Histórias e contos escoteiros.

Histórias e contos escoteiros.
Feitas para você se divertir!

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Era uma vez... Em uma montanha bem perto do céu...


Prefácio.
Era uma vez... Em uma montanha bem perto do céu...

                         Bem vindo a este Blog das mais belas Histórias Escoteiras. Já são milhares delas mostrando como é linda a vida escoteira, suas histórias, suas aventuras e tenho certeza que sendo Escoteiro irá gostar. É bom demais contar histórias. Qualquer uma, seja escoteira ou não. Quantas eu contei ou escrevi? Milhares talvez! Mesmo com minha velhice rabugenta e meu pulmão revoltado não paro de escrever. Aprendi a contar quando em um fogo de conselho qualquer a escoteirada ou a lobada me pedindo uma história com aquele olhar enigmático, olhares incrédulos e outros que se transportavam para dentro do contexto querendo viver toda a história contada. Todo contador de histórias se sente feliz ao ter tantos bons ouvintes.

                         Uma história de fantasma, em uma floresta escura era sucesso absoluto. Um Fogo de Conselho se apagando e você fazendo gesticulando, como se os fantasmas estivessem ali marcavam cada um dos ouvintes Badenianos. Bom demais. E o susto do grito de horror no final? Masoquista Chefe? Não, depende da história. Se ela tem um fundo de exemplos pode contar. Tem seu valor.  “Não há quem resista a boas histórias” escoteiras ou não. Nas páginas dos livros, dos jornais e das revistas, na tela do computador e na televisão, narradas ao pé do ouvido ou transmitidas pelo rádio... Seja lá onde for elas encantam, amedrontam, fazem rir ou chorar, assustam e são capazes de levar ainda que em pensamento há lugares nunca antes imaginados.

                     Não tem quem não se emociona ao contar uma historia e ter ouvintes hipnotizados com a narrativa. Tem chefes que adoram. Quando Chefe de Tropa e Alcatéia adorava contar. Em cursos que dirigi contei muitas. E quem resiste a uma história bem contada ao pé do fogo? Vendo o crepitar da fogueira, olhando as fagulhas que se espalham no céu, e como um lobinho feliz abre os olhos e ouvidos para ouvir e viajar na história do Chefe? A mente está ali fixa no conto, que vai desenrolar uma aventura e ele parte célere junto à história com as personagens. Ele se transforma, é um herói, um explorador, um grande acampador dos seus sonhos inimagináveis.

                     Bom saber que veio a procura de boas histórias. Faço questão que em todas elas a Lei e a Promessa tenha seu lugar. Mas chega de conversa. Fique a vontade. Escolha uma e entre nos sonhos das mais belas histórias Escoteiras.


Sempre Alerta!  

A lenda do Arco-Íris.




Lendas da Jangal.
A lenda do Arco-Íris.
Uma História para lobinhos.

                        Após o jantar, eis que a Akelá Lucinha pede ajuda as matilhas para lavarem as vasilhas e dar uma folga a Vovó Maria. Os lobos ficaram encantados com ela quando na noite anterior contou a história do Boi Lavrador. Esperavam com muita ansiedade outra história por isto ninguém se negou a ajudar. Tão logo terminaram correram até Vovó Maria e ela sorrindo prontamente atendeu ao pedido dos lobos. Foram até o pátio gramado, O Balu e a Kaa acenderam um lampião e todos de olho na luz ofuscante viram quando Vovó Maria se elevou no ar e começou a contar:

                       Era uma vez... Em uma cidade muito linda onde todos aprenderam a sorrir e cantar eis que morava em casebre em uma rua sem nome uma família que não era feliz. – Ele se chamava João e era pobre. O pai tinha morrido e era muito difícil a mãe manter a casa e sustentar os filhos. Um dia ela pediu-lhe que fosse pescar alguns peixes para o jantar. João reparou numa coisa a mexer-se no meio do arvoredo… Viu um pequeno Coelho Amarelo… Aproximou-se sorrateiro, abaixou-se, afastou as folhas devagarinho e viu que ele estava sentado num minúsculo banco de madeira. Costurava um colete verde com um ar compenetrado enquanto cantarolava uma musiquinha.

                       - À frente do João estava um Coelho. Um Coelho Amarelo. Rapidamente esticou o braço e prendeu o Coelho entre os dedos. – Boa tarde Senhor Coelho. - Como estás João? – Respondeu o Coelho com um sorriso malicioso. João não sabia, mas o Coelho tinha montes de truques para se libertar dos humanos. Inventava pessoas e animais a aproximarem-se, para que desviassem o olhar e ele pudesse escapar. – O Coelho astuciosamente perguntou a João: - Diz-me lá, onde fica o tesouro do arco-íris? Eis que na curva do caminho apareceu um touro a correr para o João, e o Coelho espertamente gritou para o João que vinha lá um touro bravo a correr bem na sua direção. Ele assustou-se, abriu a mão e o Coelho desapareceu.

                        - O João sentiu uma grande tristeza, pois quase tinha ficado rico. Tinham contado para ele que quem prende um Coelho Amarelo encontra o Arco-Íris e fica rico. E tristonho voltou para casa de mãos a abanar, sem ter pescado peixe nenhum. Mal chegou contou à mãe o sucedido. Ela, que já conhecia a manha dos Coelhos Amarelos, ensinou-o: - Se alguma vez o encontrares, diz-lhe que traga o tesouro imediatamente. Passaram-se meses. João um dia encontrou de novo o Coelho Amarelo. O viu ao voltar para casa, sentiu os olhos ofuscados com um brilho intenso. O Coelho estava sentado no mesmo pequeno banco de madeira, só que desta vez consertava um dos seus sapatos.

                         - O Coelho sabidamente gritou para João – Cuidado! Vem lá o gavião! – e fez uma cara de medo. – Não me tentes enganar! – disse o João. – Traz já o pote de ouro! – Traz já o pote de ouro ou eu nunca mais te solto. – Está bem! – concordou o Coelho. – Desta vez ganhaste! O pequeno Coelho fez um gesto com a mão e imediatamente um belíssimo arco-íris iluminou o céu, saindo do meio de duas montanhas e terminando bem aos pés do João… Até esconderam o pequeno pote… As sete cores eram tão intensas que precisaram esconder o pequeno pote de barro, cheio de ouro e pedras preciosas, que estava à sua frente.

                      - O Coelho Amarelo abaixou-se, com o chapéu fez-lhe um aceno de despedida, e gritou, pouco antes de desaparecer para sempre: – Adeus, João! És um menino esperto! Terás sorte e serás feliz para sempre! E foi o que aconteceu. O pote de ouro nunca se esgotou e o João e a sua família tiveram uma vida de muita fartura e de muita alegria. E como toda lenda o pote nunca se esgotou!

