Histórias e contos escoteiros.

Histórias e contos escoteiros.
Feitas para você se divertir!

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

2012 se foi, agora é 2013. Hasta la vista baby!



A última mensagem do ano.

2012 se foi, agora é 2013.
Hasta la vista baby!

                 Um ano se encerra. Mais um de tantos em nossas vidas. Quantas coisas aconteceram. Muitos acontecimentos deixaram a desejar em compensação teve muitos outros excelentes. Mas não é para ser assim? Um dia li que o mal e o bem têm de existir, pois se o mal não existisse que mundo seria este? Não viemos aqui com uma finalidade? Não importa a fé que processamos em todas elas existe a promessa de um futuro melhor. Se colocássemos nossas vidas em uma tela gigantesca, quantas coisas não veríamos ao apagar das luzes deste ano? Um janeiro que começou um fevereiro, um março um abril. E o tempo foi passando e nós fomos passando com ele. O tempo é implacável. Ele não volta atrás. Quantos sorrisos conseguimos dar? E as tristezas? Não serviram de aprendizado?
          
                  Não sei, mas acho que aqueles que viveram intensamente o escotismo em 2012 tiveram seus momentos de felicidade. Um dia disse para mim mesmo que em nosso passado temos tantas coisas para contar que se escrevêssemos em um enorme imaginário livro da vida, quantas páginas seriam! Milhares e milhares. Sacrifícios eu sei que todos fizeram e quem não os fez? Somos milhões de escoteiros neste mundo. Quantos chefes labutaram acreditando que uma juventude melhor poderia florescer? Tem rosas no meu jardim? Será que observei alguma a desabrochar? São vermelhas? Brancas? Nos caminhos nem sempre acertamos os rumos a seguir. O ponteiro da bússola teve momentos de certeza e outros de duvida. As estrelas no céu nem sempre brilharam com a intensidade esperada para nos mostrar o norte e o sul. Mas nunca desistimos.

                 Seria bom se estivéssemos todos juntos, no alto de uma montanha, sabendo que o sol que caminha sempre para o oeste se foi. Agora esperamos que estrela de Baden Powell apareça brilhante no céu. Hora de ver os erros e os acertos. Que bom. Todos nós ali esperando o esperado 2013. Depois vêm o 2014, o 2015 e tantos que vamos viver intensamente nossas vidas, e alguns ainda procurando o que valeu ou não valeu neste ano e o que fazer para melhor no próximo. Quantas pessoas convivemos neste ano que se vai? Quantos jovens vimos sorrir com nosso esforço que nada mais foi como uma brisa a acariciar nossa face, um levantar de olhos para o infinito, uma vontade enorme de acertar. Isto não nos fez sorrir? Um ano que sabemos para muitos os caminhos tinham outras pistas, que tentamos algumas, voltamos ao ponto de reunião quantas vezes se tornaram necessárias, pois a vida é um eterno aprendizado. E não foi ele quem disse que é errando que aprendemos? Uma pista difícil de seguir e nunca desistimos, pois escoteiros que somos não desistimos de procurar à última, no fim de pista; é ela que nos indicará se tudo valeu. Se ela é a tão esperada - O Jogo já terminou. Paz.

                  Seria bom se fechássemos os olhos, todos nós, os milhões que fazem a saudação que nos foi legada por Baden Powell, e que em volta do mundo déssemos as mãos, entrelaçadas, com as esperanças vivas a pulsar em nossa mente e vendo as estrelas passando cantaríamos em um coro de muitas vozes, de muitos idiomas, que seriam ouvidos há anos luz dos planetas do mundo, e sempre acreditando que o escotismo tem uma força tão grande que nos une, nos dá a esperança de um mundo melhor. “E o Senhor que nos protege, e nos vai abençoar, um dia certamente vai de novo nos juntar”!

Acreditem, marchem fundo nas estradas dos acampamentos que vem por aí. Chamem todos, lobinhos, lobinhas, escoteiros, escoteiras, seniores, guias, pioneiros, pioneiras, chefes e dirigentes. Mochilas as costas, bandeiras ao vento e gritem bem alto para todos que com as mãos entrelaçadas acreditem: - Um grande, um assombroso, um admirável, um extraordinário, um formidável, um egrégio, um eminente, um colossal, um gigantesco, um espetacular e feliz 2013!

SEMPRE ALERTA!

Hasta la vista baby!

domingo, 30 de dezembro de 2012

Um tributo a minha esposa. Célia Maria Ferraz. Sei que vocês não sabem, eu tenho um anjo ao meu lado.



Um tributo a minha esposa. Célia Maria Ferraz.
Sei que vocês não sabem, eu tenho um anjo ao meu lado.

 Muitos insistem em procurar a felicidade sem saber que ela está bem perto de nós. Muitas vezes não descobrimos e em outras muito tarde conseguimos ver. Estamos chegando em 2013. Mesmo nas dificuldades que estou enfrentando eu me considero um homem feliz. E sabe quem é responsável por tanta felicidade? Minha esposa. Isto mesmo. Celia que é minha vida e minha luz. Casamos novos. Ela com 17 eu com 23. Sempre tivemos um enorme respeito um pelo outro. Vivemos várias fases neste mundo de Deus. Não tivemos lua de mel. Como? Risos. O dinheiro passava longe. Fomos morar em uma cidadezinha. Trabalhava em uma usina siderúrgica. Peão de obra. Caminhão lonado indo e vindo. Comendo poeira. Minha casa? Alugada. Cozinha e quarto. Banheiro? Nos fundos do quintal. Móveis quase nenhum. Fogão a lenha. Um radinho de pilha.

Moramos em várias moradas. Em varias cidades. Em vários estados. Ela ao meu lado. Incansável. Nunca reclamou da vida que levávamos. Depois outro estado, uma fazenda, boiada das grandes, cobras, galinhas, porcos, Emas e Ciriemas, barcos, São Francisco, E rio das Velhas. Jacarés peixes e sucuris à vontade. Assim o tempo foi passando. Ainda noivo já lutava ao meu lado no escotismo. Sabia do meu segundo amor. Vestiu o uniforme de Bandeirante. Depois de Chefe Escoteira. Fez curso. Quase IM. Não continuou. Não dava. Fiquei mal e fui parar em um hospital. INSS. Ela lá. Junto comigo dia e noite. Até hoje é ela minha luz, minha enfermeira, aquela que me ajuda a pegar um ônibus, a correr nos prontos socorros da vida. Impossível descrever uma vida juntos de 49 anos. Muito tempo. Prometi a ela viver pelo menos para a festa das bodas de ouro. Que Deus me ouça.

Não posso continuar. Fico engasgado. Não era para escrever aqui. Ninguém aqui no facebook precisa ficar ouvindo lamurias. Mas tinha de dizer. Se tenho amigos aqui, ela é a responsável. Em 2012 rezei para chegar a 2013. Um ano se passou. Não sei se outros virão. Mas quando um dia qualquer eu me for lembrem-se dela. Se sou o que sou e acho que nada sou devo a ela. Tem dias que acho não ser merecedor de ter ao meu lado uma mulher como ela. Que os céus a proteja sempre. Ela ainda não leu estes parcos escritos tirados de um dia de alegria. Sim. Hoje estou alegre e tanto estou que digo a todos que quiserem ouvir – AMO DE MONTÃO A MINHA CELIA. ELA É MINHA VIDA, MINHA LUZ. TENHO CERTEZA QUE IREMOS VIVER PARA SEMPRE, POIS NOSSO AMOR É ETERNO!

