domingo, 20 de maio de 2018

Era uma vez... Em uma montanha bem perto do céu...


Bem vindo ao Blog As mais lindas historias escoteiras.

Centenas delas, histórias, contos lendas que você ainda não conhecia. Venha leia uma duas e comprove. Quem sabe poderá utilizar em reuniões com dias chuvosos, frio intenso e até em acampamentos ou acantonamentos. Agradeço sua visita, volte sempre!
Chefe Osvaldo. 

Lembranças em volta do fogo. Chefe Heitor.



Lembranças em volta do fogo.
Chefe Heitor.

                - Chefe, o senhor é feliz? – Ele não me respondeu. A melodia de Paganini tocava The Best of Tchaikovsky. Seus olhinhos pequenos tentavam me ver e eu sabia que sua catarata eram sombras a perscrutar naquela saleta pequena quem era eu. – Sua voz em tom melodioso me disse: - Sabia que Paganini era capaz de tocar à espetacular velocidade de doze notas por segundo? Eu não sabia. Só tinha lido que foi o violinista italiano que revolucionou a arte de tocar violino. – Ele riu com meus pensamentos.

                  - Ele sempre me surpreendia. Meu Chefe, meu herói. - Pois é Paganini dizem seus críticos vendeu a alma ao Diabo em troca da perfeição musical. E eu? Ele completou. Eu não vendi para ninguém e você me pergunta da felicidade. Sabe que a vida me ensinou que chorar alivia, mas sorrir torna tudo mais bonito. Olhei para ele. No fim da vida, sozinho naquela saleta sem ninguém para o acompanhar. – Menino escoteiro! Não estou sozinho! Rosinha sempre esteve comigo e nunca me abandonou. – Quem era Rosinha? Lancei a pergunta no ar.

                - Não sabes? Minha eterna companheira que Deus a levou sem me perguntar. Mas eu entendi. Fazia parte do meu destino, escrito no meu livro da vida. Eu sempre soube que ser feliz não é viver apenas momentos de alegria. É ter coragem de enfrentar os momentos de tristeza e sabedoria para transformar os problemas em aprendizado. Eu recebia uma lição de vida.

                - Eu sabia que ele fora um grande Chefe, daqueles chamados Velho Lobo, que deu sua vida por um movimento que acreditou. – Dei minha vida? Ele parecia ler minha consciência. – Não dei e sim recebi. - E continuou - Quantas vezes nos acampamentos eu dizia para mim: - Chefe que o vento leve, que a chuva lave que a alma brilhe que o coração acalme que a harmonia se instale e a felicidade permaneça. Eu conversava com as arvores, com o vento, e as estrelas me contavam histórias. Isto não é felicidade?

                 – Mudei de tema. Chefe o Senhor ainda recebe muitos amigos escoteiros do passado? – Ele sorriu. Tentou levantar da cadeira e não conseguiu. Disseram-me que passava dos noventa anos e que sempre fora Escoteiro desde os seis. – Ele tentou me ver através daqueles olhos opacos, seus ombros caídos tentavam se levantar para dar uma aparência mais digna e garbosa. – Amigos? Ele sempre parecia adivinhar o que eu pensava. – Menino Escoteiro amizade verdadeira não é ser inseparável. É estar separado, e nada mudar.

                  - E continuou: - Eu entendo. Cada um tem sua vida. Não podemos fazer da nossa a deles. Se a vida te vira do avesso só para provar que a felicidade vem de dentro para fora temos que aprender que as crises não afastam os amigos. Apenas selecionam. Nada mais havia a dizer. – Ele em tom fraterno me disse: Me ajude a vestir meu uniforme? – Assustei. Por quê? Perguntei. – Saudades. Muitas. Ainda quero me ver dentro do meu verdadeiro eu. Um Escoteiro tem de aprender que ser forte é a única escolha.

             O espelho mostrava um homem cuja idade era demais para viver. Olhinhos opacos, sulcos na face, mas ele fazia questão de colocar seu chapéu galhardamente. Admirei seu estilo do lenço. Ele se virou olhou dentro dos meus olhos e disse: - Sempre Alerta menino Escoteiro, lhe dedico minha saudação, meu aperto de mão. Ser humilde não é ser menos que alguém. É saber que não somos mais que ninguém!

              Parti com olhos cheios de lágrimas. Conheci alguém que sempre sonhei em ser. Agora eu sabia que minha vida seria outra. Eu sabia que a bondade é a língua que o surdo pode ouvir e o cego pode ver. Chefe Heitor era meu herói. Como a blefar em minha mente, ele na porta escorado em uma bengala falou calmamente: - Para toda malícia, tem uma inocência. Para toda chuva, tem um sol. Para toda lágrima, tem um sorriso. Seja quem você é e viva feliz! Os últimos acordes do violino de Paganini tocavam harmoniosamente no lusco fusco daquela tarde inesquecível.

Nota – Assim como gosto do jovem que tem dentro de si algo do velho, gosto do velho que tem dentro de si algo do jovem: quem segue essa norma poderá ser velho no corpo, mas na alma não o será jamais. Cícero.

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Lendas escoteiras. O Escoteiro Mulçumano.



Lendas escoteiras.
O Escoteiro Mulçumano.

             Abba Fayard nasceu em Zareh Sharan uma pequena cidade do Afeganistão. Recitava a Shahada, pois ensinaram a ele que não há outro Deus que não Alá e Maomé. Fazia as preces de manhã antes de ir para a escola e as preces do meio dia. Ao retornar ao anoitecer as preces da noite. Ia com sua família a mesquita toda sexta. Fazia as preces em língua árabe, sobre um tapete e voltado para a Meca. 

             Seu pai e seu tio o ensinaram a dar uma esmola legal. Eles sempre lhe davam uma moeda. Sua família fazia frequentemente doações para favorecer o Islã, construir mesquitas, escolas corânicas e beneficentes. O Ramadã, o jejum anual era cumprido à risca. Seu pai exigente não perdoava. Sempre sonhou em fazer uma peregrinação a Meca e por ser pequeno seu pai dizia que só quando crescesse.