                      E a lobada foi dormir feliz sonhando um dia também encontrarem um Coelho Amarelo para ver o Arco-Íris e o pote de ouro!


Nota de rodapé: Publiquei há meses esta história. Foi-me pedido para republicar. Histórias de crianças encantam e prendem a mente dos pequeninos. Dizem que os contos de fadas e lendas transmitem aos lobos de variadas formas, a idéia de que a luta contra graves dificuldades da vida é inevitável e faz parte do ser humano da sociedade dos lobos. Se um lobo não se furtar a elas e as enfrentar com coragem e determinação acabará por vencê-las. Espero que os que não conhecem não deixem de contar para seus lobinhos. Melhor Possivel!


segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Um beijo e depois morrer!


Lendas Escoteiras.
Um beijo e depois morrer.

                          Ele gostava de sorrir brincar e cantar. Na escola foi por insistência de sua mãe. – Charles, ela dizia, um dia ou vou partir e você vai ficar sozinho no mundo. Não seja dependente de ninguém. Muitos o chamavam de negro, mas ele não se importava. Quando a tarde chegava ficava na porta de seu barraco esperando sua mãe chegar. Ela saia cedo, fazia o café deixava no forno seu almoço e quando chegava fazia o jantar. Ele nunca teve um ou uma TV colorida. Sua mãe aproveitava as noites antes de dormir para lhe contar belas histórias na poltrona desbotada.

                        Ele amava as histórias de sua mãe. Em uma noite chuvosa e com lágrimas nos olhos disse que seu pai tinha ido para o céu. Ele não entendeu, mas ela o abraçou no final da história e o beijou varias vezes no rosto. Nunca esqueceu o que ela disse. – Eles trabalhavam em uma fazenda. Seu pai ajudava o dono com consertos de cercas e capina. Um dia fazia uma cerca próximo ao Rio Verde e uma enorme tempestade se formou. Um raio caiu sobre ele. Morreu na hora.

                      Um mês após a morte o Senhor da fazenda rudemente disse para eles desocuparem a choupana. – Eu preciso de alguém para ajudar na lida da fazenda. A senhora e seu filho não serve para nada. Tem uma semana para sumir daqui. Fazer o que? Ela partiu para a cidade grande. Dormiram ao relento por vários meses. Foi com muita luta que conseguiu um barraco na favela do Engenho. Ele aprendeu que precisava ser o homem da casa quando ela saia para trabalhar.

                    Todas as noites imaginava qual história sua mãe ia contar. Ela repetia muito, mas ele adorava. Gostava do Neguinho do Pastoreio e Pinóquio. Um dia na escola Norberto um menino rico apareceu de escoteiro. Ele não tirou os olhos. Perguntou a sua mãe se podia entrar. Ela riu e disse que não era para eles, lá só tinham ricos e brancos. Ele tinha orgulho de sua cor e não entendeu. Na sua ingenuidade de menino sentiu que não tinha seu lugar na sociedade. Um dia ela o levou e para surpresa ele foi aceito. Os chefes foram simpáticos e ele gostou da sua Patrulha Lobo. Em pouco tempo se enturmou. Sua mãe um dia contou uma história de escoteiro que ela tinha lido. Foi demais.

                     Na Patrulha contaram para ele que foi “adotado”. O Grupo Escoteiro pagava suas despesas. – Mãe, não podemos pagar? Não meu filho. Estude para ser alguém e você não vai depender de ninguém. Ele gostava de sua Patrulha, de acampar e excursionar. Aprendeu a cozinhar e fazer pioneirías. Charles cresceu. Passou para os seniores. Estudava a noite e trabalhava durante o dia na loja do seu Odorico. Pediu para não trabalhar aos sábados a tarde. Ele precisava ir à reunião dos escoteiros. Ganhava metade de um salario mínimo e ainda ajudava sua mãe.

                 Um dia as meninas chegaram. Tinham agora duas patrulhas completas com seis cada uma. Não se enturmou com nenhuma delas. Era arredio e pensava que elas não iam aceitar um escoteiro com sua cor. Um sábado Nathalya chegou. Cabelos vermelhos longos, um sorriso encantador. Sorriu para Charles e disse até semana que vem. Ele não sabia o que dizer. Não sabia como conversar com uma moça. Tinha vergonha. David o Monitor era o bonitão da Tropa. Ela nunca seria para ele.

               Em uma excursão no Vale Florido pararam próximo a uma linda cachoeira. Ele não tirava os olhos dela. Ela o convidou para sentar em uma sombra onde uma linda Copaíba se destacava. Ali alegre e gentil ela contou muitas coisas sobre a sua vida. Charles encantado não sabia o que dizer. Afinal era negro ela branca ruiva de cabelos vermelhos. Ela insistiu pra que ele contasse um pouco de sua vida. Contar o que? Que morava em uma favela e lutavam para sobreviver? - O apito do Chefe tocou três vezes. Reunir. A hora maravilhosa daquele momento mágico havia acabado. Eles levantaram e para surpresa de Charles Nathalya o abraçou e o beijou no rosto. Ele não sabia o que fazer. Não foi um beijo que seus amigos se gabavam. Foi um beijo lindo, um roçar de lábios olhando nos olhos e sentido seu perfume que exalava e ele audacioso acariciou seu rosto, seus cabelos e de novo o apito do Chefe.

              Foi um êxtase de momento. Uma quimera de segundos, que Charles nunca esqueceu. Na semana seguinte Nathalya não veio. Charles torcia as mãos, olhava para o portão e quando a reunião terminou perguntou ao Chefe o que houve. O Chefe disse que ela não voltaria mais. Era escoteira em outra cidade. Ela tinha pedido para participar das reuniões enquanto estivesse aqui em férias.

                   Charles ficou em estado de choque. Uma dor incrível cravou em seu coração. Sua mãe o abraçou e ambos ficaram assim por um bom tempo com os olhos molhados com lágrimas que insistiam em rolar na sua face. Charles nunca encontrou outra moça para namorar. Não podia esquecer o momento mágico do afago e do beijo entre ele e Nathalya. O tempo passou. Charles cresceu. Formou-se como Técnico Mecânico. Sua mãe velhinha não trabalhava mais. Ele comprou uma casinha mobilhou e comprou uma Televisão. Ela ainda contava histórias para ele. Charles continuou Escoteiro colaborando sem ser um chefe. Durante toda sua vida uma vez por mês Charles vestia seu uniforme, embarcava em um ônibus e descia próximo ao Vale Florido. Sentava na sombra da Copaíba e sorria lembrando o dia mais feliz de sua vida ao lado de Nathalya.