Tudo de bom meus amigos. Nada mais a dizer. Que Deus os acompanhe sempre. Que possam ter sonhos dourados e que se realizaram como os meus. Sonhos bons, sonhos que irão dar novo ânimo para 2013. Feliz 2013! 

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

A incrível aventura do Chefe Gerônimo no Vale do Eco.


Como se fossem gardênias e jasmim florindo em todas as partes, uma brisa gostosa vindo de todos os lugares, a frescura do local, as canções de pássaros e insetos, ver as montanhas azuis ao fundo, eu tenho as imagens mais linda e agradáveis que a natureza me deu. Vale do Eco, nunca mais te esquecerei.

A incrível aventura do Chefe Gerônimo no Vale do Eco.

                     Não conheci Gerônimo muito bem. Uma ou duas vezes para ser mais preciso. Deixava a desejar como Chefe Escoteiro nas conversas com amigos se ele tinha algum é claro, pois estava sempre com uma carranca de assustar qualquer um. Na última vez que o vi acho que estava com uns vinte e seis anos. Sabia que sua família lhe dava tudo e ele não dava nada em troca. Nunca foi bom nos estudos. Mas não era mau sujeito. Não fazia mal a ninguém. Ria mais que falava. Quando o vi pela primeira vez estava como Chefe de tropa Escoteira. Dizem que se queres conhecer uma boa tropa, veja seu Chefe seus Monitores e como eles faziam o sistema de patrulhas. Acho que o Chefe Gerônimo era perfeito. Melhor ainda a escoteirada gostava muito dele.

                      Gerônimo nunca foi bom aluno. Passou raspando e quase não chegou ao segundo grau. Entrou como Escoteiro já com treze anos. Bem mandado não sabia mandar. Na Patrulha todos gostavam dele. Como se diz – “Jerônimo é um bom companheiro”. Não gostou muito dos seniores. Lá achavam que ele era parecido com um “Nerd”. Quando surgiu as guias piorou tudo. Ele não se sentia bem com as piadas que faziam dele. Começou a faltar às reuniões até um dia que não voltou mais. Nunca o procuraram em sua casa a não ser Saulinho, um Escoteiro que foi seu amigo para sempre. O grupo passou por uma fase difícil. A liderança do Diretor Técnico não era das melhores. Muitos chefes voluntários que entravam ficavam pouco tempo. A tropa Escoteira ficou sem Chefe. O Diretor Técnico não conseguiu ninguém. Na Patrulha da Raposa alguém falou de Gerônimo. Os Monitores foram a casa dele. Fizeram o convite. Gerônimo sorriu como se estivesse recebendo um presente.

                     Durante um ano Gerônimo foi um bom Chefe de tropa. Conversava pouco, falava sempre com os Monitores. Para dar exemplo terminou o segundo grau. Seus pais ainda insistiam para ele tentar uma faculdade mesmo com vinte e seis anos.  Depois de um ano os escoteiros começaram a pensar que o Chefe Gerônimo não era o que pensavam. Nandi era o Monitor mais antigo. Mais sensato. Mais comedido. Foi à casa do Chefe Gerônimo bater um papo e quem sabe ver se ele poderia mudar no seu sistema de direção com a tropa. Gerônimo só ouviu. Nada falou. Nadi comentou na Corte de Honra sua conversa com o Chefe Gerônimo. Desde que foi a casa dele não voltou mais para a tropa. Os pais de Gerônimo foram procurar por ele no grupo. Havia sumido há três dias. A tropa ajudou nas buscas. A polícia achou que ele fez as malas e foi embora. Não deram muita “bola”.

                     Durante dois meses o procuraram em todos os lugares, a cidade era pequena, menos de sessenta mil habitantes. Chefe Gerônimo sumiu mesmo. Não deu mais notícia. Seus pais correram meio mundo procurando. Desistiram e voltaram a sua rotina. O trabalho dizem, faz a gente esquecer os dissabores e as tristezas da vida. Os escoteiros ficaram sem Chefe. Ninguém para assumir. Os Monitores não deixaram a peteca cair. Eles mesmos programavam e até que estavam gostando das reuniões que as patrulhas davam. Um dia acharam que podiam acampar. Estavam proibidos de sair da sede. Tanto falaram que convenceram o Diretor técnico. Prometeram que iam ao Vale do Eco. Acamparam lá muitas vezes. Era um ótimo local. Boa aguada, riacho raso, sem cachoeiras, mata pequena, muito capim gordura e bambus à vontade.

                     Claro, havia um local perigoso. Os penhascos de Santa Maria. Mas era o melhor local para se divertir. Lá em cima avistavam todo o Vale do Eco. A garganta era profunda. Se alguém caísse era morte certa. Mas o eco era fantástico. Ribombavam em paredes lisas de pedras e um grito ficava minutos a minutos respondendo até que baixinho sumia. Uma festa. Fizeram mil promessas. O Diretor Técnico consultou alguns pais. Eram a favor. Eles confiavam anos filhos. Os preparativos foram grandes. Eram três patrulhas. A Patrulha Onça Pintada ficou de conseguir transporte da Prefeitura. O Doutor Leopoldo o prefeito fora Escoteiro. Nunca deixou de colaborar. A Patrulha Jaguatirica foi até o Super Mercado do seu Nonato. Seriam quatro dias. Levaram uma lista. O que ele desse estava bom demais. A Patrulha da Coruja foi até o empório do Senhor Leonel. Precisavam de mais alguns materiais de sapa e lonas para toldos.

                    Durante duas semanas prepararam tudo. Na quinta feriado, às seis da manhã estavam todos na sede. O caminhão da prefeitura já estava lá. Alguns pais foram se despedir. O Diretor Técnico não apareceu. Não havia nenhum adulto do grupo. Nandi o Monitor da Jaguatirica o mais velho dirigia tudo. Cantando e dando adeus partiram na maior alegria. Às onze da manhã chegaram próximo ao Vale do Eco. Iam acampar ali. Conheciam o terreno de cor e salteado. Fizeram um programa simples. Uma Patrulha ia tentar encontrar um lobo guará e chegar pelo menos a cinco metros dele tirando uma foto. Não era fácil. Eram uma Alcatéia arisca que morava no estreito do nevoeiro no vale do eco.

                    Outra Patrulha programou fazer uma ponte pênsil, usando bambus e cipós. Levariam dois dias no mínimo. A terceira Patrulha programou construir um Ninho de Águia onde coubessem todos participantes. Mais dois dias. Prepararam três jogos noturnos, e uma noite só para desafios do Quebra Coco e a ultima o Fogo de Conselho. Tinham também vários jogos para o dia não ficar monótono. Muitos escoteiros iriam testar na cozinha para a especialidade de cozinheiro, outros queriam de primeiros socorros e uma meia dúzia de acampador. O programa estava completo. Claro que sempre à tardinha todos iriam até a os Penhascos de Santa Maria. Perto. Menos de trinta minutos de subida. Mas a diversão era garantida. Cada um improvisava um grito. Outro em sequencia e parecia que centenas de vozes iguais repetiam lá no fundo da garganta.

                  Foi no segundo dia quando estavam descendo que avistaram uma fumaça bem no meio do Vale do Eco. Próximo à curva do Vento. Estava escurecendo, mas sabiam que no dia seguinte os Monitores iriam até lá para saber quem estava acampando ali. A noite foi uma delicia. O jogo da caça a coruja deixou todos vibrando e a Patrulha da Onça Pintada campeã cantava a mais não poder. Sempre lá pelas dez da noite, acendiam um fogo e ficavam até onze ou meia noite conversando entre si. Uma cafezinho ou um chocolate quente era mantido em um bule grande esquentado na brasa. Não faltava o Nonô da Patrulha Coruja com sua flauta mágica.