             Aprendeu que ser muçulmano é acreditar num só Deus, incomparável, invisível, indivisível, poderoso, criador de tudo e de todos, não tem filho nem pai, não tem parceiro no seu reino. Ele acreditava piamente em tudo. Quando foram a Mesquita no sábado, ele foi ao banheiro do lado de fora. Quando saiu a Mesquita explodiu e morreram todos os presentes. Abba Fayard chorou a perda dos pais por anos.  

             Um amigo do seu pai contou que ele tinha um tio morando no Brasil. Passaram um telegrama e seu tio veio buscá-lo. Morava em Morro Vermelho uma pequena cidade no interior de São Paulo. Tudo era estranho para ele. A língua portuguesa era difícil e demorou anos para aprender. Não fez amigos, pois se achava um forasteiro entre eles. Não reclamava de sua nova família. Seu tio era um homem bom e sua tia também.

             Só no ano seguinte começou a frequentar a escola. Quase não acompanhava. Com seus doze anos não tinha amigos. Quase não iam a Mesquita. Seu tio era diferente do seu pai, mas se achava um bom mulçumano e seguia a risca sua religião. Um dia seu tio o levou a um desfile na cidade. Disse que era a data magna do país. O Sete de Setembro. Ele adorou os meninos e meninas uniformizados de caqui e com um chapelão lindo. Não tirou os olhos deles. Pediu ao tio para ir com eles marchando. Seu tio riu e balançou a cabeça dizendo sim. – Não demore, eles são escoteiros.

             Descobriu onde se reuniam e o que faziam. Voltou outros sábados. Um dos escoteiros o convidou: - Quer ser Escoteiro? Abba Fayard ficou vermelho porque nunca ninguém dirigiu a palavra a ele. Claro que queria, mas sendo muçulmano ele não sabia se iriam aceitá-lo e se o seu tio ia deixar. Dias depois contou para seu tio. Esperou a hora e o momento certo para comentar. Ficou feliz quando seu tio disse: - Porque não? Iremos no sábado conversar com o Chefe. Explicou ao Chefe que eram muçulmanos, tinham normas, horários e dias certos para cumprirem suas obrigações com Alá. O Chefe concordou, mas deveria antes conversar com os demais chefes.

             Telefonaram para ele dizendo que foi aceito. Abba Fayard ficou feliz. Seu tio foi junto para os transmites legais. Não se esqueceu de dizer para ele seus horários e a prece às dezoito horas. – Em língua árabe, ajoelhado e voltado para a Meca. Neste horário. As seis Abba pediu permissão ao Monitor. A Patrulha parou para ver. Ele com uma bussola viu em qual direção estava a Meca. Ajoelhou e começou a rezar. A Tropa surpresa. O Chefe chamou a todos e explicou que Abba Fayard era muçulmano e sua religião tinha rituais que nenhum deles poderia deixar sem fazer.

              No sábado seguinte a patrulha procurou Abba Fayard e pediu se podia rezar com ele. Ele só pediu que levassem a sério, pois esse ato não era uma brincadeira.  – Um bom muçulmano acredita em todos os Profetas de Deus, desde Adão até Muhammad incluindo Jesus. Acredita nas escrituras de Deus, nos seus anjos e que haveria um juízo final para prestar contas das ações praticadas.

               Na primeira vez foram oito escoteiros. Na segunda quase toda a tropa. As preces eram simples e não levavam mais que dez minutos. O Chefe da Tropa não se preocupou. Acreditava que seria bom todos conhecerem outra religião. A participação tomou vulto quando os lobinhos quiseram participar. O Pároco ficou sabendo. Foi lá e se horrorizou com o que viu. Chamou o presidente e o Diretor e proibiu. Nas missas contou o que viu e disse para aqueles pais dos escoteiros que eles não deviam participar.

             O tio de Abba Fayard o aconselhou a sair. A cidade inteira não entendia o que era ser muçulmano A maioria era católica. Abba Fayard se sentiu fora do ninho. Chorou por muitos dias. Amava o escotismo, não queria abandonar seus amigos, mas ele amava sua religião. No sábado avisou o Chefe que não voltaria mais. A patrulha ficou revoltada. Um absurdo disseram. Discutiram em Corte de Honra e no Conselho de Chefes. A maioria a favor de Abba Fayard, mas se sentiram sem ação. O Diretor Técnico convocou extraordinariamente uma Assembleia do Grupo. Dos oitenta e seis votantes setenta foram a favor da sua permanência.

              Uma comissão foi conversar com o padre e ele irredutível. Procuraram o Bispo e ele disse que era problema do padre. Em um domingo o Grupo Escoteiro quase completo saiu em passeata pelas ruas da cidade. Cartazes com dizeres explicavam. – Abba Fayard tem direitos dizia um – Abba Fayard é muçulmano e nosso irmão. A maioria dos católicos ficaram contra o pároco.

               O assunto foi parar nos jornais. O Bispo preocupado Voltou atrás. Agora dizia que os muçulmanos eram bem vindos. Num ato que ninguém esperava foi à mesquita rezar com eles. O Padre mudou. Abba Fayard voltou ao grupo. Recebido com abraços por todos. O Prefeito querendo mostrar caridade dou um local para a futura sede. Ninguém amigo de Abba Fayard mudou de religião. Quem era católico continuou católico. Quem era evangélico continuou evangélico.

               Um menino, uma patrulha, uma tropa e um Grupo Escoteiro mostrou que existe lugar para todos no escotismo. O final da história? Realmente não sei. Não me contaram mais nada, mas será que existe algum mais para contar? Eles sabiam que o escoteiro é amigo de todos e irmão dos demais escoteiros. Uma lição de vida. 

Nota – Uma pequena história. Verdadeira? Cada um pode analisar sim ou não. Será que você leitor escoteiro daria seu aval? Afinal somos ou não somos do mesmo sangue da mesma raça que Baden-Powell nos deixou como herança? Somos ou não somos amigos de todos e irmãos dos demais escoteiros? Você pode a palavra final.

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Lendas de Seeonee. A lenda dos peixinhos dourados. (uma história para lobinhos).



Lendas de Seeonee.
A lenda dos peixinhos dourados.
(uma história para lobinhos).