                  Ali sozinho ele Imaginava seu perfume, ouvia sua voz e acariciava o ar pensando ser os seus cabelos lisos vermelhos. Todo mês ele voltava no tempo no Vale florido. Nunca esqueceu o roçar dos lábios de Nathalya em seu rosto. Era incrível esta visão virtual. Visão de um grande amor que nunca morreu. Charles fez setenta anos. Ainda insistente ia aos domingos ao Vale Florido. Com passos trôpegos procurava a mesma árvore. Nunca esqueceu o amor que morava em seu coração. Durante toda sua vida nunca mais beijou ninguém. Não sabia beijar e nem queria esquecer o beijo da Nathalya.

                   Charles morreu na primavera. A Copaíba sentiu sua falta. O perfume que ela deixou em sua sombra nunca mais se esvaiu. Nas suas exéquias Charles viu Nathalya em uma luz brilhante.  Ela o convidava para ir viver em outra dimensão do universo. Ele estático viajou pelo espaço até a Copaíba do Vale Florido. Sentou com ela mãos dadas. Nathalya sorrindo disse que o esperou por todo este tempo. Charles sorria. Sabia que agora estariam juntos para sempre e ele voltava a viver um grande amor que nunca esqueceu!



Nota de rodapé: - Ele era um Escoteiro de cor negra, que morava em uma favela, ela uma guia escoteira de cor branca, olhos verdes e cabelos vermelhos como o sol. Um amor impossível. Ele viveu para ela toda sua vida mesmo não a tendo ao seu lado. Eles um dia se encontraram na mesma árvore e no mesmo lugar. Foi então que puderam viver o seu grande amor! 

domingo, 17 de setembro de 2017

Contos escoteiros. O sonho não acabou.


Contos escoteiros.
O sonho não acabou.

                    Naquela tarde, ao findar a reunião ele me procurou: - Chefe, e o Jamboree? – Eu sabia o que ele queria dizer. Não só ele, mas toda a tropa sonhava em ir. No último alguns que ainda estavam na tropa me disseram que eu devia fazer uma arregimentação de pais e com eles montar uma promoção social visando levar a todos ao Jamboree que iria se realizar dali a dois anos. Pensei no assunto. Convidei pais e vi nos olhos deles que poderiam ajudar, mas não acreditavam que ia dar certo. Descrevi a viagem até o local, o preço de alugar um ônibus e a taxa de cada um a ser paga sem alimentação. Eles riram baixinho.

                   Vi que conseguir aquela quantia para levar toda a tropa seria quase impossível. Mas não disseram que o possível eu faço agora e o impossível daqui a pouco? Bom ver estas metáforas. Sinceramente eu não acreditava nelas. Nosso grupo era de uma comunidade pobre, onde a maioria dos pais quando tinham trabalho não recebiam mais que um ou dois salários mínimos. A maioria deles desempregada vivia a custa de trabalhos esporádicos. Toquinho que me perguntou sempre sonhou em participar de um. Dizia a todos que um dia seria “doutor” e iria pagar a taxa de cada um para ele participar.

                   Quando Toquinho foi levado às pressas para o Hospital Samaritano, eu fui correndo para saber seu estado. Uma hemorragia interna estava levando meu escoteiro para o céu. Na UTI ele me acenou. Seus olhos brilharam quando em posição de sentindo dei a ele meu Sempre Alerta! Vi que ele queria responder, mas não conseguiu. Morreu uma semana depois. Não foi o primeiro. Sempre pensei porque fui fazer um Grupo Escoteiro em uma comunidade como aquela. Gente humilde, simples, meninos esfarrapados a perambular pelas ruas muitos gazeteando para não estarem nas salas de aula. 

                     Sempre fora uma aventura sair com eles para acampar. Usava o sistema de ração A, B e C. Cada letra significava uma ou duas refeições em que eles deveriam levar um pouquinho em suas mochilas. Mochilas? Fizemos com uma lona velha ganha de um caminhoneiro. Eram batutas e quando ficaram todas prontas foram sorrisos aos montões. O material de sapa a gente ganhava, uma panela aqui outra ali e assim fomos formando a tralha de Patrulha. Para acampar ou excursionar enfrentávamos quilômetros a pé até a estação de trem. Viajamos de segunda classe e descíamos naquelas de cidades pequenas onde podíamos descobrir algum local onde acampar.

                     Tentei acompanhar pelas redes sociais os apelos, os pedidos de muitos chefes para que nossa Liderança Nacional sentisse que a programação de taxas não ia caber no bolso de muitos. Não vi nada em que ela pelo menos deu uma resposta. Seria um Jamboree no estado mais rico da federação. Quando foi escolhido seu dirigente disse que os preços seriam de acordo com a condição de cada um. Nem vou comentar quanto estão cobrando sem alimentação. Só esta taxa já seria absurdamente impossível à maioria ou todos escoteiros da tropa participarem.

                      Toquinho se foi. Seu sonho não irá tirar o sono de muitos. Sempre teremos aqueles que estarão presentes. Eles tiveram a sorte de nascerem em famílias de posse. Muitos chefes já alardeiam seu programa para estar presente. Parabéns a eles. Nunca desisti. Eu sabia que a tropa nunca iria poder participar. Porque não fazer o Jamboree deles? Um belo acampamento. Os pais sorriram quando contei a eles minha ideia de acampar próximo a Serra da Mantiqueira. Prometeram ajuda. Não seria difícil conseguir um ônibus na prefeitura. Nem tão difícil também ver que alguns supermercados poderiam contribuir com a alimentação.

                      Faremos nosso Jamboree. Taxas? Cinco reais por escoteiro! Afinal sigo a instrução do nosso Chefe Geral BP. Não foi ele quem disse que o escotismo foi criado para os meninos humildes, para uma juventude que moravam em bairros simples e assim pudessem receber outro tipo de educação? Tem hora que quase desanimo. Dá vontade de largar tudo, dá vontade de cobrar promessas de candidatos a cargos escoteiros que quando eleitos esqueceram que os pobres também tem direitos.

                     O tempo é o senhor da razão. Um dia nossa liderança irá ver que o escotismo não é para ricos. Os direitos do pobre e do rico no escotismo são iguais. Compete a eles dar todas as condições para que os sonhos de jovens como Toquinho possam se realizar. Não culpo ninguém. A vida é assim uns podem e não tem outros que tem e podem nem agradecem ao senhor. Nosso escotismo não pode visar lucros. Quem faz e pensa assim nunca será lembrado na história escoteira.    

                     Eu farei minha parte. Se puder ajudar o farei onde os jovens precisam de mim. Nunca esqueço o que nosso mestre disse: - Primeiro tive uma ideia, depois vi um ideal. “Agora temos um movimento, e se alguns de vós não tiverdes cuidado acabaremos por ser uma simples associação”! – Que nossos lideres reflitam sobre isto.