                   Nandi tinha combinado com os Monitores que logo após a inspeção, passariam ao cargo au submonitor e eles iriam ver quem estava acampado ali. Sabiam que não eram outros escoteiros. Iriam camuflados. Não sabiam o que iam encontrar. Tinham experiência em camuflagem. Chegaram à garganta e foram bem devagar no riacho que estava bem seco. As chuvas do verão ainda não tinham chegado. Menos de meia hora avistaram uma cabana. Simples. Feita de sapé com madeira cortada nas imediações. Uma rede de cipó embalava um homem. Estaria morto? Parecia. Não se mexia. Melhor chegar para ver. Um susto! Impossível! Era o Chefe Gerônimo. Abatido, sem forças e barbudo. Parecia que não se alimentava há dias. Tentaram reanima-lo. Difícil. A fraqueza era muita. Nonato voltou ao acampamento para buscar mais escoteiros. Fizeram uma maca.

                  Antes do meio dia chegaram. Algum cozinheiro já tinha preparado um caldo de feijão bem forte. Tiveram que colocar em sua boca. Deram um banho nele com uma toalha velha. Ficou na Barraca da Coruja. Eles tinham duas. Apertando uma só caberia os sete escoteiros. O programa da tropa mudou. Sempre uma Patrulha para ficar com o Chefe Gerônimo. Impossível buscar socorro na cidade. Ficava a mais de cem quilômetros. Melhor é tratar dele no acampamento e esperar o dia do retorno. No terceiro dia Chefe Gerônimo levantou. Olhou para todos. Viram que seus olhos encheram de lágrimas. Quis falar, mas não conseguiu. No quarto dia ele já andava bem, mas pouco falava. Pediu para participar do Fogo do Conselho. La pela tantas fez um sinal. Pediu para falar.

                    Não sei o que me deu. Uma névoa tomou conta da minha mente. Peguei minha mochila, coloquei alguns víveres e em uma carona em uma caminhonete cheguei próximo daqui. Fui subindo córrego acima. Parei na curva do Pássaro Preto encontrei um descampado. Vocês me encontraram lá. Cinco dias depois meus víveres acabaram. Não sei como vivi esses dois meses que ali fiquei. Não me lembro de nada. Sabia que as noites alguém me alimentava. Quem nunca soube. Um dia resolvi voltar para casa. Estava com saudades dos meus pais. Não consegui. As pernas não obedeciam mais. Fiz a rede de cipós e ali passava as noites e os dias. Acordei aqui com vocês. Não sei o que houve o que fiz e quem me ajudou.

                  A tropa ficou calada. No ultimo dia voltaram à cidade. Os pais do Chefe Gerônimo fizeram uma festa para o retorno dele. Cinco meses depois ele voltou ao Grupo Escoteiro. Outro Chefe Gerônimo. Mais ativo, mais falante, mais inteligente. Retornou a tropa. Aceito por todos. Assumiu cinco anos depois como Diretor Técnico. O Grupo mudou muito. Vários chefes novos. Uma diretoria atuante. Chefe Gerônimo se formou em Letras. Professor na Escola Técnica logo foi eleito vereador. Nunca saiu do Grupo Escoteiro. Dizem que casou não sei. Mas sei que a tropa Escoteira até hoje, com os jovens daquela época já adultos sempre contam uns para os outros a grande aventura que tiveram no Vale do Eco. São coisas assim que marcam os escoteiros. Cada um sempre tem uma história para contar e a do Chefe Gerônimo será lembrada para todo o sempre!       
                                               
"Que um dia possas ter a percepção necessária
para saberes onde estiveste que um dia possa ter a visão
necessária para saberes para onde vais e o
discernimento necessário para saberes quando estas
a ir longe demais.”
“Escreve na areia aquilo que doaste, grava sobre a rocha o que recebes.”.



sexta-feira, 9 de novembro de 2012

As aventuras de Juliano – Um valente Escoteiro e a Jaguatirica Amarela do Pântano do Demônio.


A compaixão pelos animais 
está intimamente ligada à bondade de caráter, 
e quem é cruel com os animais 
não pode ser um bom homem.


As aventuras de Juliano – Um valente Escoteiro e a Jaguatirica Amarela do Pântano do Demônio.

           A noite havia chegado de mansinho. A fumaça naquela clareira se misturava com o orvalho que soprava de leste para oeste. A pequena brisa da tarde ainda trazia em nossas faces o frescor da primavera. Gil tinha feito uma sopa de macarrão com batata nos “trinques”. Ao lado do fogão tripé, um bule negro de alumínio fazia nosso café noturno borbulhar. Estávamos em cinco. Nossa Patrulha os Tigres Brancos tinha sete patrulheiros. Ali estava eu, Nuno, Gil, Denis, Tiago o Monitor. Maneco e Toninho não vieram. Estavam com caxumba. Como reclamaram por não vir. As duas barracas de meia lona já estavam armadas. Nossas tralhas preparadas para dormir. Estávamos na estrada há dois dias. Um acampamento volante de quatro dias. O Chefe Gustavo nos encarregou de visitar o sitio do Padre Totonho, que agora aposentado da igreja vivia ali seus últimos dias. Ele mesmo nos convidou a acampar lá. Longe, quase vinte e cinco quilômetros para chegar. Se achássemos um bom lugar, devíamos fazer um relatório e um croqui. Fácil. A Patrulha tiraria de letra. Para chegar lá Denis ficou encarregado do Percurso de Giwell.

             Nuno logo tirou sua gaita cromática da mochila. Ele tocava maravilhosamente. Dominava bem todas as musicas escoteiras e quando as notas musicais da Canção da Despedida eram lançadas no ar, parávamos de conversar e nossos pensamentos viajavam para o passado, onde vários fogos de conselhos deixaram saudades. Desta vez tocou outra, A Canção do Clã. Ele ouviu quando os pioneiros acamparam conosco no ano passado. Era outra musica linda. Em uma montanha bem perto do céu, existe uma lagoa azul! Quando ele tocava era como se nos estivemos escalando uma linda montanha azul. Algum tempo depois, jogando conversa fora Gil me pediu que contasse de novo a viagem com meu pai no Pântano do Demônio. – Mas já contei duas vezes, falei! – Mais uma, insistiu. Acho que Nuno e Tiago ainda não ouviram. Era uma história real. Aconteceu quando fiz onze anos. Ou seja, há três anos. Não sei se me trazia boas lembranças, mas meus amigos não só da Patrulha como da tropa sempre me pediam quando em conversa ao pé do fogo como agora ou em Fogo de Conselho que contasse a história. Ninguém nunca reclamou. Desde pequeno que tinha o dom de Contador de Histórias.

