha entre lobos) e todos foram para o banho. Carminha conheceu Rodrigo, um lobinho da matilha azul, de outra alcatéia do distrito e ficaram grandes amigos. Carminha contou seu problema e Rodrigo entendeu perfeitamente. Solidarizou-se com ela em tudo.

     Logo após o jantar, Carminha viu que sua alcatéia fora chamada sem a presença das outras e ela não soube o porquê. A Akelá a chamou em particular e pediu para ela ir à cozinha e pegar uma colher para ela. Carminha foi correndo. Ela era sempre assim. Disseram uma vez para ela que o escoteiro não anda, voa! E ela levava isso a sério. Mal chegou à cozinha e lá estavam sua mãe, sua tia, sua prima Beatriz e mais outras dez amigas de Carminha. Uma enorme surpresa. Sua tia disse – Carminha, vamos agora fazer o bolo de chocolate e você vai me ajudar!

      A vida nos reserva tantas surpresas, coisas que a gente jamais imagina que vai acontecer. Pode ser lugares que nunca imaginaríamos ver, sentimentos que jamais pensamos em sentir, é poder comer o Bolo de Chocolate, ver sendo feito, junto a amigos do colégio e filhos dos vizinhos ali reunidos era um sonho! A vida é mesmo maravilhosa. Foi um aniversário que ficou para sempre na lembrança de Carminha. Incrível mesmo. Carminha se deliciou com o Bolo de Chocolate. Como era gostoso! E ali naquele acantonamento ele tinha um sabor todo especial.

     E olhe, antes de cantarem os parabéns, lá veio toda a alcatéia e junto aos amigos cantaram como nunca. Carminha estava tão maravilhada que esqueceu que o aniversário não era dela e sim da sua prima Beatriz. Correu até ela e a abraçou dizendo. - Amo você minha prima, seja feliz como eu estou sendo agora. E as duas ficaram ali abraçadas por um bom tempo. Não muito, pois era hora de Carminha comer seu pedaço de Bolo de Chocolate. O Bolo de chocolate de seus sonhos!

     Foi a primeira vez que Carminha enfrentou suas dificuldades. Aprendeu com ela. A vida a partir daí seria outra para Carminha. Como escrito no início do conto, a vida, com certeza, é muito melhor do que a que você está a viver. E é bem maior do que você imagina. Ela sabia agora que tudo tinha mudado. E para melhor. Manteve seus sonhos vivos, acreditou neles e quando foi convidada para fazer a trilha escoteira ela não se fez de rogada.

     Carminha hoje caminha para os seus catorze anos. Já tem seu projeto em andamento para conseguir o Liz de Ouro. E ela vai conseguir, disto tenho certeza, e durante todos estes anos, ela não perdeu nenhum aniversário da Beatriz. O Bolo de Chocolate se manteve como uma tradição e o seu pedaço ela comia saboreando colher por colher. Carminha aprendeu que existem dois objetivos na vida, o primeiro o de obter o que desejamos e o segundo de desfrutá-lo. Dizem que somente os mais sábios realizam o segundo.

     O escotismo é isto. Sonhos se tornando realidade. Amor retribuído em surpresas e amizades. A cada dia, a cada reunião, ou acampamento vamos recebendo passagens maravilhosas que ficam marcadas em nosso coração. Carminha como eu vive o escotismo intensamente. Cada um com uma visão, ela mais jovem e eu um pouco mais velho e ambos sabemos que temos orgulho em participar, viver, amar, sonhar, e acreditar que nosso movimento nos traz tudo àquilo que alguém pode pensar em ter. Não sei, mas acho que o escotismo é minha vida ou quem sabe minha vida é ser escoteiro!

E quem quiser que conte outra

Seja feliz do jeito que você é não mude sua rotina pelo o que os outros exigem de você. Simplesmente viva de acordo com o seu modo de viver.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

A MARCA DA PANTERA - A HISTÓRIA DE UM BASTÃO ESCOTEIRO


A marca da Pantera
A história de um bastão escoteiro

“Hei pantera! Sabemos do seu grito, do seu rugido, da sua força. Sabemos que é capaz de manter a união, perseverança. Sabemos que você sabe lutar, vencer, viver, e sua fé une aqueles em sua volta. Pantera Negra patrulha do meu coração!”
Lema da Patrulha Pantera

            Já se passaram trinta e cinco anos. Quase uma vida. Ainda me lembro quando me fizeram. Um monitor novo, uma patrulha nova, todos iniciando na tropa recém formada. Para dizer a verdade, me sinto orgulhoso de todos eles. Foram muitos que passaram pela patrulha durante este tempo. Guardo o nome de cada um no fundo do meu coração. Desculpe, sou de madeira, dizem que não tenho coração. Será? O livro de memórias da patrulha que o escriba guarda com muito carinho, também tem seus nomes, tempo que permaneceram na patrulha, acampamentos, endereços e o que conquistaram como escoteiros.