Nota de rodapé: - Apenas um conto. Uma história tirada da minha imaginação. Pode haver histórias como estas em tropas escoteiras em nosso Brasil? Tem hora que me pergunto se este é o escotismo que queremos. Eu sempre sonhei em uma associação que se preocupasse com seus associados. De todos, não importando sua classe social e fazendo tudo para conseguir os meios necessários para dar a cada um a mesma possibilidade de outro mais abastado. Sei que meu conto poderá resultar para muitos como “piegas”, mas estas são minhas armas. E da minha escrita eu não abro mão.

sábado, 16 de setembro de 2017

A Lenda da Piripirioca.


Lendas Escoteiras.
A Lenda da Piripirioca.

                     Foi em um acampamento na Foz do Rio Doce que conheci Kaiowa, um índio da família dos Botocudos. Eu era meninote e ele troncudo não tinha mais que dezesseis anos. Não foi a primeira vez que atravessei o Rio Doce na foz do Rio Tibiriçá entre Conselheiro Pena e Aimoré, para acampar nas margens deste rio que sempre me seduziu pela sua beleza selvagem e misteriosa. Foi o meu primeiro acampamento que fiz sozinho como sênior, um desafio para ver se podia sobreviver em uma floresta desconhecida. Kaiowa chegou e sentou em volta do fogo. Nem levantou os olhos para me olhar. Era como se ali ele fosse o senhor daquela floresta e não tinha nenhuma satisfação a me dar. Fingi de morto e nada disse. Havia uma pequena chaleira com café quente nas brasas da pequena fogueira e ele com firmeza levantou o bico da chaleira e bebeu o café quente sem reclamar.

                     Ficamos ali eu e ele calados e sem olhar um para o outro. Confesso que não tive medo. Sentia nele uma áurea de índio bom e isto trazia uma grande paz entre nós. Deste acampamento a “escoteira” (aquele que anda só) surgiu uma amizade que atravessou os tempos e durou enquanto ele morou na Aldeia da Tribo “Manau”. Sempre que podia eu o visitava na curva da onça do rio Tibiriçá. Só uma vez me convidou a visitar sua tribo. Uma vez e nunca mais. Pediu-me segredo de tudo que visse e eu como bom Escoteiro disse a ele que tinha uma só palavra e minha honra estava acima de tudo. Não perguntei por que, pois se ele queria assim devia ter um motivo muito forte para manter o segredo na tribo. Foi uma amizade de dois meninos homens que se manteve por muito tempo. Sempre ficávamos as noites até de madrugada em volta do fogo ouvindo o silêncio da noite ou mesmo suas histórias que contava quando lhe apetecia. Esquecia até mesmo o frio cortante do vento norte que subia o rio.

                  Kaiowa me ensinou muitas técnicas mateiras. Como pescar sem vara, Subir em árvores com timbiras em volta, o melhor cipó para amarras e até fez questão de me mostrar as melhores frutas da selva assim como plantas medicinais. Eu gostava das histórias que ele contava de sua tribo. Foram dezenas delas nas noites com lua ou sem lua. Para um índio que pouco falava, ele adorava contar histórias.  A lenda da Piripirioca foi a ultima que me contou. Tivemos que dar adeus um ao outro depois que me casei e vida me levou para outros lugares nunca imaginados. Ele se serviu de mais alguns goles do meu café na chaleira e me contou como se fosse uma lenda a história da Piripirioca.

                 No seu estilo puro de índio brasileiro, cruzou as pernas, respirou o ar puro da floresta e começou: - Vado Escoteiro a tribo Manau vivia num lugar muito bonito desta floresta. Esta tribo era conhecida pela beleza das mulheres indígenas. Um dia um índio estranho estava pescando no lago próximo. Era Piripari que pescava pirás. Quando o bando de cunhãs (mulheres) da tribo Manau o avistou, elas se aproximaram para tentar conhecê-lo melhor. Uma delas falou: - “De que terra vens moço bonito? Tu és lindo feito o amanhã.” - Piripari não as olhou, mas uma das índias botou a mão no seu ombro. Mal a mão tocou o moço, ficou toda perfumada. As cunhãs ficaram maravilhadas.

                   - “Moço, conta para nós qual é o teu segredo. Se não contares, o levaremos preso para nossa taba.” Mas, ele apenas gritou: “Meu nome é Piripari!” Ao gritar, ele pulou rapidamente no rio, e na linha de pescar levava três cunhãs. As outras moças pediam para ele não ir embora. “Piripari, não vás, somos amigas e te queremos bem.” Elas esperaram por muito tempo que ele voltasse. Sentaram-se na praia e esperaram longamente pelo moço. No entanto, Piripari não voltou. Apenas o seu cheiro ficou no vento, um cheiro embriagador que envolvia toda a floresta. Lá longe, Piripari libertou as moças presas à linha de pesca. Ele disse a elas: “Não queiram pensar no meu amor. Ainda não é meu tempo de amar, não me esperem mais, cunhãs.”.

                  - Apaixonadas, porém, as cunhãs permaneceram inconsoláveis na espera. Depois de muito tempo, vendo a tristeza das cunhãs, apareceu na tribo um jovem feiticeiro chamado Supi. Querendo ajudar as moças, ele disse: - “Se o cabelo de vocês tocarem Piripari, ele ficará preso”. Quando a lua cheia vier, vão até a praia onde ele costuma ficar e cada uma leve na mão um fio de cabelo para amarrá-lo. ’ - No dia marcado, as cunhãs foram para o rio. Ela viram Supi que estava pescando. Supi puxava a linha e tirou um peixe. Ele enterrou o peixe na areia. A lua subia bem alto. Elas viram que o peixe virava Piripiri. As cunhãs, devagarinho, com os fios de seus cabelos amarraram Piripari. Elas vibravam de contentes.

                  - Enquanto elas o amarravam ele olhava para o céu e cantava uma linda cantiga, mas ele não se mexia. Elas se queixaram a Supi: “Nós o prendemos, mas ele nem se deu conta.”- O feiticeiro tratou de tranquilizá-las: - “Enquanto ele está cantando a alma dele passeia pelo céu, entre as estrelas. Não toquem no corpo dele, do contrário ele desperta e a alma ficará no céu. Logo que ele despertar, podem levá-lo para casa.” - No entanto, Piripari demorava a acordar. As cunhãs começaram a perder a paciência e diziam: - “Acorda Piripari”. ’ - Puraê, uma das cunhãs, chegou a tocar no ombro num gesto muito impaciente.