                Estávamos sentados em um tronco seco, que já estava ali e onde fizemos nosso fogão tripé para aquela noite. Era uma sexta e desde quinta marchávamos na estrada para o nosso acampamento volante e sabíamos que no dia seguinte no sábado iriamos chegar. Senti que numa Aroeira próxima, uma coruja “sustava” a nos olhar com seus olhos negros reluzentes. Eu era reconhecido como amigo dos animais e das plantas e tinha por todos os bichos, pássaros e insetos um respeito enorme. Não só pelo nosso sexto artigo da lei, mas porque sempre fui assim desde que nasci. Incapaz de fazer qualquer maldade com eles. Diferente do meu pai. Eu gostava muito dele, mas ele adorava caçar. Nunca me deu chance de dizer para ele que era errado. Um dia achei umas palavras de Chico Xavier e como meu pai se dizia espiritualista entreguei para ele o que estava escrito: - Nós seres humanos estamos na natureza pra auxiliar o progresso dos animais, na mesma proporção que os anjos estão para nos auxiliar. Portanto quem chuta ou maltrata um animal é alguém que não aprendeu a amar.

              Acho que não ajudou em nada. Meu pai tinha uma sala separada da casa aonde guardava seus troféus de caça. Na parede ele tinha cabeças empalhadas de Tamanduá Bandeira, Queixada, Jacarés, Ariranha, Cachorro do mato lobo Cinzento, Veado-galheiro e outras dezenas. A única que admirava era uma linda Arara Azul. Morria de pena, pois sempre gostei de ver as aves voando e os animais soltos nas campinas ou florestas. Todos sabiam meu amor pelos animais e pássaros. Quando acampávamos na Mata do Riacho Grande, havia um Pintassilgo, que eu chamava de Doce de Coco, que sempre vinha ficar no meu ombro. Eu podia correr cantar, armar barraca, fazer pioneirias e lá estava o Doce de Coco no meu ombro. Todos ficavam abismados. Ele não ia ao ombro de ninguém. Claro sempre levei na mochila um bom bocado de alpiste e ele adorava. Não só ele como dois Tico-ticos amarelos que vinham comer em minha mão.

                 Ajeitei-me melhor no tronco, estiquei as pernas, peguei minha caneca esmaltada e coloquei um cafezinho. Logo Gil serviu alguns biscoitos em um prato. Respirei fundo e comecei a contar minha história. Eu gostava dela. Não sei por quê. Quem sabe foi uma que me marcou muito. – Voces todos conhecem meu pai, comecei. Eu o amo muito, mas ele gosta de caçar. Sempre se achou um grande caçador. Nunca me contou, mas soube que quando jovem fez um Safari na África. Tem muitos troféus lá em minha casa e voces viram, mas não tem troféus de animais africanos. Ele sabe do meu amor pelos bichos. Não me condena. Sei que gosta muito de mim e quase não me conta suas histórias, suas jornadas, suas aventuras de caçada nas selvas brasileiras. Uma vez me contou que esteve no Alto Amazonas. Não conseguiram caçar nada. Ele, seus amigos Zé Barrica e Zoroaldo o Barbeiro foram aprisionados pelos Kalapálos. Não entrou em detalhes. Só contou que uma unidade de selva do exercito brasileiro os soltaram.

                Mas meu pai nunca se dava por satisfeito. Mesmo com a proibição de caça pelo IBAMA ele dava suas escapulidas sem ninguém saber. Todos voces sabem que minha mãe morreu quando nasci. Meu irmão Ricardo agora moço, está estudando Engenharia Mecatrônica na capital e pouco nos visita. Ele trabalha e se sustenta. Minha irmã Matilde casada mora na Espanha. Ele me escreve muito e diz que é muito feliz. Já se ofereceu para pagar minha passagem para conhecer meus sobrinhos lá em Salamanca. São cinco. Ela me disse que perto de sua casa tem escoteiros e escoteiras. Que eu vou gostar de ir lá. Mas continuando, um dia meu pai me chamou até ao seu habitat preferencial. Ou seja, a sala de Troféus. Vi nele um semblante de alegria, seus olhos brilhavam quando estava ali.

                 - Juliano, mês que vem eu o Zoroaldo e O Zé Barrica, iremos fazer uma caçada no Pantanal do Mato Grosso. Zoroaldo vai levar seu filho Dondinho. Ele já fez dezoito, mas pensei em convidar você. Nunca o chamei para isto. Sei que não gosta. Mas meu filho será minha última caçada. Não farei mais nenhuma. Você não precisa matar nenhum bicho. Prometo que vai gostar do lugar. É lindo. Iremos comer pela manhã um Sarrabulho, um prato delicioso, vai beber o Tereré, servida em cuia, e farei para você um caldo de piranha pantaneiro que você nunca mais vai esquecer. Dê-me este prazer meu filho. Adoraria sua companhia. Iremos de avião até Corumbá e você vai poder conhecer a cidade, fica a margem esquerda do Rio Paraguai. Faz fronteira entre o Paraguai e a Bolívia. Dizem que é considerada a Capital do Pantanal. Iremos ficar lá um dia e de Chalana iremos subir o Rio Paraguai até a Serra de Albuquerque. É lá que iremos encontrar a Jaguatirica, um gato do mato, considerado um dos maiores felinos do brasil.

                    Fiquei pensando naquele convite. Dizer o que? Um pedido do meu pai? Nunca ele me pediu nada. Sei que estava "Velho", mas ainda tinha forças para trabalhar na sua oficina de carpintaria. Nunca pensei em vê-lo atirando em um animal qualquer. Seria um visão que não gostaria de guardar. Mas negar? Afinal seria uma viagem maravilhosa. Eu Escoteiro de Primeira Classe teria oportunidade de aprender muitas coisas. Disse sim ao meu pai. Estávamos em junho e no dia cinco de julho iriamos partir. Voces lembram quando dei adeus para cada um. Não fui ao acampamento da tropa na cidade de Viçosa. Queria ter ido. Dizem que os escoteiros de lá eram amigos e estavam prontos a nos receber com carinho. Mas o convite do meu pai não podia ser negado. Nunca tinha viajado de avião. Foi fantástico. Fiquei na janelinha. Que coisa maravilhosa meu Deus! Chegamos pela manhã em Corumbá. Ficamos em uma pensão que meu pai já conhecia as margens do Rio Paraguai.

                    À tardinha meu pai e seus amigos compraram tudo que precisavam. Iriamos ficar cinco dias na Serra do Albuquerque. Acamparíamos as margens do Pântano do Demônio. Ele não sabia por que este nome. Era uma linda lagoa com águas azuis. A viagem na Chalana do Capitão Traíra (que nome eim?) foi de tirar o folego. À tardinha desembarcamos próximo a Serra de Albuquerque. Disseram-nos que com uma hora chegaríamos até ao Pântano do Demônio. Para mim tudo bem. Estava acostumado. Quem reclamou muito foi o Dondinho, filho do Zé Barrica. Não estava acostumado. Armamos as barracas e eu fiz um fogo e claro um fogão tropeiro meu conhecido de longa data. Achei uns troncos finos e entrelaçados deram bons bancos para nós quatro sentarmos. Fui dormir tarde. Eu não sabia das qualidades do meu pai em conhecer a natureza, ao belo por do sol, e principalmente da esfera celeste. Ele me explicou as direções e movimentos dos corpos celestes e outros pontos do céu. Falou dos princípios círculos máximos da abóboda celeste. O equador, a eclíptica e o horizonte. Era incrível como ele conhecia os círculos máximos, onde surgem os equinócios e os pontos cardeais. Passei a admirá-lo mais e mais. Era outro pai.