           Houve épocas ruins, muitas. Monitores desleixados, que não ligavam para mim, me deixavam em qualquer lugar. Já passei por grandes tempestades, caí em córregos profundos, despenhadeiros, fiquei a deriva em um trem de ferro. Incrível! Safava-me com galhardia. Claro tinha sempre um escoteiro bondoso da patrulha que não me deixava desaparecer. Mas acreditem, sempre fui amado pelos grandes patrulheiros da Pantera em todos os tempos.

          Nasci há muito tempo. Era um frágil galho de uma goiabeira, mas me orgulhava de minha raça araçá-guaçu, mesmo pertencendo a uma família com tronco tortuoso, de casca lisa e descamante. Considerava-me um galho pubescentes e por várias vezes vi as flores que vicejavam brancas, solitárias principalmente na primavera. Nunca consegui dar frutos, não sei por que. Comentavam a “boca-pequena” que nós goiabeiros somos os mais fortes, os que mais duram. Não sei, talvez seja por isso que Romildo me escolheu.

         Lembro bem quando ele se colocou debaixo da goiabeira e olhando para o céu analisou todos os galhos ali existentes. Eu não sabia, mas ali começaria minha saga do mais antigo bastão totem da Tropa Escoteira Titan (aquele que tem sensibilidade, simpatia, cooperação, diplomacia e receptividade). Orgulho-me de ter começado logo após sua primeira promessa. Não foi no mesmo dia. Romildo e mais cinco amigos ficaram por três meses sendo adestrados como monitores e subs.

        No primeiro dia da formação das patrulhas, lá estava eu. Claro, passei por várias etapas. Romildo me deixou secando dentro do quarto dele (dizia que o sol iria me estragar) por uma semana. Depois gentilmente retirou minha casca sem usar faca ou canivete. Passava todos os dias um pano embebido em óleo de linhaça, e fiquei quinze dias ao pé de sua cama. Por último, passou de leve um verniz incolor que produziu um brilho todo especial. Acho que foi amor a primeira vista entre eu e ele. Romildo era um verdadeiro monitor.

       Fez questão de fazer uma biqueira de aço, leve, que encaixou na minha ponta e em cima também uma pequena tampa de aço com pequena alça onde prenderia a ponta do totem, ambas encaixadas a fogo. “Todos os dias ele me olhava, sorria me colocava junto a ele, vestia o uniforme e dizia Sempre Alerta” me segurando com a mão direita e a esquerda com o sinal escoteiro levava até a altura do coração.

      Comprou de um sapateiro diversos cadarços de couro grosso, tipo Camurção, beneficiado com as fibras do lado do carnal (parte interna da pele). Comprou também outros cadarços feitos de pelica, um couro de cabra, leve de toque macio, alto brilho. Depois me disse o porquê. Não se assustem, eu e Romildo éramos bons amigos e nós conversamos muito. Sua mãe fez um lindo Totem. Eu não sabia, mas tinham escolhido na patrulha que o nome seria Pantera Negra.

       Romildo era um estudioso. Seu chefe dizia que ele era um monitor de que se orgulhava. Tinha de saber todas as respostas para os escoteiros de sua patrulha. Aprendeu que a Pantera negra (Panhhera pardus melas) vive nas selvas quentes da Malásia, Sumatra e Assa. Também na Etiópia. Seu pelo era inteiramente preto. Na floresta não era amigável. Vivia mais só. Aprendeu que a Pantera sabe mergulhar, nadar, salta sobre pedras soltas e cai a metros de distancia. Ataca mamíferos. Prefere áreas cobertas de arbustos.

      Romildo foi à biblioteca da sua cidade e lá ficou por vários dias até que achou uma foto linda de uma pantera. (ainda não havia internet) Desenhou o que sabia, pois não era bom desenhista e sua mãe pontilhou em um feltro amarelo, a “Marca da Pantera”. Nunca mais foi mudado. Claro, o totem sempre me reclamava por ficar deitado, torto e poucos notavam o desenho tão bonito da pantera negra. Demorou algum tempo, até que o sexto monitor da patrulha fez uma capa de plástico que só usava em acampamentos (para proteger das intempéries) e um arco em forma do totem para mantê-lo sempre reto.

       No primeiro dia que fomos apresentados a patrulha, ela deu um lindo grito. Ficamos eu e o totem emocionados. Eu ainda não sabia o que eram os escoteiros, mas aos poucos foi me tornando um deles. Decidiram que a cada etapa mais alta alcançada por um dos seus patrulheiros, seria trançado em mim um cordão fino de pelica. Vermelho para quem conquistasse os cordões de eficiência e azul para os possuidores do Liz de Ouro. Para dizer a verdade, não tivemos muitos. Cordões foram vinte e Liz de Ouro só quinze. Mas quem chegava sabia que ali tinham passados grandes escoteiros.

      Nem tudo foi alegria nestes meus trinta e cinco anos de vida. O oitavo monitor da patrulha não era muito condescendente comigo. Deixava-me de qualquer jeito, e olhe em um acampamento fiquei debaixo de chuva por três noites. O Totem chorou varias vezes. Estava sem a proteção. Ele o Monitor me usava como defesa de lutas com outros jovens. Não fui feito para isto. Mas o pior aconteceu em uma manhã de inverno. Ele cansado da subida na montanha, vendo que ninguém olhava me jogou despenhadeiro abaixo.