                  - Neste momento, Piripari se calou e a lua tornou-se escura. Soprou um vento frio e as cunhãs caíram em sono profundo. Quando elas acordaram, no mesmo local onde haviam deixado o corpo de Piripari estava uma pequena planta, uma plantinha apenas, mas de um perfume encantador. Neste instante, Supi se aproximou: - “Me escutem, cunhãs Manaus. Quem quiser cheiro de encanto, use no banho esta planta que desde hoje passará a se chamar Piripirioca, a planta que nasceu de piripiri.” E Puraê, a cunhã mais desobediente, de castigo, caiu nos braços de um sapo cururu gigante. - As outras cunhãs, entristecidas, voltaram para a taba. Nunca mais Piripari foi visto à beira do rio ou cantando uma cantiga. Até hoje as caboclas da Amazônia usam a planta cheirosa para conquistar outros moços.

                   Nunca mais voltei às terras de Kaiowa. Nunca mais pesquei e acampei no rio Tibiriçá. O tempo se encarrega às vezes nos afastar daqueles que amamos. Não sei se Kaiowa ainda vive, sei que ele mora para sempre em meu coração e suas histórias ficaram marcadas em minha mente por toda a vida.


Nota de rodapé: - "Procure conhecer-se, por si próprio. Não permita que outros façam seu caminho por você. É sua estrada, e somente sua. Outros podem andar ao seu lado, mas ninguém pode andar por você." - (Art. 3° do Código de Ética do Índio Norte-Americano).

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

E Leo Marcondes recebeu seu Cruzeiro do Sul.


Lendas da Jângal.
E Leo Marcondes recebeu seu Cruzeiro do Sul.

                 ... Era uma vez... Um menino. Não um simples menino, muito mais que isto. O melhor é contar a historia. Tudo começou... Leo Marcondes estava sorrindo. O sorriso de um vencedor. Toda a Alcatéia sorria com ele. Lilian, a Bagheera, foi lhe dar um forte abraço. Sussurrou no seu ouvido – Leo estou orgulhosa de você! Eu sabia que você ia conseguir. Lembra-se do que lhe disse? Mas, olhe, foi seu esforço. Seu único esforço para agora ostentar o mais alto distintivo dos lobinhos. Rosaldo, o Baloo, também foi lhe dar um abraço. Sorriu. – Parabéns, Leo Marcondes! Seu desafio foi vencido. Ainda terão outros na vida, mas, um, você lutou e conseguiu.

                 Foi um sábado de festa na alcateia. Não era uma conquista comum. Todos sabiam disso. Lembravam-se quando, há três anos, Leo Marcondes adentrou na alcateia. Ninguém acreditava que ia dar certo. Leo era portador da Síndrome de Down. Dona Etelvina, sua mãe, uma pobre faxineira que nada entendia disso, assustou-se quando os médicos lhe disseram quando Leo Marcondes nasceu. Ela olhava e balançava a cabeça. Não entendia nada. As palavras dos médicos só a confundiram. Dona Etelvina ficou grávida do seu antigo patrão que não assumiu a paternidade.

                 Seu patrão mandou-a embora e ela não se intimidou. Conseguiu que uma creche tomasse conta de Leo enquanto trabalhava. Um dia apareceu uma assistente social e achou um absurdo Leo ficar misturado com outras crianças que não tinham nada a ver com ele. Foi preciso muito choro e pedidos chorosos para ele continuar. Dona Etelvina conhecia um vereador que a ajudou. E assim o tempo passou.

                Quando ele fez sete anos nenhuma escola o aceitou. Todos diziam a mesma coisa – Não estamos preparados. Arlete ficou sabendo através de uma amiga em cuja casa dona Etelvina fazia limpeza uma vez por semana. Arlete era a Akelá de uma alcateia de lobinhos e lobinhas. Arlete procurou conhecer o que era a Síndrome de Down. Não era um bicho de sete cabeças. Fora a aparência facial, o portador podia desenvolver quase todas as atividades normais de um menino comum.

                Arlete se informou junto a médicos que conhecia. Disseram a ela que as crianças portadoras encontravam-se em desvantagem em níveis variáveis face às crianças sem a síndrome. Ela não sabia se Leo Marcondes tinha alguma anomalia que poderia afetar seu sistema corporal. Leu muito sobre grupos escoteiros que se dedicavam a pessoas portadoras de deficiências especiais. Sempre achou um trabalho formidável. Ali deveriam existir os autênticos escotistas. Não devia ser um trabalho fácil. E agora Arlete pensava em levar Leo Marcondes para a alcateia.

                Muitos acharam uma ideia absurda. O que vão achar os outros lobinhos? Só ouviu senões e ninguém para dizer: – Ótima ideia! Não foi preciso um fonoaudiólogo e um terapeuta para ver se a articulação e os sons de fala de Leo Marcondes prejudicavam sua maneira de ser. Quando o conheceu ela sentiu um enorme carinho e admiração por ele. Acreditou que seu grupo escoteiro seria o primeiro. Iria fazer tudo para que Leo Marcondes se desenvolvesse como os outros suas tarefas e habilidades.

              Convenceu a dona Etelvina de que seria muito bom para Leo Marcondes. Não só agora, mas para toda a sua formação, visando uma vida adulta como qualquer um dentro de nossa sociedade. Só não esperava as dificuldades encontradas em seu próprio grupo. Mesmo conversando com o Diretor Técnico, com diversos chefes e diretores eles só tinham dúvidas. Exceto seus auxiliares na alcateia, ninguém para lhe dar um “tapinha” nas costas e dizer – Parabéns vá em frente! Conte comigo!

              Ela sabia que as escolas da cidade não estavam preparadas. Sabia que a educação e experiência escolar ajudariam e muito a desenvolver em Leo Marcondes sua própria identidade, para além dos limites do lar. Arlete já tinha tomado sua decisão. Ela iria lutar para que os resultados fossem demonstrados aos professores dele que nada fizeram e principalmente a sua mãe, cujo sacrifício nunca teve limitações. Isso mesmo! Convenceu uma amiga diretora de um colégio que o admitisse. Era como ela, uma batalhadora.
         
               Leo Marcondes assustou no primeiro dia. Foram várias reuniões para ele entrosar. Um dia pediu seu uniforme. Os lobinhos se quotizaram e deram um uniforme novo para ele. O Baloo o ensinou separadamente para a promessa. Todo o grupo escoteiro estava presente. Mais de 120 membros. Ali, reunidos em uma grande ferradura para assistir a promessa de Leo Marcondes. Leo Marcondes foi convidado para dirigir o Cerimonial de Bandeira.  Nunca um lobinho havia dirigido.

               Arlete chamou o primo de sua matilha e pediu para ele apresentar o novo lobinho que iria fazer a promessa. Foi demais. Muitos choraram. Uma palma escoteira explodiu na ferradura. Leo Marcondes sorrindo disse: – Grato e grato e muito gratíssimo. Contaram-me que foi o início da virada de Leo Marcondes. Sua mudança foi da água para o vinho. Agora só falava em ser Cruzeiro do Sul. Seis meses e já possuía a segunda estrela. Mirtes a Kaa o preparou dia após dia. Finalmente Leo Marcondes iria receber seu Cruzeiro do Sul. Uma cerimônia que de novo marcou e emocionou muita gente já que não eram tantos Escoteiros da Pátria e Liz de ouro.