               O tempo fechou. Pingos e ventos fizeram com que a Alcateia corresse para se proteger. Lana olhou para Moisés o Balu e ele sabia que era para contar uma história.  Com essa tempestade deveriam usar o Plano B. Outro programa para dias de chuva. A Alcateia foi levada para uma área coberta. Muitos lobinhos e lobinhos correram até Moisés e gritavam: Hoje tem! Hoje tem história! Moises sorria. – Todos sentados em minha volta em circulo – Ele disse. Olhou para a Akelá e disse: - Posso? – Ela sorrindo disse que sim. E ele na sua pose favorita de contador de histórias começou: Era uma vez, ou melhor, conta uma lenda...

                  - Que existia uma cidade pequena, muito e muito longe lá onde as nuvens se escondiam ao anoitecer. Em Harmonia era comum todos se saudarem sorrindo, semblantes alegres, cantantes, andar cadenciado como a mostrar suas alegrias de viver. Lá não havia ódio, não havia tristeza e seus habitantes viviam como irmãos. Foi lá que Ruth nasceu de parto natural. Conta à lenda que ela nasceu sorrindo e que Dona Sarah a parteira a “benzeu” dizendo – Ela vai ser nossa guia e a Santa de Harmonia. Ruth foi crescendo e todos admiravam sua beleza. Tinha cachos dourados e brilhantes, olhos verdes como as esmeraldas e distribuía onde passava seu sorriso que parecia trazer o aroma das flores, os pássaros esvoaçantes a seu redor e milhares de borboletas coloridas.

                     Todos olhavam o Balu com atenção. Ele se levantou olhou para o céu e continuou: Em Harmonia todas as noites havia lua cheia. Era uma lua diferente, grande e apesar de um branco harmônico em volta parecia ter uma coroa de flores das mais variadas matizes. Todos sabiam que na cidade havia o mais lindo céu de estrelas. De todos os tipos, vermelhas, brancas, verdes e não havia em nenhum lugar um brilho maior do que lá e que elas pipocavam no céu divinamente. - Ruth aos seis anos era uma lobinha da Alcatéia do Amor. Ali lobinhos e lobinhas viviam felizes juntos aos chefes da Alcateia. Dalila a Akelá era amiga de todos, Sarah a Baguera contava lindas histórias e Isaac o Balu brincava a mais não poder com todos os lobos da Alcateia do Amor.

                  Naquela Alcateia feliz todos faziam questão de seguir a lei do lobinho. Ruth era filha de Talita e David. Seus pais eram pessoas humildes e trabalhavam na loja do Senhor Levi. Muitas vezes Ruth ficava só e ela amava estas horas. Nos fundos da casa de Ruth, corria um pequeno riacho de águas cristalinas, límpidas e diziam que quem bebia daquelas águas não ficavam mais doentes. Era lá quando estava só que Ruth passava boa parte do tempo enquanto seus pais trabalhavam. Ela era amiga de muitos peixinhos dourados e conversava muito com Estrelinha, Pingo d’água e Gota de Chuva. Podia ter sol ou chuva que Ruth não saia do laguinho que as águas formaram.

                  Um dia Ruth viu chegando um Bagre cinzento. Ele era feio, muito feio. Os peixinhos dourados sempre corriam quando o Bagre chegava. Ruth ficou ali olhando para ele e ele olhando para ela. Não vai correr? Não vai fugir? Afinal sou um bagre cinzento e sou horrendo. Todos quando me veem fogem. Ruth sorriu para ele. - Seu bagre saiba que a beleza ideal está na simplicidade calma e serena. Sei que quando o conhecer melhor encontrarei em seu coração uma beleza que fará brilhar todas as luzes. Lembre-se que o valor das coisas não está na aparência ou no tempo que elas duram, mas na intensidade que você impõe a bondade em seu coração. Isto é tão verdade, pois a gente sabe que temos momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis.

                 O Bagre Cinzento a olhou de tal forma que houve um balanço nas águas e ele se transformou em um Bagre dourado, de olhos azuis. Ele não estava acreditando e foi preciso que Ruth dissesse para ele – Saiba Seu Bagre Dourado a gente não julga ninguém pela aparência e sim por suas atitudes. São elas que irão comprovar o quão diferenciado você vai ser dos demais. Foi então que os peixinhos dourados se aproximaram e abraçaram com amor o Bagre Dourado. E assim graças a Ruth os peixinhos e os peixes maiores aprenderam que todos eram iguais, pois em cada coração existe uma beleza que ninguém pode ver, mas a gente pode sentir e mostrar como somos bons quando queremos ser.

                Ruth a Lobinha que tinha cachos dourados e brilhantes, olhos verdes como as esmeraldas e distribuía onde passava seu sorriso que parecia trazer o aroma das flores conseguiu que os peixes que moravam no lago dourado de Harmonia vivessem alegres e felizes para sempre.

                   E Moisés com aquele lindo sorriso, olhou a todos os lobos da Alcateia de Seeonee e disse: Ninguém deve julgar ninguém pela aparência, julga-se pela essência, pelo amor... E não havia mais nada a contar e a chuva terminou o sol brilhou e os lobos voltaram contentes para o pátio abraçando Moisés, o Balu.

Nota - É bom ser amigo de pessoas que admitem o erro, falam que estão com saudade e deixam de lado o orgulho. É bom ser amigo de gente que sabe dar valor ao que tem que faz por merecer e não finge ser o que não é. Divirtam-se com Moisés um Balu contador de histórias como eu.

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Contos de Fogo de Conselho. Chefe Zé... Mané!



Contos de Fogo de Conselho.
Chefe Zé... Mané!

                          Muitos dos que o conheciam o chamavam de Zé Mané. Ele sorria na sua ingenuidade e assim passou sua adolescência na Patrulha Coruja. Seus amigos de Patrulha gostavam dele. Prestativo, educado, simples sem afetação. Fora da tropa o consideravam um bobo, paspalhão e tolo. Ele não se incomodava. Cresceu, a tropa votou para ele ser o Chefe. Seu Tony Morcato o Chefe do grupo não aceitou... A principio, pois a tropa resolveu ficar em vigília na porta de sua casa até que ele aceitasse o Chefe Zé... Mané!