        Ao chegar ao destino, o chefe deu falta de mim e do totem. Ele mostrou onde tinha jogado. Procuraram-me e acharam. Ele perdeu o cargo de monitor. Seu substituto leu todo meu histórico no livro da patrulha. Lá Romildo deixou escrito como devia ser tratado. Limpeza a cada cinco meses e lustrar com um pano embebido em verniz incolor. Olhar todo o bastão para ver se não estava com machas que poderiam ser cupim. Senti-me outro. Gostei do novo Monitor.

      Já com vinte anos de vida, a tropa Titan foi acampar em uma cidade distante e o chefe conseguiu passagens gratuitas para todos. Fomos de trem. Divertíamos muito. Chegamos, eles desceram e me esqueceram! O trem partiu e eu fui com ele. Fiquei arrasado. O Totem como sempre chorava. Ele era muito sensível. Disse a ele para não se preocupar. Eu sabia que iriam atrás de nós. Um homem sentado numa poltrona ao lado me viu. Ao descer me pegou e levou com ele.

       Achei que nunca mais seriamos encontrados. Mas o homem foi ao chefe da Estação e explicou que os escoteiros desceram na estação anterior e me esqueceram. Passaram um telegrama. Fui embarcado de volta. Na chegada lá estava toda a patrulha me esperando. Um grito gostoso da patrulha foi dado. Senti-me em casa. Sempre sentia tristeza quando algum escoteiro passava para sênior ou saia do escotismo. Afeiçoava-me há todos eles muito facilmente.

           Um dia notaram durante um Conselho de Patrulha que o Totem estava se desbotando muito. Pudera, ele já existia a vinte e oito anos. Teve que ser substituído. Fizeram uma linda cerimônia de despedida. Vieram todos os ex-panteras que ainda moravam na cidade e passaram pela patrulha. Foi uma alegria para mim rever meus amigos de outrora. Quando colocaram o novo, olhei para o antigo. Foi colocado em uma proteção de plástico amarela, que lhe dava cor e colocado na parede principal da sede escoteira. Até hoje ornamenta a sala da sede. Fiquei muito triste, pois afinal éramos eu e ele os primeiros bastão totem a existir na tropa escoteira.

           Tivemos lindas reuniões. Lindos acampamentos. Viajamos muito. Conheci lindos lugares, os mais altos picos, as mais lindas planícies e os rios mais espetaculares que poderia ter conhecido. Participei de centenas de atividades ao ar livre, de competições, de encontros nacionais e regionais. Afinal sou um privilegiado. Era apenas um galho de goiabeira e me transformei em um símbolo. O novo Totem era lindo. Ele sabia disso. Mostrava-se grandioso, magnífico. Tornou-se depois um grande e bom amigo. Ficamos irmãos em pouco tempo. Nosso maior orgulho foi quando Os Panteras foram em um jamboree.

          Uma apoteose. Milhares de escoteiros. Centenas de patrulhas. Conheci bastão totem de todos os tipos. Mas eu e o Totem sorriamos. Sabíamos que éramos da Pantera.  Tínhamos orgulho. O dia mais triste em minha vida foi quando Romildo faleceu. Estava novo ainda. Trinta e dois anos. Diziam que tinha câncer. Não sei o que é isso. A patrulha compareceu em peso nas suas exéquias. Centenas de ex-escoteiros também estavam presentes. Não choravam se sentiam orgulhosos de Romildo. O meu criador, meu pai, meu grande amigo.

        Os anos passaram. A tropa firme. Houve épocas difíceis. Um chefe que não tinha muita experiência. Os Panteras ficaram reduzidos a três. Mas eram fortes ainda. Difícil competir com outras, pois era uma norma não escrita que não se empresta escoteiro de uma patrulha para outra. Na falta os presentes tem de se desdobrar. Em todos estes anos, não tenho certeza, acredito que mais de cento e oitenta escoteiros passaram pela Pantera. Tivemos dias bons, dias ruins, reuniões que marcaram época e reuniões que deixaram a desejar.

        Sempre aos sábados recebíamos visitas de antigos patrulheiros da pantera. Eram sempre bem recebidos. Sabíamos os nomes de todos. Suas idades, seus endereços. E a cada aniversário da patrulha, pois sempre celebrávamos o dia maravilhoso que começamos muitos deles compareciam a sede. Era maravilhoso ver todos juntos tentando segurar em mim e dar o nosso grito de patrulha. Seniores, pioneiros, escotistas e vários ex-escoteiros. Dois deles que conosco começaram, agora com seus quarenta e oito anos e o melhor, com seus filhos.

        Mas meu dia chegou. Estava envelhecendo. Estava na hora de aposentar. Como dizem na gíria – hora de passar o bastão.  Poderia ter continuado por mais alguns anos. Mas não sei se ia dar conta nas duras lidas de um acampamento. Todos receavam que pudesse quebrar rachar e ninguém queria me ver assim. Ravim o novo monitor foi quem cuidou de tudo. Foi até uma goiabeira, olhou para o céu, e escolheu um galho que se parecesse comigo. Estava escrito no livro da patrulha como fui preparado. Romildo escreveu tudo que fez. Ravim sabia como fazer.