              Até mesmo o Comissário do Distrito estava presente. A mãe de Leo juntou um dinheirinho, fez muitas guloseimas e os escoteiros se divertiram na Festa de Leo Marcondes. Uma surpresa aconteceu. O distrital entregou a Insígnia de Madeira a Arlete. Leo Marcondes a abraçou chorando. Vi o crescimento de Leo Marcondes na tropa. Não conseguiu o Liz de Ouro. Dependia de outros que não entenderam seu esforço. Mas não vale a pena criticá-los.


              Quando fez vinte anos se candidatou a vereador e foi eleito com boa margem de votos. Sempre lutou por todos que tinham a Síndrome de Dow como ele. Soube que organizou um grupo só com crianças excepcionais. Teve a ajuda do Rotary Club e o Lions Club. Ele comprou uma boa casinha para sua mãe. Ainda estava solteiro, mas namorava. Dona Etelvina não precisava trabalhar mais. Nada faltava para ela. Leo Marcondes agora era o chefe da família. Uma história com final feliz. Ter o coração aberto aceitar sem colocar imposições faz parte de qualquer grupo escoteiro. Para Leo eu desejo muito sucesso em sua vida.

Nota de rodapé: -  Dizia o poeta que o vencedor não é só aquele que vence a batalha e sim aquele que se levanta a cada derrota para lutar novamente. Meu Bravôo a Arlete, Lilian e Rosaldo e principalmente a Leo Marcondes. Sem eles, nada disso teria acontecido e nem essa história poderia ser contada. Melhor Possível!

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Esperança e gloria de um Chefe Escoteiro.



Lendas Escoteiras.
Esperança e gloria de um Chefe Escoteiro.

               Uma tarde modorrenta. Cansei de ler e na praia onde estava meus olhos fitavam o mar. Uma brisa gostosa soprava suavemente meu rosto. Eu já estive nas mais altas montanhas, nas vastidões das belas planícies do nosso sertão, vi coisas que poucos tiveram a oportunidade de ver. O primeiro vôo da borboleta azul, o botão da flor de uma orquídea presa no jequitibá a desabrochar. Ouvi o cantar do Sabiá lá na serra do Japi. Quantas vezes ouvi o som de uma cascata caindo sobre pedras amigas de longos e longos anos de jornada. Mas o mar... Este é maravilhoso. Ainda não vi nada que o tirasse da lista dos mais irresistíveis espetáculos da terra.

              Em férias lia Gandhi: O apóstolo da não violência. Um homem que se tornou uma lenda. Albert Einstein o saudou como o “porta-voz da humanidade”. Vez ou outra as gaivotas graciosamente se elevavam no ar e faziam lindas acrobacias. Eu cerrei os olhos lembrando-se do meu passado. Gosto de ler. Basta escolher o livro certo para o dia certo. Ele nos dá o conhecimento dos países distantes e nos faz descobrir lindas e maravilhosas situações que nunca em nossa vida iremos viver.

              Lembrei-me do chefe Martinho. Um grande Chefe que tive a honra de conhecer. Fomos amigos por longos e longos anos. Muitos acampamentos, viagens pelo pais e exterior. Martinho era Chefe de Grupo Escoteiro. Hoje um Diretor Técnico. Martinho era um chefe especial. No seu grupo brotava o amor, o respeito e não havia desigualdade só fraternidade. Era querido por todos no grupo e fora dele. No bairro era admirado e quando passava lhe saudavam com carinho. Vado Escoteiro, a melhor propaganda do escotismo é um escoteiro bem uniformizado e garboso na sua comunidade e como Chefe temos de dar o exemplo. Não atrasava e era o primeiro ao chegar. Prestativo não deixava nada faltar nas reuniões dos lobos e escoteiros

                 Martinho era firme quando um acontecimento ou um fato destoava ou seguia o caminho diferente do que preconizava a formação escoteira. Primava pela educação. Nunca se exaltava e nunca levantava a voz. Dizia ele que gritos nada mais são que agressões gratuitas. Não convencem ninguém.  Quando em Conselhos de Chefes ele não gostava de ser Salomão. Sabia o que dizer nas horas mais difíceis e nas tomadas de decisões. Dizia que era impossível alguém conhecer seus direitos se não conhecesse seus deveres. Durante muitos e muitos anos, Martinho foi reconduzido como Diretor Técnico apesar de sempre achar que não poderia ser eterno. Ninguém é insubstituível comentava.

        Uma vez ele teve um pequeno problema com os dirigentes regionais. Pequeno mesmo, mas ele foi firme e não deixou para amanhã o que tinha de fazer. Quando viu que correspondências não estavam resolvendo, pegou um ônibus e foi até a capital do estado. Voltou com um sorriso no rosto como a demonstrar missão cumprida. Martinho não era um erudito e nem tão pouco filosofo, mas sempre dizia que temos que ter conceitos adequados a cada situação. Para isso as conquistas de valores fazem com que a consciência haja de forma correta e fraterna.
    
      Uma tarde cheguei à sede e não vi ninguém. A porta estava aberta e no almoxarifado encontrei Martinho deitado no chão se contorcendo em dores. Aflito chamei uma ambulância e o levamos para o Hospital. Foram noites de agonia. Não dormi. Não fui trabalhar. Fiquei ali plantado com Cecília sua esposa. Ela era mais forte que eu. O médico nos trouxe o diagnóstico – Câncer nos pâncreas. Não tem muito tempo de vida. Meus olhos encheram de lágrimas. O hospital encheu-se de escoteiros e chefes. Vieram até dirigentes da Regional. Parecia um aparato de uma grande atividade escoteira. Eram tantos que precisaram vir policiais para organizar o trânsito.

       Martinho fez questão de receber a todos indistintamente. Apertou a mão de cada um que foi visitá-lo. A direção do hospital abriu uma exceção para os jovens. Martinho ficou todo o tempo com um sorriso nos lábios. Quase não falava. Sentia dores horríveis apesar de remédios fortes que tomava. Pouco descansava e dizia que as visitas vinham em primeiro lugar e o sono depois. Na madrugada do segundo dia Martinho me chamou e perguntou: - Meu amigo, todos dizem suas últimas palavras quando a morte aproxima. Eu não sei o que dizer. Acha que devo dizer alguma coisa?