                         Nunca na história daquele grupo se viu tamanha alegria. Afinal nem sempre tem escoteiros para votar na escolha de seu Chefe. Dom Ruan de Lá Mánsia o Distrital não queria assinar o certificado de nomeação. Novamente lá estava a tropa fazendo vigília na porta do Comissário. Chefe Zé não era apreciado pelos chefes do distrito. Afinal quando um Mané foi Chefe escoteiro? Esqueceram que aquele era um cavalheiro, delicado, distinto e gentil.

                         Quando A Akelá Pratifunda Benedita foi embora Chefe Zé ajudou a não fechar. Mas precisavam de uma nova Akela e o Chefe Tony Morcado não se mexia e nada fazia. Chefe Zé... Mané se lembrou da nova faxineira onde trabalhava no Lar Menino Jesus. Ele era bem quisto lá. Afinal desde os dezesseis anos que era um dos melhores faxineiros que por lá apareceu. As Irmãs Carmelitas o chamavam de Doutor Zé. Tinham por ele muita admiração.

                         Calada, magra feito um palito Dozemir Pangu dificilmente sorria. Não tinha dois dentes na frente e sabia que abrir a boca era para ser caçoada, zombada e faziam troça dela. Nunca reclamou de sua mãe que colocou aquele nome esquisito. Até gostava dele e pensava que um dia teria um príncipe Encantado que diria ao pé do ouvido: Te amo Panguzinha meu amor. Ela tinha enorme simpatia por Zé... Mané. Aceitou seu convite para ser Akela.

                          Não perguntou o que precisava aprender, não perguntou se teria que pagar, pois leu um dia num livro que o Escotismo é o único lugar que o voluntário tem de pagar para ajudar. Chefe Tony Morcado quase caiu da cadeira quando Zé a apresentou. Pensou em xingar a mãe do Zé da Dozemir e mandar todo mundo para o ponto final do ônibus Vai Sem Volta e deixar todo mundo lá de molho por trinta anos!

                          O Comissário Dom Ruan de Lá Mánsia quase perdeu os restos de fios de cabelos de sua cabeça careca. – Que palhaçada é essa Tony? Ele assinou a nomeação contrariado depois de quinze dias de passeata dos lobinhos e escoteiros do Grupo Escoteiro Pau Ferro na porta de sua casa. Chefe Zé... Mané e Dozemir passaram a se gostar e se juntaram. - Vamos casar quando construirmos nossa casa! Diziam ambos.

                         A cidade de duzentos e qualquer coisa de mil habitantes viu que os lobinhos os escoteiros de Morro Cego estavam sempre presentes fazendo boas ações, plantando árvores, limpando praças, sorrindo a marchar para os acampamentos coisa que os outros grupos não faziam. O Prefeito resolveu doar um equipamento completo para a alcateia e a tropa. Os três outros grupos escoteiros reclamaram ao Comissário que reclamou com o prefeito e puseram até o Deputado Chinfrudo na roda. Façam alguma coisa e serão agraciados... Disse.

                          Ninguém entendeu como o nome do Chefe Zé... Mané e da Akela Dozemir Pangu foi parar no Conselho Interamericano de Escotismo. Um dia apareceu um Comissário Internacional que se dizia chamar Dom Diego Pablo Sem Tustois e procurou primeiro o Prefeito Tunico Pança e o Distrital Dom Ruan de Lá Mánsia para informar que o Chefe Zé... Mané e a Akela Dozemir Pangu foram homenageado com a Medalha “Lobo de Bronze” aprovada pelo Comité Mundial.

                         Os chefes do distrito pasmados foram na região escoteira. Exigiram uma Assembleia Extraordinária para julgar o caso. O Presidente da região Pequeno Pinto Morto estava petrificado com a ira de todos. A Assembleia foi marcada. Presentes as Irmãs Carmelitas de todo o Estado. A chefaiada olhando ressabiado na primeira sessão ordinária no Palácio do Porco Gordo. Veio Presidente da CAN do DEN não, pois foram destituídos de suas funções.  O Comité Mundial da WOSM através do seu presidente Mister Moskity Dengatico apareceu sem ninguém esperar.

                         Aplaudido pelas irmãs Carmelitas pelo prefeito Tunico Pança e por milhares da população de Morro Cego Zé... Mané e Dozemita foram carregados até a mesa central da Assembleia e ovacionados como nunca se viu. O Padre Piquitito Crescente e o Pastor Depósito no bank fizeram questão de entregar pessoalmente aos dois sob as bênçãos do Presidente do Comité a ordem do Leão de Bronze. Não se sabe como alguém queria entregar também o Tapir, mas ele com vergonha do Leão se mandou para dentro da Jângal. Dizem que agora mora em uma caverna prateada as margens do Rio Waingunga.   

                       Pois é... Malandro é malandro e Mané é Mané já dizia o cantor poeta. Sei que Zé... Mané e Dozemita Pangu casaram logo após terem sidos eleitos prefeito e vice-prefeita da cidade de Morro Cégo. E continuaram escoteiros para sempre mesmo contra a vontade dos lideres distritais, regionais e nacional, pois tinham as bênçãos da Organização Mundial do Movimento Escoteiro e prometiam que nas próximas eleições Chefe Zé... Mané seria eleito presidente Mundial dos Escoteiros.

Nota - E lá no céu, um velhinho simpático de nome Baden-Powell aplaudia e dava suas bênçãos inglesas ao casal de brasileiros, pois ele sabia que a humildade não é ser pobre é ser digno. Ele até aconselho seu neto a doar Paxtu para eles. E saibam todos que Zé... Mané e Dozemita mesmo sem ter Insígnia eram dignos escoteiros que muitos deviam seguir! – Apenas uma história, sei que nenhum dos nossos chefes e dirigentes irão colocar o chapéu na cabeça. Rarará!  

terça-feira, 15 de maio de 2018

Contos ao redor da fogueira. O espólio do Escoteiro falecido.



Contos ao redor da fogueira.
O espólio do Escoteiro falecido.