       Retiraram o totem e colocaram no bastão novo. O meu amigo do passado foi retirado da parede e voltou novamente a ser meu companheiro. Mantiveram em mim as marcas de todos que foram Liz de Ouro, e os que receberam os Cordões de Eficiências. No novo mantiveram tudo que estava colocado em mim. Fizeram uma réplica. A cerimônia da troca foi feita a noite. Estávamos fora da cidade. A tropa fez um circulo. Eu participei pela primeira vez com todas as patrulhas da tropa. Recebiam-me em saudação pelo monitor, davam o grito de origem e depois o da Pantera. Colocaram-me em pé, e todos um a um passaram em minha frente e deram o Sempre Alerta.

       Marcou-me meu amigo. Marcou-me. Se fosse gente teria chorado. Mas o pior era que eu achava que era gente. Que era um escoteiro e uma pequena gota d’água correu pelo meu corpo de madeira. Não sabia se era uma lágrima. Mas nunca mais esqueci aquela cerimônia. Todos os monitores, exceto Romildo estavam lá. Eles no final ficaram na minha frente e um por um dizia do seu tempo ao meu lado e das aventuras que juntos passamos. Quanta emoção.

      Hoje, estou colocado na parede da sede. Vejo todos entrando e saindo. Ainda sou um bastão escoteiro. Tenho orgulho de ter sido e sempre serei para a Patrulha Pantera o seu símbolo. Os meus sentimentos nunca serão de altivez. Não.  Eu sei que o passado e as lembranças irão permanecer para sempre. Não ligarei para o silencio nos dias sem reuniões, ou o som do grito dos Panteras ao longe, pois eu vou lembrar-me de tudo. E se possível vou transformar o meu passado em algo, que no futuro será sempre bom e gostoso de lembrar. Principalmente nosso grito de patrulha. Feito pelos primeiros panteras, a trinta e cinco anos atrás:

“Panteras, acordem, vamos seguir adiante
Somos um só, unidos e juntos na memória.
Valentes, leais, nosso lema avante
Pois nossa marca ficará para sempre na história
Não duvidem amigos, com a pantera ninguém pode!
Ego et tu unum sumus – Pantera! Pantera! Pantera!”

Não chore nas despedidas, pois elas constituem formalidades obrigatórias para que se possa viver uma das mais singulares emoções da vida: O reencontro.



A BRAVURA DE UM HERÓI


A bravura de um herói
Um conto baseado na historia de Caio Vianna Martins

Teço pensamentos abstratos,
de heróis que não conheci.
Heróis que moram na memória esquecida,
mas que inundam de orgulho
a biografia de uma nação.
Entre batalhas furiosas
e mortes anunciadas,
erguem-se ilustres destemidos
vitoriosos.
No seu sangue,
a história sofrida de quem ousou
ser escudo da raiva esforçada
por vencê-los!
E contrariando prévias derrotas,
saíram vencedores, de forma distinta
em todas as conquistas!