       Falar o que para Martinho? Eu era a prova viva da admiração, do meu amor e do respeito que sentia por ele. Meus olhos molhados não mostravam outra coisa a não ser a dor enorme que estava sentindo. Martinho sabia a hora que iria se despedir para sempre. Pediu sua esposa que fizesse uma doação de todos seus pertences escoteiros ao grupo para eles doarem a quem precisasse. Se alguém for feliz com ele eu também serei feliz, disse. Cecília uma incansável mulher sempre ao seu lado.

      Não vi Cecília chorar. Uma mulher forte que dizia que nestas horas precisávamos dar força a ele. Martinho partiu uma semana depois. Setembro, outono, folhas secas caindo das árvores naquela necrópole sombria em um bairro afastado da cidade. Uma brisa leve e calma foram testemunhas da ida de Martinho para onde ele acreditava que existia outra vida. Nunca me falou nela. Nunca quis convencer a ninguém sua religiosidade. Suas exéquias foram simples. Vieram milhares para saudar e dar o último adeus a Martinho. Não ouve canções. A despedida foi só uma lagrima que aqui e ali era derramada por todos que foram seus amigos no passado. Martinho pediu para ser lembrado pelo que foi pelo que fez e não pela sua agonia de uma morte não esperada. Deixou saudades, muitas saudades.

            Alguns meses passados e o Conselho de Chefes do grupo votou em mudar o nome do grupo que seria uma homenagem a ele. Seria Grupo Escoteiro Chefe Martinho Alberto Flores. Cecília quando soube disse não. Mostrou um bilhete que ele escrevera horas antes da sua morte. Não quero tributos, que permaneça por toda a vida o nome que conheci, sempre amei e admirei. Grupo Escoteiro Estrelas Cintilantes. Até hoje visito Cecília. Uma forte mulher. Não pediu nada a ninguém. Trabalhava e dizia sempre que Netinho seu filho teria o que Martinho almejava.

            Nunca em minha vida esqueci Martinho. Ele foi um grande chefe. Reto nas suas ações. Ilibados e impoluto no seu exemplo pessoal. Martinho se foi, seu modelo deveria ser seguido por tantos e tantos chefes, que tem sob a sua responsabilidade dezenas de jovens que esperam muito mais. Esperam que eles seus chefes sejam exemplos para que possam seguir na trilha escoteira sabendo que um homem digno foi seu amigo em toda sua fase de crescimento.


Nota de rodapé: - A tarde vai aos poucos se afastando. A noite chega de mansinho. Ainda estou sentado na cadeira de praia de frente para o mar. O sol já se foi. A brisa está sendo substituída pelo orvalho que cai mansamente. Li poucas páginas da história de Gandhi. Meus olhos voltaram a ficar vermelhos. Nem sempre as lembranças são como a gente quer. A vida é assim, uns ficam e outros vão. Nosso destino está traçado e o que somos são frutos que nós criamos pensando que estávamos acertando para um futuro melhor. Gosto de lembranças. Elas me fazem viver. Trazem-me saudades ou mesmo sorrisos dos tempos que já se foram e não voltam mais.

domingo, 10 de setembro de 2017

Camélia


Camélia.

                   Olhei para ela e não acreditei no que via. Era ela disto tinha certeza. Mas estava tão diferente, mais velha, magra com manchas no rosto e seu sorriso de tanta magia nem era sombras do passado. Pensei em abordá-la, cumprimentá-la e quem sabe abraçá-la para dizer que era eu, seu monitor. Quem sabe dar a ela um sorriso e dizer àquela palavra que ela amava e gostava de dizer: - Oi! Sou eu! Escoteira Camélia das campinas, não me reconheceu? – Ela nem me olhou passou direto com andar vacilante, como se estivesse perdida errante caminhando por uma trilha que nunca passou. Porque isto? Porque o destino desconhece o que pensamos ser? Pois é, me lembrei de que um dia ela me disse: Mano Monitor, o que for teu desejo, assim será tua vontade. O que for tua vontade, assim serão meus atos. O que forem teus atos, assim será o teu e o meu destino...

                  Quando ela chegou na Patrulha não houve festa, mas todos a receberam com alegria, transformaram uma reunião comum em uma reunião especial. Ninguém tirava os olhos dela, sabia que era admirada e mesmo assim não se tornou pedante nem esnobe era a fina flor colhida em um dia de verão que chegou para nos fazer feliz. Aprendemos a tirar o chapéu em sua homenagem. Aprendemos a cantar “Amigos para Sempre”, pois ela irradiava seu interior de maneira inteligente e menos farsesca, pois era como chegar ao fim de uma jornada, beber água da fonte e sentir o frescor de uma tarde, mormente enluarada. Nunca vi sua mãe seu pai e quer saber? Nem sabia onde morava. Torcia para chegar os sábados, para revê-la, ouvir sua voz suas palavras...

                  Enquanto ela esteve na patrulha não atrasava, todos querendo ser os primeiros a chegar. Ela com seu sorriso maroto nos acampamentos dizia: - Escoteirada, deixa que eu me sirva, deixe-me fazer também. Não sou princesa nem rainha e mesmo sabendo que me querem bem, preciso caminhar para aprender a não cair. Não era um peso morto, mesmo com sua beleza e formosura. Ficávamos tristonhos por ver suas mãos macias em bolhas de sangue ao usar o facão e deixar marcas caludas e enormes. E ela? Sorrindo dizia para nós: Marcas de um trabalho honesto. Disse-me certa vez que queria ser Lis de Ouro e iria fazer tudo para conseguir. Destino incerto e não sabido. Eu sabia que da vida mesmo sonhando nem sempre se consegue o que quer. Ela teve tudo que almejou, mas seu Liz de Ouro ficou perdido em um sonho que não se realizou. Pensei que aquela conquista nunca a faria feliz.

                  Um dia não apareceu. Ficamos surpresos porque não dizer perplexos e eu atônito não sabia o que dizer ou fazer. Parecia que a patrulha tinha perdido seu rumo seu caminho, sua trilha e não sabia mais aonde ir ou chegar. Apoite teu barco monitor, se não vai ficar a deriva no mar traiçoeiro... E eu fiquei. Um mês dois três e ela nunca mais voltou. Aos poucos a patrulha foi voltando ao normal. Mesmo assim as lembranças eram doídas demais. Patrulheiros mercantes a zumbir suas barracas nos montes errantes em acampamentos tristes que o cantar, o som de uma viola não existia mais. E eis que cinco anos depois, já Pioneiro, avante Escoteiro de outras eras a vejo sair de um ambulatório perdido em um bairro tristonho e ela passa por mim sem ao menos dizer olá! Quando me dei conta tomei a decisão de abordá-la, ela sumiu nas curvas da Rua dos Perdidos e não há vi nunca mais...