- Verdade mesmo Chefe? – Dei risadas. Sempre me perguntam se é verdade. Afinal escoteiro não tem uma só palavra? – Bem respondi assim me contaram verdade ou não sei de muita gente que adora receber de herança um espolio de um Chefe Famoso, pois calcularam que com tantos anos de escotismo deveria possuir centenas ou milhares de badulaques escoteiros. Chefe Penha era famoso. Muito, dirigiu cursos, viajou para o exterior à custa da EB dezenas de vezes. Deveria possuir um espolio grande e ninguém sabia se ele iria doar ou não.

- Você deve ter conhecido o Chefe Ganzé. Vivia na casa do Chefe Penha. Onde ele fosse ele ia atrás. Ele era um autêntico Ajudante de Ordens do Chefe Penha. Fazia às vezes de secretário, de serviçal de campo, e nunca o deixou carregar peso. Era pegar a mochila e lá ia correndo o Chefe Ganzé. Cá prá nós, tem puxa saco prá tudo, mas ser puxa saco no escotismo e de doer! Não acha?

- Mas vamos ao finalmente, sei que você gosta sempre de ler o final da história, apesar de que o inicio sempre é a melhor parte. Chefe Penha tinha uma doença crônica de pulmão, parecida com a minha, mas diferente. Sua respiração aos poucos minguava, precisava de ar muito ar. Seus filhos compraram para ele um aparelho e pagaram a uma empresa para manter em sua casa um bujão próprio com oxigênio medicinal (02): O oxigênio com gás inodoro, incolor e próprio para estes casos. – Chefe Ganzé disse que seria responsável para não faltar.

- Mais dias menos dias Chefe Ganzé sabia que o Chefe Penha ia dessa para melhor. Claro era um autêntico Chefe escoteiro, cumpridor da lei escoteira e ajudou tanta gente que a UEB recebeu uma comenda do WOSM para ele. O único brasileiro com aquela medalha. Chefe Ganzé sonhava com uma ou até mesmo de menor valor. Sabia que não ia receber por vias legais, mas era declarante nato a ser o merecedor da herança do Chefe Penha. Dona Eulália gostava do Chefe Ganzé. Esposa do Chefe Penha tinha por ele uma amizade sincera.

- Chefe Ganzé passava horas na Sala Grande da Casa do Chefe Penha. Não era uma casa de ricaço, nada disso, poltronas de couro puídas com o tempo, uma TV de plasma usada que um dos seus filhos lhe deu. As noites ele lá estava a ouvir os contos do Chefe Penha. Adorava os contos, pelo sim pelo não ele era um admirador emérito do Chefe Penha. Sorria das aventuras escoteiras, sorria das viagens no exterior, na vivência com chefes de outros países. Chefe Penha tinha tudo para ser o Escoteiro Chefe, mas não foi.

- Verdade seja dita, a alta cúpula do escotismo em seu país não tinha por ele muito respeito. Ele sempre metido com suas ideias, com seu passado queria tolher tudo que eles faziam. A vida teve seu curso e um dia trabalhando na Prefeitura emprego que, aliás, foi o Chefe Penha que conseguiu para ele recebeu a noticia do falecimento do Chefe Penha. Saiu chorando. No seu íntimo o Chefe Penha era seu herói. Mas um desejo estava preso em seu cérebro: - O espolio do Chefe Penha. Ele sabia que não seria esquecido no inventário.

- Nem vou contar como foi o enterro do chefão. Gente que não cabia mais. Zito Gabiroba fez a festa. Vendia torradinhas, quebra queixo e doce de abóbora na porta do cemitério e naquele dia vendeu tudo e teve de ir correndo buscar mais em sua casa. No final da festa do defunto ele pediu a Deus que levasse para o céu ou para inferno esses chefões escoteiros. Aí sim ele iria se enricar! Dizem que chefões demoram a morrer, sei lá, mesmo sendo um chefinho meu dia está próximo para fazer a alegria do Zito Gabiroba e suas deliciosas goiabadas.

- Na segunda feira dona Eulália ligou para ele. – Chefe Ganzé, desculpe, sei que as feridas da morte do Penha ainda estão fortes no coração, mas ele no seu último suspiro lembrou-se de você e me pediu para entregar o Baú do “transato” (passado) para o senhor. Ele até riu quando disse que o Senhor foi seu melhor amigo e... Desculpe Chefe Ganzé, mas melhor não dizer o final do que ele disse. Chefe Ganzé entendeu. Prometeu passar lá no sábado, não queria mostrar seu sonho, seu desejo de ser o único herdeiro do espólio escoteiro do Chefe Penha.

- No sábado fez questão de postar a vestimenta. Chefe Penha detestava, só admitia o caqui curto, mas ele se sentia bem em colocar a camisa para fora, usar a calça curta amarrada com embira, pois ninguém ia dar falta do cinto mesmo com seu enorme barrigão. Deixou a barba crescer, sempre quis ser um grandão da Corte escoteira e a maioria adorava uma barba e camisa fora da calça. – Ao entrar e bater na porta agradeceu ao Chefe Penha por ser tão benevolente com ele.

- Esperando dona Eulália abrir a porta disse baixinho: - Chefe Penha vou sentir sua falta, mas olhe o senhor nunca me indicou para ser um figurão da UEB! Até minha Insígnia o senhor não aprovou. Entendo, não guardo mágoa. Portanto meu amigo desculpe, agora com seu espólio vou ser invejado por muitos chefes do Brasil e do mundo! Fez as honras mortuárias a família do morto, do defunto escoteiro que ele mesmo nem sabia se foi para o céu. Ele não acreditava muito no tal Grande Acampamento. Devia ser uma balburdia com tantos figurões. Nunca vou para lá se Deus quiser!

- Pediu emprestada a caminhonete do Zé das Dores para o transporte. Ficou decepcionado, apenas um bau e pequeno. Chegou em casa espavorido, levou o Bau para o porão abriu e viu umas medalhas, a medalha da WOSM um cinto dos novos, três diplomas e uma cartinha para ele do Chefe Penha:

- Querido amigo Chefe Ganzé. Sei do seu apreço e amor pela minha pessoa. Vou levar isso para o céu e abençoá-lo. Sei que me prometeu fazer tudo por mim, e agradeço. Peço a gentileza de devolver tudo nesse bau para a UEB e a WOSM, pois nada foi de graça, tiveram a pachorra de me cobrar e jurei nunca pagar. Para honrar meu nome, pague tudo e devolva. Do seu grande amigo, Chefe Penha!