                 Volto meu pensamento para o passado. A um hiato entre a história e a realidade. Não faz tanto tempo assim, mas existem lacunas que tento completar e não é fácil. Muitos heróis alcançaram a fama, o estrelato mostrando seus pontos fortes e levando uma palavra de esperança de um futuro melhor. Temos aqueles heróis do passado, das grandes pelejas, e eles em tempo algum se compararam aos feitos como Aquiles, o maior defensor de sua cidade. (as Iliadas). Tróia sobreviveu.
 Foi um fato da história assim como também sobreviveu na mente de todos nós o que se passou com o bravo e valente monitor que nunca será esquecido e sempre lembrado na memória dos escoteiros.
              Dizem que os heróis surgem em tempos difíceis quando as oportunidades aparecem, outros dizem que os heróis não se fazem, já nascem assim. Não sei se Caio Vianna Martins mudou a história escoteira com suas palavras. Quem o conheceu nunca diria que um dia ele seria um Herói. Poderia ver na história da humanidade, heróis que se fizeram. Dandara no Brasil, quem já ouviu falar? Esposa do Zumbi dos Palmares foi uma guerreira feroz e brava defensora de um quilombo. Maria Quitéria disfarçou-se de homem para lutar na guerra da independência brasileira. Aracy de Carvalho Guimarães Rosa, única brasileira homenageada no Museu do Holocausto.
            Quem por acaso já ouviu falar delas? Ou de Heitor Villa-Lobos, maestro e compositor famoso, ou Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes? E finalmente Alberto Santos Dumont. Claro todos já leram sobre ele e seus feitos. Esse intróito foi para lembrar-se do nosso herói. Brasileiro e escoteiro. Não é uma historia cheia de surpresas e sim cheia de valores. Eu aprendi que nós controlamos nossa atitude ou será que é ela quem nos controla? Heróis são as pessoas que fazem o que tem de ser feito, quando tem de ser feito, independende das consequências. Encontrei tudo isto em Caio Vianna Martins. Poderia contar outra, mas Caio percorreu com sua fama os anais da glória, desde os tempos outros até o limiar do nosso século.
         Falar de Caio Vianna Martins é voltar ao passado. Um passado de glória, de um valente Escoteiro que nunca será olvidado porque está presente em todos os corações escoteiros, todos que um dia fizeram sua promessa. Muitos até hoje discutem sua frase, tão bela, dita em hora tão dificil em sua vida. Nem todos os escoteiros conhecem sua história. Ele se tornou um marco para nós. Não foi um mito e nem uma fantasia como muitos dizem, mas sim um fato, uma realidade e que o transformou em nosso herói!
     Quando o conheci pela primeira vez, não passava de um jovenzinho magro, raquítico, de um olhar profundo, sem se importar muito com sua aparência. Não diferia dos demais jovens. Brincava, ria e como estudante não era o melhor, mas tambem não era o pior. Lembro quando entrou em minha sala e pomposamente me chamou de senhor professor. Claro, era uma obrigação na época, mas nos seus olhos ví um brilho que somente aqueles que se sobressaem têm.
            Eu lecionava no Grupo Escolar Visconde do Rio das Velhas. Lá o conheci em meados de 1930. Para dizer a verdade, quem o visse não diria o que ele seria um dia. Com seis anos completados, ainda não tinha idéia dos escoteiros. Na cidade de Matozinhos em Minas Gerais não havia Grupos Escoteiros. E ele é claro nunca pensou que um dia fosse entrar e viver sua maior aventura, que terminou com sua celebre frase e que ficou para sempre gravada na historia escoteira.
             Ficou poucos anos na escola que lecionava e seus pais mudaram para a capital do estado. Caio se matriculou na escola Barão do Rio Branco e não sei por que ficou alí pouco tempo. Logo se transferiu para o colégio Arnaldo e mais tarde no Afonso Arinos. Dizem que a lenda é feita de mitos e fatos. Na vida juvenil de Caio não existem tantos fatos assim que justifiquem a lenda. Num sábado, Caio resolveu assistir a uma partida de futebol em seu colégio. Viu pela primeira vez e ficou fascinado com a reunião de uma tropa de escoteiros. Nunca tinha visto nada igual.
            Ficou toda a reunião ali, com os olhos pregados nos jovens escoteiros. Na sua mente só pensava que precisava ser um deles. Tinham belos chapéus, belos uniformes, um lenço no pescoço seguro por um anel de couro, e cada um portava um bastão de madeira. Fizeram jogos, correram, gritaram e o que mais agradou a Caio, o sorriso estampado nos lábios dos escoteiros o tempo todo. Foi para casa e sabia que agora ser escoteiro para ele era ponto de honra. Caio era um obstinado.  
             Tanto falou que seu pai o levou numa tarde de maio e o matriculou. Caio simpatizou logo com seu chefe Clairmont Orlando Gomes. Assim como tambem com o chefe Rubens Amador. Em casa sempre comentava com seus pais como eles eram. Amigos, prontos a ajudar, pareciam irmãos mais velhos do que chefes escoteiros. Gerson Issa Satuf era de outra patrulha. Caio sempre na Patrulha Lôbo. Ele gostava de todos os membros da tropa, mas tinha um carinho especial com sua patrulha.
            A alcatéia quase não dava as caras, pois suas reuniões eram em horarios diferentes. E quem sabe seja por isso ele nunca soube que ali havia outro lobinho que seria lembrando por muitos e muitos anos por tudo o que aconteceu naquele dia fatídico. Mas vamos falar um pouco de Helio Marcus. Ou melhor, Hélio Marcus de Oliveira Santos. Um lobinho recém admitido amava com todas as forças sua matilha amarela, e um tagarela tanto na escola com os amigos, na alcatéia e em casa com os pais.