                  Menina escoteira onde escondeste tua formosura e personalidade? Eu quero morar na sua rua, me diga o número de sua morada, pois você deixou saudades... Mudei de rumo e segui o meu destino. Cada um tem o seu. Camélia era agora uma sombra do passado. Fui para casa tentando arrumar as lembranças para que ficassem somente às boas e as ruins deixei guardadas em um canto da mente. Eu aprendi que quando sentir saudades de alguém que já partiu e nunca mais voltará, não devemos nos revoltar. Apenas recordar os bons momentos que ficou preso no passado e fazer dele uma lembrança gostosa... Apenas para recordar...

Nota de rodapé: - Camélia. Uma flor que chegou em nossa Patrulha tingiu de cores o coração de todos nós e depois partiu para onde nunca soubemos. Um dia a vi na esquina da Rua dos Esquecidos. Passou por mim sem me ver sem me cumprimentar. Não era a menina Camélia, do sorriso franco, dos olhos brilhantes do andar confiante de quem sabia aonde ir e caminhar. Camélia... Onde andarás?

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Minha maior amiga foi uma Coruja.


Crônica de um Velho Chefe Escoteiro.
Minha maior amiga foi uma Coruja.

                       Eu conheci uma Coruja. Por favor, não riam de mim. Não foi uma coruja qualquer. Imagine, ela me olhando e eu olhando para ela e pam! Surgiu uma amizade eterna. Eu era amigo de uma Coruja. Alguém já foi amigo de uma Coruja? Eu fui e sou. Ela me disse um dia que apesar de ser um menino e ela uma ave, ela nos considerava irmãos! Podem acreditar, pois eu acreditei! Eu tenho certeza do dia que surgiu a maior amizade que já encontrei em minha vida.  Faz tempo. Muito tempo. Quem sabe mais de sessenta anos? Sim, acho que foi isso mesmo.

                       Tudo começou em uma floresta densa, fumacenta, mas gostosamente adorável. Difícil para caminhar, abrindo caminhos entre espinhos com meu bastão, usando uma bússola Silva velha de guerra, pele queimada, braços e pernas arranhadas, alguns profundos com sangue ao redor. Quem disse que paramos? Quem disse que voltamos ou desistimos? Nunca! Escoteiros não desistem! Ela me disse que nos acompanhava de longe. Disse que não sentiu pena de mim. Não gostava de meninos. Eles eram malvados. Jogavam pedras. Disse que não viu meu rosto. Disse que o chapelão de três bicos atrapalhava.

                      Quando a vi pela primeira vez foi na clareira que fizemos. Difícil. Um matagal imenso. Não foi em um Fogo de Conselho. Não foi não. Lembro que fizemos um “foguito” pequeno, a clareira amarelou. Apenas uma “Conversa ao pé do Fogo”. Canções, “causos”, planos de jornada, gargalhadas coisas de escoteiros. Não vi as estrelas. As árvores não deixavam. Não havia lua. Escuro. Muito escuro. Apenas nosso lampião vermelho a querosene com seu lusco fusco brilhava.

                      Teve um momento sublime. Isto sempre acontece quando escoteiros estão em reunião em plena floresta. Um silêncio se fez. Segundos que só se ouvia os grilos zumbindo. Ela para chamar a atenção crocitava baixinho, e me olhava com seus olhos negros profundos como se fosse me hipnotizar. Ninguém viu. Só eu. Todos foram dormir. Estavam cansados e eu também. A Coruja fez um sinal como se eu devesse ficar ali. Todos foram e eu fiquei. O silêncio continuou a tomar conta da floresta. Nem os grilos zumbiam mais. Vi alguns vagalumes ao lado da Coruja. Pareciam ser seus olhos noturnos a mostrar o caminho.

                      Senti seu peso nos ombros quando ela pousou. Olhava para mim. Não piscou. Não sabia o que fazer. Dizem que na floresta as corujas são sábias, todos a procuram para aconselhar. Uma vez disseram que era o símbolo da deusa Atena. Ela a chamava de Olhos Brilhantes. Contaram-me que uma Sociedade Secreta de nome Bohemian Clube onde anualmente se encontravam só os poderosos eram convidados. Dizem que a reunião era em uma floresta ao norte de São Francisco, e ficavam em volta de uma grande pedra talhada como se fosse uma coruja. Escreveram em baixo: “Weaving dealing spiders come not here”. Parece que vem a ser uma frase de Shakespeare que significava: “Deixe seus negócios sujos na porta”. Dizem que poucos contam até hoje o segredo da cerimônia. Quem contou morreu de morte misteriosa.

                      Mas isto não importa. Importa a amizade que fiz com a Coruja. Quantas coisas belas naquela noite eu e ela conversamos. Eu contei minha vida de menino para ela. Ela me olhava e não piscava. A melhor ouvinte que já tive. Perguntei a ela se era uma ave de mau agouro. Ela riu. Quem sabe? Quem sabe? Disse. Mas olhe retrucou, quando tem uma festa no céu ou aqui na floresta eu pio e canto sem parar. Ela me disse que sabia canções Escoteiras. Ri baixinho. Não acreditas? E começou a cantar A Arvore da Montanha. Cantava com uma voz linda. Cantou outras.

                      Notei que o por do sol aparecia através das árvores. Notei que eu tinha esquecido de tudo a minha volta. Até o orvalho da madrugada não o senti no rosto. Ela me olhou. Passamos uma bela noite juntos. Noite inesquecível. Impossível ter outra como aquela. Ela disse – Adeus! Porque perguntei? Nunca mais voltarei. Dizem que entre nós quem conversa com meninos é condenada ao exílio. – Venha comigo então! Venha morar comigo! Eu levo você para a cidade! Fica na minha casa. Lá tem um pé de Jacarandá lindo!  Não posso ela disse e voou entre os galhos negros e a folhagem espessa para nunca mais voltar!
             
                       Eu conheci uma Coruja. Não foi uma Coruja qualquer. Imagine, ela me olhando e eu olhando para ela e pam! Surgiu uma amizade eterna. Eu era amigo de uma Coruja. Alguém já foi amigo de uma Coruja? Eu fui e sou. Ela me disse um dia que apesar de ser um menino e ela uma ave, ela nos considerava irmãos! E acreditem! Eu acreditei! Pena que ela se foi e eu me fui também. Nunca mais voltei naquela floresta. Não sei se ela já morreu se está no exílio. Eu? Estou aqui. Sempre me lembrando daquela noite que conheci uma Coruja de Olhos Brilhantes. Apenas uma noite. Noite que nunca mais irei esquecer...

Nota de rodapé - “O espírito da coruja mora neste acampamento”! Eu conheci uma coruja. Ficamos amigos. Ela tinha olhos verdes e gostava de cantar. Nininha era o nome dela. Adorável coruja. Saudades... Eu conheci uma coruja... Ficamos amigos, dela nunca mais esqueci!