Nota - Nunca conheci o Chefe Penha. Sinceramente nem sei se ele existiu. Mas quando em um Fogo de Conselho o Chefe Tomaz contou a historia todos deram belas risadas menos os escoteiros que foram para suas barracas em grupo com medo do falecido aparecer para que eles fossem imbuídos do seu espólio. Pelo sim pelo não eu achei bom par o Chefe Ganzé. Bem feito. Tomou papudo!

segunda-feira, 14 de maio de 2018

Ele? Farinelo um escoteiro.



Ele? Farinelo um escoteiro.

Foi escoteiro de uma tropa que tive a honra de chefiar “lá prús” interiores de Minas Gerais. Astuto, diplomático, hábil e inteligente em tudo que fazia. Mas era um curioso, um perguntador. Nada escapava em sua volta, podia-se dizer que era um escoteiro “Sempre Alerta”. Sonhava com a primeira classe o que não devia demorar.

- A reunião terminou cada um procurou o seu caminho de casa. Eu o último a sair passava a chave na sede quando ele se aproximou me perguntando:

- Chefe, quando vejo o senhor falar do passado, das tradições eu me impressiono. Será que eu também terei o meu passado como o do senhor? – Sua pergunta devia ser porque comentei durante a inspeção de abertura que a apresentação deve ser ponto de honra para nós escoteiros. Mas naquele sábado, sua Patrulha não conseguiu os pontos necessários para se classificar como Patrulha padrão.

– Olhei para ele. - Farinelo todos nós percorremos um longo caminho. Fomos de um mundo para o outro, que era praticamente igual ao primeiro esquecendo-se de onde viemos e não nos preocupando para onde vamos. - Não viva só o presente. - Chefe! O senhor bagunçou minha cabeça!

– Ah! Farinelo... Saiba que é fácil apagar as pegadas, difícil, porém, é caminhar sem pisar no chão. – Cada experiência é um degrau para o progresso da alma. Não fique preso ao passado. Aproveite agora esta nova vida no escotismo. “Dedique-se de corpo e alma, e verá surgir um novo Farinelo em sua vida”. As pessoas felizes lembram o passado com gratidão, alegram-se com o presente e encaram o futuro sem medo. 

- Farinelo sorriu e foi namorar Marilda que o esperava no portão da sede quem sabe nem se lembrando mais o que conversamos...

Nota - “Quando à corte silente do pensar, eu convoco as lembranças do passado,
suspiro pelo que ontem fui buscar, chorando o tempo já desperdiçado, afogo olhar em lágrima, tão rara, por amigos que a morte anoiteceu; Pranteio dor que o amor já superara, deplorando o que desapareceu. Posso então lastimar o erro esquecido, e de tais penas recontar as sagas, Chorando o já chorado e já sofrido, Tornando a pagar contas todas pagas. Mas, amigo, se em ti penso um momento, vão-se as perdas e acaba o sofrimento“. William Shakespeare.


domingo, 13 de maio de 2018

Estou a procura de um chefe escoteiro


Estou à procura...

... De um Chefe Escoteiro. Não precisa ter sido menino escoteiro de outrora, mas se for melhor. Isto, no entanto não é importante, pois se está começando sua conduta dirá se seria o Chefe escoteiro que procuro. Tem que ser um Chefe elegante, educado, que trate as pessoas com cortesia. Que tenha a palavra servir em tudo que fizer. Que siga os preceitos de São Francisco quando escreveu que é dando que se recebe que é perdoando que se é perdoado. Precisa ser um Chefe que respeita e assim pode ser respeitado. Quem sabe um Chefe que sabe o significado de lealdade, da palavra dada, de fraternidade que abraçou entregando seu coração ao escotismo e suas leis.

... Eu procuro um Chefe, pode ser homem ou mulher, não importa a idade a riqueza a cor ou sua origem. Que seja um líder um cavalheiro que traga segurança para que todos possam acreditar no seu modo de agir. Que tenha sempre um sorriso mesmo nas piores situações. Que traga conforto nas palavras e no exemplo para ser seguido pelos seus rapazes e moças. Que saiba motivar em todos os momentos da sua vida. Eu preciso de um Chefe, não para mim, mas para o escotismo que amo e que ele ame como eu, sem ser um fanático, sem fantasias ou místicas irreais.

... Eu estou à procura de um Chefe, que tenha um código de conduta, que leva a serio sua promessa escoteira e que a leve junto por toda sua vida. É necessário que ele seja verdadeiro, um escoteiro de caráter que se necessário daria sua vida pela honra, pela ética e pela sua palavra quando disse a todos ao redor que faria o melhor possível para obedecer a Lei do Escoteiro. Que ele seja útil a sua comunidade, que seja amigável, alegre e atencioso. Que seja cerimonioso sem ser fanático, que seja corajoso nas suas atitudes e não na sua força.

... Não sei se encontrarei um Chefe assim. Econômico sem ser sovina, que seja limpo de corpo e alma. Procuro nas ruas nas praças, nas casas, nos apartamentos nas fazendas sítios e ou nas esquinas da vida, um Chefe, que seja escoteiro, que faça vibrar seus amigos e irmãos de menor idade. Que deite no chão, que role com eles na terra na grama ou no barro, que cante, que não reclame e que saiba que está ali para servir e não ser servido. Um Chefe que se preciso fique sem comer para que os jovens nunca tenham fome...

- Eu procuro... Eu busco, estou a rastrear se existe um Chefe assim. Não precisa ter comendas, medalhas, insígnia e o escambal. Basta ter um sorriso franco, que só de olhar conquista corações. Que sem agradecer ofertas de cargos, pois sua labuta e formar jovens e que seu apostolado não seja perdido nas teias da jactância, no esnobismo, na insolência e presunção. Afinal eu procuro um Chefe Escoteiro, é tão difícil encontrar alguém assim?