          Hélio tinha nove anos. Fazia mais de um que entrara para os lobinhos. Sorria pouco, mas como falava. Era um entusiasta e sempre era o primeiro a chegar e o ultimo a sair. Um dia durante um jogo do Kim (onde se colocavam na mesa diversos objetos, os lobinhos observavam por minutos e tinha de lembrar pelo menos da metade). Ele se lembrou de todos os vinte e quatro objetos. Todos. Ficaram perplexos. Como perguntou a Akelá. Ninguém soube responder. Nem o próprio Hélio.
          Em setembro fizeram um acampamento, próximo onde hoje é cidade de Contagem, que faz parte da grande Belo Horizonte. Era um sítio de outro amigo e chefe do grupo. Era também um alto dirigente do escotismo mineiro, um grande escoteiro chamado Francisco Floriano de Paula. Mestre, Reitor e doutor, fez do escotismo mineiro um grande marco na historia da União dos Escoteiros do Brasil. Foi um dos que colaborou na formação da UEB na época dividida em varias federações. Escreveu grandes obras, mas destacamos o Para ser Escoteiro. Uma marco introdutório para os jovens escoteiros iniciantes.
        O acampamento teve a duração de quatro dias. Os lobinhos ficaram acantonados na casa sede. Os escoteiros a uns 500 metros, próximo a uma pequena mata e um riacho de águas claras e límpidas e que hoje é conhecido por Rio Arruda. Nada a ver com o hoje com o de ontem. À noite fizeram um grande jogo noturno. Duas turmas, cada uma com duas patrulhas. Uma turma ficava na defesa e outra no ataque. (eram 24 escoteiros).
         Os atacantes tinham de se camuflar de maneira tal que pudessem passar sem ser percebidos em uma área de 100 metros, por uma passagem de mais ou menos 30 metros. Os defensores estavam armados com bolinhas de barro mole e se acertassem os atacantes estes eram considerados mortos. 
        Caio tirou toda roupa, ficou só com um calção preto. Pintou-se todo de negro. Rastejando, como uma cobra, passou fácil pelos defensores que guardavam a passagem. Ninguém o viu. Foi o único que conseguiu. Os demais foram todos descobertos e mortos. No dia seguinte, ele não conseguiu tirar a pintura do rosto quando da inspeção e ficou marcado no acampamento como “cara guaximim”. À noite, após o fogo do conselho, o chefe Clairmont convidou todos para deitarem na relva e observarem a movimentação das estrelas e constelações.
          Um espetáculo inesquecivel. O chefe Clairmont mostrava onde ficava cada uma das constelações e como deveria ser observada nos meses subsequentes. Isto facilitaria muito numa provável tomada de rumo, quase que perfeita se um dia viessem a se perder. Estava tão intertido na explanação do chefe que nem notou ao seu lado o Escoteiro Gerson Satuf. Cochilava parecendo estar com um sono enorme. Eram mais de onze da noite.
         Isto me foi contado pelo chefe Clairmot, quando nos encontramos seis meses após o desastre. Foi na Praça Raul Soares em um encontro regional de professores do Estado. Não tinhamos uma grande amizade e nem sei por que o assunto veio à baila. Mas o desastre foi de proporção nacional e todos inclusive eu gostaria de saber de detalhes. Muito me foi narrado. Até mesmo a promoção de Caio a monitor. Ele não esperava. Era novo na patrulha e quem sabe por ser o mais alto e mais velho (já estava com 14 anos), foi escolhido. Naquela época BP comentava em seu livro Escotismo para Rapazes que os mais velhos sempre são mais respeitados pelos mais novos.
        No mês de novembro de 1938, a Comissão Executiva do Grupo Escoteiro Afonso Arinos, programou uma excursão técnica-cultural até São Paulo. Nem todos participaram. Somente seis lobinhos, doze escoteiros, tres pioneiros, o chefe Clairmont o chefe Rubens e mais dois da Comissão Executiva. Uma delegação de vinte e cinco membros. Caio convenceu seus pais a ir. Era um só sorriso e sua mente vibrava em conhecer São Paulo.
        Caio sonhava com a viagem. Passou noites e noites pensando como seria São Paulo, já considerada a maior cidade brasileira. Embarcaram à tarde na estação de Minas, um imponente prédio em estilo neo-classico. O primeiro relógio público de Belo Horizonte alí foi instalado no alto da torre da estação. Em frente está uma bela praça, a Rui Barbosa, onde se encontra o “Monumento da Terra Mineira” uma linda estátua de bronze que representa a conquista do territorio mineiro pelos entradistas e bandeirantes e os mártires mineiros.
        Quem um dia for visitar este imponente local, não deve deixar de ver os dois leões, que foram encomendados ao artista belga Foline. É um belíssimo trabalho esculpido em mármore. Durante o embarque aquela alegria contagiante que todos os escoteiros têm. Muitas canções, muitos “Anrês”, muitos gritos de patrulha. Alguém já me disse que são “coisas” de escoteiros esta cantoria quando viajam. Conseguiram um vagão especial de primeira classe, que ficava no meio da composição de onze vagões no seu total.