                  Levantamos cedo. Meu pai me disse que ficasse no campo. Ele o os outros iam atrás da Jaguatirica. Na beira da lagoa acharam suas pegadas. Ele disse que era questão de horas. Não foi preciso muito. Quando saiam por uma picada ela apareceu. Imponente. Enorme. Toda rajada de amarelo. Não era uma, mas duas. Um casal. Vi que a fêmea estava prenha e o perigo era grande. Meu pai estava com sua Winchester 44 sem balas e os outros também. Nunca esperam que a Jaguatirica aparecesse assim de repente. Ainda mais com uma companheira. Meu pai assustado gritou para mim – Corra Juliano, corra muito! Vai ser uma carnificina a quem ela pegar primeiro! Olhe, era um belo animal. Olhos grandes, um felino que devia pesar uns sessenta quilos ou mais. Só o pulo dela daria para jogar no chão cinco homens adultos. Não corri. Não era meu feitio. Nunca tinha visto nada igual, mas caminhei em direção a elas calmamente. Meu pai gritou. Zoroaldo, Zé Barrica e Dondinho sumiram no meio do mato.

                  Abri os braços e sorri para elas. Meu pai não estava entendendo nada. A fêmea se aproximou de mim. Lambeu minhas mãos. E depois deitou aos meus pés. O macho ainda desconfiado. Mas chegou mais perto e pude acariciar seu pelo liso e isto me trouxe uma enorme felicidade. Ambas deitaram aos meus pés. Sentei na grama. Fiquei ali acariciando e falando baixo. Meu pai não se aproximou. Acho que naquela hora acreditou que eu tinha pacto com o demônio. Só podia ser para fazer aquilo. Zé Barrica, Zoroaldo e Dondinho estavam estupefatos. Fiquei ali bons minutos com as duas Jaguatiricas. Depois elas se levantaram e foram embora calmamente. Não houve tiros. Meu pai desistiu. Disse para mim que nunca mais iria ar um tiro em um animal. Depois do que ele viu não tinha dúvidas. Falei para ele baixinho o que tinha lido há tempos sobre matar os pobres dos animais – Pai, eu li que os animais selvagens nunca matam por divertimento. O homem é a única criatura para quem a tortura e a morte dos seus semelhantes são divertidas entre si.

                 Ficamos lá quatro dias. Sem dar nenhum tiro. Só conhecendo a beleza da Serra do Albuquerque e do Pântano do Demônio. Nunca disse para ele, mas varias vezes saia para um passeio na mata e encontrava as duas Jaguatiricas de pelo amarelo. Elas corriam e eu corria atrás delas. Elas paravam e pulavam em mim. Sem machucar é claro. Eu ria. Cheguei a fazer de montaria em uma delas que me jogou ao chão gostosamente. Voltamos pela mesma Chalana do Capitão Traíra. Foi um dos passeios mais maravilhosos que realizei. Dali em diante eu e meu pai mantivemos uma amizade que nunca pensei em ter com ele.

                 Parei de contar a história. Gil, Nuno, Denis e Tiago me olhavam com espanto e admiração. Sabia que um dia iriam pedir para eu contar novamente. As lembranças seriam eternas. Nunca iria esquecer a grande aventura que realizei com meu pai. Fomos dormir. Cedo levantamos e partimos. Muitos sonhos na mente e no coração. Eu gosto do escotismo. Amo tudo que faço. Adoro de coração acampar, viver ao ar livre. Sou mesmo amigo dos animais. Queria vê-los todos eles soltos, os pássaros no céu cantando alto. Quem sabe uma Jaguatirica para brincar comigo nos meus acampamentos da vida. Isto é escotismo. Sempre disse aos meus amigos e a todos que encontro. Escotismo? Sim, uma maneira de ser feliz!

As criaturas que habitam esta terra em que vivemos, sejam elas seres humanos ou animais, estão aqui para contribuir, cada uma com sua maneira peculiar, para a beleza e a prosperidade do mundo.



quarta-feira, 17 de outubro de 2012

O lobisomem de Onda Verde e o valente Escoteiro Pedrito.



A história é a verdade que se deforma, a lenda é a falsidade que se encarna.

O lobisomem de Onda Verde e o valente Escoteiro Pedrito.

            Debora Bottcher uma poetiza sintetizou de uma maneira estupenda como seria as lendas que correm pelo mundo. Ela tem um poema lindo, que parte dele diz: - “Sou lenda, porque a lendas correm livres junto ao vento, buscando as vozes da memória para que alcancem as histórias perdidas no tempo”. Não que Pedrito o cozinheiro da Patrulha Coruja fosse o “faloreiro”, ou melhor, um garganta na cidade de Onda Verde. Afinal Onda Verde no interior de São Paulo era considerada uma cidade com o melhor ar do mundo. Onde se podia sentir o aroma das flores, onde se podia ver a relva verde como se fosse uma onda espalhada sem mar. Calma, pacífica, menos de vinte mil habitantes era um paraíso para os que nasceram lá. Mas o Escoteiro Pedrito nascido e criado lá não era fácil. Contava “patacas”, valentias e até criava histórias impossíveis, e que ele sempre era o herói. Seu Chefe de tropa sempre disse a ele do primeiro artigo da lei. Uma só palavra. – Pedrito deixa de ser garganta! Dizia sempre. Ainda bem que todos sabiam que sua imaginação era fértil, e compreendiam.
   
            Mas eis que um fato aconteceu e tudo mudou de repente. Um boato surgiu do nada e serviu de motivo para que todos habitantes não saíssem à noite. Contava-se a boca pequena que alguns moradores juraram ter visto um lobisomem rondando a cidade na ultima semana. Até os escoteiros que tinham o costume de ir às sede a noite na Rua Garça ficaram com medo e só saiam em patrulhas e nunca sozinhos. Sempre tinha os mais entendidos que diziam que o perigo era só nas noites de lua cheia e em uma encruzilhada. “Aí então era um Deus nos acuda” O monstro passava a atacar animais e se não tivesse atacava os homens ou as mulheres. Diziam que ele adorava sangue humano. Só volta ao normal quando vem o raiar do sol.

            Naquela quinta a lua era quarto crescente. Na sede da Rua Garça todas as patrulhas estavam reunidas com o Chefe Naldinho e o Assistente Renato. Lá estavam os águias, os corujas, os touros e os elefantes. Ninguém faltou. Sabiam do grande jogo e ninguém queria perder. Seria uma “Busca ao Tesouro Perdido” na cidade. Achavam que seria um jogo estupendo. Seis pistas espalhadas pelos quatro cantos de Onda Verde. A primeira seria uma espécie de carta prego. Cada Patrulha deveria abrir em determinada hora em um ponto da cidade. O que não estava agradando a todos era o horário do jogo. O Chefe tinha determinado que fosse de seis da tarde às dez da noite. Assim ele disse o jogo seria mais difícil e para encontrá-lo seria preciso olhos de coruja. Claro os Corujas também não ficaram muito animados. A conversa de esquina do lobisomem amedrontava a todos. Menos Pedrito.

           Para mostrar coragem ele dizia que ia achar o tesouro e “caçar” o lobisomem. Mostrava os braços estendidos fazendo pose de como ia derrubar o Lobisomem com um soco somente. No meio da testa. A Patrulha se reuniu para discutir sobre o jogo. Mas Lavério um Escoteiro antigo entrou com o assunto do lobisomem. Disse que fizera uma pesquisa sobre Lobisomens e que ele se originou de uma lenda antiga. Segunda a lenda, o lobisomem seria o sétimo filho após uma sequência de filhas mulheres. Ele seria um homem normal, que se transforma em meio lobo meio homem durante as noites de lua cheia. A lenda dizia que as Quartas feiras de cinzas e a Sexta feira santa seriam os dias mais propícios para o aparecimento do lobisomem. Quando ele aparece para se saciar de sangue humano, dizia Lavério.