- Desculpe, sem fotos. Ainda não tenho um perfil do Chefe que procuro quem sabe você pode me ajudar?

Lendas Escoteiras. Um Escoteiro tem uma só palavra...



Lendas Escoteiras.
Um Escoteiro tem uma só palavra...

                Lito Galante olhou para sua mãe. – Mãe, antes de o seu dia terminar eu estou de volta. Mercedes olhou para ele pensativa. – Filho não falte, acho que será meu último dia das mães! Lito Galante com sua pose de chefão resmungou: - Mãe não fale assim, vai viver muitos e muitos anos. Mãe eu sou escoteiro, e o escoteiro tem uma só palavra! – Lito havia combinado com Tadeu e Morato para uma jornada até o pico do Gavião. Uma pedra em frente a sua cidade que encantava a todos. Muitos que gostavam de Voo Livre eram frequentes. Grandes campeonatos ali se realizavam.

                Lito Galante era um apaixonado pelo esporte. Fora do Escotismo que praticava desde criança e agora adulto e atuando como Chefe, ele amava esse esporte radical que utiliza as térmicas (atividades térmica e do vento na camada limite atmosférica) para realizar seus voos. Eles iriam de carro, pois uma estrada serpenteando a montanha os levava até próximo ao cume. Tadeu também iria pular e Morato ficou encarregado de ir busca-los em seu destino, uma cidade próxima há quarenta e seis quilômetros de distancia.

                Eles faziam isso a cada trinta dias. Lito tinha bons monitores e as patrulhas antigas tinham condições de realizarem suas tarefas independentes da chefia. No sábado anterior repassou com eles em Corte de Honra tudo que seria feito.  A Patrulha Águia já havia programado um acampamento no Horto Florestal. João Colosso o administrador fora escoteiro e nunca negou acampamento, pois sabia que os escoteiros fazem questão da segurança e a preservação ambiente.

                A Pica Pau e Morcego iam pela manhã de sábado fazer um adestramento de medidas de distância altura e iriam montar um croqui até Serra Queimada onde muitos escoteiros se perderam. Só a Quati ficaria na sede. Eram a Patrulha de serviço do mês e queriam mudar o estilo das mesas armários e o almoxarifado. Sempre atrás dos pontos que poderiam fazer deles uma Patrulha padrão. Lito Galante orgulhava dos seus escoteiros. Tinha plena confiança e nunca foi decepcionado. Partiu tranquilamente para o Monte do Gavião.

                 Abraçou sua mãe chorosa e sem perceber quase cancelou a ida deles. Sentia uma intuição estranha. Até o pico tudo normal. Tadeu pulou, ele despediu de Morato e saltou. Ele amava aquilo. O vento, a altura, a beleza da terra aos seus pés era demais. Sentiu que sua asa delta fora danificada. Algum pássaro que não teve como desviar. Um vento forte subindo o rio o pegou de jeito. O elevou nas alturas e só quatro horas depois ele tentou um pouso forçado.

                Lito Galante não sabia onde estava. O pouso não foi perfeito. Ele viu que seu joelho havia se quebrado. Improvisou uma tala com madeira seca e seu lenço. Doía demais. Meio dia. O sol a pino. Ele em uma ravina de difícil acesso. Dificilmente Morato iria conseguir encontrá-lo. Pensou na sua vida, pensou na promessa que fez sua mãe. No ano anterior foi acampar e não ficou junto dela no seu dia. Ela chorou quando ele chegou de madrugada. Ele chorou também.

               Era sábado, quem sabe seria achado antes do escurecer. Duas honras da tarde, três, quatro cinco e o sol se pôs atrás de uma montanha desconhecida. Lito Galante sempre foi escoteiro. Deveria estar preparado para este tipo de acidente. Não estava. Nunca acreditou que o pior aconteceria com ele. Escureceu. Enrolou-se no tecido da asa delta que de tão bem colocada foi difícil de cortar. Um frio enorme. Sem isqueiro sem fósforos andar um sacrifício. Achou que ia morrer.

                Não dormiu. Insetos que ele achava conhecer o incomodavam. Ruídos no capim ruídos que ele não conhecia e um rugido que o fez tremer. Afinal ele pensou escoteiros não deviam estar preparados? Ele não estava. O sol apareceu no horizonte. Viu que eram seis da manhã. Um ruído de um helicóptero o pôs alerta. Fez sinal pousaram perto. Homens da equipe de salvamento o levaram até o hospital da cidade. Medicado enfaixado e entalado (risos) recebeu alta.

                Na porta de sua casa uma multidão e sua tropa escoteira. Tinha amigos muitos. Carregaram-no até a sala onde sua mãe o esperava. Olho no relógio, onde da noite. Levantou pulando em um só pé foi até ela. Abraçou, beijou, com lágrimas escorrendo pediu perdão. Nunca mais mãe, nunca mais. Palavra de Escoteiro. Sua mãe sorriu. Palavra é fácil de dizer, mas nem sempre serão cumpridas. Pode haver um pormenor e com ele aconteceu.

                 Quando foi dormir fez uma prece agradecendo a Deus por tudo que aconteceu. Uma lição. A vida nos reserva surpresa. Como dizia o Chefe Monfaz, nunca prometa nada, diga sempre que vai fazer o melhor possível e procure fazer, mas não prometa! Afinal prometer é ponto de honra dos escoteiros. Deixar de cumprir é faltar com a palavra e nós nunca devemos faltar.

Nota - Lei escoteira é um código de conduta, assumido ao se realizar a Promessa escoteira, onde se retêm as principais características do movimento escoteiro. Um escoteiro é verdadeiro. Um escoteiro é leal. Um escoteiro é útil. Um escoteiro é amigável. Um escoteiro é alegre. Um escoteiro é atencioso. Um escoteiro é econômico. Um escoteiro é corajoso. Um escoteiro é respeitador. Um escoteiro é limpo de corpo e alma. E você? Tem feito o melhor possível para ser um escoteiro?

sábado, 12 de maio de 2018

Lendas Escoteiras. O último Guerreiro Tapuia.



Lendas Escoteiras.
O último Guerreiro Tapuia.