           Na partida, uma grande palma escoteira ecoou quando o Condutor, o velho Gabriel, com seus bigodes imensos, seu uniforme impecável, e seu boné bem colocado na cabeça, começou o seu períplo em todos os vagões. Uma rotina de anos, seu inconfundível apito para anunciar a partida do trem, e agora ali depois de percorrer os vagões da frente pedia educadamente – Bilhetes! Bilhetes! E todos estavam sorridentes, com ele a mão para ver como ele picotava e perfurava numa manobra de deixar todos os passageiros embasbacados.
       A viagem era longa. Era uma volta enorme. Iriam até Volta Redonda e lá pegariam o rumo de São Paulo. Volta Redonda era uma bifurcação. Em frente à estrada de ferro seguia para o Rio de Janeiro. Retornando São Paulo. Quase 20 horas em um trem sacolejante, mas que seria motivo de alegria e felicidade se tudo corresse conforme os planos. Caio dormitava em uma poltrona e sempre acordava olhando pela janela a fumaça e ouvindo o matrequear das rodas que seguia o trem apitando aqui e ali ia cortando montanhas.
      Quando me contaram de Caio, seus olhos abrindo e fechando de sono, naquela viagem que seria sua última, penso como seria bom estar junto a ele. A Maria Fumaça sempre foi um dos meus amores quando jovem. Margeando um rio, com seus apitos estridentes, uma parada em uma pequena estação, alguns saltam outros sobem. O cheiro do trem ninguém esquece. As fagulhas lançadas no ar, as paradas nas caixas d’água para matar a sede da locomotiva. E os guarda-pós? Usei muitos. Não sei por que, todos brancos.
     Muitas vezes alguns funcionários da ferrovia passam despercebidos. Se pudessem observar a estratégia do manobreiro, da simplicidade do guarda-chaves alterando o percurso do trem, da destreza do maquinista, do esforço do foguista alimentando a fornalha sempre faminta, do trabalho do pessoal da soca, a fazer os reparos necessários e o do fiscal de linha garantindo a segurança da viagem. E ali naquele vagão de primeira classe, dormia vinte e cinco escoteiros. Vinte e cinco almas cujos destinos estavam traçados.
      O relógio não parava. Onze da noite, meia noite, uma hora. Clairmont fez sua ultima inspeção no vagão. Todos os escoteiros e lobinhos dormiam a sono solto. O destino estava escrito. E como disse alguém, do destino ninguém foge. Não poderia ser mudado. Nada em tempo algum poderia fazer com que a história fosse outra. Em sentido contrário, descendo a serra da Mantiqueira, um cargueiro seguia a todo vapor como a desconhecer o que iria encontrar a sua frente. Não se sabe até hoje porque o chefe da estação João Aires não parou o trem, ou se esqueceu do noturno, que sofregadamente começava a subir a serra.
       Qual seria o sonho de Gerson Issa Satuf? Ou de Hélio Marcos de Oliveira Santos? Ou do próprio Caio Vianna Martins? Dificil saber. Poderiam estar sonhando com seus irmãos, seus pais, ou mesmo sendo preparados lá no alto por anjos protetores do desastre que iria acontecer em seguida. Em uma curva Jonas o maquinista do noturno, que era conhecido como o Coruja, pois nunca dormia a noite, viu o cargueiro que se aproximava em sentido contrário a toda velocidade. Mario Duarte tambem viu o noturno, Mario era o maquinista do cargueiro. Mais de vinte anos fazendo aquele caminho.
          Nada poderia impedir o desastre. Nada. A velocidade do cargueiro era grande e ambos os maquinistas sabiam o que ia acontecer. Os freios rangeram, os apitos soaram e a batida veio forte. Estrondos se fizeram ouvir. Vagões foram expulsos da linha, jogados em uma ribanceira. Eram duas horas e cinco minutos da madrugada. Uma madrugada que entrou para a história. Um engavetamento monstro se formou. Alguns vagões ficaram inreconheciveis. 19 de dezembro. A cinco dias do natal. Ano de 1938.
           O carro dos escoteiros saltou dos trilhos e atravessou para a direita. Outro carro colidiu com ele engaventando e o partindo ao meio. O vagão prensado deitou-se em um barranco sendo comprimido por muitos outros. Gritos. Pedidos de socorro, tudo escuro, não se via nada. Noite sem lua. O chefe Clairmont e o chefe Rubens acordaram e sentiram tudo. Estavam apenas com alguns arranhões. Atônitos viram o desespero dos passageiros.
         Gritos de socorro, gemindos, o barulho da colisão agora se fazia em menor escala. Clairmont e Rubens se puseram na ativa. Alí começou seu trabalho de escotistas na hora do perigo. Os chefes Escoteiros sabem que um dia terão de agir e esta hora chegou para Clairmont e Rubens. A seu modo eles também foram heróis. Poucos se lembram deles. Seus nomes foram esquecidos. Reuniram todos os jovens em um ponto da estrada. Deram falta de Hélio Marcos e Gérson Issa Satuf. Procuraram e os encontraram mortos embaixo de escombros.
          Impossível descrever tudo nos seus detalhes mais intimos. Era uma carnificina. Feridos gritavam e a escuridão não ajudava na localização. As duas patrulhas e os pioneiros fizeram uma grande fogueira. Usaram madeiras destroçadas dos vagões. A única luz que alí poderia ajudar naquela hora fatídica. O pânico reinava.  Cairmont e Rubens batalhavam. Com os pioneiros e escoteiros que nada sofreram socorriam os feridos, fizeram macas para os casos mais graves e o resgate prosseguia, mas agora mais devagar.
        Caio cambaleante ajudava em tipoias, estancando sangue de feridos, e até ajudou na remoção de cinco até o um vagão dormitório que permaneceu intacto e serviu de pronto socorro. Caio havia recebido uma forte pancada na região lombar. Quase não comentava a dor intensa que sentia. Só às sete da manhã chegou o socorro com médicos e enfermeiros da cidade de Barbacena.