          Todos deveriam tomar cuidado, continuou Lavério, quando os cães ficassem agitados, não parassem de latir, pois eles poderiam ter avistado o Cachorro grande que nada mais nada menos seria o lobisomem. A Patrulha ficou muda. Ninguém dizia nada. Pedrito logo se levantou. Se ele aparecer me chame, dou um jeito nele! Todos riram. Naquela noite foram para casa juntos. O ultimo a chegar seria Pedrito. Quando Nando ficou na casa dele ele sozinho, começou a ficar com medo. Agora sem ninguém na esquina da Peçanha ele pensava se topasse com o Lobisomem. Nem pensar! Que Deus me ajude! Saiu correndo virou a próxima esquina e entrou em sua casa espavorido.

           Os dias foram passando. A Patrulha se encontrando e se preparando para o grande jogo. Na sexta feira seria entregue aos Monitores uma carta prego dando a primeira pista. Sabiam que no envelope só estaria escrito o local e o horário aonde eles os Corujas deveriam abrir. As instruções só quando abrissem. Conheciam as cartas prego. Não era segredo, mas ninguém sabia como era a primeira pista. Naquele dia era noite de lua cheia. Não ficaram na sede até tarde como era costume. Só comentaram sobre a carta que tinham recebido e “diabos” o local para abrir seria na Rua Balalaica, em frente ao portão do cemitério! Caramba! Pedrito não gostava dali. Claro seria às seis da tarde, mas mesmo assim ele não gostava do cemitério. Jurava ter visto um dia uma alma do outro mundo voando baixo em cima das catacumbas.

               Pedrito naquela noite não pensava em assombração, capetas, ou mesmo o tal lobisomem que por sinal estava sendo esquecido por toda a cidade. Assoviava baixinho uma linda canção Escoteira que aprendera no último acampamento e pensava como seriam lindo as montanhas e lagos existentes na canção. Disseram que assim cantavam os caçadores de peles daquele país, no passado, quando não conseguiam caçar nada e voltavam em seus caiaques cantando tristonhos e saudosos de suas famílias que há tempos não viam. Ao virar a esquina da Rua do Papagaio, viu um vulto correndo em direção ao Matadouro do seu Luizão. Para dizer a verdade em outras épocas Pedrito teria corrido sim em direção a sua casa, mas, como estava sem histórias para contar, resolveu correr atrás do vulto. Nem olhou para trás e quando olhou era tarde de mais.

                 Viu o vulto passar pelo matadouro e entrar no cemitério. Nove da noite ele começou a tremer e deu meia volta. Deu de cara com o Lobisomem. Enorme, parte de cima peluda, dentes enormes, olhos vermelhos chamejantes, unhas dos pés e das mãos enormes. O bicho o pegou pelo lenço Escoteiro e o levantou no ar. – Quem é você magrelo papudo? Perguntou. – Pedrito tremendo e já molhando sua calça curta respondeu chorando – Sou o Pedrito Senhor Lobisomem! – Pare de borrar de medo e seja homem! Falou o Lobisomem. – Mas sou um menino Senhor Lobisomem, bom Escoteiro da Patrulha Coruja, bom filho, bom aluno. Solte-me pelo amor de Deus! – O lobisomem chegou sua boca fedida no seu rosto e disse – Vou lhe dar uma mordida na orelha, se gostar vou tirar todo seu sangue, se não gostar quebro seu pescoço e o deixo ir embora! – Pedrito estava quase desmaiando de medo. Sem perceber quando o Lobisomem ia morder a sua orelha ele foi mais rápido. Deu uma dentada na orelha dele. O bicho berrou! Maldito disse. E o soltou levando a mão na orelha.

                Ninguém soube explicar, mas a Patrulha toda apareceu para ajudar Pedrito, estavam com seus bastões e o Lobisomem tentou correr e caiu na calçada bem em frente ao portão do cemitério. Ao cair a mascara de lobisomem se soltou e todos viram que era “Seu” Chulápio, o coveiro do cemitério. – Então é o Senhor o Lobisomem não “Seu” Chulápio, fingindo e assustando todo mundo. “Seu” Chulápio choramingando pediu pelo amor de Deus que não contassem para ninguém. Ele não tinha diversão nenhuma no cemitério. Nem mesmo uma alma do outro mundo ou um fantasma apareciam mais. Deixaram-no sozinho, pois tinha mais de seis meses que não morria ninguém na cidade.

                  A patrulha ficou com pena do “Seu” Chulápio. Prometeram não contar nada. Mas o Pedrito, ora, ora. O Pedrito contava para todo mundo da mordida que deu na orelha do Lobisomem. Todos riam e olhe, Pedrito fazia questão de passar em frente ao cemitério todas as noites de lua cheia. A cidade passou a admirar sua coragem. O Lobisomem apareceu outras vezes e não deixou de fazer alguns habitantes correrem feito loucos. Alguns juraram de pé junto que viram muitas vezes em noite de lua cheia, o Lobisomem abraçando Pedrito. Quem não gostou foi à mãe de Pedrito. Teve que dar muitas lavadas na calça de Pedrito. O jovem Escoteiro valente tinha “borrado” ela de tal maneira que quase teria sido melhor comprar uma nova.

                  Bem, deixa o Lobisomem para lá. O jogo da Caça ao Tesouro Perdido foi um sucesso. Melhor para Pedrito que junto a sua Patrulha acharam a sexta pista fácil. Claro, com a ajuda do “Seu” Chulápio que viu o Chefe colocando o tesouro no Mausoléu da família Crispim. Ninguém soube da ajuda e nem Pedrito contou para ninguém. O Tesouro? Oito canivetes suíços. Lindos. Valeu. Certo ou errado, Pedrito era um bom escoteiro. E como caçador de Lobisomens e Vampiros sua fama correu mundo. Mundo? Claro, mundo de Onda Verde, a cidade que ele viveu e morreu amando para sempre.

E quem quiser que conte outra...
       
Sou Lenda, 
porque as lendas são envoltas em Mistérios e Magias.
São uma criação dos caminhos da mente, da vaga imaginação da liberação dos silêncios da alma...





terça-feira, 9 de outubro de 2012

O Selvagem das Terras Altas. A história do Cacique Capotira. O Selvagem da Cabeça Branca.


Evitar o perigo não é, a longo prazo, tão seguro quanto expor-se ao perigo. A vida é uma aventura ousada ou, então, não é nada.

O Selvagem das Terras Altas.
A história do Cacique Capotira. O Selvagem da Cabeça Branca.

                Se havia algum que me deixava deprimido era não poder fazer alguma atividade que por um motivo ou outro pensei em fazer. Nunca em minha vida tive medo de enfrentar a estrada, as matas, campinas, os rios estreitos e largos, as cachoeiras, as corredeiras infernais e até as mais altas montanhas. Deliciava-me quando conseguia conquistar cumes imensos, atravessar rios caudalosos seja de que maneira for descendo corredeiras ou mesmo encontrar com o imponderável pela frente era motivo de orgulho. Não sei quantas vezes passei por isto. Medo? Um pouco. Muitas vezes “molhei as calças” e não me envergonho de dizer. O que me deixava agora chateado era não encontrar alguém da Patrulha para ir comigo. Estava enfezado. Israel disse que não podia – Bitelô, como vou ficar vinte dias fora? – Tãozinho então – Nem posso pensar nisto Bitelô, meu pai não vai deixar nunca. E assim um por um não encontrei ninguém que topasse enfrentar um desafio novo.