                    Otanka era um índio. Olhos negros, cabelos negros agora cortado curto. Ele não gostava. Usava comprido, mas seu pai disse que agora deveriam parecer com os homens brancos. Nas margens do Rio Pardo próximo ao Rio Doce, ele contou para a Patrulha Lobo que era um descendente da Tribo dos Aimorés. Hoje não mais se considerava um índio Tapuia. Não tinha história para contar. – Vado foi o pai do meu pai quem contou o nosso valor. Nossa tribo habitava um pedaço de terra as margens do Rio São Francisco. Vivíamos em guerra com os tupinambás e os tupiniquins. Quando perdemos uma delas fomos obrigados a nos emigrar para o sertão.

                    Quando ele me disse que eram no passado altos e robustos, de pele clara, pois só andavam no interior da selva quase duvidei. Otanka era magro, raquítico parecia estar sem comer a dias. Era um acampamento de quatro dias. Só a Patrulha Lobo. Naquela época podia hoje não mais. Pretendíamos descer o Rio Doce por uma balsa que fizemos por uns dez quilômetros desde a ponte de ferro da Estrada Vitoria Minas até Resplendor. Fumanchu estava terminando o jantar quando o vimos em um Kaiki aportando próximo onde estávamos.  

                    - Ouve uma época Vado que vivíamos peregrinando pela floresta, sem casa, sem conforto sem agasalho. Dormíamos no chão e quando chovia corríamos para as copas de árvores verdejantes. - Ele comia em um prato esmaltado que Darci deu a ele. Olhou para Fumanchu quando encheu seu prato novamente com uma sopa de beterraba colhida na beira do rio e disse obrigado. Estava mesmo com fome. Repetiu três vezes.

                    - Sabe Vado um dia nos dispersamos. Kokum o pagé explicou e quase ninguém entendeu que chegava o nosso fim. Já não havia caça, frutos silvestres pela selva. Andávamos pela mata tentando encontrar nosso alimento e até a pesca estava difícil. Mantínhamos nosso espirito guerreiro. Otanka passou os olhos em todos da Patrulha, admirou Tãozinho tão raquítico como ele e sorriu. Sei que não sou um bravo nunca fui. Se antes nosso espírito guerreiro era fazer a guerra hoje não mais.

                     - Sabem... Nas guerras não tínhamos Chefe, nem borés, nem trocanos, nem guerreiros procurando lutar frente a frente. Pelejávamos rastreando pela mata como sáurios, armando emboscada em pequenos grupos. Se algum de nós caíssem prisioneiros recusávamos a comer. Melhor morrer seja de fome ou talvez pela saudade da vida liberta que levávamos. Meu pai contou que empurrados pela expansão da civilização dos brancos passamos a ser conhecidos como botocudos.

                       - Nos chamavam assim porque usávamos grandes pedaços de pau confeccionados por nós mesmos nos lábios e na orelha. Alguns de nós se separaram e formaram etnias – Os Pojixá, os Jiporok, os Naknenuk e tantos outros. Meu pai Borô que o Grande Espírito o tenha, disse que nos tornamos Krenak e terminamos nossos dias ao norte deste seu estado. Não usamos mais os botoques. Meu pai me ensinou nosso dialeto que nunca esqueci. Éramos religiosos, tínhamos um contato frequente com o mundo dos espíritos.

                        A Patrulha sentada em volta do fogo admirava a história de Otanka. Eu mesmo me lembrei de Aplanã que nunca teve filhos. Dizem que ele foi uma lenda, sabia conversar em Macro-Jê, Tui e Arauak. Contava que Namuré um valente guerreiro corria pelos céus como um raio flamejante a muitas mil luas atrás. Ele era respeitado em sua tribo. Não tinha medo... Nunca teve. Sabia que um dia iria voltar para as Terras Bravias dos seus ancestrais. Ele dizia que era o fim dos Botocudos. O homem branco agora mandava e não ligava para aqueles que eram donos de sua terra.  

                      - Otanka tinha os olhos rasos d’água.  - Meu pai Vado foi um herói e morto por uma flecha invisível que atingiu seu coração. Minha mãe Marét-Jikki saiu pela selva e nunca mais voltou. Eu olhava para ele sem ter o que dizer. Sabia que ele não teria um novo dia, nem uma réstia de sol. Só as brumas e as tempestades nas terras que não eram mais suas.

                           - Hoje um sábado me lembrei dessa história. Otanka partiu já com os raios do sol nascente. Era hora de partir para nosso destino. O campo foi desarmado. A brisa daquela manhã acariciava meu rosto. Mais um dia na minha vida escoteira. Dias soturnos escuro tristonho e silencioso para Otanka. Nunca esqueci seu olhar para a Patrulha quando contou que sua família foi morta por cães especialmente treinados na caça aos Botocudos. Eles Vado se alimentação com a carne dos índios assassinados!

                         - Quantas vezes atravessei o Rio Doce, o rio Pardo o das Velhas e o São Francisco? Quantas vezes encontrei índios esfarrapados, sem casa sem terra vivendo de uns míseros tostões que o país lhes davam através da FUNAI? Quantas vezes ouvi meu lado mau dizendo: - Desista Chefe, este mundo não é mais o seu. Eu desistir? Se caio levanto, se ando um passo atrás sempre direi: - Eu voltarei! Como foi que Otanka disse quando partiu?

                          - “Adeus amigos, obrigado pela refeição. Estarei com vocês em todas as horas e em todos os momentos. Pensem em mim quando precisarem de ajuda”. Otanka colocou seu chapéu de palha amassado, abotoou a gola da camisa, amarrou sua bota negra e alçou sua mochila velha nas costas. E em seu simples Kaiki atravessou as águas tranquilas do Rio Doce levando consigo as saudades de uma Patrulha que nunca mais o esqueceu!

- Nota – Muitas das minhas histórias são tiradas da imaginação. Outras não. Conheci nas minhas andanças no Vale do Rio Doce, Jequitinhonha e São Francisco dezenas de índios. Fiz amizade com alguns, outros foram escoteiros e um deles me disse um dia: - Vado, um dia quando crescer você pode até desejar ser um Chefe, mas primeiro terá que aprender a ser índio!