         Fora uma madrugada terrível. Os passageiros que nada sofreram trabalharam incansavelmente. Clairmont e Rubens estavam esgotados. Não pararam um só instante. Dois heróis. Dois homens que tinham a carisma dos grandes heróis anônimos que surgem e nunca são lembrados. Quando a maioria dos feridos tinha sido removida, viram Caio claudicando, sentindo dores terríveis. Tentaram levá-lo. Ele não aceitou. Disse e apontava para as vitimas que pareciam em estado mais grave e dizia, há muitos feridos. Eu não estou tão ferido como eles. Recusou a maca.
       A história como disse é cheia de fatos heróicos. Eles surgem assim do nada. Caio Vianna Martins é um deles. Nunca pensou que ficaria como o grande herói do escotismo nacional. Não disse suas belas palavras por dizer. Saiu naturalmente. Viram que ele estava cambaleante, e seus olhos piscavam. Seus lábios tremiam uma golfada de sangue saiu de sua boca e mesmo assim não deixou em tempo algum que o carregassem. Disse para todos o que ficaria como a mais bela frase já dita por uma legião de heróis – “Há muitos feridos aí. Deixe-me que irei só. Ajudem os outros, eu sou um Escoteiro e o Escoteiro caminha com suas próprias pernas”!
         Saiu caminhando e desfaleceu quando chegou à cidade de Barbacena. Morreu horas mais tarde em conseqüência dos rompimentos das vísceras e de uma intensa hemorragia interna. Poucos o ouviram pronunciar essas palavras. Alguns escoteiros e alguns enfermeiros. Elas foram comunicadas a nação e ao mundo graças a dois homens públicos que lá estavam na hora. Eles foram testemunhas da história. Alcides Lins e Otacílio Negrão de Lima. Este último ficou conhecido como um grande político mineiro. Eles ficaram impressionados com o que viram. Não só pelas palavras de Caio como a ação dos escoteiros na ajuda aos feridos.
             Levaram aos jornais o que tinham assistido. O mundo inteiro ficou sabendo que o Brasil também forja homens e jovens com a desenvoltura de Caio Vianna Martins e seus amigos escoteiros. As manchetes dos jornais e rádios correram por toda a parte. Reconheciam no gesto de Caio Martins um fato marcante na mente dos jovens que fazem parte desta nossa bela fraternidade. Caio foi escolhido e eleito como o simbolo Escoteiro no Brasil.
            Seu nome ficou gravado na história. Praças, monumentos, e até um estadio de futebol tem seu nome. Estádio Caio Martins. Sua fama faz parte do nosso orgulho Escoteiro. Ficamos alí sentados na praça eu o chefe Clairmont por horas. Vi em seus olhos lagrimas furtiva, que correram em sua face quando me narrou toda a epopéia. Complentou dizendo que Caio Vianna Martins, Gerson Issa Satuf e Hélio Marcos de Oliveira Santos, foram sepultados em uma tarde de dezembro, vespera de natal, no cemitério Bom Fim, na zona norte de Belo Horizonte.          
           Hoje seu Grupo no Colegio Afonso Arinos não existe mais. Mas alí um placa de bronze é vista por todos do herói e seus amigos escoteiros pelos alunos que por anos e anos cursaram suas salas. Esta é uma historia contada aqui e ali em pedaços imaginários e reais. Caio e seu gesto foram uma realidade. Ninguém pode duvidar. Suas palavras nunca serão esquecidas e servirão sempre como uma diretriz para todos nós escoteiros. O Escoteiro é alegre e sorrí nas suas dificuldades.
Em memória a Caio Vianna Martins, Gerson Issa Satuf e Hélio Marcos de Oliveira Santos, saudemos no panteão da glória e dos heróis nacionais com o nosso:
SEMPRE ALERTA! E tiramos o chapéu com o Grito de guerra da União dos escoteiros do Brasil – Anrê – anrê – anrê! – Pró Brasil? Maracatu! 
“Há muitos feridos aí. Deixe-me que irei só. Ajudem os outros, Eu sou um Escoteiro e o Escoteiro caminha com suas próprias pernas”!
Estoicismo
(Noticia publicada em jornais em todo Brasil)
Passou provavelmente despercebida, nas notícias pormenorizadas sobre a última catástrofe da Central, a serena coragem daquele pequeno Escoteiro, uma criança de quinze anos, que estando gravemente ferida, os que o queriam levar em maca para o hospital, dizendo com um sorriso de homem forte: "Um Escoteiro caminha com suas próprias pernas". E caminhou. E foi, mas foi para morrer, poucas horas depois, no leito em que o colocaram para uma tentativa de salvação. Este menino de quinze anos honrou o nome e deu um exemplo a todos os Escoteiros do País. E mostrou a muita gente grande que um Escoteiro sabe sorrir para morte que o acompanha de perto.
Se um dia for erguido qualquer monumento ao "Escoteiro Desconhecido", a lembrança do estoicismo desta criança resumirá a bravura de uma geração de Escoteiros do Brasil.
                                                                                                   
                 Nota do autor

Em julho de 1973, na cidade de Matozinhos, comemorando o cinquentenário de nascimento de Caio Vianna Martins, fizemos a entrega da medalha de Valor ouro, pós-mortem a Caio Viana Martins através de seu irmão ali presente. Foi uma cerimônia simples, com altas autoridades executivas, educacionais e políticas. Presentes mais de 600 escoteiros mineiros e uns poucos convidados de outros estados que ali fizeram o primeiro acampamento da fraternidade. Abaixo uma foto da solenidade.

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