               Tudo começou quando fui cortar o cabelo na Barbearia do seu Praxedes. Era o barbeiro do meu pai há muitos anos. Eu cortava cabelo com ele desde os cinco. Ele sempre soube o que fazer e como era o corte. Estava lá entretido quando entrou um sujeito com um bigode que nunca tinha visto um igual. Enorme. Diria que os lados quase alcançavam ao queixo. Passou um tempo e ele começou a conversar com o seu Praxedes e conversa vai conversa vem disse que morava na Morada do Morto Vivo. Nunca ouvi falar. Seu Praxedes balançou a cabeça. Contou então a história mais incrível que tinha ouvido. Disse que bem longe de sua casa, bem ao norte subindo o Rio Turvo, quem sabe duas semanas a pé, existia uma serra alta, toda tomada por uma imensa floresta. Ninguém ainda tinha entrado nela. Era completamente desconhecida. Um dia um homem todo marcado e sangrando como se tivesse sido esfolado vivo chegou a sua porta pedindo ajuda e socorro. Trataram dele dentro do que conheciam e no quinto dia ele partiu. Quando ia virando a curva da Trilha da Goiabeira gritou – Nunca tentei entrar na Floresta do Diabo! Lá ainda mora o Selvagem da Cabeça Branca. Ele não conversa com ninguém. Ele esfola e mata. E sumiu junto as plantação de figo que tínhamos acabado de plantar.

              Depois não falou mais. Cortou o cabelo aparou o bigode e quando ia saindo o segurei pelo braço. Ele me olhou e vi nos seus olhos faiscarem. Conhecia este tipo de valentia de outras eras quando das minhas brigas eternas e quase desisti de perguntar. – Moço, como faço para chegar na Floresta do Diabo? Ele riu. Pegue o trem. Desça em Baixo Guandu. Suba o Rio Turvo por oitenta quilômetros. Quando avistar uma garganta entre duas montanhas, vá por baixo mais dez quilômetros. Quando ela terminar irá ver uma imensa floresta subindo aos céus e densa por causa do nevoeiro. É lá. Mas menino, nunca vá lá. O Selvagem da Cabeça Branca dizem nunca deixou ninguém vivo e os que conseguiram fugir ficaram com sequelas no corpo morrendo em poucos meses. Virou-me as costas e sumiu na Rua do Sumidouro e nunca mais o vi. À noite minha patrulha tinha marcado uma reunião na sede. Pretendíamos acampar nas férias de julho e poderíamos escolher um bom local e quem sabe fazer as grandes pioneirias que sempre planejamos e não fizemos. Poderíamos ficar oito dias acampados.
  
               Enquanto todos discutiam lembrei da conversa do Homem do Bigode Rastapé que me contou a história fantástica. Contei para a Patrulha. Riram e não deram atenção. Tentei de todo modo motivar a irmos lá. Foi Israel que colocou a questão crucial – Olhe Bitelô, Oitenta quilômetros rio acima, depois mais vinte. Você sabe. Sem trilhas, matas dos dois lados e com corredeiras tem de ser a pé. Pelos meus cálculos não conseguiremos andar mais que vinte quilômetros por dia, e olhe lá. Só aí seriam cinco dias para ir e mais cinco para voltar. Nem sabemos o que vamos encontrar. Claro que na volta uma jangada pode nos trazer mais rápido, mas e então? Subir uma montanha que ninguém nunca subiu? E se for verdade esta historia do tal Selvagem esfolador? Não somos heróis. Nem sabemos o que vamos encontrar.

               Tentei de todo modo motivar a turma. Não estava conseguindo convencer aqueles seniores destemidos. Deram todo tipo de desculpa. Parece que não era a minha Patrulha que não recusava nenhum desafio. Voltei para casa frustrado. No dia seguinte Pedrinho me procurou em casa cedo ainda – Olhe Bitelô, não dormi a noite. Só pensando nesta história do esfolador. Encontrei com o Israel e ele me disse a mesma coisa. Acho que devemos nos reunir hoje na sede e conversar de novo sobre isto. Dito e feito. A Patrulha conversou por horas. No final tudo planejado. Achávamos que quinze dias seriam suficientes. Os seis valentes seniores da patrulha Cascavel iriam entrar em ação novamente. Que nos esperasse a Floresta do Diabo. E que se danasse o Selvagem da Cabeça Branca. Ele ia conhecer uma turma da pesada! A aventura ia começar e que aventura foi meu Deus!

                Seu Josué era o Chefe da Estação da Estrada de ferro. Já nos conhecia. Aproximou-se e perguntou – Para onde vão desta vez? Até Baixo Guandu Seu Josué. E de lá? - Bem vamos tentar chegar até a Floresta do Diabo. Isto é vamos subir o Rio Turvo. – O rio eu conheço, mas esta floresta não. Cuidado com o Rio. Quando menos se espera ele sobe até dois ou três metros do seu nível.  Gente boa seu Josué. O trem parou na plataforma. Subimos na Segunda Classe e logo ele partiu. Seriam por volta de três horas de viagem. Se tudo corresse bem chegaríamos em Baixo Guandu lá pela uma da tarde. Foram preparativos imensos. Nossa ração que estávamos acostumados era de no máximo dez dias. Ração para quinze ou vinte não sei não. Mas achamos que encontraríamos pelo caminho muita verdura, peixes e quem sabe algum animal ou ave para matar a fome e economizar nosso farnel.

                   Éramos seis. Eu, Romildo, Fumanchú, Taozinho, Israel e Pedrinho. A Patrulha estava completa. Todos foram segunda e Primeira Classe quando escoteiros e agora muitos portavam a eficiência II. Não havia pata tenras. Passamos juntos por poucas e boas. Na viagem o espírito era nota dez. Cantamos, contamos “causos”, até umas piadinhas que não podiam ser contadas para os lobinhos. Meio dia e meio avistamos Baixo Guandu. Uma cidade de mais ou menos quinze mil almas naquela época. Hoje não sei. Antes de o trem entrar na estação avistamos o pontilhão do Rio Turvo. Descemos e como sempre atraiamos atenção. Não dava tempo para conversar. Partimos. Um trecho de estrada estadual e logo uma carroçável margeava o rio. Sabíamos que ela iria desaparecer em breve. Dito e feito. Uma mata rala, e logo uma mata fechada. Que dificuldade para dar cada passo. O rio naquele trecho era manso. A tarde veio chegando. Precisávamos de um lugar para arranchar. Sabíamos que não podíamos ficar próximo à margem. Pelos menos uns trezentos metros. As muriçocas nos comeriam vivos. Experiência de outras épocas.

                   A primeira noite foi calma e assim a segunda. Mas cada dia mais difícil ficava a caminhada. Na tarde do terceiro dia avistamos uma cachoeira enorme. Época da piracema. Um espetáculo a parte. Quem já viu sabe como é. Lindo! A luta dos peixes para subir rio acima é algum de espetacular. Escolhemos um belo piau de dois quilos e o Fumanchú nos fez uma gostoso assado de peixe na brasa. No dia seguinte demoramos mais de três horas para escalar a cachoeira. Não foi fácil. No quinto dia achávamos que estávamos atravessando o inferno. Que dificuldade meu Deus! Cada metro mais e mais um emaranhado da floresta. Naquele dia acho que não andamos cinco quilômetros. Se continuasse assim não chegaríamos a tal Garganta. No sexto dia a mata ficou rarefeita. Tiramos o atraso. Na manhã do sétimo dia avistamos a Garganta. Fácil de percorrer. Um gostoso riacho pedregoso e raso com águas límpidas. Na tarde daquele dia avistamos a famosa Floresta do Diabo. Imponente. Grandiosa. Misteriosa. Uma nevoa encobria o seu topo. Resolvemos dormir e prosseguir no outro dia.

                Levantamos cedo. Graças a Deus que durante os sete dias não choveu. Não foi preciso usar as lonas. Dormimos sob as estrelas. Pela manhã após um cafezinho partimos. Não havia como escolher uma local para a subida. Por toda parte arvores gigantescas e vegetação encobrindo tudo. Fomos em frente. Fumanchú nos disse que nossa ração daria para mais quatro dias. Se pudéssemos encontrar alguma caça ou pescar seria bom. Pescar ali não dava. A subida ficou íngreme. Três passos a frente um atrás. Quem sabe encontraríamos algumas frutas silvestres pensava enquanto andávamos. A mata fechada. Muito fechada. Começou a escurecer. Abrimos uma pequena clareira e dormimos, não antes de uma gostosa sopa de batata. Um bule de café nas brasas umas batatas doce e a noite chegou firme. Pegávamos no sono com facilidade.

               Acordei com o dia raiando. Vi o Romildo e o Fumanchú de pé, sem se mexer e olhando firme para frente. Tremi na base. Um índio enorme. Olhe mais de dois metros. Grande e sem ser gordo era descomunal. Cabeleira longa e totalmente branca. Sem barba. Olhos negros fitando-nos. Não disse nada. E agora, seria o tal Selvagem da Cabeça Branca? Vai nos esfolar e matar? Israel e Tãozinho se levantaram. Pedrinho sentou e se assustou. Era o menor de todos. Todos se aproximaram e ficamos juntos. Romildo o Monitor pegou seu bastão. Arma? Que nada, era leve e nem como porrete quebraria o galho. Calças começaram a ficar molhadas. Ele fez um sinal como dissesse – Venham comigo. Fazer o que? Juntamos nossas tralhas e fomos com ele.

                  Gente, o caminho era uma surpresa. Ele nos levou por uma encosta, onde uma trilha mínima e tendo como esteio um cipó enorme, atravessamos. Do outro lado uma pequena ponte pênsil que ele puxou não sei de onde, passamos e chegamos próximo a um platô, enorme. Avistamos algumas Ocas e uns vinte índios nos cercaram. A maioria mulheres e crianças. Ninguém falava nada, ninguém sorria. O tal da cabeça branca nos mandou entrar em uma oca. Enorme. Grande mesmo. Cabia lá toda a tribo isto é pensei que poderia ser uma. Um pequeno fogo no meio e que cheiro ruim. Ruim mesmo. De que seria? Romildo disse que mataram um porco do mato e ele estava em um canto da oca. Só podia ser ele. O tal da Cabeça Branca nos mandou sentar. Todos sentaram. Ele humildemente, o que estranhei começou a falar:

                 - Eu e os demais da tribo estamos pensando o que fazer com vocês. Não gostamos de estranhos. Eles nos fazem mal. Todos que aqui vem nós o matamos ou esfolamos. Um aviso para ninguém vir. Há muitas e muitas luas seus irmãos brancos mataram quase todos da minha tribo. Morávamos próximo a Aimorés, quase junto a Lagoa da Traíra. Éramos de paz. A sua FUNAI nos deu terras e fazendeiros nos tomaram. Uma noite entraram em nossa aldeia. Mataram quase todos. Eu, filho do cacique Lobo Branco, Pontiac filho do bravo Amanaki, Iraci minha namorada na tribo e filha de Caíare estávamos caçando. Quando chegamos vimos todos mortos e os brancos saqueando tudo. Nos escondemos. Levaram os corpos e os enterraram na entrada da Aldeia, mais de cinco quilômetros onde morávamos. Choramos muito. Mais cinco crianças correram até nós. Estavam vivos. Eu tinha dezesseis anos e era o mais velho. Resolvemos fugir.

                - Descobrimos esta floresta depois de dias de viagem pelo Rio Turvo. Achamos que quase ninguém viria aqui. Na Garganta Cajuru montamos um ponto para observar todos que se aproximam. Voces passaram por ela. Vimos todos os seus passos. São meninos como eu era. Sei que vieram por aventura. Eu também fui assim. Hoje somos menos de trinta. Iraci me deu oito filhos. Paramos. Não podemos crescer mais. Um livro sagrado foi escrito. Todos sabem o que diz lá. Aqui temos muita água e fizemos uma represa para criarmos peixes. Temos uma horta com muitas verduras. Conseguimos mudas de cana, de mandioca e de abóbora. É nosso sustento. Não queremos riquezas e aqui sabemos do ouro tão ambicionados por voces. Amanhã vamos decidir seus destinos. Ficarão na Oca de Pontiac. Não saiam de lá.

                 Saiu e fomos levado por Pontiac até sua morada. Custamos para dormir. Pela manhã eu já estava de pé quando uma indiazinha de uns doze anos entrou e disse que o Cacique Capotira (o tal da cabeça branca) nos chamava. Em uma roda de índios nos entregou nossas mochilas e algumas frutas. Disse que podíamos ir embora. Não pediu para ficarmos calados só disse que se contássemos a história da tribo e onde estávamos ele sabia que não iam durar muito. Deu a cada um uma pepita de ouro. – Façam o que quiserem. Pegamos nossas mochilas e partimos com ele a frente. Levou-nos até a Garganta Cajuru. Mostrou-nos muitas piteiras secas. Disse que com oito poderíamos descer o rio facilmente. Quando a corredeira aumentar saiam da água. A cachoeira esta próxima. Partimos.

                  Para dizer a verdade eu chorei. Gostei demais da tribo. Apesar de pouco tempo ficamos orgulhosos em conhecer todos. Cinco dias depois chegamos em Baixo Guandu. Eu, Romildo, Fumanchú, Taozinho, Israel e Pedrinho fizemos um juramento de não contar para ninguém. Foi uma das nossas maiores aventuras. Sempre quando acampávamos a noite em fogo de conselho ou em uma simples conversa ao pé do fogo, rememorávamos com saudades daquela aventura que ficou gravada em nossa mente para sempre. Os anos passaram e eu passei com eles. Há vinte anos atrás encontrei com Romildo. Sei que já foi para o grande acampamento. Disse-me que um dia soube pelos jornais a história da tribo dos Cabeças Brancas. O governo deu a eles as terras e nunca mais foram importunados por brancos.

                   Acampamentos, excursões, grandes aventuras. Elas ficam gravadas para sempre em nossa mente. Assim são os escoteiros. Não sabem se esconder em sede. Partem em buscas de suas aventuras. Seja ela simples, seja ela com grande perigo. Não importa. Eles sabem até podem ir. Saudades de Capotira, de Pontiac, de Iraci e daqueles amigos sinceros que fizemos. Espero que até hoje estejam felizes, pois lá em sua tribo sentiam-se libertos, e só o sol e a lua sabiam como a felicidade fazia parte de todos aqueles Cabeças Brancas. Quem sejam muito felizes. E as pepitas de ouro? Risos. Com ela papai terminou nossa casinha na Pastoril!

O amor vive de repetição. Cada um de nós tem, na existência, no mínimo uma grande aventura. O segredo da vida é reeditar essa aventura sempre que seja possível.